Booktailors
info@booktailors.com

Travessa das Pedras Negras

N.º 1, 3.º Dto.

1100-404 Lisboa
(+351) 213 461 266

Facebook Booktailors
Twitter Booktailors

FourSquare Booktailors



Facebook Bookoffice


Editoras Nacionais
Livrarias Nacionais
Livrarias on-line
Editoras Brasileiras
Imprensa Brasileira
Blogosfera Brasileira
Eventos no Brasil
Imprensa Internacional

Associações e Institutos de Investigação
Feiras internacionais
Sex, 30/Nov/07
Sex, 30/Nov/07
A entrevista abaixo foi publicada na Meios e Publicidade, do passado dia 16.11.2007, nas páginas 24 e 25, da referida revista. A entrevista, conduzida por Rui Oliveira Martins, tem como título uma citação da directora de Marketing, Teresa Figueiredo – “O marketing tem uma importância estratégica”.

Com 52 lojas, a Bertrand pretende abrir todos os anos quatro a cinco lojas para reforçar a sua presença nacional. Há dois meses à frente do marketing, Teresa Figueredo explica a estratégia da marca.

Após passar 12 anos na Lever, onde trabalhou a produtos pessoais e detergentes e de cinco anos no marketing para empresas da PT Comunicações, Teresa Figueiredo assumiu há dois meses o marketing das livrarias da Bertrand. A reabertura, com novas funcionalidades na loja das Amoreiras, é o pretexto para analisar a estratégia da marca, que detém 52 lojas, das quais 44 estão localizadas em galerias ou centros comerciais.



Meios e Publicidade (M&P): Na próxima segunda-feira vai ser apresentado um novo conceito de lojas nas Amoreiras. Em que vai consistir?
Teresa Figueiredo (TF): As Amoreiras representam uma mudança no conceito de loja e de espaço, já que vai ser aberta para fora e a área de crianças passou para a frente da loja e é mais interactiva. É ainda uma loja emblemática pela sua localização. As Amoreiras vão manter os serviços que tinham antes, mas o espaço vai ser duplicado e a vivência da loja vai mudar muito. Vamos ter espaço para as pessoas estarem sentadas. Todo o espaço é muito agradável e na óptica de estimular a presença na loja. O shopping das Amoreiras representa nos tempos modernos um ponto de confluência de Lisboa. Já temos outras lojas modernas e com boa área, como as do Vasco da Gama e das Antas.

M&P: Este conceito será alargado a mais espaços?

TF: Temos estado a modernizá-las. Obviamente cada vez que abro uma loja nova introduzo mais algum factor de modernidade.

M&P: Até que ponto a compra da Bertrand por parte da Bertelsmann está a condicionar esta mudança nas lojas? Que know-how internacional é que está a ser utilizado?
TF: Com o ritmo a que temos aberto as lojas no passado, acreditamos que temos um know how próprio. A Bertelsmann veio dar força a esta visão e a este ritmo de abertura. Foi mais um esforço do que ter trazido know how.

M&P: Qual é que está a ser o ritmo de abertura de lojas?
TF: Estamos a caminhar para uma cobertura nacional representativa. Queremos abrir quatro a cinco lojas por ano e estamos a fazer as remodelações necessárias em lojas mais antigas, que precisam de um refresh e de adoptar essa linguagem. Em alguns casos podem acontecer trocas. Se estou com uma área pequena numa zona ou num centro comercial posso trocar de sítio ou fazer, como nas Amoreiras, a aquisição de uma loja ao lado. Haverá aberturas, remodelações e expansões sempre que façam sentido.

M&P: Mas afinal o que une lojas com tamanhos e características tão diferentes? A do Vasco da Gama tem café, a das Amoreiras vende jornais e revistas e as de Braga não têm nenhum destes serviços complementares.
TF: Ter café ou não, depende da área envolvente. Nas Amoreiras há muitos pontos de café. No Vasco da Gama tornou-se essa opção e corre bem, mas o primeiro critério é o espaço disponível, mas pode haver outras razões. Em relação ao press center, nas Amoreiras havia espaço para isso, enquanto no Vasco da Gama não.

M&P: Ter um café numa loja ajuda às vendas?

TF: Em princípio, sim. Tudo o que leva as pessoas para as lojas, o que as leva a permanecer e o próprio display dos livros potenciam um acto de compra posterior. Em termos de retalho, o que ambicionamos, é ter capacidade de atracção e de retenção das pessoas dentro da loja. A partir daí cabe-nos induzir um acto de compra, mas o primeiro factor é fazer as pessoas entrar na loja. Num espaço como um centro comercial, onde as pessoas muitas vezes frequentam numa óptica lúdica e entram em duas ou três lojas para se distraírem, tudo é pensado para atrair as pessoas.

M&P: Num espaço tão concorrencial como os centros comerciais, o que faz para conseguir chamar as pessoas?
TF: Há os básicos não tangíveis. Todo o aspecto da loja, em termos de arquitectura e design, tem de atrair as pessoas para dentro da loja. Cito o exemplo da Zara, que não faz eventos, publicidade, nem dá chocolates dentro da loja, mas onde toda a estética é simpática e clean. E isso funciona. As pessoas entram na loja só para dar uma volta e saem com uma peça. No nosso caso e nos nossos produtos, tem de haver cuidado em trabalhar zonas quentes e zonas frias para que nas zonas quentes estejam os produtos adequados que levem as pessoas a entrar. Ali têm de estar as novidades, os livros mais vendidos, que devem estar em zonas de grande visibilidade. Depois todas as coisas de serviços, como café, Internet, levantamento de bilhetes ou press center, podem ser geradores de tráfego. Há também um aspecto de eventos que podemos trabalhar, como sessões de autógrafos, lançamentos de livros, actividades para crianças, que levam as pessoas para dentro das lojas e as faz permanecer. Uma coisa que não tem sido feito, e que pode ser interessante, é fazer experiência cruzadas com outros sectores, por exemplo, degustações de um novo vinho, um lançamento de perfumes ou eventos com os media.

M&P: Quem é o cliente tipo da Bertrand?
TF: Temos o cartão leitor Bertrand que nos dá alguma informação sobre esse perfil. Temos perfis heterogéneos, mas posso dizer, como curiosidade, que as mulheres compram mais do que os homens.

M&P: Quando a Bertelsmann comprou a Bertrand foi anunciada a expansão para Espanha. Em que ponto está este trajecto?
TF: Espanha já tem lojas abertas e tem um plano de expansão, mas é um projecto autónomo, que não está integrado na nossa estrutura. Portugal fez um trabalho de consultoria e ajudou no lançamento do conceito, abertura de lojas e exposição, mas não tem responsabilidade de gestão.

M&P: A entrada da Bertelsmann alterou a sua forma de comunicar?

TF: Não estava cá antes, mas é óbvio que alterou. Quando há um grupo multinacional há sempre algo que se altera. O grupo entrou na Bertrand com o foco de gerar crescimento. Em termos de comunicação, há enfoque no marketing e uma clara consciência de que o marketing tem de ser um Sales driver, trabalhando a loja para que a experiência em loja seja o mais rica possível. Dantes não estava a ser tão estrategicamente trabalhado. Há um passo em frente, com este reconhecimento de que o marketing tem uma importância estratégica na empresa.

M&P: Antes desta entrevista, falei com algumas pessoas sobre a Bertrand que disseram que a imagem de livraria de fundo de catálogo estava a desaparecer, para se transformar em ponto de venda em centros comerciais. É esse o caminho?

TF: Não. É continuar a ter uma oferta abrangente e alargada em termos de cobertura de diversos segmentos. O que nos diferencia, de facto, é o serviço, o conhecimento livreiro e a capacidade de ter uma oferta ampla. Mas existe também outra dinâmica de mercado. Há 10 anos não existia essa excitação e movimentação em relação às novidades que estão a sair, ao “reserve já”, ao “seja o primeiro a ler o último livro do Harry Potter ou do Sousa Tavares”. Todo este movimento dá dinamismo ao mercado e alegria às lojas. Como reflexo disso, temos de dar espaço de exposição às novidades e reflectir uma orientação para o consumidor.

M&P: O core business da Bertrand serão sempre os livros?
TF: Sim. O nosso core continuam a ser os livros, mas a Internet é um canal de vendas que não podemos ignorar. Sendo que o nosso core são os livros e o retalho, nunca trabalharei para montar uma operação Internet que concorra com as lojas ou venha a ter o domínio. Mas quero trabalhar a Internet porque para os clientes é importante ter essa alternativa. Por isso, quero fazer uma aposta séria, mas o meu foco e preocupação em termos de encontrar novos conceitos serão concentrados nas lojas.

M&P: Qual a percentagem de vendas na Internet?
TF: É residual. Até porque não estamos a trabalhar o site activamente. Temos um projecto para o próximo ano, para reactivar o site, mas sempre numa óptica de que será algo complementar.

M&P: Que sinergias existem com o Círculo de Leitores, já que pertencem ao mesmo grupo?
TF: O facto de termos o shop in shop mostra que existem sinergias e uma visão de que podemos beneficiar daquilo que ambos temos. Existe uma visão clara de sinergia. O shop in shop são as lojas Círculo que estão dentro das lojas Bertrand, onde são angariados sócios para o Círculo. As pessoas podem tornar-se sócias sem esperar que um agente bata à porta. Em termos de angariação, o Círculo está a apostar em novos caminhos. Para a Bertrand é óptimo porque a partir do momento em que alguém vai ao shop in shop está nas nossas lojas e isso é sempre positivo.

M&P: Quantos pontos do Círculo serão instalados na Bertrand?
TF: Tantos quantos forem possível, assim que a dimensão das lojas o permita. Nas lojas mais pequenas pode não fazer sentido.

M&P: Afinal, a Bertrand é uma loja ou uma livraria?
TF: Depende de como entendemos livraria. Se sinónimo daquele sítio pouco envolvente, com teias de aranha e pouco excitante, a Bertrand não é uma livraria. Agora, a ideia de livraria não tem de ser negativa, é uma loja onde vendo livros e tenho um ambiente agradável. Somos uma loja no sentido em que vendemos livros. Mas face ao passado, somos uma livraria no sentido de divulgar os livros e de ter como missão fazer chegar os livros a todo o lado e de divulgar os autores e a leitura. Dizer que somos apenas uma loja seria redutor.


por Booktailors às 10:56 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sex, 30/Nov/07
Continuamos a publicar o destaque do Público de ontem. O primeiro post deste extenso artigo do Público de ontem pode ser encontrado aqui. Hoje publicamos um texto de Nuno Amaral, que tem o título "No país sem consoantes mudas espera-se por Portugal para avançar".

«
Em teoria, as alterações previstas já transbordam para o quotidiano do Brasil. No plano das intenções, o país com 187 milhões de pessoas a falar português queria formalizar a entrada em vigor do Acordo Ortográfico já em 2008. E deu sinais nesse sentido. O desaparecimento do trema, por exemplo, foi decretado no final do ano passado. A extinção dos dois pontos em cima do "u" é um dos indícios dessa vontade. Na prática, o Brasil está à espera. O léxico diplomático ajuda a ocultar alguma saturação com os impasses do outro lado do Atlântico.

"A gente quer marchar com Portugal. E não avançar sem ele, isso não faria sentido", disse ao PÚBLICO Godofredo Oliveira Neto, que preside ao organismo responsável pela concretização do acordo, a Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip).

O Brasil podia já ter avançado, uma vez que o acordo já foi ratificado por mais de três países, limite mínimo estabelecido pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)." Diplomaticamente, nós reavaliámos a situação e constatámos que o acordo, que era algo para unificar a ortografia, já nasceria desunido, se o acto de adopção fosse isolado", vinca.

A classe académica é mais contundente na reacção. "A indefinição de Portugal está a emperrar todo o processo. Não se percebe e não quero admitir que os adiamentos sejam motivados pelos receios de "brasileirização" da língua", solta Emerson Inácio, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo. As editoras preparavam-se para avançar com as alterações em Dezembro, final do período lectivo no Brasil.

O impasse é, então, político. Recentemente, o ministro das Relações Exteriores do Brasil evitou responder se o país avançaria sem Portugal. Sintetizou apenas o sentimento que povoa alguns sectores "Seria muito importante, do ponto de vista editorial, que Brasil e Portugal estivessem juntos quando se formalizar a adopção do Acordo Ortográfico", referiu. Na maioria dos casos, os membros do Governo de Lula da Silva evitam o tema.


"Oi?"
Pelas ruas do Rio de Janeiro, apenas com algumas excepções, as perguntas esbarram num invariável "oi" interrogativo. "Acordo quê?" Ou "Ah sim, aquilo da escrita, não é?"

Alberto Fonseca sabe do que se fala. "Se for para melhorar, para pôr tudo igual, acho muito bem", atira do balcão da lanchonete que possui junto à Praça da Cinelândia, no centro do Rio. "Outro acordo?", pergunta o taxista Adilson Costa. "Eu só não sei é para quê, falamos todos português. Só muda o sotaque."

A percepção (perceção), e o próprio vocabulário ganham outra espessura na zona sul da cidade. Nos bairros de Ipanema, Copacabana e Leblon o tema é familiar. "É uma bobagem essa ideia utópica de que o acordo vai transformar o português numa língua de relações internacionais", reage o médico Adalberto Iguateri. "Se era para mexer, deviam ter ido mais longe, é uma reforma acanhada", reforça. Sentada numa das esplanadas de Copacabana, Alice Dias folheia um livro. "Você sabia que o Saramago não necessitou ser "traduzido" para ser um best-seller no Brasil. Nem a outra senhora mais nova..." Concluiu-se que falava de Inês Pedrosa. "Eu acho muito bem, a língua é um património comum, deve unificar-se na forma escrita. Depois, pode ter vários sotaques." Alice Dias já foi professora, mas de Biologia.

Amiúde, o embaixador português Francisco Seixas da Costa participa em programas de televisão e escreve artigos de opinião sobre o assunto, desvalorizando o atraso e criticando alguma dramatização, "como se uns anos a mais ou a menos na conclusão de um texto trouxessem algum mal ao mundo, que viveu sem ele até agora", escrevia em Setembro (setembro) no jornal Estado de São Paulo.


O dedo no horizonte
Além do moribundo trema, a reforma acaba também com os acentos de "vôo", "lêem", "heróico". E premeia a semântica brasileira, que vê a extinção do "p", em prática no país, instituída.

Pequenas mudanças, vinca o também escritor Godofredo Neto. Mas com grande simbolismo, acrescenta. "São inúmeras as vantagens que advêm da efectiva (efetiva) adopção das normas já acordadas. Em primeiro lugar, a promoção e a funcionalidade do uso da língua portuguesa nos fóruns internacionais, por exemplo." Neto diz que não se cansa de alertar para a vacuidade dos "velhos do Restelo" da língua portuguesa. "A unificação ortográfica não atenta contra a variedade da língua oral, nem contra a riqueza das manifestações culturais que a língua veicula."

Emerson Inácio concorda. Acredita que a sala de aula será o melhor laboratório. "Não tenho dúvida de que, quando a nova ortografia chegar às escolas, toda a sociedade vai acompanhar as mudanças. Vai levar tempo, como ocorreu com a reforma ortográfica de 1971, mas ela entrará em vigor gradualmente."

O pior são os custos. Os editores consideram-se os perdedores do acordo. Estima-se que o custo médio de revisão de um livro possa atingir os cinco mil reais (18 mil euros). "A minha editora é pequena, mas vou ter de gastar um balúrdio. Espero é que a reforma venha para ficar", disse ao PÚBLICO Jerson Andrade, da editora Estandarte, do Rio de Janeiro.

Para atenuar os receios causados por estas consequências, o presidente da Colip aponta para o horizonte. "Vai exigir ginástica, vai implicar investimentos, mas é um legado que deixamos à história. Afinal, somos a terceira língua mais falada do mundo ocidental." »


por Booktailors às 10:50 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Qui, 29/Nov/07
Qui, 29/Nov/07

Reproduzimos aqui o destaque de hoje do Jornal Público, páginas 2 a 4, dedicado ao acordo ortográfico. A peça foi elaborada por Alexandra Prado Coelho.

«Catástrofe", um "favor ao Brasil" ou uma oportunidade?

"Os brasileiros têm um problema, nós não. Isto é um favor que a diplomacia portuguesa está a fazer à brasileira, e é triste que a língua sirva de moeda de troca" Vasco Teixeira, editor português

Passaram-se 17 anos e o Acordo Ortográfico entre os países de língua portuguesa - que, segundo anunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, vai ser ratificado até ao final do ano, com uma moratória de dez anos para a entrada em vigor em Portugal - continua tão polémico como sempre.

É "catastrófico no plano científico, económico e geoestratégico", garante o escritor e tradutor Vasco Graça Moura sobre este esforço para aproximar as grafias usadas por um lado por Portugal, os países africanos e Timor da grafia usada pelo Brasil. Resulta de "uma falta de visão estratégica", diz Vasco Teixeira, presidente da Porto Editora. É "bom para todos", defende o escritor José Eduardo Agualusa. É, essencialmente, "uma questão política", afirma o linguista Ivo Castro.

Desde o anúncio de Luís Amado que muitos portugueses se interrogam sobre as razões que levaram a despertar o acordo que parecia adormecido desde 1990. A verdade é que não estava tão adormecido como isso - em 2006 Cabo Verde e São Tomé ratificaram-no, juntando-se assim ao Brasil. Isto significa que já existem as três ratificações necessárias para que o acordo entre em vigor imediatamente nesses países, o que fez aumentar a pressão sobre Portugal para que ratificasse também.


O que farão os africanos?
A grande incógnita depois é o que farão os restantes países - Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste. E não é uma questão secundária. Ivo Castro avisa: "Se Portugal aderir sem previamente se assegurar que os restantes aderem, estará a romper a união ortográfica com Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor. Não sei até que ponto isso é compensado pela hipótese de uma união ortográfica com o Brasil." O linguista está convencido de que "Angola é o país que menos interessado está na ortografia".

Opinião diametralmente oposta é a de Agualusa, que não compreende "a oposição que tem havido em Portugal ao acordo". O escritor angolano, que vive entre Angola, Portugal e o Brasil, acha que "para um país como Angola é muito importante aplicar o acordo, porque este vai fazer aumentar a circulação do livro e facilitar a aprendizagem e a alfabetização, que é, neste momento, a coisa mais premente para Angola e Moçambique". Defendendo que, "se Portugal não quiser o acordo, então Angola deve avançar e Portugal fica isolado", Agualusa mostra-se convencido de que, "se o Brasil avançar, Angola não vai demorar muito tempo".


O mercado do livro escolar
Neste momento, em Angola o processo está a ser estudado pelos ministérios da Educação e Relações Exteriores, após o que terá que ir a Conselho de Ministros e ao Parlamento para aprovação, disse ao PÚBLICO o adido de imprensa da embaixada em Lisboa, Estevão Alberto - informação que confirma que, pelo menos, o acordo não está "adormecido".

Uma das questões centrais de todo este debate é fácil de perceber: os países africanos de língua oficial portuguesa, sobretudo Angola e Moçambique, são importantes mercados para os livros (os escolares, em primeiro lugar), que neste momento são fornecidos por Portugal. Um acordo ortográfico deixaria o Brasil numa situação muito mais favorável para entrar nesses mercados.

Vasco Teixeira, presidente da Porto Editora (que, juntamente com a Texto Editora, fornece a maioria dos manuais escolares a Angola e Moçambique), admite que essa questão é importante, mas julga que "as editoras [portuguesas] nalguns casos até poderão ganhar". Contudo, o que está em causa "não é um problema de negócios", mas sim "uma visão estratégica para a língua portuguesa". E sublinha: "Os brasileiros têm um problema, nós não temos. Isto é um favor que a diplomacia portuguesa está a fazer à brasileira, e é triste que a língua sirva de moeda de troca entre diplomacias."

O acordo "abre a porta ao Brasil nos países africanos, onde até agora não conseguiram entrar", diz Vasco Graça Moura. "Isto serve para beneficiar a indústria editorial brasileira. Como eles já têm tudo adaptado ao acordo, assim que entrar em vigor avançam imediatamente. Nós já temos uma edição pelas ruas da amargura e vamos ficar com ela pior." As alterações no Brasil afectam apenas 0,5 por cento das palavras e em Portugal 1,6 por cento.


Aproveitar o Brasil

É tudo uma questão de saber aproveitar as oportunidades, contrapõe Agualusa, para quem o acordo abre a Portugal o mercado brasileiro. "Uma das áreas em que Portugal é muito superior ao Brasil é na dos livros para crianças, só que não investe nisso." Além disso, "80 por cento dos livros no Brasil ficam no Rio de Janeiro e em São Paulo", o que deixa todo o resto do país de 180 milhões por explorar.

Para ser aprovado, o acordo tem ainda que passar pelo Conselho de Ministros e pelo Parlamento. A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, disse na terça-feira que o seu ministério, em conjunto com o da Educação, defenderam a moratória de dez anos, que foi aceite pelo MNE, "para proceder à sensibilização dos editores" e preparar a introdução do acordo nas escolas.

Ninguém sabe exactamente (o PÚBLICO pediu essa informação ao Ministério da Educação, mas não recebeu resposta em tempo útil) quando é que o acordo começará a ser aplicado nas escolas, mas a moratória de dez anos visa precisamente evitar os custos da substituição imediata dos manuais escolares.

Mas o que acontecerá, se, de repente, os países que ainda não ratificaram decidirem acelerar o processo e adoptar a nova grafia num prazo mais curto que os dez anos? "Se isso acontecer", disse Pires de Lima, "Portugal reverá a sua posição e procurará ser mais célere."


Amanhã, retirado ainda deste destaque, publicaremos um artigo de Nuno Amaral (Rio de Janeiro) e posteriormente o balanço de argumentos a favor e contra o acordo ortográfico, bem como uma pequena súmula de alterações que se vão verificar.


por Booktailors às 16:31 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Qui, 29/Nov/07
O Blogtailors sempre publicou e respondeu a comentários anónimos, desde que os mesmos tenham sido estruturados de forma construtiva, com o intuito de dialogar e ajudar a resolver os problemas do sector. Por esse motivo, e devido a vários comentários menos construtivos que têm sido colocados, a Booktailors vem reafirmar a sua posição, e evidenciar a possibilidade de recusar comentários com tom injurioso ou contrários aos princípios que tem tentado fomentar.

Etiquetas:

por Booktailors às 15:17 | comentar | partilhar

Qui, 29/Nov/07
Publicado hoje, na Visão, sob o título 'Araújo Pereira leu a crítica de Pulido Valente e não gostou', página 162. Um artigo de Ricardo Araújo Pereira, dos Gato Fedorento.

Quem lamenta que a crítica literária já não tenha espaço nos jornais teve esta semana uma pequena alegria: o Público decidou quatro páginas inteiras à critica de Vasco Pulido Valente ao mais recente romance de Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores (Oficina do Livro, 627 páginas, dois quilos e trezentos). A razão de a alegria ser pequena é esta: Pulido Valente não é exactamente um crítico literário, nem se pode chamar crítica literária àquilo que ele escreveu. Mas sempre foi melhor que nada.

Talvez seja bom enquadrar o caso. Enquanto crítico literário, Vasco Pulido Valente é conhecido por gostar muito de Eça de Queirós e do Adeus, princesa. Como escritor, Sousa Tavares ficou célebre por ter escrito Equador (Oficina do Livro, 421 páginas, um quilo setecentos e cinquenta) e por ter dito que Pulido Valente era desonesto por ter criticado o livro sem o ler. Sousa Tavares escreve histórias cuja acção decorre no final do século XIX e no início do século XX, o que acaba por ser imprudente uma vez que Pulido Valente sabe mais sobre esse período do que as pessoas que o viveram, e irrita-se se alguém mexe na História de Portugal sem lhe pedir autorização.

Vamos por partes. O problema da crítica de Pulido Valente começa desde logo no modo como foi publicada. A capa do suplemento do Público anunciava: «Vasco Pulido Valente leu o último livro de Miguel Sousa Tavares e não gostou.» Ninguém precisa de ter estudado jornalismo para perceber o erro que aqui se cometeu. Isto não é notícia de capa em lado nenhum. Material de primeira página seria o Vasco Pulido Valente ter gostado de uma coisa qualquer.

Por outro lado, Vasco Pulido Valente acusa Sousa Tavares de escrever sobre um assunto acerca do qual não percebe nada. Também não é novidade. Quem lê as crónicas de Sousa Tavares no jornal A Bola tem conhecimento disso há anos. Que os leitores d'A Bola saibam mais do que Vasco Pulido Valente, essa sim, é uma questão preocupante que nos deve fazer reflectir.

Quarto problema: segundo o Pulido Valente, o livro está mal escrito e contem algumas imprecisões históricas graves. No entanto, a mulher de Pulido Valente recebeu uma mensagem SMS de Sousa Tavares em que este ameaçava «dar cabo» de Pulido Valente. Na crítica, Pulido Valente revela o teor da mensagem mas não refere qualquer imprecisão histórica ou erro de sintaxe no SMS que Sousa Tavares mandou à mulher, o que pode significar que o autor de Equador escreve melhor quando está enervado e dispõe de apenas 160 caracteres. Só por má vontade Pulido Valente não terá feito essa justiça a Sousa Tavares na crítica. Em seiscentas e tal páginas também eu sou capaz de encontrar frases canhestras e factos truncados e fazer um estardalhaço com isso. Mas a verdade é que Sousa Tavares escreveu um SMS que é, pelos vistos, irrepreensível, e Pulido Valente, em quatro páginas, nem uma nota de rodapé dedica ao poder de decisão do homem. Pode escrever maus romances, mas domina as formas breves. Não notar ao menos isto já não é crítica, é embirração.


por Booktailors às 14:32 | comentar | partilhar

Qui, 29/Nov/07
Hoje, na Visão, páginas 142 e 144, um artigo sobre a abertura da loja Byblos, com o título "Vou realizar mais um sonho", citação de Américo Areal. Um trabalho de Cesaltina Pinto.

«Américo Areal chegou a casa e confessou à mulher: «Tive uma proposta aliciante de compra da editora.» «Quer respondeste?» «Que não.» A mulher fez cara feia: «Mas nunca foste egoísta na vida! Porque estás a ser agora?» O raciocínio dela era simples: «Quando morreres, vais satisfeito. Fizeste o que quiseste, a vida toda. Mas nem os teus filhos nem eu temos as tuas capacidades para prosseguir com este negócio. Como ficam os teus filhos, se morreres agora?» Américo, 56 anos de vida e 33 de casado, pôs-se a matutar. «Eu, que gaguejo, perdi a fala.» A mensagem da mulher ficou a processar. Muito mais quando, na semana seguinte, se sucederam as propostas.

A do Paes do Amaral revelou-se irrecusável, e o negócio fez-se por muitos milhões de euros (o número exacto ficou em segredo.). A Asa editora saía, pela primeira vez, da família que a fundou. «Era a altura certa para sair», diz Américo Areal, filho do fundador, Américo da Silva Areal. «Já andava com bastante falta de paciência…»

Este descanso-alívio durou pouco. «Era a primeira vez na vida que tinha dinheiro e não tinha empresa. Vi-me reformado. Comecei a ficar triste, corcovado…» Fez novo acordo com a mulher: dividiu o dinheiro com ela e os três filhos – duas raparigas e um rapaz, licenciados em Gestão. A mais velha, de 31 anos, fundou uma empresa de coaching. A do meio, de 27, é a única que trabalha com o pai, como directora de marketing. O rapaz, de 23 anos, é auditor na KPMG. A parte que lhe coube, Américo investiu-a em livraria com um novo conceito – a primeira abre no dia 6 de de Dezembro, em Lisboa. Disse à mulher: «Vou realizar mais um sonho. Tu não terás mais problemas financeiros na vida. E a mim, o pior que pode acontecer é perder o que estou a investir. Se perder, vou viver à tua custa. Mas, à noite, já só preciso de uma sopa.»

Depois de ter sido gráfico e editor, Américo Areal entra em força no retalho. É, por agora, o único rosto da Livrarias Peculiares S.A., detentora da Byblos. E como gosta de manter o seu low profile, assegura que, logo após a inauguração, voltará a esconder-se. No futuro, prevê, hão-de aparecer novos sócios para o substituir na fotografia.


Todos os livros
«Já não sei a quantas ando.» Cansado e stressado, senta-se no seu gabinete, no Porto, à frente de um quadro de Júlio Resende que retrata o pai. O telemóvel está imparável, interrompendo várias vezes a conversa em que explica as novidades que introduzirá no mercado livreiro. Visitou, com olhos profissionais, as melhores livrarias no mundo. Levou os seus directores ao Japão, América do Norte, Holanda, Alemanha. «A pergunta que cada um tinha de fazer era: o que desejo enquanto leitor» Estabeleceu um novo e transparente modelo de negociação entre editores e livreiros e aproveitou ao máximo as novas tecnologias. Depois da entrada dos livros nos hipermercados, do modelo Fnac e das livrarias associadas a editoras, faltava algo que reunisse tudo isto e ainda acrescentasse algo. «É preciso haver sempre um tolinho, para fazer com que o futuro surja mais cedo.» E assim apareceu a Byblos.

Américo quer contrariar «a lógica capitalista» que dá prioridade aos livros recentes e de grande rotação. «Quero ter a totalidade dos livros editados em Portugal e até deixar espaço para edições de autor.» Alargam-se corredores, abrem-se várias zonas de leitura diferentes, multiplicam-se os factores de interesse, tudo para que o visitante prolongue o seu tempo médio de permanência. «Tem de se atender bem quem compra e quem não compra. Como o velhinho que vai lá todas as manhãs ler o seu livro. Este leitor raramente compra um livro para si, mas sempre que quer dar um presente, oferece um livro dos que já leu.»

O sistema informático será um dos trunfos – tanto na gestão do stock como na relação do leitor com o livro, e até na forma de pagamento. O software é holandês; a arquitectura interior é de uma empresa alemã vocacionada para livrarias. Promete-se show-off. Mas deixemos que as visitas de cada um testem a eficácia esperada.


O direito de não ler
O telemóvel toca pela enésima vez.

«Ahhhhhh Yes, Yes, Excelente! Maravilha! Deixei de ficar tenso…» grita, com a maior felicidade do mundo. Algo que era fonte de grande preocupação acabou bem resolvido. O sorriso impôs-se-lhe no rosto, tornando-o ainda mais redondo. Américo Areal distende-se na cadeira e, agora sim, pode recordar os velhos tempos. Conta que, aos 6 anos, já conhecia todos os cantos à gráfica da Asa. Afinal, o pai fundou a empresa em 1951, ano do seu nascimento.

Descendente de gente humilde da freguesia da freguesia da Agrela, Santo Tirso, o pai, Américo da Silva Areal, tinha oito irmãos. Estudou no seminário até ao 10º ano, e empregou-se como contínuo residente no Colégio Broteiro, na Foz do Porto. «Conseguiu tirar o curso de professor primário e, mais tarde, a sua primeira licenciatura, em Geologia. Fazia resumos das lições, reproduzia-os e vendia-os. De contínuo passou a professor, e depois a autor de livros escolares», resume o filho. Acabou por tirar sete licenciaturas, até aos 58 anos. Morreu aos 61. Passou pelo Movimento de Unidade Democrática (MUD) Juvenil, apoiou Humberto Delgado, viveu as alegrias da queda do fascismo. Mas, em 1975, o gonçalvismo deixou-lhe um amargo de boca. Morreu logo a seguir, tinha Américo 23 anos. Nos primeiros sete anos após a morte do pai, Américo contou com o apoio da irmã Zita, na gráfica e na editora. Apesar de formada em Arquitectura, Zita havia de criar a sua própria editora, a Areal, depois vendida à Porto Editora. Com a liberdade e o fim da política do livro único, a Asa prospera, sustentada pelos livros escolares. Para trás ficaram três falências, provocadas pela PIDE. Sorte foi que a mãe, Maria Olímpia Correia, era filha de agricultores abastados. «Tinha terras que deram para pagar três falências. Na terceira, ficaram os roupeiros e as camas.»

