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Qua, 28/Mai/14
Qua, 28/Mai/14

 

O entrevistado do Blogtailors no mês de maio é poeta, tradutor e professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde dirige o programa de doutoramento em Materialidades da Literatura. Manuel Portela é também o investigador que coordena o projeto do Arquivo Digital do Livro do Desassossego, adiantando que deverá estar concluído no verão de 2015.

 

Lidera, neste momento, a constituição do arquivo digital do Livro do Desassossego (LdoD). Originalmente, de onde partiu a ideia do projeto? E porquê o Livro do Desassossego?

A ideia tem origem na investigação que realizei desde o início da década de 2000 sobre edições e arquivos digitais de obras do património literário impresso. Pelo menos desde meados da década de 90 que um conjunto significativo de projetos de investigação desenvolveu modelos de edição digital a partir da consciência de que uma parte significativa do património cultural da humanidade iria ser progressivamente digitalizado à medida que a comunicação digital em rede instituía um novo espaço de publicação. No caso da literatura, muitos desses projetos pioneiros chegaram a um modelo de edição que passava pela reconstituição digital do arquivo das obras, isto é, do conjunto de documentos da sua história material.

 

Igualmente importante para a conceptualização deste projeto foi a ideia de que o meio digital poderia ser usado não só para efeitos de representação textual (dos autógrafos e das edições já existentes), mas também para efeitos de simulação dos próprios processos literários de ler, escrever e editar, tirando partido da processabilidade e da natureza dinâmica e colaborativa da Web 2.0. O Arquivo LdoD terá assim um conjunto de funcionalidades de virtualização do LdoD que permitirão aos leitores assumirem diferentes papéis no estudo, manipulação e apropriação da obra. Porquê o Livro do Desassossego? Pela sua natureza material de obra inacabada e fragmentária, e pelo seu grande apelo imaginativo para inúmeros leitores em todo o mundo, o LdoD surgiu como a obra ideal para levar a cabo esta experiência conceptual e técnica.

 

O projeto teve início em março de 2012 e tem a sua conclusão prevista para o fim de fevereiro de 2015. Quais as fases que atravessou? E qual a fase em que está no momento?

O projeto tem três componentes de investigação: uma de natureza textual, que implica a análise dos documentos autorais e análise das quatro edições principais da obra (Jacinto do Prado Coelho, 1982; Teresa Sobral Cunha [1990–91] 2013; Richard Zenith [1998] 2012; Jerónimo Pizarro [2010] 2013); outra de natureza computacional, que passa pela construção de um modelo de codificação eletrónica XML para todos os textos do LdoD e pelo desenvolvimento da programação adequada ao conjunto de funcionalidades do modelo de virtualização concebido; e uma terceira, de natureza teórica, que pretende investigar a relação entre escrita e livro nas práticas modernistas, incorporando nessa investigação os conhecimentos obtidos no processo de remediação digital da obra. Se tudo correr bem, o Arquivo LdoD será publicado no verão de 2015.

 

Como é que os suportes e as materialidades da literatura a influenciam? A máxima de Marshall MacLuhan «o meio é a mensagem» aplica-se de alguma forma à literatura?

Este projeto parte precisamente da análise material e textual dos documentos autógrafos, tal como aconteceu com as quatro edições principais ao fazerem as suas transcrições, seleções e organizações particulares dos elementos do livro. O projeto parte ainda da exploração da processabilidade simulatória do meio digital para criar um espaço de virtualização que permita compreender simultaneamente os processos de construção autoral e de construção editorial do LdoD. A relação particular entre meio e mensagem pode observar-se nos modos de construção material e social da obra enquanto livro impresso, por um lado, e enquanto arquivo digital, por outro. Um exemplo: a edição sob a forma impressa obriga a uma tomada de decisão sobre a ordenação relativa dos fragmentos; no entanto, esta ordenação pode tornar-se flexível e reconfigurável no espaço digital, dando origem a um conjunto diferente de princípios editoriais. Se usarmos a linguagem de MacLuhan, podemos dizer que a recriação do arquivo autoral e das edições do LdoD em meio digital altera a escala das nossas interações com os textos.

 

Está postulado como sendo um dos objetivos do arquivo digital «representar a dinâmica dos atos de escrita e de edição na produção do LdoD». Quanto a isso, qual é o balanço da dinâmica da edição da obra?

No que se refere à dinâmica da edição da obra, observamos quatro modelos distintos de construção do LdoD. Poderíamos resumi-la deste modo: um modelo que procura associar os fragmentos combinando afinidade temática e proximidade cronológica; um modelo que considera dois períodos e heterónimos diferenciados (Vicente Guedes e Bernardo Soares) e que, dentro de cada um deles, tenta reforçar a unidade discursiva dos fragmentos, por exemplo através da eliminação da numeração ou da reordenação interna do texto de alguns manuscritos fragmentários; um terceiro modelo, que coloca a produção de Bernardo Soares como eixo da obra e intercala os restantes fragmentos de modo que haja preponderância da voz Soares, relegando para uma parte final os grandes trechos; finalmente, um modelo que reconstitui crítica e geneticamente a cronologia dos fragmentos, aproximando o livro do arquivo da obra. É claramente observável o modo como as edições lutam entre si para legitimarem os seus modos particulares de construção do LdoD a partir do arquivo de Pessoa. Uma luta que reflete também a dinâmica comercial de concorrência no mercado do livro. Ou seja, as variações na forma textual interna do LdoD não dependem só dos critérios explícitos invocados pelos organizadores de cada uma das edições, mas também de um conjunto de fatores socioliterários implícitos.

 

Como descreve a abrangência do doutoramento em Materialidades da Literatura, criado pela Universidade de Coimbra?

O doutoramento em Materialidades da Literatura surgiu a partir do trabalho de investigação  desenvolvido ao longo da última década, que, no meu caso, incidiu especialmente sobre as questões da história e da materialidade do livro, assim como sobre a criação literária e artística em meio digital. Enquanto área de investigação, este doutoramento resulta da interseção do trabalho de vários investigadores, a trabalhar sobre problemas como a voz, a escrita, o cinema e a imagem técnica em geral; a história e as tecnologias de virtualização; e as teorias materiais da cultura — problemas com uma forte incidência na teorização literária da última década. Por outro lado, este contexto de investigação local ocorre num contexto internacional de expansão dos estudos comparados dos média e de uma teorização das mudanças sistémicas em curso nas tecnologias de inscrição e de literacia em consequência da crescente digitalização das formas culturais e dos processos sociais.

 

Nos 17 projetos de doutoramento em curso, é possível observar a emergência de uma constelação de problemas de investigação centrados na questão da materialidade e das tecnologias mediais de inscrição e comunicação na sua relação com a significação literária. Este é provavelmente o aspeto principal da reorientação metodológica que nos permitiu construir objetos de investigação diferentes daqueles que têm tido como base apenas a articulação entre literatura e cultura. A perspetiva do programa tende a ser interdisciplinar e intermedial, procurando integrar múltiplos contextos culturais, sociais e linguísticos. 

 

Portugal é um país que ainda não privilegia a leitura de livros em formato digital, quando comparado com outros países. Em que é que isto nos pode tornar diferentes de outros países na compreensão da leitura?

Independentemente dos formatos vistos como «livro digital» num sentido restrito, o facto importante a assinalar é o de que a leitura é hoje predominantemente digital e que é feita em rede, ou seja, segundo uma lógica hipertextual, que salta de documento em documento e de género em género, sem respeitar as fronteiras discursivas impostas pelos limites materiais dos meios analógicos.

A pergunta parece referir-se essencialmente à transposição da experiência do códice impresso para os tabletes digitais, cuja portabilidade permitiu que assumissem nos últimos anos a condição de principais emuladores do livro, como se neste dispositivo se tivesse consolidado um vínculo entre hardware e software que o tornasse apto a ser percebido como a reencarnação digital do livro. De facto, a publicação e a distribuição simultânea de livros nos dois formatos, que já se generalizou em alguns mercados livreiros, está ainda pouco desenvolvida em Portugal. No entanto, não vejo que decorra daí qualquer diferença na compreensão da leitura, já que a diferença específica das literacias atuais é determinada pela leitura multimodal em rede e que essa experiência caracteriza as nossas interações com os dispositivos, interfaces gráficas e conteúdos digitais, nas suas diferentes configurações, independentemente de uma distribuição de ficheiros chamados «livros» para serem lidos em e-book readers. A identificação tradicional entre leitura e livro impede-nos de perceber um conjunto vasto de outras práticas de leitura que têm lugar quer no universo impresso quer no universo digital que não dependem do «livro» enquanto formato específico.

 

Quais os principais desafios das humanidades perante a era digital?

As tendências de investigação recentes neste campo epistemológico mostram dois conjuntos de respostas diferentes no processo de remediação digital dos objetos e dos métodos das humanidades. Um grupo de respostas incorpora as ferramentas digitais, muitas das quais concebidas em domínios científicos com uma natureza fortemente instrumental, procurando transformar os métodos da disciplina em causa de modo a conformar-se à lógica da ferramenta. Disso são exemplos projetos de prospeção e visualização de dados em grandes quantidades de texto ou de imagem ou de imagem em movimento. Trata-se de adotar metodologias quantitativas no domínio da análise da linguagem, da literatura, da história, da cultura e das artes, que suplementam ou desafiam as práticas de análise hermenêutica de objetos singulares ou de pequenos conjuntos de objetos. Um segundo grupo de respostas procura conceber as próprias ferramentas digitais de acordo com os protocolos de conhecimento das práticas das humanidades, isto é, com a consciência da dimensão interpretativa e intersubjetiva do conhecimento humanístico. Por outras palavras, trata-se de usar as capacidades da tecnologia digital de modo infletido que consiga incorporar categorias como a temporalidade, a historicidade e a subjetividade específica das representações e dos seus códigos próprios. A configuração futura das «Humanidades Digitais» resultará da dinâmica entre a componente humanística e a componente digital. Creio que o principal desafio consiste na apropriação dos instrumentos computacionais para modificar os métodos das disciplinas, mas também para desenvolver métodos computacionais reflexivos e conscientes da natureza interpretativa e construída dos seus objetos.

 

A literatura está dependente da era digital? Como encarar a atitude de alguns autores de permanecerem apenas do lado de uma criação física, em papel?

Esta pergunta tem várias respostas: num certo sentido, a literatura já está dependente da era digital desde que os processos de escrita, composição tipográfica, paginação e impressão incorporaram o computador. A maior parte das obras produzidas desde a década de 1980 são digitais, mesmo quando a sua distribuição final é feita sob a forma de códice impresso. A história do processador de texto e a história dos programas de paginação demonstram que a digitalização da literatura precede a sua distribuição eletrónica em rede, que tende a constituir para nós, hoje, a perceção tipificadora dessa transformação tecnológica. Outra resposta possível: à medida que a experiência de leitura se torna predominantemente hipertextual e se centra no ecrã, a experiência literária passará a ocorrer também (e, eventualmente, sobretudo) nesse meio. Esta experiência literária digital, por sua vez, pode ser pensada de dois modos: ou como transposição dos formatos impressos para formatos digitais que mantêm a modularidade do impresso e a maior parte das suas convenções; ou como a criação de formas programadas e com origem no próprio meio digital, como acontece com a chamada «literatura eletrónica» ou «literatura digital», que incorpora como elemento da sua retórica literária a programabilidade e outras propriedades materiais do meio digital.

 

Uma terceira resposta possível, uma das que poderia ser dada pelos autores que querem permanecer do lado do papel: a intensidade da atenção e do envolvimento que o livro de papel implica, na sua ergonomia de leitura, é um elemento essencial da leitura e da experiência literária. Para estes autores, a atenção interrompida, extrospetiva, multimedial e descontínua da hiperleitura não seria compatível com a leitura contínua, introspetiva e intensa que define a experiência literária. Quer dizer que a defesa da leitura em papel é, muitas vezes, a defesa desta prática de leitura e da perceção desta prática como essencial à produção do literário enquanto tal. A meu ver, mais do que pensar na concorrência e na oposição entre digital e papel, devemos pensar na interação criativa entre papel e digital, e entre digital e papel. É isso que alguns escritores têm feito, tentando inventar experiências literárias digitais ou experiências literárias no códice intensificadas pelo uso de meios digitais. Claro que persiste o problema de saber qual será a forma típica da experiência literária na nova ecologia medial, em que a interrupção da atenção e a multimodalidade se tornam modos de interação privilegiados.

Uma pergunta possível seria esta: quais as formas e práticas que reconheceremos como experiências literárias no meio digital? Aquelas em que reconhecemos um vínculo com experiências de leitura das operações de linguagem intensificadas pelo códice? Aquelas em que reconheceremos uma profunda consciência do novo meio e das suas modalidades próprias de inscrição? Outra pergunta ainda: qual o lugar relativo da escrita e dos processos de uso e transformação da linguagem verbal na produção da experiência literária em meio digital? Poderá a experiência literária sobreviver à desvinculação entre «letra» e «literatura», permitindo-nos reconhecer «literatura» também em formas sem mediação dos códigos da escrita (formas sonoras, visuais, audiovisuais, cinéticas)? Residirá a experiência literária na apropriação do espaço eletrónico como espaço de escrita e leitura através da construção explícita e socializada de ligações entre os objetos que entendemos ler como literários? A «literatura» como categoria tem de ser produzida: não decorre da simples vinculação a determinada forma ou formato material.

 

 

 

Manuel Portela é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses, pela Universidade de Coimbra, e é doutorado em Cultura Inglesa pela mesma universidade. É professor auxiliar com agregação no Departmento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra, onde dirige o programa doutoral em Estudos Avançados em Materialidades da Literatura. É investigador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. É o investigador responsável do projecto «Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego» (Universidade de Coimbra, 2012–15). Dos seus muitos ensaios, destaque para os livros Scripting Reading Motions: The Codex and the Computer as Self-Reflexive Machines (MIT Press, 2013), e O Comércio da Literatura: Mercado e Representação (Antígona, 2003).Traduziu para português Laurence Sterne, William Blake e Samuel Beckett. Em 1998 recebeu o Grande Prémio de Tradução pela tradução de The Life and Opinions of Tristram Shandy.

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Qua, 23/Abr/14
Qua, 23/Abr/14

 

Ana Saldanha é a entrevistada do Blogtailors no mês de abril. A escritora, que se destaca pela vasta obra no domínio infantojuvenil e que é também tradutora, nomeia o livro que traduziu, mas que gostava de ter escrito.

 

Os jovens portugueses estão a ler mais? Há motivos para ter esperança?

Estão a ler mais e melhor. A leitura de obras de ficção e de não-ficção e a leitura e a escrita dos mais variados textos em todo o tipo de suporte têm agora um papel mais importante e abrangem um número muito maior de jovens do que na minha juventude.

 

A adolescência é mais parecida com um western ou com um centro comercial?

A adolescência é uma aventura com os perigos e os conflitos de um western e com as tentações e as alienações de um centro comercial. Em Texas, Uma Aventura no Faroeste, a protagonista está à espera dos amigos no Texas, um centro comercial fictício que aparece noutros livros meus.

 

Nos seus romances juvenis e contos, tem abordado temas fortes como a pedofilia, a gravidez na adolescência, a diabetes. É importante pôr os mais novos a refletir sobre esses temas através da leitura?

Não abordo esses temas com intenções didáticas explícitas. Também não pretendo veicular uma mensagem específica. É claro que as minhas reflexões e opiniões estão no texto e que quero estabelecer um diálogo com os meus leitores e proporcionar-lhes uma oportunidade para refletirem sobre esses tópicos.

 

Há temas tabu? E devem os pais controlar as leituras dos mais novos?

Não há temas tabu, mas há formas de tratar os temas que são mais adequadas a determinadas faixas etárias. Embora não defenda a censura, acredito que, como os pais e os encarregados de educação têm uma enorme responsabilidade na formação das crianças e dos jovens a seu cargo, têm também deveres e direitos na seleção do que lhes é apresentado. O ideal seria que os adultos lessem os livros previamente.

 

O humor é determinante para agarrar os leitores mais novos?

É determinante para agarrar todos os leitores, mas não é obrigatório que provoque gargalhadas; basta que provoque um sorriso de reconhecimento do absurdo de certos comportamentos ou diálogos, por exemplo. Mesmo nas situações mais trágicas é possível encontrar momentos de comédia. Uma frase que ouvi na rua: «Aproveitaram o funeral do avô para batizar a Teresinha.»

 

Discute-se muito o isolamento das crianças, que já não convivem tanto entre elas, fechando-se nas redes sociais e videojogos. Será que a leitura se pode pôr nesse mesmo patamar de convite ao isolamento?

É uma falácia dos nossos tempos, a do isolamento dos mais novos causado pelas novas tecnologias. As redes sociais, os videojogos, a Internet em geral podem propiciar esse isolamento, mas não são uma causa direta. Convidam ao convívio e à partilha. A leitura, muito menos: não isola, integra.

 

Leitora, tradutora e escritora: onde se sente mais feliz?

São três atividades que se complementam e me completam. Custa-me imaginar a minha vida sem uma delas — e menos ainda sem as três.

 

Que pergunta deveríamos ter feito e não fizemos?

Dos livros que já traduziu, qual gostaria de ter escrito? A resposta: Colheita, de Jim Crace, publicado pela Presença.

 

 

© Ana Saldanha

 

Ana Saldanha nasceu no Porto, em 1959. Tem uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e fez um mestrado em Literatura Inglesa e um doutoramento sobre a obra de Rudyard Kipling e Teoria da Tradução no Reino Unido. Entre as obras que traduziu destacam-se Longo Caminho para a Liberdade, a autobiografia de Nelson Mandela (Campo das Letras) e Uma História da Leitura, de Alberto Manguel (Presença). Escreveu cerca de três dezenas de livros para crianças e jovens, dos quais se destacam Três Semanas com a AvóUma Questão de CorO Papão no DesvãoPara Maiores de Dezasseis e O Galo que Nunca Mais Cantou. O seu livro mais recente é o romance juvenil Texas, Uma Aventura no Faroeste.

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Qua, 26/Mar/14
Qua, 26/Mar/14

 

Margarida Fonseca Santos é a entrevistada do Blogtailors na semana em que estreia o espetáculo Cantastórias — De Cor e Salteado, no qual assume a autoria do texto, das músicas e das letras. Dedica-se à escrita a tempo inteiro desde 2005, tendo desde aí publicado quase 70 títulos. Com uma obra voltada especialmente para o público infantojuvenil, Margarida Fonseca Santos ainda encontra tempo para se dedicar ao romance e às aulas de escrita criativa.

 

O espetáculo Cantastórias — De Cor e Salteado tem estreia marcada para o próximo dia 29. Não é o seu primeiro trabalho no género, e é novamente escrito inteiramente por si. É uma forma de conjugar a sua formação musical com a escrita?

Sim, junto uma das minhas paixões, escrever canções para crianças, com a paixão da escrita para teatro, que sempre me interessou. Claro, o espetáculo não seria a mesma coisa sem as orquestrações e direção musical do Francisco Cardoso, a sua colaboração é essencial para o sucesso deste projeto. Mas é muito gratificante construir o texto já com as canções, música e letra, na cabeça.

 

Nos últimos anos, tem escrito mais de dez livros por ano. Como descreve o seu processo criativo?

Uma pergunta difícil… Bom, primeiro que tudo, tenho de sentir a ideia. Pode ser uma frase, um assunto, algo que vejo. Este processo é muito mais emocional do que racional, pois ando com a ideia dentro de mim até a sentir como história. Só quando a sinto pronta, e quando digo pronta não digo «com palavras», é com emoções, escrevo-a. Costumo ser rápida nesta fase. O maior trabalho chega depois, na reescrita, no apurar das frases, das emoções descritas, nas mensagens ditas de tal forma que deixem espaço para o leitor concordar, discordar e aproveitar apenas aquilo que, no momento em que lê, faz sentido para si.

 

A maioria da sua obra é direcionada para o público infantojuvenil. Quais os livros que mais gostou de escrever? Que lugar tem o romance na sua obra?

Há livros que, para mim, são fundamentais, não só na minha escrita como na minha vida. O Aprendiz de Guerreiro (e todos os livros de O Reino de Petzet) é talvez a obra que mais tem de mim, que me emociona quando nela penso ou quando a releio. Servi-me de um mundo fantástico para falar da amizade, solidariedade, da luta por objetivos na sociedade, enquanto se fala de técnicas mentais que nos podem ajudar no dia-a-dia. Outros livros que me marcaram foram Uma Questão de Azul-escuro, O Boião Mágico e Miguel Contra-ataca (dos 7 Irmãos). É difícil escolher só uns.

De Nome. Esperança marca uma viragem que me modificou, tanto como pessoa como enquanto escritora. Gosto de viajar no silêncio dos que sofrem, dar-lhes voz e retirar da solidão o leitor. Por isso surgiu Deixa-me Entrar na Tua Vida e o próximo, De Zero a Dez. Todos eles abordam temáticas concretas: a perturbação mental, o alcoolismo e a codependência, a vida com dor crónica.

 

Trabalha para o público infantojuvenil, mas também faz várias formações para adultos, nomeadamente no âmbito da escrita criativa. Trabalhar com crianças cria pontes para trabalhar com adultos?

Talvez, nunca tinha pensado nestes termos. As formações que dou a adultos podem ser para professores ou para quem quer escrever melhor. Sendo obrigada a ponderar essa ligação, acho que posso dizer que se aprende, ao trabalhar com crianças, a ser sincero e apaixonado por aquilo que transmitimos. Levando para os adultos essa postura, talvez consiga que cada um, à sua maneira, me acompanhe e se deixe apaixonar, conseguindo ser mais sincero no que faz.

 

Como é que compara o grau de dificuldade de escrever um livro para crianças ao de escrever um livro para adultos?

A responsabilidade (não tanto a dificuldade) de escrever para crianças é enorme. A parte mais complicada é, como já referi, ser capaz de provocar o pensamento, a possibilidade de pôr a criança a concordar ou discordar, a pensar por si, a emocionar-se com as situações. Os textos moralistas não servem, a meu ver. Precisamos de ser mais abrangentes, mais impulsionadores do pensamento.

Ao escrever para adultos, em textos normalmente muito mais longos e, por isso, implicando um processo mais demorado, essa preocupação pode desaparecer. Os adultos defendem-se do que leem, são capazes de rejeitar o que não lhes diz nada. Embora tente sempre não impor a minha visão do mundo aos leitores, mas sim provocar neles um pensamento e uma consciência sobre o assunto, sinto-me mais livre na escrita. Contudo, seria incapaz de deixar de escrever para crianças.

 

Quantos trabalhos, no domínio da escrita, tem previstos para 2014?

Para já, o romance De Zero a Dez, a sair em breve; um livro da coleção 7 Irmãos, que escrevo com Maria João Lopo de Carvalho; e três livros infantis.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Mais uma rasteira… Vou partilhar então uma convicção. Um dia, num encontro com vários escritores, perguntavam-nos se achávamos que podíamos salvar o mundo com a literatura. Respondi o que sinto: se conseguirmos salvar um bocadinho do mundo de cada leitor com a nossa escrita, estaremos sempre a melhorar o mundo de todos. É esse o meu objetivo ao escrever: ao partilhar o que sinto e o que me emociona com os meus leitores, mesmo que sejam muito poucos, estarei a cumprir essa função. Idealista? Talvez, mas é assim que vejo a minha relação com quem me lê.

 

 

© Margarida Fonseca Santos

 

Margarida Fonseca Santos nasceu em 1960, em Lisboa. A paixão por ensinar é algo que atravessa toda a sua atividade profissional. Começou a escrever aos 33 anos, um pouco por acaso. Desde 2005 que dedica por inteiro à escrita, mas sem ter abandonado por completo as aulas, agora de Escrita Criativa, para jovens, professores, adultos e professores. Há vários livros seus no Plano Nacional de Leitura, como Uma Questão de Azul-EscuroO Peixe Azul, e a coleção «O Reino de Petzet». Em coautoria, escreve a coleção «7 irmãos» (com Maria João Lopo de Carvalho) e As Aventuras de Colombo (com Maria Teresa Maia Gonzalez). Além da prosa e das canções para o público infantojuvenil, escreve igualmente para teatro e sobre escrita criativa, área em que se destacam Quero Ser Escritor! (em coautoria com Elsa Serra, 2007) e Escrita em Dia (2013). Na ficção para adultos, publicou em 2011 o romance De Nome, Esperança e, em 2013, Deixa-me Entrar na Tua Vida.

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Qua, 26/Fev/14
Qua, 26/Fev/14

 

Jerónimo Pizarro é um dos mais jovens e promissores investigadores da obra de Fernando Pessoa. Foi, em 2013, comissário da presença portuguesa na Feira Internacional do Livro de Bogotá, tendo sido posteriormente condecorado pelo Presidente da República com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Também em 2013, o colombiano, que adquiriu nacionalidade portuguesa, recebeu o prémio Eduardo Lourenço. Acerca de Pizarro, o filósofo terá afirmado que este se tornou o «mais jovem dos heterónimos pessoanos». O investigador explica porquê.

 

Disse numa entrevista que o seu deslumbramento foi sempre a literatura portuguesa. O que tem de específico e especial a literatura portuguesa?

Não posso caracterizar a literatura portuguesa na sua totalidade sem ser injusto. É uma das perguntas a que tentei fugir durante a FILBo 2013, em que Portugal foi o país convidado de honra. Mas o esplendor verbal dessa literatura, que só se faz maior desde que há mais países lusófonos, e a capacidade de ser marcante desde a periferia (porque até José Saramago, em Lanzarote, e Jorge Amado, na Bahia, foram algo periféricos), é notável. Contudo, também poderíamos afirmar, fugindo às caracterizações, que nao há literaturas mas a literatura, como um todo; e, se for assim, devo dizer que muitos nomes portugueses conformam o que, para mim, leitor de autores de muitas tradições, é a literatura, ou melhor, os livros que mais me interessa reler, traduzir, discutir, revisitar, adaptar, etc.

 

Na Universidade dos Andes, onde ensina literatura portuguesa, ensina outros autores portugueses. Esqueçamos por instantes Fernando Pessoa: que outras referências da literatura portuguesa tem?

Novamente não quero ser injusto, e todos temos preferências. Mas tenho uma inclinação profissional pelo século XX e gostaria de ter o tempo para me perder por anos na vida e na obra de certos autores: Pessoa pode ser um labirinto, mas também o Almada ou o O’Neill. E para já espero homenagear, a partir da academia, muitos dos autores que admiro. As minhas traduções denunciar-me-ão... Já traduzi Ana Pessoa e José Eduardo Agualusa, por exemplo. Estou a traduzir Carla Maia de Almeida… E faltam-me planetas inteiros da Planeta Tangerina e de outras editoras que merecem todo o nosso reconhecimento.

 

Declarou um dia querer traduzir obras como O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, e O que diz Molero, de Dinis Machado. Porquê estas obras? E que outras gostaria de traduzir?

Eu gostaria de traduzir todas as obras que me transportaram para uma nova realidade que ainda não esqueço durante umas horas ou dias; e essas fizeram-no com uma força invulgar. Quero crer que antes de escritores somos leitores, e a minha bússola são as minhas leituras. Na lista de traduções futuras ainda estão muitos poetas, entre eles José Tolentino Mendonça. Há dias em que eu gostaria de ser uma editora e que a minha obra fosse o meu catálogo: esse é o sonho de todo o grande editor…

 

Além de José Saramago, o que ficaram mais a conhecer os colombianos da literatura portuguesa depois da Filbo — Feira Internacional do Livro de Bogotá 2013?

Essa é uma «pergunta capciosa». Responderia que todos os autores convidados e traduzidos: Júdice, Amaral, Peixoto, Almeida, Carvalho 1, Carvalho 2, Letria, Pina, Cruz, Moura, e assim sim nomes, com dois números e esquecendo muitos outros… Preocupa-me mais definir os que ainda não são conhecidos. Faltam muitos.

 

Numa conferência na Universidade de Coimbra, falou na «tentação do abismo» presente na obra pessoana. É aí que reside o fascínio universal pela obra do poeta?

Fernando Pessoa cada dia será mais ninguém, como todos nós depois de desaparecermos. Ontem reli um poema de Pessoa que um dos meus alunos adora e quer pendurar na porta do seu quarto («Se te queres matar, porque não te queres matar?»):

 

Só és lembrado em duas datas, anniversariamente:

Quando faz annos que nasceste, quando faz annos que morreste.

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no anno pensam em ti.

Duas vezes no anno suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se falla em ti.

 

Com a passagem do tempo, Fernando Pessoa será mais um símbolo e duas datas do que o homem que foi; e somos nós e as gerações futuras que ocuparemos esse «coração de ninguém».

 

Está a constituir-se, na Universidade de Coimbra, um arquivo digital sobre o Livro do Desassossego. Numa entrevista, afirmou que os arquivos físicos por explorar dos autores conferem mais «densidade» aos textos. Como é que o físico e o digital se articulam no seu trabalho de crítico textual?

Para mim a literatura está perante duas vidas: a das humanidades tradicionais e a das humanidades digitais. E todos os autores deviam ter uma vida dupla, em papel e em ecrã. Nas bibliotecas «reais» continuaremos na Idade da Pedra, mais tangível; nas bibliotecas «virtuais» na Idade da Nuvem, mais intangível. E temos de tender, mais e mais, a ter essas duas vidas e a fornecer essas duas vidas a certos autores, Nenhuma editora parece hoje capaz de publicar o espólio completo de Fernando Pessoa; cada uma quer partes, e o resto podia ficar na net. 

 

Venceu a 9.ª edição do prémio Eduardo Lourenço, e terá sido este filósofo a afirmar que se tornou o «mais jovem dos heterónimos pessoanos». Sente-se heterónimo?

Sinto-me um autor fictício de Pessoa, sim, como todos os seus leitores, editores, críticos e tradutores. Pessoa inventa-nos; nós inventamos Pessoa. O múltiplo multiplica-se… Lourenço foi um dos primeiros — e também mais jovens — heterónimos pessoanos há algumas décadas. E muitos mais hão de vir.

 

Disse não saber se teria «uma porta de saída» depois de ter entrado no espólio de Fernando Pessoa. Pensa se quer devotar toda a sua investigação ao autor?

Nao, isso está claro: não quero. A minha investigação académica nunca poderá ser pessoana apenas; e a humana também não. Simplesmente Pessoa deixou um espólio para milhares de anos e pessoas, e sei que esse espólio é muito mais vasto do que os anos que eu ainda possa viver. Darei um contributo, uma série de contributos, e pouco mais.

 

A imagem que temos hoje de Fernando Pessoa pode vir a mudar com aquilo que está por descobrir no espólio?

Com certeza, até porque, se não mudar, vamos aborrecer-nos muito. Já não consigo reler certos versos e certas linhas…

 

Se tivesse oportunidade, que pergunta faria a Fernando Pessoa?

Outra pergunta que costumo elidir; nem sei o que perguntaria à minha avó se a reencontrasse um dia… Mas talvez lhe perguntasse se já leu alguma da bibliografia publicada depois de 1935… Gostaria de ver o seu sorriso.

 

 

© Jerónimo Pizarro

 

Jerónimo Pizarro é professor da Universidade dos Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e doutor pelas Universidades de Harvard (2008) e de Lisboa (2006), em Literaturas Hispânicas e Linguística Portuguesa. No âmbito da Edição Crítica das Obras de Fernando Pessoa, publicadas pela INCM, já contribuiu com sete volumes, sendo o último a primeira edição crítica de Livro do DesasocegoPizarro coordenou ainda duas novas séries da Ática (1. Fernando Pessoa | Obras; 2. Fernando Pessoa | Ensaística). Em 2013, assumiu funções de comissário da presença portuguesa na FILBo – Feira do Livro de Bogotá (Colômbia) e foi distinguido com o Prémio Eduardo Lourenço. Em abril do mesmo ano, foi agraciado pelo presidente da República com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Já em 2013, editou Eu Sou Uma Antologiae uma nova edição do Livro do Desassossego (Tinta da China). Jerónimo Pizarro é um autor Bookoffice.

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Qua, 13/Nov/13
Qua, 13/Nov/13

 

Na semana em que arranca o Festival IN, a Booktailors entrevista a diretora da Área de Feiras da FIL e responsável, nesta primeira edição do festival, pelo setor da Edição e Criação Literária. O que tem o Festival IN a oferecer aos autores portugueses? «Dar início ao processo de internacionalização» é a prioridade, nas palavras de Fátima Vila Maior.

 

Quais os principais objetivos do Festival IN no setor de Criação Literária?

A Fundação AIP (Associação Industrial Portuguesa), consciente do seu compromisso para com as empresas e os empreendedores portugueses, criou este festival para que pessoas de diversos quadrantes tenham um espaço de aprendizagem, interação, networking e partilha de experiências. Durante quatro dias, autores, artistas, pintores, produtores, músicos, publicitários, designers, programadores informáticos, enfim, criadores, sonhadores e empreendedores vão estar num único local para promoção dos seus negócios e projetos. Tanto para o setor de Criação Literária como para qualquer um dos outros 14 setores representados no Festival IN, o objetivo é o de dar início ao processo de internacionalização das indústrias criativas e culturais portuguesas e em concreto dos autores portugueses ou da língua lusófona.

 

Que participantes pretende o festival atrair neste setor?

O Festival IN pretende atrair todos os portugueses que se considerem empreendedores, sonhadores e criativos. Mas também os investidores vão estar presentes no maior encontro sobre indústrias culturais e criativas realizado em Portugal.

O Festival IN surge como rampa de lançamento e afirmação das indústrias culturais e criativas portuguesas no contexto internacional. Em Portugal vão estar alguns dos mais importantes investidores nas mais diversas áreas. Esta é uma oportunidade única para todos os portugueses que tenham uma pequena ou média empresa, ou até mesmo para as grandes empresas presentes no Festival IN, apresentarem os seus projetos a quem está disponível para investir.

 

O que poderão os participantes neste festival ganhar ao entrar nesta iniciativa?

Dar a conhecer os seus projetos aos 60.000 visitantes é o mínimo garantido a cada um dos participantes. O Festival IN distribui-se pelos quatro pavilhões da FIL e contará, no seu programa, com speed conferencesworkshops, espaços de networkingshowcases e áreas para os empreendedores exporem as suas ideias e os seus projetos. A FIL será, por isso, um ponto de encontro entre diferentes agentes até então desencontrados (criadores, investidores e consumidor final) que permitirá não só fomentar negócio como oferecer, às empresas, uma nova forma de encontrar ideias e soluções inovadoras. O Festival IN apresenta-se como um evento inovador, ancorando experiências sensoriais (interações físicas e virtuais) nos mais diversos setores, que têm a sua origem na criatividade individual, habilidade e talento — Cultura, Artes, Multimédia, Telecoms e Tecnologias da Informação, Comunicação, Design e Artes Performativas.

 

Como avaliaria a atual situação do mercado editorial em Portugal?

O mercado das indústrias culturais e criativas está também, e naturalmente, a sofrer o efeito da crise económica e financeira que assola o país. É sabido por todos que a aquisição de bens culturais tem vindo a baixar ao longo dos últimos anos mas a palavra «crise» tem de dar lugar à palavra «oportunidade» e devem ser encontrados novos modelos de negócio e de proteção intelectual, por exemplo, que protejam todos os intervenientes neste setor.

 

O que pode este festival trazer de novo para o setor editorial nacional?

O Festival IN pretende, acima de tudo, ser um ponto de encontro para todos os interessados, direta ou indiretamente, nas indústrias culturais e criativas. Não nos podemos esquecer que, num único espaço, vão estar pessoas de diferentes setores e que esta será uma oportunidade única para criar sinergias e alavancar projetos entre áreas que andam, na maior parte do tempo, distantes umas das outras.

 

 

© Fátima Vila Maior

  

Fátima Vila Maior é licenciada em economia, entrou para a Associação Industrial Portugal — Feira Internacional de Lisboa, em 1984. Atualmente desempenha as funções de Directora de Área de Feiras da FIL — AIP — Feiras, Congressos e Eventos, e tem sob a sua direção a organização dos eventos BTL, Festival IN, Alimentaria & Horexpo, PET Festival e FIL Outlet e a coorganização portuguesa na Feira Internacional de Cabo Verde.

Foi, durante o seu percurso, no âmbito da FIL, responsável pela Filmoda, Ceramex, Interiores, FIL Antiguidades, SIL entre outros projetos.

Dentro da AIP, passou pelos departamentos de economia, publicidade e protocolo, associativismo e direção de marketing, até assumir as funções que tem hoje.

Entre 2005 e 2009 foi diretora da Área de Relações Internacionais da AIP.

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Qua, 16/Out/13
Qua, 16/Out/13

 

É o segundo Prémio LeYa de nacionalidade portuguesa e de formação em engenharia. O que à partida parece uma fórmula para ganhar, afinal «tem muito de arbitrariedade». Talvez porque é simplesmente «um masoquista das ideias», atreveu-se a escrever e continua a autoflagelar-se, agora pela terceira vez. Um dia depois de ter passado o testemunho a Gabriela Ruivo Trindade, vencedora do Prémio LeYa 2013, Nuno Camarneiro fala do que mudou com o prémio e de um novo livro que, a manter-se o ritmo, talvez esteja terminado ainda durante o próximo ano.

 

É o segundo escritor a vencer o prémio LeYa que estudou engenharia. Há alguma fórmula física que contenha a solução para escrever livros premiáveis?

Não me pus o problema de escrever um livro premiável e portanto também não procurei uma solução. Há uma grande dose de arbitrariedade nos prémios literários, como na mecânica quântica.

 

A vida muda depois de um prémio LeYa? (Além da conta no banco e dos impostos, claro.)

A vida mudou um pouco, sim, passei a ter mais compromissos, alguns agradáveis, outros menos. 

 

Tem alguma ideia sobre o que fazer aos 100 mil euros do prémio?

Ainda não me decidi. Talvez gaste tudo em livros e dê entrada para uma casa onde os possa albergar.

 

Ser premiado com o prémio LeYa ao segundo romance não o faz sentir o peso da pressão na escrita do terceiro?

Há sempre tantas pressões para a escrita de um romance que essa é apenas mais uma. Preocupam-me mais as outras, que são internas e por vezes insondáveis.

 

Foi convidado este ano para a Bienal do Rio e, ainda antes do final do ano, regressará a terras de Vera Cruz. Depois disto, o objetivo é o prémio PT?

Não tenho qualquer objetivo que passe por ganhar um prémio. Escrevo pelo prazer e pela dor que a escrita me traz, sou um masoquista das ideias.

 

Como tem sido recebido no outro lado do Atlântico?

Muito bem. Fiquei agradado por perceber que a minha linguagem funciona lá também. Ainda não tenho um público brasileiro, mas começo a ter alguns leitores fiéis.

 

Nota alguma diferença entre os leitores brasileiros e os portugueses?

Não consigo ter essa noção de conjunto. Haverá diferenças entre os leitores de Braga e de Faro? Os leitores de literatura não costumam encaixar bem em estereótipos.

 

Mantém o blogue Acordar Um Dia, onde publica habitualmente poesia. Para quando um livro deste género literário?

Quando achar que faz sentido e me convidarem para o fazer. Com os romances, tenho a preocupação de os publicar, para que terminem e me veja livre deles; os poemas são bichos amigos que não me importo que andem lá por casa.

 

Para quando podemos esperar um próximo livro?

Se mantiver o ritmo de escrita, é provável que termine o próximo romance a meio de 2014.

 

Envolverá escritores falecidos em diferentes locais ou diferentes personagens num mesmo espaço?

Envolverá personagens vivas em diferentes locais e pelo menos um escritor falecido.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Que pergunta fizemos e não devíamos ter feito? 

 

 

© Helena Belo

 

Nuno Camarneiro nasceu na Figueira da Foz em 1977. Licenciou-se em Engenharia Física pela Universidade de Coimbra, trabalhou no CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear) e doutorou-se em Ciência Aplicada ao Património Cultural pela Universidade de Florença. Atualmente desenvolve a sua investigação na Universidade de Aveiro e é docente no Departamento de Ciências da Educação e do Património da Universidade Portucalense. Em 2011 publicou o seu primeiro romance, No Meu Peito Não Cabem Pássaros, saudado pela crítica, publicado também no Brasil e cuja tradução francesa está prevista para breve. Foi o primeiro autor escolhido pela Biblioteca Municipal de Oeiras, parceira portuguesa da iniciativa, para participar no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, França. Publicou um texto na prestigiada Nouvelle Revue Française na rubrica «Un mot d’ailleurs» e tem diversos contos em revistas nacionais e estrangeiras.

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Qui, 13/Dez/12
Qui, 13/Dez/12

 

[Parte I]


Há ainda muitos autores que Francesco Valentini, da Nova Delphi, gostaria de publicar. No entanto, tratando-se de um projeto a longo prazo, haverá tempo para os incluir no catálogo, apesar das dificuldades que o mercado português impõe a uma editora com a dimensão da Nova Delphi, nomeadamente o eterno problema da distribuição. Mas haja ideias para contornar as dificuldades, e isso é algo que não falta a Francesco Valentini.

 

A crise já obrigou a repensar o plano editorial?

Se pensar que nós começámos a publicar em 2010, quando a crise estava já muito presente… Sim, fizemos alguns ajustes, mas nada que alterasse profundamente o nosso plano inicial.

 

Que escritor gostava de poder editar e ainda não o fez?

Somos uma editora com um projeto de longo prazo. A maioria dos escritores vivos de que nós gostamos, obviamente, ainda não foi publicada por nós, mas ficaríamos muito satisfeitos se, talvez dentro dos próximos 20 anos, conseguíssemos publicar pelo menos uma pequena parte deles.

 

Gosto de pensar que a vida de uma editora possa ser representada como se fosse um livro, em que cada coleção realizada possa representar os capítulos do livro e as histórias dos autores publicados são as histórias dos protagonistas de cada capítulo. Com base nesta metáfora, a Nova Delphi ainda não terminou de escrever o primeiro capítulo. Esta é a única resposta sensata que posso dar.

 

Tem tablet? Ou não se imagina a ler e-books?

Tenho e já li e-books. Antes do tablet tive um e-reader. Não têm nada a ver, mas isto para dizer que tenho acompanhado as novas tendências, as novas formas de ler, os novos suportes. É uma área pela qual me interesso e à qual dedico muitas horas de leitura e estudo.

 

Além disso, a Nova Delphi apostou desde o início em ter todos os seus livros publicados no formato tradicional e em e-book, em vários formatos para facilitar a leitura nos diversos suportes que existem no mercado. Por exemplo, os nossos e-books estão disponíveis no formato ePub e mobi (para o Kindle).

 

O que é que um editor tem de saber para sobreviver no mercado português?

