Booktailors
info@booktailors.com

Travessa das Pedras Negras

N.º 1, 3.º Dto.

1100-404 Lisboa
(+351) 213 461 266

Facebook Booktailors
Twitter Booktailors

FourSquare Booktailors



Facebook Bookoffice


Editoras Nacionais
Livrarias Nacionais
Livrarias on-line
Editoras Brasileiras
Imprensa Brasileira
Blogosfera Brasileira
Eventos no Brasil
Imprensa Internacional

Associações e Institutos de Investigação
Feiras internacionais
Seg, 19/Abr/10
Seg, 19/Abr/10
O PRAZER DE LER BOLAÑO,
por Francisco José Viegas (*)

Comecei a ler 2666, de Roberto Bolaño, em Dezembro de 2008 — o Inverno ajuda muito nestes casos e sempre tive uma tentação por livros extensos para enfrentar o frio. Não há uma regra. Há quem os prefira para o Verão; sestas de férias — mesmo curtas, dependuradas sobre a tarde — são, quando se pode, o cenário ideal para que o livro demore mais nas nossas mãos. Não foi assim comigo.

O que 2666 me trouxe, nunca soube explicar senão em redor desse primeiro livro em que conheci quatro loucos apaixonados pela obra de Archimboldi, um escritor de que havia notícias vagas e em redor do qual se foi construindo uma mitologia muito parecida com a de J. D. Salinger. Desses quatro, três (é o número ideal: um triângulo amoroso ou apenas erótico — neste caso, apenas literário —, do qual fica excluído um, que é o do «amor verdadeiro») partem para o México em busca de um Benno von Archimboldi que passa como uma sombra pelo painel de Santa Teresa. O que faz um escritor nascido em 1920, na Rússia, naquele cenário? O mesmo que eu fiz, muitos anos antes, nas ruas sujas de Ciudad Juárez. Não há quase nada que recomende esta cidade do estado mexicano de Chihuahua, feia e cercada pela violência, como a mais indicada para um turista, a não ser a memória do cinema (Man on Fire, com Denzel Washington, por exemplo, mas também numerosos westerns, porque está ligada à fronteira texana de El Paso), da música («Cocaine Blues», de Johnny Cash, e «Just Like Tom Thumb’s Blues», de Bob Dylan, para não ir mais longe) e da literatura: é um dos cenários de Cormac McCarthy.

Em 1995, Ciudad Juárez não era nada disso; apenas um cenário de papel sujo, rasgado pelos cartéis da droga e da prostituição. Havia caravanas de grandes jipes atravessando a fronteira por El Paso, em busca de droga, tequila, mulheres e má comida. O mesmo cenário para Stan Laurel e Oliver Hardy atravessarem um dos momentos mais difíceis das suas vidas (nuvens de álcool, nuvens de poeira atravessando as janelas de um hotel miserável), como aparece no quase monumental A Quatro Mãos, o livro de Paco Taibo II — um dos livros «onde tudo aparece»: Trotsky escrevendo um romance policial, Malcolm Lowry abandonado nas ruas de Cuernavaca, Frida Khalo perdendo (ainda mais) a voz.

Volto atrás: eu estava em Ciudad Juárez em 1995. Treze anos depois, regressei — pela mão de Bolaño. A cidade era a mesma. Eu diria a mesma coisa de Macondo, se tivesse ido a Macondo. Já lá vou.

A nossa relação com a literatura da América Latina passa por esse momento de infinita grandeza — Macondo, a cidade de García Márquez, um dos cenários mais imitados de toda a literatura posterior, como uma espécie de ilha da Utopia do «maravilhoso & fantástico» latino-americano. Antes dele, só os barrancos poeirentos de Juan Rulfo, quando o personagem se põe a caminho para perseguir o fantasma de Pedro Páramo numa cidade de mortos que regressam à vida. Era atraente esse mundo mágico onde até os generais cruéis merecem a nossa compaixão e se tornam heróis. As mulheres que seriam víboras na Europa, ou uma das velhas de A Casa de Bernarda de Alba, de Lorca, são ali sibilas de vozes profundíssimas.

Quando se chega a Santa Teresa, o cenário ficcional, e se conhece Ciudad Juárez, o cenário real, percebemos que alguma coisa mudou nessa literatura — nada mais nada menos do que o centro, o epicentro, o palco central, o motor de inspiração geográfica. Bolaño, apesar da compreensível antipatia que lhe é dedicada por muitos dos seus conterrâneos latino-americanos, é o responsável por essa revolução que substitui a atrevida dimensão poética das tiranias pela realidade suja das cidades mexicanas, para cá ou para lá do deserto de Sonora (a paisagem mais derradeira de Os Detectives Selvagens). No fundo, o que a talentosa literatura que ficou conhecida por «o fantástico latino-americano» postulava, era o seguinte: até os maus são bons neste mapa. Até os maus transportam, gravado no rosto, o sinal da piedade, do talento, da misericórdia, do amor brutal, do desespero. Os maus vêm de fora — os gringos, os exploradores, os imperialistas que abrem as veias da América Latina. Bolaño veio depois e, sem querer, transformou os maus em maus e os bons em perdidos.