Américo filho gostava de ter sido ginecologista, mas o pai convenceu-o a optar por um curso técnico. Foi até ao 3º ano de Economia, mas não terminou o curso.

A Asa chegou a editar 400 livros por ano. Por isso, Américo não tem hoje paciência para ler um livro do princípio ao fim. «Um dos direitos do leitor é o de não ler, ou de saltar páginas», observa. Edita-se demasiado em Portugal? Encolhe os ombros. «Corresponde a uma multiplicidade de interesses. Contei a um taxista que ia abrir uma grande livraria. Perguntou-me logo se tinha livros sobre doenças de peixes. Respondi ‘Com certeza. Em Dezembro apareça por lá’. Terei mesmo de arranjar alguma coisa sobre doenças de peixes.


Byblos ponto a ponto [caixa]
- Inaugura-se a 6 de Dezembro, em Lisboa, no Edifício Amoreiras Square
- 3300 metros quadrados, só de área comercial
- Terá um vitrinista e um decorador de montras
- 150 mil títulos de fundo editorial, mais um conjunto de CD / DVD / Jogos de computador
- Quiosque com 260 metros quadrados
- 36 ecrãs tácteis, para que cada um possa pesquisar um título ou um autor e descobrir a sua localização exacta
- Cada estante robotizada terá capacidade para 65 mil exemplares
- 11 montras, com plasmas e possibilidade de consultas a partir da rua
- Auditório com 157 lugares sentados e outros tantos de pé, onde, a partir de Março, haverá as semanas temáticas
- O cartão da Byblos dará acesso a um site personalizado do cliente assim como acumulação de pontos
- 4 milhões de euros de investimento
- 60 mil euros / mês aluguer
- 40 a 50 funcionários na sede, no Porto
- 35 a 40 pessoas na livraria
- No próximo ano, nascerá, pelo menos, mais uma Byblos. A do Porto


por Booktailors às 13:54 | comentar | partilhar

Qui, 29/Nov/07

Hoje, pelas 21h30, na Casa Fernando Pessoa, com moderação de Carlos Vaz Marques.

QUE IMAGEM TRAZEM DO OUTRO AS RELAÇÕES CULTURAIS PORTUGAL/BRASIL?
Há duzentos anos, ameaçada pelas invasões napoleónicas, a Corte portuguesa atravessou o Atlântico e fez do Rio de Janeiro a capital do Império. Dois séculos depois diversos escritores portugueses têm vindo a redescobrir o Brasil em obras de ficção.

Na sessão de Novembro dos Livros em Desassossego, o crítico e professor universitário Abel Barros Baptista, o sociólogo Ivan Nunes e os escritores Miguel Real e Francisco José Viegas debatem o estado actual das relações culturais e literárias entre Portugal e o Brasil.

Antes, Hugo Xavier, coordenador editorial da Cavalo de Ferro, escolhe três livros recentemente editados que gostava de ter visto publicados na editora de que é um dos responsáveis.


por Booktailors às 13:43 | comentar | partilhar

Qua, 28/Nov/07
Qua, 28/Nov/07
Ontem, na Casa Fernando Pessoa, foi assim. Quer dizer, foi muito mais....


Se perderam o lançamento, não percam a obra...

Etiquetas:

por Booktailors às 11:02 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Qua, 28/Nov/07
A Quimera Editores lançou um novo website.

A editora, que leva já 20 anos de vida e é a referência de publicações na área da Olisipografia, aparece assim de cara lavada na web.

O grande ênfase é feito sobre o catálogo. O que faz sentido, dado que este website além de uma presença institucional, funciona igualmente como loja.

Mas ali podemos encontrar ainda promoções especiais, um destaque aos autores da casa e uma fabulosa galeria de imagens (exemplo 1; 2; 3; ...), produto das publicações da editora.

Somos ainda convidados a deixar o nosso contacto de e-mail para envio posterior de informação relacionada com a editora.


por Booktailors às 10:47 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Ter, 27/Nov/07
Ter, 27/Nov/07
A não perder, hoje, pelas 18h30 na Casa Fernando Pessoa, o lançamento da obra O Papel e o Pixel, de José Afonso Furtado.

A propósito das temáticas abordadas nesta obra, recorde-se a entrevista exclusiva dada por José Afonso Furtado ao Blogtailors, publicada na passada sexta-feira, aqui.

A obra será apresentada pelo Professor João Caraça.
Doutorado em Física Nuclear (Oxford) e agregado em Física (Lisboa), João Caraça é Director do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian e Professor catedrático convidado do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa onde, entre outras funções, coordenou o Mestrado em Economia e Gestão de Ciência e Tecnologia (1990-2003).

Consultor para a Ciência do Presidente da República (1996-2006) é autor de mais de uma centena e meia de trabalhos científicos. Os seus interesses centram-se nas áreas da política científica e tecnológica e da prospectiva. Publicou Do Saber ao Fazer: Porquê Organizar a Ciência (1993), Ciência (1997), Science et Communication (1999), Entre a Ciência e a Consciência (2002) e À Procura do Portugal Moderno (2003). Participou na redacção de Limites à Competição (1994) e na organização de O Futuro Tecnológico (1999). Colaborou no livro A nova primavera do político (2007).


por Booktailors às 15:50 | comentar | partilhar

Ter, 27/Nov/07

«Bienvenido a la 21 Feria Internacional del Libro de Guadalajara» ou, «welcome to the 21st Guadalajara International Book fair» – para quem não sabe espanhol – é a forma simpática com que somos recebidos na festa que anualmente é celebrada na homónima metrópole do México.

A FIL, como é também conhecida, convida este ano a Colômbia e ficará de portas e braços abertos até ao próximo domingo, dia 2 de Dezembro. Autores, agentes literários, editores, distribuidores, tradutores, bibliotecários ou livreiros de quase 40 países, misturam-se por entre quase meio milhão de visitantes anuais.

Criada em 1987, por iniciativa da Universidade de Guadalajara, a FIL é actualmente a maior feira profissional (de edição) da língua hispânica. Com uma duração de nove dias, trata-se de um espaço que deve ser visitado ao ritmo sul-americano, com profissionalismo, paixão e amizade. Mais do que um espaço linguisticamente fechado, é um espaço que se abre à diferença (recordemo-se que o Brasil foi o convidado de 2001, assim como o Quebec em 2003, ou a Andaluzia no ano passado).

Momento dedicado aos livros, mas também à discussão profissional e académica, à entrega de prémios do sector, às festas, espectáculos, lançamentos, colóquios, congressos e actividades que vão desde as crianças à terceira idade. Este é dos mais completos eventos dedicados à cultura literária e humanista, uma experiência única que ultrapassa a maior parte das feiras pensadas na Europa.

De entre as actividades principais, destaque especial para o Fórum Internacional de Editores e Profissionais do Livro, este ano dedicado às redes e alianças neste sector: o que são, como se processam e de que forma são úteis para garantir vantagens no acesso a direitos disputados ou co-edições.
De realçar também o programa académico que anualmente se associa a este evento, recordando a origem da FIL, onde especialistas vários abordam as mais díspares temáticas relacionadas com o livro, a leitura e a sociedade.

Se tiver algo mais importante para fazer, desista: vá à FIL de Guadalajara.


por Booktailors às 15:49 | comentar | partilhar

Ter, 27/Nov/07
A Fundação de Serralves e o Grupo Civilização assinaram ontem um protocolo que prevê a instalação de "Corners Serralves" nas 11 livrarias da rede Bulhosa/Leitura e a edição de livros de arte mais baratos.

O protocolo abrange ainda a realização de "workshops" do Serviço Educativo da Fundação de Serralves nas livrarias do Grupo Civilização.
O presidente da Fundação Serralves, Gomes de Pinho, disse à agência Lusa que a nova Livraria Leitura, que será inaugurada sexta-feira no Shopping Cidade do Porto, já terá um "Corner Serralves" para venda de todas as edições da fundação e de outros produtos da marca Serralves.

Lusa, via JN.

Etiquetas:

por Booktailors às 10:31 | comentar | partilhar

Seg, 26/Nov/07
Seg, 26/Nov/07
Recuperamos um artigo de Ivan Lessa, sobre o acordo ortográfico, publicado na BBC Brasil.

Pronto, começou a besteira. Os brasileiros estão há quase 20 anos (a bobajada começou em 1990) se esfalfando no sentido de uniformizar a língua portuguesa (palavra derivada de Portugal, país europeu da península ibérica) em sua ortografia.

Diga-se de passagem que só brasileiros e portugueses se “esfalfam”. Em países menos importantes, feito Moçambique e Angola, “dá-se duro” mesmo.

Brasileiro adora reforma ortográfica. Três acordos oficiais foram aprovados pelos países lusófonos (de luso, ou seja, relativo a Portugal ou o que é seu natural e habitante): em 1943, em 1971 e, em tese, essa que deverá entrar em vigor no ano que vem, 2008.

Isto, claro, se os portugueses (ou lusos, lusitanos ou ainda “nossos queridos primos e avozinhos”) concordarem pois, sem eles, nada feito.

É necessária a ratificação por pelo menos três países lusófonos. Saibam que, no Brasil, em 1995 quem aprovou a reforma foi o… o… exatamente, nosso Congresso. Podem rir agora.


As glórias de nossa língua
Segundo estudos fidedignos, o português (de Portugal, luso, lusitano etc.) é a quinta língua mais falada no mundo.

Cerca de 210 milhões de pessoas praticam a língua de Camões e José Sarney.
Segundo outros estudos, esses 210 milhões falam todos ao mesmo tempo e sem parar. E bem alto.

O português (de… creio que vocês já pegaram o espírito da coisa) tem duas grafias oficiais, o que dificulta o estabelecimento da língua como um dos idiomas oficiais da Organização das Nações Unidas, a ONU. Coisa que nos é indispensável.

Segundo acadêmicos e congressistas brasileiros, uma ortografia-padrão (falaremos logo adiante do hífen) facilitaria o intercâmbio cultural entre os países que falam o português, a saber, a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, ou CPLP, entre aqueles – aliás a maioria – que adoram siglas e acrônimos.

Esta Comunidade, com C maiúsculo (outra paixão nossa: o maiúsculo), é composta por oito países: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe (os dois são um só) e Timor Leste (o Timor Oeste está noutra).

Há um argumento segundo o qual os livros, principalmente os científicos e didáticos, circulariam então livremente entre os países, sem necessidade de revisão, como já acontece em terras onde o espanhol é falado e cantado em tango, bolero, rumba e escritos do Gabriel Garcia Márquez.

Argumenta-se ainda, como se não bastasse, que a padronização do ensino do português seria sentida (ai!) ao redor do mundo.


Espiquíngres
Antes que eu me esqueça: o inglês do Reino Unido e o inglês dos Estados Unidos, dois importantes países que fazem parte da ONU, não viram necessidade de criar uma Comunidade de Países da Língua Inglesa, que incluísse Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e outros menos cotados.

Os ingleses escrevem e montam “theatre” e os americanos e o resto da turma levam em cartaz “theater”.

Ninguém fica confuso com isso e todas as palavras terminadas, no Reino Unido, em “our” (labour), e nos Estados Unidos em “or” apenas (labor), continuam assim nos livros editados dos dois lados do Atlântico e lá pela Oceania também.

Nunca um australiano perdeu seu “centre”, ou “center” de gravidade com essa filigrana, para nós rebuscada e de difícil compreensão. E nem vou falar no que uns e outros anglófonos fazem do uso do S e do Z em certos verbos.

Em compensação, São Tomé e Príncipe não tem (não têm?) a menor idéia de qual a diferença entre “acto” e “ato”, “facto” e “fato”. Vivem confusos.

Guiné-Bissau só se preocupa com o que vai ser de seu hífen. O hífen nos é de suma importância.

Embora os portugueses vejam essa coisa toda como uma tolice muito grande e, práticos e educados que são, vão mandando a reforma para as calendas.


Tremas, tremei!
Ah, sim. Entre dezenas de outras besteiras, nossos lecsicógrafos e congreçistas querem abolir o trema. Saibam que este sinal diacrítico já foi abolido em Portugal em 1946. Foi como quando nós abolimos a escravidão: ninguém ligou.

O danado do hífen
Pedra fundamental da reforma proposta é o hífen.
Nossos lexicógrafos querem mantê-lo nos substantivos compostos (arco-íris, guarda-chuva) e nas palavras compostas (norte-americanos, anglo-americano).
Mas o hífen é para ser chutado para corner (e escanteio também) em palavras nas quais “se perdeu” (conforme dizem eles) a noção de composição. Feito paraquedas e paraquedista.

Na mesma prefixação, querem sempre um hífen antes do H. Ex e vice não mudam. Caso contrário, eles perdem a prazerosa pensão.

Guiné-Bissau quer saber, eu quero saber, o mundo inteiro quer saber, se vai ou não perder o hífen. Idem, Timor Leste.

As outras crises são passageiras. Fome, passa. Hífen, não.


The damned hyphen
Não sei se foi influência da bossa nova (ou bossa-nova?) ou do neorealismo (neo-realismo?) cinematográfico brasileiro, mas o raio da questão do hífen baixou aqui.

Na mais recente edição revista desse monumento-tesouro que é o Oxford English Dictionary, 16 mil palavras até agora hifenadas foram para as blicas.

Monumento-tesouro, por exemplo. Folha de parreira, outro. Todo mundo se acostumou a ler, ver e usar “fig-leaf”. De repente, tacam um “figleaf” na gente, nos deixando a todos com as vergonhas à mostra.

Motivo alegado? A rapidez com que movemos nossos dedos pelos teclados dos computadores. Acham que nossos dedos se cansaram de sair catando o tracinho horizontal para fazer a devida ligação. Sem hífen é mais prático.

Os poetas, que amam o hífen, para colorir este mundão sem graça, estão uma fúria. Acabou-se, ao menos para o Oxford, a “copper-coloured hair” e o “rosy-fingered dawn”. E por aí afora.

Uma tristeza. Resta o consolo de saber que não haverá multa ou prisão para quem não seguir o que é apenas sugestão e não lei do Oxford.

Na nossa reforma, nada vi até agora que esclareça ou fale dessa outra paixão nossa: obrigatoriedade, pena de prisão, pau-de-arara (pau de arara?) e um sem mundo de penas para quem não cumpra o burríssimo e inútil esquema


por Booktailors às 20:06 | comentar | partilhar

Seg, 26/Nov/07
Sobre o acordo ortográfico, recuperamos um artigo de Francisco José Viegas, publicado no Jornal de Notícias, de 12 de Novembro.

Ouro Preto (em Minas Gerais, Brasil) até poderia ser o cenário ideal para falarmos do assunto no fundo, a sede da primeira grande conspiração contra o domínio português e o palco onde foram expostos os restos mortais do supliciado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é uma cidade que mantém a memória desse cruzamento entre Portugal e o Brasil. Foi aí que decorreu mais um Fórum das Letras, e que contou com participações dos vários mundos da Língua Portuguesa, chegados de Portugal, do Brasil e de África. Em várias das mesas e debates que compuseram o encontro o tema (que não fazia parte da lista de assuntos para discussão) aparecia com a mesma volatilidade com que se escondia: deve, ou não, assinar-se um Acordo Ortográfico que unifique a grafia da Língua Portuguesa?

O debate sobre o assunto corre a várias velocidades e a ritmos diferentes. Geralmente, como tive oportunidade de referir num encontro no Rio de Janeiro, quando não há mais nada para discutir, discute-se o Acordo Ortográfico. Não é um assunto de primeira grandeza; mas é um elo diplomático e político no desconcerto linguístico.

A primeira sensação, vivida por escritores brasileiros ou portugueses tem a ver com a sensação, iniludível, de uma perda afectiva - o trema, as consoantes mudas, os acentos nas paroxítonas, o fim do acento agudo nos ditongos abertos, três novas consoantes adoptadas, mais um certo número de casos que mudarão a grafia aqui e ali.

Se no caso brasileiro só 0,45% das palavras mudarão de ortografia, o caso português acrescenta um pouco mais menos de 3%, suponho. Diante dessa baixa percentagem de mudanças, qualquer posição soará como insignificante. Os políticos assumem que a Língua Portuguesa ficará "mais forte" e que essa unificação levará a uma maior credibilização no domínio internacional. Talvez seja um argumento pífio, mas convém desdramatizar: o essencial do português de Portugal e do português do Brasil não mudará substancialmente. Continuaremos a dizer "autocarro" quando os brasileiros escrevem e dizem "ônibus", manteremos "talho" onde no Brasil se usa "açougue". A Língua Portuguesa não sofrerá com isso. Os onze ou doze milhões de falantes europeus, os cento e oitenta milhões da América, e os cerca de vinte milhões de África terão, portanto, uma grafia idêntica. Passaremos a escrever "ação" em vez de "acção". Os brasileiros deixarão de escrever "acadêmico" e tirarão o trema a "tranqüilo".

Perder-se-á muito? Ganharemos em comunicabilidade? É legítima essa mudança? Ou seja pode um grupo de linguistas, iluminados ou não (geralmente tenho dúvidas), decretar essa mudança?

Acontece que nós não somos donos da nossa língua. Ela é mais falada fora das nossas fronteiras do que em Portugal. Acontece que a maior parte das inovações, rasgos de originalidade e de criatividade que têm sido acrescentados à nossa Língua, têm chegado de fora - e do Brasil mais do que de outro lugar.

Infelizmente, chegámos a um momento, na história da nossa Língua, em que manter o fechamento e a inflexibilidade pode acabar por custar-nos caro no futuro (o Português é, actualmente, a quinta mais falada do mundo em termos absolutos - e a terceira no Ocidente, atrás do Inglês e do Espanhol). Certamente que perderemos uma parte da nossa "excentricidade" linguística; mas é muito provável que ganhemos alguma vantagem na uniformização do padrão linguístico ou ortográfico. Não é verdade que os "manuais escolares" e os "livros didácticos" passem a ser os mesmos nos três continentes - mas se abrirmos esse corredor de comunicação entre as diferentes formas de falar e de escrever o Português, talvez prolonguemos a sua vida e o horizonte da sua existência. Cedendo aqui, ganhando ali, empatando mais tarde.


por Booktailors às 19:58 | comentar | partilhar

Seg, 26/Nov/07
Deixamos aqui o artigo de Rita Freire, publicado na edição de 4 a 20 de novembro do JL, sobre a Byblos.

Byblos, a maior livraria do país

A maior livraria de Portugal vai abrir as suas portas a 6 de Dezembro, em Lisboa, na zona das Amoreiras. Com 3300 m2 só de área comercial (mais 700 de serviços administrativos) e um catálogo de 150 mil títulos disponíveis, a Byblos representa um sonho antigo de Américo Areal, até há pouco dono e editor da ASA. Uma livraria de fundo editorial, que quer ser a «primeira livraria inteligente» no nosso país e ter disponível a totalidade do catálogo das chancelas nacionais. O JL revela o que vai ser este novo (e único) espaço

Falta apenas um mês para a inauguração.
No entanto, uma grande zona em obras pouco deixa adivinhar o que aí vem. O espaço, com uma área bruta de 4000 m2, divide-se por dois andares. Ainda cheira a tinta, madeira, cimento. Um olhar mais atento permite vislumbrar estantes vazias, por entre o pó, os coriscos decorrentes da soldadura, o estuque e as várias dezenas de trabalhadores que por ali circulam. E são estas estantes o único indicador do que vai nascer nesta imensidão. Será (de longe) a maior livraria do país. Um sonho antigo, com mais de uma década, que Américo Areal nunca abandonou. Criar, de raiz, uma livraria, onde o leitor pudesse encontrar qualquer título, que reunisse os fundos de catálogo das editoras portuguesas. E onde, acima de tudo, se sentisse bem confortável. Aliás, conforto é a palavra de ordem na Byblos, que inaugura a 6 de Dezembro, se tudo correr como planeado. Mesmo a tempo do Natal, ponto alto da venda de livros em Portugal.

Contudo é impossível não questionar. Num país onde os índices de leitura são baixos, e no qual um estudo recente revela que mais de metade da população não comprou nenhum livro no ano anterior, como fazer vingar uma estrutura desta dimensão? Como assumir um risco de elevado valor monetário? Américo Areal sorri. É um sonho, afinal. E acredita que o mercado do livro é lucrativo, apesar das queixas constantes de muitos que trabalham no sector ou não fosse ele o anterior dono da ASA, uma das maiores editoras do nosso país. É, pois, por experiência própria, que sabe que o mercado do livro pode, efectivamente, ser rentável. Desde que bem analisado, com uma ideia cimentada na experiência e no conhecimento do ramo.

Acima de tudo nota-se o seu orgulho enquanto nos mostra o espaço. Ou as projecções em 3D, de como este ficará. Assim o permite a tecnologia nos dias que correm. «Diga lá, está bonito ou não está? Diga que sim!», exalta-se quando deixamos passar um pormenor de que gosta especialmente, como um candeeiro. Ou um sofá, acabado de chegar, onde nos pede para sentar. «Preciso que alguém me diga se é ou não confortável. Então?», questiona na expectativa. É confortável, sim. Mas, se não o fosse, nunca o admitiríamos. Seria, n mínimo, cruel arrasar todo o entusiasmo patente na voz e no semblante.

Um espaço high-tec
Orgulho, pois. E não é para menos. Para além da magnitude do espaço, do detalhe cuidado da arquitectura (projecto do gabinete alemão, Kreftbrübach, especializado em conceber espaços para livrarias), e dos muitos títulos que aí estarão disponíveis, esta será uma livraria high-tec. Dada a enormidade do lugar, e a variedade de obras oferecidas, foi criado um sistema, «único no mundo», que permitirá ao utente encontrar rapidamente o livro que deseja. Se, por um lado, cada livro terá o seu lugar específico em estantes devidamente numeradas, por outro, através de um chip colocado em cada exemplar, será possível encontrá-lo por GPS, caso esteja fora do sítio. Para tal, basta aceder a um dos vários plasmas sensíveis ao toque, que estarão dispostos pela livraria. Ao digitar o nome da obra o computador indica onde esta se encontra. E, para aqueles a quem a tecnologia ainda não conquistou, serão muitos os empregados disponíveis para ajudar. Todos terão um equipamento que, sincronizado com o chip dos livros, lhes indica quais estão fora de sítio, para que os possam repor na devida estante. Mas a tecnologia não se fica por aqui. Uma vez que é difícil, se não impossível, expor 150 mil títulos, existe um armazém para guardar os livros com menos rotatividade. Mas o leitor pode aceder-lhes facilmente, através de uma estante em vidro. Basta escrever num ecrã o título da obra desejada, que um sistema robotizado a trará ao próprio. Através da estante. Tecnologia, então. Sim. Mas escondida. Apenas presente para ajudar e tornar a experiência da livraria o mais cómoda possível.

Porque o objectivo é tornar a ida à Byblos «uma experiência.» Ou seja, não se deseja que o público vá à loja apenas para comprar um, dois, três ou 50 livros, mas também para usufruir do local e do que este pode proporcionar. Para tal, criaram-se várias zonas dentro da livraria, dirigidas a públicos diferentes. Por um lado, cada estilo literário terá o seu espaço distinto. Por outro, há uma zona dedicada aos mais novos, com um barco gigante, onde as crianças podem ficar a ler e no qual decorrerão, pontualmente, sessões de leitura. E, à semelhança de outras livrarias, poder-se-á contar com uma cafetaria, que servirá desde bebidas a refeições ligeiras. E zonas com vários sofás onde cada um se poderá sentar a ler.

Mas, e apesar de se dedicar especialmente aos livros, há também outros produtos na Byblos. Assim, estarão também disponíveis para o consumidor CDS e DVDS, bem como artigos de papelaria de alguma forma relacionados com os livros e a cultura, e uma secção de revistas, onde se poderão encontrar várias publicações especializadas.

Há ainda um recanto, mais vocacionado para um público adolescente, onde se podem jogar videojogos. Mas é na agenda cultural que Américo Areal diz querer apostar forte. Para tal, foi criado um auditório, com capacidade para 100 pessoas sentadas. Aqui o objectivo passa por promover todo o tipo de actividades culturais, desde lançamentos de livros, a concertos ou provas de vinhos. Este espaço é «muito importante», na medida em que faz com que as pessoas tenham vontade de se deslocar à livraria, por saberem que alguma coisa estará a acontecer. E que será sempre «interessante e inovador.» Aliás, hoje este projecto caracteriza-se e distingue-se no contexto nacional pela inovação. Não há igual em Portugal. Mas Américo Areal sabe que é apenas uma questão de tempo. Por isso não tenciona descansar à sombra das conquistas feitas. Até porque, como diz, parar é morrer. Ou, pelo menos, morrer mais cedo. E longa vida é o que se deseja a esta livraria. Porque os livros nunca são demais. Mesmo que não os possamos ler todos. Como disse uma vez Almada Negreiros: «Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido.» E não tinha entrado na Byblos, com os seus 150 mil títulos.


por Booktailors às 11:18 | comentar | partilhar

Dom, 25/Nov/07
Dom, 25/Nov/07
Deixamos excertos de um artigo publicado no jornal Expresso de ontem (24.11.2007), 1º caderno, página 12, redigido por Cristina Figueiredo, sob o título “Acordo ortográfico aprovado até final do ano só vigorará em 2017”, dando conta dos avanços no acordo ortográfico entre Portugal e Brasil.

E ainda um testemunho de Miguel Sousa Tavares, publicado no mesmo jornal, na página 7, sobre este mesmo tema.

«O acordo ortográfico vai finalmente ser assinado. Mas os portugueses dispõem de 10 anos para se habituarem às regras

Agora é que é. Dezassete anos depois, o Estado Português já não tem como fugir do compromisso. Adiou até onde pôde, mas as pressões, sobretudo por parte do Brasil (o principal interessado num acordo que vai alterar 1,6% do vocabulário luso e apenas 0,45% do ‘brasileiro’), levaram o Ministro dos Negócios Estrangeiros a comprometer-se: o protocolo que modifica as regras da língua portuguesa será assinado até ao final do ano. Ainda assim, é só para valer daqui a 10 anos, graças a uma ‘reserva de aplicação’ a que cada parceiro do acordo (os oito Estados-membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa) pode recorrer e que Portugal decidiu invocar.

O anúncio de Luis Amado ressuscitou uma a controvérsia em torno de um acordo que nunca foi consensual.

(…)

Também a Sociedade Portuguesa de Autores e Associação Portuguesa de Editores e Livreiros emitiram comunicados, esta semana, onde dão conta da sua preocupação com o que consideram ser um acto “precipitado e estranho” e apelam ao governo “para que desencadeie um debate público” antes de proceder a qualquer ratificação.”

Nota: Para os interessados nos comunicados que a Jornalista referencia na notícia acima, os mesmos poderão ser encontrados [aqui e aqui]


Testemunho de Miguel Sousa Tavares (Expresso, 1º caderno, página 07, 24.11.2007):
«Há mais de dez anos que vivemos com esta espada suspensa sobre a cabeça: quando não têm mais nada com que se entreter para exibir a sua importância, os senhores da Academia das Ciência e os ministros dos Estrangeiros gostam de nos ameaçar com o acordo ortográfico, cujo objectivo único é por-nos a escrever como os brasileiros, assim lhes facilitando a sua penetração e influência nos países de expressão portuguesa. Como diz Vasco Graça Moura, o acordo é um «diktat» neo-colonial, em que o mais forte (o Brasil) determina a sua vontade ao mais fraco (Portugal). Alguém imagina os Estados Unidos a ditarem à Inglaterra as regras ortográficas da língua inglesa? Ou o Canadá a ditar as do francês à França ou a Venezuela as do espanhol a Espanha?

Dizem que isto vai facilitar a penetração da literatura portuguesa no Brasil, mas ninguém perguntou a opinião dos autores portugueses. Há quatro anos atrás, publiquei um livro no Brasil e, contra a opinião de alguns ‘sábios’ e as várias insistências da editora brasileira, o livro reza assim na ficha técnica: “A pedido do autor, foi mantida a grafia da edição original portuguesa”. Apesar dos agoiros de desastre que essa teimosia minha implicaria, o livro vendeu até hoje cerca de 50.000 exemplares no Brasil. Perdoem-me a imodéstia, mas orgulho-me de ter feito mais pela nossa língua no Brasil do que todos esses que se dispõem a vendê-la como coisa velha e descartável».


por Booktailors às 10:48 | comentar | partilhar

Sáb, 24/Nov/07
Sáb, 24/Nov/07
Relembramos que a obra O Papel e o Pixel, de José Afonso Furtado, será lançada na próxima terça-feira, 27.11.2007, na Casa Fernando Pessoa, pelas 18h30. A apresentação ficará a cargo de João Caraça.

Pode ler a entrevista exclusiva de José Afonso Furtado ao Blogtailors, aqui.


por Booktailors às 20:55 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Sáb, 24/Nov/07
A Feira Internacional de Guadalajara abriu hoje as suas portas. Mais informações sobre este evento, que decorrerá até dia 2 dezembro, poderão ser encontradas no site oficial da Feira, aqui.


por Booktailors às 20:15 | comentar | partilhar

Sáb, 24/Nov/07

A jornalista Isabel Coutinho, na sua habitual crónica do suplemento Digital do jornal Público, Ciberescritas, fala hoje deste espaço - do blogtailors.

O artigo surge na página 11 do referido suplemento e tem como título "O blogue dos Booktailors".

Agradecemos à jornalista Isabel Coutinho toda a atenção dada a este projecto.


por Booktailors às 14:16 | comentar | partilhar

Sáb, 24/Nov/07
Deixamos aqui o artigo publicado hoje no Jornal Público, da autoria de Vasco Pulido Valente, sobre o Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares. Uma continuação da polémica iniciada há umas semanas nas páginas da revista Única, do Expresso. Aguardamos as cenas dos próximos capítulos.

«
Rio das Flores Vale pouco ou nada como romance histórico, é pobre e vulgar como romance de família


Pedimos a Vasco Pulido Valente que lesse Rio das Flores, o último livro de Miguel Sousa Tavares. O romance conta a história de uma família de latifundiários alentejanos na primeira metade do século XX. O historiador, especialista da República, não gostou e diz que o escritor não ilumina a época nem a percebe

Numa entrevista ao Expresso, Miguel Sousa Tavares contou um caso, inteiramente imaginário, da minha suposta desonestidade (teria criticado o Equador, sem o ler) e acrescentou alguns comentários desagradáveis. Como é natural, desmenti. Isto bastou para que ele anunciasse por SMS à minha mulher e, a seguir, no Diário de Notícias que "ia dar cabo de mim". Parece que, segundo o critério dele, não "deu", por esta vez, "cabo de mim". Ficou pelo insulto e pela injúria; e pela ameaça implícita de que, se quisesse, revelaria episódios da minha vida pessoal (cinco ou seis) para liquidar a minha figura pública. Nestas digressões Miguel Sousa Tavares não falou uma única vez de um livro meu ou do meu jornalismo. Excepto sobre o meu "carácter" privado, não abriu a boca. Em cinquenta anos, não me lembro de encontrar um ódio tão inexplicável. Fiquei espantadíssimo e até, num encontro de acaso, lhe tentei falar, para o ouvir e, como lhe disse, para lhe poupar no interesse dele uns tantos disparates no Rio das Flores. Não quis.