A pergunta é intrigante, mas vou tentar responder desta forma: existem duas grandes barreiras à entrada de um novo editor no mercado editorial português, sobretudo se for pequeno. A primeira barreira – que é comum a todos os mercados editoriais ocidentais que conheço – é a da distribuição. A distribuição em Portugal é mal organizada, a situação financeira dos distribuidores independentes é péssima. Na realidade, o que acontece é que o distribuidor gere indevidamente a tesouraria dos seus clientes editores mantendo-os pela garganta… A única distribuição que funciona é a que pertence aos grandes grupos editoriais que todos nós conhecemos, que, obviamente — e eu acho que com razão —, privilegiam as suas próprias marcas editoriais. A segunda barreira — na minha opinião, ainda mais grave do que a primeira — é a total ausência de informação estatística organizada sobre as várias fases da fileira editorial. Bom, na realidade esta informação existe, mas o acesso a ela está sujeito a um preço elevado, o que não permite que editores mais pequenos, que queiram entrar no mercado ex novo, possam ter uma ideia prévia do funcionamento do mercado editorial, de como é estruturado e de quais as tendências editoriais atuais e quais serão as tendências futuras. Consequentemente, existem muitas dificuldades na conceção de estratégias editoriais ganhadoras e direcionadas para identificar nichos de mercado a ser explorados.

 

As considerações acimas referidas são mais interessantes, e explicam muitas coisas, se considerarmos que a indústria editorial em Portugal no período 2008-2011 (no pior período de crise) representou um dos poucos setores da economia, baseada no mercado interno, que apresentou dados anticíclicos. Em suma, estamos perante um setor económico, o editorial, que realizou um volume de negócios positivo, aumentou em vez de diminuir. Então, talvez essa pergunta — e digo isto com alguma ironia — deve ser reformulada da seguinte forma: o que pode fazer uma editora em Portugal para sobreviver? E porquê sobreviver em vez de viver de facto, quando há espaço à conta do crescimento do setor?

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Como eu sou muito generoso, quero fornecer duas boas ideias… que espero que sejam úteis:

1) Criar uma plataforma digital e uma base de dados estatísticos comuns a todos os operadores do setor editorial, os editores e não só, plataforma que possa ser adquirida a preços baixos e onde encontrar todas as estatísticas do mundo do livro, do autor ao leitor. Na Itália existe (ver aqui: http://www.ie-online.it/sx/sx.html) e ajuda principalmente as pequenas e médias empresas da fileira editorial, pois assim conseguem cruzar dados e ajustar a oferta à procura. Aproveito para fazer um convite à APEL, em particular, para fazer o acompanhamento desta iniciativa, sem medo, todos nós precisamos;

 

2) Criar, por parte do mundo editorial em colaboração com os meios de comunicação de massa tradicionais (televisão), e com os novos media digitais (redes sociais), programas culturais e formatos que permitam explicar aos jovens que ler (e ler livros tanto em versão em papel quanto digital, não importa… o importante é ler) é bom para a saúde, melhora a vida, diminui o stresse. Citando indevidamente Umberto Eco, acho que existem duas experiências religiosas que dão a vertigem de prazer, uma é o sexo, a outra é a leitura, a primeira faz vibrar o corpo, a outra a mente: se nós pusermos os assuntos nesses termos, ainda conseguimos um percurso mais persuasivo com o objetivo da formação cultural dos jovens.

 

O que distingue o mercado editorial português do italiano?

O mercado editorial italiano e o português são mercados que estruturalmente se assemelham: oligopólios consolidados com severas restrições sobre a concorrência na distribuição do livro. Há uma diferença quantitativa, que se transforma em qualitativa, como muitas vezes acontece: a população italiana, embora inclinada a ler tanto quanto a portuguesa, é cerca de seis vezes a população lusitana; portanto, tenho a sensação de que em Itália há mais espaço para os pequenos e médios editores sobreviverem com dignidade; isso é o que também me foi confirmado pelo Dr. Germano Panettieri, diretor editorial da filial italiana da Nova Delphi (http://www.novadelphi.it). Apenas para ter uma ideia, eis alguns dados disponíveis postos online no mês de outubro de 2012 pela associação italiana AIE (http://www.aie.it/), homóloga da APEL:

 

• Títulos publicados: (2010) 57 558; (2011) 63 800 (10,8%);

• Mercado (total) e volume de negócio com base o preço de capa:

- (2010) 3 470 779 mil euros (0,5%);

- (2011) 3 309 713 mil euros (-3,4%);

• Compradores de pelo menos um livro durante o ano de 2011: 22,8 milhões (44% da população com idade acima de 14 anos).

 

Finalmente um desejo: espero que ambos os mundos editoriais, o italiano e o português, com uma língua e uma literatura tão ricas, possam, no futuro, encontrar-se não só para avaliar o que os diferencia e enriquecê-los mas também para descobrir as fundações que partilham e que lhes dão origem.

 

 

 

Francesco Valentini nasceu em Gorizia, Itália, em 1966. Licenciou-se em Direito, área onde exerce até hoje a sua atividade profissional enquanto advogado de negócios internacionais e perito em direito fiscal e comercial internacional. Vive no Funchal, Madeira, com a família desde 1995. Em 1996 partilhou a vida profissional com o ensino em várias universidades. Foi docente dos mestrados em Direito Tributário, Direito da Economia e da Empresa em universidades públicas (Bolonha, Bari, Roma, Lisboa) e organizações privadas (Milão, Roma, Bolonha, Bari). No final de 2009, concretizou um sonho antigo ao fundar uma editora, a Nova Delphi, que tem sede no Funchal e uma filial em Roma. O desafio era, e continuará a ser, conjugar um setor empresarial tradicional com as novas tecnologias e, por outro lado, promover eventos culturais como o Festival Literário da Madeira, que se concretiza em parceria com a Booktailors. Em 2010, traduziu O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa, para a língua italiana, obra publicada em Itália pela Nova Delphi.

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Coleção «Protagonistas da Edição», 1.º volume Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses disponível para encomenda através do e-mail encomendas@booktailors.com, por 10,80 €, com portes de envio incluídos (válido para território nacional).


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Ter, 11/Dez/12
Ter, 11/Dez/12

 

[Parte II]


Entre Portugal e Itália, Francesco Valentini escolheu a Madeira para concretizar um sonho antigo: fundar uma editora. Nasceu assim a Nova Delphi, em finais de 2009, que, apesar da sua juventude, revela maturidade em termos de catálogo e inovação, tendo, desde o início, procurado publicar todos os seus livros em todos os formatos disponíveis para a leitura. Mas nem só da edição de livros vive a Nova Delphi, que, em parceria com a Booktailors, organiza o Festival Literário da Madeira, que conhecerá em 2013 a sua terceira edição.


Quais são as grandes dificuldades de uma pequena editora com sede numa ilha como a Madeira?

Não serão muito diferentes das dificuldades de uma pequena editora sediada em Trás-os-Montes, Faro, ou até em Lisboa.

As pequenas editoras sentem as mesmas dificuldades que as grandes editoras sentem nesta altura em que há uma maior contenção, mas com uma diferença: é que as grandes editoras têm por detrás grandes grupos que lhes proporcionam a colocação e permanência nas livrarias com uma agressividade que as editoras mais pequenas não conseguem. Mas hoje a Internet veio dar uma ajuda na exposição dos livros, dos autores, e permitir outras facilidades de venda além do prazo de validade imposto pelo mercado.

Todo o trabalho editorial que fazemos pode ser feito em qualquer sítio, desde que tenhamos um computador e um telefone. Portanto, a localização geográfica é secundária para este trabalho. Em contrapartida, não estarei muito errado se disser que, se estivéssemos sediados em Lisboa, estaríamos mais perto dos grandes eventos, da imprensa, e que teríamos outras facilidades para os lançamentos, que teríamos (talvez) outras facilidades que o contacto direto proporciona.

 

Organizar um festival literário na Madeira é uma teimosia ou um serviço público?

Foi um sonho motivado por uma oportunidade que, neste caso, a Madeira oferecia. É uma região muito ativa culturalmente, mas fazia falta um evento que concentrasse e mobilizasse durante vários dias a atenção especificamente em torno dos livros, dos autores, da reflexão em torno de temas da atualidade, e que proporcionasse um contacto entre estes e o público de uma forma direta. O Festival Literário proporciona momentos de descontração e de grande proximidade entre escritores e leitores; sentam-se lado a lado nas sessões, conversam nos intervalos, até podem cruzar-se nos eventos noturnos, que já se tornaram uma marca deste Festival. Tudo isto é possível e decorre com grande naturalidade. Um espaço em que se falasse e respirasse cultura durante vários dias era um momento que queríamos muito criar. E, de facto, aconteceu.

Se existisse algo semelhante, possivelmente não o faríamos. Mas, desde o início da nossa atividade, a Nova Delphi sempre assumiu três áreas, que se entrecruzam mas que são trabalhadas autonomamente, o livro em papel, o livro digital e os eventos culturais. Portanto, é uma teimosia que está na nossa génese.

O FLM é serviço público? Não nos colocamos nesse patamar. Este será sempre um projeto empresarial, que está pensado a vários anos. Por exemplo, nunca escondemos que haverá um momento em que as entradas para o evento terão de ser pagas. Só não o fizemos ainda porque estamos numa fase de criação e fidelização de público, e o facto de ser gratuito é assumido como uma forma de promoção do próprio evento. O Festival foi concebido desde o início com o objetivo de criar um modelo, não só cultural mas também económico, ou seja, um evento que pudesse tornar-se, a partir do quinto ano, financeiramente autossuficiente. Para nós, cada ano que passa é importante porque nos permite aperfeiçoar o modelo de sustentabilidade económica do evento festival.

A ida às escolas é também uma promoção do FLM. Às escolas, interessa que os seus alunos tenham este contacto com escritores nacionais (um momento raro); ao FLM, interessam as oportunidades que esta iniciativa cria, ou seja, promoção direta do evento junto de um público potencialmente interessado, mas também uma formação a longo prazo de novos públicos. É tudo um investimento. Investir em cultura é uma mais-valia para nós e para a região.

Tudo isto para dizer que, além do interesse cultural para a região, um contributo que está pensado desde o primeiro momento, além da promoção da Nova Delphi como organizadora de eventos, este é um projeto sustentado e sustentável a longo prazo. Não o poderíamos fazer sozinhos. Tivemos apoios públicos e privados das mais diversas espécies. Contamos com o envolvimento voluntário de uma série de pessoas, contamos com empresas que não se limitaram a dar o apoio pedido, foram parceiros porque se envolveram no projeto, deram sugestões e estiveram em todo o processo de organização.

Por fim, e porque gostaria de fazer um destaque especial, tivemos o apoio inestimável da Booktailors desde a primeira hora. Fomos parceiros desde o primeiro momento no sonho, na forma como se construiu a ideia, como se desenvolveu. Antes de tudo o mais, se acreditar numa ideia é teimosia, fomos teimosos até ao fim.

O FLM vai agora para a sua 3.ª edição. Se tudo correr bem, como esperamos, 2013 será o ano em que a marca FLM se consolidará e se afirmará. Estamos apostados em dar uma dimensão cada vez mais internacional a fim de tornar este um evento de interesse nacional, mas que tem a particularidade de se realizar na Madeira.

 

Tem sentido um maior envolvimento da comunidade em torno do festival?

É curiosa a forma como as pessoas nos abordam para saber novidades da próxima edição e como aproveitam esse momento para dar sugestões de autores. Perguntam-nos se virá este ou aquele autor, querem saber onde e quando vai acontecer… À medida que o tempo passa, o contacto e o envolvimento das pessoas é mais fácil porque já conhecem, sabem como funciona e quais as potencialidades. Além das escolas que nos acolhem, os espaços que recebem os vários momentos do FLM também se esforçam por alargar a participação a outras pessoas, publicitam o evento de forma autónoma. Quer isto dizer que se sentem, de facto, envolvidos.

Aliás, esse é um dos objetivos do Festival. Tem sido uma preocupação constante tornar este Festival um evento que pertença à ilha, que se possa confundir com a ilha e com as suas gentes, com a cidade do Funchal, o berço do FLM. O Funchal tem uma importância histórica que queremos destacar, é um ponto de passagem nas viagens transatlânticas, é porto de abrigo, recebe navegadores, exploradores, viajantes, pessoas do mundo. Hoje, a porta de entrada na ilha já não é essencialmente por mar, mas porque não o Funchal e a ilha da Madeira se tornarem uma passagem obrigatória no mar de cultura literária que produzimos? Não falo apenas do que produzimos em Portugal, mas do que se escreve e publica pelo mundo. Porque não apostar em reunir em Portugal, no meio do Atlântico, na ilha da Madeira, um Festival que pense e discuta temas que interessam ao Homem, independentemente da sua língua? O Festival pode e deve confundir-se com a ilha e a ilha com o Festival. O FLM não é de quem o organiza, mas de quem o vive.

 

Que autores gostava de ver numa das próximas edições do festival?

Há tantos! Há alguns que, temo, podem vir a ser traídos pelo tempo.

 

Editorialmente, quais são propósitos da Nova Delphi?

Somos uma editora média-pequena que ambiciona tornar-se grande. Temos sete coleções ativas, o que, em pouco mais de dois anos, não me parece pouco. Respetivamente, (i) «Mnemosyne», coleção de literatura clássica, que inclui clássicos literários nacionais e internacionais; (ii) «Clio», coleção de literatura contemporânea, até agora representada apenas por importantes autores estrangeiros traduzidos em Português (autores portugueses, por favor, cheguem-se à frente, estamos à espera das vossas propostas!); (iii) «Pandora», coleção de ensaio contemporâneo, onde já publicamos Naomi Wolf e publicaremos Z. Bauman; (iv) «Pallas Athenas» é uma coleção de não-ficção de género, em relação à questão da diferença cultural, que também inclui o feminismo; (v) «Cadernos de Madeira» é uma coleção em homenagem ao lugar onde estamos sediados e que tem como objetivo oferecer um olhar diferente e transversal ao microcosmo e aos problemas económicos e sociais dum arquipélago ultraperiférico; (vi) uma coleção a que chamamos «Fora de série», que abriga todos os livros que não resistimos a publicar, mas que não cabiam de forma nítida em nenhuma das coleções já em fase de desenvolvimento; e, finalmente, (vii) a chancela «As Joaninhas», que só começou em 2011, e é onde se concentra a nossa produção de livros para crianças e jovens. Em dois anos e meio de atividade, conseguimos o total de 27 livros.

As nossas intenções para o próximo ano passam por consolidar as coleções que já estão ativas e manter uma velocidade de cruzeiro em termos de números de novas publicações de, pelo menos, 20 títulos por ano (ou 40, se pensarmos que as publicações em papel têm também formato digital).

Finalmente, além da consolidação acima referida, estamos a trabalhar no projeto de duas novas coleções para o 2.º semestre de 2013, as quais — diria eu — vão representar uma novidade absoluta no panorama editorial português e que, à conta disso, não me permite revelar mais pormenores por medo da concorrência (!!).

 

O feminismo ainda vende livros?

A pergunta encerra uma afirmação… Pressupõe que em algum momento «o feminismo» vendeu muitos livros. Tem dados? É que eu não os consegui…

Bom, naturalmente que a venda dos livros é um fator a ter em conta; no entanto, na coleção «Pallas Athenas», feminismo não foi um ponto decisivo, sendo que tínhamos estimativas. Tínhamos um dado mais importante, que para nós foi o suficiente. O interesse por esta área tão específica tem crescido na sociedade, ao mesmo tempo que crescem os estudos feministas e de género. Havia muitos livros essenciais nesta área que não estavam disponíveis em língua portuguesa. Por outro lado, tem havido muita produção nas nossas universidades e que não estava a ser publicada. Nesta equação muito simples, só havia um resultado, criar uma coleção bem delimitada que servisse de repositório e de base para os estudos feministas e de género.

 

 

 

Francesco Valentini nasceu em Gorizia, Itália, em 1966. Licenciou-se em Direito, área onde exerce até hoje a sua atividade profissional enquanto advogado de negócios internacionais e perito em direito fiscal e comercial internacional. Vive no Funchal, Madeira, com a família desde 1995. Em 1996 partilhou a vida profissional com o ensino em várias universidades. Foi docente dos mestrados em Direito Tributário, Direito da Economia e da Empresa em universidades públicas (Bolonha, Bari, Roma, Lisboa) e organizações privadas (Milão, Roma, Bolonha, Bari). No final de 2009, concretizou um sonho antigo ao fundar uma editora, a Nova Delphi, que tem sede no Funchal e uma filial em Roma. O desafio era, e continuará a ser, conjugar um setor empresarial tradicional com as novas tecnologias e, por outro lado, promover eventos culturais como o Festival Literário da Madeira, que se concretiza em parceria com a Booktailors. Em 2010, traduziu O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa, para a língua italiana, obra publicada em Itália pela Nova Delphi.

 

Esta entrevista continua quinta-feira, dia 13 de dezembro.

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Coleção «Protagonistas da Edição», 1.º volume Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses disponível para encomenda através do e-mail encomendas@booktailors.com, por 10,80 €, com portes de envio incluídos (válido para território nacional).


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Qui, 6/Dez/12
Qui, 6/Dez/12

 

António Reis é jornalista de profissão, mas isso não o impede de reconhecer a fraca presença dos livros nos meios de comunicação social. Adepto da prosa e, cada vez mais, das edições em formato digital, classifica a oferta de autores portugueses como «uma piscina», quando comparada ao «oceano» de autores estrangeiros. Contudo, diz que «o importante é ter onde nadar», e, quanto a isso, não há dúvida de que esse espaço existe.


Como faz as suas escolhas de leitura?

Na maior parte das vezes, os livros vêm ter comigo. Acontece muitas vezes, numa conversa entre amigos, e lá vem o livro tal de tal autor, como alguma coisa que tenho mesmo de experimentar. A coisa corre quase sempre bem, mas já tenho desperdiçado algumas balas…

 

Lê os suplementos de cultura dos jornais para se guiar no momento de comprar livros?

Sempre. Faço por ler todos os suplementos, mas não me guio pelo número de estrelas atribuído pelo crítico. Já tive gratas surpresas e monumentais desgraças, ao deixar-me levar pelos suplementos. Ultimamente prefiro as edições de formato digital. Além da crítica e da entrevista ao autor, permitem a leitura de um excerto do livro, apresentando as primeiras 20 ou 30 páginas.

 

Os meios de comunicação social falam pouco de livros?

Pouquíssimo. As televisões só vão aos best-sellers e aos prémios literários, e quando vão. Nos jornais diários, livro é ave rara, na rádio há uma ou outra entrevista, e agora a TSF faz e muito bem o Livro do Dia.

 

Prefere literatura portuguesa ou estrangeira? E que género prefere?

Prefiro as duas, embora leia muito mais autores estrangeiros. É normal. A oferta estrangeira é um oceano; a portuguesa, uma piscina. O importante é ter onde nadar, e felizmente vamos tendo. Quanto à segunda parte da pergunta, prosa, sempre. Conto, novela, romance, ficção, biografia, desde que seja texto corrido.

 

Na dúvida, a credibilidade da editora ajuda a tomar a decisão de comprar um determinado livro?

Houve tempos em que seguia os catálogos de uma ou outra editora como se tivesse o catecismo na mão. Graças a deus que me deixei disso e passei a concentrar-me exclusivamente nos escritores. Felizmente temos excelentes autores em todas as editoras.

 

Há alguma editora cujo catálogo acompanhe?

Não. Apenas espreito a oferta existente no fim de alguns livros.

 

Frequenta os festivais literários ou o contacto com o escritor não é importante para si?

Não. Às vezes tenho pena de não o fazer. Sobre o contacto com o escritor… É uma situação difícil. Já por duas ou três vezes tive a sensação de estar perante deus ou Maradona, o que pode ser horrível e maravilhoso, e que seguramente tem o seu quê de frustrante. Dizer o quê a deus e a Maradona? O risco de escolher palavras relativamente estúpidas é enorme e por isso prefiro ficar calado.

 

O aspeto gráfico do livro (capa, paginação, tipo de papel) é importante no momento da escolha?

Sim, não e talvez. A paginação, sim. Por exemplo, ando há um tempito a deixar o Correcções, do Jonathan Franzen, na prateleira, porque foi editado numa letra muito miudinha.

 

Os livros são caros?

Se o dinheiro fosse todo para o escritor e o escritor escrevesse só para mim, até que eram baratos. Assim, como as coisas são, são caros. E pior está o caso nas edições digitais, cujo preço considero um assalto. Sem custo de impressão, papel e distribuição, ficam quase ao mesmo preço da edição «normal». É um perfeito disparate.

 

Sente que é importante partilhar as suas leituras com amigos, bem como as conclusões que delas tira?

Fundamental. De que serve uma boa notícia (um bom livro), se não puder ser partilhada(o)?

 

Que livro está a ler neste momento?

Quase quase a terminar Rabos de Lagartixa, do Juan Marsé. E com Uma Viagem à Índia, do Gonçalo M. Tavares em lista de espera, pronto a ser atacado.

 

Qual o livro cuja leitura mais prazer lhe deu?

Há 20 anos, o 1984, do George Orwell. Mais recentemente o 2666, do Roberto Bolaño, o Jerusalém, do Gonçalo M. Tavares, As Travessuras da Menina Má, do Mário Vargas Llosa, e Ernestina e Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, do José Rentes de Carvalho.

 

Qual o escritor a que não consegue resistir?

Roberto Bolaño.



 

António Reis nasceu em 1974, em Vila Nova de Gaia. É maluco por futebol e por livros, não necessariamente por esta ordem. Jornalista desde 1995, passou por diversas publicações, como o Jornal de Gaia, Maré Viva, Motor, e pela rádio, na TSF. Está na SIC desde abril de 2002. Vive cheio de vontade de lançar na rede uma revista cultural com boas histórias, mais bem contadas.

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Ter, 4/Dez/12
Ter, 4/Dez/12

 

O Pato Lógico, mais do que uma editora de livros infantis, é, segundo André Letria, «uma necessidade lógica e inadiável», fruto da vontade de um ilustrador que quis fazer livros «à sua maneira». E, como tal, é perfeitamente lógico que desenvolva projetos como a Nave Especial, dedicados à criação de histórias para plataformas digitais, para perceber o que é, afinal, um livro digital. 

 

Lançar uma editora neste momento é um gesto de pato ou é perfeitamente lógico?

É perfeitamente lógico, quando se acorda imbuído de um espírito aventureiro e empreendedor. Mais lá para o meio da tarde estes impulsos tendem a esmorecer e começa a crescer o pato que há em nós. Normalmente, estas alturas coincidem com as conversas sobre contabilidade ou distribuição. Tirando isso, lançar uma editora foi uma necessidade lógica e inadiável de um ilustrador que quis começar a fazer os seus livros à sua maneira. Há coisas às quais não se consegue fugir.

 

Há mercado para livros de ilustração, com um cuidado gráfico apurado?

Há um mercado que se trabalha diariamente, cativando amigos e não clientes. É um mercado que faz chegar coisas, que não são só livros, às pessoas. Dá-lhes ideias, propostas para olhar o mundo de forma diferente, fazendo-as sentir que pertencem a um grupo que tem interesses semelhantes. 

 

O que é a Nave Especial?

A Nave Especial é digital, inovadora, criativa e portuguesa. Está a chegar e vem à procura de histórias. Quando as descobrir, vai escolher as melhores para as transformar em aplicações digitais ilustradas. Tem aos comandos duas empresas que se interessam pelas plataformas digitais — o Pato Lógico e a Biodroid — e que querem ver o que os criadores portugueses têm para oferecer nesta área.

Além de um concurso, é também uma conferência — ABC da Edição Digital, A 1.ª Conferência em Portugal sobre Edição Digital de Livros para Crianças —, que vai acontecer a 28 de janeiro, na Gulbenkian, e que pretende ser um espaço de discussão que envolverá alguns dos maiores especialistas nacionais e internacionais nesta área. Para a organização desta conferência contamos com a ajuda do Neal Hoskins, entre outras coisas, conselheiro da Feira de Bolonha para os assuntos digitais.

 

Ao contrário dos livros para um público mais adulto, os livros infantis têm muito a ganhar com as plataformas digitais?

Os livros infantis, ou pelo menos aqueles a que chamamos álbuns ilustrados, dependem muito da imagem para a sua eficácia narrativa. Aqueles que foram imaginados para o papel e que se transformam em objetos digitais, às vezes, ficam a perder, porque não foram pensados para funcionar dessa maneira. Não basta transformá-los em coisas que se leem com um ecrã pelo meio. É fácil cair na tentação de os transformar em jogos, ou animações. Acho que ainda estamos todos a tentar perceber o que deve ser um livro digital, se é que se pode chamar assim. Talvez até deixe de ser um livro. Espero que a Nave Especial (prémio e conferência) nos ajude a perceber mais coisas sobre assunto.

 

A pirataria não deveria inibir o investimento na edição digital?

Haverá sempre pirataria e a necessidade de a combater com originalidade.

 

O que é mais complicado: ilustrar ou gerir uma editora?

Ilustrar os livros da editora que se gere é ainda mais complicado. Mas, se não fosse assim, como seria? Já não me apetece pensar de outra maneira.

 

O André autor já se irritou com o André editor?

São os dois muito tolerantes.

 

A distribuição pode matar uma pequena editora?

Não, se não se depender dela. As editoras como o Pato Lógico, a que se chama independentes, ou simplesmente pequenas editoras, não podem depender de um sistema que já deu o que tinha a dar. Têm de funcionar noutros circuitos, mais próximos dos leitores, sem intermediários. Os nossos livros estarão sempre nas livrarias, mas tem de haver outras formas de os levar às pessoas. Vamos a escolas fazer ateliês sobre os livros e organizamos festas à volta dos livros. Também temos livros digitais que nunca passarão pelas livrarias e que obrigam a repensar a forma como os damos a conhecer.

 

O que é que significou para as editoras de livros infantis o investimento feito na Feira de Bolonha?

Não sei exatamente o que aconteceu com os nossos colegas de stand. No nosso caso foi muito proveitoso. Temos quatro contratos assinados para a venda dos direitos do Se Eu Fosse Um Livro. Um deles já está publicado em norueguês, e estamos prestes a receber o livro em coreano. Fomos convidados para falar do nosso projeto e pôr em prática as nossas oficinas pedagógicas num festival em Roma e estabelecemos contactos que hão de dar frutos brevemente.

 

Como é que um pai consegue avaliar a qualidade de um livro infantil com tanta oferta? Falta algum mecanismo de regulação ou deve haver liberdade absoluta de edição para infância?

Liberdade, sempre. Para regulação, devia bastar que um pai conheça o seu filho e tenha uma ideia daquilo que quer transmitir-lhe. A nós, interessa-nos fazer os livros como queremos, pelo gozo.

 

O Plano Nacional de Leitura veio ajudar a criar hábitos de leitura na infância?

Não sei. Veio facilitar a escolha de quem não se quer preocupar muito a escolher e, pelo que sei, traduz-se em apoio financeiro às escolas para a compra de livros. Já não é mau. Ainda bem que existe.

 

Teme uma subida do IVA no livro?

Temo, pois. 

 

A crise já obrigou a repensar o plano editorial do Pato Lógico?

O Pato Lógico sempre viveu em crise. Nasceu de um sonho de um ilustrador, o que já por si não augura um grande futuro comercial, e durante os seus dois anos de existência tem visto muita coisa a afundar-se à sua volta. Editamos muito poucos livros por ano, porque não temos muito dinheiro, mas também porque precisamos de tempo para os fazer. O nosso plano editorial está sempre pensado em dois níveis: o ideal, que conseguiríamos cumprir se fôssemos ricos e os dias tivessem 48 horas; e o pragmático, que usa uma parte do anterior, à medida das possibilidades. Assim estamos sempre contentes.

Apesar da incerteza, ou por causa dela, temos ganhado uma grande capacidade de adaptação, aproveitando oportunidades que nascem muitas vezes da associação a parceiros e da vontade de descoberta constante que nos move.

 

 

 

Nasceu em Lisboa em 1973. Frequentou o curso de Pintura da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Trabalha como ilustrador desde 1992, ilustrando regularmente livros para crianças e colaborando com diversas publicações periódicas. Recebeu diversos prémios, de entre os quais se destacam o Prémio Nacional de Ilustração, em 2000; o prémio Gulbenkian, em 2004; e um Award of Excellence for Illustration, atribuído pela Society for News Design (EUA). Está publicado em diversos países, como EUA, Inglaterra, Espanha ou Turquia. Participou em exposições na área da ilustração infantil, como a Bienal de Bratislava, em 1995 e 2005; Bolonha, em 2002; Sarmede, em 1999; ou Ilustrarte, em 2003, 2005 (Menção Especial) e 2009. Está incluído na secção «Children’s Books» da edição de 2009 do anuário de ilustração 3x3, tendo ganhado uma medalha de prata com uma das séries apresentadas. Trabalhou como cenógrafo para a Companhia Teatral do Chiado, de 2000 a 2005. Realizou a curta-metragem Zé Pimpão, o «Acelera», baseada no livro com o mesmo nome, de José Jorge Letria, com a qual ganhou o prémio Melhor Filme Português no Festival Animatu 2007. Realizou e escreveu a série de animação Foxy & Meg, baseada numa coleção de livros e personagens com o mesmo nome. Criou e coorganiza o Farol de Sonhos — Encontro sobre o Livro e o Imaginário Infantil.

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Qui, 29/Nov/12
Qui, 29/Nov/12

 

[Parte I]

 

Além dos eventos com autores de expressão alemã, o Goethe-Institut tem organizado algumas iniciativas no sentido de se aproximar mais das editoras portuguesas. O ciclo de conferências EDITA, realizado no âmbito da Feira do Livro de Lisboa deste ano, foi uma delas, mas, de acordo com Sven Mensing, diretor do Departamento Informação & Biblioteca do Goethe-Institut Portugal, a relação do Goethe-Institut com os profissionais da área editorial pretende ser ainda mais próxima, principalmente no que respeita às candidaturas aos apoios disponibilizados para a tradução de obras alemãs em Portugal.


Somos um país latino, mas temos muitos escritores bastante próximos da tradição germânica. A que se deverá esta ligação tão forte?

Temo não conseguir responder devidamente a esta questão. Por um lado, não conheço suficientemente bem a literatura portuguesa, por outro, não sou germanista nem especialista em literatura. Desta forma, não consigo definir se existe ou não uma tradição, e qual é essa tradição. Só posso aqui falar enquanto leitor e refletir sobre o que tenho notado nos últimos anos. Os autores que têm um background de emigração, ou seja, aqueles que nasceram no estrangeiro mas que vivem agora na Alemanha e que a consideram como pátria, fazendo uso da sua ferramenta mais poderosa — a língua —, contribuíram de forma significativa para a diversidade da literatura alemã contemporânea. O prémio Adalbert-von-Chamisso, um prémio literário atribuído especialmente a estes autores, é um reflexo desta nova influência. Além disso, existe toda uma nova geração de escritores que começa a ganhar destaque, escritores que estudaram no Deutsches Literaturinstitut, um instituto dedicado à formação de autores e que faz parte da Universidade de Leipzig. Existe, portanto, uma aposta numa formação específica para escritores na Alemanha, o que possibilita uma melhoria significativa da qualidade dos novos autores. Isto certamente seria um tema interessante para um debate. Para finalizar, mais um apontamento: nos últimos anos, reparei que a literatura serve cada vez mais como forma de observar criticamente a evolução social, desde o microcosmo da família até às questões políticas globais, como o clima e a globalização.

 

As editoras portuguesas tiram verdadeiro partido dos vossos apoios à tradução de autores de expressão germânica?

Nos últimos anos temos recebido regularmente cerca de 8 a 10 candidaturas por ano. O inquérito realizado no ano passado revelou que a maioria das editoras (pelo menos as maiores e mais prestigiadas) conhece o programa. No entanto, também temos de salientar dois aspetos: por um lado, apoiamos os editores durante o processo de candidatura e elaboramos um parecer sobre a mesma, mas a decisão final, seja a favor da atribuição ou não de um subsídio, e quais os valores do subsídio a atribuir, é de uma comissão especializada na Alemanha. Este facto deixa-nos numa posição um pouco difícil, pois por vezes as candidaturas que avaliamos positivamente podem ser recusadas na reunião final em Munique, sem qualquer razão aparente para nós. Por outro lado, tentamos também tornar claro que este programa de apoio à tradução não existe para criar as condições necessárias para uma publicação. Esta é uma decisão que deve ser tomada pelos editores, com todas as vantagens e desvantagens inerentes. O nosso apoio à tradução deve ser considerado um incentivo à publicação, razão pela qual nunca é atribuído o valor total dos custos da tradução, mas sim apenas uma parte (entre 25% e 75%). Sabemos que muitos editores contam com este apoio para a edição de um livro, mas infelizmente é algo que nunca podemos garantir.

 

Além de acompanharmos o processo de candidatura, a biblioteca tem também tentado colaborar mais com as editoras portuguesas na escolha e seleção das obras. Sabemos que poucas editoras portuguesas têm pessoal com conhecimentos de língua alemã que permitam escolher as obras a publicar baseando-se no exemplar alemão, e sabemos também que a maioria das agências literárias que trabalham com editoras alemãs e que lidam com a Península Ibérica tem sede em Madrid. Por vezes ficamos com a sensação de que Portugal fica um pouco esquecido nesta área. Desta forma, estamos dispostos, caso haja interesse, a enviar às editoras periodicamente uma pequena lista com recomendações das obras mais bem cotadas do mercado editorial alemão. Esta lista poderia incluir também outras informações úteis, como informações sobre feiras de livros, prémios literários, etc. Na sondagem que realizámos o ano passado, esta nossa oferta não teve qualquer reação, por isso fazemos desde já um apelo às editoras para que nos digam quais as informações que consideram mais relevantes. Estamos abertos a sugestões.

 

O Goethe também dá apoio à edição de autores portugueses na Alemanha?

Não. O objetivo do Goethe-Institut é ensinar a língua alemã no estrangeiro e promover a colaboração cultural. Este objetivo proíbe-nos de dar um apoio financeiro direto aos escritores estrangeiros, na forma de um apoio à tradução ou à publicação. Além disso, este apoio iria acabar por patrocinar as editoras e não os autores, o que não seria possível explicar aos contribuintes alemães, dos quais o Goethe-Institut recebe a maior parte dos seus recursos financeiros. No entanto, podemos convidar autores, editores e tradutores para visitarem a Alemanha, através do nosso programa de visitas, de forma que estes possam familiarizar-se com a cultura alemã e estabelecer contactos para projetos futuros. Também há a possibilidade de o Instituto participar em projetos culturais com instituições alemãs, de forma a apoiar o intercâmbio entre artistas e colaboradores na área de cultura. Neste tipo de cooperações, o Goethe-Institut faz o papel de intermediário. E por último, mas não menos importante, o Goethe-Institut procura também sempre apresentar o trabalho que faz no estrangeiro na Alemanha. Portanto, há algumas formas de incentivar o reconhecimento de autores ainda desconhecidos na Alemanha, só não podemos é ajudar com apoio financeiro direto nestes casos.

 

Organizaram na Feira do Livro de Lisboa um série de debates sobre edição com especialistas franceses e alemães. Considera que os editores portugueses aproveitaram essa oportunidade?

Como já referi, este ciclo de eventos EDITA tinha como objetivo aproximar-nos da associação de editores e livreiros, das editoras e dos tradutores, parceiros que consideramos de extrema importância. Embora este ciclo de conferência estivesse mais virado para os profissionais, penso que enriqueceu o programa de eventos da Feira do Livro de Lisboa, que é, em primeiro lugar, uma feira comercial. A escolha de temas foi acordada com a APEL. Entre as palestras submetidas aos profissionais da área editorial, os temas da edição eletrónica e de e-books tiveram destaque, porque já são parte integrante do negócio em França e na Alemanha, enquanto em Portugal está tudo ainda em fase de desenvolvimento. Por isso, o mais importante seria realmente ver quais as experiências que foram feitas em outros países, aprender com os erros e tirar ilações (por exemplo: Amazon). Embora tivéssemos ficado satisfeitos com o número de visitantes, gostaríamos de ter tido um pouco mais de público especialista na área. Provavelmente avaliámos mal a disponibilidade dos editores durante a Feira do Livro. Sabemos que o mercado editorial português está mais ou menos concentrado em Lisboa e no Porto, e que muito dificilmente teremos participantes do Norte em formações em Lisboa, e o contrário no Porto. A nossa ideia então foi aproveitar a Feira do Livro, devido ao facto de durante esse tempo as editoras estarem presentes em Lisboa. Infelizmente esta estratégia não funcionou tão bem quanto pensávamos. No futuro, o Goethe-Institut irá continuar a organizar eventos deste tipo para um público mais especializado em trabalho editorial, mas não durante a Feira do Livro, e provavelmente alternando entre Lisboa e Porto. Mas mais uma vez gostaria de lançar um apelo às editoras para que nos digam quais os temas que gostariam de ver abordados em novos ciclos.

 

Se pudesse convencer um editor português a publicar um livro ou um autor alemão, qual seria?

O escritor que estava em primeiro lugar na minha lista até à semana passada irá felizmente ser publicado em Portugal em 2013. Dado que ainda estão a decorrer as negociações entre a editora portuguesa e a editora alemã, não posso revelar qual o autor, mas ficarei muito contente quando for finalmente apresentado ao público português. Outras obras e autores que gostaria que tivessem uma edição portuguesa seriam: Corpus Delicti, de Juli Zeh (até agora só foi publicado o livro Águias e Anjos desta autora); Bestattung eines Hundes (Funeral de Um cão), de Thomas Pletzinger; Das war ich nicht (Não Fui Eu), de Kristof Magnusson; a trilogia Senhor Lehmann, de Sven Regener; Am Beispiel eines Lebens (Usando o Exemplo de Uma Vida), de Uwe Timm… Ah, é melhor parar já; caso contrário, a lista poderia continuar infinitamente. Há tantos livros bons que merecem ser traduzidos…

 

 

 

Nasceu em 1977 em Lauchhammer (antiga RDA). Estudou Biblioteconomia na Universidade de Ciências Aplicadas de Potsdam entre 1997 e 2001. É licenciado em Biblioteconomia, com um trabalho na área de Gestão da Qualidade no Centro de Informação do Research & Development da Volkswagen em Wolfsburg. Em 2002 trabalhou na Biblioteca do Max Planck Institute for Human Development em Berlim. De 2003 até 2006 foi bibliotecário no Goethe-Institut em Lisboa, sendo também responsável pela rede informática e pela página da Internet. Desde 2007 é diretor do Departamento Informação & Biblioteca do Goethe-Institut Portugal.

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Ter, 27/Nov/12
Ter, 27/Nov/12

 

Há cerca de dois meses, o Goethe-Institut organizou dois eventos com autores de expressão alemã que esgotaram os lugares do seu auditório: uma sessão com a escritora laureada com o prémio Nobel de Literatura em 2009, Herta Müller, em setembro, e, em outubro, o lançamento de O Colecionador de Mundos, de Ilija Trojanow. Segundo Sven Mensing, diretor do Departamento Informação & Biblioteca do Goethe-Institut Portugal, a criação de eventos literários que sejam um sucesso a longo prazo é um dos objetivos da instituição, até porque, diz, em Portugal «a cultura alemã em geral, os artistas e as infraestruturas são bem recebidos».


O Goethe-Institut faz uma aposta grande na divulgação da literatura alemã. Como estruturam e desenvolvem essa divulgação?

O Goethe-Institut é um instituto cultural onde não existe uma hierarquia entre as expressões artísticas. Tentamos sempre trabalhar com uma ampla diversidade de temas: da arquitetura às artes visuais, do cinema à música e mesmo à videoarte, apenas para citar alguns. Ao mesmo tempo, organizamos também algumas conferências sobre questões atuais da sociedade. A literatura é um tema entre outros, mas não é nem mais nem menos importante do que os restantes.

 

O nosso planeamento de projetos funciona, de certa forma, como um concurso de ideias: as boas ideias prevalecem, independentemente da área a que pertencem. Mas uma boa ideia por si só não garante o sucesso. É sempre mais vantajoso ter um bom parceiro local para um projeto, tanto em termos de logística como ao nível da organização e do desenvolvimento de conteúdos. Para nós, é também importante que as coisas que fazemos tenham uma certa sustentabilidade. Quem já organizou projetos com outras instituições sabe que pode demorar algum tempo até encontrar um objetivo comum, mas, quando este é alcançado, tudo se torna mais simples e os projetos podem crescer. A curto prazo e com dinheiro suficiente, é possível fazer tudo com qualquer parceiro. Mas normalmente esses eventos pontuais caem no esquecimento, e da próxima vez que queremos fazer um novo projeto é necessário começar novamente do zero. Os nossos festivais de cinema (KINO) e os concertos de jazz no Jardim do Goethe-Institut (JiGG), pelo contrário, são exemplos do sucesso de uma estratégia e de uma cooperação a longo prazo. Na área da literatura também queremos chegar a esse nível. Até agora, temos feito projetos muito esporádicos e por conta própria, mas o nosso próximo objetivo é conseguir encontrar mais parceiros para projetos, oferecendo, por exemplo, em troca, a possibilidade de convidar autores alemães para estarem presentes nos lançamentos de livros, ou disponibilizando as nossas instalações para eventos com parceiros da área literária, onde o tema não é a Alemanha ou a literatura alemã. Um projeto que desenvolvemos, numa tentativa de chegar mais facilmente às instituições do mundo do livro, foi o ciclo de eventos EDITA, que teve lugar na Feira do Livro de Lisboa em 2012. A médio prazo, esperamos deste esforço a possibilidade de realizar um projeto maior no campo literário, o qual, se tudo correr bem, terá pernas para andar a longo prazo.

 

A animosidade dos Portugueses para com a Alemanha ainda não chegou à literatura?

Penso que a maioria dos portugueses consegue separar claramente o que é a política e a economia do que é a cultura (e a literatura). A cultura alemã em geral, os artistas e as infraestruturas são bem recebidos em Portugal. Tivemos, por exemplo, um evento em setembro com a escritora Herta Müller, e um em outubro com o escritor Ilija Trojanow, que encheram o nosso auditório. Penso também que a cooperação leal do Goethe-Institut com instituições culturais de todos os tipos e dimensões, bem como a colaboração com os principais atores da cena cultural em Portugal, que vem sendo construída ao longo de cinco décadas, são reconhecidas. A nossa prioridade é o diálogo. Queremos, como é óbvio, mostrar o que de melhor se faz na Alemanha, mas também não temos receio de refletir criticamente. A nossa tarefa é fornecer uma plataforma onde as pessoas da área das artes, da cultura e da educação possam trocar experiências sobre temas sugeridos por nós ou por outros (por parceiros de Portugal e da Alemanha), e onde se possam estabelecer contactos. Promovemos essas redes e apoiamos estas relações para que estes laços sejam não apenas duradouros mas também resistentes, especialmente quando as circunstâncias externas não são as mais favoráveis.

 

Sabemos que a biblioteca do Goethe, em Lisboa, tem uma boa rotação de livros, quer na requisição, quer na disponibilização de novidades. O que procuram os vossos leitores e como conseguem surpreendê-los?

