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MÉTODO INFALÍVEL PARA SABER TUDO O QUE HÁ PARA SABER SEM PERGUNTAR AO PROFESSOR MARCELO,
por Afonso Cruz (*)

Há livros que têm aquela fama de conter todo o conhecimento humano. Um taxista sírio explicou-me, um dia, que não precisava de mais nenhuma leitura além do Alcorão. Mostrou-mo, devidamente embrulhado, tirando-o do tablier. Disse-me que ali estavam todas as respostas. Não deixei de me sentir impressionado pelo facto de aquele conhecimento todo caber dentro de um tablier.

Há muitos outros monoteístas a pensar da mesma maneira e nem sequer têm um táxi. A Bíblia, como toda a gente sabe, é uma espécie de 2666 para alguns cristãos. Está lá tudo. Certas partes do Pentateuco, por exemplo, estão especialmente sujeitas a várias leituras. A ambiguidade faz com que as obras se aproximem do infinito, pois podem conter tantas interpretações quanto leitores. Orígenes apontou algumas leituras com estas características: os primeiros capítulos do Génesis, o Cântico dos Cânticos e o Êxodo. Afirmava que só deveriam ser lidos depois dos quarenta. E por homens. Meynrink, num dos seus romances, escreveu que o Zohar é um livro desses: uma pessoa lê aquilo e não precisa de ler mais nada, pode até deitar fora os livros de Paulo Coelho. São Tomás escreveu a Suma Teológica, uma coisa definitiva para pessoas mais escolásticas. A lista é extensa, mas há que falar no livrinho infinito de Rámon Llull.

Por volta de mil trezentos e tal, Llull, também conhecido por «Doctor Illuminatus», publicava A Arte Breve, livro que conteria, resumidamente, todas as três partes da Sabedoria do Mundo. Esta obra foi um dos primeiros computadores de bolso da História. Llull já tinha, anos antes, criado o desktop chamado Ars Magna, mas sentiu ser necessária alguma mobilidade, já que a sua intenção era converter infiéis. E estes nem sempre estão junto às nossas secretárias. Os boatos dizem que a ideia para estes livros de Rámon Llull foi baseada num instrumento combinatório árabe chamado «zairja». Llull usou uma série de conceitos básicos, ontológicos nos seus melhores dias, representados por letras e números que, quando combinados através de círculos e de tabelas, fariam perguntas e dariam respostas, todas elas perfeitamente lógicas, sobre a natureza de Deus e essas coisas. Um método infalível para saber tudo. De certo modo, custa imaginar que um homem como Llull, que convivia quotidianamente com pessoas medievais, pudesse criar um artefacto destes sem usar silicone.

Quando, pela primeira vez, ouvi falar deste livro, A Arte Breve, procurei adquirir um exemplar como quem demanda um graal. Apesar de raro, acabei por conseguir comprá-lo, numa tradução francesa. Foi uma desilusão. Logo para começar a leitura, somos obrigados a decorar os vários significados que Llull dá a cada letra do seu alfabeto. Sem me alongar muito, é aborrecido. Esta experiência levou-me a concluir, numa altura da vida em que deveria era frequentar as matinés do Crazy Nights, que não existe nenhum livro — excepto naquele labirinto minóico que é a cabeça de Borges — capaz de conter todo o conhecimento humano. Mas ainda me assusta pensar em tudo o que pode caber no tablier de um táxi.

(*) Nasceu em 1971 e é autor dos livros A Carne de Deus (Bertrand, 2008), Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal, 2009) e Os Livros que Devoraram o Meu Pai (Caminho, 2010). Também é músico (da banda The Soaked Lamb), ilustrador e realizador.
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