Escrevo esta crítica sem prazer. Nada pior do que ler um livro mau, excepto escrever sobre um livro mau. Mas, como se compreende, não podia deixar que a brutalidade de Miguel Sousa Tavares chegasse para me calar.


Preâmbulo
Uma ficção histórica (um romance), como a história, interpreta o passado. Ao contrário da história, pode inventar um passado, onde as fontes são omissas ou parciais. Pode deformar coerentemente o passado (dentro de limites), atribuindo, por exemplo, uma mentalidade moderna a personagens da Antiguidade ou da Idade Média. O que não pode é desconhecer e falsificar o passado ou dar dele versões falsas, simplificadoras ou propagandísticas. Convém, por isso, no caso do Rio das Flores, partir deste ponto elementar. Tanto mais que Sousa Tavares anuncia na badana que o livro assenta num "minucioso e exaustivo trabalho de pesquisa histórica".


Opiniões
Rio das Flores é a história de uma família de latifundiários do Alentejo entre 1915 e o fim da II Guerra: do pai (Manuel Custódio, que morre ao princípio do livro), da mãe (Maria da Glória), dos dois filhos (Diogo, o herói do romance, e Pedro, o seu contraponto), da mulher de Diogo (Amparo), da amante de Pedro e da segunda mulher de Diogo. Pelo livro perpassam outras criaturas, sempre de uma convencionalidade absoluta, que pouco vão além do nome, ou da etiqueta, e se esquecem imediatamente. Mesmo as personagens principais são pouco densas, sem complexidade ou interesse. Através da família dos Ribera Flores, o Rio das Flores pretende ser uma meditação política sobre a primeira metade do século XX. É bom por isso saber, um a um, o que têm dentro da cabeça e, sobretudo, o que tem dentro da cabeça Miguel Sousa Tavares: uma distinção muitas vezes difícil de estabelecer.

a. Opiniões de Manuel Custódio sobre a República - Claro que não tratarei aqui de opiniões, que servem para "caracterizar" Manuel Custódio como "personagem": uma regra que apliquei a Diogo e a Pedro. Só me interessam aquelas que revelam os conhecimentos dele ou, se preferirem, o grau de consciência da situação em que vive.

Manuel Custódio acha, por exemplo, que "as despesas da corte no tempo de Monarquia" eram ridículas comparadas com "o desperdício de dinheiros públicos do governo do dr. António José de Almeida - "o rei dos demagogos, o maior vendedor de feira que este país já conheceu"". Sendo que António José de Almeida foi presidente do Conselho entre Março de 1916 e Abril de 1917, quando Portugal entrou em guerra e se organizou o Corpo Expedicionário para a França, a comparação não faz sentido, nem (como no caso) numa querela de café.

Manuel Custódio acha que a República queria proibir "os padres de andar vestidos de padres". A República proibiu o uso de vestes talares na rua, isto é, de vestes que chegassem ao calcanhar (do latim: talus, calcanhar): numa palavra, a batina. Não proibiu o fato preto e o cabeção (ou volta), e a coroa, que identificavam perfeitamente os padres.

Manuel Custódio acha que vai "ganhar quem eu disser ou quem disser aquele pateta do Joaquim Gomes, o cabo eleitoral dos republicanos em Estremoz. É só esperar para ver qual de nós dois está disposto a gastar mais dinheiro com a eleição e depois contam-se os votos - se não houver chapelada deles". Isto mostra, numa cápsula, que Manuel Custódio não compreendia os mecanismos eleitorais da República, na prática um regime de partido único, o Partido Democrático. Nesse ano, 1921, ganhou a maioria o Partido Liberal por decisão de António José de Almeida (na altura Presidente da República) e com o acordo do Partido Democrático: o que, de resto, levou rapidamente ao assassinato do presidente do Conselho, o "liberal", António Granjo. Daí para frente, como desde 1911, o Partido Democrático ficou sempre, como antes, com a maioria no Parlamento e no Senado e Estremoz nunca elegeu um deputado monárquico.

Suponho que isto basta para indicar a natureza e a perspicácia das discussões políticas nos jantares de Manuel Custódio.

b. Opiniões de Diogo sobre a República - Como notei atrás, é difícil separar Diogo de Miguel Sousa Tavares. Seja como for, trato aqui só de opiniões que Miguel Sousa Tavares resolveu atribuir a Diogo e que não servem directamente para o "definir".

Escreve Sousa Tavares: "Diogo (...) não gostava de ser tratado por morgado, esse título que se referia ao iníquo sistema sucessório em que filho varão mais velho herdava tudo, como forma de defesa da propriedade familiar, evitando a sua divisão entre vários herdeiros. A República pusera fim legal aos morgadios e ele, embora tivesse saído pessoalmente a perder, estava de acordo." A Monarquia "pusera fim legal" ao último morgadio em 1863, com excepção da Casa Real. Nem Diogo, nem o pai, nem o avô, nem o bisavô, nem o tetravô repararam na coisa.

Diogo acha que a República instituiu "o sufrágio universal". A República notoriamente não instituiu o sufrágio universal. A lei eleitoral de 1911 deixava votar os maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou que fossem chefes de família há mais de um ano. Infelizmente, na "eleição" de 1911 não se votou, por pressão do Partido Republicano, em quase metade dos círculos. Pior ainda, nos círculos em que se votou, bandos de terroristas "fiscalizaram" o acto. Na eleição seguinte, em 1913, o Partido Democrático restringiu o voto a maiores de 21 anos, do sexo masculino e letrados: um corpo eleitoral mais pequeno do que o da Monarquia. A República não podia, como é óbvio, deixar votar o povo analfabeto do campo, que obedeceria ou se "venderia" aos "caciques" monárquicos. Até 1926 (com a excepção do "sidonismo"), o regime de 1913 praticamente não mudou.

Diogo acha que a República decretou "o divórcio para quem não é católico". A República, de facto, decretou o divórcio para quem era ou não era católico, para quem se casara pelo registo civil ou pela Igreja. Mas são subtilezas que excedem Diogo.

Diogo acha (ou parece achar) que a República foi uma democracia. A um amigo pergunta: "Os portugueses livraram-se de uma ditadura (a Monarquia) e, menos de vinte anos depois, já querem outra (a ditadura militar)." E, durante o pronunciamento republicano de 1937, pensa que em breve se irá restabelecer a "legalidade democrática". Verdade que Diogo tem ideias muito estranhas sobre a Monarquia e era muito novo em 1910. Mas não conseguir ver, aos 27 anos, o que toda a gente via, ou seja, que a República não passara da ditadura do Partido Democrático (de que ele mesmo, de resto, se gabava) e que não existira legalidade alguma, excede a ignorância permissível.

Diogo acha, enfim, que é (ou foi) "um monárquico constitucionalista". Esperemos que tenha querido dizer "constitucional".

É com uma personagem desta lucidez que temos de acompanhar a história política de Portugal, de Espanha, do resto da Europa e do Brasil durante 608 páginas. É principalmente através dele que o leitor é convidado a "ver" a ditadura, a liberdade e o destino do mundo.

c. Opiniões de Miguel Sousa Tavares sobre a Monarquia e a República - Quando aqui me refiro a Miguel Sousa Tavares deve ser claro que me refiro ao narrador. Incumbia, em princípio, ao narrador alguma exactidão e alguma subtileza interpretativa. Vamos por partes.

Começa por que Miguel Sousa Tavares, como Diogo, tem uma ideia insólita da Monarquia. Sousa Tavares acha que uma "aristocracia caduca e inculta" dominava a Monarquia: os "marqueses de berço" e os "condes de ocasião". Desde 1871, ou seja, nos cinquenta anos que precederam a República, estiveram no governo, entre dezenas de ministros, 2 marqueses, 3 condes, 3 viscondes. Excepto Sabugosa (um ano no Ministério da Marinha), nenhum "de berço", todos "de ocasião". Havia, claro, muita gente de "boas famílias de província" ou da classe média de Lisboa e do Porto, em geral com pouco dinheiro, que mandara estudar os filhos. E uma apreciável quantidade de self-made men. De uma "aristocracia caduca e inculta" a governar o país nem os próprios republicanos se queixavam.

Sousa Tavares acha que existiu um "poder autocrático e distante" nos "últimos tempos da Monarquia". Poder de quem? Dos partidos? Do rei? E quando? Durante a crise de 1891-1893? Durante os meses da "ditadura" administrativa de João Franco? A "descrição" é vácua: e falsa.

Sousa Tavares acha que "os grandes capitalistas (...) tinham mantido cativa a Monarquia, trocando créditos à Casa Real por concessões de monopólios e oportunidades de negócio nas colónias de África". Os governos vigiavam os dinheiros do rei, vintém a vintém. João Franco publicou (com injusto escândalo) as contas todas. Nem o mais remoto vestígio de evidência permite a Sousa Tavares dizer o que disse. E nem o Partido Republicano, indiferente à calúnia, se atreveu a ir tão longe.

De resto, as noções de Sousa Tavares sobre a República são vagas. Acha que foi um regime "dissoluto, deliquescente" e "que parecia sem rumo" (o que não quer dizer absolutamente nada). Acha que "abandonou à sua sorte as colónias de África por absoluta incapacidade de gestão" (um erro óbvio) e acha que se "arruinou na aventura militar da Flandres" para conservar o Império Português (tese contestada e hoje abandonada). Acha que a República fez do "clero regular, e em especial dos Jesuítas, o seu principal inimigo" (não existiam em Portugal mais de uma centena ou duas de Jesuítas no 5 de Outubro) e que "insinuou tréguas" ao clero regular, "em troca de apoio". Não lhe ocorreu sequer que a Lei de Separação, que tenta "explicar" (com vários erros pelo meio), se dirigia na essência ao clero regular. Nada disto é para levar a sério e não contribuiu remotamente para que alguém perceba a República.

Mas Sousa Tavares não pára aqui. Acha, por exemplo, que a República confiscou os bens dos "aristocratas exilados" (não confiscou) e que o Papa "se apressou a publicar uma encíclica contra ela" (não publicou uma encíclica, publicou uma bula, que repetia a doutrina pouco antes estabelecida para França) e que deu "instruções secretas aos bispos portugueses com vista a uma resistência clandestina como no tempo dos primeiros cristãos de Roma" (!!!). Vale a pena comentar?

d. Opiniões de Pedro - Pedro, graças a Deus, quase não fala. Expele tiradas de propaganda, com frequência completamente anacrónicas (mas não se pode pedir muito). É o contraponto da direita de que Diogo precisa. Não adianta, nem atrasa.


Resumos de "História"
Como o Rio das Flores vai de 1915 ao fim da II Guerra, Sousa Tavares é obrigado a entremear a vida dos Ribera Flores, com resumos do que sucedeu em Portugal e no mundo. Estes resumos seriam sempre uma simplificação. Com Sousa Tavares, são, além disso, de um primarismo, de uma banalidade e de uma ignorância, que não permitem o mais vago entendimento do que se passou. Tanto mais que o narrador resvala constantemente para a retórica da indignação pré-"25 de Abril" e de quando em quando faz digressões de uma extraordinária irrelevância, para exibir a sua virtude ou a sua cultura, ou simplesmente porque lhe pareceram "engraçadas". Não se procure aqui a história ou "atmosfera" dos anos 20, 30 e 40. Segue, para guia do leitor, a lista dos resumos:

A Ditadura Militar, Salazar e o Estado Novo - Com erro atrás de erro, não há lugar-comum que Sousa Tavares nos poupe sobre o "28 de Maio", a personalidade de Salazar e a perversidade do Estado Novo. Infelizmente, como não compreendeu a República, não consegue compreender Salazar, nem os mecanismos por que tomou e consolidou o poder. O narrador repete a evidência de que o exército e a Igreja apoiaram Salazar: não esclarece nem como, nem porquê. E não lhe ocorre que a liquidação política do liberalismo e do radicalismo a favor do "viver habitualmente" (cujo significado essencial lhe escapa) implicasse mais do que a polícia e a censura.

O pronunciamento de Fevereiro de 1937 - O narrador não trata dos motivos corporativos do pronunciamento ou da sua natureza política. Resolve contar o episódio, em que Diogo nem sequer participa, porque sim.

Política espanhola até 1936 - Diogo explica incontestavelmente o que o narrador pensa: "Houve eleições (em 1931), ganharam os republicanos e socialistas e há um governo legítimo em funções. Um governo escolhido pelo povo: conhece melhor alternativa para governar os povos?" Em 1932, torna a dizer o mesmo. Talvez seja apropriado observar que em 1931 e 1932 já a Espanha estava em guerra civil larvar.

A Guerra Civil de Espanha - Miguel Sousa Tavares escreve que a Frente Popular ganhou a eleição de 1936 por 150.000 votos, uma margem ridícula. Se tivesse lido Hugh Thomas com atenção (vem na bibliografia), saberia como esse número é enganador e artificial. Não leu ou não se ralou. O título do primeiro grande "clássico" sobre a Guerra de Espanha é O Labirinto Espanhol. Mas Miguel Sousa Tavares não perde tempo com complexidades. Num único parágrafo descreve (mal) as razões políticas da guerra e segue para uma reportagem truncada e tosca da conspiração e do levantamento militar. Por necessidade narrativa (Pedro vai para Sevilha para combater na Legião Estrangeira), conta em mais pormenor o "golpe" de Queipo de Llano em Sevilha e, com um enorme buraco pelo meio, a campanha nacionalista até Madrid, onde Pedro é ferido.

Desta prosa atrapalhada e confusa, sobra uma pérola. Cito: "No lado oposto, pontificava o socialista de esquerda Largo Caballero, um político populista e demagogo (...). "A revolução a que aspiramos - dizia ele, sem medir as palavras - só terá sucesso através da violência."" Isto sobre um homem a quem chamavam desde 1933 o "Lenine de Espanha, um homem que organizara e declarara a greve geral revolucionária de 1934 (a chamada "revolução de Outubro) e que já expressamente ameaçara antes com a guerra civil : "não media as palavras". Isto sobre o chefe de um partido, cujo programa, entre outras coisas, reclamava: a nacionalização da terra, a dissolução e expropriação das ordens regulares, a dissolução do exército e a dissolução da Guarda Civil: "não media as palavras".

A política de não-intervenção - O narrador volta à denúncia (indignada, claro) da política de não-intervenção. Tal qual como se Blum (a Frente Popular Francesa) e a Inglaterra fossem absolutamente livres de intervir e tivessem escolhido não o fazer. Não eram e seria aqui inútil demonstrar por quê. Mas três observações de Miguel Sousa Tavares merecem (pelo absurdo) um comentário.

1.ª Sousa Tavares escreve: "De início, o ditador comunista (Estaline) não parecia muito inclinado a envolver-se no conflito espanhol, mas a enorme pressão exercida pelo Komintern acabou por forçá-lo a mudar de política." Se, em 1936, algum membro do Komintern manifestasse a mais ligeira discordância de Estaline, seria imediatamente morto, se estivesse na URSS, ou expulso do partido, se não estivesse. Miguel Sousa Tavares não sabia isto?

2.ª Sousa Tavares escreve, glosando o tema: "Depois de duas décadas a pregar o "internacionalismo proletário", os comunistas de todas as partes do mundo não conseguiam compreender como é que a "Pátria do Socialismo" poderia assistir de braços cruzados a um conflito onde um povo em armas pela Revolução Socialista enfrentava uma coligação de todas as direitas, apoiada por Hitler e Mussolini." Os comunistas não conseguiam compreender? Não tinham compreendido o terror no Partido da União Soviética, os julgamentos de Moscovo (e ainda em 1936 os de Zinoviev e Kamenev), a mudança na Alemanha e na França da estratégia "classe contra classe" para a estratégia "frente popular"? Não iriam compreender o pacto germano-soviético em 1939? Miguel Sousa Tavares não sabia disto?

3.ª Sousa Tavares escreve: "Graças ao trabalho de sapa do embaixador em Espanha, Teotónio Pereira, e à sua facilidade em chegar junto a Franco, foi possível (...) conter os ímpetos expansionistas do ministro (dos Negócios Estrangeiros e antes do Interior) espanhol (Serrano Suner) e a sua tentação de estender o Reich à Península Ibérica. / Este foi o primeiro objectivo de Salazar na pasta (dos Negócios Estrangeiros) e teve sucesso." Miguel Sousa Tavares engole aqui (anzol, linha e cana) a propaganda salazarista. Franco nunca quis qualquer aliança com Hitler como provam à saciedade as condições proibitivas que lhe pôs no encontro de Hendaye (1940). Hitler também não queria a expansão da Alemanha para sul, como escreveu no Mein Kamppf , nem a "estratégia de ofensiva no sul", como mostrou em 1940 e 1941. Em Hendaye, queria que a Espanha expulsasse a Inglaterra de Gibraltar, sozinha ou com uma pequena ajuda, e sem compensações territoriais, susceptíveis de incomodar a Itália e a França de Vichy, coisa que Franco naturalmente recusou. Nem Salazar, nem Teotónio Pereira contribuíram fosse o que fosse para a neutralidade da Península.

Política externa de Salazar - Sobre a política externa de Salazar é ocioso insistir. A neutralidade de Portugal convinha aos dois lados. As pequenas cedências aqui e ali (volfrâmio, Açores) como a zanga com Armindo Monteiro, embora parte do folclore da velha oposição, não têm qualquer espécie de significado. Um ponto, no entanto: ao contrário do que Sousa Tavares parece pensar (ou leva o leitor a pensar), Salazar deu "total liberdade" a todos os "serviços de espionagem" e não só aos alemães.

Política brasileira - Por causa da progressiva emigração de Diogo para o Brasil, há em Rio das Flores dezenas de páginas sobre política brasileira (e mesmo sobre a economia do café), que não sou competente para avaliar. De resto, se o assunto me interessasse, e duvido que interesse alguém em Portugal, escolhia outro livro. Com este (que li e reli), não aprendi nada.


Cronologia
Miguel Sousa Tavares reconhece, numa "nota final", que tomou algumas liberdades com a cronologia. O que não interessaria muito, se elas não afectassem a substância da intriga. Mas neste caso afectam. Duas vezes.

1.ª Miguel quer "mover" Diogo para o Brasil. Diogo é proprietário de uma firma de import-export, que um judeu alemão, Gabriel Matthaus, representa no Brasil. Em Dezembro de 1935, Gabriel vai ver a família à Alemanha e, segundo Sousa Tavares, fica oficialmente impedido de tornar a sair. Ora, excepto se Gabriel fosse por qualquer razão um "suspeito" político (coisa que o livro não menciona), em 1936 podia ainda deixar a Alemanha, embora sem dinheiro ou praticamente sem dinheiro (o que o prejudicava relativamente pouco porque vivia da empresa do Brasil). Entre 1933 e 1937, emigraram 87.000 judeus alemães dos 437.000 que continuavam no Reich: 25.000 em 1936 (o ano em causa) e 23.000 em 1937. Verdade que em 1937, não em 1936, o Brasil fechou as portas à emigração judaica, mas ficaram Cuba, a Colômbia, a Venezuela e o México, onde era depois possível arranjar um "visto" para outro destino. A situação de Gabriel serve principalmente para "avançar" a intriga do romance (Diogo parte para o Brasil para o substituir) e para uma breve, e como sempre distorcida e primária, referência ao Holocausto. Esta espécie de "habilidade" cronológica não é venial, nem aceitável.

Mas, antes de passar à frente, não resisto a uma transcrição, típica da maneira como Sousa Tavares escreve sobre o mundo: "No mês anterior", declara ele, "Hitler anexara a Renânia ao Reich, fazendo tábua rasa dos Acordos de Versalhes, que haviam estabelecido a região como zona desmilitarizada." Hitler não anexou a Renânia, porque a Renânia era parte do Reich. Hitler militarizou a Renânia, coisa que o Tratado de Versalhes de facto proibia. Quase tudo o que Sousa Tavares diz sobre Hitler e o nazismo é assim: errado, aproximativo ou confuso.

2.ª Lá mais para o fim do livro, Sousa Tavares tem o problema contrário: a intriga exige que Diogo fique no Brasil. Como resolver a coisa? Sousa Tavares inventa que a partir do começo da guerra (Setembro de 1939) não existia maneira de atravessar o Atlântico em segurança. Existiu, pelo menos, durante um ano, até Julho de 1940, e em rigor até Julho de 1941, para navios de passageiros com bandeira neutra, que viajavam para portos de países neutros. Centenas de milhares de pessoas foram nessa altura para a América do Sul e para a América do Norte, sem uma perda, e os barcos voltavam para a Europa meio vazios.

Mas com este truque Sousa Tavares faz com que Diogo não venha para Portugal contra a sua vontade, porque isso é essencial à intriga e à "definição" da personagem. Imagino que um iletrado (a maioria dos leitores) acredite piamente em Sousa Tavares.


O uso das fontes e "peças de jornalismo"
Para além das "meditações" sobre política (sob forma de polémica ou não), Sousa Tavares precisa de "encher" o romance, de o "enchumaçar". Para isso, usa fontes. Na história, como na ficção histórica, as fontes devem servir para suportar uma narrativa ou um argumento, esclarecer um ponto obscuro, excepcionalmente para uma descrição com valor alegórico, metafórico, simbólico, analítico ou dramático. Nunca devem servir para uma simples paráfrase ou como uma espécie de reservatório de elementos decorativos, para dar "cor" a um episódio, à maneira do jornalismo de "revista". Infelizmente, é assim que Sousa Tavares sistematicamente as usa. Há passagens que quem se deu ao trabalho de ler a bibliografia percebe muitas vezes donde foram "tiradas". Segue uma lista:
1.º Uma tourada em Sevilha. Sousa Tavares não estava com atenção quando "estudou" a fonte e confunde a capa (ou capote) com a muleta. Daí em diante é o puro disparate.
2.º História abreviada do Palácio Real de Estremoz.
3.º Descrições de vários automóveis.
4.º Descrição do voo de um Zeppelin sobre Lisboa.
5.º Opiniões do embaixador inglês (em 1929) e do sr. R.A. Gallop sobre os portugueses.
6.º Breve história do restaurante Tavares Rico.
7.º O cinema em Lisboa no princípio dos anos 30.
8.º Descrição dos efeitos da crise de 1929 em Portugal.
9.º Descrição de um Zeppelin.
10.º Descrição e história do hotel Copacabana Palace.
11.º Nova descrição de hotéis e de alguns cafés frequentados por intelectuais no Rio.
12.º Preparativos para a Exposição do Mundo Português e obras da referida Exposição.
13.º Economia do café no Brasil.
14.º Descrição e história da fazenda Águas Claras.
15.º Diatribe contra intelectuais brasileiros que colaboram com Getúlio Vargas.
16.º Algumas notas sobre a família Werneck.
17.º Descrição e história da cidade de Vassouras.
18.º Descrição da querela entre Salazar e Armindo Monteiro.
19.º História da demissão do vice-cônsul de Portugal em Vichy (depois de preso pela Gestapo), recomendada por um terceiro secretário de embaixada, Emílio Patrício.

A maior parte destas digressões não tem qualquer função na narrativa: não passa de um ornamento "colado" à narrativa. E a pequena parte que tem uma função podia ter sido reduzida a uma frase ou a meia dúzia de linhas. Sousa Tavares não diz nada indirectamente: não sugere, não insinua, não omite. Não escreve como quem escreve um romance, escreve como quem escreve um relatório: directamente, com a mesma luz branca e monótona para tudo.

Lendo o Rio das Flores, uma pessoa sente claramente quando entrou a "ficha" (de informação) sobre isto ou sobre aquilo. E o peso das fichas torna o livro pueril como um "trabalho de casa". Mas também o desequilibra. A interminável quantidade de páginas sobre, por exemplo, os Zeppelin, a política brasileira (em que Diogo não participa) ou as belezas de Vassouras são meras curiosidades, que estão ali porque estão, e atenuam ou dissolvem a já fraca intensidade do romance.


Comida
No Rio das Flores há 17 descrições de comida. Dessas 17 só quatro ou cinco (e com muito boa vontade) se justificam.


Sentenças
De quando em quando, Sousa Tavares gosta de dar a sua sentença. Para apreciar a sua profundidade e a perspicácia, aqui vão algumas:

1.º "... O Corpo Expedicionário Português fora dizimado em dois dias de Abril à mais imbecil estratégia militar de todos os tempos - a chamada guerra das trincheiras..." Morreram 9 milhões de pessoas porque ninguém (pelo menos tão inteligente com Sousa Tavares) descobriu que a guerra de trincheiras era imbecil.

2.º "... numa Europa ainda mal refeita dos efeitos catastróficos da imbecil guerra de 14-18..." E pensar a gente que se gastou tanto tempo a tentar perceber uma "imbecilidade".

3.º "... toda a elite nacional de então, continuava a alimentar a lenda do regresso desse patético rei D. Sebastião - o mais imbecil, incompetente e irresponsável governante de toda a história de Portugal." Isto é o que Sousa Tavares compreende de D. Sebastião e do sebastianismo.

4.º "... o poeta (Fernando Pessoa) retirava-se (...) dedicando-se (...) à escrita da mais extraordinária obra literária que Portugal alguma vez tivera." Nada de discussões.

5.º "A lista dos intelectuais que militaram pela causa da esquerda espanhola era absolutamente impressionante - não havia, praticamente, um escritor, um músico, um filósofo prestigiado, um Prémio Nobel, que lá não figurasse..." Palavra de honra?

Estes juízos não são percalços, são sinais particularmente cómicos da imaturidade e presunção que permeiam o livro inteiro.

"Personagens"
Como escrevi acima, anda muita gente pelo Rio das Flores: que sai e entra, com uma identidade qualquer e se esquece imediatamente. Na família Ribera Flores, que ocupa o centro da história, as mulheres, Maria da Glória e Amparo, são meros comparsas, de uma confrangedora convencionalidade. Nada de essencial as distingue uma da outra. Literariamente, não existem.

Diogo, o herói principal, é, por um lado, uma colecção de opiniões: representa a inquietação democrática. E, por outro, uma colecção de decisões arbitrárias e de paixões melodramáticas: representa a inquietação existencial. Mas, como só vê e só percebe a superfície dele próprio, do mundo e das pessoas, nunca chega a interessar ou a comover. Não passa de um artifício.

Pedro, o irmão, representa a tradição do latifundiário alentejano e a reacção política. Serve de contraponto a Diogo. Consegue ser um pouco mais "real" do que Diogo. Mas, sendo do princípio ao fim uma "personagem" esquemática e, por isso mesmo, previsível, não é convincente.


Como escreve Sousa Tavares
Como escreve Sousa Tavares? Sousa Tavares não tem um "estilo", se entendermos por "estilo" uma forma característica de escrever. Sousa Tavares escreve como um jornalista: fluentemente e anonimamente. Quando quer ir mais longe e "fazer estilo", os resultados não se recomendam. Um exemplo ao acaso: "Parecia que Sevilha inteira flutuava com ele dentro de um carrossel de sensações, de excitação, rumo a um ponto qualquer onde tudo aquilo teria forçosamente de explodir num apocalipse."

O lugar-comum abunda: "as areias de Alcácer-Kibir" são "incandescentes"; a "beleza de Amparo" é "encandeante"; a actividade do Natal "é desenfreada"; a "continuidade das coisas" é "reconfortante"; o filho de Diogo "ensaia os primeiros passos"; as pernas de uma senhora são "bem desenhadas" e os olhos "grandes" e a boca "rasgada"; a mãe ama o filho "até ao absurdo"; o corpo da senhora já referida é "esguio e proporcionado"; as palavras "estrangulam a garganta" da mesma senhora; quando Pedro percebe que ela o vai deixar é "como se uma bomba tivesse acabado de rebentar dentro da cabeça dele"; "quem nunca sofreu por amor nunca aprenderá a amar. Amar é o terror de perder o outro, é o medo do silêncio e do quarto deserto...", etc., etc., etc.
Sempre assim.

Conclusão
Como romance histórico e político da primeira metade do século XX, uma alta ambição, o Rio das Flores vale pouco ou nada. Com a sua superficialidade e a sua ignorância (a bibliografia do livro mostra principalmente o que ele não leu, ou seja, quase tudo), Sousa Tavares repete a versão popular "esquerdista", sem "iluminar" a época e sem a perceber. Como romance de uma família, o Rio das Flores é pobre e vulgar. Há quem se entretenha com esta espécie de produto, mas não se trata com certeza de literatura.

Uma última observação: discuti neste artigo um livro e um autor, não estou disposto a discutir a minha pessoa ou a pessoa de Sousa Tavares.

O título é da responsabilidade da redacção


por Booktailors às 13:59 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Sex, 23/Nov/07
Sex, 23/Nov/07
A obra «O papel e o Pixel», de José Afonso Furtado, será apresentada na Casa Fernando Pessoa, no dia 27 de Novembro (terça-feira) pelas 18h30.
A apresentação do livro estará a cargo de João Caraça.


O livro «O Papel e o Pixel» foi publicado inicialmente no Brasil, posteriormente em Espanha e só agora em Portugal. Quer explicar-nos este percurso?
Em Novembro de 2004 participei, como conferencista convidado, no I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial, promovido pela Fundação Casa de Rui Barbosa e Universidade Federal Fluminense. Os temas que então abordei despertaram o interesse de Dorothée de Bruchard que me propôs a edição de uma obra de maior fôlego na editora de que é responsável, a Escritório do Livro. Como tinha vindo, desde o início de 2003, a acumular material e reflexões sobre esta questão (designadamente para um texto com que participei no projecto Ciberscópio, coordenado por Maria Manuel Borges, e para um artigo publicado na revista Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), aceitei o desafio e concluí a obra ao fim de cerca de um ano de trabalho adicional. Ela foi publicada no Brasil no primeiro trimestre de 2006 e constitui, desse modo, a edição original. Nessa altura, estava convicto da sua rápida publicação entre nós, já então na Ariadne, mas problemas no seu funcionamento ocasionaram sucessivos adiamentos. Entretanto, alguns exemplares da edição brasileira foram circulando em Portugal, o que terá contribuído para uma proposta das Ediciones Trea para a sua tradução em Espanha, onde foi editado há meia dúzia de meses. Retomada agora a actividade da Ariadne, surge finalmente a edição no nosso País.

Quais as grandes diferenças entre as três edições da obra?
A edição brasileira corresponde ao texto original, mas com as particularidades resultantes da decisão de o adaptar à variante brasileira da língua. Esse trabalho foi lento e muito rigoroso e beneficiou da muita experiência de Dorothée de Bruchard, que é também uma reputada tradutora, e do Professor Walter Carlos Costa da Universidade de Santa Catarina. Tratou-se quase de uma experiência de close reading, pois envolveu, para além da natural preocupação com a terminologia (por exemplo, no Brasil dificilmente alguém entenderá o conceito de «literacia» pois a literatura especializada usa o termo «letramento»), uma cuidadosa atenção às nuances e conotações próprias da língua de chegada. Já a tradução para castelhano foi feita a partir do meu texto inicial, revisto e actualizado no final de 2006 e início deste ano. É essa versão que a edição portuguesa segue, no essencial.