Muitos dos nossos leitores são alunos do Instituto, que procuram principalmente material para a aprendizagem da língua alemã. Nesta área, os editores DaF (alemão como língua estrangeira) têm conseguido alcançar uma qualidade notável nos últimos anos, o que se reflete na oferta da nossa biblioteca. Os livros de «leituras fáceis», que servem de apoio à aprendizagem da língua, são os materiais mais bem recebidos na biblioteca. São pequenos livros, escritos com o recurso a uma linguagem mais simples, e que têm temas tão diversos como as histórias da vida quotidiana, os romances policiais e os clássicos da literatura. Estes livros incluem geralmente muitas ilustrações para facilitar a leitura, exercícios de compreensão de texto e CD áudio que permitem ouvir o texto, facilitando a aprendizagem da língua de uma forma prática e divertida.

 

Muitas pessoas que visitam a nossa biblioteca pela primeira vez estranham o facto de o nosso acervo incluir também livros em português. Isto acontece principalmente nas áreas da Literatura e da Filosofia, onde temos muitas traduções portuguesas de obras alemãs. Noutras áreas, como na História, possuímos também alguns livros em inglês, para que aqueles leitores que não dominam a língua alemã possam ter acesso à história alemã. Na área da Literatura, os clássicos são os autores mais procurados pelos leitores portugueses, entre os quais Goethe, Joseph von Eichendorff, Franz Kafka, Herman Hesse, Thomas Mann, Rainer Maria Rilke, ou até mesmo Bertolt Brecht, Hans Magnus Enzensberger e Günter Grass. Nos últimos anos temos tentado modernizar a nossa secção de literatura, dando alguma ênfase à literatura alemã contemporânea, especialmente aos autores que surgiram após a reunificação alemã e que são pouco conhecidos em Portugal. Na hora de escolher os livros a comprar para a biblioteca, baseamo-nos nas inúmeras recensões literárias, que têm uma tradição sólida na imprensa alemã, e também nas listas de recomendações da nossa sede em Munique, criadas por especialistas da área da literatura para todas as bibliotecas da rede do Goethe-Institut no mundo. E, é claro, também aceitamos as dicas e sugestões dos nossos leitores, algo que infelizmente ainda não tem grande expressão.

 

Além de livros, o acervo da nossa biblioteca inclui também revistas, CD de música, filmes e documentários em DVD e audiolivros, que são requisitados com muita frequência (por vezes mais do que os livros). Para muitos leitores da biblioteca, a sua «carreira de utilizador» começou com o empréstimo de DVD, até que, mais tarde, descobriram que a biblioteca tem muito mais para oferecer.

 

Há cada vez mais portugueses a querer aprender alemão?

Sim, o número de alunos tem aumentado em ambos os institutos em Portugal (Lisboa e Porto), especialmente nos últimos dois anos. Além do aumento do número de alunos, temos também notado um crescente interesse pela aprendizagem da língua alemã, o que reflete a triste tendência de abandono do país de jovens licenciados e de pessoas qualificadas, que procuram na Europa um emprego. A estes, juntam-se todos aqueles que esperam, através da aprendizagem da língua alemã, garantir o seu emprego ou conseguir um emprego melhor em Portugal. Pessoas que aprendem alemão no nosso instituto apenas por interesse cultural ou por curiosidade são, no entanto, poucas. É de destacar também o facto de alguns alunos terem uma ideia errada de quanto tempo demora para aprender a língua alemã, ou de quão difícil é dominar esta língua, de forma a ter uma oportunidade realista no mercado de trabalho alemão. Todos os semestres temos muitos alunos nos níveis iniciais, mas poucos passam a barreira inicial e prosseguem para os níveis intermédio ou avançado. Um dos nossos objetivos é trabalhar mais para conseguir garantir a nossa sustentabilidade, incentivando a progressão nos cursos.

 

 

  

Nasceu em 1977 em Lauchhammer (antiga RDA). Estudou Biblioteconomia na Universidade de Ciências Aplicadas de Potsdam entre 1997 e 2001. É licenciado em Biblioteconomia, com um trabalho na área de Gestão da Qualidade no Centro de Informação do Research & Development da Volkswagen em Wolfsburg. Em 2002 trabalhou na Biblioteca do Max Planck Institute for Human Development em Berlim. De 2003 até 2006 foi bibliotecário no Goethe-Institut em Lisboa, sendo também responsável pela rede informática e pela página da Internet. Desde 2007 é diretor do Departamento Informação & Biblioteca do Goethe-Institut Portugal.

 

* Esta entrevista continua quinta-feira, dia 29 de novembro.

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Qui, 22/Nov/12
Qui, 22/Nov/12

 

A partilha é uma componente essencial da leitura para Osvaldo Coutinho, daí que se tenha tornado um dos fundadores do Clube dos Leitores Vivos, um grupo fechado criado no Facebook, que reúne leitores em torno dos livros. Sem preferências de nacionalidade no que respeita à literatura, Osvaldo Coutinho prefere os autores, independentemente das suas origens.

 

Como faz as suas escolhas de leitura?

Normalmente, as minhas escolhas recaem nos autores, ou porque me despertam interesse ou simplesmente porque me são referenciados, quer por amigos quer pela comunicação social.

 

Lê os suplementos de cultura dos jornais para se guiar no momento de comprar livros?

Não necessariamente, mas sim, também.

 

Os meios de comunicação social falam pouco de livros?

Na minha opinião, assustadoramente pouco.

 

Em que tipo de superfícies compra os seus livros (cadeias de livrarias, hipermercados, livrarias independentes) e porquê?

Tenho o hábito de comprar os meus livros nas livrarias Almedina, não sei bem porquê, acho que simplesmente (e normalmente) têm espaços que me agradam.

 

Prefere literatura portuguesa ou estrangeira? E que género prefere?

Não tenho preferência pela literatura portuguesa ou estrangeira, gosto de autores simplesmente, mas sempre que posso tento valorizar escritores portugueses. Atualmente prefiro o género «romance» (leio, no entanto,  outros géneros), embora não seja qualquer tipo de «romance» que me agrada.

 

Na dúvida, a credibilidade da editora ajuda a tomar a decisão de comprar um determinado livro?

Não, de todo.

 

Há alguma editora cujo catálogo acompanhe?

Não necessariamente.

 

Frequenta os festivais literários, ou o contacto com o escritor não é importante para si?

Sim, frequento sempre que possível. Conheço pessoalmente alguns dos meus autores preferidos, que, aliás, não são assim tantos.

 

O aspeto gráfico do livro (capa, paginação, tipo de papel) é importante no momento da escolha?

Apenas porventura num momento de indecisão, não de escolha direta. Valorizo muito o tipo de papel, a sua textura e o seu cheiro. A paginação é-me quase indiferente, mas a capa, por vezes e só por si, é quase um chamariz quando bem desenhada e quando é dotada de uma boa composição gráfica.

 

Os livros são caros?

Não, de todo. Considero até que são vendidos abaixo do valor efetivamente justo.

 

Sente que é importante partilhar as suas leituras com amigos, bem como as conclusões que delas tira?

Para mim, sim, essencial. Faz parte…

 

Que livro está a ler neste momento?

Leio O Processo, de Kafka.

 

Qual o livro cuja leitura mais prazer lhe deu?

Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares.

 

Qual o escritor a que não consegue resistir?

Gonçalo M. Tavares.

 

 

 

Osvaldo Coutinho, nascido no Porto, tem 32 anos. É engenheiro civil/empresário de profissão e fotógrafo por paixão. Vive para viajar e viaja para fotografar. É o fundador do Clube dos Leitores Vivos.

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Ter, 20/Nov/12
Ter, 20/Nov/12

 

O Planeta Tangerina trouxe para o mercado livros infantis que desde o início se destacaram por uma componente visual muito forte. E essa é uma aposta que, embora tenha surgido sem um plano definido, como afirma Isabel Minhós Martins, tem dado bons frutos. Principalmente no que respeita ao investimento feito pela chancela na Feira do Livro Infantil de Bolonha, que tem tido um bom retorno, garante a autora.

 

Qual é a maior dificuldade no momento de lançar uma editora de livros infantis?

Penso que o problema não é tanto lançar uma editora, mas sim manter uma editora a funcionar, cumprindo, de forma justa, as suas obrigações com todos os envolvidos, autores, fornecedores, leitores. Digo isto porque é relativamente fácil publicar livros infantis de qualidade mediana a preços baixos (basta procurar livros editados em mercados internacionais e imprimi-los nos países asiáticos a custo baixo). E é também relativamente fácil pegar em autores e ilustradores novos (cheios de entusiasmo mas alguma inexperiência) e publicar os seus trabalhos com base em condições pouco dignas, mesmo para quem está a começar. A parte da distribuição é seguramente a mais difícil, mas resolve-se também. O mais difícil, sobretudo em tempos de crise, é criar livros novos e fazê-los competir com esse mercado de livros de baixo custo (muitas vezes um baixo custo que é conseguido sacrificando uma série de questões que me são caras). Podemos pensar: «Ah, são livros diferentes, chegam a públicos diferentes, nem chegam a competir uns com os outros.» Será? Talvez sejam estas pequenas mudanças que distinguem este tempo de crise do tempo sem crise. Em muitos casos, deixamos de poder fazer escolhas.

 

A distribuição pode matar uma pequena editora?

Uma pequena e uma grande. A História já o demonstrou não apenas uma vez…

 

O que significou para as editoras de livros infantis o investimento feito na Feira de Bolonha?

Para o Planeta Tangerina tem sido um investimento com bom retorno. Mas é, sem dúvida, um investimento grande para uma pequena editora, feito sem subsídios ou apoios. Tudo nos sai do pelo (agora sem acento circunflexo)…

 

O livro infantil parece estar na moda, e toda a gente quer escrever um. É mesmo assim?

Acho que sim, é mesmo assim. Mas o fenómeno já não é de agora... Que não faltem (e não deixem de editar) todos os outros: os que não ligam a modas e fazem o seu trabalho levando a coisa mesmo a sério.

 

Como consegue um pai avaliar a qualidade de um livro infantil com tanta oferta? Falta algum mecanismo de regulação ou deve haver liberdade absoluta de edição para a infância?

Liberdade absoluta, claro. Cada um escreve e publica o que quer. Era o que faltava que houvesse reguladores a montante. Mas uma das funções de um editor é precisamente ser regulador: triar, escolher, separar o trigo do joio. A jusante, é importante que se dê espaço a quem sabe distinguir o que merece ser distinguido e sobretudo chamar a atenção para os livros de qualidade que podem passar despercebidos entre toda essa grande oferta. Dêmos espaço à crítica de livros infantis nos media (televisão, rádio, jornais e revistas), dêmos trabalho aos mediadores da leitura, dmos boa formação aos bibliotecários, professores e livreiros. Se tudo isto funcionar, os pais aprenderão aos poucos a fazer a sua avaliação (e, num mundo a funcionar, os livros mais «ranhosos» deixariam de vender... Oh, ilusão!).

 

O Plano Nacional de Leitura veio ajudar a criar hábitos de leitura na infância?

Isso é muito difícil de avaliar, e acho que nem com um estudo encomendado se saberia com rigor. Uma parte da vontade/gosto pela leitura já vem connosco, acho eu (e não tenho certezas nenhumas). Acho também que a fome pelos livros é o melhor Plano Nacional de Leitura. Como diz Adélia Prado, «não quero faca nem queijo, quero a fome». Mas como é que se dá essa fome? É complicado. Vivemos numa época de extremos: em muitos aspetos há um excesso que rodeia as crianças (e que nada tem a ver com pobreza nem riqueza): excesso de programas, projetos e iniciativas, excesso de televisão, excesso de tralha até na mochila da escola, excesso de solicitações e ruído. Para a leitura dar prazer, tem de haver imersão total. Para haver imersão total, tem de haver silêncio. Para haver silêncio, tem de se desligar a tralha toda lá de casa… E é tão difícil hoje em dia. Eu defendo que se crie uma tarde por semana na escola em que cada um vá para a biblioteca e leia o que lhe apeteça: revistas, jornais, livros de banda-desenhada, romances, livros sobre futebol ou dinossauros ou poesia. E no final ninguém é obrigado a preencher uma ficha de leitura. (Mas acho que iniciativas como o Plano Nacional de Leitura são excelentes, claro. Muitas pessoas que estavam fora do universo dos livros passaram a estar mais atentas.)

 

Optar por fazer livros com uma estética tão forte não foi um risco muito grande?

Foi uma coisa que aconteceu sem existir um plano. Acho que não é algo que eu insira no plano das escolhas, mas noutra categoria, mais autoral, talvez… Que não se escolhe mas que sai assim.

 

Já alguma vez lhe apeteceu deixar de falar com um jornalista/crítico na sequência de uma crítica literária?

Credo, não.

 

Teme uma subida do IVA no livro?

Só quem não faz contas pode não temer…

 

A crise já obrigou a repensar o plano editorial do Planeta Tangerina?

Sempre editámos poucos livros por ano. Sete, no máximo oito. Por isso não tivemos de cortar gorduras nem fazer ajustamentos ou refundações (diz-me o meu corretor ortográfico que esta palavra não existe. Estranho, ia jurar que…). Mas nunca damos nada por adquirido e sentimos sempre um grande alívio quando os leitores gostam e compram os nossos livros. Vamos ver se pode continuar a ser assim.

 

 

 

Nasceu em Lisboa em 1974. É formada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes (1997). Fundou, juntamente com três amigos, a editora Planeta Tangerina, especializada em álbuns ilustrados. Ganhou uma Menção Honrosa no I Prémio Internacional Compostela de Álbuns Ilustrados. Em 2010, foi nomeada para os Prémios de Autor da SPA/RTP na categoria Literatura Infanto-Juvenil com O Livro dos Quintais (ilustrações de Bernardo Carvalho). Tem livros selecionados para a lista White Ravens, Banco del Libro ou CJ Picture Book Festival. Tem livros publicados em Espanha, França, Inglaterra, Itália, Brasil, Alemanha, Noruega, Coreia.

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Qui, 15/Nov/12
Qui, 15/Nov/12

 

Falar em Adélia Carvalho é falar do Papa-Livros, um espaço literário infantojuvenil no Porto. Mas, além de livreira, Adélia Carvalho é ainda autora e editora da Tcharan, embora nenhuma destas vertentes entre em conflito, porque a visão que possuem sobre literatura e sobre o que é bom ou não é a mesma. Em entrevista ao Blogtailors, a autora e editora fala da importância da Feira de Bolonha deste ano e das dificuldades inerentes a uma chancela de livros infantis. 


Qual é a maior dificuldade no momento de lançar uma editora de livros infantis?

A maior dificuldade é ter uma distribuição eficaz, que seja capaz de responder a todas as propostas e que consiga fazer uma boa triagem dos melhores espaços para comercializar os livros.

 

O que é mais complicado: gerir uma livraria ou uma editora?                      

Uma livraria, pois lido com várias editoras e distribuidoras em simultâneo, e isso nem sempre é fácil de gerir.

 

A Adélia autora já se irritou com a Adélia editora?

Não, o olhar que temos sobre o que é literatura e o que pensamos dela é o mesmo, por isso acabamos sempre por nos entender nos momentos de maior decisão, que são os que poderiam dar azo a zangas, os outros momentos passam muito depressa e nem sempre a Autora e a Editora estão presentes ao mesmo tempo.

 

A distribuição pode matar uma pequena editora?

Sim, sem dúvida, principalmente se a distribuidora for à falência, por inerência a editora também vai. E depois, ao nível de divulgação, uma distribuidora dá sempre mais destaque aos livros das grandes editoras.

 

O que significou para as editoras de livros infantis o investimento feito na Feira de Bolonha?

Significou mais visibilidade quer ao nível nacional, quer internacional, e simultaneamente reconhecimento do bom trabalho editorial que está a ser desenvolvido em Portugal. Isso foi-nos dito várias vezes por editores de outros países.

 

Como é que um pai consegue avaliar a qualidade de um livro infantil com tanta oferta? Falta algum mecanismo de regulação ou deve haver liberdade absoluta de edição para infância?

Pois, esta pergunta não é nada fácil. Não se pode de repente ostracizar este ou aquele autor; no entanto, sabemos que nem tudo aquilo que é publicado tem qualidade. O que eu aconselho geralmente aos pais é que estejam atentos a tudo o que vai saindo, que estejam sempre atualizados, e depois há nomes que se vão impondo pelo critério de qualidade, e raramente isto falha. Podemos gostar mais ou menos de determinados livros consoante os nossos interesses, mas, quando os autores são bons, este critério é infalível.

 

O Plano Nacional de Leitura veio ajudar a criar hábitos de leitura na infância?

Sim, acho que foi o projeto mais eficaz até hoje para a estimulação e criação de hábitos de leitura. No entanto, sinto que neste momento para muitos pais este é o único critério, e os livros não podem ser rotulados de bons ou maus apenas por terem ou não o símbolo do Ler +.

 

Optar por fazer livros com uma estética tão forte não foi um risco muito grande?

Fazer livros é sempre um risco. No entanto, penso que qualquer produto para se impor no mercado tem de ter esteticamente uma imagem muito forte, uma imagem que transmita qualidade e identidade, e é isso que temos sempre presente nas nossas edições, quer na escolha dos escritores quer na escolha de ilustradores.

 

Já alguma vez lhe apeteceu deixar de falar com um jornalista/crítico na sequência de uma crítica literária?

Já, e já o fiz. Penso que fazer crítica literária é de uma enorme responsabilidade, quando alguém diz que um livro não é bom, ou é fraco, ou está muito aquém… Devem-no justificar, e não simplesmente ficar por aí, como se essa fosse a vontade do crítico, e depois não sabe desenvolver a sua crítica, isso é tudo menos crítica literária. A crítica literária vive de conteúdo e não de vontades, ou interesses de determinados críticos.

 

Teme uma subida do IVA no livro?

Temo uma subida do IVA em tudo, mas muito particularmente nos livros, pois as crianças já têm tantas desculpas para não ler, e tantas distrações, que se aumentarem o preço dos livros vamos estar a retroceder nos bons hábitos implementados até aqui. Se isso acontecer, não haverá Plano Nacional de Leitura que nos valha.

 

A crise já obrigou a repensar o plano editorial da Tcharan?

Sim, com a crise já reduzimos o número de exemplares editados e a quantidade de livros editados. Assim temos de esperar o retorno de uns para publicar outros.

 

 

 

Nasceu em Penafiel. É licenciada em Educação de Infância, pela Escola Superior de Educação do Porto. Tem lecionado em diversas escolas, onde promoveu sempre encontros com escritores e ilustradores. Em novembro de 2008, abriu um espaço literário infantil e juvenil na cidade do Porto, o Papa-Livros, concebido por Gémeo Luís. É editora da Tcharan, dedicada à edição de livros infantis. É autora de diversos livros, nomeadamente: O Livro dos Medos (Trampolim Edições, 2009); Matilde Rosa Araújo: Um Olhar de Menina (Trinta por Uma Linha, 2010); A Crocodila Mandona (Tcharan, 2010).

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Ter, 13/Nov/12
Ter, 13/Nov/12

 

É um leitor assíduo, e foi por acaso que deu início ao Fragmagens, blogue onde regista as leituras que vai realizando. Apesar de buscar as suas sugestões de leitura em suplementos literários, Bruno Carriço considera que o espaço dedicado aos livros na imprensa é reduzido e lamenta, acima de tudo, que o programa Ah, a Literatura! exista num espaço restrito de um canal de cabo. 

 

Sente que é importante partilhar as suas leituras com amigos, bem como as conclusões que delas tira?

Primeiro, comecei por sentir que precisava de as registar para uso próprio, como uma base de dados para consultas futuras, mas a verdade é que ir tendo feedback de amigos que orientaram as suas leituras pela minha opinião e que gostaram acabou por fazer valer muito mais a pena este «trabalho». Se este aspeto não pesasse, tirava apontamentos num bloco de notas.

 

Como faz as suas escolhas de leitura?

Não há uma fórmula rígida. Tanto pego num livro porque é de um autor que me dá algumas certezas, como pego num livro só porque acho o título brilhante e a sinopse lhe rouba o interesse. Depois há os sempre úteis suplementos de cultura dos jornais, como o Ípsilon, e gente que me habituou a sugestões de leitura que mais tarde se revelam acertadas, seja o caso de um crítico como o José Mário Silva, no seu Bibliotecário de Babel, ou de um amigo. Com uma percentagem elevada de acerto, surgem também as referências literárias em livros que estou a ler. Julgo ter chegado a Gombrowicz através de Vila-Matas (são inúmeras as referências literárias nos seus livros) e a Onetti através de Cortázar. É seguro: gente reconhecidamente competente nas letras não embandeira em arco com pouco. Outro fator que pesa na hora de escolha de um livro é a consistência do catálogo de uma editora.

 

Lê os suplementos de cultura dos jornais para se guiar no momento de comprar livros?

Como já referi anteriormente, sim. Não são o meu guia exclusivo, mas já encontrei boas leituras através deles — o contrário também é capaz de ter acontecido, a minha memória é que tende a esquecer esses casos.

 

Os meios de comunicação social falam pouco de livros?

Sim, sem dúvida. Na imprensa, com os suplementos e as publicações da especialidade, a falha ainda se consegue disfarçar, mas na televisão e na rádio, por exemplo, o espaço para os livros é reduzido. Assim de repente, consigo lembrar-me de O Livro do Dia, na TSF, e do Câmara Clara, da 2. Sem esquecer o Ah, a Literatura!, num registo muito descontraído mas interessante. Pena apenas ter espaço num canal tão restrito como o Canal Q, merecia outro tempo e outro público.

 

Em que tipo de superfícies compra os seus livros (cadeias de livrarias, hipermercados, livrarias independentes) e porquê?

O comodismo tem-me levado quase exclusivamente às cadeias de livrarias. A escassez de tempo impede o passeio pelas livrarias independentes, como gostava de fazer. O facto de ter um centro comercial à porta de casa joga muito a favor das cadeias de livrarias. As livrarias independentes terão sempre o seu lugar, se souberem acompanhar a evolução do mercado. Ainda esta semana entrei em contacto com a Pó dos Livros, através do blogue, para ver se me conseguem encontrar um livro que não encontro nas grandes cadeias. Ultimamente, por questões económicas, também tenho feito algumas trocas interessantes em plataformas como a Winkingbooks.

 

Prefere literatura portuguesa ou estrangeira? E que género prefere?

Não diria que é uma preferência, porque muitas vezes nem é uma escolha consciente, mas a verdade é que tendo muito para a literatura estrangeira. Em Portugal, há uma meia dúzia de nomes que sigo atentamente, mas falho redondamente nos clássicos, aspeto que tenciono, com tempo, corrigir. A oferta e a promoção também são desiguais, quer-me parecer.

 

Na dúvida, a credibilidade da editora ajuda a tomar a decisão de comprar um determinado livro?

Muito, mesmo. Há editoras a quem comprava um nome nunca antes por mim ouvido com toda a ligeireza. Se um grupo editorial já me proporcionou muitas e boas leituras, é natural que essa editora tenha a minha confiança na altura da escolha.

 

Há alguma editora cujo catálogo acompanhe?

Sim, a Cavalo de Ferro tem-me deslumbrado com os autores que publica (Laxness, Cortázar, Rulfo...) e com o cuidado das suas edições. A mancha de texto nunca é excessiva, as gralhas são sempre mínimas ou inexistentes, e as referências e notas de autor/tradutor são suficientes e não cansam. Também me agradam bastante a Dom Quixote e a Quetzal.

 

Frequenta os festivais literários, ou o contacto com o escritor não é importante para si?

Muito raramente, de novo por falta de tempo. Consigo dar uma volta por eventos como a Feira do Livro e passar por uma ou outra apresentação, mas fico sempre pelas intenções quando pretendo ir a festivais como o Literatura em Viagem e semelhantes.

 

O aspeto gráfico do livro (capa, paginação, tipo de papel) é importante no momento da escolha?

Também. Não será o aspeto que mais valorizo, mas, entre dois livros que se equivalham nos itens que referi anteriormente, o aspeto gráfico contará certamente.

 

Os livros são caros?

O problema é que hoje tudo parece caro. Tenho de ser justo e considerar que, somadas as horas gastas pelo autor, todo o trabalho de revisão, por vezes tradução, e o material envolvido, não se podem praticar preços muito abaixo dos 15 euros, que deve ser o preço médio dos livros. O que acontece é que, não se podendo cortar em bens essenciais, esses mesmos 15 euros por um livro vão ser obrigatoriamente vistos como um valor excessivo.

 

Que livro está a ler neste momento?

A Viagem Vertical, de Enrique Vila-Matas. É sobre a viagem sem regresso. Não me agarrou da forma que O Mal de Montano fez, mas promete ser uma belíssima experiência. Está a ser, por enquanto.

 

Qual o livro cuja leitura mais prazer lhe deu?

Esta é daquelas perguntas que, silenciosamente, mais vezes me coloquei. As respostas foram sempre diferentes e díspares. Hoje vou responder aqui O Jogo do Mundo e já sei que amanhã vou pensar no Crime e Castigo e depois n’O Som e a Fúria, no Viagem ao Fim da Noite, Nostromo e por aí fora...

 

Qual o escritor a quem não consegue resistir?

É por fases. Durante muito tempo andei agarrado a Lobo Antunes — talvez o meu primeiro caso de adição —, depois começou a maçar-me um pouco e tive de espaçar os seus livros. Há não muito tempo, lembro-me de ter andado preso a Bolaño. O caso mais recente talvez seja o de Juan Marsé. São livros de uma sensibilidade tremenda e que trazem nas suas páginas um encontro infalível com o inesperado.

 

 

 

Bruno Carriço nasceu no Porto em 1979. Cresceu perto do mar da Aguda e estudou Química, mas os romances sempre lhe interessaram mais. Escreve desde 2004 no blogue Fragmagens e vive desde 2008 na Senhora da Hora.

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Ter, 6/Nov/12
Ter, 6/Nov/12

 

Tornou-se daninho na companhia de um amigo de longa data, e juntos estabeleceram-se no Histórias Daninhas, que, durante cerca de um ano, foi o meio de partilha da sua produção literária. O projeto terminou em julho, mas despediu-se com a edição de um livro. Guilherme Pires, assistente editorial na 2020 Editora, faz um balanço da sua incursão na microficção e fala do festival que levou os autores às escolas da sua cidade natal: o Festival Literário de Castelo Branco.


O que foi o projeto Histórias Daninhas e que balanço faz dele, agora que terminou?

O Histórias Daninhas foi uma oficina de escrita para mim e para o João Afonso, sem rede. Somos amigos desde miúdos, partilhámos a infância em Castelo Branco, o gosto pelos livros em adultos, a vontade de descobrir se temos em nós o que a escrita exige — talvez tenha sido por isso que nos tornámos daninhos. Sabíamos que os nossos cadernos tinham material escrito mas nunca partilhado, por pudor, por desconforto, por outras razões. A vontade existia, faltava tudo o resto: em abril de 2011 deixámo-nos de hesitações e decidimos oferecer, a quem quisesse lê-los, dois contos breves por semana (com, no máximo, 300 palavras). E continuámos, apesar de. Fizemo-lo até julho deste ano. Pelo caminho, abrimos a porta a 13 convidados para que publicassem as suas daninhas (e juntámos a essa lista um escritor escondido, Robert Walser), participámos no Festival Silêncio (no qual recebemos uma menção honrosa, atribuída ao microfilme de lançamento do projeto), publicámos alguns contos nas revistas Macondo e A Sul de Nenhum Norte e visitámos clandestinamente a Feira do Livro de Lisboa de 2011 para oferecer histórias em papel. A nossa despedida é o livro, que já está à venda. Gostamos do que fizemos, fez-nos sorrir. E agora terminou.

 

A micronarrativa e o conto não vendem em Portugal. A que se deve esta rejeição ao formato mais curto?

A micronarrativa, não sendo recente, é incomum no nosso mercado, pelo que é natural que não venda cá. Existem algumas edições de autor ou de coletivos de autores, e uma ou outra aposta de algumas editoras (a Lydia Davis é talvez o exemplo mais recente, pela Ulisseia e agora pela Relógio D’Água, mas existem também os esforços de casas como a Ahab, a Angelus Novus ou a Livros de Areia, e de outras), embora sempre em tiragens modestas, sem grande promoção, talvez porque não existe tradição no nosso mercado. O mesmo talvez se aplique aos contos, embora neste caso existam edições bastantes, tanto de autores de prestígio como de outros mais comerciais ou até desconhecidos, publicadas nas editoras mais reputadas, nas «independentes» e até nas más. Se não vendem, é porque grande parte dos leitores portugueses prefere romances ou novelas, seja por uma razão ou por outra: pelas narrativas mais elaboradas, por um fôlego maior para as personagens e os enredos, porque os romances são mais pesados, ajudam a preencher as estantes e têm capas mais luzentes — mesmo quando a justificação é mentirosa.

 

Enquanto editor, como vê este fenómeno dos festivais literários?

São úteis para as editoras, aqui, como no Reino Unido, como no Brasil. Ajudam a promover os autores e os livros, aproximam-nos dos jornalistas e consequentemente também do público; são, claro, momentos de partilha com os leitores, estimulam a leitura e a perceção de que o livro é um lugar de privilégio, uma experiência importante para o ser humano (e dessa forma talvez estimulem também o consumo, sem o qual as editoras não existem); e podem ser oportunidades para que os editores conheçam potenciais autores e partilhem experiências.

 

A sua terra natal organizou recentemente o Festival Literário de Castelo Branco. Como vê o advento destes festivais e a sua chegada aos meios mais distantes das grandes cidades?

Para Castelo Branco foi uma excelente notícia. Embora seja capital de distrito, é, desde que me conheço, uma cidade com pouco apetite pela cultura, e em particular pelo livro. Neste momento, não existe uma única livraria no centro da cidade, e apenas uma Bertrand (pequenina, pequenina…) num dos centros comerciais das periferias. As visitas de escritores são raras, mas quando acontecem e são bem organizadas têm quase sempre casa cheia. Há, por isso, uma enorme necessidade de eventos culturais como este festival, que ajuda a divulgar nas escolas o livro e alguns autores, e quem sabe aproxima as pessoas ao mundo da literatura. Acredito que uma cidade como Castelo Branco reagiria de outra forma ao livro — leria mais — se o livro fosse divulgado com empenho, em vez de escondido nas prateleiras (escassas) dos hipermercados ou das papelarias e em livrarias claustrofóbicas ou congeladas no tempo (como eram as que existiam na cidade até 2010).

 

A 2020 não ficou imune ao furacão das insolvências na distribuição. Será que é desta que o mercado se vai ajustar às necessidades das editoras e dos livreiros?

Não. Infelizmente, ficará tudo na mesma, porque o modelo de negócio e as regras do mercado não mudaram. A 2020 Editora conseguiu sobreviver porque tem ótimos profissionais, colaboradores e fornecedores, que continuaram a trabalhar com o mesmo empenho apesar de tudo o que se passou, e porque foi feito um enorme esforço financeiro e de gestão para que se erguesse uma estrutura de distribuição própria. Tendo distribuição própria, o controlo aumenta, ganha-se força. Mas é necessário ter dimensão e ambição para isso: quando estes dois preceitos não existem, os editores têm de colocar-se nas mãos dos distribuidores e rezar a todos os santos para que essas empresas consigam gerir o seu negócio, manter-se vivas e não estrangular a circulação do dinheiro. É assim hoje como sempre foi, e um pouco por todo o lado, com menor ou maior gravidade de acordo com a dimensão do mercado, o número de leitores compradores no país, a dimensão das editoras, das livrarias e das distribuidoras, o empenho dos autores, etc.

 

Vale mais a pena investir em coleções e títulos estrangeiros ou criar de raiz um produto nacional?

Depende da perspetiva. Se analisarmos apenas pelo investimento de tempo e dinheiro que os projetos exigem, talvez seja mais vantajoso investir em coleções ou títulos estrangeiros: nestes casos, os acordos financeiros são mais agradáveis para o editor; os títulos podem trazer consigo o prestígio ou publicidade da edição original e do autor; os livros podem chegar já estruturados, com projetos gráficos acabados e que apenas precisam de adaptação; existirão a priori mais argumentos para convencer as pessoas a comprar ou ler o livro. São apostas mais seguras, talvez. Uma resposta a esta pergunta variará muito em função do tipo de livro, do autor e do perfil ou filosofia da editora, claro.

 

O mercado infantojuvenil alguma vez esteve em crise nos últimos cinco anos?

No último ano e meio, tudo esteve e está em crise. Essa palavra é uma espécie de novo deus, omnipresente, ditador, castigador, transformador. O mercado infantojuvenil tem muita força, mas também sofre com a quebra de consumo.

 

Ainda há muitos maus livros infantis a circular nas escolas?

O que é um muito mau livro infantil?

 

O PNL vai mesmo formar leitores para a vida?

São os livros, os autores, os editores, as famílias, os amigos e os desamores que formam leitores para a vida, não os planos, por mais méritos que tenham.

 

O que gostava de editar na 2020 e ainda não conseguiu?

A 2020 edita o que público quer ler. Por isso, existem muitos livros que gostaríamos de publicar e que ainda não publicámos — é uma questão de tempo.

 

 


Guilherme Pires nasceu em 1982, em Castelo Branco. Licenciado em Ciências da Comunicação, foi jornalista para dar uso ao diploma, mas cedo se arrependeu. Desde 2010 é assistente editorial na 2020 Editora, onde ajuda a fazer livros para as chancelas Booksmile, Vogais, Nascente e Topseller. É coautor, com João Afonso, do livro Histórias Daninhas.

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Ter, 30/Out/12
Ter, 30/Out/12

 

A ideia inicial era levar obras de autores portugueses para o Brasil e promovê-los do outro lado do Atlântico. Entretanto, Bárbara Bulhosa contactou com autores e livros brasileiros de que gostou tanto, que acabou para os trazer para Portugal e realizar um intercâmbio cultural entre os dois países. E, apesar das expectativas serem inicialmente moderadas, pode dizer-se que a Tinta-da-china Brasil está a ser bem-sucedida.

 

A Tinta-da-china Brasil está a corresponder às expectativas?

Posso dizer que sim, mas as expectativas eram moderadas, entrámos com cautela. O nosso trabalho tem sido alvo de atenção por parte dos Brasileiros. E os autores que lançámos, Ricardo Araújo Pereira, Dulce Maria Cardoso e Alexandra Lucas Coelho, hoje estão bem expostos nas livrarias e são reconhecidos como autores de qualidade. Esse era o nosso objetivo.

 

Depois de publicar vários portugueses no Brasil, vai começar a publicar brasileiros em Portugal. Respeitam o princípio da reciprocidade?

Nem sempre. O que se passou foi que, por ter estado muitas vezes no Brasil, este ano contactei com autores e livros de que gostei tanto, que os quis trazer para cá. Não era essa a ideia inicial. Neste momento, temos para publicar 4 dos 10 finalistas do Prémio de São Paulo, que também são finalistas do prémio PT. Não sabia isso quando me interessei pelos livros.

 

Num mercado tão competitivo e evoluído, a imagem da Tinta-da-china também faz a diferença?

Não sei se faz diferença, ainda é muito cedo para perceber. Sei que as reações aos nossos acabamentos e à nossa imagem são muito positivas. Os livreiros gostam de ter os nossos livros à vista, mas o importante é dar a conhecer os nossos autores. Fazer com que sejam lidos. Se a imagem ajudar, melhor.

 

Corremos o risco, como no caso da livraria Poesia Incompleta, de que a Bárbara Bulhosa meta a Tinta-da-china num contentor e a leve para o Brasil de vez?

Não. De forma alguma.

 

Agora que tem um contacto muito mais regular e profundo com a produção literária contemporânea dos dois países, quem é que está a viver o momento mais interessante?

Acredito que seja o Brasil. É gigante, com tantas realidades, que nem sei se a comparação é válida. Também não acho que Portugal esteja a viver um período muito interessante em termos de produção literária.

 

O que temos a aprender com o meio editorial brasileiro e vice-versa?

Teremos a aprender mais com eles, ainda para mais no contexto económico dos dois países. Mas as realidades são muito distintas. No eixo Rio/São Paulo, as coisas não se passam de forma muito diferente, mas o Brasil não se resume a este eixo. O potencial é enorme.

 

As editoras portuguesas estão a pensar bem quando olham para o Brasil como um maná?

Não sei se alguém pensa assim. Eu não penso. Encaro a expansão da empresa como uma aproximação cultural. Há um interesse mútuo genuíno entre os Portugueses e os Brasileiros com quem contacto lá. Existe um património emocional muito forte. 

 

Os Brasileiros gostam de ler autores portugueses?

Os Brasileiros com quem contactei têm muito interesse nos autores portugueses, sim. E há alguns autores portugueses que são muito lidos e referenciados no Brasil.

 

O que tem em conta no momento de selecionar uma obra portuguesa no Brasil e vice-versa?

Os critérios são os mesmos que me levam a publicar cá. Acreditar no livro e sentir que o podemos trabalhar de forma a encontrar os seus leitores. 

 

 

(C) Tiago Miranda

 

Nasceu em Lisboa, em 1972. É licenciada em História pela Universidade Nova de Lisboa e pós-graduada em Técnicas Editoriais pela Universidade de Lisboa. Durante oito anos trabalhou na Bulhosa Livreiros, onde foi diretora de recursos humanos, relações-públicas e responsável pela importação. Em 2005 fundou a Tinta-da-china e, em 2012, a Tinta-da-china Brasil, dirigindo ambas desde então.

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Qui, 25/Out/12
Qui, 25/Out/12

 

Mário Zambujal é um nome que dispensa apresentações. Porém, apesar do seu vasto curriculum e da sua longa bibliografia, mantém apenas como «única ambição de glória» que os seus leitores não pensem que o tempo que dispensam a ler os seus livros seja «mal-empregue». E será dessa forma, bastante direta, que o caracteriza que participará amanhã no Festival Literário de Castelo Branco.


Participará no Festival Literário de Castelo Branco. Como vê esta espetacularização dos escritores?

Não lhe chamaria «espetacularização», mas sim uma oportunidade de contacto dos autores com os seus leitores — confirmados ou possíveis. Julgo natural que essa heterogénea entidade que é o público tenha gosto e proveito de conversar com um autor que estima (ou mesmo deteste). Atrás de cada livro está sempre a pessoa que o escreveu. E os leitores também podem ter opiniões diferentes, um livro nunca está fechado ao confronto de ideias.

 

Este festival é vocacionado para o público escolar. O que é que lhe agrada neste contacto com os mais pequenos?

Mais pequenos? De que idades? Eu tento não sair completamente do comboio da gente nova, mas será que os miúdos têm algum interesse em conversas que abordem usos e costumes dos seus pais e avós? Enfim, espero encontrar um modo de não os enfastiar. Até porque, na verdade, me agrada esse tipo de interlocutores.

 

Fala-se muito na falta de hábitos de leitura dos Portugueses. Afinal, hoje, os Portugueses leem mais ou menos?

O queixume geral é o de que leem menos. Contudo, ouço esse lamento há largos anos, e não deixam de se revelar excelentes prosadores e poetas. Malta nova que, obviamente, cedo adquiriu o bom hábito da leitura.

 

Qual foi, no seu entender, a grande mudança na vida dos escritores entre o momento em que publicou pela primeira vez e os dias de hoje?

Hoje há mais pessoas a escrever ou, pelo menos, a publicar. Daí resulta maior possibilidade de se revelarem novos valores e também, por parte do público leitor, a capacidade de escolher. Como sempre, o mais importante é a liberdade. Da escrita e da leitura.

 

A geração de escritores à qual pertence demonstra várias vezes alguma tristeza para com algum esquecimento a que é votada. Sente esse esquecimento das pessoas, dos media, etc.?

Pessoalmente, não tenho razões de queixa. E por dois motivos: o primeiro é que nunca pretendi revolucionar a literatura, mantendo-me fiel ao meu próprio estilo, e gosto de contar histórias; o segundo advém do facto de manter um bom número de leitores, inclusivamente escritores que muito admiro. A minha única (e não é pequena) ambição de glória está em que cada pessoa que me lê não dê por mal-empregue esse tempo.

 

O reinado do homem no mundo editorial tem os dias contados?

Se houve reinado dos homens foi porque (como em tantas outras coisas) as mulheres se encontravam remetidas para um segundo plano. Mas elas aí estão, escritoras que trazem à literatura vozes diferentes e de grande mérito. Mas não vejo isso como um novo reinado. Escrever não é uma competição entre mulheres e homens. Tal como surgem novas escritoras, também não faltam talentos do lado masculino.

 

O que pensa da adoção do novo Acordo Ortográfico?

Por enquanto, ignoro-o. Nunca escrevi uma linha respeitando o que me parece um abuso e um disparate.

 

Considera que a literatura portuguesa contemporânea reflete pouco sobre o «ser português»?

Reflete, claro. Quando um autor português cria uma personagem portuguesa e a move por um cenário ou intriga portuguesa, dificilmente veremos lá um japonês ou uma peruana.

 

  

 

Nasceu em 1936. Jornalista e escritor, trabalhou na televisão e em jornais como A Bola, Diário de Lisboa e Diário de Notícias, em especial na área do desporto. Estreou-se na literatura em 1980 com a Crónica dos Bons Malandros, um livro que tem cativado sucessivas gerações de leitores, tendo sido adaptado ao cinema por Fernando Lopes. Seguiram-se Histórias do Fim da Rua, em 1983, e À Noite logo Se Vê, em 1986. Após um interregno em que produziu textos para televisão, teatro e rádio, regressou aos livros com Fora de Mão (uma coletânea de contos e crónicas), Primeiro as Senhoras, Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Dama de Espadas — Crónicas dos Loucos Amantes, Longe É Um Bom Lugar e Uma Noite não São Dias. Assume atualmente a presidência do Clube de Jornalistas. Cafuné (Clube do Autor) é o seu romance mais recente.

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Ter, 23/Out/12
Ter, 23/Out/12

 

Professora durante anos, Teolinda Gersão declara que há ainda muito a fazer em termos de criação de hábitos de leitura nas escolas e que não há um livro ou uma fórmula milagrosa para conquistar os alunos para a leitura. Há apenas a certeza de que os hábitos de leitura nascem na escola, e, nesse sentido, a autora vai dar o seu contributo quando, na próxima sexta-feira, dia 26, visitar a Escola Secundária Nun’Álvares, em Castelo Branco, no âmbito do 1.º Festival Literário da cidade.*


Vai estar no Festival Literário de Castelo Branco. Como vê esta maior exposição dos escritores ao público?

Os encontros com o público fazem parte, hoje em dia, da vida de um escritor. Embora impliquem um gasto por vezes grande de tempo e de energia, é algo que suponho que a maioria de nós faz com prazer, porque gostamos de encontrar os leitores e de ter algum feedback sobre as leituras que fizeram dos livros.

Em encontros literários, só estive uma vez em Castelo Branco, e já foi há vários anos. É uma boa ocasião de lá voltar, é uma bela cidade, onde tenho amigos.

