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Qua, 15/Abr/09
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ESCREVER É HUMANO, EDITAR É DIVINO,
por João Tordo (*)

Os escritores têm diferentes graus de segurança no que respeita ao seu trabalho. Os que são muito cuidadosos (ou muito cheios de si próprios) dispensam o trabalho de um editor ou, se dele necessitam, é por questões de pormenor, que poderiam ser resolvidas por um revisor com olho para as pequenas coisas; os que são menos cuidadosos (ou os que sofrem de ansiedade crónica) precisam dos editores como os peixes precisam de água. Eu pertenço ao segundo grupo (sou descuidado e sofro de ansiedade crónica) e, por isso, tendo a concordar com a premissa do Stephen King: «Escrever é humano, editar é divino.»

Há alguns anos a esta parte, ouvi da boca de um editor que os livros de certos escritores de reputação idónea não passavam pelo escrutínio de um editor: as gralhas eram assinaladas pelo corrector ortográfico do Word e assim seguiam para as gráficas. Isto explica alguma coisa no que diz respeito a muitos autores portugueses que se publicam. Não escrevo como profundo conhecedor do meio, que não sou; escrevo como leitor (porque sou muito melhor leitor do que sou escritor, e ainda bem) e, como tal, tenho pleno direito a achar que grande parte dessas obras precisava de tempo de maturação nas respectivas secretárias das partes envolvidas. Mas isto implicava uma séria mudança estrutural. Em primeiro lugar, o escritor teria de deixar de ser uma pessoa idónea; em segundo, o editor teria de se libertar das amarras e condicionalismos inerentes ao meio em que co-existem. Entre ambos teria, ainda, de desaparecer a habitual relação de veneração ou de palmada nas costas, provavelmente sustentada pelos prémios e resenhas elogiosas que determinaram desde cedo que esse autor deve ser respeitado, justamente, pela sua idoneidade.

A pior coisa que pode acontecer a um autor, aliás, é ser respeitado, sobretudo quando esse respeito nasce no meio literário. O meio é pequeno, claustrofóbico e deixa pouco espaço de manobra aos autores: ou se está dentro ou se está fora. Quem está fora não interessa; quem está dentro, arrisca-se a ser bajulado ad nauseam. A bajulação (na forma de resenhas, prémios ou palmadas nas costas) sempre criou os seus monstros (na literatura e no futebol) e, a partir do momento em que se perde de vista a condição primeira do escritor – ser um incompetente que tem de reaprender o seu ofício todos os dias e, por vezes, precisar de ajuda para o fazer –, bem podemos dar o escritor como morto. Perdeu o respeito por duas coisas fundamentais: o editor, que o poderia ajudar a descobrir tudo o que está errado com a sua escrita; e o leitor, que deve ser escutado com muita atenção, porque o leitor tem sempre razão. (Infelizmente, vivemos num país em que, não sabendo fazer a equação básica, preferimos dizer que ela não tem importância: se não tenho leitores, a culpa é obviamente deles).

Devo dizer, ainda, que tive muita sorte. Um telefonema mais tardio e poderia ter ido parar ao inferno da autogestão, tentando pensar sozinho (e decidir sozinho) uma carreira que seria incapaz de gerir. É evidente que sou o meu pior leitor; e, embora por vezes me tenha custado admitir (porque custa sempre), nem todas as opções literárias que tomei estiveram correctas. A insegurança e a ansiedade crónicas levaram-me, muitas vezes, a lugares ilusórios de segurança, que não passavam de subterfúgios para a falta de talento ou de imaginação. Não conheço, aliás, gente menos preparada para lidar com o produto do seu trabalho do que os escritores, e surpreende-me que, durante tantas décadas, se tenha, aparentemente, publicado em Portugal sem um apoio devido dos editores – que, mais do que dar recadinhos e corrigir gralhas, devem puxar as orelhas e dar luta ao escritor sempre que assim for necessário (e é-o sempre), desafiando-o a uma coisa apenas: não acreditar em nada do que por aí se diz. O risco é a complacência, e os resultados estão à vista: temos mais escritores sem «mundo» por metro quadrado do que qualquer outro país que eu conheça. Por «sem mundo» quero dizer o seguinte: escritores refugiados na ilusão do seu próprio sucesso e conforto; gente fechada em casa que escreve muito bem sobre o que acontece quando se está fechado em casa a escrever. Ad nauseam.

Em relação às minhas editoras – a Maria do Rosário Pedreira e a Ana Pereirinha ‒, ouço muitas vezes dizer que praticam um género de edição «anglo-saxónica». Atrevo-me a dizer que praticam um género de edição que é o único género; o resto é, uma vez mais, complacência. Desconheço a origem deste problema. Alguns apontam a influência francesa dos anos 60 e 70, outros a falta de bom material para publicar e o consequente desinteresse. Eu tenho outra teoria: acho que é preguiça. Para quê editar, quando se pode deixar a coisa correr directamente para o prelo? O escritor é respeitável; a reputação é idónea; o produto não pode falhar, ou pode? Claro que pode. E, normalmente, falha, mas ninguém deu por nada, porque a resenha continua a ser elogiosa, uma vez que, como é sabido, ninguém se mete com o cânone. Do lado do escritor, esta preguiça também o afecta. Ou acham que a nossa incapacidade actual de contar histórias como deve ser (grandes histórias, narrativas sólidas) aconteceu por acaso? Ilibe-se os escritores do maior desafio – lutarem contra si próprios – e temos um manancial de prosa que precisaria, quase sempre, de grandes riscos a caneta vermelha e, uma vez por outra, de ir parar directamente ao caixote do lixo dos autores idóneos. Ele existe algures.

A escrita nasce da insegurança, ou assim me quer parecer. A insegurança no mundo, a insegurança nos outros, a insegurança em nós próprios. Ser escritor implica vários graus de tortura psicológica e, em última análise, a maior tortura é a relação sempre conflituosa com o editor, que é Zeus no nosso pequeno Olimpo. «Ah, mas assim é muito difícil…?» Paciência. Existem outras profissões. A insegurança é quase sempre força. E não vale esquecer que escrever é humano, mas editar é divino: escreve a frase numa folha de papel e cola-a na parede sobre a secretária. Só em caso de sair uma resenha elogiosa algures, te darem um prémio e uma valente palmada nas costas.

(*) João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Formou-se em Filosofia e estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e em Nova Iorque. Trabalha como guionista, depois de ter passado pelo jornalismo, tendo publicado, entre outros, n’
O Independente, Sábado, Jornal de Letras, ELLE e a revista Egoísta. Escreveu uma longa-metragem e várias séries televisivas. Foi vencedor do prémio Jovens Criadores em 2001. Publicou três romances, O Livro dos Homens Sem Luz (2004), Hotel Memória (2006) e As Três Vidas (2008).
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por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

1 comentário:
De Maria do Rosário Pedreira a 15 de Abril de 2009 às 18:12
Parabéns pelo texto, João! Mas para haver boas edições tem de haver bons textos... E a verdade é que, com o decorrer do tempo, me sinto cada vez menos «deus», incapaz de fazer um milagre. Pode ser que um dia destes me apareça mais um João Tordo, vamos ser optimistas.


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