De que forma se articula a sua carreira como docente na Pós-Graduação da Universidade Católica (onde lecciona a cadeira "O livro e Edição na Era Digital"), com esta obra? E, já agora, com o cargo de director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian?
De um modo muito harmonioso e produtivo. O facto de ter assegurado cadeiras sobre temas da edição desde 1994 (fui docente do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa entre essa data e 2002), impõe-me uma disciplina, uma focalização e uma permanente actualização sobre os diversos aspectos do mercado do livro que, destinando-se num primeiro momento às aulas, acabam muitas vezes por vir a ser desenvolvidos e aprofundados, integrando outras preocupações de índole mais «ambiental» (que não caberiam nos objectivos de uma cadeira) e gerar artigos, conferências e, ocasionalmente, livros como este. Por outro lado, a especificidade destes Cursos de Especialização ou de Pós-Graduação possibilita uma interacção muito viva com os alunos, alguns deles com larga experiência no campo da edição, que é para mim muito estimulante e enriquecedora.
No que se refere às minhas responsabilidades à frente da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian as relações são ainda mais óbvias, quer com a actividade de leccionação quer com a escrita sobre estas matérias. Na verdade, as bibliotecas fazem parte da cadeia tradicional do edição e enfrentam hoje, igualmente, os desafios do paradigma digital emergente, desafios por vezes muito próximos daqueles dos agentes da edição (por exemplo, as opções a tomar na digitalização das colecções de um biblioteca ou da backlist de um editora não são muito diferentes) e, mais ainda, sendo um polo final da cadeia de abastecimento, têm que gerir situações muito complexas geradas pelas estratégias de gestão de conteúdos digitais por parte dos grupos editoriais (pense-se na chamada «crise dos periódicos» na área da edição STM, por exemplo). Por fim, em muitas situações as bibliotecas têm vindo a desenvolver actividades I&D antes dos próprios editores: questões como a integração de recursos electrónicos de informação nos seus catálogos, de formatos e de standards para a migração digital, de compatibilidade e interoperabilidade, de disponibilização e acesso dos seus recursos em qualquer suporte, de preservação e recuperação perene dos ficheiros digitais, mas perene também no sentido da localização fiável dos documentos ao longo do tempo, de recommender systems, de utilização de alguns mecanismos da chamada Web 2.0, fazem hoje parte do quotidiano de qualquer biblioteca que mereça esse nome.

Como vê a edição digital do ponto de vista do negócio editorial: uma oportunidade ou uma ameaça?
As mudanças que atingem neste momento o negócio da edição, pela sua dimensão, acarretam necessariamente oportunidades e ameaças; mas sobretudo desafios, que serão tanto melhor compreendidos se evitarmos fórmulas feitas, simplificações redutoras ou as prioridades da agenda mediática. Neste mesmo momento, somos mais uma vez dominados pela questão dos dispositivos de leitura electrónica (ebooks, readers, etc.) com as novas versões do Iliad iRex, do Sony Reader, com o lançamento do Bookeen e com a entrada da Amazon neste mercado com o Kindle. Há dez anos sucedeu algo de muito semelhante, com o aparecimento do Rocket eBook, do SoftBook Reader, do Franklin eBookMan, entre outros. Ora, isto não é mais do que a «espuma» da questão da edição na era digital. Antes de se analisar a questão da distribuição electrónica de conteúdos, é aconselhável trabalhar num quadro conceptual e analítico muito mais alargado, no qual gostaria de referir três pontos. Em primeiro lugar, devem distinguir-se pelo menos quatro níveis diferentes no que diz respeito ao impacte da digitalização na indústria da edição: o nível dos sistemas de operação; o nível da gestão e manipulação do conteúdo (a progressiva emergência do digital workflow); o nível do marketing e serviços e, por fim, o nível da distribuição de conteúdo. Se é certo que este último nível é aquele em que o impacte da tecnologias digitais na indústria da edição é potencialmente mais profundo (a disponibilização do conteúdo directamente ao consumidor final em rede e de modo electrónico e não sob a forma de um objecto físico, irá transformar todo o modelo financeiro da edição), é forçoso reconhecer que as tentativas de estabelecer um modelo de negócio com base na distribuição de activos digitais têm sido muito diversificadas e normalmente sem sucesso estabilizado. Mike Shatzkin tem vindo a referir-se à necessidade de consolidação, na cadeia de valor, de «digital asset distributors» (DAD's), mas a situação neste domínio é por enquanto pouco clara. Verificamos assim que, se estes quatro pontos remetem para uma revolução no produto, talvez neste momento predomine antes uma revolução no processo, aquilo a que John B. Thompson chama The Hidden Revolution, o que significa que em vez do previsto ou anunciado brave new world totalmente integrado dos circuitos digitais dos profetas dos e-books, o que parece estar a ocorrer é uma revolução nas práticas do office e do back-office, algo que a computarização trouxe para todas as indústrias baseadas na informação.
Em segundo lugar, é necessário compreender que a indústria da edição é um domínio enormemente complexo e variado. Existem muitos tipos de edição, diversos produtos e mercados, não tendo grande sentido tratá-los como um todo. Por isso devemos desagregar a noção genérica de «indústria da edição de livros». Se trabalharmos a partir do conceito de campo (na sequência de Bourdieu), o mundo da edição de livros pode ser conceptualizado como um conjunto de campos editoriais, cada um com as suas características e dinâmicas próprias. E o que os distingue é o tipo de conteúdo produzido no seu interior e o tipo de mercado para que é produzido, em conjunto com as relações de associação, tipos de marketing e formas de reconhecimento. Uma das formas de entender os campos é assim uma apurada segmentação do mercado. E se o fizermos, verifica-se que existem certas formas de conteúdo que são mais adequados ao ambiente digital, seja pelo seu carácter mais granular e por integrar rapidamente as mais-valias funcionais características desse ambiente, seja pelos modos como esse conteúdo é normalmente apropriado e usado. Ao invés, há outras formas de conteúdo em que se verifica um incerteza efectiva sobre a sua adequação à distribuição e utilização online. Assim, as tecnologias digitais, embora irrenunciáveis para o futuro da edição, afectam os seus elementos – relação com o consumidor, natureza do produto e o modelo de negócio - de modos diferentes e a velocidades diferentes.
Por fim, em meu entender, constituiria um erro enfatizar a edição digital como um domínio separado pois, como refere Anne Galligan, a edição electrónica, a fim de procurar estabelecer estruturas comerciais lucrativas, tem vindo a desenvolver uma relação simbiótica com a indústria tradicional. Dir-se-ia que se tem seguido uma estratégia para posicionar o livro electrónico como um artefacto cultural digital no interior da cultura consolidada do livro impresso, onde procura estabelecer-se lentamente como um nicho de mercado. Isso não impede que nos encontremos numa fase de transição complexa, que passa pela necessidade de repensar, se não de reinventar, o próprio business.


por Booktailors às 14:27 | comentar | partilhar

Qui, 22/Nov/07
Qui, 22/Nov/07
«A revolução digital é parte - mas apenas parte - de uma série de profundas mudanças que estão a transformar não só o mundo da edição mas as indústrias criativas em geral. O livro impresso não irá desaparecer, como muitos vaticinaram, mas a indústria da edição terá de fazer face, não a substituições, mas a reestruturações, em que a forma mais antiga sobrevive, persiste com a nova e com ela se articula numa nova economia»
José Afonso Furtado, Suplemento, Belo Horizonte, Janeiro de 2007.

O lançamento da obra O papel e o Pixel, de José Afonso Furtado, decorrerá na Casa Fernando Pessoa, no dia 27 de Novembro pelas 18h30. A apresentação do livro estará a cargo de João Caraça.

Não perca na próxima sexta-feira, dia 23.11.2007, uma entrevista com o autor. Um exclusivo Blogtailors.


por Booktailors às 10:26 | comentar | partilhar

Qui, 22/Nov/07

A Zéfiro, à semelhança daquilo que por exemplo a Amazon.com já faz, este Natal, por forma a incrementar as vendas no seu website, lançou uma campanha em que garante 10% de desconto sobre o preço de capa, oferece os portes e ainda trata do embrulho do livro, havendo a possibilidade de juntar ao presente uma mensagem personalizada.

O embrulho é gratuito, a mensagem personalizada tem o custo de 0,50€.

A iniciativa parece-nos bastante boa. Pena apenas que o website não reflicta esta ideia de forma evidente...


por Booktailors às 10:20 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Qua, 21/Nov/07
Qua, 21/Nov/07
Ainda na sequência de «O Papel e o Pixel», temos hoje dois casos interessantes que merecem destaque.

No Brasil, alguns estagiários da Universidade de São Paulo criaram um projecto interessante: a TV Livro.
Para quem não conhece, é um portal gratuito, criado um pouco à semelhança do YouTube, para o mundo dos livros e em língua portuguesa.

Apresenta videos sobre literatura, livros, autores e editoras e aconselhamos hoje a ver: Ler devia ser proibido.

O outro caso vem também de além-mar, um pouco mais a Norte, mais perto da nossa latitude.
Dorothea Lasky, jovem poetisa, publicou recentemente um livro.
Não tendo à sua disposição avultados orçamentos de promoção, viu-se gorado o seu sonho de fazer uma «tour» pelas livrarias tradicionais dos EUA, lendo e promovendo a sua obra para todos os demais.
Mas se os sonhos têm espaços virtuais, este tem também uma realidade virtual e Dorothea criou, assim, a «Tiny Tour»

Impossibilitada de fazer grandes viagens, a autora convidou os amigos e desconhecidos a viajar em sua casa, onde todos os meses faz uma sessão de leitura (ela e alguns amigos seus) numa parte diferente da casa.
Com sessões emblemáticas como na casa de banho ou na escada de incêndio, as sessões são assistidas pelos poucos que lá conseguem caber e pelos milhares que através da Internet assistem aos videos das leituras.



Numa altura de convergência, onde as fronteiras ensombram e assustam todos os demais, aparecem estes exemplos que corroboram como os meios se complementam, como podem auxiliar a melhorar e partilhar a experiência de leitura e dos livros.
A Internet é hoje o novo paradigma da comunicação, uma ágora virtual mais capaz do que todas as ágoras juntas, um local de partilha que deve ser usado para potenciar as forças e características essenciais e únicas que fazem do livro aquilo que ele é.

PS:
O lançamento do livro O Papel e o Pixel, de José Afonso Furtado, decorrerá na Casa Fernando Pessoa, no dia 27 de Novembro, pelas 18h30. A apresentação do livro estará a cargo de João Caraça.

Não perca na próxima sexta-feira, dia 23.11.2007, uma entrevista com o autor. Um exclusivo Blogtailors.


por Booktailors às 10:16 | comentar | partilhar

Ter, 20/Nov/07
Ter, 20/Nov/07

Já aqui tinhamos falado desta obra. Nessa altura, falámos das edições brasileira e espanhola, tendo inclusive deixado dois comentários à obra (edição brasileira) produzidos por Rogério Santos e Isabel Coutinho (está tudo no link acima).

Ainda nessa altura, referimos que não havia edição portuguesa da obra.

Felizmente ela chegou.

E ainda por cima revista em relação à edição brasileira, sendo a edição portuguesa da responsabilidade da Ariadne.

Numa altura que tanto se fala do Kindle (ver posts abaixo), esta obra é lançada no timing exacto. A obra ainda não fala do Kindle (o aparelho foi lançado ontem), mas não deixa de ser fundamental para compreendermos todos "os Kindles" lançados até hoje e o que isso implicou no objecto livro, nas leituras, no acesso à informação.


Deixamos aqui a informação cedida pela editora sobre a obra:


Desde há muito pensador laborioso do livro e das suas condições, José Afonso Furtado apresenta-nos em O papel o o pixel as grandes questões sobre o livro na era do digital.


Percorrendo os capítulos Livro electrónico e edição electrónica: tentativa de definição, Versões electrónicas e reconceptualização do livro no mundo digital, Mediação tecnológica e remediação, Técnicas, textos, usos. Questões cognitivas e práticas sociais, o leitor encontrará uma reflexão actualizada do panorama actual do livro e da sua transformação em digital, sabendo que uma não anula a outra, antes torna os problemas diferentes, revolucionando as práticas de leitura e as aprendizagens cognitivas.


Sobre o autor:
José Afonso Furtado é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste de Gulbenkian desde 1992. É também Docente do "Curso de Pós-Graduação em Edição - Livros e Novos Suportes Digitais" da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e Conferencista convidado do “Curso de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual” da Faculdade de Direito da mesma Universidade.


Publicou O que é o Livro, Difusão Cultural, Lisboa, 1995, Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação, Livros e Leituras, Lisboa, 2000, para além de vários artigos e separatas.



Sobra o autor:


José Afonso Furtado nasceu em Alcobaça em 1953.


Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Durante largos anos desenvolveu a sua actividade profissional em organismos governamentais na área da Cultura, tendo exercido entre 1987 e 1991 o cargo de Presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura. Foi membro do Conselho Superior de Bibliotecas desde 1998 até à sua extinção em 2007. É actualmente membro da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura e exerce as funções de Director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste de Gulbenkian desde 1992.


É Docente do "Curso de Pós-Graduação em Edição - Livros e Novos Suportes Digitais" da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, sendo Conferencista convidado do “Curso de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual” da Faculdade de Direito da mesma Universidade.


Para além de vários artigos e separatas, publicou O que é o Livro, Difusão Cultural, Lisboa, 1995, Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação, Livros e Leituras, Lisboa, 2000 e O papel e o pixel. Do impresso ao digital: continuidades e transformações, Florianópolis (Brasil), Escritório do Livro, 2006 (edição espanhola: El papel y el píxel. De lo impreso a lo digital: continuidades y transformaciones, Gijón, Ediciones Trea, 2007).




O lançamento da obra decorrerá na Casa Fernando Pessoa, no dia 27 de Novembro pelas 18h30. A apresentação do livro estará a cargo de João Caraça.


Não perca na próxima sexta-feira, dia 23.11.2007, uma entrevista com o autor. Um exclusivo Blogtailors.


por Booktailors às 12:17 | comentar | partilhar

Ter, 20/Nov/07
Com a crescente capacidade de atracção das casas de impressão chinesas, a indústria gráfica europeia e norte-americana estão a começar a sofrer fortes quebras nos seus contratos de impressão.

Por esse motivo, a União Europeia encomendou um Estudo à Ernst & Young sobre a Competitividade da Indústria Gráfica Europeia, que foi agora apresentado.

Quem o quiser ler, pode encontrá-lo aqui.


por Booktailors às 10:41 | comentar | partilhar

Seg, 19/Nov/07
Seg, 19/Nov/07
A ver entre os segundos 43 e o minuto e 2 segundos:


por Booktailors às 17:40 | comentar | partilhar

Seg, 19/Nov/07
Algumas notas sobre o Kindle, o suporte da Amazon.com, a que temos vindo a dar destaque ao longo do dia. Uma notícia Jornal de Negócios, com a Bloomberg.


«A Amazon.com, a maior retalhista mundial na Internet, lançou um dispositivo electrónico para a leitura de e-books, na tentativa de replicar o sucesso alcançado pela Apple Inc. com o iPod no sector fonográfico.

O aparelho, baptizado de Kindle, será vendido por 399 dólares , disse hoje em comunicado a Amazon.com. Mais de 90.000 livros estarão disponíveis para o dispositivo, incluindo best-sellers e lançamentos, muitos dos quais custarão 9,99 dólares cada, disse a empresa.

A Amazon.com aumentou os investimentos em tecnologia para lançar o Unbox, formado por um serviço de download de vídeos e uma loja para "download" de músicas, com a intenção de reduzir sua dependência das vendas de livros, CDs e DVDs.

A retalhista está a diversificar suas ofertas de produtos, tal como fez a Barnes & Noble Inc. e numa altura em que outras livrarias reduzem os preços, promovendo programas de fidelidade para os seus clientes.

As vendas de livros, DVDs e outros produtos de media corresponderam a 64% da receita da empresa no terceiro trimestre deste ano, o que representa uma queda de 67% em relação ao mesmo período de 2006.

A Amazon.com comercializa produtos de mais de três dezenas de categorias, que variam de ferramentas eléctricas a instrumentos musicais. As compras de produtos electrónicos e mercadorias em geral avançaram 54% no terceiro trimestre deste ano, enquanto que as de livros e CDs aumentaram 36%, impulsionadas pela comercialização do último livro da série Harry Potter.

As vendas de livros electrónicos aumentaram 24% em 2006, passando a totalizar 54 milhões de dólares, segundo a Associação de Editoras Americanas. Este formato correspondeu a menos de 1% dos 24,2 mil milhões de dólares em vendas registados pelas editoras norte-americanas no ano passado. A Sony Corp. lançou uma nova versão de seu leitor de livros portátil este ano.
"Até prova em contrário, os e-books constituem um mercado muito pequeno e geram menos receita do que a soma que foi investida para desenvolver o produto", disse Michael Cader, criador do site sectorial PublishersMarketplace.com "O ónus da prova está nas mãos da Amazon e ela tem de provar que há um mercado para os livros electrónicos."


por Booktailors às 17:18 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Seg, 19/Nov/07
Ainda sobre este assunto, veja-se a reacção de Seth Godin, que afirma que a sua obra não fará parte do novo leitor de livros, de Jeff Bezos - o Kindle.

"I've been hyperventilating about Amazon becoming a book publisher since at least 1998. That's the juicy part of the business... finding writers for your readers as much as you spend time finding readers for other people's writers. A book costs about a dollar or two to print and sells for $20... Lots of room there for Amazon to integrate the process, to find long tail successes, to match hidden needs with authors needing promotion.


Kindle, the code name for their new ebook reader, gives them a platform where they can actually begin to be a publisher (though for now, they're resorting to acting like a low-paid middleman, once again leaving short-sighted publishers to cripple a new medium).
When Amazon came to talk to me about being included on the reader a long long time ago, I said sure, but.


The but is that I wanted my books to be free and included in every reader, and my blog, too.
The beauty of real books is that they don't require a reader, which means that millions of people are eligible members of the market. Even if you only have .0001% market share, you can still get your book read.


The challenge that my hero Jeff Bezos has is that if he's really really lucky, he'll sell a million of these things in a year. And that means that at $10 a book, you need to have significant market share to make an impact. The Sony reader has been out for months and it has sold, perhaps, a few thousand units.


My thought was to use it, at least for a few years, as a promotion device. Give the books for free to anyone who buys the $400 machine. (Maybe you can have 1,000 books of your choice, so there's not a lot of 'waste'.) You'll sell more machines that way, that's for sure. And the people willing to buy the device are exactly the sort of people that an author like me wants to reach. No harm, no foul, all three of us win. If there were a million of these machines out there and an author had a chance to have her next book show up automatically on all of them, few among us would say, "no thanks to that exposure."


This is a disruptive approach, the sort of thing only a market leader could pull off. It changes the world in a serious way. I wanted to be part of that.


I was unpersuasive. Sorry"


por Booktailors às 15:52 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Seg, 19/Nov/07
Artigo de Rui Oliveira Marques, da Meios e Publicidade.

A entrevista a que se alude neste texto foi publicada na edição da passada sexta-feira, dia 16.11.2007, nas páginas 24 e 25 da referida revista, sob o título "O marketing tem uma importância estratégica", citação pertencente a Teresa Figueiredo, directora de Marketing da Bertrand.

«A Bertrand inaugura hoje um novo conceito de loja nas Amoreiras, que irá reabrir ao público depois de passar por obras de reformulação. Como explicou ao M&P Teresa Figueiredo, directora de marketing da Bertrand,"as Amoreiras representam uma mudança no conceito de loja e de espaço, já que vai ser aberta para fora e a área de crianças passou para a frente de loja e é mais interactiva. As Amoreiras vão manter os serviços que tinham antes, mas o espaço vai ser duplicado e a vivência da loja vai mudar muito. Vamos ter espaço para as pessoas estarem sentadas. Todo o espaço é muito agradável e na óptica de estimular à presença na loja".

Em entrevista publicada na última edição do M&P a mesma responsável, a dirigir o marketing da Bertrand há dois meses, adiantou que a empresa pretende "abrir quatro a cinco lojas por ano e estamos a fazer as remodelações necessárias em lojas mais antigas, que precisam de um refresh e de adoptar essa linguagem". Ao longo do dia irão decorrer vários workshops e acções de animação associadas à reabertura da loja das Amoreiras. »


por Booktailors às 15:02 | comentar | partilhar

Seg, 19/Nov/07
Notícia publicada na passada sexta-feira, dia 16 de Novembro, sobre o possível fecho da Palavra, de Gonçalo Bulhosa, no Diário de Notícias, com o título "Editora Palavra corre risco de encerramento ". Artigo de Isabel Lucas.

«A editora Palavra "vive uma situação financeira delicada" e pode em última análise ter de fechar as portas. É desta forma que Gonçalo Bulhosa classifica o actual momento que vive a editora que comprou em Janeiro de 2006 à Asa.

É a reacção do editor às queixas de alguns autores que reclamam o pagamento de direitos sobre os livros que publicaram sob aquela chancela.

Sem editar novidades desde Setembro, mês em que saiu Queda Livre, um livro de ensaios do brasileiro Octávio Frias Filho, Gonçalo Bulhosa estabelece agora como prioridade não a edição, mas o "equilíbrio financeiro" da Palavra e atribui responsabilidades ao momento "difícil" pelo qual passa, sobretudo, à distribuição. "Há dificuldade para as pequenas editoras em colocar e expor os seus livros em locais de venda fundamentais. Dependemos de distribuidoras que trabalham com mais editoras e o nosso poder negocial é baixo."

Com cerca de 60 títulos publicados, a Palavra começou por editar livros de autores brasileiros contemporâneos, mas as dificuldades do mercado ditaram alterações "nem sempre acertadas" no plano editorial. "Cometemos erros estratégicos. O mercado não está para editores apaixonados", comenta Gonçalo Bulhosa que não põe de parte o repensar, numa segunda fase, o plano editorial da Palavra: "Primeiro quero resolver contas em atraso com alguns autores e nisso assumo responsabilidade", ainda que, sublinhe, essas sejam "situações pontuais." Com três funcionários e um investimento pessoal que situa nas "centenas de milhares de euros", a editora teve como maior sucesso o romance de Nelson Motta, O Canto da Sereia que vendeu cerca de dez mil exemplares.»


por Booktailors às 14:46 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Seg, 19/Nov/07

O artigo abaixo, da autoria de Steven Levy, foi publicado na Newsweek.

The Future of Reading

Amazon's Jeff Bezos already built a better bookstore. Now he believes he can improve upon one of humankind's most divine creations: the book itself.

"Technology," computer pioneer Alan Kay once said, "is anything that was invented after you were born." So it's not surprising, when making mental lists of the most whiz-bangy technological creations in our lives, that we may overlook an object that is superbly designed, wickedly functional, infinitely useful and beloved more passionately than any gadget in a Best Buy: the book. It is a more reliable storage device than a hard disk drive, and it sports a killer user interface. (No instruction manual or "For Dummies" guide needed.) And, it is instant-on and requires no batteries. Many people think it is so perfect an invention that it can't be improved upon, and react with indignation at any implication to the contrary.

"The book," says Jeff Bezos, 43, the CEO of Internet commerce giant Amazon.com, "just turns out to be an incredible device." Then he uncorks one of his trademark laughs.

Books have been very good to Jeff Bezos. When he sought to make his mark in the nascent days of the Web, he chose to open an online store for books, a decision that led to billionaire status for him, dotcom glory for his company and countless hours wasted by authors checking their Amazon sales ratings. But as much as Bezos loves books professionally and personally—he's a big reader, and his wife is a novelist—he also understands that the surge of technology will engulf all media. "Books are the last bastion of analog," he says, in a conference room overlooking the Seattle skyline. We're in the former VA hospital that is the physical headquarters for the world's largest virtual store. "Music and video have been digital for a long time, and short-form reading has been digitized, beginning with the early Web. But long-form reading really hasn't." Yet. This week Bezos is releasing the Amazon Kindle, an electronic device that he hopes will leapfrog over previous attempts at e-readers and become the turning point in a transformation toward Book 2.0. That's shorthand for a revolution (already in progress) that will change the way readers read, writers write and publishers publish. The Kindle represents a milestone in a time of transition, when a challenged publishing industry is competing with television, Guitar Hero and time burned on the BlackBerry; literary critics are bemoaning a possible demise of print culture, and Norman Mailer's recent death underlined the dearth of novelists who cast giant shadows. On the other hand, there are vibrant pockets of book lovers on the Internet who are waiting for a chance to refurbish the dusty halls of literacy.

As well placed as Amazon was to jump into this scrum and maybe move things forward, it was not something the company took lightly. After all, this is the book we're talking about. "If you're going to do something like this, you have to be as good as the book in a lot of respects," says Bezos. "But we also have to look for things that ordinary books can't do." Bounding to a whiteboard in the conference room, he ticks off a number of attributes that a book-reading device—yet another computer-powered gadget in an ever more crowded backpack full of them—must have. First, it must project an aura of bookishness; it should be less of a whizzy gizmo than an austere vessel of culture. Therefore the Kindle (named to evoke the crackling ignition of knowledge) has the dimensions of a paperback, with a tapering of its width that emulates the bulge toward a book's binding. It weighs but 10.3 ounces, and unlike a laptop computer it does not run hot or make intrusive beeps. A reading device must be sharp and durable, Bezos says, and with the use of E Ink, a breakthrough technology of several years ago that mimes the clarity of a printed book, the Kindle's six-inch screen posts readable pages. The battery has to last for a while, he adds, since there's nothing sadder than a book you can't read because of electile dysfunction. (The Kindle gets as many as 30 hours of reading on a charge, and recharges in two hours.) And, to soothe the anxieties of print-culture stalwarts, in sleep mode the Kindle displays retro images of ancient texts, early printing presses and beloved authors like Emily Dickinson and Jane Austen.

But then comes the features that your mom's copy of "Gone With the Wind" can't match. E-book devices like the Kindle allow you to change the font size: aging baby boomers will appreciate that every book can instantly be a large-type edition. The handheld device can also hold several shelves' worth of books: 200 of them onboard, hundreds more on a memory card and a limitless amount in virtual library stacks maintained by Amazon. Also, the Kindle allows you to search within the book for a phrase or name.

Some of those features have been available on previous e-book devices, notably the Sony Reader. The Kindle's real breakthrough springs from a feature that its predecessors never offered: wireless connectivity, via a system called Whispernet. (It's based on the EVDO broadband service offered by cell-phone carriers, allowing it to work anywhere, not just Wi-Fi hotspots.) As a result, says Bezos, "This isn't a device, it's a service."

Specifically, it's an extension of the familiar Amazon store (where, of course, Kindles will be sold). Amazon has designed the Kindle to operate totally independent of a computer: you can use it to go to the store, browse for books, check out your personalized recommendations, and read reader reviews and post new ones, tapping out the words on a thumb-friendly keyboard. Buying a book with a Kindle is a one-touch process. And once you buy, the Kindle does its neatest trick: it downloads the book and installs it in your library, ready to be devoured. "The vision is that you should be able to get any book—not just any book in print, but any book that's ever been in print—on this device in less than a minute," says Bezos.

Amazon has worked hard to get publishers to step up efforts to release digital versions of new books and backlists, and more than 88,000 will be on sale at the Kindle store on launch. (Though Bezos won't get terribly specific, Amazon itself is also involved in scanning books, many of which it captured as part of its groundbreaking Search Inside the Book program. But most are done by the publishers themselves, at a cost of about $200 for each book converted to digital. New titles routinely go through the process, but many backlist titles are still waiting. "It's a real chokepoint," says Penguin CEO David Shanks.) Amazon prices Kindle editions of New York Times best sellers and new releases in hardback at $9.99. The first chapter of almost any book is available as a free sample.

The Kindle is not just for books. Via the Amazon store, you can subscribe to newspapers (the Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, Le Monde) and magazines (The Atlantic). When issues go to press, the virtual publications are automatically beamed into your Kindle. (It's much closer to a virtual newsboy tossing the publication on your doorstep than accessing the contents a piece at a time on the Web.) You can also subscribe to selected blogs, which cost either 99 cents or $1.99 a month per blog.

In addition, the Kindle can venture out on the Web itself—to look up things in Wikipedia, search via Google or follow links from blogs and other Web pages. You can jot down a gloss on the page of the book you're reading, or capture passages with an electronic version of a highlight pen. And if you or a friend sends a word document or PDF file to your private Kindle e-mail address, it appears in your Kindle library, just as a book does. Though Bezos is reluctant to make the comparison, Amazon believes it has created the iPod of reading.

The Kindle, shipping as you read this, costs $399. When Bezos announces that price at the launch this week, he will probably get the same raised-eyebrow reaction Steve Jobs got in October 2001, when he announced that Apple would charge that same price for its pocket-size digital music player. No way around it: it's pricey. But if all goes well for Amazon, several years from now we'll see revamped Kindles, equipped with color screens and other features, selling for much less. And physical bookstores, like the shuttered Tower Records of today, will be lonelier places, as digital reading thrusts us into an exciting—and jarring—post-Gutenberg era.


Will the Kindle and its kin really take on a technology that's shone for centuries and is considered the bedrock of our civilization? The death of the book—or, more broadly, the death of print—has been bandied about for well over a decade now. Sven Birkerts, in "The Gutenberg Elegies" (1994), took a peek at the future and concluded, "What the writer writes, how he writes and gets edited, printed and sold, and then read—all the old assumptions are under siege." Such pronouncements were invariably answered with protestations from hard-liners who insisted that nothing could supplant those seemingly perfect objects that perch on our night tables and furnish our rooms. Computers may have taken over every other stage of the process—the tools of research, composition and production—but that final mile of the process, where the reader mind-melds with the author in an exquisite asynchronous tango, would always be sacrosanct, said the holdouts. In 1994, for instance, fiction writer Annie Proulx was quoted as saying, "Nobody is going to sit down and read a novel on a twitchy little screen. Ever."

Oh, Annie. In 2007, screens are ubiquitous (and less twitchy), and people have been reading everything on them—documents, newspaper stories, magazine articles, blogs—as well as, yes, novels. Not just on big screens, either. A company called DailyLit this year began sending out books—new ones licensed from publishers and classics from authors like Jane Austen—straight to your e-mail IN BOX, in 1000-work chunks. (I've been reading Boswell's "Life of Johnson" on my iPhone, a device that is expected to be a major outlet for e-books in the coming months.) And recently a columnist for the Chicago Tribune waxed rhapsodically about reading Jane Austen on his BlackBerry.

But taking on the tome directly is the challenge for handheld, dedicated reading devices, of which the Kindle is only the newest and most credible effort. An early contender was the 22-ounce Rocket eBook (its inventors went on to create the electric-powered Tesla roadster). There were also efforts to distribute e-books by way of CD-ROMs. But the big push for e-books in the early 2000s fizzled. "The hardware was not consumer-friendly and it was difficult to find, buy and read e-books," says Carolyn Reidy, the president of Simon & Schuster.

This decade's major breakthrough has been the introduction of E Ink, whose creators came out of the MIT Media Lab. Working sort of like an Etch A Sketch, it forms letters by rearranging chemicals under the surface of the screen, making a page that looks a lot like a printed one. The first major implementation of E Ink was the $299 Sony Reader, launched in 2006 and heavily promoted. Sony won't divulge sales figures, but business director Bob Nell says the Reader has exceeded the company's expectations, and earlier this fall Sony introduced a sleeker second-generation model, the 505. (The Reader has no wireless—you must download on your computer and then move it to the device— and doesn't enable searching within a book.)

Now comes the Kindle, which Amazon began building in 2004, and Bezos understands that for all of its attributes, if one aspect of the physical book is not adequately duplicated, the entire effort will be for naught. "The key feature of a book is that it disappears," he says.
While those who take fetishlike pleasure in physical books may resist the notion, that vanishing act is what makes electronic reading devices into viable competitors to the printed page: a subsuming connection to the author that is really the basis of our book passion. "I've actually asked myself, 'Why do I love these physical objects?' " says Bezos. " 'Why do I love the smell of glue and ink?' The answer is that I associate that smell with all those worlds I have been transported to. What we love is the words and ideas."