 

Ainda falta fazer muito trabalho de divulgação da leitura nas escolas e nos meios mais interiores?

Sim, ainda há muito a fazer. Os alunos não têm hábitos de leitura, e o público mais vasto também não. E é nas escolas que se começam a criar hábitos de leitura, de contrário não se vão adquirir nunca.

 

Da sua experiência como professora, que livro se mostrou imbatível na conquista dos alunos para a leitura?

Essa é uma pergunta a que não sei responder, porque sempre gostei de variar os programas, os autores e as épocas. Fui professora catedrática de Literatura Alemã e de Literatura Comparada na Universidade Nova de Lisboa e trabalhei com os alunos obras muito diversificadas, de várias literaturas.

Se quiser escolher algumas obras que mais interessaram aos alunos, posso citar por exemplo a poesia do expressionismo, ou o movimento Dada. Não lhe posso citar um livro, isoladamente.

 

Vemos que aderiu com entusiasmo ao Facebook. Como tem sido essa experiência?  

O Facebook é como a vida, nele encontramos todo o tipo de pessoas. A vantagem maior é que, de facto, nos pode pôr em contacto com pessoas da nossa área profissional ou cultural, que partilham as nossas preocupações e interesses, em todos os lugares do mundo.

E por vezes o Facebook dá-nos também acesso a informações que de outro modo não teríamos, porque não aparecem nos jornais nem nas televisões, ou, no caso de aparecerem, não têm o relevo que deviam. As redes sociais também são um modo de passar informação, de forma eficaz e rápida.

 

Dá muitas sugestões de leitura, de exposições, etc. Como tem sido a reação dos seus seguidores a este papel de consultora?

Que ideia, não tenho nem quero ter qualquer papel de consultora, se quisesse procuraria por exemplo uma coluna num jornal. E não tenho seguidores, de modo nenhum, só tenho amigos «facebookianos»,como toda a gente. Quando falo de livros, exposições ou filmes, é um tema de conversa como qualquer outro, ao sabor do que vi na altura e me apetece partilhar. Isso, aliás, é comum no Facebook, há inclusive quem tenha criado páginas interessantes como «o que andamos a ler»…

 

Hoje os escritores falam mais entre si graças ao Facebook?

O Facebook também nos põe em contacto, sim. Ficamos a saber mais sobre colóquios, lançamentos de livros etc. Mas os escritores acabam em geral por se conhecer fora do Facebook. Vejo as redes sociais sobretudo como um espaço de comunicação entre pessoas muito diversas.

 

A lógica das redes sociais estimula-lhe a reflexão e produção literária?

Penso que não. São mundos muito diferentes.

 

Tem estado muito empenhada no combate ao novo Acordo Ortográfico. Porquê?

Porque ele não faz nenhum sentido. Já escrevi sobre isso, é impossível uniformizar. Há variantes da língua, nos vários países em que ela é falada, e ainda bem que assim é. Não há hierarquias entre estas variantes, e ninguém é proprietário da língua.

Basta pensar que desde 1990 se discute e as pessoas resistem ao Acordo Ortográfico. Há quase 23 anos, portanto. Entra pelos olhos dentro que há qualquer coisa de profundamente errado na base de tudo isto.

 

Não fugiu a uma polémica com Maria Helena Mira Mateus, no Público. Fazem falta mais polémicas nos jornais?

Foi sobre o ensino do Português no ensino básico e secundário. Não sou de fugir a nada, mas a questão não é haver ou não polémicas nos jornais. A questão é que é muito difícil, e infelizmente está a ser lento fazer mudanças estruturais em Portugal. Há estruturas que se instalaram e se julgam inamovíveis.

 

Estão os escritores demasiado calados neste momento histórico do nosso país? Ou estão a guardar material para escrever romances nos próximos anos?

Não posso responder em nome deles. O que julgo verificar é que, de uma maneira geral, os mais novos são mais desligados do contexto sociopolítico do que a minha geração.

 

* Esta entrevista não respeita o novo Acordo Ortográfico, por vontade expressa de Teolinda Gersão.

 

 

 

Teolinda Gersão é autora de doze livros (romances e contos), traduzidos em 11 línguas. Foram-lhe atribuídos por duas vezes o Prémio de Ficção do PEN Clube, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio de Literatura da Fundação Inês de Castro, e foi selecionada para o prémio europeu de romance Aristeion. Foi escritora-residente na Universidade de Berkeley em 2004. Alguns dos seus livros foram adaptados ao teatro e encenados em Portugal, Alemanha e Roménia. O seu romance mais recente, A Cidade de Ulisses (Sextante, 2011), é uma história de amor passada em Lisboa, que é também uma história de amor por Lisboa.

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Qui, 18/Out/12
Qui, 18/Out/12

 

«Estranheza» é o que lhe provoca o conceito de «excesso de livros publicados», que considera «uma desvalorização do bem cultural que é o livro», e demonstra «uma visão estreita» «do exercício da liberdade criativa e intelectual». Paulo Gonçalves, há 16 anos na Porto Editora, atual responsável pelo Gabinete de Comunicação e Imagem do grupo, sabe do que fala. E, quando questionado sobre o mito do escritor que se comporta como diva, destrói todas as ideias pré-concebidas: os autores são acessíveis e gostam de contactar com os seus leitores.


Num país com uma alta taxa de iliteracia e com tão pouco espaço para os livros nos meios de comunicação social, em que medida ser responsável pela comunicação de uma editora é um desafio à imaginação?

O mundo da edição é, em si, um estímulo à imaginação e à criatividade, o que é verdadeiramente fascinante para quem vive e respira comunicação. Em relação aos aspetos que apontou, contraponho uma perspetiva positiva: assistimos a uma diminuição sustentada dessa taxa e ao aparecimento de espaços de divulgação editorial nos novos media. Ou seja, à imaginação e à criatividade, devemos aliar visão estratégica que permita perceber, ou antecipar, as oportunidades.

 

Já sentiu que o excesso de títulos publicados o impediu de trabalhar melhor um determinado livro?

Em primeiro lugar, causa-me estranheza o conceito de «excesso de títulos publicados», pela simples razão de não conhecer quais as variáveis quantitativas e qualitativas para se chegar a essa consideração. Mais estranheza me causa por quanto o nosso país carece de massa crítica. Afirmar que há um «excesso de títulos publicados» é uma desvalorização do bem cultural que é o livro e, pior, remete para uma visão estreita e limitativa do exercício da liberdade criativa e intelectual. Quero crer que essa ideia pouco feliz resultará mais da conjuntura que atravessamos.

De qualquer forma, mesmo que tivesse só um livro para trabalhar, tenho a certeza absoluta de que chegaria ao fim do processo e concluiria que poderia ter feito melhor. Não há trabalhos perfeitos.

 

Os escritores portam-se como divas ou aceitam bem os planos de comunicação que a editora desenha?

Os nossos planos de comunicação são desenvolvidos com os escritores. Nada se faz nem nada se decide sem eles. Os escritores têm consciência da importância de dar a conhecer a sua obra aos potenciais leitores. Aliás, um dos fenómenos mais interessantes que se verifica, nos últimos anos, é a vontade crescente que os escritores têm de contactarem com os leitores, de os ouvirem, de conversarem com eles, o que contraria, desde logo, esse mito de os escritores se comportarem como divas. E é justo dizer que os profissionais de comunicação da Porto Editora e da generalidade das editoras têm contribuído para que isso aconteça.

 

Os Portugueses leem pouco porque não há espaço nos media para falar de livros ou há pouco espaço nos media porque os Portugueses leem pouco?

Os Portugueses leem mais, e há cada vez mais portugueses a ler apesar da diminuição de espaço de divulgação nos media tradicionais, é algo que resulta do desenvolvimento cultural e educacional verificado nas últimas décadas, da concretização de programas como o Plano Nacional de Leitura, cuja influência é já visível e o será ainda mais nos próximos anos. Mas, voltando à questão da diminuição do espaço de divulgação literária nos media tradicionais, é de sublinhar — e louvar — o empenhamento dos jornalistas da área em encontrar espaços alternativos de divulgação, sobretudo através dos novos media. Uma opção que acaba também por os beneficiar ao permitir uma relação mais próxima com os leitores.

 

Ainda aparecem muitos jornalistas a fazer entrevistas a escritores sem terem lido o livro?

A indispensabilidade de o jornalista ler o livro relaciona-se com o género de entrevista que se pretende fazer, do ângulo de abordagem. É óbvio que é importante e positivo para o jornalista na preparação da entrevista — e durante a entrevista, pois todo o escritor aprecia quando percebe que o interlocutor leu a sua obra —, como também é importante conhecer o perfil do autor, o seu percurso, as suas obras anteriores, entre muitos aspetos.

 

Os jornalistas portugueses deixam-se seduzir mais por autores nacionais ou internacionais?

Os jornalistas interessam-se por livros e por escritores, pelas histórias que os envolvem ou que oferecem.

 

Já alguma vez lhe apeteceu deixar de falar com um jornalista/crítico na sequência de uma crítica literária?

Jamais. A crítica literária pode influenciar, positiva ou negativamente, o percurso de um livro ou de um autor. Mas estamos a falar de um exercício de liberdade de opinião, e isso é intocável. Temos é de saber lidar com as críticas negativas e encontrar nelas algo de positivo.

 

Teme uma subida do IVA no livro?

Se isso acontecer, então deixará mesmo de existir o conceito de «excesso de livros publicados».

 

Que campanha de comunicação ou que livro já o fizeram sentir que vale a pena trabalhar na comunicação editorial?

Tenho a felicidade de o meu percurso de 16 anos na Porto Editora coincidir com um período notável da história desta empresa, durante o qual abraçou o digital, a internacionalização, a diversificação editorial, a transformação em grupo. Sinto que vale a pena trabalhar na comunicação editorial desde o primeiro dia.

 

O que tem a Porto Editora de especial?

O bastante para eu não ser hoje um jornalista, um repórter de guerra. O jornalismo sempre foi a minha paixão, as minhas opções escolares e académicas foram feitas considerando essa meta. Hoje estou no chamado «outro lado», vivendo outras batalhas, e sinto-me privilegiado por isso.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial.

Por estes dias, mais do que uma boa ideia, só consigo partilhar o meu profundo desejo de que o setor e o país consigam sobreviver a esta realidade austera. Sejamos resilientes.

 

 

(C) Sandra Barão Nobre

 

Entrou na Porto Editora em março de 1996, era então finalista na Escola Superior de Jornalismo, como redator para a que viria a ser o produto multimédia de maior sucesso em Portugal, a Diciopédia. Passou pela exigente área do marketing escolar e é responsável pelo Gabinete de Comunicação e Imagem desde finais de 1998.

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Ter, 16/Out/12
Ter, 16/Out/12

 

Afonso Cruz venceu há exatamente uma semana o Prémio da União Europeia para a Literatura, pelo romance A Boneca de Kokoschka, e tem a esperança de que tal distinção lhe permita «ser lido noutras línguas». Mas, além de escrever, Afonso Cruz faz ilustrações, toca banjo na banda The Soaked Lamb e faz cerveja, que é também «uma arte». Ser considerado um «jovem escritor» não o incomoda, incomodam-no mais as «palavras erradas, como as do ministro das Finanças».


Literatura, música, ilustração, para quando Afonso Cruz na performance ou na dança contemporânea?

Para já, concentro-me naquilo que tenho feito ultimamente: escrever, desenhar, beber cerveja e tocar a «Flor e o Espinho».

 

Viver da arte é para meninos e o que está a dar é fazer cerveja?

Fazer cerveja é uma arte. E não é para meninos bebê-la.

 

Imaginas que um dia os Portugueses vão trocar as suas Enciclopédias Luso-Brasileiras pela tua visão universal da história?

Já alguém se adiantou. Se lermos as notícias, percebemos que a realidade foi trocada por algo muito pouco credível.

 

Já nos falaste de A Carne de Deus e que Jesus Cristo Bebia Cerveja, que pormenor da vida do Espírito Santo nos vai trazer o teu próximo romance? E em que sentido a religiosidade é um tema que te atrai?

A religião, tal como a ciência, a arte, a filosofia, são maneiras de explicar ou compreender o mundo. Acredito na soma, mais do que acredito na competição ou na exclusão de uma em relação a outra. Rumi dizia que a opinião é um pássaro com uma asa. Acho que o resultado de todas as formas de conhecimento estará mais próximo da verdade. Ou como disse Sampaio Bruno: mais próximo de um erro cada vez menor.

 

Já te aborrece o rótulo de «jovem escritor» ou «escritor emergente»? Em que medida isso pode ser um estigma para os autores?

Não tenho problema nenhum com isso. Vivo entre o homem do Renascimento, o que me daria uns quinhentos anos, e o jovem. Prefiro ser jovem. De preferência pela vida fora.

 

Achas que o melhor do Prémio da União Europeia para a Literatura ainda está para vir, ou seja, as traduções?

Sim, tenho esperança de poder ser lido noutras línguas.

 

Consideras-te um escritor da Mitteleuropa ou não acompanhas essa discussão?

Não me considero nada e não acompanho.

 

Quais são as principais dificuldades para um escritor que dá os primeiros passos? Que portas se mostram mais perras?

Não tenho razão de queixa, sempre tive muita sorte. Mas acho que as dificuldades são sempre as mesmas: ultrapassar uma desconfiança inicial. A Boneca de Kokoschka não é um romance melhor depois de, por exemplo, ganhar um prémio. Mas a perceção que se tem das coisas acaba, muitas vezes, por vingar sobre a avaliação objetiva. É como a morte, que transforma os escritores em grandes escritores. O Jules Renard dizia que o artista é como o porco: só é apreciado depois de morto.

 

Dá-me uma boa sugestão de leitura que tenha escapado até agora aos editores portugueses.

Tenho muita pena de não ser possível ler Plotino em português. Ou as vidas de filósofos ilustres contadas pelo Diógenes Laércio. Fico triste que o Kazantzakis não seja reeditado. Os poetas orientais (Rumi, Saadi, Attar, etc.) são quase ignorados. E ainda o Pavić (sem ser o Dicionário Kazar). Todas estas sugestões seriam um grande insucesso de vendas.

 

Uma palavra que odeies.

Gosto de todas. Menos das que são erradas, como as do ministro das Finanças.

 

O que é que mudavas no meio editorial e livreiro português?

Não sei o suficiente para mudar alguma coisa com clarividência. Poderia opinar, mas temo ser demasiado ingénuo.

 

 


Nasceu, em julho de 1971, na Figueira da Foz e haveria, anos mais tarde, de viajar por mais de 60 países. Frequentou a Escola António Arroio, a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Em 2008, publicou o seu primeiro romance, A Carne de Deus — Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites, ao qual se seguiria, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Em 2011, publicou Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho, Prémio Literário Maria Rosa Colaço) e A Contradição Humana (Caminho, prémio Autores SPA/RTP). Em 2012, foi o autor português distinguido com o Prémio da União Europeia para a Literatura pelo livro A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010). Além de escrever, é ilustrador, realizador de filmes de animação e membro da banda The Soaked Lamb.

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Qui, 11/Out/12
Qui, 11/Out/12


O programa de televisão da TVI 24 Livraria Ideal já foi cancelado. Mas, enquanto existiu, cumpriu a sua missão: dar a conhecer os autores ao público e levá-lo a ler mais. Por isso, João Paulo Sacadura tem a sua consciência tranquila e o sentido do dever cumprido. Ficam, no entanto, muitos autores por conhecer e muitos mais livros por divulgar.


A cultura e os livros estão irremediavelmente condenados aos horários muito tardios?

Nada (ou quase nada, está bem…) está «irremediavelmente condenado» nesta Terra… Eu acredito na salvação! Mas enfim: todos sabemos que é uma questão de mercado, de vontade política, de investimento, de prioridades, de valores. Mas em primeiro lugar, num canal privado, é uma questão de mercado, naturalmente: quando se inventar maneira de serem programas rentáveis, estou convencido de que darão mais cedo.

 

Ainda vamos ter um programa de livros em canal generalista a um horário mais nobre?

Vamos?! Quem me dera! Gostava até de participar nele, de qualquer forma! (P.S.: E quando se fala de livros e leituras, todos os horários são nobres...)

 

Que critérios utilizava na seleção dos livros escolhidos e autores entrevistados?

Atualidade, variedade de géneros e estilos, interesse, novidade (mas não só…), boas histórias, bons contadores de histórias e que promovessem a leitura!

 

A Livraria Ideal unia o rigor informado a uma certa coolness. Era esse o segredo para se manter no ar há tanto tempo e recolher tantos prémios da crítica?

A ideia era essa mesma: estando bem informado, conhecer um pouco melhor a pessoa por trás das letras… passar um bom momento revelando outros aspetos de uma personalidade que nos faz ler, viajar, sonhar, aprender… e no processo suscitar em quem nos vê e ouve o desejo de ler mais!

 

Tinha feedback dos espectadores às entrevistas e sugestões?

Tinha, e em geral era bom! Gostava muito quando me diziam que gostaram muito de conhecer um certo autor que antes desconheciam, e que iam mesmo comprar os livros dele/a! Aí sentia que cumpria a missão que a TVI/ TVI 24 me tinha confiado.

 

Os autores portugueses já estão mais à vontade em frente às câmaras ou continuam muito acanhados?

Depende, claro. Há de tudo, como aliás em todas as profissões; na sua maioria os autores não são muito de conversa televisiva (já tive algumas estreias e agradáveis surpresas!), mas são quase sempre personalidades fascinantes, que contam e marcam.

 

Que autor gostava de ter levado à Livraria Ideal e não se proporcionou?

Ui, tantos! E muitos estrangeiros…

 

Fala-se muito em crise no meio editorial. Recebeu menos livros no último ano?

Sim, nota-se bem; mas ainda se edita muito em Portugal.

 

Já teve vontade de telefonar para uma editora e pedir que não lhe mandasse mais livros?

Já o fiz. Por e-mail. Pedindo que evitassem enviar-me certos tipos de livros, que não se enquadrassem nas poucas leituras que podemos recomendar por semana: tendo a hipótese de mostrar cada vez menos, por questões de tempo de antena, procurava ser o mais generalista possível, cingindo-me a um ou outro romance ou romance histórico, literatura infantil, algum ensaio mais premente, alguma poesia, e uma ou outra obra mais prática; estava limitado, não dava para mais, infelizmente…

 

Tinha tempo para ler aquilo de que gosta ou o programa condicionava todas as leituras?

Tenho algum tempo para ler (e quando não tenho arranjo-o, esticando o dia e encurtando as noites…), mas, sem dúvida, o programa condicionava muito, lia muito dos autores que convidava, quando não os conhecia antes (já tive com isso muitas agradáveis surpresas!), e dos livros que recomendava. Sempre com prazer!

 

 

 

João Paulo Oom de Sacadura, 52 anos, lisboeta, bom rapaz, viúvo, pai de dois gémeos de 14 anos. Leitor assíduo, estudou Engenharia, escreveu livros sobre património, artigos e roteiros de viagem, colaborou na imprensa, na rádio, na TV e multimédia. Gosta de ler, ouvir, conversar.

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Ter, 9/Out/12
Ter, 9/Out/12

 

Apesar dos 300 quilómetros que separam Lisboa do Porto, para Cláudia Gomes, diretora da Divisão Literária do Porto, as distâncias não se fazem sentir no funcionamento da Porto Editora, porque ambas trabalham em sintonia. E, apesar das dificuldades causadas pela centralidade de Lisboa, o esforço feito para as contrariar tem dado frutos. Quanto à venda de livros em linha e à empresa de Jeff Bezos, quem precisa de Amazon quando já existe a Wook?


Qual é melhor, a Divisão Literária do Porto ou a Divisão Literária de Lisboa da Porto Editora?

Formamos um conjunto imbatível!

 

Como é que se articulam as duas divisões, seja na definição do catálogo ou no plano de publicação?

Temos um processo interno de controlo que evita qualquer conflito nesta área, pois, apesar de algumas preferências de cada editor que acabam por influenciar certas escolhas, é certo que há um núcleo comum de critérios na definição do catálogo. Quanto ao plano, ele é articulado entre as duas divisões e a nossa Direção Comercial e de Marketing.

 

É mais difícil ser editor e comunicar os livros a partir do Porto?

Os resultados do nosso trabalho estão à vista a esse nível — obriga-nos a um esforço extra, mas esse esforço tem dado bons frutos, apenas é necessário ser criativo e encontrar parceiros e estratégias interessantes. De qualquer forma, temos sempre a A1…

 

Porque é que a Feira do Livro do Porto está a perder cada vez mais relevância?

Sinceramente acho que a Feira do Porto tem vindo a melhorar nestes últimos anos, mas percebe-se que não tenha o nível de afluência e vendas que tem a de Lisboa. Somos menos aqui no Norte, e o poder de compra também é inferior. De qualquer forma, a APEL acaba de confirmar resultados positivos para a edição deste ano, superando as expetativas face a um ano crítico em termos de disponibilidade financeira do público. E, em alguns casos, as vendas aumentaram mesmo em relação ao ano anterior.

 

A crise já está a obrigar a uma dieta rigorosa no plano editorial?

O nosso plano editorial não sofreu cortes em termos de número de títulos publicados, mas estamos atentos à evolução da situação e temos vindo a reduzir algumas tiragens iniciais.

 

Participa no processo criativo dos seus autores ou limita-se a limar arestas na versão final do livro?

O processo criativo é algo exclusivo dos autores, mas trabalhamos em conjunto com os nossos e damos sugestões em determinadas situações; os resultados têm sido muito positivos para ambas as partes.

 

Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editor?

Ter de dizer cara a cara a alguém que nos propôs editar um livro de sua autoria que o mesmo não obedecia aos critérios de qualidade por nós defendidos. É difícil e desagradável, principalmente quando o autor não tem a mínima noção das fragilidades da sua escrita. Mas, no final, é o melhor para ambas as partes.

 

O e-book vai pôr as livrarias em perigo? E o aparecimento da Amazon em português?

O e-book ainda não tem um mercado e público definidos em Portugal, ao contrário do que já se passa noutros países, e por isso é difícil tirar grandes conclusões; não nos devemos precipitar nos prognósticos. É certo que alguma coisa mudará, mas muitas vezes isso passa mais por uma capacidade de adaptação dos atores, do que por se matarem alguns deles. Quanto à Amazon em português: não me parece que um gigante como a Amazon tenha interesse num mercado tão diminuto como o nosso. De qualquer forma já temos a fantástica Wook.pt.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Crise.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Não odeio ninguém, felizmente. Se falarmos num plano mais abstrato, tenho ódio à guerra.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Qual foi o melhor restaurante em que já comeu?

 

Que autor de outra editora gostaria de poder editar?

Estamos a editar a Isabel Allende, e isso já me deixa satisfeita. Claro que tenho as minhas preferências pessoais, mas não gosto de misturar as coisas. É pessoal.

 

Acha que devíamos implementar o novo Acordo Ortográfico?

Para mim já está implementado, não há mais nada a dizer…

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Preferia guardá-las para a empresa onde trabalho.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Qual foi o primeiro livro que li (ou, pelo menos, me lembro de ter lido)?

 

 

 

Cláudia Gomes nasceu no Porto. É licenciada em Relações Internacionais pela Universidade do Minho. Depois de uma curta passagem por outro ramo, iniciou funções de Coordenadora Editorial no Centro Multimédia da Porto Editora. Em outubro de 2005 assumiu a direção da Divisão Literária do Porto na mesma editora.

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Qui, 4/Out/12
Qui, 4/Out/12

 

Enquanto jornalista freelancer tem a liberdade de escolher os livros ou os autores sobre os quais escreve. Ainda assim, não pode entrevistar os escritores que verdadeiramente gostaria de entrevistar porque já não se encontram entre nós. Mas o que lamenta mesmo é a ausência, no país, de «verdadeiras políticas culturais que emancipem os cidadãos», que estimulem o gosto pela leitura, apesar dos festivais literários, cada vez em maior número, que considera serem instrumentos certeiros «para a formação de públicos».


A cultura e os livros estão condenados a desaparecer dos jornais?

Não acredito nem em mortes, nem em romances anunciados. A realidade das coisas ultrapassa sempre a nossa capacidade ficcional. Não acredito que a cultura desapareça dos jornais, tal como não acredito no desaparecimento dos jornais em papel. Temo sim que tanto a cultura como os jornais se tornem pastilha elástica, produtos de consumo alienado e alienante. A sofisticação tecnológica e as novas formas de configuração da vida social e coletiva apontam para um empobrecimento da linguagem, da capacidade de ler/interpretar simbolicamente o mundo, o que faz ascender e vingar produtos que se disfarçam de cultura mas que nada mais são que lixo (entre eles certos livros e certos jornais).

 

Que critérios utiliza na seleção dos livros que escolhe e dos autores que entrevista?

Critérios? Isso ainda se usa? Sou jornalista freelancer, o que me dá uma margem de liberdade diferente. Não tenho de seguir a agenda do jornal. Por isso utilizo o meu faro literário, que como eu é anárquico e caótico. Evito os escritores/livros que têm muito ruído mediático à volta, porque sei que aquilo que é novo e diferente começa por causar repulsa e desagrado e aquilo que agrada a muita gente tende a desagradar-me a mim. Sim, sou assumidamente snob.

Outras vezes a possibilidade de entrevistar ou não um autor também determina a minha escolha da obra, pois o DN [Diário de Notícias] não tem um espaço apenas dedicado à crítica.

Por fim, há ainda o peso das opiniões de pessoas próximas e que considero intelectualmente, como é o caso do meu colega Albano Matos ou dos escritores Vasco Luís Curado e Hélder Macedo.

 

É preciso existir mais espaço para os livros nos jornais para que os Portugueses leiam mais? Ou é preciso que os Portugueses leiam mais para que haja mais espaço para livros nos jornais?

O problema da falta de mais leitores em Portugal não pode ser remetido para os jornais (por mais importantes que sejam enquanto veículo de divulgação literária), mas sim para a ausência de verdadeiras políticas culturais que emancipem os cidadãos. Isto é algo que atravessa a nossa História e os governos da direita à esquerda. Não há, nunca houve um verdadeiro desejo de promover a cultura, sempre vista mais como um ornamento do que como uma necessidade política. Elites incultas não desejam um povo culto. Portanto, penso que o que é preciso mudar são as elites, as pessoas que estão à frente de cargos políticos, institucionais, que estão à frente dos jornais, das televisões, das escolas. Todas elas donas de uma cultura «de trazer pelo salão», que confundem armazenamento de informação com conhecimento, que acham que saber usar uma língua é não dar erros ortográficos e que fazem questão de mostrar que conhecem muitos escritores «estrangeiros»…

 

Fez recentemente um dossiê de cinco páginas sobre poesia. Na sequência desse trabalho desabafou sobre a falta de atenção que ele recebeu nos blogues de poesia e de poetas. Como explica essa indiferença?

A indiferença, explico-a pelo facto de hoje todos querermos ser emissores, todos acharmos que somos o centro do processo comunicativo e nos estarmos nas tintas para ouvir/ver os outros. O Humano é naturalmente autocentrado, e os dispositivos tecnológicos de comunicação (que aparentemente facilitam o relacionamento com os outros) estão, na verdade, a fechar-nos cada vez mais em nós mesmos. O Facebook, o Twitter, os blogues, permitem-nos emitir. Mas, à medida que o número de emissores cresce, diminui fatalmente o número de recetores. Cada vez mais falamos para ninguém. Os autores de blogues, os amantes de poesia, os jornalistas de cultura estão mais interessados no seu discurso do que no meu. O que é terrível é que esse fechamento ao Outro (que é a antítese da poesia) representa um enorme empobrecimento de todos nós.

 

Os festivais literários são uma boa ideia?

Os festivais literários são um ato de verdadeira política cultural, daquela que numa resposta acima disse fazer falta neste país. Porque, ainda que tenham o seu lado de fogueira de vaidades, são um instrumento certeiro para a formação de públicos. Penso nos festivais literários como as antigas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian (onde me formei como leitora): um pequeno milagre cujas verdadeiras repercussões demorarão ainda muitos anos a serem percebidas.

 

É fácil convencer os editores dos jornais a garantir a cobertura de um festival literário?

Não, não é fácil. O ideal seria que eles próprios fossem a um para perceberem a sua importância e o seu impacto nas comunidades onde acontecem. Infelizmente os livros não estão na moda como a música ou o cinema. Apenas alguns escritores estão na moda, e é isso que acaba por ditar a cobertura ou não de um festival literário.

 

Que autor gostava de entrevistar e ainda não se proporcionou?

Todos os escritores que verdadeiramente gostaria de entrevistar estão mortos. Terei de esperar a minha entrada para o Inferno para os encontrar.

 

Fala-se muito em crise no meio editorial. Tem recebido menos livros no último ano?

Sim, felizmente. Penso que a crise do meio editorial advém mais do excesso de publicações do que da falta delas. Não creio que seja preciso editar mais. Creio que é preciso editar melhor. Isto significa investir nos autores, na formação de (bons) leitores. Porque editar bestsellers para pessoas que são leitores vagos não me parece ser uma boa estratégia a longo prazo.

 

Já teve vontade de telefonar para uma editora e pedir que não lhe mandasse mais livros?

Sim. Mas também já tive vontade de telefonar a algumas a queixar-me dos seus assessores de imprensa, que não mandam sequer os livros que nós pedimos para trabalhar.

 

Tem tempo para ler o que gosta, ou o programa condiciona todas as leituras?

Tenho muito pouco tempo para ler o que realmente gosto (poesia e ensaios) mais por indisciplina do que pela agenda de trabalho. Mas, quando entrevisto um escritor, tento sempre ler integralmente o livro. É precisamente por só ter esta vida e este tempo que atiro à parede os livros que considero maus. Não se pode perdoar a quem rouba tempo da nossa vida.

 


 

Joana Emídio Marques tem 38 anos e é mestre em Estudo dos Media e Cultura Contemporânea, pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre as transformações das narrativas jornalísticas intitulada Géneros Jornalísticos: discursos em metamorfose. É colaboradora do Diário de Notícias e da revista Notícias Magazine desde 2009, escrevendo essencialmente sobre teatro, dança e literatura. Desde abril de 2012 é responsável por uma rubrica de moda (Coisas Novas no Cabide) no DN online.

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Ter, 2/Out/12
Ter, 2/Out/12

 

Poder-se-ia dizer que a literatura em língua portuguesa é a pátria de Lúcia Pinho e Melo, editora da Quetzal desde 2008. Na chancela que foi integrada no Grupo Porto Editora, aposta no futuro da literatura portuguesa, mas mantendo um olho no outro lado do Atlântico e acreditando que o mundo editorial poderia ser melhor se se estreitasse o diálogo entre o editor e o leitor.

 

De repente, jornalistas e escritores parecem só ter olhos para a Quetzal. O que faz da Quetzal uma editora tão desejada?

Bons autores, bons livros, edições cuidadas e capas lindas. Grandes clássicos contemporâneos a par de novos autores, portugueses e estrangeiros. E o bom ambiente, a empatia forte entre as pessoas que a fazem.

 

Até ao momento, qual foi o livro que foi muito além das suas expectativas, em termos de aceitação do público? E já percebeu como é que isso aconteceu?

Abraço de José Luís Peixoto. Além da curiosidade voraz que os leitores de Peixoto nutrem por tudo o que faz ou escreve, este livro, apesar de ser constituído por textos sobretudo de não-ficção e já editados, tem uma estrutura narrativa próxima do ficcional. Talvez seja o velho chavão da vida que dava um romance, aqui, a vida que se lê como um romance. O título também parece ter um apelo especial, fazendo com que o leitor se sinta imediatamente parte envolvida.

 

Vale mesmo a pena apostar em jovens escritores?

Sim, vale, claro. Eles são o futuro da literatura portuguesa, a sua renovação. Mas implica muita perseverança no processo de «convencimento» dos leitores, dos livreiros, da comunicação social (pela ordem inversa, aliás) de que devem ouvir esta (e não outra) nova voz, única e promissora; implica endurance, resiliência à falta de resultados imediatos; e alguma sorte, também.

 

A Quetzal aposta muito na literatura brasileira. Porque é que os leitores portugueses continuam a não prestar grande atenção à produção literária do Brasil?

A produção literária brasileira tem uma vitalidade alucinante e poderia fazer eclipsar a nossa num ápice. Portanto, um certo nepotismo, ou protecionismo, talvez não seja despiciendo. Estou a brincar, claro. A literatura não é o que mais faz interessar os Portugueses pelo Brasil. E não é por espelhar modos de vida ou universos muito diversos do nosso – o que seria uma motivação suplementar para «consumir» autores brasileiros. Acontece que havia sobretudo na primeira metade do século XX um cânone brasileiro que fazia passar as leituras dos Portugueses obrigatoriamente por Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, etc., e talvez esse velho cânone esteja a perder a força e não haja um novo cânone (isto sempre na perspetiva da nossa recepção, claro). Bom, há os grandes Ruben Fonseca ou Clarice Lispector, mas mesmo estes têm uma procura relativa.

Talvez haja uma certa resistência à palavra escrita no português do Brasil, talvez a massificação da cultura brasileira através das telenovelas tenha baixado a fasquia e reduzido o nosso interesse... Não sei. Não tenho uma resposta para essa pergunta. Se tivesse, já tinha deixado de tentar publicar autores brasileiros.

 

De um e outro lado do oceano multiplicam-se os festivais literários. Como vê esta espetacularização da literatura?

Acho que tem uma grande vantagem (não está aqui o Vargas Llosa que nos leia): a de fazer chegar a literatura a um maior número (e a um leque mais variado) de pessoas; e uma terrível desvantagem, a de distrair as pessoas do que é o essencial – a obra literária , afastando-as da solidão, da concentração e do silêncio que a entrega à leitura requer.

 

Quais são as maiores e mais importantes mudanças no trabalho de um editor entre o momento em que entrou para a profissão e os dias de hoje?

Um editor tem de fazer e estar atento a tudo e mais alguma coisa. Naturalmente que ler de manhã à noite e ainda nos pagarem por cima seria simplesmente o melhor modo de vida. Mas a escolha da obra, o planeamento, a produção, e a coordenação editoriais, o percurso comercial, a receção do livro, enfim, toda a sua vida útil (e a inútil também) implicam, hoje em dia, mais ou menos diretamente, e em maior ou menor medida, a intervenção do editor. É um trabalho maravilhoso: manusear matérias-primas, estar ligado ao espírito do tempo, das ideias, da Humanidade, e estar ligado aos outros  a quem escreve, a quem traduz, a quem critica, a quem vende e a quem lê. E isto sempre com uma boa dose de adrenalina, alguns sustos e muitas alegrias. Espera-se de um editor que seja um bom gestor, mas isso não é de agora, isso sempre fez parte das suas atribuições – a dinâmica do mercado livreiro nos últimos anos e a presente conjuntura económica é que têm vindo a dramatizar esse traço do perfil do editor.

 

A Quetzal tem saudades do Francisco José Viegas?

Sim, claro. Os nossos dias e as nossas festas nunca mais foram os mesmos.

 

Com o avolumar da crise, está a ter mais dificuldades para publicar? A margem de risco está muito mais reduzida?

Sim. Sim.

 

Tem tablet? Ou não se imagina a ler e-books?

Não tenho, ainda. O prazer da leitura não é o mesmo (a coisa tátil, o cheiro dos livros, enfim, faço meus todos os clichés habituais), mas não tenho nenhum preconceito contra o digital – facilita até em alguns aspetos o trabalho do editor.

 

Anunciaram-se mil cataclismos com a chegada da concentração editorial. Não fez sentido tanto alarme, ou os cataclismos ainda estão para vir?

A concentração editorial é antagónica do ideal romântico da independência, liberdade e individualidade do editor. Por outro lado, e sempre dentro dos «espartilhos» de uma lógica de mercado, permite a sobrevivência de excelentes editoras que, nesta conjuntura, teriam sido obrigadas a deixar de editar. É claro que estes «conglomerados» fortes, pela sua extrema competitividade e fortíssimo posicionamento no mercado livreiro, podem dificultar muito a vida a outras tantas editoras de dimensão média ou pequena. Dir-me-ão que não teria sido necessário «salvar» editoras, se o mercado, através do gigantismo dos seus «players» (como agora se diz), não o tivesse «deformado». Sim, talvez seja verdade. Mas não esqueçamos que tudo está sempre em movimento, que tudo é feito de fluxos e contrafluxos e que, com a concentração, vem a apetência pela dispersão, pela diversidade, e que esta tem dado origem ao aparecimento de nichos de mercado e de um grande número de microeditoras, com uma atividade muitíssimo interessante. Enfim, isto é uma «lapalissada», toda a gente que segue este blogue é do meio e sabe como as coisas funcionam. Se faz sentido o alarme? Sim. É uma reação natural a qualquer mudança. Se os cataclismos ainda estão por vir? Talvez. Mas espero que não.

 

O que é que um editor tem de saber para sobreviver no mercado português?

Vide resposta às mudanças no trabalho de um editor.

 

Que livro gostava de poder ter editado e ainda não o fez?

Gostava de ter editado o Moby Dick. Mas não o tenciono fazer, como é óbvio  há uma excelente tradução nas livrarias portuguesas.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial.

Fomentar a proximidade entre o editor e o leitor, estreitar o seu diálogo. Todos os instrumentos, inventos, eventos são válidos.

 

 

 © Rui Rodrigues

 

Lúcia Lima de Pinho e Melo nasceu em Aveiro. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e começou a trabalhar com livros em Frankfurt, na Alemanha, no Centro do Livro e do Disco de Língua Portuguesa. Antes de se dedicar exclusivamente à edição, fez traduções em regime freelance e deu aulas de Português (a estrangeiros) e de Alemão. Foi gestora de direitos estrangeiros na Assírio & Alvim, onde também fez trabalho de edição, leitura de manuscritos e coordenou a revista literária A Phala. Foi editora de autores portugueses na Bertrand e é, desde 2008, editora da Quetzal.


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Qui, 27/Set/12
Qui, 27/Set/12

 

Vasco Silva é um nome indissociável da Ática e de Fernando Pessoa. Não é à toa que é o publisher que mais livros deste autor (e sobre ele) publicou em Portugal e no mundo. Está na edição há mais de duas décadas, sempre à frente de chancelas de prestígio, mas não tem saudades do passado e crê mesmo que a crise pode ser uma boa peneira para as editoras.

 

O Vasco Silva é reconhecido como um construtor de coleções de livros. Acha que essa tradição se está a perder?

Não sei se a tradição de construir uma coleção se está a perder. Sei que um amontoado avulso de títulos não faz um catálogo. Nas editoras mais pequenas (independentes?) ou nas chancelas de prestígio dos grandes grupos, ainda há a preocupação de construir coleções e construir um catálogo.

 

A corrida ao best-seller está a desfocar os editores da visão de conjunto, a visão de catálogo?

Em muitos casos, sim. Nas grandes editoras, o editor deixou de ser o centro da empresa para passar a ser apenas mais uma peça na estrutura. Consequentemente, o catálogo deixou de ser o reflexo de quem o construiu. Mais do que uma visão desfocada dos editores, a corrida ao best-seller resulta de outras miopias.

 

Os autores com obras mais densas, como Agustina Bessa-Luís, correm o risco de desaparecer das livrarias, porque as suas vendas não são compatíveis com a lógica de mercado?

Não, pelo contrário. Com maior probabilidade, algumas livrarias poderão desaparecer por não terem no seu acervo autores de «obra mais densa». Não sei se uma livraria que não tenha, por exemplo, Agustina ainda se poderá chamar livraria. Como escreveu Roland Barthes, «o nome não é a coisa».

 

Já conheceu vários momentos e configurações do meio editorial. O que tem o meio, hoje, de melhor e de pior?

O meio editorial alterou-se profundamente nas últimas décadas. Não está nem melhor nem pior, está diferente. Não tenho saudades do passado.

 

Quais são, na sua perspetiva, os pontos fortes do projeto Babel?

A capacidade de construir o futuro.

 

O que ainda não desistiu de editar na Babel?

Os Ensaios, de Montaigne.

 

Comercialmente, ainda compensa publicar ensaio e filosofia?

Espiritualmente compensa. Comercialmente também.

 

A Babel tem uma estratégia para fazer voltar a identificar, aos olhos do leitor médio, Fernando Pessoa com a Ática?

É impossível falar de Fernando Pessoa sem falar na Ática. Em todos os congressos e conferências de temática pessoana a que tenho assistido, o nome «Ática» é — depois de «Fernando Pessoa» — o mais referido. Desde 1942 que a edição de Fernando Pessoa se confunde com Ática.

 

A crise veio ajudar as editoras a peneirarem melhor o que publicam?

Sim, sem dúvida. Quando se aperta mais a malha, peneira-se melhor.

 

Concorda com a adoção do novo Acordo Ortográfico?

Pessoalmente, não concordo com a reforma ortográfica de 1911, com o Acordo de 1945 e com o Acordo de 1990. Profissionalmente, trabalho com todas as ortografias, por vezes com várias no mesmo livro (por exemplo, em Prosa de Álvaro de Campos).



  

Nasceu em 1958 e foi editor da Ática entre 1990 e 2008. Seguiu-se a Guimarães Editores, onde foi editor durante o ano de 2009, tornando-se editor da Babel desde 2010 até ao presente. Entre os anos de 1997 e 1998, foi diretor e presidente do Conselho de Editores da APEL e diretor da Feira do Livro de Lisboa. Tem uma pós-graduação em Técnicas Editoriais pela Faculdade de Letras de Lisboa, foi o responsável editorial por cerca de mil edições, já publicou cerca de 600 títulos e organizou mais de duas dezenas de antologias. É o publisher que mais títulos de e sobre Fernando Pessoa publicou em Portugal e no mundo.

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Ter, 25/Set/12
Ter, 25/Set/12

 

A Assírio & Alvim é a prova de que a concentração editorial não é um bicho-papão. Confirma-o Vasco David, coordenador editorial da chancela, que, através da Assírio & Alvim, contraria todos os mitos que cercam a poesia, nomeadamente o velho estereótipo de que «a poesia não vende».


Afinal a Assírio continua viva e a publicar?

Não me passaria pela cabeça que fosse de outro modo…
 

Porque a concentração editorial continua a ser vista como um bicho-papão?

Julgo que muitos leitores, sobretudo aqueles mais exigentes, identificam o fenómeno da concentração editorial com a massificação da oferta e com a destruição de projetos mais literários, por via das contingências do mercado. Por outro lado, a recente integração da Assírio no Grupo Porto Editora vem provar que a concentração editorial pode ser feita de uma forma inteligente: está garantida a identidade editorial e gráfica da Assírio & Alvim, que, de agora em diante, beneficia de uma estrutura extremamente profissional ao nível do marketing, distribuição, serviços administrativos, etc., a um nível a que antes nunca poderíamos ter acesso. Este respiro não só nos permitirá continuar o trabalho anterior como ampliar o catálogo com autores importantes, sem nunca alienar os nossos leitores.