Tudo começa pela literatura e pela invenção da literatura, como nessa primeira parte do livro, a dos críticos. Literatura pura, o destino de Fate. Literatura brava, infame, descritiva, enumeração — a parte dos crimes. Deixem-me dizer-lhes: ninguém sai vivo desta crueldade, fria, cortante, fatal, determinada. As mulheres mortas de 2666 já não são a poesia delicada, aventureira e sinfónica do «fantástico latino-americano» — em seu lugar, a cosmogonia de Roberto Bolaño muda de centro, de epicentro, de placas tectónicas. Ele segue o percurso de muitos escritores latino-americanos para a Europa, escapando à perseguição dos pequenos fascismos locais, dos regimes militares e das tropas revolucionárias. E fica na Europa; é da Europa que ele olha esse mundo onde os generais já não são loucos, como Bolívar, não têm quem lhes escreva, não sobrevivem à falta de amor nem ao medo de serem eternos como um relâmpago que explica a miséria do continente, as ditaduras sanguinárias, e até os compromissos históricos que levam os combatentes dos anos 60 a aliarem-se a outros sanguinários e a outros ditadores. Em vez desse mundo fantástico, os personagens vivem no meio da miséria real ou da corrupção, dos livros que deixam pendurados numa corda de roupa, dos filhos que não conseguem compreender, das ex-mulheres que nunca os abandonam, das estrelas escondidas — no céu — pela poeira da pólvora ou da sujidade de Santa Teresa, arrastada pelos ventos.

Tristram Shandy; lembrei várias vezes Tristram Shandy, de Sterne, enquanto lia 2666. Por causa do labirinto de vozes e de desencontros (Bolaño segue os sonhos de Borges), por causa da ideia de romance, despedaçada e fragmentada, cheia de sonhos e de delírios.

2666, por isso, é um livro sobre todos os grandes livros, como Os Detectives Selvagens era um livro escrito em nome da literatura e dos autores perdidos, como O Terceiro Reich é um labirinto (outra vez) cheio de referências à literatura, ao medo, ao nazismo real, ao desamor e à solidão — e ao risco, ao exílio, à incapacidade de sonhar. Ler Bolaño é participar, como espectador, dessa incapacidade e desse medo. Há quem escreva no fio da navalha; e há quem, como os leitores de Bolaño, observe o fio da navalha atravessando todos os livros que vêm lá dentro, como uma ameaça do fulgor e da esperança — a única — que vem na literatura.

(*) Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor. Multipremiado enquanto autor, desempenha actualmente as funções de director editorial da Quetzal Editores e de director da revista LER. Foi distinguido com o Prémio APE, pelo romance Longe de Manaus. O seu romance mais recente intitula-se O Mar em Casablanca.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

1 comentário:
De Vera a 19 de Abril de 2010 às 09:29
Comecei a lê-lo na semana passada. Não sendo um livro muito prático de transportar, já me parece que será um livro dos que vou catalogar como "um dos da minha vida". Nunca tinha lido nada deste autor (tenho os Detectives Selvagens também na pilha dos "a ler") mas já estou rendida à forma.


Comentar post

Subscreva a nossa newsletter

* indicates required
Publicações Booktailors
Carlos da Veiga Ferreira: Os editores não se abatem, Sara Figueiredo Costa



PVP: 12 €. Oferta de portes (válido para território nacional).

Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses, Sara Figueiredo Costa



PVP: 10,80 €. Preço com 10% de desconto e oferta de portes (válido para território nacional).

A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, José Afonso Furtado



PVP: 16,99 €. 10% de desconto e oferta de portes.

Livreiros, ler aqui.

PROMOÇÃO BLOGTAILORS



Aproveite a oferta especial de dois livros Booktailors por 20 €.

Compre os livros Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses, de Sara Figueiredo Costa e A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, de José Afonso Furtado por 20 €. Portes incluídos (válido para território nacional).

Encomendas através do e-mail: encomendas@booktailors.com.

Clique nas imagens para saber mais.
Leitores
Acumulado (desde Setembro 2007):

3 000 000 visitas


Site Meter
arquivo

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Etiquetas

acordo ortográfico

adaptação

agenda do livro

amazon

apel

associativismo

autores

bd | ilustração

bertrand

bibliotecas

blogosfera

blogtailors

blogtailorsbr

bookoffice

booktailors

booktrailers

byblos

coleção protagonistas da edição

correntes d'escritas 2009

correntes d'escritas 2010

correntes d'escritas 2011

correntes d'escritas 2012

design editorial

dia do livro

direitos de autor

distribuição

divulgação

e-book

e-books

edição

editoras

editores

emprego

ensaio geral na ferin

entrevista

entrevistas booktailors

estado | política cultural

estatísticas e números

eventos

feira do livro de bolonha 2010

feira do livro de frankfurt 2008

feira do livro de frankfurt 2009

feira do livro de frankfurt 2010

feira do livro de frankfurt 2011

feira do livro de frankfurt 2013

feira do livro de lisboa

feira do livro de lisboa 2009

feira do livro de lisboa 2010

feira do livro do porto

feira do livro do porto 2009

feiras do livro

feiras internacionais

festivais

filbo 2013

fnac

formação

formação booktailors

fotografia | imagem

fusões e aquisições

google

homenagem

humor

ilustração | bd

imagens

imprensa

internacional

kindle

lev

leya

língua portuguesa

literatura

livrarias

livro escolar

livro infantil

livros

livros (audiolivro)

livros booktailors

london book fair

marketing do livro

mercado do livro

notícias

o livro e a era digital

óbito

opinião

opinião no blogtailors

os meus livros

poesia

polémicas

porto editora

prémios

prémios de edição ler booktailors

profissionais

promoção à leitura

revista ler

sítio web

sociologia e hábitos da leitura

tecnologia

top livros

twitter

vídeo

todas as tags