Long before there was cyberspace, books led us to a magical nether-zone. "Books are all the dreams we would most like to have, and like dreams they have the power to change consciousness," wrote Victor Nell in a 1988 tome called "Lost in a Book." Nell coined a name for that trancelike state that heavy readers enter when consuming books for pleasure—"ludic reading" (from the Latin ludo, meaning "I play"). Annie Proulx's claim was that an electronic device would never create that hypnotic state. But technologists are disproving that. Bill Hill, Microsoft's point person on e-reading, has delved deep into the mysteries of this lost zone, in an epic quest to best emulate the conditions on a computer. He attempted to frame a "General Theory of Readability," which would demystify the mysteries of ludic reading and why books could uniquely draw you into a rabbit hole of absorption.

"There's 550 years of technological development in the book, and it's all designed to work with the four to five inches from the front of the eye to the part of the brain that does the processing [of the symbols on the page]," says Hill, a boisterous man who wears a kilt to a seafood restaurant in Seattle where he stages an impromptu lecture on his theory. "This is a high-resolution scanning machine," he says, pointing to the front of his head. "It scans five targets a second, and moves between targets in only 20 milliseconds. And it does this repeatedly for hours and hours and hours." He outlines the centuries-long process of optimizing the book to accommodate this physiological marvel: the form factor, leading, fonts, justification … "We have to take the same care for the screen as we've taken for print."

Hill insists—not surprisingly, considering his employer—that the ideal reading technology is not necessarily a dedicated e-reading device, but the screens we currently use, optimized for that function. (He's read six volumes of Gibbon's "The Decline and Fall of the Roman Empire" on a Dell Pocket PC.) "The Internet Explorer is not a browser—it's a reader," he says. "People spend about 20 percent of the time browsing for information and 80 percent reading or consuming it. The transition has already happened. And we haven't noticed."

But even Hill acknowledges that reading on a televisionlike screen a desktop away is not the ideal experience. Over the centuries, the sweet spot has been identified: something you hold in your hand, something you can curl up with in bed. Devices like the Kindle, with its 167 dot-per-inch E Ink display, with type set in a serif font called Caecilia, can subsume consciousness in the same way a physical book does. It can take you down the rabbit hole.

Though the Kindle is at heart a reading machine made by a bookseller—and works most impressively when you are buying a book or reading it—it is also something more: a perpetually connected Internet device. A few twitches of the fingers and that zoned-in connection between your mind and an author's machinations can be interrupted—or enhanced—by an avalanche of data. Therein lies the disruptive nature of the Amazon Kindle. It's the first "always-on" book.
What kinds of things will happen when books are persistently connected, and more-evolved successors of the Kindle become commonplace? First of all, it could transform the discovery process for readers. "The problem with books isn't print or writing," says Chris Anderson, author of "The Long Tail." "It's that not enough people are reading." (A 2004 National Endowment for the Arts study reported that only 57 percent of adults read a book—any book—in a year. That was down from 61 percent a decade ago.) His hope is that connected books will either link to other books or allow communities of readers to suggest undiscovered gems.

The connectivity also affects the publishing business model, giving some hope to an industry that slogs along with single-digit revenue growth while videogame revenues are skyrocketing. "Stuff doesn't need to go out of print," says Bezos. "It could shorten publishing cycles." And it could alter pricing. Readers have long complained that new books cost too much; the $9.99 charge for new releases and best sellers is Amazon's answer. (You can also get classics for a song: I downloaded "Bleak House" for $1.99.) Bezos explains that it's only fair to charge less for e-books because you can't give them as gifts, and due to restrictive antipiracy software, you can't lend them out or resell them. (Libraries, though, have developed lending procedures for previous versions of e-books—like the tape in "Mission: Impossible," they evaporate after the loan period—and Bezos says that he's open to the idea of eventually doing that with the Kindle.)

Publishers are resisting the idea of charging less for e-books. "I'm not going along with it," says Penguin's Peter Shanks of Amazon's low price for best sellers. (He seemed startled when I told him that the Alan Greenspan book he publishes is for sale at that price, since he offered no special discount.) Amazon is clearly taking a loss on such books. But Bezos says that he can sustain this scheme indefinitely. "We have a lot of experience in low-margin and high-volume sale—you just have to make sure the mix [between discounted and higher-priced items] works." Nonetheless the major publishers (all of whom are on the Kindle bandwagon) should loosen up. If you're about to get on a plane, you may buy the new Eric Clapton biography on a whim for $10—certainly for $5!—but if it costs more than $20, you may wind up scanning the magazine racks. For argument's sake, let's say cutting the price in half will double a book's sales—given that the royalty check would be the same, wouldn't an author prefer twice the number of readers? When I posed the question to best-selling novelist James Patterson, who was given an early look at the Kindle, he said that if the royalty fee were the same, he'd take the readers. (He's also a believer that the Kindle will succeed: "The baby boomers have a love affair with paper," he says. "But the next-gen people, in their 20s and below, do everything on a screen.")
The model other media use to keep prices down, of course, is advertising. Though this doesn't seem to be in Kindle's plans, in some dotcom quarters people are brainstorming advertiser-supported books. "Today it doesn't make sense to put ads in books, because of the unpredictable timing and readership," says Bill McCoy, Adobe's general manager of e-publishing. "That changes with digital distribution."

Another possible change: with connected books, the tether between the author and the book is still active after purchase. Errata can be corrected instantly. Updates, no problem—in fact, instead of buying a book in one discrete transaction, you could subscribe to a book, with the expectation that an author will continually add to it. This would be more suitable for nonfiction than novels, but it's also possible that a novelist might decide to rewrite an ending, or change something in the middle of the story. We could return to the era of Dickens-style serializations. With an always-on book, it's conceivable that an author could not only rework the narrative for future buyers, but he or she could reach inside people's libraries and make the change. (Let's also hope Amazon security is strong, so that we don't find one day that someone has hacked "Harry Potter" or "Madame Bovary.")

Those are fairly tame developments, though, compared with the more profound changes that some are anticipating. In a connected book, the rabbit hole is no longer a one-way transmission from author to reader. For better or for worse, there's company coming.

Talk to people who have thought about the future of books and there's a phrase you hear again and again. Readers will read in public. Writers will write in public. Readers, of course, are already enjoying a more prominent role in the literary community, taking star turns in blogs, online forums and Amazon reviews. This will only increase in the era of connected reading devices. "Book clubs could meet inside of a book," says Bob Stein, a pioneer of digital media who now heads the Institute for the Future of the Book, a foundation-funded organization based in his Brooklyn, N.Y., town house. Eventually, the idea goes, the community becomes part of the process itself.

Stein sees larger implications for authors—some of them sobering for traditionalists. "Here's what I don't know," he says. "What happens to the idea of a writer going off to a quiet place, ingesting information and synthesizing that into 300 pages of content that's uniquely his?" His implication is that that intricate process may go the way of the leather bookmark, as the notion of author as authoritarian figure gives way to a Web 2.0 wisdom-of-the-crowds process. "The idea of authorship will change and become more of a process than a product," says Ben Vershbow, associate director of the institute.

This is already happening on the Web. Instead of retreating to a cork-lined room to do their work, authors like Chris Anderson, John Battelle ("The Search") and NYU professor Mitchell Stephens (a book about religious belief, in progress) have written their books with the benefit of feedback and contributions from a community centered on their blogs.

"The possibility of interaction will redefine authorship," says Peter Brantley, executive director of the Digital Library Federation, an association of libraries and institutions. Unlike some writing-in-public advocates, he doesn't spare the novelists. "Michael Chabon will have to rethink how he writes for this medium," he says. Brantley envisions wiki-style collaborations where the author, instead of being the sole authority, is a "superuser," the lead wolf of a creative pack. (Though it's hard to believe that lone storytellers won't always be toiling away in some Starbucks with the Wi-Fi turned off, emerging afterward with a narrative masterpiece.)

All this becomes even headier when you consider that as the e-book reader is coming of age, there are huge initiatives underway to digitize entire libraries. Amazon, of course, is part of that movement (its Search Inside the Book project broke ground by providing the first opportunity for people to get search results from a corpus of hundreds of thousands of tomes). But as an unabashed bookseller, its goals are different from those of other players, such as Google—whose mission is collecting and organizing all the world's information—and that of the Open Content Alliance, a consortium that wants the world's books digitized in a totally nonproprietary manner. (The driving force behind the alliance, Brewster Kahle, made his fortune by selling his company to Amazon, but is unhappy with the digital-rights management on the Kindle: his choice of an e-book reader would be the dirt-cheap XO device designed by the One Laptop Per Child Foundation.) There are tricky, and potentially showstopping, legal hurdles to all this: notably a major copyright suit filed by a consortium of publishers, along with the Authors Guild, charging that Google is infringing by copying the contents of books it scans for its database. Nonetheless, the trend is definitely to create a back end of a massively connected library to supply future e-book devices with more content than a city full of libraries. As journalist Kevin Kelly wrote in a controversial New York Times Magazine article, the goal is to make "the entire works of humankind, from the beginning of recorded history, in all languages, available to all people, all the time."

Google has already scanned a million books from its partner libraries like the University of Michigan and the New York Public Library, and they are available in its database. (Last week my wife searched for information about the first English edition of the journals of Pehr Kalm, a Swedish naturalist traveling in Colonial America. In less than two seconds, Google delivered the full text of the book, as published in 1771.)

Paul LeClerc, CEO of the New York Public Library, says that he's involved in something called the Electronic Enlightenment, a scholarly project (born at the University of Oxford) to compile all the writings of and information about virtually every major figure of the Enlightenment. It includes all the annotated writings, correspondence and commentary about 3,800 18th-century writers like Jefferson, Voltaire and Rousseau, completely cross-linked and searchable—as if a small room in a library were compressed to a single living document. "How could you do that before?" he asks.

Now imagine that for all books. "Reading becomes a community activity," writes Kelly. "Bookmarks can be shared with fellow readers. Marginalia can be broadcast … In a very curious way, the universal library becomes one very, very, large single text: the world's only book."

Google's people have thought about how this connectivity could actually affect how people read. Adam Smith, product director for Book Search, says the process is all about "getting rid of the idea that a book is a [closed] container." One of his colleagues, Dan Lansing, describes how it might work: "Say you are trying to learn more about the Middle East, and you start reading a book, which claims that something happened in a particular event in Lebanon in '81, where the author was using his view on what happened. But actually his view is not what [really] happened. There's newspaper clippings on the event, there are other people who have written about it who disagree with him, there are other perspectives. The fact that all of that is at your fingertips and you can connect it together completely changes the way you do scholarship, or deep investigation of a subject. You'll be able to get all the world's information, all the books that have been published, all the world's libraries."

Jim Gerber, Google's content-partnerships director, suggests that it might be an interesting idea, for example, for someone on the liberal side of the fence to annotate an Ann Coulter book, providing refuting links for every contention that the critic thought was an inaccurate representation. That commentary, perhaps bolstered and updated by anyone who wants to chime in, could be woven into the book itself, if you chose to include it. (This would probably make Ann Coulter very happy, because you'd need to buy her book in order to view the litany of objections.)

All these ideas are anathema to traditionalists. In May 2006, novelist John Updike, appalled at reading Kelly's article ("a pretty grisly scenario"), decided to speak for them. Addressing a convention of booksellers, he cited "the printed, bound and paid-for book" as an ideal, and worried that book readers and writers were "approaching the condition of holdouts, surly hermits who refuse to come out and play in the electric sunshine of the post-Gutenberg village." (Actually, studies show that heavy Internet users read many more books than do those not on the Net.) He declared that the "edges" of the traditional book should not be breached. In his view, the stiff boards that bound the pages were not just covers but ramparts, and like-minded people should "defend the fort."

That fort will stand, of course, for a very long time. The awesome technology of original books—and our love for them—will keep them vital for many years to come. But nothing is forever. Microsoft's Bill Hill has a riff where he runs through the energy-wasting, resource-draining process of how we make books now. We chop down trees, transport them to plants, mash them into pulp, move the pulp to another factory to press into sheets, ship the sheets to a plant to put dirty marks on them, then cut the sheets and bind them and ship the thing around the world. "Do you really believe that we'll be doing that in 50 years?" he asks.

The answer is probably not, and that's why the Kindle matters. "This is the most important thing we've ever done," says Jeff Bezos. "It's so ambitious to take something as highly evolved as the book and improve on it. And maybe even change the way people read." As long as the batteries are charged.
© Newsweek, Inc.


por Booktailors às 10:49 | comentar | partilhar

Dom, 18/Nov/07
Dom, 18/Nov/07
Não é a primeira vez que uma editora portuguesa lança um site sobre um título do seu catálogo. Essa atitude foi já tomada por diversas casas editoriais e a Presença não é propriamente uma novata nesta opção. Não se estranha por isso o mini-site dedicado em exclusivo à saga de Harry Potter.

Hoje em dia, é impensável Hollywood lançar um filme, sem que a estratégia de promoção não contemple um website. Aí disponibilizam-se trailers e fotos em diferentes formatos para download, entrevistas, opções várias a pensar nos bloggers.

É natural que, pensando no mercado português, poucos dos 16,000 livros tenham fôlego para suportar o investimento num website próprio. Mas não deixa de causar estranheza que as casas editoriais continuem a investir em estratégias de marketing e comunicação que pouca ou nenhuma interacção geram com o seu público, e se escusem a criar braços virtuais de promoção aos livros. Sobretudo quando algumas dessas estratégias de marketing sem interacção com o público são mais caras que a criação de um website.

PS: Não podemos deixar de salientar no site acima a inclusão de algumas curiosidades, tão importantes para o instrumento que mais rendibilidade traz à comunicação de um livro: o boca-a-boca...


por Booktailors às 12:54 | comentar | partilhar

Sex, 16/Nov/07
Sex, 16/Nov/07
Deixamos uma notícia sobre a disponibilização online de 2500 livros de banda desenhada da Marvel, disponível no website do Público. Agradecemos a referência a um leitor anónimo.

Marvel Comics disponibiliza online 2500 livros de banda desenhada
A editora de banda desenhada norte-americana Marvel permite, desde ontem, que os visitantes do seu novo site consultem 2.500 títulos de banda-desenhada. A empresa tenta revitalizar o mercado da banda desenhada de super-heróis junto dos jovens da actualidade.

Entre os 2500 “comics” do catálogo, 250 poderão ser consultados gratuitamente. Para aceder aos restantes será preciso fazer uma subscrição que tem um valor de 4,99 dólares mensais (inscrição anual) ou 9,99 dólares (inscrição por menos de um ano).

Desta biblioteca constam alguns títulos raros, de coleccionador, cujos montantes no mercado de “comics” em papel podem atingir valores exorbitantes. É o caso do primeiro número de “Captain America”, cujo valor de mercado oscila entre os 4900 e os 112.000 euros. Todos os títulos podem ser “folheados” online, mas ao contrário do que acontece com as ferramentas de música, como o iTunes, o serviço não permite o “download” das publicações.

Ainda assim, o êxito deste serviço foi imediato, provocando problemas técnicos no site da Marvel, que esteve em baixo durante algumas horas para manutenção.

O objectivo da Marvel é revitalizar o interesse dos jovens pelos “comics” que segundo o editor Dan Backley “já não fazem parte da vida como antigamente”.


por Booktailors às 11:53 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Sex, 16/Nov/07
Conforme prometido, deixamos aqui a conclusão da entrevista conduzida por Alexandra Lucas Coelho ao editor da & Etc - Vitor Tavares.

Poderão ver as duas partes inciais da entrevista aqui e aqui.


Em que ano?
Há mais de 20 anos. A oficina fechou e o material dispersou-se. Só um país de milionários broncos como Portugal é que se pode dar ao luxo de desperdiçar estas artesanias. A saloiada mental de seguir sempre o mais avançado leva-nos a menosprezar estas coisas. Porque se eu for ali à Suíça ou aos Estados Unidos da América tenho oficinas manuais e ainda a quente, a chumbo. Desde o tempo do senhor Gutenberg, mantêm-se os tais canônes, mesmo no que diz respeito à paginação, à colocação das linhas, à maneira de paginar poesia.

Aprendi, por exemplo, a paginar poesia com José Apolinário Ramos, grande artista tipógrafo da Tipografia Ideal, ele próprio poeta. Tipografia essa que chegou a fazer livrinhos do Gomes Leal e onde eu fiz “A Fome de Camões”, de Gomes Leal, com os mesmos tipos [de letra]. Na poesia, sobretudo, atendendo a que os versos ora são muito curtos, ora são muito extensos, aquela coisa de, para facilitar, encostar sempre à esquerda da mancha, faz com que, em grande parte dos livros em que temos versos curtos, o resto da mancha seja um vazio enorme. Ele estabeleceu um eixo central na página, e a colocação do verso é pela medida do verso mais largo, que dentro desse eixo vai determinar o resto, dando assim uma harmonia no interior da mancha. Aqui está consignado. E muitos outros, o Manuel de Freitas [na editora Averno] e etc, começou tudo a paginar a poesia como ela deve ser. Isto vem do velho José Apolinário Ramos, que era tipógrafo durante o dia e ao fim da tarde tirava a sua batazinha azul, vestia o seu casaquinho, descia a Calçada de São Francisco e ia a pé até à Rua da Voz do Operário para a menina dos seus olhos. Porque era ele que cuidava da Biblioteca da Voz do Operário.

O etc liga-se à Tipografia Ideal por um episódio engraçado. Um dia passei por ali, olhei lá para dentro e era a escuridão total. Entrei e quis ver as caixas dos tipos. Sempre gostei muito de material tipográfico, da composição. O homenzinho começa a abrir as caixas, e eu caio para o lado de espanto. Ele eram maiúsculas de aço, lindas, de desenho, vinhetas, adornos, bom aço alemão do século não sei quantos. Uma maravilha que estava para ali perdida. Aquela casa já tinha tido o seu período heróico, entretanto tinha caído numa tal decadência que já só fazia cartões de visita, papel de carta, envelopes. E eu vou desafiá-los para voltarem a fazer aquilo a que se chama composição a cheio, obra livro. “Ah, não...” Estava tudo a cair da tripeça.
Fartei-me de falar da literatura de cordel, ia fazer a literatura contra-margem com papel manteigueiro, à memória desses opúsculos que se vendiam efectivamente pendurados num cordelinho, e com aquele papel tosco. Vamos lá dignificar os próprios materiais baratos em livro. Foi um entusiasmo e desatei a fazer lá os livrinhos, e a aprender muitíssimo com o José Apolinário Ramos. Dávamo-nos muito bem. Gostávamos da mesma coisa. Era um homem de rigor.

A zincogravura permite uma impressão muito melhor do que o “offset”, porque a impressão é como se fosse gravada, sobre pressão. Actualmente, o “offset” escorrega sobre o papel, toca-o. A pressão dá à coisa impressa personalidade táctil.

Agora já não é possível fazer livros assim. Mas uso truques. Imprimo a cartolina da capa ao contrário. Em vez de imprimir na parte brilhante, imprimo na parte baça. Se lhe puser a mãozinha sente ainda aquela penugem. Isto dá mais trabalho ao impressor, porque pode dar um certo efeito de mata-borrão. Então é preciso lutar-se contra o material. Mas essa luta é boa. E permite ao livrinho parecer totalmente artesanal.


Eduarda Dionísio [com quem trabalhou na associação Abril em Maio e recentemente no jornal “PREC”] diz que não há coisa de que o Vítor Silva Tavares goste mais do que a tipografia, e o Alberto Pimenta [um dos autores mais da casa, na & etc] crê que a fusão inseparável da estética e da ética é o que melhor o define.
Tudo o que disse sobre a artesania do livro se relaciona bem com essa fusão.


Agora preside à Abril em Maio, que está num limbo. O que o fez querer pertencer a este colectivo? Como resistência – não sei se a palavra é a boa?
É essa. É a única.

Um dia a Abril em Maio pediu para aqui uns livritos, disse onde era, à Graça, fui lá a um debate, um rés-do-chão de uma casa antiga, fiquei encantadíssimo por ver aquele espaço e reencontrar finalmente a Eduarda Dionísio, que conhecia de nome. Sabia-a filha de quem era, mas nunca tinha tido relacionamento próximo.

E ao saber que aquela coisa tão encantadora que ali estava, onde um disco daqueles que não aparecem em lado nenhum – sei lá, o García Lorca a tocar piano – está ao lado de uma garrafa de azeite, de um boneco de barro, de um livro; ao ver o tipo de pe, ssoas, a miudagem; ao ver que também ali não havia nenhum propósito lucrativo, era uma associação cultural propriamente dita, e que também ela não dependia de nenhuma espécie de subsídios, nem disto nem daquilo, ou não estivesse lá a Eduarda Dionísio: havendo afinidades que não se podem circunscrever ao ideológico, que têm a ver com a maneira de estar e de fazer cultura, alheia ao “mainstream”; eu, que jamais tinha pertencido a qualquer clube resolvi ser sócio daquele.
Estava longe de imaginar que iria filiar-me numa associação que tinha a sua morte anunciada. Ser sócio não é só pagar a quota. Não posso abandonar o etc, onde faço de tudo, sou eu que varro também o chão, essas coisas, a minha disponibilidade está repartida, sempre. De qualquer modo tive trabalhos, iniciativas, ideias na Abril em Maio, daquela pulga eléctrica que é a Eduarda Dionísio. Tenho uma grande ternura por ela, uma grande admiração por aquela capacidade de mobilizar e de fazer, também pela sua capacidade de organização, eu que sou desorganizado. Muitas afinidades. De tal modo que não me interessa assim tanto a Abril em Maio. Quando gosto de uma pessoa, sou de uma fidelidade total. Só estou lá porque lá está a Eduarda, cultivando com ela o mesmo tipo de fidelidade. É um mau feitio que me quadra muito bem. Quem me dera ter dez por cento daquele mau feitio. É sempre recto.


Sempre falou no trabalho como uma fruição, parte da vida, dos amigos. É raro as pessoas estarem numa coisa porque gostam muito de alguém. Têm objectivos, têm projectos, podem ganhar isto, aquilo.
Eu e a Eduarda gostamos de fazer coisas. Com as mãos, com os pés, com a língua. Não vamos teorizar muito sobre as coisas. Temos afinidades, é escusado estar a gastar saliva. Entendemo-nos muito bem. Podemos passar logo para a acção e mobilizar outros para esse trabalho.


A ideia do “PREC”?
Nasceu aqui. O título foi meu. Quem tiver ideias sobre o nome a dar a esta folha, que é para ler e não para ver, portanto vamos inundar a mancha com letras, uma letra vale mais que mil imagens...


Isso hoje é um verdadeiro PREC.
Exacto. Então, quem tiver ideias ponha no papel. E eu tenho aqui uma que é uma dupla provocação: desta porta para fora, quando sair, e desta porta para dentro, para as cabecinhas de todos nós que aqui estamos. A minha proposta é chamar-lhe PREC.

Ponto dois, toda a gente vai associar PREC ao processo revolucionário em curso. Só que nós vamos utilizar cada número para aquilo que nos der na bolha, e assim subvertermos a própria ideia feita do PREC, porque no interior das letrinhas vamos sempre meter coisas distintas, o que foi praticado com algum humor.

PREC porquê? Porque é PREC, sim senhor, contra-corrente, o próprio formato, outra vez o papel manteigueiro, e, à semelhança dos velhos jornais, encher aquela página literalmente com um corpo tão pequenino que vale pela mancha. É, em sim mesmo, uma afirmação estética, tipográfica. Depois, se as pessoas quiserem ler, com esforço, claro, até têm lá coisas para ler.
E de um trabalho tão duro, por vezes até às duas, três da manhã, conseguirmos um momento lúdico de trabalho, sempre a rir, e sem expectativas.

Fazemos as coisas porque temos de as fazer, porque está na nossa condição. Depois já não é connosco, já está para fora de nós. E a mim tanto me faz que haja só uma pessoa que tenha lido, criticado aquilo, como dez mil, uma que fosse. Aí não tenho espírito de missão, nem aqui dentro. Isto não é nenhuma igreja, não há aqui nenhuma crença, faz-se porque se tem de fazer, está na nossa condição fazer, fazer assim, saber porque fazemos assim. Perseguimos, sim, uma ideia de harmonia, de beleza, de intervenção, e sabemos que é uma resistência. Resistência é a palavra, à falta de ar vigente, ao obscurantismo, à criação permanente de falsos mitos passageiros.


Quando olha para o que os jornais hoje são, quando olha para as livrarias e o que as povoa, o que sente? O que é que está a acontecer?
Ainda gosto de jornalismo e de jornalistas. Obviamente já não gosto de jornais. Não gosto da tabloidização dos jornais. Do jornal espectáculo. Fui homem de camisolas. A minha camisola em termos de jornalismo chamou-se “Intransigente”, em Benguela, e depois “Diário de Lisboa”. Não me reconheço de modo nenhum nos jornais que hoje existem. Mas sei fazer o “distinguo” dos jornalistas. Não são todos, claro, mas são alguns e esses sei reconhecê-los e gosto de jornalistas. Pessoas que ainda se queimam, porque é uma profissão para queimar. Gosto de jornalistas que têm a consciência de que estão lá para arder, num mundo que está a arder.
Há muita gente que acha que os jornais em papel não vão sobreviver.
É inevitável, vão sobreviver. Porque fixam coisas. Têm um suporte material. Sei que a onda agora não é essa mas é uma onda.


Vamos precisar sempre de alguma coisa portátil para pôr no bolso?
Alguma coisinha para agarrar com a mão. Precisamos de corpo, e os jornais são ainda corpo matérico.


O que é que pode renascer da Abril em Maio?
Sou um director virtual, nem lá ponho o pé, mas aquilo é também um espaço. E que espaço. Tem enormes virtualidades. Afirma logo muita coisa. O tipo de actividade que tinha suspendeu-se com a gradual saída da Eduarda. Ainda houve as tentativas do PREC poder funcionar lá. Claro que se desfez por desfasamento, apetites diferenciados, desinteresse, abulia, o que é costume nestas coisas.


Partindo do princípio de que não morreu, de que está à espera?
Está a ser reanimada, o espaço vai ser utilizado como uma pequena escola para crianças de introdução à multimédia, já se estão a fazer almoços e jantares. Aquele espaço está a ser revificado. O meu esforço foi no sentido de deixar a porta aberta. Conseguiu-se, até agora. Com a porta aberta, pode ter a certeza, vai continuar a haver quem entre e quem saia. O importante é ter a porta aberta.

Não tenho qualquer teoria que me alimente qualquer optimismo no que respeita a movimentos de massas. Tenho pena de não ter, mas não tenho. Em compensação, o etc é um espaço onde tenho provas de que algures, até aqui em Portugal, na remota Vila Real ou na Guarda, aparece gente nova com uma frescura ainda no estar, uma recusa idêntica à desta chafarica de se verem integrados em estruturas, para o caso culturais, entendidas como normais, e encontro muitos sinais disso.

Não vou dizer que é uma nova geração. Mas vai havendo uma soma de um mais um mais uma mais um, que me deixa nesse aspecto optimista. Seria pessimista, género Vasco Pulido Valente, se pudesse dizer: “Isto é uma choldra, tudo. A juventude toda é uma merda, consumista, alienada.” Isso não é verdadeiro. Em massa, com certeza. Mas fora da massa vai aparecendo gente que vem aqui tocar à campainha. Esta casa já fez nascer meia dúzia de aventuras editoriais. Mas também livrarias, espalhadas por aqui e por acolá, e que não estão lá para ganhar montes de massa. Isto não é uma casa de negócios, quando vêm aqui tocar à campainha, vêm para beber um bocadinho desta água. Eu digo sempre, isto é uma função poética, dá para fazer livrinhos e outras coisas.

Costumo dizer que sou tão magrinho que passo entre as cordas da chuva, e no meio desse mar encapelado [da edição portuguesa] a verdade é que esta pequena rolha flutua, vai para baixo, para cima, mas flutua. E aí não estou sozinho. Era impossível sozinho fazer isto. Tinha que ter, e tenho, cúmplices de tal modo fiéis, e fortes e firmes, aqueles capazes de comer pedras, e ainda assim continuarmos, por teimosia, por masoquismo.


Quer falar deles?
A Célia, o Rui Caeiro, o Alberto Pimenta. O meu cunhado Jorge. Um pequeno núcleo daqueles que aguentam tudo.


E duas ou três aventuras poéticas que sente que são a sua família?
Desde o meu antigo encantamente pela Ulisseia, mas também pela velha editora Inquérito, do Salgueiro. Foi-me dito pelo Luiz Pacheco que o velho Eduardo Salgueiro conseguiu aguentar a Editorial Inquérito 50 anos na falência. Eu ainda só vou fazer 35. Quem me dera poder chegar a esse número e dizer: há 50 anos que estamos falidos, mas de porta aberta.

Mais próximos de nós, um grande editor, maluco, nem por isso muito culto, mas com um instinto, um faro, e também um gosto de fazer a toda a prova, Fernando Ribeiro de Mello, das Edições Afrodite, o tal que queria fazer a revolução sexual em Portugal. Fez a dele, já não está mal. Meu grande amigo e sócio no arranque do etc.

Tive muita pena de ter ido abaixo o projecto da Hiena. Arrancou muito bem, aí estava um homem amante do livro [Rui Martiniano]. A Hiena começou com...


Uma tradução sua, “O Sorriso aos Pés da Escada”.
O [Henry] Miller, exactamente. E quando me vieram dizer até fiquei zangado. Porquê? Não foi por terem editado, nunca faço reedições, muito menos isso, uma coisa que tinha feito na Ulisseia há não sei quantos anos. Foi por não me ter dito nada. Então alguma vez eu ia levantar qualquer problema em o homem usar o prefácio ou a tradução ou coisa assim? Então, de todo em todo, não me estava a conhecer. O trabalho, aqui, quem quiser tira. O “copyright” é dos autores. O etc não tem “copyright”. É sabido que em “n” casos sou um editor pirata. Sim senhor, corro esse risco. Também lhe digo que essas piratarias nunca foram feitas sobre autores vivos, ponto um. Ponto dois, nunca eu retirei delas um tostão de lucros. Ponto três, parte das piratarias aqui feitas são de pequenos textos, laterais à obra dos autores, com tão pequena dimensão que até os vendedores do “copyright” não vendem por não terem interesse comercial nisso, o que quer dizer que se deixa de publicar uma quantidade de coisas por causa do “copyright”. Então, eu borro-me para o “copyright”, podendo apanhar uma denúncia, sim senhor,


Para passar os livros.
São ainda piratarias poéticas. Então tive pena – pena – de projectos como a Hiena, ou quando a Fenda foi abaixo – felizmente o Vasco [Santos] tem sabido pô-la em pé. De certo modo a Fenda também nasceu por causa da etc. Ou como a Contexto, que foi abaixo.

[e a Averno, que continua, mas já tinha acabado a terceira cassete. Foi assim que ficou por gravar a história de quando Herberto Helder e Vítor Silva Tavares foram do Tony dos Bifes para a Polícia Judiciária participar uma contrafacção]


por Booktailors às 11:44 | comentar | partilhar

Qui, 15/Nov/07
Qui, 15/Nov/07
Deixamos aqui uma notícia publicada hoje no Diário de Notícias , da autoria de Maria João Pinto, sobre a Byblos, a livraria que promete revolucionar a forma como vemos as livrarias em Portugal...

Agradecemos ao leitor Hélder Marques a referência.

150 mil livros nas Amoreiras
Os fundos de catálogo serão a sua aposta primeira, preenchendo uma lacuna no mercado livreiro em Portugal, tal como o recurso às novas tecnologias será a sua imagem de marca. Com uma área de quatro mil metros quadrados, 3300 dos quais de acesso público, distribuídos por dois pisos que ocupam a quase totalidade da galeria comercial do Edifício Amoreiras Square, em Lisboa, a primeira loja da cadeia Byblos Livrarias abrirá as suas portas a 6 de Dezembro, com um objectivo em mente: alcançar a fasquia dos 150 mil títulos disponíveis num mesmo lugar.

