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Ter, 11/Dez/12
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[Parte II]


Entre Portugal e Itália, Francesco Valentini escolheu a Madeira para concretizar um sonho antigo: fundar uma editora. Nasceu assim a Nova Delphi, em finais de 2009, que, apesar da sua juventude, revela maturidade em termos de catálogo e inovação, tendo, desde o início, procurado publicar todos os seus livros em todos os formatos disponíveis para a leitura. Mas nem só da edição de livros vive a Nova Delphi, que, em parceria com a Booktailors, organiza o Festival Literário da Madeira, que conhecerá em 2013 a sua terceira edição.


Quais são as grandes dificuldades de uma pequena editora com sede numa ilha como a Madeira?

Não serão muito diferentes das dificuldades de uma pequena editora sediada em Trás-os-Montes, Faro, ou até em Lisboa.

As pequenas editoras sentem as mesmas dificuldades que as grandes editoras sentem nesta altura em que há uma maior contenção, mas com uma diferença: é que as grandes editoras têm por detrás grandes grupos que lhes proporcionam a colocação e permanência nas livrarias com uma agressividade que as editoras mais pequenas não conseguem. Mas hoje a Internet veio dar uma ajuda na exposição dos livros, dos autores, e permitir outras facilidades de venda além do prazo de validade imposto pelo mercado.

Todo o trabalho editorial que fazemos pode ser feito em qualquer sítio, desde que tenhamos um computador e um telefone. Portanto, a localização geográfica é secundária para este trabalho. Em contrapartida, não estarei muito errado se disser que, se estivéssemos sediados em Lisboa, estaríamos mais perto dos grandes eventos, da imprensa, e que teríamos outras facilidades para os lançamentos, que teríamos (talvez) outras facilidades que o contacto direto proporciona.

 

Organizar um festival literário na Madeira é uma teimosia ou um serviço público?

Foi um sonho motivado por uma oportunidade que, neste caso, a Madeira oferecia. É uma região muito ativa culturalmente, mas fazia falta um evento que concentrasse e mobilizasse durante vários dias a atenção especificamente em torno dos livros, dos autores, da reflexão em torno de temas da atualidade, e que proporcionasse um contacto entre estes e o público de uma forma direta. O Festival Literário proporciona momentos de descontração e de grande proximidade entre escritores e leitores; sentam-se lado a lado nas sessões, conversam nos intervalos, até podem cruzar-se nos eventos noturnos, que já se tornaram uma marca deste Festival. Tudo isto é possível e decorre com grande naturalidade. Um espaço em que se falasse e respirasse cultura durante vários dias era um momento que queríamos muito criar. E, de facto, aconteceu.

Se existisse algo semelhante, possivelmente não o faríamos. Mas, desde o início da nossa atividade, a Nova Delphi sempre assumiu três áreas, que se entrecruzam mas que são trabalhadas autonomamente, o livro em papel, o livro digital e os eventos culturais. Portanto, é uma teimosia que está na nossa génese.

O FLM é serviço público? Não nos colocamos nesse patamar. Este será sempre um projeto empresarial, que está pensado a vários anos. Por exemplo, nunca escondemos que haverá um momento em que as entradas para o evento terão de ser pagas. Só não o fizemos ainda porque estamos numa fase de criação e fidelização de público, e o facto de ser gratuito é assumido como uma forma de promoção do próprio evento. O Festival foi concebido desde o início com o objetivo de criar um modelo, não só cultural mas também económico, ou seja, um evento que pudesse tornar-se, a partir do quinto ano, financeiramente autossuficiente. Para nós, cada ano que passa é importante porque nos permite aperfeiçoar o modelo de sustentabilidade económica do evento festival.

A ida às escolas é também uma promoção do FLM. Às escolas, interessa que os seus alunos tenham este contacto com escritores nacionais (um momento raro); ao FLM, interessam as oportunidades que esta iniciativa cria, ou seja, promoção direta do evento junto de um público potencialmente interessado, mas também uma formação a longo prazo de novos públicos. É tudo um investimento. Investir em cultura é uma mais-valia para nós e para a região.

Tudo isto para dizer que, além do interesse cultural para a região, um contributo que está pensado desde o primeiro momento, além da promoção da Nova Delphi como organizadora de eventos, este é um projeto sustentado e sustentável a longo prazo. Não o poderíamos fazer sozinhos. Tivemos apoios públicos e privados das mais diversas espécies. Contamos com o envolvimento voluntário de uma série de pessoas, contamos com empresas que não se limitaram a dar o apoio pedido, foram parceiros porque se envolveram no projeto, deram sugestões e estiveram em todo o processo de organização.

Por fim, e porque gostaria de fazer um destaque especial, tivemos o apoio inestimável da Booktailors desde a primeira hora. Fomos parceiros desde o primeiro momento no sonho, na forma como se construiu a ideia, como se desenvolveu. Antes de tudo o mais, se acreditar numa ideia é teimosia, fomos teimosos até ao fim.

O FLM vai agora para a sua 3.ª edição. Se tudo correr bem, como esperamos, 2013 será o ano em que a marca FLM se consolidará e se afirmará. Estamos apostados em dar uma dimensão cada vez mais internacional a fim de tornar este um evento de interesse nacional, mas que tem a particularidade de se realizar na Madeira.

 

Tem sentido um maior envolvimento da comunidade em torno do festival?