 

Ainda faz sentido publicar poesia com o número de leitores/compradores que Portugal tem?

É errado pensar que, a priori, a poesia não vende nada. No catálogo da Assírio, que, como se sabe, é muito eclético, a poesia representa a maior fatia da faturação. O essencial é definir um ritmo de publicações compatível com o nosso mercado e com as contingências que vão surgindo, como esta miserável crise que, quer queiramos quer não, reduziu de facto o orçamento disponível para a compra de livros. E é essencial publicar obras de grande qualidade. 

 

Neste período de maiores dificuldades financeiras do mercado, a aposta em jovens autores vai entrar em pousio?

Repare, a Assírio & Alvim não é, tradicionalmente, uma editora de primícias. Também no estrangeiro não é vulgar que uma editora conceituada publique um jovem autor desconhecido: antes dessa publicação deverá existir todo um percurso de publicação em revistas e jornais literários. Infelizmente, em Portugal não existem muitos lugares onde os jovens autores possam construir esse percurso. Em tempos a Assírio chegou a patrocinar o Anuário de Poesia, composto pelos melhores poemas (escolhidos por um júri) dos originais que nos chegavam neste ou naquele ano. Aí surgiram, entre outros, o José Alberto Oliveira e a Adília Lopes. Talvez numa altura em que as condições económicas do país não sejam já tão severas possa vir a ser possível voltar a pensar em projetos como esse. Apesar de tudo isto, devo ser claro: se aparecer algum jovem autor extraordinário, não deixaremos de o publicar e de o promover.

 

Tem publicado algumas antologias de poetas consagrados, em capa dura. Como se comportam estas edições no mercado?

Comportam-se bem. Temos vindo a constatar que existe um público crescente para livros com estas características, onde é possível consultar (em muitos casos) toda a obra de um autor. A capa dura acrescenta alguma nobreza ao livro, mas, sobretudo, torna-o mais resistente ao tempo e ao uso.

 

Os candidatos a poetas, que lhe devem enviar muitos originais, leem pouca poesia?

Acho que a expressão «candidatos a poetas» não é perfeitamente adequada: não é forçoso publicar um livro para se ser poeta, da mesma forma que já foram publicados muitos livros de poesia por pessoas que não são, não podem ser, poetas. Agora, o problema da falta de leituras é, de facto, algo que sobressai em muitos dos originais que recebemos. Existem alguns, muito poucos, que leem. A larguíssima maioria lê muito pouca poesia ou mesmo nenhuma. Para muita gente existe uma ideia terrivelmente simplista, facilitista e, lá está, pouco informada de que basta colocar meia dúzia de versos a rimar para se fazer um poema. Não é nada disso, naturalmente...

 

 

Como reage ao encolhimento do espaço para a poesia nas livrarias?

Reajo mal. Estou profundamente convicto de que existe um mercado para a poesia em Portugal, mas, é claro, ninguém comprará poesia se não a conseguir encontrar. Para lá dos aspetos comerciais, existe um património histórico e literário valiosíssimo em redor da poesia portuguesa que importa preservar, e, embora uma livraria deva ser forçosamente rentável, nem por isso ela deve deixar cair os seus deveres de importante agente cultural. Neste campo não há muito mais para encolher, sob o risco de se alienar um público e de se descurar um património literário precioso. 

 

Estamos condenados a caminhar para um mercado composto por nanoeditoras de poesia?

Julgo que não. É bom que existam nanoeditoras e pequenas editoras que, de algum modo, e por vezes de forma heroica e à custa de muita abnegação das pessoas que as dirigem, vão cumprindo um papel importante na divulgação de novos autores. Ainda assim, a Assírio prova, tem provado, que existe espaço para fazer outro tipo de trabalho em redor da poesia.

 

Num tempo em que a literatura deixou cair as lógicas de movimento artístico, será que a poesia ainda se mantém com alguma estrutura colegial?

Continua a existir uma pluralidade de vozes na literatura, e por isso não partilho da opinião de que a literatura tenha deixado cair o que quer que seja. Continuam a existir movimentos de vanguarda; aquilo que podemos discutir é até que ponto a lógica de mercado silenciou esses movimentos. Julgo que silenciou, ou procura silenciar, ao optar sistematicamente pela publicação de livros destinados ao grande mercado. Ainda assim, a poesia conseguiu o feito, notável nos tempos que correm, de preservar uma voz de vanguarda ativa no panorama literário contemporâneo. Agora, se isso quer dizer que tem uma estrutura colegial? Acho que a melhor poesia de todos os tempos fugiu sempre a sete pés desse tipo de estrutura.

 

 

 

Nasceu em 1976. Licenciou-se em Antropologia e tem uma pós-graduação em Ciência Política e Relações Internacionais. Iniciou a sua colaboração com a Assírio & Alvim em 1995 e, alguns anos mais tarde, publicou algumas traduções na antologia Rosa do Mundo — 2001 Poemas para o Futuro, organizada por Manuel Hermínio Monteiro. Fez parte de uma equipa de trabalho comissariada pela Fundação Calouste Gulbenkian para estudar o mercado do livro português nos países africanos de língua oficial portuguesa e no Brasil. É atualmente coordenador editorial da Assírio & Alvim.

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Qui, 20/Set/12
Qui, 20/Set/12

 

Ao fim de 82 anos, ainda ninguém se entendeu quanto à data ideal para a realização da Feira do Livro de Lisboa. O editor da Bertrand Eduardo Boavida foi o diretor da edição de 2012 e garante que o debate sobre essa questão é reflexo de muitas outras coisas. E-books, distribuição e o IVA nos livros: são tudo temas a que um editor não pode fugir, muito menos no Blogtailors.


A APEL acolheu, na Feira do Livro, um conjunto de debates e comunicações sobre edição, com a presença de especialistas alemães e franceses. Porque é que os editores portugueses ignoraram esta oportunidade?

A Bertrand Editora acompanhou dois destes debates porque eram temáticas que nos interessavam particularmente e porque tinham um agendamento compatível com o nosso. Em relação aos outros editores, não posso dar-lhe uma resposta definitiva porque não falei com eles a este propósito. Se, apesar de tudo, tentarmos encontrar motivos para a sua ausência, ocorrem-me: a falta de tempo/disponibilidade, nomeadamente por estarem com outras atividades paralelas na Feira do Livro, e o seu desconhecimento dessas atividades

 

Os especialistas em edição alemães e franceses apontam a Amazon e o e-book como uma verdadeira ameaça às editoras e livrarias. Estaremos nós a ignorar esse perigo?

São dois aspetos para os quais os editores portugueses estão particularmente atentos, embora ainda sem posições fechadas, o que ajuda a explicar a sua reserva.

 

Porque é que ao fim de 82 anos ainda se discute a data da Feira do Livro de Lisboa?

A Feira do Livro de Lisboa é o principal evento do país onde se relacionam leitores, autores, diversas instituições, distribuidores, editores e livreiros e, por isso, é um momento privilegiado para se manifestarem as principais tensões que decorrem destas diferentes abordagens do livro e da leitura. A data da feira é uma manifestação dessas tensões.

 

Que balanço faz da edição deste ano da Feira?

Comercialmente, o balanço que fazemos desta edição é positivo.

 

Há alguma estratégia para travar a crescente desvalorização da Feira do Livro do Porto, quer por parte do público quer por parte dos editores?

Na sua pergunta subentende-se que quer o público quer os editores têm vindo a desvalorizar, de forma crescente, a Feira do Livro do Porto. Não me pronuncio em nome do público, mas não tenho dúvidas de que tem existido, da parte da APEL, da Câmara Municipal e das editoras que têm estado presentes, nas quais a Bertrand se inclui, uma séria preocupação na valorização da Feira do Livro do Porto, porque todos têm consciência da sua importância na divulgação do livro e da leitura.

 

Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editor?

A posteriori, as situações delicadas tendem a assumir menor dimensão. As situações mais delicadas são sempre as que enfrentamos diariamente e que o futuro ajuda a perspetivar de forma adequada.

 

O que pode ser a Bertrand do futuro? Para onde se dirige?

No futuro queremos que a Bertrand Editora continue a ser uma das mais destacadas editoras portuguesas. A nossa direção deve ir na direção da leitura.

 

Como vê estas recentes falências de empresas de distribuição? E que futuro antevê para os livreiros independentes?

As recentes dinâmicas das empresas de distribuição são reflexo das mudanças sofridas pelo mercado do livro nos últimos anos com editoras e retalhistas cada vez mais fortes e, por isso, com menor capacidade negocial para quem está no meio. Na sequência disto, também o futuro dos livreiros independentes me parece muito dificultado.

 

O que devem os editores saber rapidamente sob pena de desaparecerem?

Saber ler os sinais do tempo.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Kardex.»

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Tento não ter.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Para quando a uniformização do IVA nos livros em papel e em formato digital, de preferência ao nível do Luxemburgo?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

A melhor solução seria cotá-la em bolsa, mas, até lá, temos de nos conformar com o facto de serem universos com diferentes medidas.

 

Acha que devíamos implementar o novo Acordo Ortográfico?

O Acordo Ortográfico já está em processo de implementação. Como editores, devemos respeitar a vontade dos autores.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

O que não falta são boas ideias ao setor editorial português.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

O mais importante foi perguntado.



Nasceu em Lisboa em maio de 1954. Em 1975 emprega-se como livreiro na Livraria Castil Alvalade, e foi aí que começou a olhar para os livros com outros olhos. Embora tenha feito algumas tentativas para mudar de vida, acabou sempre por regressar. Passou pela Valentim de Carvalho e pela FNAC antes de, em 1999, entrar para a Bertrand, onde atualmente exerce as funções de diretor editorial da Bertrand Editora.

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Ter, 18/Set/12
Ter, 18/Set/12

 

Manuel Alberto Valente, diretor editorial da Porto Editora, não tem medo de que a profissão que desempenha há décadas venha a desaparecer. Basta que os editores se saibam adaptar. E não teme também a Amazon: afinal, somos um país periférico e culturalmente atrasado, e o dia em que a empresa de Jeff Bezos vai chegar a Portugal continua longe. 


A Europa editorial anda a discutir o advento do e-book e o crescente risco de monopólio por parte da Amazon. Em Portugal fala-se pouco sobre estes assuntos; porquê?

Porque o nosso mercado não tem (ainda) dimensão significativa. O IVA a 23%, a crise económica e os baixos índices de leitura impedem, para já, um crescimento relevante do livro digital. Mas convém estar atento — e há quem esteja.

 

A Amazon.pt ou .br podia deixar os livreiros em maus lençóis…

A Amazon é uma empresa gigantesca, com grande poder económico e especialista em práticas agressivas. Por isso mesmo, tem causado grandes dificuldades aos outros agentes do mercado nos países onde se impôs. É, pois, natural que um dia aconteça o mesmo por cá. Mas, como somos um país pequeno, periférico e culturalmente atrasado, esse «um dia» não chegará tão cedo.

 

Hoje o seu papel de editor passa mais pela definição de catálogo ou pelo trabalho dos textos com os autores?

Pela definição de catálogo(s), seguramente. Aliás, eu fui sempre mais um gestor editorial do que um editor (no sentido anglo-saxónico do termo).

 

Na Porto Editora, qual é melhor a divisão literária: a de Lisboa ou a do Porto? E como é que as duas se coordenam na definição de um catálogo geral?

Presumo que a pergunta se refere à qualidade estética das colaboradoras, e, como é evidente, seria deselegante da minha parte tecer juízos de valor…

 

Qual é o seu grande objetivo enquanto editor da Porto Editora? Há algum Moby Dick que persiga?

Não deixar que o crescimento e a lógica de grupo abafem a responsabilidade cultural que todo o editor transporta consigo. Felizmente, não estou sozinho na perseguição desse objetivo — a compra recente da Assírio & Alvim comprova-o plenamente.

 

É mais barato comprar um romance estrangeiro ou publicar um jovem autor português?

Publicar um jovem autor português, sem qualquer dúvida.

 

Já tem leitor de e-books? Porquê?

Tenho. Primeiro, porque sou um viciado em gadgets; segundo, porque torna mais fácil a leitura de PDF (e hoje quase todos os originais nos chegam nesse formato). Mas não há nada que se compare ao prazer do velho livro em papel…

 

Como vê estas recentes falências de empresas de distribuição, e que futuro antevê para os livreiros independentes?

Com muita preocupação, embora deva recordar que não é apenas um fenómeno recente — à Diglivro aconteceu o mesmo há muito tempo. No que toca às (poucas) livrarias independentes, o problema não se põe no futuro, existe já no presente, infelizmente. Podemos talvez interrogar-nos sobre se o país possui massa crítica suficiente de leitores para viabilizar livrarias que não se insiram na lógica dominante.

 

O que devem os editores saber rapidamente sob pena de desaparecerem?

Os editores não desaparecerão nunca. Nem os leitores. Mas há que saber acompanhar as mudanças de mentalidade e atitude.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

As várias palavras inglesas com que hoje se designam no meio realidades que já existiam antes de os seus utilizadores terem nascido.

 

Se pudesse, o que é que mudava no nosso setor editorial e livreiro?

Para responder a esta pergunta, teria de escrever um longo tratado, sem saber se me chegava a competência. O nosso setor editorial e livreiro é, como muitos outros setores, um reflexo dos paradigmas económicos que enformam a sociedade em que vivemos.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

«Que grande romance vais um dia escrever com as memórias do pior ano da tua vida!»

 

Acha que devíamos implementar o novo Acordo Ortográfico?

Mas o Acordo Ortográfico não está já implementado? O que não significa, claro, que, em privado, eu me conforme com ele.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«Tem ciúmes de ser casado com a mais mediática das editoras portuguesas?»

 


©Manuel Alberto Valente

 

Manuel Alberto Valente nasceu em Vila Nova de Gaia em 1945. Licenciado em Direito, nunca exerceu qualquer atividade jurídica, tendo optado primeiro pelo jornalismo e mais tarde pela edição. Trabalhou na Inova, na Estampa, na O Oiro do Dia, até se tornar, em 1981, diretor editorial das Publicações Dom Quixote. Desempenhou as mesmas funções depois na Asa e desempenha agora, desde 2008, na Porto Editora. É autor de quatro livros de poesia e de numerosa colaboração em jornais e revistas. Foi recentemente agraciado com o título de Cavaleiro das Artes e das Letras pelo Estado francês.

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Ter, 5/Jun/12
Ter, 5/Jun/12

 

As Entrevistas Booktailors vão parar durante alguns meses, mas regressam no mês de setembro.

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Qui, 31/Mai/12
Qui, 31/Mai/12

 

Entrou de rompante na literatura portuguesa e logo por uma das portas grandes, o prémio LeYa. João Ricardo Pedro é o autor de quem se fala e do qual os Portugueses parecem estar gostar, uma vez que o seu romance de estreia, O Teu Rosto Será o Último, já vai na 5.ª edição. Passos Coelho disse que o desemprego pode ser uma oportunidade: João Ricardo Pedro levou o conselho a sério e converteu um curso de Engenharia em páginas de literatura. E da boa.

 

É melhor ser engenheiro ou ser escritor?

Como diz o Álvaro, o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. Nunca percebi bem o binómio e nunca encontrei grande encanto na Vénus, mas a frase do Álvaro é estupenda.

 

Passos Coelho estava a pensar em si quando disse que o desemprego é uma oportunidade? Acha que ele tem razão?

Imaginar o primeiro-ministro a pensar em mim deixa-me nervoso. Imaginar um milhão de portugueses fechados em casa a escreverem livros é digno de um Borges. E ainda dizem que esta nova geração de políticos não tem espessura.

 

É no próximo romance que vamos ter o retrato das ilusões perdidas da Revolução?

Ainda não faço grande ideia do que será o próximo romance. Como todo o cuidado é pouco, ando a evitar que as minhas personagens frequentem juventudes partidárias, administrações de grupos financeiros, certas lojas maçónicas, supermercados no Dia do Trabalhador, concertos da Céline Dion, festas organizadas pela Cinha Jardim, restaurantes em Canal Caveira.

 

O que é que lhe está a fazer mais confusão nesta mudança de vida?

Depois de ter visto quem vi na bancada do Estádio Nacional durante a Final da Taça de Portugal, já nada me faz confusão. E não estou a falar da Assunção Esteves.

 

Qual o seu foco principal quando estava a escrever o livro?

Tenho um problema congénito no sistema de focagem. Há mesmo quem diga que o grande problema do meu livro é a falta de pontaria.

 

O que lhe custou mais: encontrar a sua voz literária ou passar de mil para 200 páginas?

Encontrar, em mil, 200 que valessem a pena.

 

Sei que está a escrever um novo romance. Sente a pressão do prémio cada vez que se senta ao computador?

Da última vez que me pesei, a balança marcou 81 kg. O prémio é um Y vermelho com 450 g. De que lado é que está a pressão? É fazer as contas.

 

Tem pena de já não ir a tempo de limpar o prémio José Saramago?

Não faltam voluntários para esse tipo de trabalhos.

 

O que acha dos escritores da sua geração? Lê algum regularmente?

Acho-os bonitos. Há dois ou três mesmo muito bonitos. As minhas relações literárias são todas ocasionais e esporádicas.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«O professor Cavaco Silva ganhou finalmente um lugar na História depois de ser referido no seu livro?»

 

Qual é o seu maior ódio de estimação?

A estima que eu tenho por todos os meus ódios impede-me de responder a essa pergunta.

 

O Acordo Ortográfico é um erro? Porquê?

Deve ser mais do que um erro. E quantos mais erros lhe apontam, mais me afeiçoo a ele. Mariquices.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

«Dançou o tango em Buenos Aires?»

 

 

 

Nasceu em 1973, na Reboleira, Amadora. Curioso acerca da força de Lorentz, licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica pelo Instituto Superior Técnico. Durante mais de uma década, trabalhou em telecomunicações, sem, no entanto, alguma vez ter aplicado as admiráveis equações de Maxwell. Na primavera de 2009, em consequência do caráter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragmatismo, começou a escrever. O Teu Rosto Será o Último, romance de estreia, ganhou o prémio LeYa 2011.

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Ter, 29/Mai/12
Ter, 29/Mai/12

 

É campeã de vendas, e a sua mais recente biografia romanceada já lidera os tops. Isabel Stilwell garante que o jornal que dirige, o Destak, trata bem os livros, mas que não consegue ter espaço suficiente para acompanhar tudo o que se publica. Numa entrevista sem dislexias, a autora do recente D. Maria II fala dos motivos que a levam a escolher as personagens sobre as quais vai escrever e de um meio literário que lida mal com os best-sellers.

 

Os livros recebem Destak no seu jornal?

Muito destaque. Uma vez por semana, há uma secção de livros na «Arte e Lazer», da responsabilidade da Filipa Estrela. Para além disso, muitas vezes os autores são entrevistados e, consoante o «tema» do seu livro, surgem na secção a que estão mais ligados. Por exemplo, um livro de finanças ou de saúde pode abrir a Atualidade, um outro sobre um futebolista, o Desporto. Há também grandes entrevistas e pré-publicações, como aconteceu com o último livro da Isabel Allende. Por isso, a resposta é sim. Dito isto, com a quantidade de livros que são publicados em Portugal, por semana, haverá sempre muitos injustiçados, porque mereciam espaço que não existe.

 

Os jornais pagos deviam fazer mais pela divulgação do livro e da leitura?

Só o facto de se publicarem todos os dias é um incentivo à leitura! Julgo que fazem bastante, nomeadamente com a venda, por preços acessíveis, de livros.

 

O que precisa de ter um livro ou um escritor para merecer uma atenção maior do vosso jornal?

Se o seu conteúdo for considerado relevante para o nosso leitor, será sempre mencionado. Têm, em geral, mais sorte os autores que já têm algum nome, é um facto, mas quem for criativo por alguma razão — como aconteceu com o livro A Crise Explicada aos mais Pequenos, que tem a invenção genial de começar de um lado com a explicação para ser lida por pais de esquerda, e do outro com a explicação para ser lida por pais de direita — vai prender-nos a atenção.

 

Que livros mereciam ser gratuitos e distribuídos nos semáforos?

Acho que a escolha de um livro é tão subjetiva, que preferia ver distribuídos vales para uma livraria. Até porque o ato de escolher é logo meio caminho andado para apetecer ler. Aliás, é uma boa ideia — as livrarias podiam ganhar com isso, o Destak está aberto a parcerias

 

Há assim tanto para contar sobre as rainhas portuguesas, além de que sabiam tocar piano e falar francês?

Pelos vistos sim, lol, porque só eu consegui escrever quatro livros, com uma média de 700 páginas para cada rainha, e fiquei cheia de pena de não acrescentar mais umas cartas, uns episódios e umas histórias. Mas que todas elas falavam francês, até aqui é verdade.

 

Há muitos romances sobre as rainhas, as princesas ou as amantes dos reis, mas ainda não há um sobre a padeira de Aljubarrota. O que lhe falta? Glamour?

Não falta nada, é uma ótima ideia. Mas é verdade que o ponto de partida para se ser lido é que quem lê queira, à partida, saber mais sobre o biografado. As personagens mais ou menos anónimas, ou míticas, são, de facto, segunda escolha. Pelo que percebo dos romances históricos ingleses, quando há épocas históricas já muito bem conhecidas dos leitores, como o reinado de Henrique VIII, começam a aparecer personagens fascinantes e que ninguém conhecia. Havemos de lá chegar.

 

Não há um homem da nossa História sobre quem tivesse vontade de escrever?

Há. Assim à partida lembro-me de D. Manuel I e de outros filhos de Filipa de Lencastre que não o eterno infante.

 

O meio literário ainda olha de lado para o romance histórico?

Para dizer a verdade, não conheço pessoalmente «o meio literário», mas fico com a sensação de que por medo, arrogância ou inveja, não sei, se imagina que os livros que vendem muito devem ser «fáceis». Acho que um livro ser pouco lido não é sinal de qualidade, ou de superioridade literária, pode ser simplesmente mau.

 

O que podemos encontrar neste livro que ainda não vimos nos outros?

Não há dois livros iguais, ainda menos se contam a vida de personagens que viveram a séculos de distância umas das outras. Mas neste livro há, em cada dia, dois olhares, o do narrador e o de uma segunda personagem, o que julgo que dá um ritmo ainda maior ao livro, e ângulos diferentes sobre a mesma personagem. Na terceira parte, por exemplo, percebemos como a rainha Vitória vê a rainha D. Maria e a política portuguesa — com documentos reais tão fantásticos, era incontornável fazê-lo.

 

O novo Acordo Ortográfico é um erro? Porquê?

Ainda não sei bem o que penso do Acordo. Sei que, sendo disléxica, já me levou 50 anos a aprender a acertar na ortografia da maioria das palavras à moda antiga, e a ideia de começar de novo é assustadora. Sei também que o meu livro vai ser lançado no Brasil em julho e teve de ser adaptado, porque o brasileiro é, de facto, outra língua…

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Gosto mais das surpresas. Se não fizeram, fazem para a próxima.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Todas as que fazem de cada um de nós vítimas impotentes perante as adversidades da vida, e dos outros, os culpados de tudo o que nos acontece de mal. Prefiro o «locus interno», em que controlamos o nosso destino, ao «locus externo», em que a culpa do galo que temos na cabeça é da mesa porque se meteu no nosso caminho.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Se tivesse, não vos dava, fazia-a! A serio, a boa ideia era ter a coragem de publicar menos, investindo na promoção do livro. Porque não há nada mais triste do que imaginar bons livros sem leitores…

 

 

 

Jornalista e escritora, é atualmente diretora do jornal Destak. Foi diretora da revista Notícias Magazine e tem um longo percurso na imprensa escrita. Sempre se confessou apaixonada por romances históricos. Obteve um enorme sucesso nos seus três romances históricos, Filipa de Lencastre, Catarina de Bragança e D. Amélia. Lançou recentemente uma quarta biografia romanceada, desta feita intitulada D. Maria II — Tudo por um reino.

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Qui, 24/Mai/12
Qui, 24/Mai/12

 

O Grande Circo da Edição decidiu assentar praça em Lisboa, e com ele os grandes circos da comunicação social, da banca e da política. Para o escritor Manuel Jorge Marmelo, o Porto não é capaz de segurar a sua massa crítica, que lentamente se dirigiu para a capital. Entre a esperteza saloia dos novos descobridores do Brasil e o atrofiamento da Feira do Livro do Porto, o jornalista e escritor revela alguns sinais de uma muito portuguesa ciganice.

 

Porque é que as editoras do Porto foram desaparecendo ou aproximando-se da capital?

No essencial, os motivos pelos quais isso acontece são os mesmos que extinguiram os bancos do Porto ou que os levaram do Porto para Lisboa. O Porto perdeu influência política, económica e cultural. É um facto. E o país está cada vez mais centralizado e concentrado em redor do seu umbigo.

 

Apesar de haver um jornal nacional sediado no Porto, bem como redações dos restantes grandes media, por que razão os escritores portuenses têm de ir a Lisboa para dar entrevistas?

Talvez seja melhor perguntá-lo aos responsáveis pelos jornais, a quem compete gerir os meios disponíveis nas delegações. Mas não deixo de notar que o jornal nacional sediado no Porto é um vespertino popular e, por isso, pouco talhado para a divulgação cultural, tal como, de resto, sucede com um jornal nacional semelhante sediado em Lisboa. O negócio deles não passa pela literatura.

 

Dizem os editores que a Feira do Livro do Porto representa 30% da sua congénere lisboeta. No Porto as pessoas leem assim tão pouco?

Isso é capaz de se explicar por dois fatores. Primeiro, a população do Porto é mais pequena. Segundo, a massa crítica do Porto (as pessoas com mais formação e cultura) foi sendo paulatinamente perdida, ou exportada, para Lisboa, por força dos fatores referidos na primeira resposta, já que é ali mais fácil conseguir um emprego com remuneração compatível, bem como o reconhecimento profissional respetivo.

 

Os editores são todos um bocado ciganos?

Não acho nada. Haverá alguns que o são, até já conheci alguns, mas não creio que os editores sejam mais ou menos ciganos do que os banqueiros, médicos, economistas, farmacêuticos, advogados, escritores, jornalistas e etc.

 

Acha que a Feira do Livro do Porto na avenida dos Aliados tem a dignidade que merece?

Não. Acho o espaço exíguo, acanhado e barulhento. Até percebo que a praça principal da cidade pudesse concorrer para «dignificar» o evento, mas, se a ideia era devolver a feira à praça pública, creio que a rotunda da Boavista tinha melhores condições para o efeito, nomeadamente árvores e sombras que podiam tornar a feira menos penosa nos dias de maior calor.

 

Sente saudades do «Mil Folhas» do Público?

Sinto saudades, isso sim, do Público tal como foi pensado há 23 anos. Era para ser um jornal de referência que informasse e formasse exemplarmente e com qualidade e independência, e, assim, contribuísse para o desenvolvimento do país. A avaliar pelo nível de vendas que foi forçando o Público a baixar progressivamente a fasquia, o país está-se nas tintas para a qualidade e satisfaz-se com muito menos. Os políticos que elegemos são apenas um reflexo disto.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Quando é que podemos ir outra vez ao Bonaparte beber uma Erdinger?

 

Sempre se interessou pela literatura brasileira. Como é que vê este súbito interesse pelo que se passa no Brasil e por querer lá investir?

Vejo-o como um típico exemplo da esperteza saloia portuguesa, o que é tanto verdade para o Brasil como para Angola. O Tuga acha que ainda é dono daquilo e abomina que as antigas colónias e protetorados tenham decidido governar-se sozinhos. O Tuga não se interessa pelo que lá acontece, se passam mal ou bem, se vivem em democracia ou não, se têm uma cultura própria, ou até várias. Mas, se houver dinheiro para negociatas, se cheirar a guito e a contas na Suíça, o Tuga puxa pelo lugar-comum da lusofonia e vai tratar da vidinha.

 

Cada vez se exige mais que o escritor seja também entertainer. Como vê essa mudança? E sente-se à vontade nesse papel?

Não tenho jeito para entertainer. Entendo que, se quero ser lido, tenho de fazer uma parte da comunicação dos meus livros, para que eles cheguem ao conhecimento dos leitores. Tento fazê-lo com honestidade.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

Não, de modo nenhum. O Acordo Ortográfico não unifica a língua, nem sequer o léxico, e tão-pouco a expande ou solidifica. O que expande a língua e assegura a sua perenidade é o crescimento demográfico de países como o Brasil e Angola.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«O que é que almoçou hoje?» Normalmente a minha mãe faz uns petiscos que deixam os meus interlocutores com água na boca. E com inveja.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Austeridade.» E «Relvas».

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Publicar menos e editar melhor. Mas duvido que isto seja uma boa ideia. Quando e se, algum dia, tiver uma boa ideia, não a conto numa entrevista.

 

 

 

Manuel Jorge Marmelo nasceu em 1971, no Porto. É jornalista desde 1989 e estreou-se na literatura em 1996 com o livro O Homem Que Julgou Morrer de Amor. Os 20 títulos que tem publicados incluem romances, crónicas, livros infantis e contos. Uma Mentira Mil Vezes Repetida, romance que a Quetzal publicou em 2011, teve uma excelente receção crítica. Somos Todos Um Bocado Ciganos, o seu novo romance, será apresentado no próximo dia 1 de junho, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos.

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Ter, 22/Mai/12
Ter, 22/Mai/12

 

O riso de Helena Sacadura Cabral é quase tão desconcertante como o ritmo a que vem publicando. Garante que as mulheres são mais alfabetizadas do que os homens e veem menos futebol, logo leem mais. Cansada do «Portugal dos Pequeninos», quer um país menos sisudo e com mais capacidade de se rir de si próprio. Fiel aos afetos, é adepta do poliamor editorial.

 

Está publicada em várias editoras. Isso deve-se ao facto de achar que um determinado livro funciona melhor numa determinada editora, ou é algo mais casuístico?

Inicialmente começou por ser assim. Mas, a certa altura, passou a ser a resposta a convites que me iam sendo feitos. Hoje, tenho nessa area, uma grande liberdade. Não tenho exclusividade com ninguém.

 

Há uma escrita feminina?

Não lhe chamaria uma escrita feminina. Há autores. Dentro desses autores, há mulheres. Mas acredito que uma mesma história vista por um homem ou por uma mulher possa ter perspetivas diferentes e que seja a isso que costuma chamar-se «escrita feminina».

 

Alguma vez se debruçou sobre a razão pela qual as mulheres leem muito mais do que os homens?

Talvez porque veem menos futebol… Como sabe, as mulheres das novas gerações têm um grau de alfabetização superior ao dos homens e por isso é natural que leiam mais. Nas gerações mais velhas, julgo que a mulher procura encontrar nos livros o que lhe falta no quotidiano.

 

A entrada no novo milénio despertou-lhe uma produção editorial muito forte. O que motivou esse investimento na escrita?

Talvez ter percebido que saber envelhecer é, sobretudo, investir mais em si próprio. Foi o que fiz!

 

Em 2004, convenceu-nos a fazer dieta à sua maneira, mas o ano passado já nos estava a dizer comam comigo. O que é mudou entre um livro e outro?

Nada. Num livro aconselho a comer melhor. No outro aconselho a comer bem. A escolha depende do que cada um pretende fazer com a sua alimentação. Mas no Coma Comigo nada lhe faz mal e ensina-lhe que a cozinha pode ser uma fonte de afetos e de prazer.

 

Num ano chegou a publicar quatro títulos. Como é que organiza a sua oficina de escrita de forma a responder a tantos projetos?

Sou muito disciplinada e gosto muito do que faço. E, como sabe, a minha atividade está longe de se resumir à escrita. Sou economista, e se há algo que faço bem é a gestão. Principalmente a do tempo…

 

Quanto tempo vamos ter de esperar por um romance seu?

Muito, certamente. O romance não me interessa muito. Gosto mais de escrever biografias e de short stories. E agora, até, de prosa poética.

 

Qual é a coisa mais importante que sabe e aquela que julga saber?

Em qualquer dos casos, sei que o mais importante na vida são os afetos. E nos afetos julgo saber que o mais importante é o amor.

 

Sabe explicar a raiz do enorme carinho dos Portugueses por si?

Talvez sentirem que eu sou como eles. Sem papas na língua.

 

O meio editorial e literário português é demasiado sisudo?

É. Como, aliás, o país. Fazem-nos falta os Eças e os Ramalhos…

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

O entrevistador é que seleciona o que pretende saber do entrevistado. Nunca o contrário!

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Défice» e «crise».

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Fazer o retrato do «Portugal dos Grandes», para nos dar esperança e ânimo. Andamos há muito tempo a falar do «Portugal dos Pequeninos».

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

Não. Percebo os motivos economicistas que estão por detrás dele. Mas o benefício não é nosso. É, sobretudo, para o Brasil. E eu ainda sou, orgulhosamente, portuguesa!

 

 

 

 

É licenciada em Economia e obteve o prémio para o melhor aluno do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF). Desempenhou vários lugares de chefia na Administração Pública, tendo sido a primeira mulher a ser admitida nos quadros técnicos do Banco de Portugal. Colunista de diversos jornais e revistas, foi também colaboradora da RTP. Atualmente mantém uma rubrica na SIC. Autora de mais de uma dezena de livros, concilia ainda a participação cívica com a atualização regular dos seus quatro blogues.

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Ter, 15/Mai/12
Ter, 15/Mai/12

 

Já que falamos de Guerra e Paz, bem podemos dizer que as respostas de Manuel S. Fonseca são dignas de um sniper. Rápidas e eficazes, as respostas distribuídas pelo responsável de uma editora que sofreu com a falência da Sodilivros são de uma acutilância invulgar. Para a coleção primavera/verão do setor editorial, Manuel S. Fonseca propõe o recurso a mais transparências, de forma a tornar mais públicas as virtudes e misérias privadas. 

 

Como vê esta falência da Sodilivros?

Para ser sincero, já só a vejo se me virar para trás. Mas pus-me ingenuamente a pensar que as margens impostas pelas grandes superfícies e cadeias livreiras talvez andem a matar o cavalo do inglês.

 

Qual a dimensão do prejuízo da Guerra & Paz com esta falência?

Tridimensional, diria. Uma coisa mais caótica do que alguns Picassos. E sem a competente excitação estética. Ora isso é o que mais me custa.

 

Porque não se juntam as pequenas e médias editoras para resolver o contínuo problema da distribuição?

No meu caso, e por timidez, falo com pouca gente. Mas é verdade que, a continuarmos com tanta delicadeza, arriscamo-nos a perder a vida.

 

Na Alemanha, a logística e distribuição está centrada em quatro plataformas semelhantes às utilizadas pelas farmacêuticas. Porque não se avança para um modelo semelhante?

Os Alemães sempre pensaram bem, e tenho de reconhecer que, a mim, a indústria farmacêutica nunca me falhou. E se já vou precisando…

 

Já encontraram distribuidora para a vossa editora. Foi um processo muito complicado?

Já. A Guerra & Paz está a ser distribuída pela VASP. Foi um casamento fácil, dada a maturidade dos nubentes. O livro apresentava-se à VASP como uma área de crescimento natural. A Guerra & Paz foi atraída pela invulgar agilidade logística da VASP e por uma solidez que encantaria até Vitor Gaspar.

 

Porque é que as editoras tendem a evitar uma solução que passe por uma estrutura que audite os números do setor livreiro e com isso se regule melhor vendas, distribuição, etc.?

Sou um feroz adepto da transparência. Trabalhei na televisão com números diários e ao minuto. Tomara eu que o setor livreiro se convertesse e iluminasse como as máquinas do Casino a darem jackpots.

 

A vossa decisão de não participar nas feiras do livro prende-se com o caso Sodilivros? 

Foi puramente circunstancial. Voltaremos alegremente ao Parque.

 

Este sobressalto altera de alguma forma a estratégia editorial da Guerra & Paz para o futuro? O que podemos esperar para os próximos tempos?

O que não nos mata torna-nos mais fortes. O nosso problema não foi a linha editorial. Dois mil e onze, não fora o descalabro da distribuição, teria sido o mais consistente dos sete anos de vida da editora.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Recessão, recessivo… Mas adoro recesso.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Na cultura? Os Jeremias S.A., esse largo grupo da mão estendida ao subsídio.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Francisco, quando é que acabas com os júris no cinema?

 

Acha o novo Acordo Ortográfico uma boa ideia?

Um Acordo para a língua é essencial. Este, para boa ideia, já incendiou demasiados infernos.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Editar menos.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Duas em uma: gosta de ler? E de escrever?

 

 

 

 

 

O espírito magnânimo de João Bénard permitiu que fizesse a primeira incursão editorial coordenando alguns dos sumptuários catálogos da Cinemateca. Fundou, nos anos 90, a Três Sinais Editores. Os deuses cumularam-no de graças, editando as Dedicácias, de Sena, e As Meninas, de Agustina. Em 2005, fundou a Guerra & Paz. Ainda é cedo para balanço, mas já lá cantam Agustina, Sophia, Sena, Aron, Scruton e Camões. Do que escreveu na Cinemateca, o seu favorito é o Catálogo do Musical, a meias com João Bénard. O generoso Expresso deixa-o escrever uma coluna semanal vagamente sobre cinema.

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Qui, 10/Mai/12
Qui, 10/Mai/12

 

A ciberjornalista Isabel Coutinho é uma espécie de Neo do Matrix, mas aplicado ao mundo dos livros. Não precisa de se conectar com um espigão na nuca: basta-lhe uma ligação wi-fi, e aí está ela a navegar rumo a Zion, terra onde os livros são digitais e se armazenam em enormes bibliotecas de bolso. Especialista em tudo quanto é eletrodoméstico aplicado à leitura, é também uma profunda conhecedora da literatura brasileira. Ao Blogtailors falou desses dois amores e de uma importante ideia para o setor editorial.

 

Como surgiu a ideia de criar o Ciberescritas?

Surgiu quando a minha coluna «Ciberescritas», no jornal Público, fez dez anos (em 2006), embora só o tivesse concretizado dois anos mais tarde. A minha ideia inicial era ir digitalizando todas as crónicas, desde a primeira, que foi publicada em 1996. Achei que era bom, até por causa dos workshops que fazia pelas bibliotecas do país, que houvesse um sítio onde as crónicas estivessem disponíveis. Ainda cheguei a digitalizar e a pôr online as crónicas dos primeiros anos. As mais recentes estão todas lá, embora com alguma distância temporal em relação ao dia em que são publicadas no jornal em papel. Curiosamente, um dos primeiros posts do blogue é um vídeo que filmei e montei numa viagem que fiz com um grupo de jornalistas norte-americanos aos locais de um dos romances de José Rodrigues dos Santos. O blogue é também uma forma de dar aos leitores um complemento dos artigos e entrevistas que publico no jornal.

 

Considera que Portugal está preparado para o mercado dos e-books?

Penso que sim. Portugal faz parte da União Europeia. Não me parece que esteja menos ou mais preparado do que outros países europeus. E, mesmo que Portugal não estivesse preparado, rapidamente se prepararia.

 

Quem vai ganhar mais com o e-book, o editor ou o autor? Vamos ter um braço de ferro feio de ver?

Eu espero sinceramente que ganhem os dois: o que é um sem o outro?

 

A que se deve que não exista neste momento um único suplemento literário na nossa imprensa?

À falta de publicidade na área.

 

Qual a sua posição face ao novo Acordo Ortográfico?

Não o aplico. O meu jornal ainda não o adotou.

 

Considera que o novo Acordo Ortográfico fomentará uma maior troca cultural entre Portugal e Brasil?

Não é isso que a experiência me tem dito. Gostava imenso de responder que sim a esta pergunta, mas não é o Acordo Ortográfico que vai engolir a distância entre os dois países.

 

Quantos gadgets tem afinal em casa e como é a sua relação com eles?

Isso é um mito urbano [risos]. Eu tenho dois e-readers: um Sony e um Kindle (já estão velhinhos). E tenho também um iPad (de primeira geração). São, para mim, instrumentos de trabalho.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Há muitos anos, na Book Expo America (BEA), conheci o editor fundador da editora Twelve. Ele editava 12 livros por ano, um livro por mês. E, como só publicava um livro por mês, podia dar-lhe toda a atenção do mundo (desde a produção até ao lançamento e com uma intensa campanha de marketing).

 

É verdade que prefere um mau escritor brasileiro a um bom autor de outra nacionalidade?

Acho que a boa e a má literatura não têm nacionalidade. Agora, se quiserem que eu fale do efeito de uma boa foto do escritor na badana…

 

Porque é que em Portugal os escritores brasileiros não vingam?

Cresci com a literatura brasileira a vingar. Na minha adolescência lia-se O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos; Vidas Secas, de Graciliano Ramos (li no liceu); e a coleção da Livros do Brasil, com obras de Lygia Fagundes Telles, José Lins do Rego, Euclides da Cunha, Erico Veríssimo ou Jorge Amado — era parte importante das bibliotecas daqueles tempos. Essa ligação à literatura brasileira foi-se perdendo, mas nos últimos anos editoras como a Cotovia (com a excelente coleção «Curso Breve de Literatura Brasileira»), a Quetzal, a Dom Quixote e a Caminho têm editado de forma mais ao menos constante o que de melhor se vai fazendo do outro lado do Atlântico. Também o Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa tem ajudado à divulgação dos escritores brasileiros em Portugal, bem como os festivais literários, como o Correntes d’Escritas, o LEV — Literatura em Viagem ou o Festival Literário da Madeira. Acredito que com o regresso do Brasil como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt, em 2013, a visibilidade dos escritores brasileiros em Portugal (e no mundo) voltará a aumentar.

 

Em Portugal e no Brasil multiplicam-se os festivais literários. Como vê este fenómeno?

Se a qualidade se mantiver, têm todo o meu apoio.

 

Alguma vez os Portugueses estarão dispostos a pagar para ouvir falar um escritor, como acontece em Paraty?

Espero que sim.

 

 

 

 

 

 

Nascida no Porto em 1966, é licenciada em Filosofia, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É jornalista do Público desde o seu aparecimento, em 1990, onde começou como estagiária e tem trabalhado na área da cultura. Desde 1996 que assina semanalmente a crónica «Ciberescritas» sobre sítios da Internet relacionados com escrita, literatura, escritores e livros. Foi editora do suplemento «Mil Folhas» de 2002 a 2007, ano em que o caderno literário acabou. Há mais de uma década que cobre as grandes feiras internacionais do livro, como a de Frankfurt, o Salon du Livre, a London Book Fair e a Book Expo America. Desde 2009 que vai à FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil. É colaboradora do caderno «Ilustríssima» do jornal brasileiro Folha de São Paulo, no qual, a partir de 2010, escreve a coluna «Diário de Lisboa». No âmbito do Programa Nacional de Promoção da Leitura, do IPLB, tem realizado, há mais de 10 anos, a ação de formação «Literatura na Internet: um mundo onde os livros não têm cheiro» em várias bibliotecas nacionais. É uma das autoras do guia Lisbonne (Nouveaux Loisirs) da editora francesa Gallimard, já traduzido para português.