Após três décadas de trabalho como editor, Américo Areal está agora do outro lado, como livreiro, co-responsável por este projecto. "Sonho construído ao longo de quase dez anos", como referiu ao DN, a Byblos procurará ser "a primeira livraria de fundo editorial em Portugal, ou seja, procurará ter tudo o que os autores e editores quiserem aqui colocar".

Por outro lado, e do ponto de vista da forma, será uma síntese adaptada de quanto foi vendo nas suas viagens de serviço por outras capitais europeias, no Japão e nos Estados Unidos: "Um porto seguro" que, para lá da vertente comercial, "pretende prestar um serviço público", investindo no "conforto e na inovação". E no design, neste caso alemão, particularmente arrojado nas zonas de estar, a cargo da Krefbrubach Store Interiors.

E inovação tecnológica não vai, de facto, faltar, seja para o público adulto, seja para o público infanto-juvenil. Quem visitar a nova livraria, actualmente em fase de montagem, vai usá-la mesmo sem dela se dar conta: livros, estantes e demais expositores estarão, todos eles, ligados em rede, por via da tecnologia de identificação por rádio-frequência. O que, em matéria de organização interna, permitirá, por exemplo, a imediata localização de títulos deixados fora das suas secções - uma dor de cabeça para quem trabalha no ramo - ou a rápida reposição de stocks.

Para o cliente, lembra Américo Areal, esta solução corresponderá também a tempos de espera em caixa substancialmente mais curtos, dado que os códigos serão lidos de uma só vez. Por outro lado, e dado o volume da oferta, um conjunto de ecrãs tácteis, para pesquisa bibliográfica, fornecerão ao utilizador um talão que lhe dirá em que estante e prateleira está a obra que procura, podendo essa mesma pesquisa ser feita por antecipação através do site da Byblos, actualmente em construção, no endereço http://www.byblos.pt/.

Clientes que pretendam um atendimento clássico ou que não se sintam à vontade com estas ferramentas terão funcionários (34, presentemente a receber formação) para os acompanhar. Mas quem quiser ter uma experiência mais radical poderá ver de perto uma estante robotizada a trabalhar: de fabrico italiano, está apta a receber 65 mil volumes, operação que poderá ser acompanhada pelo público através de um ecrã de plasma.No contacto com os autores, a nova livraria dispensará "o púlpito e a mesa" tradicionais, de modo a "fomentar o diálogo com os leitores", refere Américo Areal. Uma sala de exposições e um auditório permitirão, por outro lado, a realização de outras actividades paralelas, nomeadamente de semanas temáticas, em articulação com associações, universidades e/ou empresas.

Os fluxos de circulação na livraria, esses, terão zonas de pausa de variada ordem: áreas de estar e de leitura, pontos de acesso à Internet, cafetaria com 116 lugares sentados, servindo também refeições ligeiras ao almoço e ao jantar. A zona dedicada à literatura infanto-juvenil, autonomizada em relação às restantes, será igualmente uma zona lúdica: uma réplica de um barco em tamanho real, uma casa na árvore em formato virtual, jogos interactivos em parceria com a Y-Dreams."

Na verdade, não inventei nada", diz Américo Areal. "O que pretendemos é que as pessoas, leitores assíduos e menos assíduos, qualquer que seja a sua idade, tenham aqui uma experiência diferente." No futuro próximo, a cadeia deverá expandir-se com a abertura de "mais duas ou três" lojas, uma das quais "no centro do Porto".


por Booktailors às 12:40 | comentar | partilhar

Qui, 15/Nov/07
O livreiro Luís Filipe Cristóvão decidiu colocar no seu blog um top referente às vendas da sua livraria: a livrododia, de Torres Vedras. O Luís organizou este top por grupos editoriais e por títulos.

Realçamos um dado avançado no 2º post: "a vinda do Eduardo Sá e do Miguel Real à livraria significa[ra]m entrada no top desta época alta".


por Booktailors às 12:20 | comentar | partilhar

Qui, 15/Nov/07
A RTP pretende despedir o pivot / escritor de best-sellers José Rodrigues dos Santos.

Ver mais detalhes aqui e aqui.

A confirmar-se, será caso para dizer que José Rodrigues dos Santos vai definitivamente mudar de patrões...

Etiquetas: ,

por Booktailors às 12:09 | comentar | partilhar

Qua, 14/Nov/07
Qua, 14/Nov/07
Parece que os audiolivros estão, de facto, na ordem do dia.

No próximo dia 29 de Novembro, às 18:30, no Goethe Institut de Lisboa, haverá uma outra conferência sobre o tema.

«Nos últimos dez anos, o mercado de Audiolivros tornou-se numa história de sucesso interminável e o ano de 2006 não foi a excepção: o estudo da Media Control Gfk Internacional aponta para uma subida nas vendas de quase 20% em comparação ao ano anterior. Actualmente estão disponíveis no mercado alemão cerca de 17 000 Audiolivros, e mais de 500 editoras têm um papel activo neste mercado, com os Audiolivros mais vendidos a conseguirem mesmo alcançar vendas comparáveis às dos livros impressos e da música.

Em Portugal o mercado de Audiolivros está ainda a dar os primeiros passos, mas já se conseguem identificar algumas tendências que predominaram na Alemanha nos anos 90. Os estudos mais recentes na Alemanha vieram provar que os Audiolivros não destroem os hábitos de leitura, e que o verdadeiro potencial deste mercado permanece por explorar.

O Goethe-Institut Portugal convida para uma conferência sobre os Audiolivros nas suas instalações, com a presença de representantes de duas das maiores editoras de Audiolivros alemãs: a Sra. Heike Völker-Sieber - directora de Relações Públicas da Hörverlag de Munique - e a Sra. Theresia Singer - directora da headroom sound production de Colónia e membro da secção de Editoras de Audiolivros na Associação das Editoras Alemãs.

A realidade do mercado português será exposta pela Sra. Oriana Alves, da editora portuguesa de Audiolivros "A Boca". O objectivo desta conferência é permitir a troca de conhecimentos e apresentar modelos de excelência na área da criação de um programa editorial, análise de mercado e marketing. A conferência dirige-se a editoras, livrarias, bibliotecas, imprensa e todos os interessados na área.»

Esta conferência parece bastante interessante, mais destinada ao público especializado e interessado na tipologia do novo suporte.

Ver também aqui.


por Booktailors às 16:43 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Ter, 13/Nov/07
Ter, 13/Nov/07
Chegou-nos o pedido que abaixo reproduzimos para Paginador / Designer Editorial.

Ateliê de Design procura paginador / designer editorial
Perfil:
- Recém-licenciado ou 1º emprego;
- domínio das plataformas Adobe, nomeadamente Photoshop e Indesign;
- Dinâmico, Criativo e metódico;
- Capacidade de trabalho sob pressão (muito importante);
- Residente na zona de grande Lisboa.

Oferecemos:
- Possibilidade de integração nos quadros da empresa;
- Período de aperfeiçoamento das técnicas de paginaçao pago, de acordo com remuneração a acordar.

Pedimos p.f. que todos aqueles que não reunam as condições acima referidas não se candidatem.Os candidatos deverão responder para atelie.recruta@gmail.com, indicando no subject a palavra PAGINADOR e nome. Ex: Paginador Rui Gomes.Deverão anexar à candidatura o CV e o portfolio em pdf (caso o tenham; caso contrário, cá estaremos para ajudar-vos a construir um).

Etiquetas:

por Booktailors às 19:28 | comentar | partilhar

Ter, 13/Nov/07
A editora 101 Noites, que possui no seu catálogo uma colecçao de audiolivros, irá promover uma conferência que terá como tema O futuro do Audiolivro em Portugal.

A conferência é aberta ao público e decorrerá no Museu de Electricidade, no próximo dia 21 de Novembro, pelas 18h30.

Deixamos aqui a informação veiculada pela editora para divulgação:
«Nos últimos anos, uma nova forma de leitura tem vindo a conquistar cada vez mais adeptos em todo o mundo: os audiolivros.

Graças aos avanços das novas tecnologias, milhares de pessoas aderiram a este novo suporte que vem revolucionar o mercado editorial. Com o ritmo acelerado das vidas nas grandes cidades, as filas de trânsito, a falta de tempo para ler, muitas pessoas adoptaram os audiolivros para poder “ler” enquanto conduzem, fazem desporto ou andam de transportes públicos. Ouvir um livro tornou-se, deste modo, a actividade cultural do homem moderno apressado.

Por outro lado, não podemos deixar de mencionar a importância deste suporte para todas as pessoas portadoras de deficiência visuais ou idosos com dificuldades de visão que desta forma podem ter acesso a “leitura” de obras literárias e não só.

Em Portugal, o audiolivro está a dar os primeiros passos. Algumas editoras já se aventuraram nesta área, apesar de tratar-se essencialmente de experiências ainda tímidas e muito pontuais. Contudo, este novo formato já conquistou inúmeros leitores na Europa e sobretudo nos EUA (onde 10% do mercado editorial já pertence ao audiolivro). Nos últimos anos, surgiram várias editoras especializadas em audiolivros. Além disso, a Amazon e o itunes já disponibilizam largos milhares de títulos nas mais diversas áreas: da literatura à filosofia, passando pelo ensaio ou pelos livros técnicos.

Perante este panorama, a editora 101 Noites acredita que urge debater algumas questões relativas ao futuro do audiolivro em Portugal.

- Como está a reagir o mercado editorial e o público português a este novo fenómeno?
- De que forma o audiolivro pode ajudar na promoção da leitura em Portugal?
- Poderá o audiolivro contribuir para a divulgação da literatura de língua portuguesa?
- Será o audiolivro um concorrente do livro em papel? Ou, pelo contrário, poderá complementá-lo?

Todas estas questões e muitas outras serão abordadas na Conferência “Livros Para Ouvir – o Futuro do Audiolivro em Portugal”.»

Oradores:
Prof. Marcelo Rebelo de Sousa
Mafalda Lopes da Costa – Jornalista, programa "Com os Livros em Volta" TSF, ex-directora da Revista LER.
Stig von Bahr – Responsável da Sony DADC Aústria
Sandra Silva – Directora Editorial 101 Noites
Nuno Franco - Realizador e responsável pela direcção de actores da colecção “Livros Para Ouvir”

A conferência contará com a presença dos actores Alexandra Lencastre, José Wallenstein, Nuno Lopes, Eunice Muñoz, João Perry, São José Lapa que lerão alguns excertos dos contos da colecção “Livros Para Ouvir”.


por Booktailors às 13:33 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Seg, 12/Nov/07
Seg, 12/Nov/07
Hoje, no Jornal de Negócios, na página 19, poderão encontrar um artigo sobre a Booktailors - Consultores Editoriais.

Agradecemos à jornalista Elisabete Sá, editora de Empresa e Media do referido jornal, toda a atenção dispensada ao nosso projecto.

A Booktailors agradece ainda à Pó dos Livros a cedência do espaço para realização da sessão fotográfica.


por Booktailors às 14:06 | comentar | partilhar

Seg, 12/Nov/07
Ainda sobre a Fnac, (ver mais aqui e aqui), deixamos algumas informações que têm vindo a ser vinculadas sobre esta cadeia de lojas na imprensa. EM referencia Enrique Martinez – director geral da Fnac Portugal, e DO Denis Olivennes – presidente da Fnac a nível internacional.

- A Fnac, aquando da sua chegada em 1998, pretendia abrir apenas mais 2 ou 3 lojas, contudo em 2008 já terão 18. (1) Portugal é considerado o fenómeno de momento da Fnac. É o país onde as vendas por metro quadrado se reflectem de forma mais expressiva nas caixas registadoras e também o terceiro em número de lojas, a seguir a França e Espanha, daí que DO considere Portugal o “melhor aluno da classe Fnac. É o primeiro país em rentabilidade e resultados de exploração”, chegando ao ponto de dizer que “a continuar este sucesso, será a Fnac França que se irá tornar uma filial da Fnac Portuguesa” (2)

- A Fnac irá abrir mais duas lojas em solo luso, sendo que a loja de Alfragide abre a 13 de Novembro, seguindo-se Braga. A cidade de Lisboa torna-se assim a segunda cidade do mundo com mais lojas, apenas suplantada por Paris (mais de vinte). Barcelona e Madrid têm apenas 3 lojas. Em Bruxelas e Milão apenas uma. Mais, EM refere que Lisboa “ainda tem espaço para, pelo menos, mais uma loja”. (1) A Fnac pretende estabelecer-se com 20 lojas em Portugal, pretendendo assim investir 17,5 milhões de euros . Em 2008, pretendem abrir uma loja em Viseu. As áreas prioritária de expansão até 2011 são: área metropolitana de Lisboa, com provável reforço na margem sul (zona de Setúbal), área do Porto, Faro, Leiria e Aveiro. (3)

- É convicção de Enrique Martinez que o nosso poderá comportar ainda 20 lojas, revelação sustentada nos resultados de 2007. Mais, para provar que o conceito Fnac sobrevive fora dos grandes centros urbanos, “a loja de Albufeira consolidou-se e, em 2008 ou 2009, dependendo dos licenciamento, abriremos uma nova, em Faro”. (1) Esta perspectiva é corroborada por DO (2)

- O espaço de Alfragide terá cerca de 1800 metros quadrados, inseridos na área comercial do Jumbo. EM justifica a escolha: “é uma boa oportunidade para diversificar a oferta, captar novos clientes. E um dos factores de escolha de uma loja é a proximidade”. Revela ainda que será a primeira loja de Lisboa com o novo conceito Fnac “aspecto mais claro, mobiliário mais adaptado aos novos tipos de aparelhos, mais iluminada. “ (1) EM refere que a dimensão das lojas Fnac não ultrapassa os 2000 metros quadrados, pois essa realidade implicaria o fecho das lojas aos domingos à tarde. Se a legislação fosse outra, possivelmente já existiram Fnac com áreas superiores às existentes – entre os 1600 e os 1900 metros quadrados. Em Paris, por exemplo, existe uma loja com 12 mil metros quadrados. (3)

- A Fnac está a preparar a sua entrada na Rússia e Turquia. Fora da Europa, a Fnac apenas está presente no Brasil (Abandonou recentemente o projecto Taiwan). Ainda acerca do mercado sul-america, DO refere que “talvez um dia a Fnac vá mais longe”. DO é muito claro ao referir que a prioridade é o continente europeu: “Porquê atacar o mercado chinês se ainda temos tanto para fazer na Europa?” (2)

- EM revela que a grande opção de futuro da Fnac é a Internet, pois pretendem entrar na competição pela venda de músicas, através da plataforma Fnac Música. Em França, já suplantam mesmo os valores da Apple – Itunes. Para Portugal, o gestor não avançou com datas. (1)

- DO recusa o rótulo de hipermercado da cultura, justificando-se: “a Fnac também não quer ser um hipermercado de cultura. A nossa missão é outra: continuar a partilhar o prazer de descobrir autores, músicas e tecnologias com que os consumidores nunca sonharam”. (2)


- Os dez anos da Fnac em Portugal números, segundo a Visão (1):
* 12 Lojas (mais 3 em 2008)
* As vendas totais atingiram a cifra de 2 mil milhões de euros
* Venda de 13,5 milhões de DVD
* Venda de 22,5 milhões de CD
* Venda de 31,5 milhões de livros

- A Fnac em Portugal em 2006, segundo o caderno de Economia do Expresso (2):
* 290 milhões de euros de vendas
* As vendas por metro quadrado atingem os 19,743 euros
* As vendas por colaborador atingem os 244,728 euros
* Venda de 4 milhões de livros
* Venda de 2,7 milhões de CD
* Venda de 1,2 milhões de DVD

- Alguns números avançados pelo Jornal de Negócios na edição de hoje (3):
* A Fnac, após a abertura das lojas de Alfragide e Braga, fechará o ano, somando ao seu investimento já feito 7 milhões de euros, mais 3565 metros quadrados de superfície aos já 19,000 que tem neste momento, e 202 colaboradores aos 1350 que já emprega.
* Cada lançamento de loja implica um investimento de 300 mil euros em comunicação, de um orçamento total de 3 milhões de euros anuais
* Além do investimento em novas lojas, a Fnac aplicou 3,5 milhões de euros na remodelação das lojas
* A Fnac Portugal atingiu um volume de vendas sem IVA de 244,3 milhões de euros em 2006 (290 milhões brutos)
* A Fnac Portugal representa a terceira divisão geográfica do grupo Fnac em valor de receitas. Representou em 2006 5,4% das receitas; Espanha representou 8,7% e França 74,8%.
* As vendas online estão com um crescimento anual de 50% em Portugal, representando já 1% da facturação total
* Por categorias, as vendas estão repartidas da seguinte forma: 40% para produtos editoriais (livros, música e cinema); 60% para tecnologia (dos quais, 70% é informática)
* EM não revelou a previsão de crescimento para 2007, mas avança que no 2º semestre espera que a evolução dos primeiros 6 meses, de 13%, seja superada.

(1) Revista Visão, "O filão português", 08.11.2007, p.66 [Artigo com Enrique Martinez – director geral da Fnac Portugal]
(2) Expresso – caderno de economia, “Não somos o hipermercado da cultura”, 10.11.2007, p. 23. [Artigo com Denis Olivennes – presidente da Fnac a nível internacional]
(3) Jornal de Negócios, "Fnac revê plano de expansão para 2011 e investe mais 17,5 milhões no país," 12.11.2007, p. 10. [Artigo com Enrique Martinez – director geral da Fnac Portugal]


por Booktailors às 13:54 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Seg, 12/Nov/07
A editora anglo-saxónica Picador anunciou que está farta de capas duras.

Segundo o seu responsável, Andrew Kidd, a Inglaterra não é um mercado de hardbacks como o alemão e o norte-americano e, de ano para ano, os editores perdem dinheiro a produzir e promover as versões em capa dura dos seus principais autores.
Simultaneamente, Kidd refere que nos últimos anos as editoras têm baixado na qualidade dos seus livros em capa dura, tentando reduzir nos custos de produção para perderem menos dinheiro e que, actualmente, o leitor já não compra um hardback digno desse nome.

Por isso, diz Kidd, a Picador vai passar a publicar quase exclusivamente em paperback de formato B (o mais habitual em Portugal, conhecido também como 13,5 * 21,5), e conhecido nos EUA como trade paperback.

Já agora, e para quem se interessa por estas questões, o mass-trade paperback é o de classe A, de tamanho mais reduzido (17,5 * 11) e usado também regularmente para livros de bolso – sim, existe uma diferença em termos de prática comercial entre os dois –, enquanto o de classe C é o habitual de capa dura (22,2 * 14,3). Para cima disso temos ainda os vários formatos álbum.
Esses são os formatos standard, o que não significa absolutamente nada, pois todos os dias os editores optam por formatos ligeiramente diferentes, em obras de design ou por insensatez no aproveitamento do papel (cujas medidas daria mais um parágrafo, por isso escusamo-nos).

Etiquetas: ,

por Booktailors às 10:48 | comentar | partilhar

Sáb, 10/Nov/07
Sáb, 10/Nov/07
Reiteramos o pedido feito há algum tempo para obtenção de originais.

Enquanto scouts para algumas editoras portuguesas, a Booktailors aceita propostas de originais em língua portuguesa para avaliação nas seguintes condições:

Perfil das obras – Ficção (romance ou novela) contemporânea para público em geral. Dá-se preferência a obras destinadas ao segmento feminino e feminino adolescente.

A Booktailors compromete-se a notificar os autores dos originais recusados, assim como a eliminar as propostas por eles enviadas.

Esclarecimentos poderão ser obtidos através do e-mail
paulo.ferreira@booktailors.com
O envio dos ficheiros poderá ser feito para o e-mail
info@booktailors.com

Por favor, divulgue esta mensagem a quem estiver interessado.

Etiquetas: ,

por Booktailors às 18:30 | comentar | partilhar

Sáb, 10/Nov/07
Norman Mailer morreu hoje, aos 84 anos, no Hospital Monte Sinai, devido a insuficiência renal.

Mais informações aqui , aqui e aqui.


por Booktailors às 15:01 | comentar | partilhar

Sáb, 10/Nov/07

Na continuação deste post, sobre o crescimento da Fnac em Espanha, eis que a Fnac portuguesa apresenta os seus próprios planos de crescimento em Portugal.

O mercado português é um caso de sucesso para esta marca. Sendo um dos mais rentáveis (com o maior rendimento por loja) a Fnac tem aberto sucessivamente espaços, contando actualmente com 10 lojas por todo o país.
Mas não pretende ficar por aí.

O anúncio feito esta semana revela projectos de duplicação do número de lojas (mais dez lojas), com a abertura já na próxima semana de dois espaços - Alfragide e Braga.
Em 2008 espera-se a abertura de outros três pontos de venda.

A Fnac fechou o ano de 2006 com um volume de quase 300 milhões de euros (apesar da parte livreira representar cerca de 20% desse valor), e prevê um investimento de 35 milhões de euros - mantendo a média de investimento igual a Espanha, com 3,5 milhões por estabelecimento.

Com este investimento, a Fnac espera ultrapassar rapidamente o volume de 1.000 milhões de euros na Península Ibérica.


por Booktailors às 08:28 | comentar | partilhar

Sex, 9/Nov/07
Sex, 9/Nov/07

Contrariamente ao que dissemos na semana passada, dada a extensão da entrevista a Vitor Silva Tavares, iremos dividir a peça elaborada por Alexandra Lucas Coelho em 3 partes. Aqui fica a segunda. A primeira parte pode ser encontrada aqui.


E a lógica é com o que um livro vende fazer outro.
Sem dúvida que vai auxiliar ao “desastre” que vai ser o outro. Porque se publico pela primeira vez um autor que não é nome conhecido já sei que dificilmente a gente vai vender 200 livros. E se vendermos 200 é porque já aqui estamos há tantos anos que de qualquer modo já houve um pequeno público habituado, ou porque gosta do livrinho, ou de os ter todos, ou porque as capas são muito bonitas, ou porque acham que a casa tem algum rigor. Mas algumas vezes, muitas vezes, esses livritos não chegam para pagar à tipografia. Os autores em geral não gostam de saber destas coisas, nem eu vou dizer a um autor: “Oiça lá, foi um buraco de todo o tamanho.” Deu prejuízo? Já sei que vai dar. Mesmo assim faço. Por coerência. Estou dentro de uma engrenagem que tudo faz para abafar, para fazer desaparecer de vez aventuras desta natureza. Enquanto puder hei-de resistir. Como? Desta maneira. Do ponto de vista pessoal sou um indivíduo baratíssimo desde miúdo. Sei comprar a minha comida, sei fazê-la.

Os seus carapaus.
É uma metáfora. Sendo os meus pais muito miúdos, quando o meu pai já está a fazer as carreiras da Europa, o navio aportava a Alcântara ou a Santos e ficava uma semana em carga e descarga, ia depois para Leixões e podia lá ficar uma semana. Por vezes a minha mãe para poder estar mais tempo com o meu pai acompanhava-o a Leixões, e já tínhamos a guerra, as tais senhas de racionamento, e industriou-me não só a ir à mercaria, à peixaria, ao talho, à padaria, com as tais senhas, como a fazer a minha comida. Melhor, quando nasceu o meu irmão, fazer para mim e para ele. E a minha mãe podia ir sossegada. Logo, faço cozinha desde os cinco, seis, sete anos. Não tendo eu vícios excessivos, a não ser o tabaco...


Quantos cigarros fuma por dia?
Um maço e meio. Indo ao cinema de 15 em 15 dias, ou uma vez por semana, porque gosto muito de cinema, tenho com a minha companheira, que trabalha no aeroporto, um tipo de vida muito estreito do ponto de vista económico, mas com muito conforto. Comemos muito bem lá em casa, as coisas são bem escolhidas, cozinho bem, logo ninguém pode ouvir da minha boca qualquer queixume, coitadinho de mim que sou tão pobrezinho. Não me importo nada de ser pobre. Não trocava a minha posição de modo algum com o Belmiro ou o Berardo. Tenho pena deles. Se o Berardo ou o Belmiro perderem 25 tostões, ou dois euros e meio nessa noite eles não dormem. Ai eu durmo regaladamente.


Do que tenho um bocadinho de pena, e por isso, evito, é de ir a certas livrarias. Poderia ter a tentação deste ou daquele livrito, Evito e custa-me evitar. Eu que faço livros não tenho dinheiro para comprar livros. Mas tirando isso, não me custa nada viver como vivo.


Não lhe custa não viajar?
Agora não. Viajei, sim senhora, até ao 25 de Abril. Veio o 25 de Abril, fartei-me de viajar por Portugal.


Foi para Angola aos 22 anos. Tinha a ideia de fazer documentários. Isso do cinema documental vinha de onde?
Foi uma soma de coisas. A tal minha primeira namorada vai para o Conservatório, e eu venho a conhecer o doutor Fernando Amado.


Diz sempre doutor Fernando Amado.
Digo. Tive sempre por aquele homem uma devoção extraordinária. Eu não tive universidade e sem dúvida que este homem foi um dos meus mestres. E mestre não quer dizer professor. Ele foi meu mestre porque me pôs a mim a saber. Não foi ele que me ensinou. Pôs-me em estado de saber. Por isso, mestre. Fui eu que o adoptei como tal. Um sábio gentil.
Começo com os meus encantamentos de teatro, comprei a prestações o primeiro livro que cá chegou, tradução francesa da “Formação do Actor” de Konstantin Stanislavski. E como já era muito lido, um intelectual, perorava ali na Orion, e tinha então conversas muito mais aprofundadas com o doutor Amado. Tive uma paixão por aquele teatro de amador – que eu sou um amador. Já trabalho há tantos anos, sei fazer o trabalho, do ponto de vista profissional, mas na essência sou um diletante, um amador. É por isso que nem gosto que me chamem editor. Posso fazer tanta coisa, não sou corporativo, nunca fui, calhou dedicar-me mais para aqui, podia ter ido para outro lado. Toquei muitos instrumentos, um deles foi o teatro, mais o cinema.
Ora eu tinha um grande amigo que se suicidou lá em Angola, era filho de gente rica de Benguela. E eu, mais alguns rapazes e raparigas do Conservatório, metemos na cabeça que íamos. Primeiro ia eu, tipo pisteiro, lá ter com ele, para podermos fazer um grupo de teatro itinerante pelos vastos espaços angolanos. A somar ao seguinte: comprando-se uma câmara Paillard de 16 milímetros eu podia fazer um levantamento etnográfico, etnológico e tudo o mais.


Quando é que conheceu o Ruy Duarte de Carvalho?
Mercê dessa estadia, que foi muito intensa. Acabo por o conhecer aqui mas por intermédio do Aníbal Fernandes que conheci lá. O Aníbal estava primeiro no Lobito e depois em Luanda, e eu fui sempre o homem do sul. Já tinha barba e era vermelho, e portanto tinha a alcunha de Fidel porque quando vou em 1959 temos a Sierra Maestra, temos os barbudos. E eu apareci como barbudo em Benguela, nem faz ideia.


Aquilo tudo faliu, não houve dinheiro para a Paillard, embora acabasse por fazer lá um filme em oito milímetros num sítio lindo chamado Caota, “Uma História do Mar”.


Onde está esse filme?
Não faço a mínima ideia. Gostava que tivesse ido parar ao Estado angolano. Em Angola ganhei algum nome no activismo jornalístico-político. Entrei todo Mocidade Portuguesa e saí todo Amílcar Cabral. Porque é que diz que entrou todo Mocidade Portuguesa?Eu fui da Mocidade Portuguesa. Era obrigatório. Mas eu fui mais. A Casa da Mocidade era na Rua do Quelhas [que sobe da Madragoa para a Lapa]. Quando se aproximava o Verão, os dirigentes da Mocidade andavam ali pelo bairro a recrutar rapaziada dizendo assim às mães: “Venham ver as instalações.” Eram magníficas, tinham piscina e tudo. E a cozinha, a alimentação, frangos, bifes. As mães ficavam assim: “Quanto custa?” “Nada.” “Nada?!” E, para o que era sempre um problema das mães naqueles meses de Verão – onde pôr a rapaziada, que só podia estar fatalmente ali na rua –, era um sítio porreiro. Toca a levar a criançada. A minha mãe vai ver aquilo e sai de lá maravilhada. Às duas por três vejo-me encostado a um muro com um tipo a tirar fotografias, e fico lá dentro esses meses que serviam para a formação dos graduados. Saio de lá graduado, comandante de castelo. Aquilo tinha uma parte de instrução quase pré-militar, num quartel da guarda nacional republicana, que no meu caso foi o das Caldas, e lá íamos nós, miúdos de 12, 13 anos, para a instrução militar. Não era de tipo ideológico directo. Era de carácter histórico. A grandeza da nossa pátria, os nossos grandes heróis, D. Nuno Álvares Pereira, a gesta dos descobrimentos, uma educação ultranacionalista, mas só isso, nitidamente. Eu, patriota, acho que já era antes de ir para a Mocidade Portuguesa. Não me pergunte porquê mas eu gostava de ser português. Era a minha terra. E saio da Mocidade Portuguesa com aquilo na cabeça. Eh pá, tínhamos sido dos primeiros povos a anular a escravatura, tínhamos um tipo de convívio com o Ultramar, com o preto, que os outros povos não tinham. É assim que parto daqui. Só que logo no dia em que o barco atraca ao porto do Lobito, e estou eu ainda na amurada, vejo um capataz, necessariamente branco, com uma fileira de pretos, aí uns 30 ou 40, presos com cordas muito grossas nos pulsos e nos tornozelos para a estiva. Pergunto a um engenheiro belga que já tinha experiência de África o que era aquilo e ele diz-me que eram os contratados. “Mas eles estão acorrentados.” “Estão, porque é assim.” Meses depois já eu sabia timtim por timtim o que era essa história dos contratados e como é que a escravatura continuava em Angola, e até o “apartheid” e tudo. Entretanto, as independências estavam a vir de Norte para Sul, andavam no ar. Às duas por três vejo-me obrigado a estar numa repartição da Direcção Geral de Estradas.A inspeccionar cartas de condução sem saber guiar.É uma das minhas obras-primas. Como fui examinador de cartas de condução quando nunca guiei um carro. Isto para dizer que aquilo era um faroeste, até um tipo sem carta pôde estar a examinar. Fiz passar pessoas? Ah, com certeza, aqueles camionistas que quando nasceram já sabiam guiar, esses gajos passaram logo.


Fui animar o Cineclube de Benguela, que estava parado, momento muito bonito porque descobri que havia lá um projector que ainda funcionava e uma quantidade de bobines de filmes do Charlot, daqueles de três minutos, um minuto e meio. Ideia: arranjar um gerador, um lençol e andei por tudo o que era musseque a projectar as fitas do Charlot, toda a noite, porque aquela gente ria-se tanto, a festa era de tal modo que queriam sempre que se repetisse outra vez, e eu ria-me outra vez, gargalhada geral, e aí descobri que o Charlot, sim senhor, era universal.
Entretanto, saí daquela repartição da maneira como saio das coisas, digo até logo e nunca mais ninguém me vê.


