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Seg, 25/Mai/09
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COMUNIDADES DE LEITORES,
por Helena Vasconcelos (*)

Sou do tempo glorioso dos Cineclubes ‒ salas escuras, muitos filmes a preto e branco, emoções fortes e horas de conversa à saída ‒ e das tertúlias em cafés. O Cinema era (é) uma disciplina que se prestava às discussões e à troca de ideias e ficou-me sempre uma paixão por essa prática, por esse exercício de análise solta, obsessiva e acalorada. Em Lisboa, escapulia-me de casa dos meus avós às tantas da noite, para me sentar a um canto do Monumental ou do Monte Carlo, para ouvir os escritores, principalmente os poetas, a falar de política, ideais, futuros mais promissores (coisas proibidas e fascinantes). Era muito nova para ter coragem de me imiscuir nas conversas mas ouvia e, de uma forma indecisa e certamente vaga, pensava como seria bom dizer alto e bom som, entre os meus pares, tudo o que desejava partilhar, não só no que dizia respeito ao cinema, como às artes plásticas e, principalmente, aos meus autores favoritos, que tentava perceber em livros que me deixavam acordada noites a fio, até ao voltar da última página.

Leitora voraz desde muito pequena (carnívora), com pais que me questionavam sem constrangimentos sobre as leituras, continuei assim ao longo da vida, sem nunca parar de me assombrar com as palavras. O desejo de partilhar essa paixão foi, muitas vezes, frustrado pela impossibilidade de encontrar alguém com a paciência para conversar ad nauseam sobre escritores e as suas obras, personagens, tramas, perfis psicológicos, ritmos, tudo o que se relaciona com a literatura e as outras artes.

(Apercebi-me com relutância e uma certa dificuldade que, nas reuniões sociais, quando me perguntam polidamente algo sobre livros, do género, «acha que este ou aquele livro é bom/mau?», não é suposto lançar-me a todo o gás em elucubrações sobre o porquê do bom/mau, uma vez que a resposta que esperam de mim é directa, um sim/não basta. Em compensação, tenho um grande amigo no Porto com quem passo horas a falar de livros e de arte, enquanto o resto das pessoas, à volta da mesa ‒ as conversas são, geralmente, ao jantar ‒ vão entrando em colapso e adormecendo em cima dos pratos, atacadas por um tédio profundo).

Tendo em vista estas evidências, e com receio de tornar a minha vida social ‒ que prezo muito ‒ bastante mais limitada, tento abster-me de momentos de eufórica felicidade que experimento ao falar de livros. Por isso, quando comecei a minha experiência de preparação e liderança de Comunidades de Leitores, foi como entrar no Paraíso: ali estavam pessoas de todas as idades, sexos, credos, etc., que estavam comigo exactamente para aquilo que eu mais gosto de fazer. Melhor, seria impossível!

Mas porque é que gostamos tanto de ler? Para começar, é um privilégio e, quanto mais cedo se começa, mais cedo se alcança esse prazer infindável. É reconfortante pensar que cada vez há mais gente a saber ler e cada vez há mais obras, depois de milénios de grandes dificuldades e restrições.

Lemos para quê? Haverá alguma fórmula que nos «ensine» a ler BEM? Creio que não, mas, nas Comunidades de Leitores, fazemos por isso. Harold Bloom diz que aquilo a que se chama «leitura criativa» é um acto que nos leva para outros mundos, para junto de outras pessoas e que, por isso, nos alivia a solidão. Nas Comunidades de Leitores, a solidão é verdadeiramente relegada para um canto (note-se que adoro a solidão, mas a que é construtiva, e não a triste e depressiva, sinónimo de abandono), com toda a gente a participar, alegre e apaixonadamente.

É claro que a leitura também é uma forma de resistência; foi-o no passado contra regimes opressivos, continua a sê-lo contra a tristeza e a infelicidade, bem como contra a banalidade da vida, o lugar-comum, o conformismo, a cobardia, a inércia. Ler é um prazer, mas é também um esforço para compreender, para sentir mais agudamente, para aprender mais sobre o mundo e sobre os outros, sobre «o outro» e, nas Comunidades de Leitores, descobrimo-lo não só pelos livros, mas na construção de uma teia de afectos e cumplicidades. Cada obra é lida de uma forma diferente por cada membro do grupo, é um exercício pessoal, tão único como uma impressão digital, enquanto cada um de nós vê o seu horizonte alargado através desse rasgar contínuo de véus, que revela sempre uma nova paisagem, um novo ângulo, uma cadência diferente.

Ler é, por si só, uma disciplina. Lemos em conjunto para encontrar respostas para as nossas questões pessoais, sobre a vida, a morte, o amor, os conflitos geracionais ou de género, sobre a alegria, a depressão, a política, os valores morais, o sexo e a liberdade. É sempre reconfortante encontrar pessoas que leram os mesmos livros, que pertencem à vastíssima comunidade sem fronteiras da leitura. Recordo-me do sucesso que teve o livro da iraniana Azar Nafisi, Ler Lolita em Teerão, ou a admiração perante um filme como Ran, de Akira Kurosawa, isto para dar só dois exemplos. Que uma jovem professora, no tempo da revolução iraniana dos Ayahtolas juntasse jovens de véu em sua casa para discutir Nabokov, Scott Fitzgerald, Jane Austen e Henry James ou que um realizador retomasse o Rei Lear, de Shakespeare, para tratar essa história no Japão feudal, são as «provas provadas» de que a leitura dos grandes autores atravessa o tempo, o espaço e as culturas, construindo e tecendo cumplicidades fortes e elos indissociáveis.

Porque a leitura, com o seu carácter de contaminação e adição, é a porta escancarada para a liberdade. Com os livros e através deles, tudo é possível: conhecem-se as personagens mais fascinantes, os lugares mais longínquos, as emoções mais determinantes. Com a leitura e pela leitura, principalmente em conjunto, reaprende-se a vida a cada instante.

(*) Helena Vasconcelos nasceu em Lisboa. Escreve para o Público (Ípsilon) - e para a ELLE portuguesa. Orienta Comunidades de Leitores em Bibliotecas e na Culturgest, em Lisboa. Publicou recentemente A Infância é um Território Desconhecido, Ed. Quetzal. Criou e dirige a revista online STORM-MAGAZINE - O LUGAR DA CULTURA.
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