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Qui, 3/Mai/12
Qui, 3/Mai/12

 

 

Num mundo em que parece prevalecer o medo de pensar, o jornalista do Jornal de Notícias Sérgio Almeida admite que o jornalismo cultural no Porto encontra muitas dificuldades no momento de escrever sobre livros. O mentor do projeto Porto de Encontro, que arrasta centenas de pessoas para ouvir conversas com escritores, admite que Lisboa é demasiado importante no volume de vendas das editoras e que isso determina o tratamento dado ao Porto. Preparado para lançar um livro infantil e a trabalhar num livro de contos, o jornalista diz precisar de melhorar a condição física para atacar a escrita de um romance.

 

Porque será que os jornais de maior circulação reservam tão pouco espaço aos livros, nomeadamente à recensão crítica?

O problema, infelizmente, não é novo, mas tende a agravar-se em função das tremendas dificuldades por que passa a imprensa tradicional. Pressionados por todos os lados, os jornais optam por jogar pelo seguro diminuindo o risco. A fórmula por que optam baseia-se, assim, numa atenção desmesurada a tudo o que diga respeito a futebol, crime e social(ite), ofuscando tudo o que possa assemelhar-se vagamente ao perigoso ato de pensar. É este, parafraseando José Gil, medo de subsistir que explica o quase desaparecimento da crítica literária das páginas dos jornais portugueses, e não tanto, quero crer, a reduzida consideração que têm pela inteligência dos leitores. Oxalá não se apercebam demasiado tarde do erro.

 

O projeto Babel é a resposta a essa falta de espaço na versão em papel do JN? Como funciona editorialmente a seleção do que aí é colocado, sejam notícias ou recensões?

Em parte, sim. Escrever recensões em 500 caracteres ou menos, como já me aconteceu, é basicamente a arte do impossível. A grande vantagem dos conteúdos online é o facto de não estarem limitados a constrangimentos de espaço. É verdade que a dinamização do blogue tem ficado aquém do desejado, porque os livros, feliz ou infelizmente, não são a minha única área de trabalho. Mas conto muito em breve impulsionar o blogue através da criação de novas secções e do acentuar da componente noticiosa e de divulgação, sem esquecer as recensões, claro.

 

Como é que surgiu o projeto Porto de Encontro? Que avaliação faz destas primeiras sessões?

A história do Porto de Encontro remonta a 2009, quando, a convite do Dolce Vita Porto, apresentei durante pouco mais de um ano uma série de colóquios sobre temas culturais. O espaço acabou por revelar-se desadequado para o que pretendia, mas a ideia ficou-me. Reformulei o conceito, centrando-o em conversas pessoais com escritores, e a Porto Editora mostrou-se recetiva de imediato. A adesão, mais do que positiva, tem sido inacreditavelmente boa. Reunir centenas de pessoas para ouvir falar de livros (ainda por cima de autores que não são vedetas televisivas ou gurus da autoajuda) pode não ser a salvação do mundo, mas, que diacho, alguma esperança representa.

 

Não é estranho que a mesma cidade que esgota o Porto de Encontro e as Quintas de Leitura deixe morrer o Clube Literário do Porto?

Causaria estranheza porventura se o Porto não fosse a cidade dos paradoxos por excelência, a urbe fascinante que por vezes se deixa encantar por rios de ignorância e má-fé. O êxito continuado das Quintas e os bons augúrios iniciais do Porto de Encontro provam, antes de mais, que existe um público numeroso e fiel de iniciativas culturais, ao contrário do que nos querem impingir. A falência do CLP é outra questão, porque entra no domínio económico: o dinheiro no bolso dos Portugueses, dos que gostam ou não de ler, é escasso, e subsistir fora do eixo das principais cadeias livreiras tornou-se deveras complicado.

 

Para o setor editorial, o Norte continua a não ser uma prioridade?

Regionalismos à parte, até compreendo essa atitude. Basta atentar no peso que Lisboa detém nas vendas de livros: dois terços do total. A macrocefalia é uma realidade nacional, e os livros não são exceção. Apesar de tudo, causa-me alguma estranheza que editoras sediadas no Porto cinjam a Lisboa as visitas de um autor estrangeiro, agendando aí apenas as sessões de apresentação ou as entrevistas. Talvez seja defeito meu, mas gostaria de acreditar que os livros não são apenas bens económicos mas também culturais.

 

É possível fazer jornalismo cultural, sobretudo na área da literatura, a partir do Porto?

Possível é, embora me depare sempre com mais obstáculos. Noto isso sobretudo no contacto com entidades oficiais sediadas em Lisboa, para as quais o Porto é quase tão remoto como Cabul ou Katmandu. Mas também há vantagens, porque a distância, desde que bem utilizada, pode aumentar a lucidez e a independência.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Partindo do princípio de que a escolha da palavra «crise» já é um cliché, à força de tanto ser repetida, opto por «austeridade», que soa cada vez mais a um novo regime, o austeritarismo. A História fará o devido julgamento daqueles que promovem alegremente o empobrecimento de milhões, a pretexto dos mais esfarrapados motivos.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

«Ódio de estimação» é uma expressão demasiado forte para catalogar aqueles de quem não gosto. Simplesmente, não merecem. Claro que tenho as minhas aversões, embirrações ou simples manias. No meio literário, por exemplo, não suporto os carreiristas, os falsos humildes e, acima de tudo, os que, como dizia Boris Vian, «escrevem com lâmpadas no rabo», convencidos de uma importância que detêm apenas no plano imaginário. Se sobram muitos que não se encaixam nos itens atrás referidos? Prefiro não responder.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Como o Francisco José Viegas será, à partida, o próximo convidado do Porto de Encontro, não gostava de esgotar o efeito-surpresa… Todavia, seria interessante saber se as condições que o levaram a aceitar o cargo foram exatamente as mesmas que encontrou quando tomou posse. Devido ao respeito que tenho pelo seu percurso, custa-me vê-lo como um dos rostos de uma política para a qual qualquer artista é um potencial subsidiodependente.

 

Quando volta a escrever ficção? E para quando um romance?

Os planos da escrita e o da publicação nem sempre são coincidentes. O primeiro exige tempo e maturação, o segundo é cada vez mais descartável, sujeito às regras do mercado. Lido bem com o primeiro; com o outro, cada vez menos, confesso. Embora já não publique há anos, nunca deixei verdadeiramente de escrever. Tenho dois livros concluídos: um para a infância, O Elefante Que não Sabia Voar, deverá sair em outubro, com ilustrações de Alberto Faria. O outro é um volume de contos, género que me seduz em particular pela capacidade de síntese — uma espécie de concentrado de mundo — que requer. Quanto ao romance, chegará um dia, eu sei, mas não sem que antes faça muita coisa primeiro. Plantar uma árvore, correr a mini-mini-mini-maratona…

 

Acha o novo Acordo Ortográfico uma boa ideia?

Não, não acho. E nem sequer alinho pelas teorias conspirativas da cedência aos interesses brasileiros. Constato apenas que o dito Acordo — palavra com o seu quê de irónico, dada a discórdia que suscita — representa um empobrecimento irreversível da língua, um passo mais rumo ao seu abastardamento completo. Como profissional da comunicação inserido num grupo que já adotou o Acordo Ortográfico, aplico-o, mesmo a contragosto, no dia a dia. Mas, fora do âmbito profissional, só o aplicarei quando entender.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Apesar de ser uma ideia utópica (mas o que seria de nós sem a utopia?), aqui vai: e que tal se os diversos integrantes do meio editorial pagassem o que é devido? Tal como está, o setor caminha para o abismo, porque ninguém paga a ninguém: as editoras não pagam à gráfica, as distribuidoras não pagam às editoras, as livrarias, por seu turno, não pagam a ninguém… Já para não falar do autor, coitado, que, na ótica destes ilustres promotores da cultura, já se deve dar por satisfeito com a publicação. Se cada um pagasse ao que lhe está mais próximo, o dinheiro circularia e os incumprimentos contratuais deixariam de ser tão frequentes. Só assim será possível afrontar os caloteiros da ordem. Aliás, não deixa de ser caricato constatar que o setor que se dedica ao comércio da palavra esteja repleto de gente desprovida da mesma…

 

 

 

 

Nascido em Luanda em 1975, Sérgio Almeida é jornalista do Jornal de Notícias, secção cultural, desde 1999. Coordena e apresenta o Porto de Encontro, ciclo mensal de conversas literárias que contou nas primeiras edições com autores como Gonçalo M. Tavares, Manuel António Pina ou Luis Sepúlveda. É autor dos livros Análise Epistemológica da Treta, Armai-Vos uns aos Outros, Como Ficar Louco e Gostar Disso e Ob-dejectosIntegra o coletivo de performances poéticas Sindicato do Credo.

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Ter, 24/Abr/12
Ter, 24/Abr/12

 

Garante que as miúdas se tornam mais giras quando gostam de escritores e que o próximo cataclismo que romanceará tem lugar na nossa rua. A coisa que mais o irrita é uma certa forma violenta de ser portista, virtude de que padece. Deseja que os editores levem os autores mais vezes ao colo. Foi uma das muitas ideias que conseguiu produzir, enquanto não se distraiu com a miúda gira que acabou de sentar atrás dele, na esplanada.

 

Qual é o próximo cataclismo que vai marcar a sua escrita: o Katrina, Fukushima ou o massacre de Utoya?

[sorriso matreiro tão aberto que deixa escapar as típicas quatro gargalhadas sonoras do tripeiro e que demonstram a gratidão pelo estilo desempoeirado, e aliás antecedem todas as respostas subsequentes] Qual era a pergunta? Aaah. Bom, e aviso já que as respostas são verdadeiras e não pretendem a piadinha devolutiva estilo Madonna: vão ser dois cataclismos, dois livros, um na vossa rua (juro) e outro na literatura de todo o mundo entre o século XVII e hoje. O Katrina é demasiado americano (até para mim, subculto americano), Fukushima já foi a poema — busca! (na Net: «Hoje é um dia feliz», com o Sayuri) —, e Utoya foi à pressa para o cinema. Nã.

 

Qual o seu foco principal quando está a escrever um livro?

Todos menos eu, tudo menos o meu; numa palavra: o resto. E, confesso, aborrecer os génios. Ou seja: todos menos eu.

 

A sua oficina de escrita obedece a que princípios?

Aos princípios da física, por um lado, e aos da paciência, por outro. Se lá me aparece um conhecido duas vezes, mudo. Por isso, vejam se não repetem, até porque o pessoal já me conhece, e aquele vosso número da gabardine é literalmente «chato». Mais: raparigas giras é má ideia, porque começo a mexer-me na cadeira. Ainda agora se sentou uma atrás de mim, e eu já sei que não vou escrever mais nada.

 

A Manhã do Mundo não chegou a ser editado nos EUA. Eles ainda lidam mal com a literatura sobre o 11 de Setembro?

Esta vou responder a sério: não há literatura que entre nas Torres. Se virem, avisem, para formarmos a ALT. Essa literatura, só daqui a dez anos, disse-me uma luso-americana que também ficou surpreendida por só haver literatura de contexto ou cenário, com uma ou outra exceção que confirma a regra (o Lello e o Lillo não confirmam). Quanto a não ter chegado a ser editado nos EUA, vou parafrasear uma putativa leitora minha: «Estou ansiosa por ler o livro e vou fazer tudo para o apanhar na net em PDF.». Portanto, a arte é como deus, está ilegalmente — deus também não está legalizado — em todo o lado, queiramos ou não.

 

O que preferia: uma referência no Dica da Semana ou uma boa crítica no jornal Expresso?

Eu tive uma crítica jeitosinha no jornal Expresso, mas acho que o Zé Mário Silva está completamente subaproveitado no dito, e, sinceramente, deveria diversificar e daria muito mais no Dica, onde nem no setor dos congelados apareci. E poucos tiveram esse privilégio.

 

Miguel Real fala de uma geração de ouro na atual literatura portuguesa. Concorda? Sente-se parte dela?

Para já, quem é de ouro é o Miguel Real, e eu não sou de elogio fácil. Estamos muito bem servidos de escritores, sim senhor. Mas reparem que a qualidade do metal de uma geração não depende nem da idade nem das vendas. Os casos sérios de hoje têm cem ou mais anos e não venderam bem. Convém termos essa humildade e não andarmos sempre a encher a boca com sentenças definitivas, que só demonstram vistas curtas. Não podemos avaliar o que vai ser. Sabiam que na correspondência entre Rodrigues Miguéis — que vendeu muito bem, é muito bom e ainda não teve a sua hora — e Saramago, de 1957 a 1971, Fernando Pessoa não é referido uma única vez (pelo menos na publicada)? Não tenho uma visão geracional, não vejo vantagem nenhuma em estimular a escrita jovem (a leitura sim, falta muita leitura), porque sou dos que acredita no mérito da espera e na maturidade, apesar de Rimbaud, e apesar do que custa vencer os anticorpos de qualquer meio literário (única vantagem da precocidade, ir batendo com a cabeça). No fundo, há muito tempo, porque o verdadeiro espaço literário de um escritor vem depois de ele ir falecer. Noto que o conceito de «ir falecer» é hoje a principal arma do mais bem pago cómico português, o que tem nome de hip-hop. Vou ali falecer. Uma mixórdia (de tomate e queijo).

 

Escreveu um romance passado em Nova Iorque. Portugal não é literariamente interessante?

É-me um bocado indiferente, porque Portugal já está muitíssimo bem tratado. Mas já escrevi muitas páginas situadas em Portugal. Que um dia verão a luz. Penso que ainda neste século. N’A Manhã do Mundo não me interessou a inovação do estilo, mas do olhar e da estrutura. Quis um romance em aparelho, quis acompanhar os saltadores sem terror e com mundividência. Só saberei se o consegui quando alguém do século XXII desenterrar o livro. Não há condições para o saber nos próximos 50 anos.

 

Quais as maiores dificuldades que um autor sente para publicar um primeiro livro?

Essencialmente é ter deixado de ser importante na cadeia alimentar. O autor, que antes estava no topo da pirâmide, aparece agora a meio. É o chatinho. O que não é admissível, seja de que literatura falarmos. Mesmo que a alguns até lhes faça bem humildarem-se. Lá ter de trabalhar pelo próprio livro não é mau. Lá não ganhar, em regra, nada que se veja, não é novidade, e é assim há séculos. Pagar as despesas todas é aborrecido, não ganhar um tostão nas apresentações idem, e essa mentalidade tem de mudar. Mas sem o autor não havia livro, enquanto que sem todos os outros elementos só não devia, mas podia. É fundamental que quem escreve se convença de que um editor é fundamental: pode ser pessoal, se não for possível um profissional, mas é fundamental que seja bom leitor e tenha sentido crítico. Mesmo um escritor consagrado não deve dispensar um editor. É mau sinal quando o faz. O meu encontro com a Rosário foi feliz, até porque começámos com os pés, a discordar um do outro, e não houve graxa rigorosamente nenhuma, não está nem no feitio dela nem no meu. Ela até me chamou «Coca-Cola humana». E sou, é verdade.

 

O que tem de especial ser-se um menino da Rosário?

É muito divertido porque se levam caneladas que lhe são dirigidas e se pode servir como alvo das setinhas dos desabafos dos que acham injusto ela ser a marca que é. Ou seja, está-se mais tempo em jogo do que o normal, mesmo no breve tempo de um livro hoje. Além disso, permite conhecer as meninas da Rosário, como a Aida, a Filipa, a Sónia, etc. Ó-ó. Mais: a própria Rosário tem consciência do exagero das solicitações de que é alvo, mais por falta de imaginação do que por lhe dedicarem atenção e a respeitarem. Ela personifica um modelo de referência que é fruto do seu trabalho. Mas eu preferia que conhecessem as suas extraordinárias qualidades como leitora e poetisa.

 

Tem pena de não ter publicado mais cedo e com isso ganhar o prémio José Saramago?

Tenho. Dava um jeito do caraças. Mas não me importo de ganhar o prémio Rimbaud para maiores de 50, logo que lá chegue.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Os tipos que destroem áreas de serviço em nome do nosso FCP, como se isso fosse amor, sem que o Pinto da Costa — ou pelo menos o Emplastro — os ponha em sentido. Como advogado, se tenho de defender um superqualquercoisa em tribunal, são garantidas duas horas de sermão em que eu lhe explico que eu, o meu pai e um irmão vestimos a camisola do FCP com honra e temos vergonha deles. Que amor não é ódio aos tipos que dão sentido às nossas vitórias. O Benfica — por quem sofro lá fora — tem direito a festejar títulos no Porto, como o Porto os festeja em Lisboa, cidade maravilhosa, mesmo às escuras. Qualquer animal racional tem amigos benfiquistas. A minha mulher é benfiquista e é uma grande mulher. Tenho saudades de quando havia futebol em Portugal e trissemanários desportivos. Penso mesmo que o principal problema da economia portuguesa são os diários desportivos. Por serem diários, não por serem desportivos. Ao menos que voltassem a publicar livros em fascículos — os diários desportivos — como os jornais de antanho. Eu podia desenvolver a ideia, mas agora não tenho tempo.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

O Francisco pode explicar ao Pedro que o primeiro sintoma de doença social é o ato de menorizar a criação? Não, Francisco, não estou a falar de famílias numerosas.

 

As miúdas giras gostam de escritores?

As miúdas tornam-se giras quando gostam de escritores.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Tentem lá parar com esta lógica perversa da novidade e alargar a vida dos livros, publiquem menos, invistam em novas estéticas, sejam visionários, voltem a ter prazer em levar um escritor ao colo, promovam-no como marca (os melhores já fazem isto tudo, mas são poucos).

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Consegues dar resposta de uma só linha? E eu responderia que conseguir, conseguia, mas não era a mesma coisa.

 

 

 

 

Pedro Guilherme-Moreira escreve sem carta e é politicamente incorreto quando declara a plenos pulmões que o faz desde muito novo e que não, não foi nada acidental. Estava farto de ouvir a família dizer bem dos poemas e das fábulas parvinhas com que tentava impressionar os professores e, como qualquer escritor frustrado, começou a escrever poesia pondo nisso o maior drama possível. Experimentou a prosa lá pelos 20, mas comparava com coisas decentes e ficava envergonhado. Depois percebeu que tinha de se apressar se ainda quisesse colar na testa o autocolante de «jovem escritor». Foi assim que já tarde, aos 40, mais coisa menos coisa, a chamar a mulheres de 50 «raparigas da sua idade», publicou, com o alto patrocínio de Maria do Rosário Pedreira e das Publicações Dom Quixote, onde pululam dezenas de prémios nobéles, um livro sobre as vísceras do 11 de Setembro chamado A Manhã do Mundo. Teve um acolhimento muito razoável nos dois meses em que as livrarias deixam estar o livro quieto nas montras sem devolverem os que não se vendem, e ascendeu ao 6.º lugar no top Bulhosa. Os pontos altos da carreira do livro foram o professor Marcelo ter recomendado um único livro no dia 11 de Setembro, precisamente A Manhã do Mundo, e, ex aequo, a visita a uma escola de Novas Oportunidades em Azeitão, na qual pessoas sem a instrução completa o foram ouvir com o seu livro na mão porque sim. É advogado e pioneiro das novas tecnologias, mas acha que ainda é muito cedo para ter iPad e muito tarde para ter iPhone. Vive, escreve e corre junto à praia e é adorador e ex-atleta de voleibol.

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Qui, 19/Abr/12
Qui, 19/Abr/12

 

Esta entrevista foi aprovada pela Comissão de Avaliação de Entendimentos Subversivos (CAES), até porque abril não é um bom mês para censurar. Deste e de outros assuntos se ocupa a entrevista a Dóris Graça Dias, uma crítica que conhece pessoalmente poucos escritores e que lê os livros até ao fim. Gosta de olhar para a crítica como um exercício onde a isenção não entra e que se legitima enquanto partilha com o leitor. Protagonista de uma das mais mediáticas polémicas, chamemos-lhe literárias, continua a considerar que faz falta alguma capacidade de choque aos jornalistas e críticos portugueses.


Nota prévia: Respondo a este questionário considerando a crítica literária dirigida ao grande público e não a especialistas. Certo editor cultural de certo jornal dizia que partia sempre do princípio de que o leitor (de jornais) era estúpido. Repugna-me esta opinião. Contudo, há diferenças significativas ao nível do interesse dos públicos referidos. Entendo que a crítica (de qualquer área artística) nos jornais deve constituir essencialmente um exercício de partilha e de cumplicidade com o leitor. Cabe a este último aderir ou não às propostas dos diferentes críticos. Entretanto, para revistas como a LER, por exemplo, com que atualmente colaboro, porque se trata de uma revista integralmente dedicada à literatura e aos livros como veículo de transmissão de conhecimento em todas as áreas, com uma periodicidade mensal, há e tem havido espaço para os dois tipos de abordagem, procurando-se enfatizar a divulgação da variedade possível de oferta e estar próximo de um discurso que visa a conquista de todos: especialistas, habituais, esporádicos e potenciais leitores.

 

É possível ser-se 100% isento na crítica literária?

Prefiro o vocábulo «imune». Imune à moda, imune aos ares do tempo, imune à crítica dominante (independentemente de ter afinidades com ela ou não), imune ao marketing, imune à propaganda, imune às amizades, imune aos conhecimentos, imune a cargos, imune a simpatias. Isento? Um crítico antes de mais é um leitor. E um leitor é uma pessoa. E uma pessoa não se isenta perante a literatura, a arte. (Isenção tem o jornalismo. Tem?)

 

Qual o papel de um crítico literário num tempo em que os suplementos culturais vão perdendo força?

Nenhum. Parece que há pouco papel. De todos os tipos. Brinco, mas, de facto, perdem força porquê? Porque os leitores escrevem aos diretores (aos administradores?) a dizer que os não querem? A publicidade não se interessa? A questão é estrutural. Quem orienta editorialmente as publicações — e gostaria que não fossem as administrações (elas têm de acreditar na capacidade profissional dos respetivos responsáveis) — é que tem de perceber que a cultura faz parte da vida. (Cultura não é só literatura.) E quem vende espaço publicitário tem de conhecer bem os objetivos editoriais da publicação. Não há para aí fenómenos? Então é porque há resposta por parte do público (eu incluída). Ele (eu incluída) só precisa de ser informado. Depois os fenómenos tornam-se menos fenómenos, e as descobertas sucedem-se mais democraticamente. (Mas tenho dúvidas de que seja assim tão fácil.)

 

Há cada vez menos espaço nos jornais para os livros. Faz sentido falar-se de livros de que não se gosta?

Livros de que não se gosta? Não sei se «gostar» é o verbo correto. (Sem contradição com a resposta à pergunta 1.) Há autores a quem reconheço uma série de atributos literários mas que não aprecio. Eventualmente, faço uma crítica a um seu título, sublinho o reparo pessoal à obra — ou ao que conheço dela (na perspetiva da aproximação crítica a que estamos a referir-nos, é falacioso fazer passar a ideia de que se conhece profundamente a obra toda de todos os autores que se criticam — conhecem-se literaturas, tendências, vertentes, culturas, heranças; têm-se afinidades, ansiedades, vontades, amores, desamores comuns…) —, mas depois abandono.

Não vou fazer nenhuma preleção sobre crítica, mas ela tem na sua génese a análise (no caso, de um texto — tendo em atenção diversíssimos aspetos); se essa análise resulta positiva ou negativa, depende de uma série de fatores intrínsecos ao texto. Quando começo a ler um livro, não sei da qualidade dele (do que para mim é qualidade); posso suspeitar — e depois desiludir-me, espantar-me, confirmar afinidades ou firmar desconfianças.

Faz sentido expressar opinião — sem qualificativos, aqui — sobre determinada obra. Um crítico não é dono da verdade. Partilha a sua perceção com um leitor virtual. Repito: partilha. E esse leitor virtual, que por acaso ou hábito conhece o trabalho do crítico, avalia-o e sente-se influenciado por ele ou não. (Isto é, no pressuposto de que um crítico influencia leitores.)

 

A polémica entre críticos e escritores faz falta?

Não. A polémica em si é que faz falta. Pode ser muito ingrato, mas a partir do momento em que um autor (em qualquer área artística) torna a sua obra pública, esta deixa de lhe pertencer. Se quiser teorizar sobre o seu trabalho… porque não escrever ensaios ou, simplesmente, escrever? E deixar-se entrevistar. Haja jornalistas culturais que tenham onde o fazer, que os descubram, que lhes façam perguntas difíceis e não se deixem apenas seduzir pela visibilidade (outra) dos autores. E há até quem não se deixe entrevistar, o que acho também muito bem.

 

Já alguma vez um autor lhe deixou de falar na sequência de uma crítica literária?

Os estrangeiros, que já não me falavam, continuam a não falar… Os já falecidos, então, nem pensar.

Não conheço muitos autores… Faço por isso (com mais intimidade, quero eu dizer). De muitos que conheço, não fiz crítica a obras porque não calhou; a outros, fiz tanto positivas como negativas. E o mundo é pequeno. Já houve um escritor que me disse, e muito bem, que eu tinha sido injusta com ele; e até ousou dizer que eu não tinha lido o livro até ao fim. «Isso é que não!», respondi. «Então, não leu o livro todo», insistiu. «Não repita isso; por mais doloroso que me seja, leio os livros na íntegra.» Aceitou, desconfiado; e eu desconfiada fiquei por ter sido tida por mentirosa e vigarista. Mas ninguém se zangou.

Também já houve autores, que não conheço pessoalmente, que me escreveram agradados com uma crítica minha a uma obra sua. Eu cá não lhes respondi… (Afinal, a minha crítica era já um agradecimento.)

 

O que é fundamental para se ser um bom crítico literário?

(Pergunta indiscreta; resposta suscetível de ser interpretada como arrogante.)

Saber ler e escrever… Ter uma relação de prazer com a leitura e com a escrita. Ter disponibilidade mental. Procurar seduzir para a leitura. Partilhar cumplicidades. O ideal perseguido: uma cultura abrangente (tanto quanto possível, não é? — estamos sempre a crescer), desejo de aprender, conhecimentos literários, conhecimentos ao nível artístico diversificados, perceção das potencialidades da ficcionalização da realidade, das culturas, da história, do mundo. Um cultor da linguagem apto a perturbar­-se com ela.

 

Tal como Bartleby, se lhe pedirem para escrever sobre um novo romance de Miguel Sousa Tavares, dirá «Preferia não o fazer»?

(Pergunta maldosa…) Oh, como compreendo Bartleby. Não pedem. Isto não é uma fuga; eu respondo o que responderia: «Eu não faço autocensura; vocês fazem censura se eu considerar a obra medíocre e o declarar — como grande parte da crítica tem feito a outras obras de MST —, mas sem subterfúgios, como já tenho feito com “outros autores”?» E, contrariando a resposta à pergunta 3 sem a contrariar, acrescentaria: «Mas acham que vale a pena? É que eu tenho aqui umas propostas que, à partida, me parecem poder ser interessantes. Uma delas, aliás, já folheei e parece-me ser de cair para o lado.» Acho que a coisa morreria por ali. Sem autocensura nem censura.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

«Olá, Francisco, estás bom?» (O mundo é muito pequeno, e a pergunta seria sincera; esta era a primeira pergunta, e como só me pediram uma…)

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

O setor editorial português tem boas ideias; as administrações é que não sei.

 

Que crítica já escreveu e, depois de publicada, lhe deu azia?

Sincera e felizmente, nenhuma. (Minto. Inadvertidamente, minto. Tive «azia» por duas vezes, com responsáveis editoriais diferentes, por me secarem o texto, anulando-lhe a marca de individualidade… Não era censura; de facto, não — estava lá tudo —, era «uniformização» da escrita. Das duas vezes, depois de obter esta resposta a um pedido de explicação, agradeci e participei que, sendo assim, não estava interessada em manter a colaboração.)

 

O Acordo Ortográfico faz sentido?

O atual, absolutamente nenhum. Não cabe aqui explicar razões, nem eu saberia esgotá-las. Os historiadores da língua e os linguistas portugueses — e brasileiros —, com provas dadas, já o explicaram há muitos anos. Nenhum político ativo lhes deu ouvidos — aliás, nem sabem que existem. Todos os partidos com assento na nossa Assembleia da República não levantaram qualquer objeção. Da esquerda à direita. (A falta de cultura, e de interesse por ela, da nossa classe política é não só confrangedora como assustadora.)

A grande discussão quanto a um entendimento de um Acordo Ortográfico tem como base optar por uma grafia fónica, etimológica ou, ainda, mista. O português no Brasil tem tendido para a grafia fónica, na Europa domina a grafia etimológica, e nos restantes países da lusofonia a tendência tem sido esta última, com o enriquecimento respetivo dado pelas realidades territoriais e suas línguas autóctones (países jovens, a efetivação do português como língua de aprendizagem ainda está muito fresca). A escrita é uma convenção e, como todas as convenções, faz-se com regras, e as regras estão a ser baralhadas, sobretudo no português europeu, ao ser imposta a opção por uma «idealizada» grafia fónica; o «não há regra sem exceção, e a exceção faz a regra» foi substituído pelo «não há exceção sem regra, e a regra faz a exceção».

O português não é a única língua internacional. Andamos a descobrir que pólvora?

 

O e-book vai matar este convívio?

O convívio da Feira do Livro? Então, passa a ser a Feira do E-Book — espero que inventemos uma expressão portuguesa: Feira do Livro Digital (por exemplo — não tem nada que saber; estas coisas é que enriquecem as línguas, não as ortografias forçadas…). Provavelmente, durante muito tempo, vai ser Feira do Livro Misto, ou só, e para sempre, Feira do Livro (não é já o suporte que lhe dá o nome; antes havia papiros, muito mais tarde os monges, coitadinhos, copiavam, copiavam… e muito depois nasceu a imprensa, e depois vieram os in-fólios e etc.). O que queremos é que todos saibam e gostem de ler e etc. Há meia dúzia de anos, a uma senhora portuguesa entrevistada por uma televisão e que não sabia ler, perguntaram se tinha pena dessa sua realidade; a resposta veio pronta e comovente: «Então não tenho? Ler é tão bonito.»

Pois, não sei. Dizem que andámos a viver acima das nossas possibilidades… As novas tecnologias são acessíveis a todos? Económica… e culturalmente? Da iliteracia passaremos à infoexclusão?

No meu último livro, publicado há já 12 anos, refiro a possibilidade de deixarmos de ler em suporte papel… Ui, mas até lá não nos doa a nossa cabeça.

 

 

 

 

Dóris Graça Dias (Moçambique, 1963) é licenciada em Estudos Portugueses pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e leciona na Universidade Autónoma de Lisboa ao mesmo tempo que se dedica ao jornalismo (desde 1989), à tradução, à revisão e à crítica literária (desde 1991; atualmente para a revista LER). Prepara uma tese em Literatura Portuguesa. Tem participado em mesas redondas de tradução e de literatura em Portugal e no estrangeiro. Como escritora, publicou As Casas (prémio Inasset/Inapa de Revelação 1989; prémio Máxima de Revelação 1991) e Biblos — Os livros. É júri do Prémio de Literatura FNAC/Teodolito (ex-Teorema), desde o seu início, em 2001.

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Ter, 17/Abr/12
Ter, 17/Abr/12

 

A precisão cirúrgica das respostas não deixa dúvidas: estamos perante um médico. Pelo menos de dia, já que, de noite, Miguel Miranda se transforma em escritor. A versatilidade é, aliás, uma das suas principais características, ou não incorporasse um gato no seu mais recente romance. No final, fica a certeza: tudo está bem desde que haja Whiskas por perto e não se pense em repristinar. Ou em ácaros de pó.

 

Ser escritor no Porto é um defeito ou uma virtude?

É uma virtude. Se olharmos para o planisfério, verificamos que o Porto é o centro do Mundo.

 

O Miguel Miranda médico ainda tem paciência para bancar o Miguel Miranda escritor?

Sou médico de dia e escritor de noite. Tenho dificuldades ao crepúsculo…

 

Já escreveu romances em registos muito diferentes. A sua obra é composta de mudança?

A minha obra tem caixa automática, as mudanças são múltiplas, mas a viagem é suave.

 

Neste mais recente romance, Todas as Cores do Vento, o narrador é um gato. O que é que custou mais na adaptação ao mundo visto por um gato?

Ter de comer Whiskas.

 

Sempre somos um país de brandos costumes no que diz respeito à religião?

Somos muito tolerantes. E isso é um valor do país. É talvez o único país do mundo onde os líderes da comunidade muçulmana e israelita se dão bem, comunicam, têm os números de telemóvel uns dos outros. Isso é exemplar.

 

Como é que vão ser comemorados os 20 anos de carreira literária?

Com pouca pompa e muita circunstância. Além da viagem ao país real em 60 dias depois do lançamento de Todas as Cores do Vento, destaca-se uma exposição sobre os meus 20 anos de carreira literária no El Corte Inglés Gaia-Porto (de 7 a 14 de abril); um jantar literário a 13 de abril também no El Corte Inglés Gaia-Porto (são convidados todos os que me acompanharam neste percurso, desde quem me apresentou livros até aos meus editores), em que a ementa é elaborada por mim em conjunto com o chef do restaurante e em que eu irei mesmo para a cozinha elaborar alguns dos pratos; e ainda a publicação de uma edição comemorativa dos 20 anos, um pequeno livro com um conto, que destino para oferta em momentos selecionados.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Repristinar.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Os ácaros do pó da casa.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

«Quando vens beber um copo?»

 

Os festivais literários são uma boa ideia?

São excelentes para o convívio.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico faz sentido?

Acho-o uma trampa obrigatória.

 

Sente que o setor editorial português sofre de alguma patologia? Que tratamento lhe recomendava?

Sofre da síndrome de estrangeirite crónica. Trata-se com injeções de autores portugueses.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«Quando é que vem beber um copo connosco?»

 

 



Miguel Miranda é médico e autor de vários romances, livros de contos e livros infantis. Recebeu o Grande Prémio de Conto da APE pelo livro Contos à Moda do Porto (1996); o Prémio Caminho de Literatura Policial pelo livro O Estranho Caso do Cadáver Sorridente (1997); e o Prémio Fialho de Almeida pelo livro A Maldição do Louva-a-Deus (2001). Está representado em diversas coletâneas e traduzido em Itália e em França. Todas as Cores do Vento é o seu sétimo romance, depois de Dai-lhes, Senhor, o Eterno Repouso, já publicado pela Porto Editora.

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Qui, 12/Abr/12
Qui, 12/Abr/12

 

Como bom açoriano, aceitou o desafio de transcender a distância, munindo-se de capa e espada e partindo para cima dos críticos, ou não fosse, nas suas próprias palavras, um escritor «mau como as cobras». Mas não é preciso ter medo: o seu grande inimigo é o colesterol… e, claro, o Benfica. Em todo o caso, fica o aviso: esta entrevista não é para meninas.

 

Quando é que muda de clube?

Quando o meu cardiologista me proibir em definitivo as grandes emoções. Nessa altura, continuar do Sporting será suicídio. Ou eutanásia.

 

Acha que as mulheres vão comprar o seu livro só para o poder cortar às tiras?

Este livro não é para meninas. Keep away.

 

O que motivou uma espera tão grande para escrever este romance?

O facto de não saber escrever. A minha cronologia é curiosa: primeiro publiquei, depois aprendi a escrever.

 

Em que é que a sua condição de ilhéu se faz sentir na escrita de ficção?

Em quase tudo. Na forma, no conteúdo e até na própria obsessão da literatura. Há uma razão muito clara para os Açores e a Madeira, como quase todos os outros arquipélagos ao redor do mundo, terem produzido tantos escritores: transcender a distância é um desafio quase irresistível. Provavelmente, aliás, toda a arte é isso: a transcendência da distância. Das distâncias.

 

O Joel Neto crítico e comentador não costuma ser muito meigo. O Joel Neto escritor está preparado para enfrentar os «joéis netos» da crítica literária?

O Joel Neto escritor reserva-se o direito de continuar a ser mau como as cobras. Eles que me venham com criticazinhas, que é para verem. [risos]

 

Hoje o tempo é mais bem aproveitado a ler um jornal português ou a fazer uma volta de 18 buracos?

Uma volta de 18 buracos é uma viagem repleta de abismos, de beleza, de filosofia. Nem um jornal português, nem um jornal estrangeiro, nem dois terços dos livros do mundo podem equiparar-se-lhe. Essa comparação é, aliás, bastante injusta para os jornais portugueses, que fazem o que podem para sobreviver num tempo que se desinteressou da coisa pública — e, de resto, num país em que o grau de escolaridade parece cada vez mais inversamente proporcional ao grau de literacia.

 

Se fizesse um programa de televisão, como é que ele seria?

Eu não voltaria a fazer um programa de televisão, provavelmente. A não ser que fosse um daqueles em que se pode mandar bocas ao Benfica. Já imaginou o quão fixe será pagarem-nos para dizer mal do Benfica?

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Colesterol.»

 

Qual o seu maior ódio de estimação (e só vale escolher um)?

O colesterol.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

«Prometes que no fim me contas tudo?»

 

Os festivais literários são uma boa ideia?

Acho que sim. Sobretudo neste tempo. Ou levamos a literatura às pessoas, ou estamos tramados.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico faz sentido?

Faz sentido do ponto de vista economicista, embora talvez sobretudo para os Brasileiros. Do ponto de vista técnico, é um aborto. E, do ponto de vista literário, uma tragédia. Como autor, sinto-me verdadeiramente vilipendiado nos meus recursos. E confesso que ainda tenho uma vaga esperança de que esta gaita volte toda para trás.

 

O que é que os editores portugueses ainda não fazem bem?

Diversificar. A literatura portuguesa vive um momento de grande fulgor, mas continua estratificada e afunilada. Falta-nos uma literatura popular de qualidade, por exemplo.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«Projetos para o futuro?»

 

 



Nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou livros de ficção, de crónica e de reportagem. Escreveu em quase todos os grandes jornais portugueses, ganhou vários prémios de reportagem e vem desenvolvendo há mais de 20 anos uma intensa atividade como cronista. O seu livro O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas (2002) foi adotado como leitura obrigatória pela Universidade dos Açores. O volume anterior, O Terceiro Servo (2002), foi alvo de estudo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no Brasil. Banda Sonora para Um Regresso a Casa é uma seleção das suas melhores crónicas, a maior parte delas publicadas na coluna «Muito Bons Somos Nós», distribuída com os jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Saiu em 2012 Os Sítios sem Resposta, publicado pela Porto Editora.

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Ter, 10/Abr/12
Ter, 10/Abr/12

 

Nasceu num país que não existe, vive num país a lutar pela existência e torce por um clube em constante crise existencial. Sandro William Junqueira multiplica-se na escrita, teatro e poesia, procurando abalar um certo bem-estar ilusório. Garante que faz falta teatro nas escolas e que Portugal está velho e ligado à máquina.

 

Diz que não gosta do conforto. É desconforto o que procura provocar nos seus leitores?

Não disse que não gosto do conforto. Disse que o conforto é algo perigoso. Pois, se nos sentimos confortáveis durante longos períodos, é porque estamos desatentos, embriagados de uma segurança e bem-estar ilusórios. A doença, o acidente, a morte, os impostos, estão ali, ao virar da esquina. E ninguém sabe onde e quando vai deixar de pagar o IVA de vez. Se como leitor gosto de livros que me desinquietem, que me deem porrada à séria, é natural que esse desassossego surja no ato da escrita. Escrever, para mim, é o maior espaço de liberdade individual que encontrei. E usufruo dessa liberdade sem autocensura.

 

Quem o ouve adivinha o meigo; quem o lê pressente o rude e bruto. É uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde?

Nunca se conhece um homem. Cada um de nós tem muitos outros cá dentro. Embora me pareça que, apesar de se entrelaçarem a vida e a escrita, são dois movimentos distintos. Uma coisa é o escritor. Outra, o filho, o marido, o pai, o amigo. O Fabrício Carpinejar escreveu isto: «Entre o escritor e a vida, há uma diferença. A vida escreve e não joga os rascunhos fora. Publica tudo.»

 

Querer fazer a vida como escritor, ator e encenador é um ato de coragem ou masoquismo?

É necessária uma tonelada de coragem e umas quantas arrobas de masoquismo.

 

A felicidade não faz boa literatura?

Na minha opinião, não.

 

Gosta de dizer poesia e de escrever poesia?

Quando possível, tento que a poesia escorregue para dentro de tudo o que escrevo.

 

Natural de um país que não existe (Rodésia), a viver num país a lutar pela vida, será isto a que chamam «carma»?

Sim. Nasci na Rodésia por acaso, uma circunstância. E sinto um vazio enorme de não conhecer esse lugar onde pela primeira vez respirei. E de saber que esse lugar, através das histórias que os meus pais e familiares me contam, através de fotografias, já não existe. E sinto igualmente um vazio enorme por Portugal. Julgo que Portugal não é um país a lutar pela vida. Antes, um velho moribundo, ligado à máquina. Um velho moribundo cujo estertor os médicos sabem não haver retorno, mas, ainda assim, certos familiares e certos amigos insistem em mantê-lo ligado à máquina: quanto mais não seja por causa do dinheiro que advém da reforma deste. E enquanto estiver ligado à máquina… Sim, tudo isto é «carma». Quem sabe numa próxima reencarnação?

 

É mais difícil ser escritor ou ser do Sporting?

As duas tarefas exigem esforço, dedicação, suor, insanidade, coração e lágrimas (alegres e tristes). Pergunto-me muitas vezes: escreves porquê? És do Sporting porquê? E as respostas fogem-me. Sem certezas de nada — cada vez tenho menos certezas sobre qualquer assunto —, pressinto que ser do Sporting é uma enorme ferramenta de desenvolvimento espiritual. E suspeito que ser escritor é um fazer que possibilita uma aproximação à incompreensão da alma humana.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Financeiro.»

 

Qual o seu maior ódio de estimação (e só vale escolher um)?

A hipocrisia.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Uma retórica: «Nunca mais vamos ter um Ministério da Cultura, pois não?»

 

Porque é que temos tão poucos dramaturgos?

Não sei… Talvez por uma não tradição cultural, por uma questão de ADN. Neste país, o teatro e as artes em geral nunca foram uma prioridade. Um ponto de partida para o desenvolvimento. O teatro não está presente nas escolas. A música está, a educação física está, a educação visual está, a formação cívica está, mas não o teatro. E o teatro deveria estar presente nas escolas como uma disciplina curricular. Esta é a minha opinião. Porque o teatro é a língua, é o corpo físico, é a música, é a estética, é a dança, é a sociologia, é a sociedade, é a História. Acredito que o teatro vai mais longe do que a filosofia no que toca ao desnudar do ser humano. Tenho tido o privilégio de trabalhar com jovens estudantes através de oficinas de expressão dramática, e sinto e vejo resultados incríveis em termos humanos, intelectuais e criativos. Resultados que depois se prolongam e se manifestam nas outras disciplinas. Mas, voltando à questão inicial, penso que temos hoje uma nova geração de dramaturgos de que nos podemos orgulhar: o José Maria Vieira Mendes, o Jacinto Lucas Pires, o Miguel Castro Caldas, o André Teodósio, o Tiago Rodrigues, entre outros. Agora, a questão que se deve fazer é esta: como é que um dramaturgo sobrevive em Portugal?