Bom, vou morrer aqui cheio de caranguejos? Quando – como já animava o Cineclube e escrevia à borla para o “Intransigente” e para um jornal de Luanda – sou convidado para o “Jornal do Lobito”. Eu detestava o Lobito. Muito inglês, com as sedes das companhias marítimas. Ao passo que Benguela era uma pequena cidade colonial, pacata, com as suas casuarinas, o cheiro intenso a peixe. Os gajos no Lobito davam-me 15 contos, ou lá o que era. Conto à Edite do Lobito e ela vai dizer ao velho dono do “Intransigente”. “Ó senhor Gastão Vinagre, está aqui o Vítor a dizer que vai para o Lobito.” E o velhote, que tinha muita asma, chamou-me. “Ó senhor Vinagre, que remédio é que eu tenho?” “Ó meu filho gostava tanto de ter aqui.” “Quanto é que o senhor me podia pagar?” “Ó meu filho, só te posso dar cinco contos.” “Senhor Vinagre, qual é a minha secretária?” E fui para o lado da Edite, todo contente.O livro que escreveu em Angola, “Hot & etc”, é o quê?Até foi, aqui para nós, um truque. Teve de haver uma “quête” e tudo para me arranjarem um bilhete para me porem a andar, senão era imediatamente preso. E chego aqui praticamente indocumentado.Teve de sair de Angola por motivos políticos?Sim. Eu tenho sido expulso de muitos sítios. Não tinha portanto bilhete de identidade. E aí já com a Célia – minha grande companheira, e que é um dos pilares do etc, companheirismo total e fidelidade total a mim e ao etc – vamos forjar um bilhete de identidade, e era obrigatório lá estar a profissão. Eu não podia pôr jornalista. Não havia sequer Sindicato dos Jornalistas lá em Benguela. Eu queria pôr escritor. E por causa disso, a ver se pegava, como conhecia no Huambo o Garibaldino de Andrade e o Leonel Cosme, que editavam lá uma tal colecção “Imbondeiro”, de livrinhos pequeninos, propus umas historietas que tinha escrito, que se chamavam “Hot & etc” – aí está o etc. Eram os três andamentos do jazz – eu também era maluco por jazz, o que era natural lá em África –, o hot, o cool, e o bop. Como o cool era um texto a atirar ao Joyce, tinha muitas vanguardices, os gajos lá me disseram que a malta podia não perceber nada. Eu disse que também não havia azar, o que eu queria era o livrinho. Então meti uma história pequenina chamada “Uma História sem Importância” muito à Vivaldi, uma Lisboa inventada por mim, toda Veneza, toda Alto de Santa Catarina, toda violeta, enfim, muito lírica, com uns diálogos entre um jovem par de namorados. Para juntar e fazer o livro que foi feito. Mas não tive sorte nenhuma porque isso não pegou. E, sim senhora, teve de se forjar uma assinatura falsa e umas coisas assim para eu ter o BI.


Quando regresso, e atendendo a que tive ligações políticas lá – fui amigo do Luandino Vieira, essas coisas –, a PIDE foi de tal modo que me tiraram a documentação. E depois: “Vamos ver como te portas.” Fiquei com um grande complexo persecutório, via que em todo o lado me estavam a seguir. Volto a dizer, nunca fui do partido comunista, nunca estive em nenhuma organização clandestina, no entanto, do ponto de vista da acção, agi, fiz determinadas coisa. Eu, um estudante universitário e um carpinteiro, que até veio nos jornais e tudo: um dia a cidade de Benguela acorda e descobre que a toponímia estava completamente alterada. Onde dizia Praça 28 de Maio estava Praça Humberto Delgado e por aí fora. Andaram a mudar os nomes todos. Numa só noite. E num cinema com um enorme ecrã que andavam a fazer, escrito em alcatrão, que custa muito a tirar, e com letras deste tamanho [abre os braços]: “Viva a liberdade.”


A PIDE desconfiou que era eu e então deslocou um funcionário, de seu nome Delgado, para tomar conta de mim, que era jornalista no “Intransigente” e sediava num pequeno hotel... isto dizer hotel, enfim... hotel. E o tipo instala-se também no hotel. Mais, à minha mesa. Tu cá, tu lá. Havia momentos em que já tirava a carteira e mostrava o retrato da esposa de 120 quilos que tinha deixado na Beira, e dos filhos, e lacrimejava de saudades. “Senhor Delgado deixe lá isso, não chore”, dizia eu para o PIDE. “Diga-me uma coisa, quando faz anos?” “Dia tal.” “Então nesse dia vou mandar fazer um pano aqui a toda a largura do hotel com ‘Viva Delgado!’” O homem primeiro ria-se e depois “Veja lá, veja lá.” E lá mandava os relatórios dele.


Quando as coisas começam a apertar muito, eles apanham o tal estudante que se porta muito bem e não fala, e o carpinteiro idem – esse sim era do partido comunista. Portanto a malha começou a apertar e a malta: “O primeiro barco que houver pões-te a andar.” Mesmo assim ainda fui chamado, fui interrogado uma data de vezes, até por causa do ‘Intransigente’ e do Rádio Clube de Benguela, porque a parte informativa estava na minha mão, e alguém foi denunciar que eu nos noticiários deitava para o lixo os telegramas da ANI [Agência Nacional de Informação]. Isso serviu também para um interrogatório, se era verdade que eu fazia aquilo, ao que eu disse que era. Porque uma das acusações era não deixar transmitir notícias que dissessem respeito à actividade do Presidente do Conselho Doutor Oliveira Salazar, o que era uma coisa muito grave. Ao que eu disse que era verdade. E safei-me desta maneira – está escrito –: “Parto do princípio que o Doutor Salazar trabalha todos os dias. Ora esses telegramas da ANI dizem que de dois em dois meses Sua Excelência recebeu o senhor subsecretário de Estado disto ou daquilo, dando assim, ou podendo dar, a impressão de que o senhor só trabalha quando os telegramas da ANI dizem. Pelo sim pelo não, não ponho.” É claro, fui para o olho da rua com um processo administrativo. Também não ganhava nenhum, eram coisas à borla.
A certa altura estou no “Intransigente” e começa a guerra. A censura fica sem saber o que fazer, sem instruções de Lisboa. Então, eu em Benguela e o Adelino Tavares da Silva no “Jornal do Congo”, foi um fartar vilanagem, dizíamos o que muito bem queríamos, aproveitando esse momento em que não havia directivas. Ainda o Salazar não tinha feito o tal discurso “tudo para Angola”.


Portanto, eu somava estar a dirigir o Cineclube com estar à frente da informação do Rádio Clube, e parte dos meus artigos eram lidos fora de Angola, em Dacar, e aqui e acolá. Logo estava sob vigilância e era um animal a abater, contando-se que tinha ligações já com terroristas do MPLA, o que era verdade, e também recebia no meu quartinho dissidentes e terroristas caboverdianos e coisas assim, o que também era verdade. Tudo isso conflui na impossibilidade de continuar em Angola.


E posto que tivesse tido uma grande fusão com aquela terra, com aquelas gentes, amigos enormes, uma história comovente:


Eu estava no jornal. E de vez em quando precisava de ir ao meu quartinho buscar um livro ou qualquer coisa para trabalho. Quando lá chegava, deixando sempre as portas e janelas tudo aberto, tinha o quarto inundado daquela pretalhada toda, nomeadamente o Vítor Maria José, que limpava o meu quarto e era muito engraçado. Eu tinha um pequeno “pick up” de plástico Philips em que os tipos aprenderam a mexer, e como tinha aqueles discozinhos de 45 rotações da Bessie Smith, da Mahalia Jackson, chegava lá e estava tudo numa grande alegria a ouvir. Eu entrava, tirava as minhas coisas e ia-me embora. Quem eram eles? Contratados. Como me viam lá às vezes a pintar coisas, um dia vieram com uma grande conversa. O que é que era? Quando acabava o contrato, para aqueles que não eram mortos – embora os contratos fossem muito continuados, mas a certa altura era demais, e eram obrigados a devolvê-los às terras de onde os tinham tirado –, o Estado tinha de arranjar uma camioneta. Juntava aquela gente toda e eles tinham uns paus com umas bandeiras, era um momento de grande alegria porque iam regressar. E então vinham-me pedir a mim para fazer as bandeiras. Andei a pedir pano de lençol por todo o lado e fiz um sol, estrelas, coisas assim muito berrantes, lindíssimas, fui mais considerado por essa gente do que qualquer Picasso ou Miró – espero que isso não apareça no jornal senão o Joe Berardo vai saber onde é que estão essas bandeiras e ainda apareço no Centro Comercial de Belém. De modo que fui encarregado das bandeiras da liberdade.


Um dia chego, e só lá está o tal criado do meu quartinho, muito triste, sentado na cama. “Epá, o que é que se passa? Então agora que vais embora é que estás triste?” Ele começa com uma grande conversa. O que é que ele queria? Levar com ele o disco de 45 rotações da Mahalia Jackson com o retrato dela na capa. Dei-lho.


Mas haveria alguma hipótese deste homem voltar a ouvir o disco? Algures no interior daquele “hinterland” deve estar um disco de Mahalia Jackson jamais ouvido. Mas tinha-o ele dentro do coração, do sangue, da cabeça. Levou aquilo como quem leva um pedacinho de Deus.Quando começou a editora & etc pensou logo neste invulgar formato?Antes de começar a produzir os livros, tínhamos a revista, que já lá tem um quadrado exacto. Fizeram-se ligeiros ajustamentos a partir daí, a escala reduziu. E partiu-se do quadrado. Para simplificar podemos dizer assim: o quadrado é lixado. Forma geométrica tão simples, com o historial que tem, com a carga mítica que tem, o velho enigma da quadratura do círculo, a célebre relação 9/10 que o Almada [Negreiros] relacionava a partir do quadrado. É muito exigente. Parti do quadrado como de um canône. Normalmente, o canône obriga a. Não se pode fugir dele. É uma forma aparentemente rigída. Em princípio, até limitadora de liberdades. Ora bem, quem vai olhar para as centenas de capas dos livros da & etc, todas com um quadrado, há-de ver que esse quadrado em vez de ser limitador, pelo contrário, é um desafio aos criadores e permite uma liberdade de expressão que está patente em cada livrinho. À primeira vista parecem todos iguais, e são todos diferentes, obedecendo todos ao canône.


Parti, portanto, do quadrado. Mas os livros são rectângulos. A questão estava em como inserir o quadrado harmonicamente no rectângulo. Com um lápis e um papel desatei a fazer esboços, lembrando-me de uma conversa que tinha tido muitos anos antes com o mestre Almada, com quem tive íntima relação, quando uma vez, em relação aos painéis [atribuídos a Nuno Gonçalves], ele me perguntou se eu sabia como ele tinha chegado a determinadas conclusões que depois publicou. Eu disse que não. Ele disse: “Cheguei aqui sem cálculo.” Achei bizarro. Podia ser mais uma “boutade”, muito à maneira dos futuristas do início do século XX. Como era possível com um intrincado geométrico tão complexo? Estava eu, portanto, aqui também com um lápis e um papel e juro que não estava a fazer nenhumas contas de cabeça. Pouco a pouco, ao ir achatando o rectângulo, comecei a verificar que o quadrado com aquela dimensão estava a casar-se, a harmonizar-se com aquele rectângulo achatado. E aí sempre sem régua, firmei mais o traço, delimitei melhor o rectângulo. Só depois fui buscar uma régua, e desenhar com o esquadro. Continuei a achar que aquele casamento não ia dar divórcio. Era para a vida – ou para a morte. Encostei, claro, o quadrado à parte de baixo do rectângulo, porque tinha de jogar com o logotipo, o mesmo logotipo, o qual está inserido também num rectângulo, que tem também ele uma determinada dimensão. Pus então o logotipo no sítio que me parecia o certo.
Depois fui medir, para ver se os números também se casavam bem. Ai, casavam-se. Dentro da minha cabeça, casavam-se. Tudo isto tem uma enorme dose de subjectividade. Também eu estive a funcionar sem cálculo. Ou ressaltava dali uma sensação de harmonia, ou não. E no meu espírito tudo se harmonizava, o quadrado com o rectângulo e os numerozinhos.Que eram?Parti de um quadrado de 11/11. E não, fugindo ao que seria clássico nas mitologias numerólógicas, de 10/10. Não me pergunte porquê. Há uma parte instintiva. Mas tenho verificado, por causa de muita gente que pega nos livrinhos, que primeiro dizem que são quadrados. Efectivamente, claro que não são, mas parecem, e toda a gente se mostra encantada com aquilo. Excepto os livreiros – reagiram muito mal, continuam a não reagir muito bem. Ou porque os livrinhos não estão formatados para estante ou porque fogem deliberademente à tal imposição industrial. A medida?15,5 por 17,5. Quem quiser fazer depois brincadeiras com os números pode fazer. E os livros do etc são encapados à mão sem vinco, para não destruir a colocação exacta do quadrado, a harmonia que pretendo que os livrinhos tenham. O outro objectivo é continuar a dar trabalho às encadernadoras. O trabalho de encadernação desde sempre é feminino – nas antigas oficinas até havia uma clara demarcação de espaço. E, muitas vezes, as folhas lá dentro também são dobradas à mão, com a faquinha de marfim. E os livros são cosidos e não colados. Portanto, há aí uma aproximação à artesania, ao artesanato, procurando assim equilibrar a exigência da tecnologia. A impressão hoje é toda “offset”. Eu fui o último editor a fazer livrinhos na antiga Tipografia Ideal, na Calçada de São Francisco, totalmente compostos à mão.

(Continua na próxima semana)


por Booktailors às 10:45 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Sex, 9/Nov/07
«Dizia o falecido José Cardoso Pires sobre o Memorial do Convento, de José Saramago, que se deveriar tirar cem páginas para que valesse a pena lê-lo... No caso de Rio das Flores, é exactamente o contrário, ainda lhe faltam, pelo menos, mais cem páginas para cumprir o seu objectivo»
João Céu e Silva, Diário de Notícias

«Com menos 200 ou 300 páginas, Rio das Flores poderia ser um bom romance histórico sobre uma época raramente abordada pela ficção portuguesa. Assim, é apenas uma oportunidade perdida e um objecto pesadão»
José Mário Silva, Time Out

Nota: As duas citações foram recolhidas pela revista Visão, tendo sido publicadas na página 152, da edição de ontem - 08.11.2007.

Etiquetas: ,

por Booktailors às 10:36 | comentar | partilhar

Qua, 7/Nov/07
Qua, 7/Nov/07
Ainda em respeito à sessão dos livros em desassossego, pouco mais há a acrescentar ao que já é do conhecimento de todos, nomeadamente:

A Alta Autoridade para a Concorrência deu um parecer positivo à quota conjunta dos escolar detida pelo novo Grupo de Paes do Amaral – pedido esse que tinha sido feito preventivamente por eles.

Das economias de escala: Isaías Gomes Teixeira referiu que as economias de escala nem sempre são como se julga, referindo-se ao facto de algumas editoras nacionais terem apenas 1% de quota ou menos mas, por trás de si, beneficiarem de elevados efeitos de escala por pertencerem a algumas das maiores estruturas internacionais. Com isso pretendia dizer que essas editoras já beneficiam de economias de escala, mas globais, aproveitando os recursos dos grupo (que mais não seja em termos de acesso a fontes e negociação de direitos).

Da continuidade do projecto: Dizendo «não julguem que daqui a 5 anos nós iremos vender, este é um projecto para pelo menos 10 anos», trouxe algum ar de novidade e obrigou a reformular muitas das apostas que se vão desenrolando na cabeça dos nossos editores. Simultaneamente, referiu alguns números como: têm, em bruto, cerca de 14% da quota global de mercado; têm mais de 50% do mercado escolar moçambicano, e um volume de 20 milhões de livros em exportação para Angola e Moçambique; têm quase 40% do mercado infanto-juvenil.

Do relacionamento com os autores: Também alertou para o facto do Grupo não se ir coibir de fazer ofertas e roubar autores às outras editoras, mais propriamente, disse que se está num mercado e essas coisas fazem parte do mercado. Fica para a posteridade a afirmação, estamos a parafrasear, que «a editora que interessa aos autores é a editora que lhes dá leitores».

Do Brasil: Falando do Brasil, assinalou o valor do mercado brasileiro, com 2,8 mil milhões de reais (cerca de 1,15 mil milhões de euros, aproximadamente o dobro do mercado português).

No meio de tudo isto, quem passou pelas gotas da chuva foi António Lobato Faria, que beneficiou de toda a atenção estar em Isaías Gomes Teixeira para manter uma postura distanciada de ambas as partes, referindo por um lado que era economista e não editor (e assentando os seus argumentos em factos da economia da cultura) e simultaneamente dizendo que o caso da Oficina não era, de todo igual à do Grupo Paes do Amaral, referindo um ADN diferente, assente num crescimento orgânico que o levou a criar um grupo de 12 milhões de facturação anual.
O único reparo surgir por Francisco Vale, recordando-o do percursos financeiro da estrutura, da associação a capitais industriais e posteriormente a capitais de risco e como a estrutura onde estava inserida tinha, significativamente, a mesma estrutura de objectivos e formatos de controlo.


por Booktailors às 18:45 | comentar | partilhar

Qua, 7/Nov/07
Por mais escândalos que surjam, com acusações de manipulação política e tráfico de influências para favorecimento pessoal (denunciadas em 2006, por Madeleine Chapsal), os prémios literários franceses e, em particular, o Prémio Goncourt, continuam a surpreender.

Após terem dado, no ano passado, o prémio a Jonathan Littel (um norte-americano que, por acaso, cresceu em França), pela obra «Les Bienveillantes», cuja publicação está prometida e ainda não cumprida pela D. Quixote (após a morte do escritor e, neste caso, tradutor português, Alface), eis que os franceses se arrepiam e clamam novamente que estão a ser aculturados pelas terras transatlânticas ao ser atribuído o Prémio Goncourt deste ano a Gilles Leroy. Não que o autor seja americano, mas a obra vencedora, «Alabama Song», retrata a vida do casal e, mais concretamente, da esposa de Francis Scott Fitzgerald, a escritora nunca reconhecida Zelda Fitzgerald.

Mais estranho ainda, e na continuação das acusações de 2006, foi, entretanto, a atribuição do Prémio Renaudot - o segundo prémio mais importante da literatura francesa - ao já conhecido Danniel Pennac, com um livro que ocupa actualmente os tops de venda («Chagrins d'École») mas que... nem sequer estava indicado na short-list. Com as acusações de que muitos júris votam mais pelo editor do que pela obra ou autor, esta entrada de última hora está a ser vista como surpreendente, por uns, estranha, por outros.

Com humor, Daniel Pennac referiu-se ao prémio com «é uma surpresa total. Não estava mesmo à espera, pois [o prémio] não fazia parte do programa. Deve até ter sido divertido assistir à discussão entre o júri. Mas é bom, consigo assim provar a um professor de infância como ele estava redondamente enganado.»


por Booktailors às 10:55 | comentar | partilhar

Ter, 6/Nov/07
Ter, 6/Nov/07
O ciclo "Os livros que não esqueci" está de volta à Casa Fernando Pessoa. Amanhã, às 18h30, com Francisco Belard.



por Booktailors às 09:58 | comentar | partilhar

Seg, 5/Nov/07
Seg, 5/Nov/07
Via ConValor.

Apesar de já se ter tido acesso aos dados globais, eis que chega agora o estudo completo da FANDE sobre a distribuição de impressos (periódicos e não periódicos) na nossa vizinha Espanha.
Uma óptima oportunidade para se ver como se vai organizar e evolui este elo vital do mercado dos livros.

Estudo completo aqui.


por Booktailors às 10:50 | comentar | partilhar

Sex, 2/Nov/07
Sex, 2/Nov/07
A entrevista abaixo parte de um trabalho jornalístico de Alexandra Lucas Coelho, intitulado “Resistência é a palavra”, que foi publicado no suplemento P2 do Público, a 16.07.2007.
Dada a extensão desta entrevista a Vitor Silva Tavares, da &Etc, iremos publicá-la em duas partes.


A editora que Vítor Silva Tavares fundou como “uma aventura poética”, a & etc, vai fazer 35 anos. E ele faz 70 anos a 17/07/2007. Os números também são beleza e harmonia. O acaso não é por acaso. Tem publicado centenas de autores que, tal como ele, nunca ganharam um tostão com isso. Ética e estética, diz um dos seus autores-irmãos, Alberto Pimenta.

É lisboeta “pardal”, de palmilhar a cidade a pé. Foi miúdo descalço na Madragoa, uma pobreza de se pôr o relógio no prego para haver sopa de hortaliça numa casa com 13 pessoas. É nessa casa que continua a viver, e o relógio ainda lá está.

Entre o prego e 2007, as aventuras dão para uma conversa que não acaba, a que ele vai tendo com os próximos, sem pensar em escrever memórias. A sua escola de jornalismo, muito antes do “Diário de Lisboa”, é a do “Intransigente”, de Benguela, onde também foi inspector de cartas de condução sem saber conduzir e mudou os nomes todas da cidade numa noite de subversão, o que lhe valeu ter um agente da PIDE à perna, de seu nome Delgado.

Partiu de Angola em risco de ser preso, deixando um 45 rotações de Mahalia Jackson a um contratado do interior que o levou para onde nunca mais terá sido ouvido.

De volta a Lisboa, distribuiu colaborações pelos jornais enquanto, ateu dos quatro costados, pintava Cristos que um “manager” vendia a conventos. Não sabe por onde andará essa extensa obra pictórica.

Depois convidaram-no a dirigir a editora Ulisseia, onde começou a publicar surrealistas portugueses, “nouveau roman” francês e obra de muita indignação para a censura. Os livros eram apreendidos, mas aparentemente a Ulisseia era mesmo para dar prejuízo ao dono, a Abel Pereira da Fonseca.
Gosta de coisas tão antigas como letras de tipografia e histórias a circular pela boca. De fazer coisas porque apetece, e porque tem de ser, e porque é assim. A porta aberta é para entrar e para sair, o importante é que esteja aberta.

Na & etc não há lucros e há livros quando houver. Tem havido regularmente, e cá estão eles a toda a volta deste subterrâneo com pátio de azulejo antigo e escadinha de ferro, ali onde o Bairro Alto cola com a Bica, muito lisboeta.

Tudo já aconteceu aqui, até quase um parto. Não há computadores e a secretária é a mesma que o senhorio ofereceu no dia em que o subterrâneo foi alugado. Vinha a calhar para este título, que começou por estar no primeiro livro de Vítor Silva Tavares publicado em Angola, “Hot & etc”, depois passou a ser um magazine do “Jornal do Fundão”, uma revista e enfim uma editora. Por ter começado como magazine é que Vítor Silva Tavares lhe chama sempre “o etc”, no masculino. Hoje, centenas de livros diferentes, que parecem quadrados, e todos juntos são uma bela, longa, aventura.

Horas de conversa, em que ainda antes da primeira pergunta a jornalista abandonou o guião. A gravação começa com Vítor Silva Tavares a contar como começou a & etc.

Partimos da mais rigorosa e total independência, só tendo em cima de nós a vigilância censória, o que a censura cortava. Mas nós não cortávamos. Não havia censura interna, nenhuma. E não era, como agora se diz, “vamos ter um projecto”, não senhora. Entrámos a fazer o etc exactamente como uma aventura poética, interligando desde logo a intervenção artística, cultural, com as nossas próprias vidas. Viver poeticamente através de uma folheca, ou de livrinhos, mas viver a nossa própria vidinha.

Talvez isso nos ajudasse a dar algum sentido, alguma alegria a um país em absoluto pardacento que não apetecia. Hoje não sei se apetece muito, na altura não apetecia nada.

E, portanto, dúzia e meia de malucos atirámo-nos para isto.

E já colaboraram no etc, desde que ele nasceu, largas centenas de escritores, tradutores, pintores, ilustradores, que jamais tiraram daqui um cêntimo. A editora é totalmente independente. Nunca pediu nem à Secretaria de Estado da Cultura, nem às fundações, nada. Vive dos livrinhos que fazemos e pomos nas livrarias, e as tiragens são muito pequenas...

Entre 400 e 500?

Não!!! Menos! Ui! Isso era um “best seller”. A gente faz 300 e em casos excepcionais 350, nunca mais.
Não houve uma altura em que fazia entre 400 e 500?

Houve. Na parte dos senhores leitores houve também mutações. É preciso ver que, quando o etc arranca, o Maio de 68 está perto.

Está a referir-se ao & etc no “Jornal do Fundão”, para si esse é o princípio.

Sim, o etc arranca como um magazine do “Jornal do Fundão” [que tivera o seu suplemento de cultura censurado].

A ideia era esta: se o jornal reaparecer com uma folha que diz “Artes e Letras, Suplemento Cultural”, o que quer que seja, é um convite que estamos a fazer à censura para cortar “ab ovo” a intervenção cultural dentro do “Jornal do Fundão”. Logo, vamos lateralizar a questão. Vamos chamar-lhe magazine, recuperando a velha ideia dos magazines, um bocadinho de cada coisa, o que já tem a ver com o nome.

E aí há um cruzamento de coisas curiosas. Não íamos fazer um suplemento cultural académico, tal qual se faziam antes, um pouco de música, um pouco de cinema, um pouco de artes plásticas, o crítico tal debruça-se sobre não sei quê. Não era por aí que íamos, nem fomos.

Quando fala no plural está a falar de quem?

O “nós”, aqui, era sobretudo eu e o José Cardoso Pires. De início, “ab ovo”. A coisa nasceu assim. O António Paulouro [director do “Jornal do Fundão], o José Cardoso Pires e eu, que era uma espécie de homem de mão, colaborador assíduo do Zé. Escrevíamos coisas a quatro mãos, e etc.

Como conheceu o José Cardoso Pires?

Eu tinha vindo lá das Áfricas, em parte do jornalismo, no tal jornal “O Intransigente”, de Benguela, posto que tivesse outras profissões, fui para lá um aventureiro. E chego a Lisboa com a determinação, desse lá por onde desse, de nunca mais servir qualquer patrão ou fazer aquilo que não queria, de que não gostasse. Nunca mais. Disse o corvo e disse o Vítor. Pronto.

E regressei portanto para a minha função de pardal, que sou lisboeta tipo pardal. E para subsistir escrevia indistintamente ou contarelos para o “Diário Popular” ou pequenos textos para a “Crónica Feminina” ou crítica de cinema para a “Flama”, ou crítica de cinema para o então “Jornal de Letras e Artes”. E comecei a dizer “não” a uma quantidade de coisas. Empregos, por exemplo, publicidade: “jamais de la vie”. Não era comigo. E andava assim em pardal, saltitando daqui para acolá, palmilhando Lisboa como hoje – sou pedestre –, quando aparece uma proposta que era nem mais nem menos que ir dirigir a editora Ulisseia.
A Ulisseia!, que era a editora que eu, enquanto leitor, na altura ainda com algum dinheirito para comprar livros, mais apreciava, com direcção do Figueiredo Magalhães, que ainda é vivo. Grande editor. Não me deve chupar nem à lei da bala, porque eu é que fui suceder-lhe, digamos. Mal sabe ele a admiração que tinha por ele, e mal sabe ele que ao suceder-lhe não tive outro propósito senão garantir àquela editora o mesmo nível cultural, artístico que o velho Figueiredo Magalhães tinha dado.

Ora o José Cardoso Pires estava ligado à Ulisseia, que era a produtora dessa publicação “sui generis”, espantosa que foi o “Almanaque”.

Quando chego à Ulisseia, meti condições que não dá para acreditar, porque eu não acreditava nada que de repente trocava os cem paus, ou os noventa paus, que me pagava o “Diário Popular” por uma colaboração, e de repente estava à frente, como director editorial, de uma editora como a Ulisseia. Era demais. Então disse: “Só entro se...”

Como é que essa hipótese apareceu?

O Figueiredo Magalhães tinha saído, a Ulisseia tinha ficado sem cabeça, e tinha-se arrastado um determinado período, dependendo de uma casa gráfica, a Casa Portuguesa, que executava os livros e atirava todo o passivo para a Ulisseia. Quem era o dono disso tudo? A Abel Pereira da Fonseca! Batatas, azeitinho, vinho a martelo! E alguém ligado à administração da Abel Pereira da Fonseca, conhecendo a irmã da Edite Soeiro [jornalista com quem VST trabalhara em Angola], perguntou: “Não haverá por aí alguém?”, e tal. E foi essa irmã, ou a própria Edite que disse: “Há um tipo que gosta muito de ler.” Disseram que eu tinha uma grande cultura literária, que também me interessava muito pelas artes plásticas. Naquela altura eu era um rapaz culto, e como tal capaz de estar à altura de – lá devem ter dito.

Foi em 1959 para Angola. Quantos anos ficou?
Três, que contaram para 30. Fui para lá ainda todo mocidade portuguesa. não haver racismo...
Portanto voltou a Portugal em 1962.

Sim, e [antes de aparecer o convite para a Ulisseia] ando por aí a distribuir colaborações, assim e assado. Tendo algum jeito para as pinturices tive um “manager” que estava ligado a uns conventos.
A uns conventos?

À padralhada. De modo que acabei por pintar a lápis de óleo e em tela ou cartão ou madeira uma quantidade de Cristos que o “manager” se encarregava de vender, e dar-me depois uns cobres, como “o artista”. De modo que eu distribuía-me entre literato, escrevendo para os jornais crónicas ou contos, mas também fazendo uma perninha nas artes plásticas, digamos assim. Eu que sou completamente ateu.

Eram umas trombas de um Cristo muito mal disposto, a sofrer muito, e os padres gostavam desse sofrimento.

Onde é que acabavam essas suas obras?

Nem sei onde é que está essa merda! Deve estar lá pelos conventos. Ainda fiz umas dúzias.

Conventos de alguma ordem específica?

Sim, sim, das ordens. Uma não sei quê de Benfica.

Os Dominicanos?

Talvez, quem tratava disso não era eu, era o “manager”.

De modo que não acreditei [no convite para a direcção da Ulisseia] e fiz exigências]: separação completa da tal Casa Portuguesa, autonomia completa quer na Direcção Editorial quer na Direcção Administrativa, salário altíssimo... O convite foi em Outubro e já sabia que a editora estava tão mal que os donos não iam sequer pagar subsídio de Natal. Não senhor: “Não vai ninguém para a rua, senão não entro, e subsídio de Natal para toda a gente. E é pegar ou largar.”

A proposta devia ser de tal modo insólita, mesmo nessa altura, que o velho dono daquilo teve curiosidade em saber quem era o energúmeno. Vou ter com o homem, que seria dos mais ricos de Portugal...
O tal da Abel Pereira da Fonseca.

Sim senhora, de seu nome Manuel Correia — não sei se ainda é vivo —, que creio que nunca leu um livro, a não ser talvez o José Vilhena, e de teatro deve ter ido ver a Laura Alves. Homem já velho, de cabelo branco, acaba por ter comigo e com a Edite um tratamento como se fosse nosso pai ou nosso avô. Porque eu disse: “Mas eu lá de finanças, de organização, de coisas administrativas não percebo a ponta de um chavelho.” Para isso, estava a Edite, a sua disciplina, a sua capacidade de trabalho espantosa, e eu podia andar por aí. Também não me via como editor sentado, nem pensar. A Edite toda formiguinha e eu todo cigarra.

E assim foi.

O homem cumpriu totalmente. O único receio que ele tinha é que eu viesse a ser preso pela PIDE, dado que durante os dois, ou três ou quatro anos que lá estive nem faz ideia da quantidade de livros que publiquei e que a PIDE apreendeu.

O que é que publicou?

Ena pá! Fiz o gosto ao dedo. Fundei uma colecção muito bonita, ainda hoje gosto muito dela, “Poesia e Ensaio”. O Magalhães tinha a colecção dos sucessos literários, com os romances; tinha a colecção dos Documentos Sociológicos e Políticos; era a Ulisseia que publicava os livros da Pelikan. Mas não tinha Poesia e Ensaio. E até nessa colecção houve logo livros apreendidos. Desde “Feira Cabisbaixa” do Alexandre O’Neill a uma antologia da poesia portuguesa do pós-Guerra, até casos mais graves. Fui eu que publiquei os “Condenados da Terra”, do Frantz Fanon, e tínhamos a guerra colonial. Esse livro servia de bíblia aos guerrilheiros ditos terroristas.