É curiosa a forma como as pessoas nos abordam para saber novidades da próxima edição e como aproveitam esse momento para dar sugestões de autores. Perguntam-nos se virá este ou aquele autor, querem saber onde e quando vai acontecer… À medida que o tempo passa, o contacto e o envolvimento das pessoas é mais fácil porque já conhecem, sabem como funciona e quais as potencialidades. Além das escolas que nos acolhem, os espaços que recebem os vários momentos do FLM também se esforçam por alargar a participação a outras pessoas, publicitam o evento de forma autónoma. Quer isto dizer que se sentem, de facto, envolvidos.

Aliás, esse é um dos objetivos do Festival. Tem sido uma preocupação constante tornar este Festival um evento que pertença à ilha, que se possa confundir com a ilha e com as suas gentes, com a cidade do Funchal, o berço do FLM. O Funchal tem uma importância histórica que queremos destacar, é um ponto de passagem nas viagens transatlânticas, é porto de abrigo, recebe navegadores, exploradores, viajantes, pessoas do mundo. Hoje, a porta de entrada na ilha já não é essencialmente por mar, mas porque não o Funchal e a ilha da Madeira se tornarem uma passagem obrigatória no mar de cultura literária que produzimos? Não falo apenas do que produzimos em Portugal, mas do que se escreve e publica pelo mundo. Porque não apostar em reunir em Portugal, no meio do Atlântico, na ilha da Madeira, um Festival que pense e discuta temas que interessam ao Homem, independentemente da sua língua? O Festival pode e deve confundir-se com a ilha e a ilha com o Festival. O FLM não é de quem o organiza, mas de quem o vive.

 

Que autores gostava de ver numa das próximas edições do festival?

Há tantos! Há alguns que, temo, podem vir a ser traídos pelo tempo.

 

Editorialmente, quais são propósitos da Nova Delphi?

Somos uma editora média-pequena que ambiciona tornar-se grande. Temos sete coleções ativas, o que, em pouco mais de dois anos, não me parece pouco. Respetivamente, (i) «Mnemosyne», coleção de literatura clássica, que inclui clássicos literários nacionais e internacionais; (ii) «Clio», coleção de literatura contemporânea, até agora representada apenas por importantes autores estrangeiros traduzidos em Português (autores portugueses, por favor, cheguem-se à frente, estamos à espera das vossas propostas!); (iii) «Pandora», coleção de ensaio contemporâneo, onde já publicamos Naomi Wolf e publicaremos Z. Bauman; (iv) «Pallas Athenas» é uma coleção de não-ficção de género, em relação à questão da diferença cultural, que também inclui o feminismo; (v) «Cadernos de Madeira» é uma coleção em homenagem ao lugar onde estamos sediados e que tem como objetivo oferecer um olhar diferente e transversal ao microcosmo e aos problemas económicos e sociais dum arquipélago ultraperiférico; (vi) uma coleção a que chamamos «Fora de série», que abriga todos os livros que não resistimos a publicar, mas que não cabiam de forma nítida em nenhuma das coleções já em fase de desenvolvimento; e, finalmente, (vii) a chancela «As Joaninhas», que só começou em 2011, e é onde se concentra a nossa produção de livros para crianças e jovens. Em dois anos e meio de atividade, conseguimos o total de 27 livros.

As nossas intenções para o próximo ano passam por consolidar as coleções que já estão ativas e manter uma velocidade de cruzeiro em termos de números de novas publicações de, pelo menos, 20 títulos por ano (ou 40, se pensarmos que as publicações em papel têm também formato digital).

Finalmente, além da consolidação acima referida, estamos a trabalhar no projeto de duas novas coleções para o 2.º semestre de 2013, as quais — diria eu — vão representar uma novidade absoluta no panorama editorial português e que, à conta disso, não me permite revelar mais pormenores por medo da concorrência (!!).

 

O feminismo ainda vende livros?

A pergunta encerra uma afirmação… Pressupõe que em algum momento «o feminismo» vendeu muitos livros. Tem dados? É que eu não os consegui…

Bom, naturalmente que a venda dos livros é um fator a ter em conta; no entanto, na coleção «Pallas Athenas», feminismo não foi um ponto decisivo, sendo que tínhamos estimativas. Tínhamos um dado mais importante, que para nós foi o suficiente. O interesse por esta área tão específica tem crescido na sociedade, ao mesmo tempo que crescem os estudos feministas e de género. Havia muitos livros essenciais nesta área que não estavam disponíveis em língua portuguesa. Por outro lado, tem havido muita produção nas nossas universidades e que não estava a ser publicada. Nesta equação muito simples, só havia um resultado, criar uma coleção bem delimitada que servisse de repositório e de base para os estudos feministas e de género.

 

 

 

Francesco Valentini nasceu em Gorizia, Itália, em 1966. Licenciou-se em Direito, área onde exerce até hoje a sua atividade profissional enquanto advogado de negócios internacionais e perito em direito fiscal e comercial internacional. Vive no Funchal, Madeira, com a família desde 1995. Em 1996 partilhou a vida profissional com o ensino em várias universidades. Foi docente dos mestrados em Direito Tributário, Direito da Economia e da Empresa em universidades públicas (Bolonha, Bari, Roma, Lisboa) e organizações privadas (Milão, Roma, Bolonha, Bari). No final de 2009, concretizou um sonho antigo ao fundar uma editora, a Nova Delphi, que tem sede no Funchal e uma filial em Roma. O desafio era, e continuará a ser, conjugar um setor empresarial tradicional com as novas tecnologias e, por outro lado, promover eventos culturais como o Festival Literário da Madeira, que se concretiza em parceria com a Booktailors. Em 2010, traduziu O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa, para a língua italiana, obra publicada em Itália pela Nova Delphi.

 

Esta entrevista continua quinta-feira, dia 13 de dezembro.

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