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico faz sentido?

É um fato: ele para para ver na montra uma joia?

 

O que é que os editores portugueses ainda não fazem bem?

Que não consigam pôr os políticos a ler poesia, romance, conto, banda desenhada, etc…

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«É verdade que afirmou que o Buda foi o primeiro adepto do Sporting?»

 

 

©Ana Bento



Sandro William Junqueira nasceu em 1974 em Umtali, na Rodésia. Experimentou música, escultura, pintura. Foi designer gráfico. Diz poesia. Trabalha regularmente no teatro como ator e encenador. Leciona expressão dramática. É autor de inúmeros projetos e ateliês de promoção do livro e da leitura.

Publicou O Caderno do Algoz (Caminho, 2009), Um piano para Cavalos Altos (Caminho, 2012), e foi um dos 11 escritores da novela policial O Caso do Cadáver Esquisito (Associação Cultural Prado, 2011).

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Qui, 5/Abr/12
Qui, 5/Abr/12

 

Há quem garanta que os ensaios gerais correm sempre mal. Nos que são dirigidos no exato momento em que os jornais esquecem a cultura, a rádio acorda para as artes e sobretudo para os livros. Maria João Costa, na Rádio Renascença, é a exceção que confirma a regra. Presença habitual nos festivais literários, a jornalista garante que esses são momentos em que trabalha que se desalma, que não chega a gozar bem o convívio e que partilha de latas de conserva, à porta das tendas, enquanto os escritores tocam djambé. Para evitar uma entrada direta para o Índex, esta entrevista não contém provocações pouco católicas.

 

A que especificidades obedece a Rádio Renascença no que diz respeito à divulgação de informação ligada ao livro?

Dois fatores essenciais para a divulgação são a qualidade do livro e a entrevista ao autor. A rádio faz-se de som, e para que o livro seja notícia privilegiamos a entrevista. Dependendo do género do livro, pode ser notícia em espaços diferentes da rádio. A título de exemplo, o programa da manhã da rádio pode entrevistar um chef de cozinha sobre o seu mais recente livro; nos noticiários podemos entrevistar o político que acaba de lançar o seu livro de memórias; e no programa Ensaio Geral entrevistamos um escritor nacional ou internacional sobre o seu novo romance.

 

O que é para si motivo de notícia na área do livro?

Os critérios noticiosos são os mesmos que aplicamos a qualquer outra área noticiosa. O que é novo, o que sabemos em primeira-mão, o que está a acontecer. Podem ser notícias tão diversas como as mudanças na área editorial, um anúncio do Governo sobre o livro, um inédito que vai ser publicado, um novo livro, etc.

 

Sente que na rádio também há um decrescente interesse nas questões da cultura? Porquê?

Pelo contrário. Sinto que a informação da rádio está hoje muito desperta para a cultura. A Renascença tem marcado presença em diversos eventos culturais, sejam eles festivais literários, musicais, etc. Não só acompanhamos a agenda cultural como também damos atenção constante à política cultural. Ainda recentemente realizámos uma emissão especial de 24 horas na abertura da Capital Europeia da Cultura em Guimarães. No site da Renascença há mesmo uma secção de Cultura que está sempre a ser atualizada.

 

O que é que a atrai nos festivais literários? E ainda haverá espaço para mais?

Confesso que são os bastidores, os pequenos-almoços, almoços e jantares com escritores; as conversas informais com quem escreve, a possibilidade de conhecer grandes estrelas da literatura em ambiente descontraído. Com isto, parece que vou aos festivais apenas para conviver! Mas não, vou mesmo trabalhar, apesar de ganhar todo este mundo. Há muito que tenho a esperança de um dia ir a um festival sem ter de trabalhar. Mas para isso teria antes de escrever um livro, e não tenho descaramento para tal! Por isso continuarei a ir aos festivais ouvir escritores, entrevistá-los e sobretudo descobrir que o público tem sede de conhecer quem está por trás da escrita. Espaço para mais festivais? Espero que sim, porque há ainda muitos leitores para pescar neste mar.

 

O que é que o Ensaio Geral tem que os outros programas de rádio não têm?

O Ensaio Geral é um programa que fala ao ouvido de cada um dos 43 mil ouvintes que entre as 23.00 e as 24.00 estão sintonizados na Renascença. É uma espécie de presente de aniversário. Lá dentro está o que de melhor a semana cultural tem para mostrar. O «embrulho» sonoro deste presente é cuidado com o detalhe. O Ensaio Geral pretende ser um programa de excelência que conta com a colaboração semanal do presidente do Centro Nacional de Cultura. Falamos de dança, teatro, literatura, exposições, música, museus, arquitetura, etc. Fazemos também emissões em direto em alguns eventos culturais. Exemplos disso são as emissões que fizemos a partir do Festival Literário da Madeira, das Correntes d’Escritas; Dias da Música em Belém ou Guimarães Capital Europeia da Cultura.

 

Quantos livros fazem hoje parte do Índex?

Qual Índex? Não conheço, nunca me cruzei com ele lá na rádio.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Acho que a mesma que todos os portugueses. Aquela que começa com a letra «c», que é de origem grega e que nos está a deixar gregos.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Prateleiras onde os livros teimam em não caber.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

O que andas a ler, Francisco?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Pinto Ribeiro era o ministro que, se bem me recordo, sempre que falava da língua portuguesa dizia que era a língua que «usamos para namorar». Acho que está aí a solução… Amor à língua!

 

Acha o novo Acordo Ortográfico uma boa ideia?

Já passei a fase de «estado de choque». Agora ainda tropeço em espetadores que ficaram «espetados», nos atores que viram a sua categoria profissional ficar mais curta, mas acho que vou sobreviver.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Publicar menos e melhor. Não resisto a uma segunda ideia… Contratar bons cirurgiões plásticos para fazer um lifting a algumas capas.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«Quantas vezes ao dia vai ao Blogtailors

 

 



Jornalista do Grupo R/Com desde 1997. É, desde 2008, responsável pela edição do programa semanal de informação cultural Ensaio Geral, na Renascença. Editou, entre 2006 e 2008, outro programa de caráter cultural chamado Primeira Fila. Como repórter, já acompanhou campanhas presidenciais e autárquicas. Foi uma das repórteres da Renascença durante a Expo ‘98. É licenciada em Comunicação Social e Cultural pela Universidade Católica Portuguesa.

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Ter, 3/Abr/12
Ter, 3/Abr/12

 

Pedro Vieira faz cenas. Mas nenhuma delas é uma escola de culinária, ainda que saiba como tornar mais tenra a carne dos jornalistas. Diz-se um privilegiado no meio literário, já que o empurraram de um blogue para dentro de um livro. Foi cair em Massamá, terra de primeiras figuras e de tristes destinos. Artista de muitas variedades, não acredita que os Portugueses cheguem algum dia a pagar para ouvir escritores a falar, a não ser que uma ou outra escritora mais light opte por adornar as suas reflexões com umas danças exóticas. Esta é uma entrevista para ler e gozar, à portuguesa ou à brasileira.

 

Autor, ilustrador, DJ, apresentador de televisão, guionista. Para quando a abertura de uma escola de culinária?

Estou a tentar, embora não seja a melhor das épocas para começar uma nova atividade. Parece que a vida das PME anda tremida, a não ser que opte por investir no fornecimento de material para a PSP. Pode não ser uma escola de culinária, mas, enfim, ao menos os jornalistas agora comem que se desunham. Sobretudo no lombo. Calhando, por aí há futuro.

 

Está a escrever um novo romance, ou Massamá foi mesmo a última paragem?

Nem uma coisa nem outra. Não estou a escrever um novo romance, mas também não quero que Massamá seja a última paragem. Conto escrever mais, assim tenha uma boa ideia, e também há aquela questão da coragem e do alento e da vontade de trabalhar. Mas reitero: ficar por Massamá é fraca escolha, até por uma questão simbólica.

 

De que forma considera que a sua atividade como blogger contribuiu para o seu aparecimento no espaço público?

A minha atividade como blogger foi decisiva para esse «aparecimento» (eu prefiro «aparição», claro). A democratização trazida pelos blogues foi muito importante no dar a conhecer o trabalho de muita gente que até aí não tinha acesso aos canais clássicos da informação. É inevitável, haverá sempre talento escondido que pode estar à espera de uma oportunidade para ser potenciado. E depois há pessoas como eu, que contam com a compaixão de terceiros. É bom viver num país cristão.

 

Continua a assumir-se como um corpo estranho no meio literário. O que falta para sair do armário e assumir-se como escritor?

Embora goste de dessacralizar as questões em volta da literatura como coisa solene, tenho algum respeito por essa designação. Para se ser escritor, acho que é necessário viver essencialmente da escrita e contar com o reconhecimento dos pares e da comunidade. Assim como os físicos, que publicam artigos científicos depois do devido escrutínio. Eu sou um artista de variedades, faço coisas quando me desafiam. Escrever é uma dessas coisas.

 

O que é que o Ruca diria do seu livro?

É um livro do caralho. Pena não ter bonecos.

 

O que é que os escritores têm de fazer para que as pessoas se disponham a pagar bilhete para os ouvir?

Os escritores têm sobretudo de escrever. Também devem ajudar à promoção, falar com leitores, visitar bibliotecas, mostrar disponibilidade, mas é difícil pedir-lhes que sejam performers, que façam o pino. Há também o problema de o público não percecionar isso como um valor acrescentado, como acontece em Inglaterra, por exemplo. Não se pode ter tudo. O que é facto é que o prato nacional deles é à base de peixe frito… com batatas fritas. Escola de culinária o quê?

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Austerid…

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

É preciso muito empenho para alimentar um ódio, um empenho que não estará ao meu alcance. Mas o mais próximo que consigo alimentar nesse campo visa um cidadão português que gosta demasiado de bolo-rei.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Quando é que sais?

 

Quais as maiores dificuldades que um autor sente para publicar um primeiro livro?

Se há uma avalanche de publicações, suponho que à proporção os editores recebam ainda maiores avalanches de propostas, de ideias, de manuscritos para ler aos quais não podem, não querem ou não conseguem dar atenção. Eu fui um privilegiado, fui empurrado para a publicação e tive caminho aberto para fazê-lo. Volto à questão dos blogues e das redes sociais: continuam a ser boas plataformas para mostrar trabalho, e há que persistir. Mesmo que os resultados não sejam imediatos.

 

Que pensa do novo Acordo Ortográfico?

Não lhe descortino utilidade, continuaremos a escrever de forma diferente dos outros países de língua oficial portuguesa, nomeadamente do Brasil. Independentemente das consoantes mudas, «rapariga» no Brasil continuará a querer dizer «prostituta». E do verbo «gozar», enfim, eles tiram mais proveito. Continuarei a escrever com a grafia anterior ao Acordo, com uma ressalva: gosto ainda menos do discurso xenófobo a cavalo no Acordo do que do «Egito» sem «p». São gostos.

 

Qual foi a coisa mais extraordinária que ouviu quando era livreiro?

Tem o Portugal, Medo de Existir, do professor José Cid?»

 

Porque é que as livrarias independentes não conseguem fazer frente às grandes superfícies?

Não percebo nada de economia, situação que me põe ao mesmo nível da maior parte dos economistas. Mas suponho que grupos com maior fôlego consigam dinamitar a lógica dos descontos, esborrachar as margens, tornar-se mais competitivos, quando encomendam best-sellers entre uma caixa de faneca e uma palete de vinho Memórias de Salazar. Pode haver mercado para tudo, os compradores de livros em grandes superfícies não serão provavelmente os mesmos que poderão alimentar as livrarias independentes, que terão de distinguir-se pelo serviço, pela rapidez na encomenda de livros fora do circuito das novidades, pelo saber demonstrado pelos seus livreiros, pela lógica da proximidade. Como dizia um professor aqui há tempos, a publicidade joga com a diferença que faz a diferença. E as livrarias têm-na. Mas eu de negócios sei pouco ou nada. Já disse que prefiro o professor Karamba ao Medina Carreira?

 

 



Pedro Vieira nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde reside. Licenciado em Publicidade e Marketing, trabalha no Canal Q das Produções Fictícias como criativo, tendo passado também pelo grupo Almedina, pela Bulhosa Livreiros ou pelo C. C. Olga Cadaval. Fez formação na área da Ilustração, que exerce em regime freelance, em cursos promovidos pela Ar.Co e pela Fundação Calouste Gulbenkian. Atualmente é anfitrião do programa Inferno e é ilustrador residente da revista LER. Blogger indefetível, criou o irmaolucia e é coautor do Arrastão. Estreou-se na ficção com Última paragem, Massamá.

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Qui, 29/Mar/12
Qui, 29/Mar/12

 

Acertou direitinho no vencedor do Nobel de Literatura 2011 e viu-se envolvido numa das mais entusiasmantes polémicas dos últimos tempos: pode um crítico/escritor recensear um escritor «concorrente»? José Riço Direitinho, que se apaixonou pela literatura nórdica, garante que estamos out na tentativa de parecermos ingleses ou americanos. Nesta entrevista, há finalmente um romance à espreita, mezinhas para multiplicar euros e prognósticos antes de começar o jogo.

 

Como viu a discussão em volta da sua crítica ao último romance de Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens?

Foi uma tontice, uma reação a quente. A maior parte das pessoas que se pronunciaram contra a recensão não tinha lido o livro. Não se pode levar a sério uma coisa assim. O que para mim foi mais estranho foi ter percebido que há pessoas que acham que há autores intocáveis, se calhar há, mas ninguém me avisou… E depois o argumento de que eu também publico livros foi outra coisa ingénua: eu não publico há 6 ou 7 anos, não sou concorrente de ninguém, publiquei dois romances que fizeram o seu caminho. Cumpri o meu «serviço militar obrigatório» nas letras. E o argumento da inveja diz mais de quem o utiliza do que de mim; quem do «meio» me conhece minimamente sabe isso.

 

Como olha para a nova literatura nacional?

Já teve momentos mais altos do que os atuais. A literatura portuguesa, ao querer ser mais do eixo Londres/Nova Iorque, mais in, tornou-se mais out, porque nas outras literaturas europeias há um regresso ao ser mais «genuína»; por vezes, tornou-se mesmo um bocado risível. Mais uma vez andamos em contraciclo: quando as ondas cá chegam, já outras diferentes se levantam noutros lados. Acho que nos pomos um bocado em bicos de pés de cada vez que um autor é publicado no Brasil, ou traduzido. Vemos isso como um reconhecimento, o que muitas vezes não é, são apenas as leis do mercado a trabalhar, as amizades dos agentes e dos editores, o que é normal... Se não, veja-se quanto «lixo» é traduzido para português e publicado por cá, a tradução para a nossa língua não os valoriza... Nos outros países é o mesmo. Mas nós precisamos desse «reconhecimento» exterior. Mas, se isso nos faz mais felizes, pois que seja.

 

Para quando podemos esperar o regresso do José Riço Direitinho escritor?

Talvez para breve. Ando a escrever umas coisas: um romance e um livro de viagens.

 

Deixar de publicar nos últimos anos foi uma opção ou uma inevitabilidade?

Eu nunca quis ser um autor que se sentisse obrigado a escrever. Conheço suficientes exemplos para não querer o mesmo para mim. Tomei a opção de quase abandonar a engenharia para me dedicar mais à escrita jornalística, e isso tirou-me muito tempo e disposição mental para escrever as minhas próprias coisas ao ritmo que tinha antes. Apenas isso.

 

Este ano acertou em cheio no vencedor do Nobel de Literatura. Qual é o seu palpite para 2012?

Um dos três: o húngaro Péter Nádas, o holandês Cees Nooteboom ou o nigeriano Chinua Achebe.

 

O que é que a literatura nórdica tem de tão especial face à literatura, por exemplo, do Sul da Europa?

A presença constante da natureza, o intimismo, a melancolia, e a seriedade com que os temas são abordados, sempre.

 

Quantos livros já destruiu numa crítica literária só porque não gostava do autor?

Nunca escrevi negativamente sobre autores portugueses que conheço pessoalmente. Por isso, não corro o risco de estar a escrever sobre o livro de alguém de quem não gosto.

 

Já alguma vez um autor lhe deixou de falar na sequência de uma crítica literária?

Não. Os que deixaram de me falar foi porque se tornaram demasiado importantes.

 

Sobre que autor nunca faria uma recensão?

José Eduardo Agualusa, Pedro Rosa Mendes, Almeida Faria, Lobo Antunes, Dulce Maria Cardoso, Filipa Melo… Nunca escreverei sobre livros dos meus amigos.

 

O que é fundamental para se ser um bom crítico literário?

Muita, muita leitura. Capacidade de análise. Paciência. E não se importar muito de ser mal pago.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

São duas: «elencar» e «implementar».

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

São também dois: os hipócritas sorridentes e os corruptos, puta que os pariu!

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Francisco, quando é que fazes aquela mezinha com sargacinha-dos-montes, a que o José de Risso te ensinou sobre a multiplicação dos euros?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Não conseguimos. Não temos nem estrutura mental nem energia para isso, está toda ocupada pela inveja dos que fazem alguma coisa. E, a pairar como uma nuvem negra sobre tudo, há o medo, que parece uma coisa congénita (à semelhança da inveja). São os brasileiros quem vai valorizar a língua.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

Obviamente que não. Foi uma tontice que nasceu na década de 90, quando queríamos parecer modernos.

 

O novo Acordo é um erro? Porquê?

Não é um erro, é uma palermice que não serve para nada. Ou melhor, serve para ocupar o tempo e evitar que se discutam problemas sérios.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Que se deixe de publicar tantos títulos, e que não se entre numa corrida para esvaziar os armazéns a preço de saldo, porque a longo prazo isso vai asfixiar o mundo editorial português; «mais vale ter pouco para comer amanhã do que morrer hoje de barriga farta», dizia a minha avó.

 

 

©Pedro Loureiro



José Riço Direitinho nasceu em Lisboa em 1965. É engenheiro agrónomo, especializado em Economia Agrária e Sociologia Rural. Publicou dois romances e três livros de contos, Foi recentemente reeditado o Breviário das Más Inclinações (Quetzal). Tem textos traduzidos em revistas e antologias de uma dúzia de países. Colabora regularmente com o suplemento «Ípsilon», do jornal Público, e com a revista LER, escrevendo crítica literária.

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Ter, 27/Mar/12
Ter, 27/Mar/12

 

É uma crítica que também escreve, e só critica o que lê. Mas como só lê aquilo de que gosta, não admira que tenha já um vasto percurso literário a promover escrita de qualidade. Helena Vasconcelos pode não pensar no Acordo, mas sabe o que diz e sabe o que lê. A valorização da língua portuguesa é, afinal, um «sonho» em que «acredita».

 

Já alguma vez um autor lhe deixou de falar na sequência de uma crítica literária?

Não dei por isso, mas pode ter acontecido.

 

Sobre que autor nunca faria uma recensão?

Sobre aqueles que não leio.

 

O que é fundamental para se ser um bom crítico literário?

Ter vivido em Nova Iorque ou em Chicago nos anos 1930/1940 na altura do Edmund Wilson, da Dorothy Parker, do Lionel Trilling, do Clement Greenberg, da Mary McCarthy. Dadas as dificuldades inerentes a esta sugestão, só resta ir viver para uma destas cidades, agora.

 

O que encontra de estimulante nas comunidades de leitores para o seu trabalho como crítica?

Obrigam-me a estudar, dão cabo de mim, sabem muito mais do que eu, tenho de meter mãos à obra para aprender e para os acompanhar. Depois, quando volto sozinha e cabisbaixa para a minha mesa de trabalho, lembro-me deles e delas. E lá começo a escrever umas coisas!

 

A sua comunidade de leitores porta-se assim tão mal, que os tenha de castigar a ler o Thomas Mann quase todo?

Eu é que sofro, ando mesmo estafada, exaurida. Já não posso com o eros e o thanatos, o «lado dionisíaco» versus o «apolíneo», tive de reler o Nietzsche, o Schopenhauer, ouvir Wagner e Mahler. Para eles e elas, tudo isso é «amendoins». A minha comunidade de leitores devora Thomas Mann(s) ao pequeno-almoço…

 

Critica livros de que não gosta ou prefere dedicar-se apenas a livros que a impressionaram?

A chatice de morrer é deixar tantos livros por ler. Não tenho já tempo de vida para ler aquilo de que não gosto. E só escrevo sobre os que leio. Se há tantos de que gosto!!!

 

Porque é que alguma da mais popular literatura feminina é escrita por homens?

Ah, é? Estou completamente desatualizada. Esperarei ansiosamente pelos vossos esclarecimentos.

 

O meio editorial/literário português é machista?

Algumas das melhores editoras portuguesas são mulheres. Exemplos: Ana Maria Pereirinha, Lúcia Melo, Cecília Andrade, Maria do Rosário Pedreira, para citar só estas. Acham que elas criam um ambiente machista?

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Sonho» (como: o meu «sonho» é este, blá, blá, blá, e estou a lutar por «ele») e o verbo «acreditar» (como: «acredito que vai chover nos tempos mais próximos», ou «acredito que não vai ser preciso um novo resgate financeiro», ou, pior, numa pergunta: «acredita que o seu sonho é…?» Etc., etc.).

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

A ignorância triunfante.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Quando voltas para junto de nós?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Sempre valeu mais, na atual ou na perpétua conjuntura. A PT desaparece um dia destes ou torna-se TPA ou PTT ou TPB e passa a vender enchidos ou material de escritório. A Língua Portuguesa é uma senhora muito sábia, muito «rica», que anda por cá há muito tempo. Não vai desaparecer assim, do pé para a mão; o seu valor é inestimável, inesgotável. Há outra diferença: Língua Portuguesa é AMADA por milhões de pessoas. Quem é que «ama» a PT, tirando os administradores que recebem os prémios anuais?

 

Que pensa do novo Acordo Ortográfico?

Não penso… e, na dúvida, sobrevivo!

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Não percebo nada de edição, mas gostaria de ver, por cá, uma relação estreita das editoras com as universidades e a criação de «companheiros de leitura» para os nossos melhores escritores e escritoras — dentro do modelo dos Cambridge ou dos Oxford Companions. Deve ser uma péssima sugestão, mas não me ocorre outra.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«Acredita» que mudaremos de Governo muito em breve? Ou é só um «sonho»?

 

 



Nasceu em Lisboa, 1949. Promove ações de formação na área de apoio e divulgação à leitura: orientação de comunidades de leitores, workshops, comunicações, conferências em bibliotecas municipais, na Culturgest, na Fundação Calouste Gulbenkian, em universidades e, em 2011, no Museu Paula Rego, em Cascais.

É autora de: Não Há Horas para Nada (Relógio D’Água); Mário Eloy, o pintor do desassossego (Editorial Caminho); A Infância É Um Território Desconhecido (Quetzal); Humilhação e Glória (Quetzal). Colabora como crítica literária no suplemento cultural Ípsilon do jornal Público e na revista ELLE.

Neste momento organiza três sessões (uma já decorreu, a 17 de março, e as outras estão agendadas para 31 de março e 22 abril de 2012) dedicadas a Fernando Pessoa, na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito da exposição «Fernando Pessoa, Plural como o Universo», com oradores/professores e atores, dirigidos por encenadores. Nas escadarias da fundação, em jeito de performance/lição aberta.

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Qui, 22/Mar/12
Qui, 22/Mar/12

 

É editora e mulher de armas, ainda que, em guerra, prefira balas argumentativas. Carrega há um par de anos a bandeira da Planeta, mas, ao jeito de Rubem Fonseca, declara a língua portuguesa como sua verdadeira terra. Considera o novo Acordo uma simplificação feita à martelada. Admite a constante necessidade de renovação dia após dia. E apresenta-se uma sempre nova Ana Pereirinha, sem temores ou hipocrisias. Bem dizia Stephen King que «escrever é humano, editar é divino».

 

Está capaz de pôr um cinto de bombas e rebentar com o Acordo Ortográfico?

O desacordo é tão fraco e falho de tino, que não são precisas medidas drásticas de autoimolação: bastam duas ou três balas argumentativas, razões de chumbo miúdo contra a ausência total de razões: pum, pum, estás morto!

 

Acredita que a Planeta um dia ainda vai ganhar um prémio de edição?

A Planeta já tem muitos prémios nas salas dos troféus, em várias latitudes e longitudes. Todos os prémios, como é sabido, dependem muito dos satélites e dos asteroides que gravitam os vários sistemas. Não tenho dúvida de que num ponto ou noutro do planeta os prémios de edição estão sempre chovendo — menos do que os exemplares vendidos, espera-se, que por aí não tem havido seca.

 

A Ana Pereirinha é a nova Maria do Rosário Pedreira?

A ser uma, a Ana Pereirinha será a velha Maria do Rosário Pedreira, e não só pela associação aos novos-já-a-caminho-de-excelentes-velhos «meninos». Não há energia quotidiana disponível no mundo para mais de uma Maria do Rosário Pedreira, fazendo excelentemente tudo o que ela faz todos os dias. Nem é preciso ter tido a sorte de trabalhar — e aprender — com ela tantos anos (de 1997 a 2009) para saber isso. No entanto, e já tendo trabalho demais a tentar ser uma nova ela-própria todos os dias, a Ana Pereirinha orgulha-se de apresentar em breve ao mundo e ao futuro da Literatura Portuguesa o autor que teria ganhado o prémio Saramago em 1840, caso o prémio não fosse demasiado novo: Guilherme Centazzi, o pioneiro do romance português, que aos 32 anos escreveu aquele que viria também a ser o primeiro romance português traduzido para alemão, pouquíssimo tempo depois da sua publicação! (Vénia dupla, ou tripla, ao Pedro Almeida Vieira, que desenterrou este pioneiro O Estudante de Coimbra para a posteridade e que está neste momento a averiguar se o Centazzi terá sido convidado da Feira do Livro de Frankfurt por aqueles anos, para os direitos terem sido tão rapidamente transacionados…).

 

Nós não somos a Grécia, mas a edição está a ver-se grega?

A edição está a ver-se grega, como todo o país está a ver-se grego, e o mundo deveria ver-se grego, mas infelizmente está cego para a barbárie derradeira que o assola. Portugal é a Grécia, e nós somos gregos, e latinos, e árabes, antes de sermos ricos ou pobres. Que não tenhamos funda consciência disso, é a principal crise que nos assola, intra e extraeditorialmente (vide, por exemplo, a resposta à pergunta 1). Se só a edição estivesse a ver-se grega, quão fácil não seria transformarmo-nos a todos em homens e mulheres-livros, como no Farenheit 451, salvarmos as bibliotecas e os livros que nos interessam verdadeiramente, voltando à velha tradição agrícola e às courelas que os nossos avós nos deixaram pelo país fora e estão ao abandono… (OK, OK, Maria do Rosário, no teu caso está combinado que é olaria, não me esqueci). Tramado, tramado mesmo, é que TODOS estamos a ver-nos gregos e sem caminhos para sair da situação: graecum est, non legitur.

 

Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editora?

Ter tido salários em atraso e receber todos os dias reclamações por pagamentos devidos. Não sou caso único, nem eu nem a edição, infelizmente.

 

O que devem os editores saber rapidamente sob pena de desaparecerem?

Que todo o mundo muda mais rapidamente do que eles, que o mundo da edição não é exceção, e que não lhes adianta tentar correr cada vez mais depressa. Por mim, depois dos e-readers, da edição eletrónica e etc., na tentativa referida acima de ser uma nova Ana Pereirinha todos os dias, tenciono ir fazer um curso à Oficina do Cego para aprender os velhos mesteres do livro, saber pôr «a mão na massa».

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Alavancagem.»

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Os ódios de estimação vão variando, porque não sou pessoa de guardar ódios. Mas diria que, neste momento, a alavancagem está na ribalta, como atitude, e pensada não como mero conceito «novilinguístico» da selvajaria económica, mas aplicável a toda a atividade e atitude humana: na economia, nas políticas, no trato, etc.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Voltaria a aceitar ser secretário de Estado da Cultura?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Eis a pergunta-tipo que remete para o meu ódio de estimação atual. Quanto a mim, é tão fácil e tão difícil como fazer as pessoas com cargos de decisão, e especialmente com cargos de decisão ao nível da Cultura, valerem mais do que as que têm ocupado os cargos ultimamente.

 

Que pensa do novo Acordo Ortográfico?

Sou contra, como tem sido público e tenho afirmado sempre que posso. Não serve a língua, não serve a liberdade de pensamento ao cortar as raízes com a memória da língua. A simplificação sempre foi a mãe de todos os totalitarismos, mas uma simplificação feita à martelada, então, é sem comentários. Este «Acordo» não serve rigorosamente ninguém, a não ser alguns interesses políticos e económicos localizados e a falta de ideias para a área da Cultura, onde, aí sim, faz, e fez, muita falta para mostrar serviço. A riqueza da Língua Portuguesa no mundo está na sua diversidade, e é uma riqueza inalienável. Em contraste com um Acordo que não tem lógica nem rigor e que já ninguém quer mas onde o poder político não recua para salvar uma face que não tem, de resto, salvação possível. Fico feliz da vida, a rebentar de orgulho, quando ouço o Rubem Fonseca dizer «nós, portugueses», quando leio que o meu grande, magnífico, Caetano esclarece os poucos resistentes da «modernidade» (versus os botas de elástico...), que, na sua canção «quero roçar a minha língua na língua de Camões» equivale a «o Acordo Ortográfico é uma maluquice», ou quando o Jornal de Angola publica um editorial em defesa do português etimológico. Não direi a minha pátria, mas a minha terra, o meu húmus, é a língua portuguesa, sim, senhores: sou brasileira, sou angolana, sou moçambicana, sou timorense — com um orgulho imenso e um entendimento pleno. Não tenho o português «bom» — cresci a ler quadrinhos brasileiros, como toda a minha geração, e a aprender muitas coisas novas e expressões diferentes com isso. Entendi e entendo o português do mundo: estou-me nas tintas se os estrangeiros o aprendem com sotaque brasileiro ou português, é-me rigorosamente igual. Vivo no mais antigo e mais pobre país onde se fala português? Não estou em bicos de pés. E entendo que as minhas raízes são gregas, latinas e árabes. Lá está, somos todos «gregos» e andamos a ver-nos gregos por disparates sem fim, com este desacordo sem tom nem som.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Tomar, por exemplo, uma atitude firme relativamente a este desacordo flutuante. Aproveitar a crise para fazer livros escolares mais baratos, acessíveis às famílias dos futuros leitores. Massa cinzenta, precisa-se muito a curto, médio e longo prazo.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Se não fosse editora, o que quereria ser?

 

 

©Manuel San-Payo



Nasceu em Lisboa, no outono de 1965. Aprendeu o prazer de comer com os livros dos Cinco e foi asmática como o Proust (o que lhe proporcionou longos dias de leitura, inclusive de Proust). Tem um mestrado em Literatura Portuguesa Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa, onde trabalhou a obra de Maria Gabriela Llansol. Fez teatro e ativismo cultural, o que lhe deu uma superior formação sobre modos de fazer coisas. Trabalhou no Instituto Português do Livro e das Bibliotecas antes de entrar para o mundo da edição, onde passou pela Temas e Debates, QuidNovi e, desde 2010, Planeta. É editora. Gosta de árvores, de ervas e de coisas aromáticas e com folhas.

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Ter, 20/Mar/12
Ter, 20/Mar/12

 

Esta entrevista é cirúrgica. As respostas são como bisturis. João Luís Barreto Guimarães pegou no marcador e desenhou na pela do meio editorial todas as estrias a eliminar, a massa gorda a retirar e os implantes necessários para turbinar a nossa literatura. Poucos dias depois de ter revelado os haicai de Vítor Gaspar, o poeta do rés do chão garante que o tamanho provoca fracos desempenhos.

 

Eduardo Lourenço diz que «Portugal trata bem os seus poetas». Concorda?

Concordo. Só precisam de morrer primeiro.

 

Em França, há 100 000 poetas vivos identificados, mas as edições de poesia não ultrapassam os 300 exemplares. Os poetas não gostam de ler a poesia uns dos outros?

Gostam até muito. Só não têm é dinheiro para comprar os outros 99 700 livros…

 

Acredita mesmo que o tamanho do poema não interessa, ou é só uma desculpa?

Acredito que interessa. Quanto maior o poema, pior o desempenho.

 

Quando reviu os seus livros para o volume Poesia Reunida, não sentiu a tentação de corrigir uma estria ou fazer um lifting a um ou outro verso?

Senti. E corrigi. Para envelhecerem melhor, para parecerem mais velhos.

 

Agustina Bessa-Luís escreveu em Fanny Owen: «Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e está calada.» José Miguel Silva reformulou-o em: «Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e escreve versos sem sentido.» Há muita poesia portuguesa vestida de preto e sem sentido?

Alguma. Em particular aquela que se desloca em sentido único.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

A palavra «eco», à quinta ou sexta repetição.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

A palavra «ódio».

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Perguntaria ao Francisco quando sai o seu próximo livro de poemas.

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Essa é fácil. Retiramo-la do bolso e metemo-la na bolsa.

 

Que pensa do novo Acordo Ortográfico?

O Acordo é uma cena que a mim não me assiste.

 

Admite rever os seus poemas segundo o novo Acordo?

Não. Isso é algo com que estou em completo desacordo.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Uma coleção de pequenas antologias de bolso com uma seleção dos 40 melhores poemas da obra de poetas portugueses dos séculos XX e XXI, precedidos de um prefácio, ao preço de 4,90 euros, que os leitores pudessem levar no bolso para o trabalho. Os que ainda têm trabalho, claro…

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«É hoje que vai revelar quem é o Sr. Lopes?»

 

 



Nasceu no Porto, a 3 de junho de 1967. Vive em Leça da Palmeira. Tem uma filha. É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto, especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. Publicou o primeiro livro de poemas, Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram: Rua Trinta e Um de Fevereiro (1991); Este Lado para Cima (1994); Lugares Comuns (2000); 3 (Poesia 1987-1994), em 2001; Rés-do-Chão (2003); Luz Última (2006); e A Parte pelo Todo (2009). Poesia Reunida aproxima os sete livros que constituem a sua obra editada até ao momento.

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Qui, 15/Mar/12
Qui, 15/Mar/12

 

É preciso alavancar a poesia nos meios de comunicação social e gerar janelas de oportunidade para os jovens poetas. Este poderia ser o discurso de Ana Luísa Amaral, caso ela fosse uma CEO literária. Mas não é. Por isso, resta-lhe defender, como pode, as suas paixões. Nesta entrevista, a poeta das Vozes dá a palavra à defesa da educação, dos leitorados de língua portuguesa e até às consoantes mudas, que, se falassem, também diriam mal do Acordo Ortográfico.

 

Eduardo Lourenço diz que «Portugal trata bem os seus poetas». Concorda?

Concordo, mas tenho uma ressalva! Portugal, para o país que é, pequenino em área, publica bastante poesia. E fazem-se muitas leituras de poesia, e há encontros de poesia promovidos por câmaras, por juntas de freguesia, por escolas, por cafés… Isso tem de ter algum significado, o facto de se organizar uma tarde ou uma noite em torno de algo tão aparentemente inútil como palavras tecidas e arrumadas, ou desarrumadas, em imagens e ritmos. Em beleza. E acho que nesses espaços a poesia é muito acarinhada. Isto no que diz respeito à relação entre os poetas e os públicos mais imediatos — e mais sinceros, pois.

A ressalva: desapareceram em Portugal os suplementos literários, cada vez são menores nos jornais os espaços dedicados à crítica literária, e muito menos à de poesia, daqui a pouco nem existem… Ou seja, no que respeita ao papel que a imprensa e a crítica representam, eu não diria que Portugal «trata bem os seus poetas»; diria que não os maltrata, porque pouco os trata…

 

Sente alguma degradação no volume e qualidade de leituras com que os alunos se apresentam nas suas aulas, de ano para ano?

Eu dou aulas há trinta anos, e neste momento ensino sobretudo ao nível da pós-graduação. Aí, não sinto grande diferença, acho que os alunos estão, na generalidade, bem preparados; e se não leram certas coisas que eu acho importantes, fazem-no muito rapidamente. Mas eu ensino cadeiras de pós-graduação como Estudos Feministas, ou Escritas de Mulheres, nas quais só se inscrevem estudantes que realmente se interessam por estas temáticas (o que é para mim um privilégio), por isso é expectável essa melhor preparação.

No que diz respeito à licenciatura, e contrariamente ao que aconteceu há uns anos, nestes últimos dois anos não só tenho tido alguns alunos excelentes mas também tenho vindo a sentir os alunos muito curiosos e abertos. Dou um exemplo: este ano, numa cadeira de licenciatura chamada Drama do Século XX, dei Cloud Nine, uma extraordinária peça de Caryl Churchill. Ora essa peça é fortíssima, quer ao nível das temáticas que aborda, e que têm a ver com as políticas sexuais e as sexualidades, quer ao nível da própria linguagem. E os alunos adoraram. Adoraram e aderiram. Isto não acontecia há uns dez anos, ou então acontecia só com os melhores alunos. Acho esta abertura um sinal muito bom.

 

Com as atuais quebras de vendas, acredita que os editores possam começar a recusar a publicação de poesia?

Acho que sim, infelizmente. Não sei se isso vai acontecer com os autores chamados «consagrados» (uma palavra com a qual embirro, o que é isso de santificar autores?), mas com os autores mais jovens, ou menos conhecidos, não tenho grandes dúvidas. Até porque a poesia é o que menos vende.

 

A literatura portuguesa ainda precisa de queimar sutiãs?

Se «queimar sutiãs» é uma expressão metafórica para perguntar se as mulheres ainda precisam de gestos radicais para reivindicar um espaço e tomá-lo para si, a imagem não funciona lá muito bem… Até porque nunca ninguém queimou sutiãs. Isso foi uma invenção dos jornalistas, a propósito de uma manifestação de mulheres em Lisboa. Inventou-se essa história porque era essa a imagem que se tinha das feministas (e, infelizmente, ainda é, em certos círculos). Queimar seja o que for lembra-me logo a Inquisição, os autos de fé, o nazismo, expurgações… Espero bem que a literatura portuguesa não precise de queimar nada, a não ser o pensamento e as emoções, o que não é pouco! Só as palavras queimam, sem fogo a sério, mas com fogos de outra natureza.

 

Dentro de quanto tempo a literatura machista vai passar a ser encarada como libertadora?

O que é isso de «literatura machista»? Se é o oposto de feminista, então «literatura machista» é uma literatura divorciada do gesto ético, porque o feminismo é, para mim, tão simples quanto isto: uma questão de direitos humanos. A literatura é sempre, de uma certa forma, ética. Portanto, não me interessa muito elaborar sobre a ideia de «literatura machista» encarada, ainda por cima, como libertadora. Libertadora de quê? Da dominação das mulheres? Mas as mulheres também escrevem coisas machistas… Essa pergunta não me faz muito sentido. O que eu gostava era que a questão do sexo de quem escreve deixasse de ter importância, passasse a ser um espaço de in-diferença, pura e simplesmente porque a diferença não significaria desigualdade.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Troika.» Temos a palavra portuguesa «triunvirato», mas isso não resolve o meu problema, porque as duas me sugerem ditaduras. Ultimamente, há outra que para aí se diz sobre a economia: «alavancar». Esta é, além do mais, muito feia.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

O ódio. O ódio produz coisas aberrantes, como a xenofobia, ou o racismo, ou a homofobia, ou o sexismo, e mais uns ismos e umas fobias. E pode matar. Se me forem permitidos mais dois ódios de estimação (mas se calhar tenho de escolher…), eles são a injustiça e a corrupção.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Quem escreveu um livro tão bom como Longe de Manaus há de saber que o progresso passa pela cultura e que a cultura está a ser maltratada no país, com tantos cortes. É-lhe fácil pactuar com as diretivas culturais do Governo atual?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Mas a língua portuguesa valerá sempre mais do que a PT, eles é que não sabem… Porém, é necessário que as jovens gerações se apercebam disso também. Para tal, acho que é preciso investir no ensino de outra maneira. Por exemplo, criar turmas muito pequenas, de forma que os alunos possam ser bem acompanhados, e que os professores possam fazer um trabalho quase tutorial. Investir na língua portuguesa é também não fechar os cursos de leitorado no estrangeiro a torto e a direito. Parece ser mais fácil fechar um leitorado do que despedir um administrador de uma empresa, que pode facilmente arranjar outro cargo, ou reduzir-lhe drasticamente o salário, e isso é, além de muito triste, um erro crasso com repercussões terríveis no futuro.

Para já, pelo menos, o valor em si da língua portuguesa é imenso e tem uma «projeção internacional» muito maior, tal como o «seu portfólio» (estou a citar do site da PT) é infinitamente mais diversificado do que o da PT…

 

Que pensa do novo Acordo Ortográfico?

Desacordo do Acordo e não o vou adotar (até me passou pela cabeça passar a ler o «p» mudo, de tanto disparate que já se disse sobre a necessidade de uma língua escrita dever equivaler à falada, de forma a impor-se! Até parece que o inglês, cuja componente oral é tão diferente da componente escrita, é pouco falado no planeta!). Disse já, e mantenho, que o desacerto e o desacordo podem ser motor de uma benéfica pulverização daquilo que parece ser estático, mas de facto não é: uma língua. Por isto também acho que, para o nosso valor enquanto povos irmãos, todos os que falamos a língua portuguesa, o acordo é de uma absoluta ociosidade. Não serve de nada, em termos semânticos — no caso do Brasil e de Portugal, por exemplo, a «camisola» brasileira continua a ser a nossa «camisa de noite», a nossa «camisola» continua a ser o «suéter» brasileiro; e, tal como «fato de banho» português é a «sunga», ou o «maillot» do Brasil, o nosso «fato» continua a ser o «terno» deles. E está muito bem assim, essa diversidade significa riqueza. Mas o Acordo é ortográfico, e aí penso que ele é criminoso, no que respeita ao valor da própria língua. Com o Acordo, lá se vai o «c» do «facto», e passa tudo a fato, o que é um disparate. O acordo espatifa consoantes de uma forma incompreensível. O que faz com que «acepção» e «acessão» (coisas completamente diferentes) sejam lidas de forma diferente é aquele «p»… Podia dar aqui muitos mais exemplos, mas acho que chega, a Internet está cheia deles.

 

Admite rever os seus poemas segundo o novo Acordo?

Não. Não admito. O subtítulo do meu último livro, Próspero morreu, é «Poema em acto». Que lógica teria «Poema em ato» (poema em gesto de atar)?

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Criar leis de proteção às pequenas editoras. Isso seria fundamental! Porque o setor editorial está a ser engolido pelos grandes grupos e, em certos casos, por pessoas que não percebem nada de livros e que só veem os livros como bens de mercado, e que gerem as editoras antes independentes como se estas fossem fábricas de parafusos.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Qual é a sua posição perante a política atual? Não me importava nada que a tivessem feito.