Mas o Manuel Correia nunca demontrou qualquer problema pelos livros todos que eram retirados. Não lhe interessava. Se calhar a Ulisseia até seria uma desnatadeira, sei lá.

Uma desnatadeira?

Há certas editoras ligadas a empresas muito fortes noutros campos e onde as literaturas servem para desnatar lucros. Para dar prejuízo. Há editoras a que interessa dar prejuízo. Se houver fusão de empresas, uma grande empresa com lucros hiperbólicos pode sempre desnatar através de uma editora onde à partida já não se põem grandes expectativas. É uma questão de operações contabilísticas. Desnata-se, ou descai-se. E até se pode ganhar alguma coisa em sede de IRC. Não percebo muito de finanças mas é à volta disto.

Seria um tanto enigmático porque é que a Abel Pereira da Fonseca tão interessada em vender grão de bico, vinho, azeite e batatas do Val do Rio era tão indiferente ao sucesso ou insucesso económico da editora. E era. O que me punha completamente à vontade. Começo a publicar cá, por exemplo, os autores do “nouveau roman”, Nathalie Sarraute, Claude Simon, Robert Pinget, com “O Garoto” — se aquilo vendeu 20 exemplares deve ter sido um “best seller” do caraças. Ou quando começo a chamar os surrealistas portugueses. Quem é que os publicava? Ninguém. Sou eu que vou publicar o primeiro livro do Luiz Pacheco, “Crítica de Circunstância”. E trás, cai lá a PIDE, pumba, o livro é apreendido.

Nas traduções, quem tinha?

Ia desde a Luiza Neto Jorge, só vendo livro a livro.

Já tinha o Manuel João Gomes?

Não. O Manuel João Gomes entra quando a Luiza conhece o Manuel João Gomes, que era muito bonito. Ela, Luiza, teve sempre uma pontaria muito grande para os seus homens, sim senhora. Aquele olhinho azul, aquilo era um olhinho certeiro. Aí, já estou no etc do Fundão. Tanto assim que sou eu que publico o primeiro texto do Manuel João Gomes. Ela apresenta-me ao menino, que parecia o Che Guevara, um misto de Cristo e Che Guevara, estava cá como relapso à tropa.

Cá?

Em Lisboa, porque ele não era de Lisboa. Tinha andado lá pelos seminários e desagua em Lisboa, refractário à tropa em tempo de guerra colonial, passando todo o tempo até ao 25 de Abril em clandestinidade aqui na Rua da Misericórdia, casa da Luiza.

Veio ao Coliseu uma companhia de circo russa, e o Manuel João Gomes escreve para o “Jornal do Fundão” um texto chamado “Alice no País dos Sovietes” – já havia nessa altura um grande interesse dele pelo Lewis Carroll. A censura cortou um bocadinho mas não o suficiente para eu não publicar. E começa aí uma colaboração muito íntima que se prolonga depois para o “Diário de Lisboa”, e para a aventura do etc. Ele foi, sem dúvida, o meu braço esquerdo, o meu braço direito. Nunca encontrei um melhor colaborador que o Manuel João, sob todos os aspectos. Tal como eu tinha uma grande ligação de amizade e admiração pela Luiza.

Aqui dentro do buraco, e isso hoje ainda se mantém, temos um tal tipo de ligações de ordem humana, de admiração, poéticas, que isso em parte explica que uma casa que não tem estruturas nenhumas, mas tem esta, e de tão longa duração, para o ano vá fazer 35 anos sem se ter desviado um milímetro que fosse da mesma maneira de estar dentro destas coisas.

Voltando ao que publicava na Ulisseia.

Raymond Queneau. “O Grupo”, da Mary McCarthy, na altura o primeiro livro de apologia do feminismo em Portugal, não sei se a PIDE o retirou. O Cesariny, claro, com “A Intervenção Surrealista”, e esse lindo livro que foi “A Cidade Queimada”, feito à mão, folhinha a folhinha, com os desenhos do Cruzeiro Seixas.
Voltando ao José Cardoso Pires, pois bem, entro para a Ulisseia, sendo eu admirador da editora do “Almanaque” e dele enquanto escritor – já tinha lido “O Anjo Ancorado”, “Os Caminheiros e Outros Contos” – e eu queria publicar a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, porque só havia uma muito bonita com edição do Adolfo Casais Monteiro, mas de certo luxo, esgotada há muito tempo. Eu tinha uma enorme admiração pelo Fernão Mendes Pinto, pelo lado aventureiro, e de quem me lembro para uma nova actualização de texto ou a apresentação? Do Pires. E entro em contacto com ele. Levei tampa, o homem tinha mais que fazer. Mas estabeleceu-se uma tal empatia, talvez também pelo meu linguajar. O Cardoso Pires era um lisboeta de adopção, adorador de Lisboa, e eu sou lisboeta da Madragoa. Por vezes a minha linguagem está ainda muito salgada.

Em que rua mora?

Rua das Madres. Toda a minha família estava ligada ao mar e ao rio. O meu bisavô materno, pescador, tinha o seu bote, o pai dele tinha vindo de Olhão, era gente lá dos Algarves. E com os outros homens – que tinham os botes e passavam o pessoal do trabalho de um lado para o outro do rio, isto quando não havia ainda cacilheiros – vai formar a Cooperativa dos Catraeiros, que em conjunto compra o primeiro cacilheiro. O meu tio-avô, filho dele, portanto, foi um dos primeiros mestres dos cacilheiros. Eu era puto.

Isso, no princípio dos anos 40.

Pr’aí. Ele a guiar e eu ao lado, ainda nem sabia quem era o Vasco da Gama, mas se soubesse ia de certeza ao lado do Vasco da Gama.
Depois, a minha pobre mãe também trabalhava como carne para canhão do lado de lá, quer nas fábricas das anchovas, num sítio chamado Olho de Boi, quer nas chamadas fábricas dos gelos, estão ainda lá os armazéns. Muitas vezes eu fazia pressão para ir com ela. Nasci em condições de muita miséria naquela casa. Fui o décimo terceiro. Parece impossível como estavam lá 12 pessoas quando eu nasci, mas estavam. Gostei muito do Pacheco e da “Comunidade”, na “Crítica de Circunstância”, por haver certos paralelismos. Lá estava a filharada do Pacheco a dormir nas gavetas da cómoda, ou em cima do papel, porque o papel é um bom condutor do calor, quando eu também, no meio do chão, no linóleo, estava ali rodeado de mãe, avó e tias.

As condições em que nasci e cresci eram tão dramáticas que isso podia ter, e de que maneira, retorcido completamente a minha psique, a minha pessoa. Isso não se deu porque fui tão protegido, gostado, apalpado, acarinhado, tão com-todos, que a minha mãe deixava-me indistintamente em casa de A. e da mulher do sapateiro.

A minha avô ia comigo à sopa dos pobres, ali aquele edifício em frente ao Parlamento, buscar a sopa e o pão escuro que muitas vezes era a base da alimentação. E há um pormenor completamente surrealista. Na casa onde ainda hoje vivo só há um objecto do que era a casa velha. É um relógio de cavalinho. Está lá na parede. É um daqueles relógios que parecem uma pequena catedral que tem um cavalinho por cima. Uma peça muito bonita que faz um cagarim doido ao tocar. Toda a gente olha para ali e diz: “É um relógio.” E eu digo: “Não senhora.” Como tenho esta costela surrealista, digo: “Aquilo que ali está na parede é uma panela de sopa.” “Uma panela de sopa?” “Tal e qual.” Porquê? Como era o único bem que havia naquela casa, o sacana do relógio semana-sim-semana-não estava no prego, que ficava na Rua da Esperança. Lá ia o relógio para o prego e nessa noite havia sopa de hortaliça com chouriço de sangue. Era uma festa. O relógio servia para isso.

A minha mãe ficou muito marcada pela memória dessa extrema miséria, porque não me pôde dar o apoio que as mães gostam de dar aos filhos.

A minha avó Arminda, por quem tenho total devoção, tinha como alcunha na Madragoa a Viúva Alegre. Acontece que a minha avó nunca casou. E era amiga íntima de uma outra chamada Rosa das Sardinhas, avó do Henrique Viana. A minha avó fazia tudo, Cantava o fado com um irmão pelas tabernas, empalhava cadeiras, cosia as velas das fragatas no Largo Vitorino Damásio... havia lá uma casa com um grande passeio em frente, onde o mulherame de gatas cozia com umas agulhas de osso e corda muito forte os remendos das fragatas... e também lavava a roupa para as vizinhas no lavadouro que ainda existe ao cimo da Travessa do Pasteleiro. É Zola. Eu saía de casa, de pé descalço, claro...

Que idade tinha a primeira vez que calçou sapatos?

Quando fui para a escola. Mas foi um problema. Sentir o pé apertado num sapato foi uma coisa terrível. Lá ia eu ter ao lavadouro sabendo que a minha avó lá estava. A minha mãe estava a trabalhar sempre noutros sítios. E então à porta do lavadouro eu gritava: “Ó Vó!” E aquele mulherame todo: “Ó Arminda, o teu neto!” E eu ia pelo ar, entre muitas beijocas, de braços em braços, zuca-zuca-zuca, até desabar no colo amplo, ancho, da minha avó, que me dava logo muitos chochos na cabeça. Muito magrinho, como sou hoje, com medo que também eu morresse, por raquitismo, subnutrição, etc.

O meu pai era trabalhador estudante e já estava a fazer as viagens dos lucros bacalhoeiros, de seis meses, no mínimo. Ia para a Gronelândia e para a Terra Nova. Logo, eu só via o meu pai de seis em seis meses. E quando começou a fazer as carreiras da Europa e da América, de três em três meses. Era sempre um pai muito distante. Eu fui criado pela família da minha mãe.

O que é que o seu pai fazia? Andava na pesca?

Não, era estudante de máquinas, e foi tirando as cadeiras até terminar a sua carreira no mar como primeiro oficial maquinista. Depois ficou em terra e foi para a Sorefame como técnico. Um “gentleman”, olhinho muito azul, bigodinho à Errol Flynn, muito namoradeiro, casado com uma Anna Magnani, que era a minha mãe, de uma frontalidade a toda a prova, um ser inteiro, sem diplomacia, e de uma rectidão total, a chamada mulher de armas. Violenta e com uma relação terrível com o meu pai, terrível do género facalhão ou mesmo um machado para lhe dar cabo da cabeça.

Por causa desse lado namoradeiro?

E porque o meu pai era muito fantasioso, para não dizer aldrabão, embora encantador. Muito bonito. E a minha mãe também. E era ela que aguentava com todo este peso, este martírio.
Eu não quis entrar para a escola, para mim era uma prisão. Tudo aquilo me metia terror. Rapaz da rua, de repente sou enfiado dentro de uma escola. Para mais, muito chique, pelo seguinte: como os meus pais eram muito novos, não eram casados quando nasci. Logo fui filho ilegítimo e como tal, quando chegou à altura de entrar para a escola, não fui aceite nas oficiais porque era ilegítimo. Então a minha mãe teve que arranjar uma escola que havia na Rua da Lapa de duas velhotas republicanas que faziam uma grande selecção, mas apiedaram-se do meu caso e aceitaram-me.

De modo que os seus colegas eram os meninos da Lapa.

Os meninos bem. E eu tenho uma quarta classe em absoluto excepcional. O meu gosto pelas literaturas vem daí. Pela simples razão que as velhotas já nos liam na aula Gomes Leal, Guerra Junqueiro...

Isso hoje é impensável.

Ainda sei de memória. Liam certos poemas de Gomes Leal, ou do Augusto Gil, e eu gostava muito. Ou do Guerra Junqueiro. “A Lágrima”, ai “A Lágrima”. E “O Melro”. “O melro, eu conheci-o”...

Mas o seu pai tinha livros, não?

Sim, o meu pai era mais culto. Quando aprendi a ler e finalmente foi possível alugar-se uma pequena casa na esquina do Rua do Meio com a Rua da Lapa, num prédio que já foi abaixo – a casa era tão pequenina que o meu pai, que tinha muito jeito de mãos, teve de fazer um beliche como nos barcos [para Vítor e o irmão que entretanto nasceu] –, passei a ser um devorador compulsivo de tudo o que era letra, desde cartazes de rua à necrologia dos jornais, e portanto devorei aquela livralhada toda [do pai], e que oscilava desde os livros do Hall Caine ao Blasco Ibañez, Stefan Zweig e os portugueses do Primeiro Realismo, Aquilino, mas também Assis Esperança, Leão Penedo, literatura de carácter mais social.

Zola também?

O “Germinal”. Quando mais tarde tive a minha primeira namorada, ela foi trabalhar para a livraria Barateira. E apetece-me dizer que li a Barateira toda por interposta namorada, isto provocando uma baralhada doida na cabeça. Um acumulador de literatura, lendo tão selvaticamente e coisas tão separadas.

Sim senhora, tirei uma quarta classe excepcional, e entro para o Pedro Nunes, que era o liceu da nata, com 18 vírgula qualquer coisa, o que deu lugar a ser chefe de turma e ir para o quadro de honra. Posto que os meus pais não tivessem dinheiro para eu estar no liceu, erro fatal. No liceu fartei-me de roubar tudo. Roubei a prancheta, os livros, tudo. Vim a ser expulso por indisciplina grave que envolveu agressão a um professor. Aquilo era um liceu fascista, embora lá estivesse também gente como o Jorge Sampaio, e alguns professores de grande qualidade, como Rómulo Carvalho, que não foi meu professor. Não tenho tendência natural de violência, de agressão, não trato mal ninguém. Mas por outro lado venho de onde venho, a minha era uma cultura de rua com a violência própria dos miúdos. De qualquer modo, eu estava ali transplantado para um universo que não era o meu. E não esquecer que já ia embalado com um tipo de leituras que cada vez mais acentuavam em mim a consciência da injustiça social. Eu lia escritores como o Ferreira de Castro e chorava de uma maneira doida, crescia dentro de mim uma revolta enorme, que nunca me passou. Só está atenuada, plasmada dentro do meu ser. É marcante para a vida.

Primeiro dia em que entro para o liceu. Dia solene. A minha mãe lá faz um esforço e compra-me uma malazita de cartão para meter lá o livro. Roupinha nova, penteou-me, risquinho ao lado e lá vou eu, em estado de terror, para o pátio. Talvez pela maneira como estava vestido, um puto qualquer começou a embirrar comigo. Dá-me uma palmada na pasta, que cai ao chão e como era de cartão, ficou amolgada. Eu disse: “Eh pá, tá quieto.” E o sacana, pás, outro murro na mala, que cai outra vez para o chão. E eu disse: “À terceira, levas.” Ele não acreditou. Foi o mal dele. Porque de onde eu vinha não se faziam ameças. Eu fiz um aviso. Deita-me outra vez a mala para o chão, e aí em um quarto de segundo já eu tinha o meu punho muito magrinho de cima para baixo na cana do nariz, tipo coice, que é infalível – o sangue espicha imediatamente e um gajo cai redondo, logo, que foi o que aconteceu. Um certo alarido e toca a sineta, para eu ir para a primeira aula. Não é que o gajo era da minha turma? Entra naquele lindo estado cheio de lenços, cheio de sangue. O professor pergunta-lhe o que foi e o cabrão diz: “Foi aquele menino.” E o professor para mim: “Entras bem.” Mais tarde, esse tipo foi para o jornalismo e para a extrema direita. Foi para o “Diário da Manhã.”

Portanto, houve ali um erro. Dado que tive uma muito boa quarta classe, a minha mãe teve a ambição natural de que eu saísse doutor e viesse a ter um bom emprego. Só que ela não tinha meios para isso.

E depois aconteceu aquilo da agressão, que foi mais por indignação pelo que o sacana do professor tinha feito a outro aluno que por minha causa. Eu era um bocado impulsivo, tinha a quem sair. E tanto assim, por ter a quem sair, o episódio da expulsão foi engraçado. A certa altura o reitor, fascista, manda lá chamar a minha mãe. E disse-lhe que ou ela me metia num reformatório, porque eu já não ia lá de outra maneira, ou então talvez uma carga de pau pudesse solucionar a questão. Recebeu como resposta o seguinte: “Se eu tivesse aqui um pau, a si é que eu lho enfiava na cabeça.” Ela que sendo tão violenta nunca me bateu.

Portanto deixa o liceu.

E vou trabalhar para uma casa no Areeiro, onde estão agora As Chaves do Areeiro, que fazia uns acessórios para automóveis. Como tinha muito jeito de mãos puseram-me a fazer em gesso uns moldes aerodinâmicos, cinematográficos. Ah, porque a minha cultura começa a ser cinematográfica. Tive tantos dias de expulsão e castigo no liceu que passava o tempo a ir para o Paris ou para o Jardim Cinema ver filmes. Até entrei para o Cineclube Imagem, que era vermelho, e tinha lá dentro o Vasco Granja, o Henrique Espírito-Santo, o José Fonseca e Costa. E houve uma altura, até, em que a PIDE prendeu a direcção toda do Cineclube Imagem.

Foi para mim uma autêntica escola, não só de cinema, mas também daquilo em que o cinema, como qualquer outra das artes, deve ter a sua função política. Isto em tempos já muito politizados. Por leituras, e depois pelo cinema, e por estes contactos, comecei a ser aquilo a que hoje se chama uma pessoa de esquerda.

Sem nunca ter pertencido ao PCP, não deixei de ser aliciado pelo PCP, e de qualquer modo era um ponto de referência, sempre. E nessas relações no decorrer da vida, nas Áfricas, quando regresso, a dirigir a Ulisseia, depois no etc do Fundão, no “Diário de Lisboa”, é natural que tivesse sofrido, nomeadamente no “Diário de Lisboa”, pressões que não vinham apenas da censura.

Muitas vezes voto no PCP e não é por causa do PCP, é por causa de mim. O que tenho a ver com o PCP? Nada. Gosto de ir votar porque a junta de freguesia é ali na Rua da Esperança, e vota-se ao domingo, e ao domingo aquilo é uma aldeia. Até os cavalheiros podem aparecer de chapéu, porque é quase tudo emigrantes, de Ovar, daqui e dacolá. Põem os seus melhores fatinhos, as esposas ou viúvas também, e é-me ternurento ver como aquela gente vai tão respeitosamente votar. Então, eu gosto de ver aquilo e também vou.

Isso explica por que vai votar....


Como vê, não é por causa da “democracia”.

Mas porque é que vota no PCP?

Sou totalmente fiel à minha condição. Não tenho qualquer ilusão sobre de onde venho, como fui sendo e agindo. E sou de tal modo fiel a isso e a convicções iniciais nunca perdidas, que posso não me interessar em particular pelo partido comunista, mas por certas ideias comunistas, mesmo aquelas que passaram primeiro pelos Bakunines, ou pelos comunistas utópicos, como o Charles Fourier, com o falanstério. Eu venho dessa família de socialistas idealistas, onde meto um certo comunismo inicial que nada tem a ver com o Estaline, se calhar nem com a revolução de Outubro, sabendo-se que a revolução de Outubro começou por assassinar os de facto socialistas, revolucionários.
Está mais próximo da minha condição e formação enquanto pessoa.

Isto tem que ver com as ideias e a minha integração num sítio.

A minha Lisboa é muito pequena. Falo dela como o meu Triângulo das Bermudas. A casa da Rua das Madres onde vejo, enquanto os arquitectos deixarem, a mesma nesga de rio que via quando era miúdo. Parece que o Norman Foster vai dar cabo disto. O tal muro de betão que uma certa Lisboa pôde fazer parar há meia dúzia de anos vai ser transferido simplesmente para o outro lado da 24 de Julho.

Aquilo é uma pequena aldeia, eu de manhã vou tomar o meu cafezinho ao mais pequeno estabelecimento do mundo, que é a Geninha, tenho lá a voz do bairro, o mulherame todo, sei logo tudo. Aquele português que lá se fala é do melhor Gil Vicente, nomeadamente as mulheres, e eu delicio-me. Reencontro aí uma língua portuguesa que é escusado estar a ler a Agustina.

Depois faço a Calçada do Combro a pé e estou na Lisboa do Chiado romântico, onde sempre trabalhei.

Isto [o subterrâneo da Rua da Emenda onde fica a & etc] ainda é Bairro Alto?

Ainda. Está confinando com a Bica, mas ainda é Bairro Alto. Andei sempre no Bairro Alto, o “Diário de Lisboa” era no Bairro Alto, a Ulisseia era no Bairro Alto. Portanto, andei sempre por aqui. E depois trabalho na Rua da Alegria, e ao pé da Mãe d’Água – olhe que nome lindo – onde começou o etc. Na velha tipografia Minerva que faz o Borda d’Água. Ora essa tipografia tem gatos, tem nespereira, porque está encostadinha ao Jardim Botânico, tem as mulherzinhas que fazem para mim as encadernações à mão, com faquinha de marfim, e eu aí estou em família, em casa. O meu circuito básico é este. Quando vou ali ao Saldanha costumo dizer que vou ao estrangeiro.

Infelizmente a Madragoa agora está sendo atacada pelos novos bárbaros. Nunca ali houve problemas de racismo, não por acaso estamos à beira da Poço dos Negros, sempre foi ali naquela zona, desde a gesta dos Descobrimentos, que tivemos íntima convivência com os pretos, ainda hoje negros de Cabo Verde, Angola, Moçambique moram ali, estão perfeitamente integrados. E os novos bárbaros vêm de não se sabe onde com os seus carros, tudo motorizado, claro, e vão para aqueles bares da D. Carlos I, da Marquês de Abrantes, das Janelas Verdes.

De qualquer modo, moro no miolo, e não se ouve nada. E podemos usufruir de um bem inestimável, que não podíamos ter em Espanha, na Inglaterra, nos States. É que nós, com todos os problemos que temos, vivemos em paz social. E se formos capazes de reflectir nisto, sem o pesadelo dos fascismos, sem essas nódoas, podemos na nossa cidade ter momentos de prazer de vida.

Porque usufruimos desse bem inestimável que é a paz social. Se quisermos, a maior conquista de Abril são as dosagens de liberdade que cada um pode conquistar e fruir com outréns.

A editora tem a idade da revolução. Como é que deste subterrâneo olha para o país que temos agora?

Nos primeiros tempos após o 25 de Abril, vivemos com muita emoção, paixão, subjectivismo, mas foi como que um alívio colectivo, como se o ar de repente fosse inoculado de oxigénio. De repente houve oxigénio. Outra maneira de estarmos nas ruas, de falarmos uns com os outros. Houve uma euforia. A liberdade foi afrodisíaca, embebedou, fez nascer muita criançada, por já se poder nascer em liberdade. Esteve para nascer aqui um filhinho do Jorge Fallorca. Não chegou a nascer por 24 horas. Eu tinha ali um divãzinho [aponta para trás das estantes de metal].

É verdade. Já não tem?

Não. O espaço foi necessário. Mas esse divã foi porreiro. Depois do 25 de Abril, como isto foi sempre uma porta aberta – aberta para quem entra e para quem sai –, havia muitas chaves espalhadas. Uma certa manhã entro aqui e vejo um escandinavo pr’aí com dois metros de altura, todo nu, muito sorridente, a dizer-me: “Bom dia.” Atravessou e foi para o pátio – há ali uma mangueira – tomar banho.

Desde quando está aqui?

Praticamente desde o 25 de Abril. Na Mãe d’Água eu subalugava meia salinha com um senhor inventor de uma chave magnética através da qual ia ganhar fortunas, porque só lá na China ia vender biliões. Como nunca vendeu nem uma é claro que o homem faliu e a certa altura já nem tinha dinheiro para pagar a metade dele.

Começo a ver anúncios nos jornais. E um dia, até foi o Paulo da Costa Domingos que viu um anúncio que dizia: um determinado espaço para escritório ou armazém ao Camões, dois contos e quinhentos. Era o que eu já estava a pagar. E telefonei. Os donos disto eram os Carvalhos da Silva, da Associação Lisbonense de Proprietários. E o senhor diz que é um espaço que ficou vago porque umas senhoras que se serviam dele para depósito e até exposição de móveis antigos, proprietárias daquele antiquário muito fino em frente à estátua do Eça, quando veio o 25 de Abril, vá lá saber-se porquê, resolveram ir tomar banho para Copacabana...

Cheguei aqui,vi umas coisas ao rés-da-rua e disse: bom, se calhar é ali em baixo, deve ser uma coisa medonha. Como o encontro era no terceiro andar, na sede, subi, e lá estava o Carvalho da Silva, proprietário dos proprietários. Fui com o Paulo e a namorada do Paulo. Nessa altura o Paulo tinha uma cabeleira deste tamanho [abre os braços], se não me engano encarnada, e a namorada uma cabeleira deste tamanho [estica os braços] e azul, vamos supor. Parecia o circo Chen a entrar por ali dentro, para o homem que estava, claro, numa secretária de torcidos e tremidos. Eu disse: “Sabe, nós somos artistas, intelectuais, fazemos uma revista de cultura.” “Ah, sim senhor, cultura.” “E da boa.” Desato a falar com o homem. “Mas não quer ir ali abaixo ver?” E vejo um pequeno teatrinho, o patiozinho, a portinha. Isto encantou-me. Disse: “Vamos já fazer o contrato.” E ele: “Já têm armários, mesas, cadeiras?” Então, esta secretária foi dada logo no primeiro dia pelo senhorio, que não só deu a secretária como andou comigo com ela às costas do terceiro andar cá para baixo. Portanto, óptimas relações com o senhorio, que depois do 25 de Abril até era do CDS. Ele no CDS a fazer propaganda ali no Chiado, eu passo. “A si não lhe dou”, diz ele. “Não dá? Faça favor, ponha já aqui o autocolante.” Pás, autocolante do CDS na lapela do meu casaco. Viro a outra lapela: MRPP, PCP, e tal. “Está a ver, entre nós os dois o verdadeiro democrata sou eu.”

E agora quem são os senhorios?

É o irmão, com quem me dou muito bem também.

Quanto paga de renda?

O etc aguenta-se desta maneira porque os gastos são poucos. Uma renda que anda por volta dos 40 e tal contos. Não tenho, como vê, computadores, nada disso, porque não preciso. Com as pessoas com quem trabalho as relações são sempre muito pessoais. O Olímpio [Ferreira] é quem trabalha com os computadores, compõe os livros, trabalha comigo nas capas. Pagamos a luz, que não é muita, o telefone fixo e impostos.

Não há salário nenhum?

Ninguém tem salário. Tudo quanto tenho, porque comecei a trabalhar muito cedo – antes de ir para África, trabalhava numa grande casa de material cirúrgico, e como era o mais puto enfiaram-me como estabalecimentos a Cadeia Penitenciária de Lisboa, os Hospitais Psiquiátricos, Júlio de Matos e Miguel Bombarda e a Ortopedia de São José... –, mercê dos pagamentos à segurança social hoje usufruo de uma pensão de 250 euros. A casa onde vivo é minha, sou apoiado, como sempre fui desde miúdo. E é por causa destas circunstâncias materiais que o etc se pode dar ao luxo de ser um luxo. De poder continuar a funcionar completamente à margem da engrenagem das indústrias e comércios editoriais. O etc não percisa de “marketing”, porque quem faz 300 livros não precisa de “marketing”.

Ao profissionais propriamente ditos, pago sim senhor, pago religiosamente a tipografia, não tenho uma dívida à praça,. Não devo um tostão ao banco. O meu banco é a tipografia Minerva. Porque se eu disser: “Ó senhor Gomes, faça-me mil livros”, ele faz. Ou: “São cinco livros”, e ele faz. Porque sabe de ciência certa e cega que o senhor Vítor jamais deixaria de pagar um cêntimo àquela casa. Portanto esse trabalho é pago, claro.

Ao fim e ao cabo os autores que para aqui mandam os seus originais, também os mandam porque sabem que seria um horror se graças ao trabalho artístico ou intelectual estivesse eu com o meu popó. Eles sabem de ciência certa que não é isso. O projecto do etc não passou desde o início por irmos fazer lucro. E sempre foi dito que no caso de termos algum lucrozito era para meter num novo livrito, e assim sempre.
(…)


(Continua na próxima sexta-feira)


por Booktailors às 18:32 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Sex, 2/Nov/07


É hábito dizer-se que o melhor emprego do mundo é o de ex-político, sem os constrangimentos habituais da comunicação e das incompatibilidades, podem começar a gozar todo aquilo por que pessoalmente lutaram: e assim é.

Quem agora irá gozar é Tony Blair, cujas memórias políticas - que estiveram em leilão na passada semana - irão ser publicadas pela Random House.
A publicar na rentrée de 2008, Tony Blair já pode iniciar uma reforma antecipada com um avanço estimado entre 7 e 8,5 milhões de euros.


por Booktailors às 09:14 | comentar | partilhar

Subscreva a nossa newsletter

* indicates required
Publicações Booktailors
Carlos da Veiga Ferreira: Os editores não se abatem, Sara Figueiredo Costa



PVP: 12 €. Oferta de portes (válido para território nacional).

Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses, Sara Figueiredo Costa



PVP: 10,80 €. Preço com 10% de desconto e oferta de portes (válido para território nacional).

A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, José Afonso Furtado



PVP: 16,99 €. 10% de desconto e oferta de portes.

Livreiros, ler aqui.

PROMOÇÃO BLOGTAILORS



Aproveite a oferta especial de dois livros Booktailors por 20 €.

Compre os livros Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses, de Sara Figueiredo Costa e A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, de José Afonso Furtado por 20 €. Portes incluídos (válido para território nacional).

Encomendas através do e-mail: encomendas@booktailors.com.

Clique nas imagens para saber mais.
Leitores
Acumulado (desde Setembro 2007):

3 000 000 visitas


Site Meter
arquivo

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Etiquetas

acordo ortográfico

adaptação

agenda do livro

amazon

apel

associativismo

autores

bd | ilustração

bertrand

bibliotecas

blogosfera

blogtailors

blogtailorsbr

bookoffice

booktailors

booktrailers

byblos

coleção protagonistas da edição

correntes d'escritas 2009

correntes d'escritas 2010

correntes d'escritas 2011

correntes d'escritas 2012

design editorial

dia do livro

direitos de autor

distribuição

divulgação

e-book

e-books

edição

editoras

editores

emprego

ensaio geral na ferin

entrevista

entrevistas booktailors

estado | política cultural

estatísticas e números

eventos

feira do livro de bolonha 2010

feira do livro de frankfurt 2008

feira do livro de frankfurt 2009

feira do livro de frankfurt 2010

feira do livro de frankfurt 2011

feira do livro de frankfurt 2013

feira do livro de lisboa

feira do livro de lisboa 2009

feira do livro de lisboa 2010

feira do livro do porto

feira do livro do porto 2009

feiras do livro

feiras internacionais

festivais

filbo 2013

fnac

formação

formação booktailors

fotografia | imagem

fusões e aquisições

google

homenagem

humor

ilustração | bd

imagens

imprensa

internacional

kindle

lev

leya

língua portuguesa

literatura

livrarias

livro escolar

livro infantil

livros

livros (audiolivro)

livros booktailors

london book fair

marketing do livro

mercado do livro

notícias

o livro e a era digital

óbito

opinião

opinião no blogtailors

os meus livros

poesia

polémicas

porto editora

prémios

prémios de edição ler booktailors

profissionais

promoção à leitura

revista ler

sítio web

sociologia e hábitos da leitura

tecnologia

top livros

twitter

vídeo

todas as tags