 

 

©Rita Amaral



Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa, em 1956, e vive, desde os 9 anos, em Leça da Palmeira. É professora associada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem um doutoramento sobre Emily Dickinson. Publica na Dom Quixote. É autora de 14 livros de poesia, bem como de vários livros para a infância. Traduziu autores tão diversos como Eunice de Souza, John Updike ou Emily Dickinson. Recebeu vários prémios em Portugal e no estrangeiro. A sua obra encontra-se traduzida em diversas línguas e publicada em vários países.

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Ter, 13/Mar/12
Ter, 13/Mar/12

 

Treina a Clube do Autor desde 2010 e garante que tem um plantel literário equilibrado e sem necessidade de fazer grandes dietas. Cristina Ovídio não acredita que o campo sintético do e-book venha a substituir, no imediato, o fascínio natural do papel. Ainda assim, já vai fazendo alguns treinos para que a sua equipa não seja apanhada desprevenida. Como boa ideia para o setor escolhe a multiplicação dos festivais literários, de Norte a Sul. Cristina, ouvido e registado.

 

A Clube do Autor já joga na 1.ª divisão da edição?

Os nossos adeptos são sem dúvida da 1.ª divisão.

 

Quais são as grandes diferenças entre a Clube do Autor e a Oficina do Livro?

A Oficina do Livro foi fundada em 1999, e a Clube do Autor, em 2010. Uma década depois, os contextos são necessariamente diferentes.

 

Sempre assumiram uma vontade de abraçar as novas tecnologias. Como está a ser desenvolvido esse negócio?

Teremos de estar preparados para nos adaptar às novas tecnologias, mas mantendo a lucidez de não irmos atrás de modismos que facilmente se tornam obsoletos. É fundamental não irmos atrás do último grito das tecnologias e aproveitarmos o que de melhor acontece nesse admirável mundo novo para conseguirmos cumprir o nosso objetivo principal: chegar ao leitor, pois a defesa dos interesses dos autores será sempre a nossa prioridade e o nosso caminho. E não cremos que esteja em risco o encanto dos livros em papel.

 

A crise já está a obrigar a uma dieta rigorosa no plano editorial?

Procurámos ser sempre criteriosos na seleção. Nunca fomos gordos e, por isso, não necessitamos de dieta.

A crise implica uma escolha, mas não tem de ser rigorosa. A palavra «rigorosa» assusta. Já alguém conseguiu cumprir uma dieta rigorosa? É uma missão impossível. Penso que a palavra «sensata» é mais adequada. Afinal, há tantas gorduras no mercado que necessitam de ser eliminadas. Neste contexto, parafrasearia a expressão erradamente atribuída a Maria Antonieta: «Se as livrarias estão cheias de livros não lidos, não será a hora de comer brioches em vez dos pãezinhos quentes que se multiplicam ao deus-dará?» Afinal, essa multiplicação dos «pães» terá de exigir de todas as editoras uma dieta salutar. Para evitarmos que os livros cumpram o destino ao qual a dita rainha não escapou: a guilhotina.

 

Qual a maior dificuldade que um editor independente sente no dia a dia?

A dificuldade que dá gosto vencer: manter a independência.

 

Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editora?

Nem às paredes confesso.

 

O que devem os editores saber rapidamente sob pena de desaparecerem?

Reconhecer os bons conteúdos, descobrindo novos talentos literários. Valorizar sempre os autores e acompanhá-los na sua criação literária, pois a continuidade é fundamental. Saber conciliar a loucura com a lucidez. Arriscar é importante, mas com rede. E, acima de tudo, amar a literatura.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Austeridade.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

A palavra «resignação».

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Por que razão um escritor, editor, diretor de uma prestigiada revista, numa profissão apaixonante, decide mudar de papel?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Salientaria a necessidade de conjunção de esforços entre as instituições públicas e os agentes culturais. Terá de haver uma ação concertada entre a Secretaria de Estado da Cultura e os editores com vista a uma internacionalização dos autores. Sem amiguismos. É urgente a presença da literatura e da cultura portuguesas no mundo. Amar a literatura é fazê-la viajar pelo mundo. «O universal é o local sem paredes», como dizia Miguel Torga.

 

Acha que devíamos implementar o novo Acordo Ortográfico?

Por mim, não. A pergunta que se impõe é: temos escolha?

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Promover Festivais Literários por todo o país, seguindo o exemplo das Correntes D’Escritas da Póvoa de Varzim: a organização conduzida pela Manuela Ribeiro e pela sua equipa da Câmara Municipal, que junta o rigor germânico e o calor latino. Tirar da torre de marfim autores considerados inacessíveis no contacto direto com os seus leitores. A literatura precisa de sair à rua.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

O que a faz feliz nesta profissão?

 

 

©Artur Henriques



Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Inglês) pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Fez uma pós-graduação em Multimédia. Professora profissionalizada de Português, foi docente do ensino secundário no Colégio de S. José — Quinta do Ramalhão, em Sintra. Foi coordenadora editorial da Oficina do Livro (2001-08). Trabalhou como editora-executiva na Planeta (2008-10). Desde setembro de 2010, é editora na Clube do Autor.

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Qui, 8/Mar/12
Qui, 8/Mar/12

 

O livro é para ele como uma lapa, colado à pele, de tal forma, que é capaz de ler em qualquer lugar, em qualquer situação, e sempre com esse dom de transformar o leitor, de lhe cortar a respiração. José Mário Silva mostra, nesta entrevista, como a honestidade é uma das principais qualidades de um crítico literário. Não foge, não se esconde e não evita um ou outro choque frontal. Ainda que os livros tenham cada vez menos espaço nos jornais, o jornalista continua a ter demasiado trabalho para que o escritor se possa libertar do pousio. Quando é que voltas, José Mário?

 

É possível ser-se 100% isento na crítica literária?

Não creio que se possa ser 100% isento em nenhuma atividade humana. O quadro de referências do crítico condiciona muito a forma como este analisa as virtudes e defeitos de um livro. No momento em que escreve sobre uma determinada obra, está sempre a fazê-lo no cimo da montanha de livros que leu para trás. E essas leituras anteriores moldaram a sua perspetiva sobre as coisas, o seu gosto, o seu olhar. Prefiro um crítico que expresse opiniões fortes, com as quais eventualmente eu não concorde, mas que obedecem a uma argumentação sólida e coerente com a respetiva mundividência, às meias-tintas de quem não se quer comprometer. A questão passa mais pela honestidade do julgamento do que por uma suposta pureza, impossível de atingir ou de manter. Se não é possível ser-se 100% isento, nada nos impede de sermos 100% honestos naquilo que fazemos.

 

Qual o papel de um coordenador da área de livros num suplemento como o Actual?

É, sejamos francos, um papel ingrato. Com a progressiva asfixia da secção de Livros, por razões mais económicas (a falta de publicidade, que encurtou brutalmente o número de páginas do suplemento) do que editoriais, a margem de manobra do coordenador vai sendo cada vez menor. Publicam-se cada vez menos textos e mais curtos, de cada vez menos colaboradores. Também por isso, o principal papel de um coordenador é a gestão do escasso espaço disponível e da natural frustração dos colaboradores que escrevem com assiduidade inferior à sua vontade e merecimento.

 

Há cada vez menos espaço nos jornais para os livros. Faz sentido falar-se de livros de que não se gosta?

Depende. Há críticos que só falam dos livros que consideram bons ou muito bons. Há outros que preferem arrasar os que lhes parecem medíocres ou maus demais, numa espécie de higiene literária. Os textos destrutivos têm sempre mais impacto, permitem que o crítico brilhe, dão-lhe uma certa reputação. Pessoalmente, prefiro escrever sobre livros de que gostei. Com tão pouco espaço disponível, escasso até para tudo o que de bom se publica, acho um desperdício ocupar espaço a demolir o que não interessa. Dito isto, se um autor se torna best-seller anos a fio com romances péssimos, como, por exemplo, José Rodrigues dos Santos, merece que lhe saia ao caminho um Rogério Casanova. Não é só na televisão que há necessidade de um serviço público.

 

Não receia que, em virtude da sua atividade enquanto crítico literário, venha a prejudicar o José Mário Silva escritor?

Receio, claro, mas não pelas razões que estão implícitas na pergunta. Nunca temi as opiniões dos outros. Em relação aos meus primeiros livros, sempre me pareceram equilibradas e por vezes certeiras. Por outro lado, com o muito que tem de ler e escrever na sua atividade de crítico, o José Mário Silva escritor tem vivido numa espécie de pousio forçado. Gostava que essa situação se alterasse nos próximos anos.

 

Já alguma vez um autor lhe deixou de falar na sequência de uma crítica literária?

Sim. São os ossos do ofício. Até já houve um que teve vontade de me atropelar.

 

O que é fundamental para se ser um bom crítico literário?

Ausência de preconceitos, atenção, muitas leituras acumuladas, rigor analítico, memória, sensibilidade estética, boa prosa. Tudo isto é importante, mas o essencial é mesmo a honestidade intelectual.

 

Como é que equilibra editorialmente o Bibliotecário de Babel com as suas colaborações na imprensa? Alguma vez o blogger quis dar a notícia que deveria ser reservada para as publicações impressas para onde escreve?

Além das suas rubricas específicas, o blogue serve como arquivo pessoal do que vou escrevendo, nos mais variados contextos, sobre livros e literatura. É uma espécie de mapa das minhas deambulações pelo mundo literário. Mas não é o blogue que me paga as contas de casa. Antes de blogger, sou jornalista. É essa, a minha profissão, e não confundo o que não deve ser confundido.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Quando é que voltas, Francisco?

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Publicar menos, mas publicar melhor.

 

Que crítica já escreveu e, depois de publicada, lhe deu azia?

Todas aquelas em que, por limitações próprias ou alheias (a falta de espaço, sobretudo), não consegui dizer exatamente aquilo que pretendia sobre um determinado livro.

 

Como é que surgiu a ideia da Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel e qual o balanço deste contacto mais direto com os leitores do blogue?

A ideia surgiu quando olhei para as minhas estantes ajoujadas e pensei: o que é que eu faço com tantos livros a mais? Podia oferecê-los a bibliotecas ou associações, mas isso é menos simples do que parece (e nem sempre temos garantias de que os livros chegam efetivamente a novos leitores). Por isso, decidi fazer uma oferta pública num dos lugares mais belos de Lisboa (o miradouro do Monte Agudo), oportunidade para ficar a conhecer leitores do blogue e de os recompensar com algo que vão certamente estimar: os livros, quase todos excelentes (não ofereço monos), de que só me desfaço por manifesta falta de espaço. As duas primeiras ofertas correram muitíssimo bem, com várias dezenas de pessoas no miradouro e centenas de livros a desaparecerem num ápice. Posso desde já anunciar que este ano, ainda antes do verão, haverá outra. Estejam atentos.

 

O e-book vai matar este convívio?

Não. Ou melhor, não nos próximos anos. Com o aumento do número de e-books na minha nuvem, diminuirá o fluxo de entrada de novos livros lá em casa, e talvez a Grande Oferta passe a Pequena Oferta ou deixe mesmo de ser necessária. Inventarei então, tenho a certeza, outras formas de conviver com os meus leitores.

 

 

©Margarida Ferra


Nasceu a 2 de março de 1972 em Paris. Licenciado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, é jornalista desde 1993. Trabalhou 14 anos no Diário de Notícias, onde foi editor-adjunto do suplemento DNA e da secção de Artes. Fez parte da equipa que realizou dois programas televisivos emitidos pela RTP2 (Portugalmente e Juízo Final). É coordenador da secção de livros e crítico literário do semanário Expresso, além de colaborador da revista LER. Escreve diariamente sobre livros e literatura no blogue Bibliotecário de Babel. Tem publicados dois livros de poesia (Nuvens & Labirintos, 2001, e Luz Indecisa, 2009) e um livro de narrativas (Efeito Borboleta e Outras Histórias, 2008).

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Ter, 6/Mar/12
Ter, 6/Mar/12

 

Não tem paciência para essas «merdas» da supermulher multidisciplinar. Usa Nuno Júdice para demonstrar que homens e mulheres podem ser pais, escritores, diretores de revistas e giros (acrescentamos nós). Acha as estrelinhas da crítica injustas e que um primeiro livro pode ser maravilhoso como um filho, ainda que nasça frágil e com cara de joelho. Se quiserem boas ideias, falem com Patrícia Reis. Os orçamentos, ao contrário dos almoços, são grátis.

 

As críticas que possam ser feitas aos seus livros ainda a preocupam? Qual o papel que acha que a crítica literária ocupa nos dias de hoje?

As críticas nunca me preocuparam. Não é para levar palmadinhas nas costas dos críticos que escrevo. Escrevo por necessidade. Se a crítica gostar, melhor. O papel do crítico é, nos dias que correm, uma orientação para algum público face ao excesso de oferta. No entanto, saliento que o facto de um livro ser lido apenas por um crítico num determinado órgão de comunicação social, atribuindo estrelas de qualidade, é um processo que considero injusto e altamente subjetivo. O livro pode cair nas mãos de um crítico que, de forma óbvia, nunca encontrará qualquer prazer no texto proposto. Injusto? Acontece.

 

A Egoísta é uma espécie de epifenómeno do panorama editorial português, pela qualidade da forma e do conteúdo. Qual o segredo para, ao fim de todo este tempo, continuar com o dinamismo que vemos?

O segredo é, como todos, segredo, logo ficará comigo. O que posso dizer é que, felizmente, temos um proprietário, a Estoril Sol, que nos acolhe com entusiasmo e participa nesta aventura, ao mesmo tempo que promove três prémios literários por ano: Fernando Namora, Agustina Bessa-Luís, Grande Prémio das Correntes d’Escritas. Se considerarmos este aspeto de apoio à cultura e ao incentivo à Literatura especialmente, é fácil de perceber que é um privilégio. Nada seria possível, ao fim de 11 anos de edições, sem a excelente equipa do atelier 004, que, desde o início, assegura as questões editoriais, escolha de artistas, de autores, design e paginação.

 

Qual a estratégia para ser empresária, mãe, escritora, editora de uma revista, blogger, entre outros?

A estratégia está em saber desligar quando é preciso, ter uma organização muito pragmática, não entrar em pânico e levar o cão à rua. Vocês também perguntarão aos escritores homens como é que se organizam a partir das «potenciais desventuras ou pesos» da paternidade? Nesse caso: uso a mesma estratégia que Nuno Júdice, por exemplo, usa para ser professor universitário, pai, avô, escritor, diretor de uma revista e ensaísta.

 

Se um dia criar uma editora, que tipo de livros vai querer publicar?

Se um dia criar uma editora será a maior surpresa de todas, por isso vamos deixar isso para tempos de vacas mais gordas, pode ser?

 

Quais as maiores dificuldades que um autor sente para publicar um primeiro livro?

Um principiante precisa de ter uma história, de a escrever de forma eficaz, de conseguir chegar a uma editora e de cativar um editor que se disponha a investir num desconhecido. Um autor é um investimento a longo prazo. Um primeiro livro é sempre uma espécie de filho que nasce antes do tempo, com algumas maleitas, com algumas fragilidades, mas pode ser maravilhoso como é próprio dos filhos.

 

O que podemos encontrar em Por Este Mundo Acima que ainda não vimos nos outros?

Deixei a pele neste livro. Foram quase quatro anos a escrever e a reescrever. Cortei muitas páginas, sempre a pensar na ideia do «osso do texto» de que falava o José Cardoso Pires. Não foi um processo fácil. O que se encontra neste livro é, porventura, uma evolução, outra maturidade. No entanto, tenho de reconhecer que todos os livros que escrevo são sobre o Bem e o Mal e sobre pessoas. O resto não me interessa.

 

A música parece muito presente no seu quotidiano. Qual a importância dela no seu processo criativo?

Não vivo sem música. Faço tudo ao som de qualquer coisa e não tenho preconceitos: gosto de fado, de rock, de lounge, de pop, de música clássica, de ópera... Para escrever há um disco que é quase uma fatalidade: A melody at night with you de Keith Jarrett.

 

Alguém se faz escritor num curso de escrita criativa?

Ninguém. O que as pessoas podem assimilar numa oficina de escrita é a capacidade maior ou menor para contar histórias, para usar a linguagem de forma diferenciada. Ao mesmo tempo, uma oficina de escrita pode ser uma excelente forma de partilhar textos, e a mais-valia está nessa partilha. Um escritor não se fabrica. Não se junta água e agita e PUM: eis um escritor. Da mesma forma que não há grandes romancistas com 20 anos. A maioria dos romancistas de que gosto têm todos mais de 50 anos ou andam por aí. É preciso ter uma vida para se ser escritor. Ao mesmo tempo, tenho quase a certeza de que não podemos decidir ser escritores: ou somos ou não somos, mesmo que não cheguemos a publicar no mercado tradicional.

 

Como é que um escritor vive o papel de jurado num prémio literário como o das Correntes D’Escritas?

Com angústia, com dificuldade e, ao fim de tantos anos, com algum à-vontade. É sempre difícil decidir, geralmente o número de candidatos é grande, e, felizmente, temos literatura e poesia muito boa. A escolha é o mais complexo, mas acabamos sempre por chegar a um entendimento que parte das premissas do regulamento do prémio.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Crise.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Não tenho ódios, tenho mais que fazer do que perder o meu tempo com merdas. Aliás, acho que vamos todos morrer, não é? Não sabendo quando, optei por gastar as minhas energias apenas nas pessoas e nas coisas de que gosto. Egoísta? Como queiram. Depois dos 40 anos já não preciso da aprovação de ninguém, e odiar deve ser uma trabalheira enorme.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Felizmente posso fazer as perguntas que entender. Tenho uma boa relação com o Francisco José Viegas há muito tempo e quando penso nele, confesso, nem me lembro que «está» SEC.

 

O novo Acordo Ortográfico é um erro? Porquê?

Não é um bom acordo, gastou-se uma fortuna, as ideias iniciais não podem ser cumpridas. Uniformizar não faz qualquer sentido. Por outro lado, a ideia de que os manuais escolares farão com que as novas gerações partilhem de um património comum tem graça, mas um menino brasileiro nunca utilizará o idioma, do ponto de vista gramatical, da mesma forma que um angolano, moçambicano ou português. É bom saber que o português possui geografias distintas e é, por isso, mais rico.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Então? Eu tenho uma empresa no mercado, se tiver uma ou mais ideias vou vendê-las, não acham? Faz parte do meu valor de mercado☺.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Porque é que um texto deve ser lido em voz alta? A resposta é simples: ajuda a editar e a apurar as arestas do texto.

 

 

©Daniel Mordzinski


Patrícia Reis nasceu em 1970. Começou a sua carreira jornalística em 1988 no semanário O Independente, passou pela revista Sábado e realizou um estágio na revista norte-americana Time, em Nova Iorque. De volta a Portugal, foi convidada para o semanário Expresso, fez a produção do programa de televisão Sexualidades, trabalhou na revista Marie Claire, na Elle e nos projetos especiais do diário Público. Escreveu para a Expo ‘98 o livro sobre a exposição de Paris 1989, um livro sobre o Pavilhão de Portugal e um sobre os espaços públicos do recinto da mesma exposição. Escreveu a curta biografia de Vasco Santana e o romance fotográfico Beija-me (2006), em coautoria com João Vilhena, a novela Cruz das Almas (2004) e os romances Amor em Segunda Mão (2006), Morder-te o Coração (2007), que integrou a lista de 50 livros finalistas do prémio Portugal Telecom de Literatura, No Silêncio de Deus (2008) e Antes de Ser Feliz (2009). O último romance de Patrícia Reis foi publicado em abril de 2011 pela Dom Quixote e intitula-se Por Este Mundo acima.

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Qui, 1/Mar/12
Qui, 1/Mar/12

 

É natural de Penafiel, mas nem por isso deixa de ser um dos editores portugueses com horizontes mais largos. É um verdadeiro TT (Teorema/Teodolito) da edição e diz-se preparado para enfrentar os tempos difíceis que atravessamos. Ele, que outrora se «atravessou» junto dos agentes internacionais, colhe agora os frutos do seu empenho pessoal, no momento de criar um catálogo de raiz. Garante que o livro em papel será mais forte do que o e-book, pelo menos enquanto for vivo. Longa vida a Carlos da Veiga Ferreira.

 

Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editor?

Foi, sem dúvida, a minha primeira participação na Feira de Frankfurt, depois de ter passado a ser o responsável único pela Teorema. Do anterior, vinha uma quantidade significativa de direitos em dívida, e o meu trabalho foi andar de stand em stand a convencer agentes e editores de que iria pagar a curto prazo e a situação não se repetiria. Esse trabalho valeu a pena, as minhas promessas foram cumpridas, e o meu acesso a editores e agentes internacionais ficou definitivamente aberto. Na maioria dos casos, estabeleceram-se relações de amizade que ainda hoje perduram.

 

O que devem os editores saber rapidamente sob pena de desaparecerem?

Se, no passado, conhecesse a resposta a essa pergunta, hoje estaria rico. Hoje, continuo a não saber responder e não conseguiria mais do que alinhar uma série de generalidades e banalidades, que em nada adiantam.

 

Para que serve a Feira do Livro de Frankfurt hoje em dia?

A Feira de Frankfurt não serve, hoje em dia, para muito, tendo em vista a possibilidade que as tecnologias nos oferecem de permanente contacto com todos os agentes do mercado internacional do livro. No entanto, e uma vez que a sociedade ainda não se desumanizou completamente, a Feira permite-nos o contacto pessoal e o reencontro com a tribo do livro, onde a amizade ainda é, em muitos casos, um grande valor. Por outro lado, permite-nos ver, à vol d'oiseau, é certo, a evolução da produção editorial em todo o mundo.

 

Como foi a sua saída do grupo LeYa? Continua a acompanhar o catálogo da Teorema?

A minha saída do grupo LeYa, em dezembro de 2010, deveu-se a uma proposta de alteração de estatuto que contrariava o contrato que nos ligava, alteração que, por razões de dignidade, como a entendo, não podia aceitar. Continuo, obviamente, a acompanhar o catálogo da Teorema e constato, com mágoa, que o mesmo tem vindo a descaracterizar-se, sobretudo pela saída de vários autores emblemáticos. Por outro lado, a produção caiu a pique, de uma média de 40 títulos novos por ano para 9 ou 10 em 2011. Entretanto, o editor, que me tinha substituído em dezembro de 2010, foi despedido em janeiro de 2011… Resta-me esperar que o grupo perceba melhor o valor da marca Teorema e consiga levantá-la do chão em que caiu no ano que passou. E há alguns sinais nesse sentido.

 

O que podemos esperar da Teodolito?

Pode esperar-se da Teodolito um trabalho sério e dedicado com a publicação de autores de qualidade, como penso que foi quase sempre o caso na Teorema. Os meus gostos literários, na ficção e no ensaio, continuam a ser os mesmos, e essa será a linha que vou seguir.

 

Que autores espera levar consigo para o novo projeto?

Sem entrar em nenhuma espécie de competição, que seria inútil e despropositada, espero trazer para a Teodolito alguns dos autores que publiquei no passado (os primeiros livros que publiquei, agora, são de Vila-Matas, Atiq Rahimi e Antonio Skármeta). Mas espero também fazer o que é a alegria de um editor: descobrir novos autores e publicar alguns clássicos e consagrados que, há muito, fazem parte dos meus projetos.

 

O que pensa dos e-books?

É conhecida a minha posição de Velho do Restelo em relação aos e-books. No entanto, não me atreverei a negar que este suporte conhecerá um crescimento acelerado, sobretudo, a partir do momento em que as camadas mais jovens se tornem leitoras, e oxalá sejam muito. Atrevo-me, porém, a afirmar, sem qualquer dúvida, que no meu tempo de vida o livro em papel continuará a predominar. E permito-me citar Borges, outro dos autores perdidos: «Talvez a velhice e o temor me enganem, mas suspeito de que a espécie humana — a única — está para se extinguir e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, inútil, incorruptível, secreta… A minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.»

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

A mesma pergunta que já uma vez lhe fiz: «Porque aceitou este cargo?»

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Outra pergunta a que não sei responder, por uma razão simples: não acredito que seja possível avaliar o valor económico e financeiro de bens imateriais e morais.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Publicar menos e publicar melhor.

 

Os livros da Teodolito vão ser feitos com o mesmo rigor editorial da Teorema?

Se não puder ser ainda maior.

 

  


Carlos da Veiga Ferreira nasceu em Penafiel a 3 de abril de 1948. Fez o liceu no Porto e, em 1967, foi para Lisboa estudar Ciências Sociais. Terminado o curso, ingressou no Ministério da Indústria, onde trabalhou no Serviço de Relações Internacionais. Paralelamente, viveu sempre no mundo do livro, através da leitura frenética, da tradução e da amizade com a maior parte dos nossos escritores. Em 1985, entrou como sócio para a Teorema, da qual passou a ser responsável a partir de 1989. Em 2007, vendeu a editora a um fundo de investimento, a Explorer Investments. Em 2010, deixou a Teorema, em rutura com o grupo LeYa. Em abril de 2012, em conjunto com a Afrontamento, criou a Teodolito.

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Ter, 28/Fev/12
Ter, 28/Fev/12

 

Esta entrevista fala de hooligans, de Cícero, de Cavaco Silva, de física quântica e de motores diesel com pistões de terceira geração, ou seja, é uma entrevista sobre crítica literária. Fizemos a pergunta dos 10 milhões a Sara Figueiredo Costa, e ela falou em banda desenhada. Falámos sobre assessores de comunicação, e ela respondeu com o Abominável Homem das Neves. Quisemos saber se se acha com poder para destruir uma carreira, e ela dissertou sobre a Carris. Tudo o que precisa de saber sobre crítica literária numa entrevista cinco estrelas.

 

Já alguma vez um autor lhe deixou de falar na sequência de uma crítica literária?

Que eu saiba, não. Já tive algumas trocas de e-mails, felizmente, sempre civilizadas. E, ao contrário do que as pessoas possam imaginar, uma discussão (repito a ideia, sempre civilizada) pode ser a melhor consequência de uma recensão publicada na imprensa. Afinal, queremos ou não queremos suscitar o debate e a reflexão?

 

Sobre que autor nunca faria uma recensão?

Respondendo com a retidão académica desejável, nunca faria uma recensão sobre um autor que tivesse escrito sobre temas que me são pouco familiares (física quântica, por exemplo). Mas não era isto que queriam, pois não? Então, vamos lá. Posso dizer, sem mentir, que não tenho embirrações muito grandes, e as que tenho não partiram de nenhuma questão pessoal, mas sim da obra escrita. Como tenho alguma margem para escolher os livros sobre os quais escrevo, abstenho-me de escrever sobre livros que sei, à partida, que não me interessam (arriscando-me a não descobrir alguma coisa interessante por causa desse pré-conceito, mas ainda assim).

 

O que é fundamental para se ser um bom crítico literário?

Isto podia ocupar muitas páginas… Para simplificar uma coisa que não é simples, saltando por cima dos diferentes modos da crítica (da academia ao jornalismo, há muitas nuances) e partindo do princípio de que a pergunta se refere à crítica jornalística, diria que um crítico tem de saber ler, e não estou a falar de literacia básica. Tem, igualmente, de ter lido muito, porque não se pode pensar e escrever sobre um livro sem a consciência do que está para trás (sob pena de se descrever como absolutamente inovador um tipo de discurso que Faulkner já construiu muito melhor, por exemplo). Alguns conhecimentos de teoria literária também ajudam (e não estou a dizer que é preciso ter um curso superior na área; há bons livros sobre o tema e qualquer pessoa pode lê-los). Nos tempos que correm, diria que é fundamental gostar do que se faz e não ter demasiadas expectativas financeiras quanto ao retorno.

 

A crítica ainda tem poder para destruir uma carreira ou uma obra?

Uma carreira, não creio. A «carreira» é o tipo de coisa que vive mais das aparições, da construção de uma imagem pessoal adaptada aos gostos do dia, com uma pitadinha de originalidade rebelde e bem projetada naquilo a que chamamos espaço público. E o mais comum é que as pessoas que apostam na «carreira», e não tanto na obra, não tenham a crítica em grande conta (o normal é falarem dela com o mesmo grau de consciência, informação e inteligência com que os utentes da Carris falam do Salazar e do atual Governo, qualquer que ele seja). Ou seja, a «carreira» não se perturba se um crítico se dá ao trabalho de ler um livro, pensar sobre ele, cruzar a sua leitura com uma série de outras referências, etc., etc. A obra é outra coisa, e não creio que a crítica, sobretudo hoje, uma época em que se entende a crítica como uma nota de exame e não tanto como um processo de reflexão e juízo balizado por várias variáveis, tenha grande influência na boa ou na má fortuna de uma obra. Mas parece que ajuda a vender livros, pelo que me dizem alguns livreiros.

 

Como vê a redução de espaço dedicado à cultura nos meios de comunicação social?

Daqui a nada já nem vejo, tal é o processo de redução em curso. Diz-se que as pessoas não querem ler textos grandes, e por isso reduz-se o número de caracteres até ao ridículo; diz-se que as pessoas não querem ler sobre cultura, e então corta-se nas secções… Mas se as pessoas compram jornais com suplementos culturais, querem ler o quê? Parece-me que a desculpa não é boa, e a consequência ainda é pior.

 

O Brasil vai salvar a indústria editorial portuguesa?

Vai? Bom, da maneira que isto está a correr, o Brasil bem pode salvar-nos a todos, porque fazer as malas e procurar poiso do lado de lá do Atlântico começa a ser uma (a única?) perspetiva de futuro. Mas para ficarmos pela indústria editorial, não sei responder e não tenho grande veia para a futurologia. Se a pergunta se relaciona com a ideia de o Acordo Ortográfico ser uma coisa muito boa para editarmos livros no Brasil, então a resposta é «não», com a respetiva remissão para umas perguntas adiante. Se não é isso, resta-me dizer que imagino o mercado brasileiro tão exigente como os maiores mercados do mundo, e ainda por cima em crescimento, pelo que quem quiser singrar por lá terá de saber fazer um trabalho bem feito. Pessoalmente, gostava que os livros portugueses circulassem no Brasil e os brasileiros em Portugal, mas isto é uma visão que só tem metade de altruísmo: era bom para as editoras portuguesas e era bom para mim, que já podia comprar os livros que se editam no Brasil sem ter de pagar o dobro do preço de capa por causa da importação.

 

Se for na rua e vir um assessor de comunicação de uma editora, muda de passeio?

Em princípio, só mudo de passeio se me cruzar com o Abominável Homem das Neves, o Papão ou algum hooligan. Mesmo que esteja à beira de cruzar-me com algum governante dos últimos anos, não mudo, porque posso sempre aproveitar para espirrar e dizer coisas feias ao mesmo tempo. Até se me cruzar com o Dr. Cavaco, não mudo, e ainda lhe dou uma moedinha para ver se o bom homem consegue pagar as contas do mês. Mas a ideia era levar-me a falar sobre os assessores, não era? Ora bem, como em qualquer parte, há assessores de comunicação muito simpáticos e outros com quem não teríamos vontade de tomar café, há os que conhecem os livros de que falam e os que nem imaginam, e há os que acompanham o trabalho dos jornalistas e os que tentam impingir livros sobre gestão de empresas a críticos que só escrevem sobre ficção literária. É um mundo, como todos os mundos.

 

A banda desenhada não tem expressão em Portugal por falta de leitores ou por falta de atenção de jornalistas e críticos?

Ui, essa é a pergunta dos dez milhões, e o espaço que me possam dar não seria suficiente. Vejamos, há várias questões que devem apontar-se para explicar essa falta de expressão, e todas funcionam numa espécie de conluio. Por um lado, o desconhecimento de muitos livreiros em relação à BD fez com que os livros fossem expostos algures na secção infantil, e isto na época em que se editava muito mais e muito melhor do que agora. Isso impediu, ou distorceu, a perceção do público e fez com que livros adultos e geniais, que em França ou nos EUA são citados com a mesma pompa de Proust, ficassem relegados para um plano invisível. Depois, temos alguma receção da imprensa deturpada por uma coisa que em Portugal alastra e a que se poderia chamar «bedofilia». Essa coisa, nefasta, vive na ilusão de que a BD é um espaço de fantasia que nos remete para a infância, onde tudo eram cavaleiros andantes e mundos de aventuras. Ora, a BD não é um género, um estilo ou um tema, e sim uma linguagem, um meio, a partir da qual se pode construir toda a espécie de discursos (as aventuras, sim, mas igualmente a reportagem, a autobiografia, a novela histórica ou, até, a pornografia). Quando isto for assumido por toda a gente, e quando a visão dos fãs deixar de se sobrepor, no espaço público, à crítica e à análise, avançaremos um pouco mais. Nessa altura, talvez os editores arrisquem publicar livros que lá fora são referências de qualquer leitor culto (leitor em geral, não exclusivamente de BD) e que cá são apenas conhecidos por uma pequena minoria, parte dela interessada em ler, outra parte mais dedicada a bater palmas a tudo o que seja «aos quadradinhos». Acredito que, nessa altura, vamos todos saber quem é Edmond Baudoin, ou Seth, ou Töpffer, só para citar alguns, entre modernos e clássicos.

 

O e-book vai resgatar do caos as casas dos jornalistas e críticos literários?

Não sei. Vai? Se um e-book conseguir acrescentar duas assoalhadas ao modesto T2 do meu senhorio, eu compro já. Mas sobre a questão recorrente do fim do livro em papel, o que ainda haverá por dizer que não tenha já sido dito? Sim, a revolução digital está aí e por aí vai continuar, sem que ninguém consiga imaginar que inovações vai trazer daqui a três meses, ou até daqui a três dias. No entanto, um livro é um livro, não é um conteúdo, pelo que o lugar dos livros está, creio, assegurado. Claro, todas aquelas pessoas que alimentaram o mercado dos best-sellers e dos livros da moda quando se descobriu que Portugal andava a ler imenso, que passaram a transportar o seu livro nos transportes dentro de um saquinho de papel e que permitiram que os livros se vendessem nos supermercados, nas bombas de gasolina, em todo o lado, preferencialmente com descontos impossíveis e campanhas promocionais capazes de darem cabo de qualquer concorrência leal, essas pessoas talvez passem a descarregar os seus conteúdos num aparelho qualquer. As pessoas que gostam de livros continuarão a comprá-los, mesmo que tenham um e-reader e que leiam nele algumas edições. Vejamos: um e-book é muito útil para aceder, na internet, a milhares de livros antigos, já sem direitos de qualquer espécie, que algumas bibliotecas gentilmente disponibilizam e que, de outro modo, não conseguiríamos ler; é igualmente muito útil para acedermos a livros que não existem em papel, coisa que já acontece e que acontecerá mais vezes, ou para os livros que temos de ler por qualquer obrigação profissional, mas que dispensamos ter, ou ainda para aquelas coisas que não são, realmente, livros, mas que as lojas de aplicações vendem como tal (onde há animação, imagens a três dimensões, áudio, etc., etc.). Em todas essas situações, um e-book funciona como o computador que nos liga à net, com a vantagem da portabilidade e do conforto ergonómico, que mimetiza a disposição da leitura de um livro, e com as vantagens adicionais (mas não essenciais, convenhamos) das muitas aplicações que fazem isto e aquilo. Nada disso é igual à relação que se constrói com o livro em papel e com a biblioteca. E não estou a falar do cheiro dos livros ou de sentimentalismos, mas de processos de leitura, de formas de organização da informação lida e de gestos e modos que se repetem há muitos séculos e que não são substituíveis em dois minutos, que seria um tempo mais ou menos equivalente, em proporção, à cronologia que entretanto passou desde que o ser humano lê livros, por uma revolução digital cujos contornos ainda não conseguimos apreender. E para encerrar uma reflexão que merecia ser longa, digamos que o que me deixa mais feliz, no meio de tudo isto, é começar a desconfiar de uma coisa: por entre os mortos e feridos da dita revolução digital, talvez os únicos a safarem-se sejam as editoras artesanais e as muito pequenas, de nicho, e as livrarias independentes que conseguirem suportar este embate atual. Não é uma profecia, claro, mas talvez tenha algum sentido. E agora vou cravar o iPad a alguém para ler o livro sobre o qual escreverei na próxima LER.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Austeridade. Porque alimenta as notícias e está na boca de todos os pobrezinhos com dez mil euros de reforma, mas não produz nenhum movimento que possa resolver os nossos males.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

O meu contacto prolongado com os textos teológicos medievais da tradição judaico-cristã não me permite ter ódios, e isto apesar de eu própria não ter religião (mas os livros entram-nos na cabeça, não há como evitá-lo). Mas que há coisas que me irritam profundamente, isso há. Por exemplo, gente que cospe para o chão, ou que clama pela bondade do Dr. Salazar nos transportes públicos (em vez de dar um tiro na cabeça para se juntar a ele, como um autocolante de rua sugeria há uns tempos), ou que acha que os seus preconceitos deviam ditar a vida individual de cada um. Nos livros, irritam-me aquelas edições com brinde, cachecóis, lenços de seda e coisas parecidas, as livrarias que podiam ser supermercados e a resposta «está esgotado» perante a indagação por edições que o interlocutor não faz ideia se alguma vez existiram e se podem repousar, aos molhos, nalgum armazém distraído.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Se pudesse? Tanto quanto sei, e pese embora os acontecimentos dos últimos tempos, ainda vivemos em democracia, pelo que o questionar dos governantes ainda não foi proibido, estando à disposição dos cidadãos. Para além disso, tenho a pessoa que mora no secretário de Estado em boa conta e não acredito que fugisse a uma pergunta minha. Dito isto, acho que perguntaria ao secretário de Estado da Cultura se não quer regressar ao Jaime Ramos, que deixou saudades, à poesia, às muitas dinamizações culturais, aos textos sobre livros, comidas, memórias, afinal uma e a mesma coisa, em vez de participar no Governo que vai dando a machadada final naquilo que ainda, talvez, quem sabe, com algum jeito e muitas mudanças sérias, poderia ser uma sociedade democrática com preocupações de ordem social e cultural. As boas intenções não chegam para o que estamos a viver, e o Governo PSD/CDS tem tanto interesse e preocupação pela cultura como eu pelos motores a diesel com pistões de terceira geração.

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Isto deve ter algum sentido para quem cultiva aquela linha de pensamento que transforma em produto toda e qualquer coisa e que acredita piamente na possibilidade de atribuir um valor mensurável a coisas imateriais. Ou seja, não sei responder. Sabemos quanto vale a PT? E vale isso antes ou depois de pagar uns impostos sobre umas mais-valias de que ouvi falar nas notícias, que parece que todas as empresas teriam de pagar mas a PT terá ficado de fora (só ouvi dizer…)? Depois de sabermos isso, como é que sabemos quanto vale a língua portuguesa? Sim, percebo que é possível definir certos indicadores com a ajuda da sociologia, da economia e de outras ciências essenciais à nossa leitura do mundo, mas não sei se é possível dizer que a língua portuguesa vale X. Dito isto, creio que fechar leitorados no estrangeiro e reduzir drasticamente a promoção da cultura portuguesa no exterior e as relações produtivas (ou seja, as trocas e partilhas culturais que resultam em alguma coisa visível, não as reuniões intermináveis entre comissões de qualquer coisa) entre diversos agentes da chamada cultura lusófona é capaz de não ser uma boa maneira de alcançar o tal objetivo do valor, ou qualquer outro que valha a pena. E esta visão aplica-se, também, ao que se faz cá dentro, porque o tal valor da língua não deve ser só para inglês ver. Por exemplo, o que é que vai acontecer ao cinema português depois de deixar de receber a verba oriunda da publicidade que lhe era devida? E à promoção da leitura, se deixámos de ouvir falar na Carteira de Itinerâncias da DGLB? São só dois exemplos que confirmam que se não somos capazes de manter o que já foi feito e crescer com novas propostas, então não há pastel de nata que nos salve.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

Pelo contrário. Acho que é fundamental para a derrocada de uma unidade e de uma lógica linguísticas que incluem a história da língua, a etimologia e a sua ligação com a definição de regras ortográficas, a própria noção de ortografia, que nunca incluiu a ideia peregrina de cada um escrever «como diz». E isto não tem nada a ver com patriotismo barato nem com aquela noção que algumas pessoas têm de que as línguas são coisas imutáveis (normalmente são as mesmas pessoas que acham que o mundo vai acabar porque usamos palavras inglesas, como se ainda falássemos todos latim, como se alguma vez tivéssemos falado o latim dos textos de Cícero). Mas sobre os atentados que o Acordo representa, há por aí vários textos bem fundamentados de linguistas e não só que bem podiam ser lidos.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Tem de ser só uma? Vá lá… Uma ideia quantitativa: reduzir o número de títulos que se colocam nos escaparates, para ver se não rebentamos com o mercado em três tempos ou menos. Uma do foro legal: cumprir a lei do preço fixo, para não vermos constantemente livros recentes a preço de saldo em feiras e promoções malucas por essas grandes livrarias afora. Uma que junta a didática e a arrumação livreira: acabar com o erro (é mesmo um erro, e de palmatória, não é uma opinião ou um ponto de vista) de considerar que a banda desenhada é um género e passar a repartir os livros de BD pelos géneros respetivos, deixando de colocá-los na «secção infantil» onde as crianças talvez não percebam o porquê de o Manara estar ao lado das princesas da Disney, ou numa secção única, onde os nerds que decoram as vinhetas do Lanterna Verde e acham que o Super-Homem existe mesmo não entendem a presença de livros da Marjane Satrapi ou do Edmond Baudoin. Não é preciso um curso de marketing ou de comunicação; algum conhecimento e muito bom senso podem ser suficientes.

 

 

©Ricardo Duarte


Nasceu em Lisboa, em 1978. É licenciada em Línguas e Literatura Modernas — Estudos Portugueses e mestre em Linguística Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa. Jornalista freelancer, colabora com diversas publicações na área da crítica literária e do jornalismo cultural (LER, Time Out e Expresso). Mantém, desde 2007, o blogue Cadeirão Voltaire, sobre livros e edição, e desde 2003, o Beco das Imagens, dedicado à banda desenhada e à ilustração. É um dos membros fundadores da Oficina do Cego, onde leciona os módulos teóricos sobre história do livro e edição das formações sobre autoedição. 

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Qui, 23/Fev/12
Qui, 23/Fev/12

 

É responsável por um dos mais francos sorrisos da Póvoa, e aí residirá um dos segredos da magia das Correntes. Luís Diamantino, paradoxalmente, é vereador e não anda em bicos de pés, daí que manifeste orgulho no nascimento de novos festivais inspirados nas Correntes e se preocupe com a criação de mais leitores. Diz-se farto de ouvir falar em crise e assume-se perverso q.b. para a enfrentar.

 

Quando as Correntes d’Escritas começaram, alguma vez pensou que atingiriam as proporções de hoje?

Quando começamos a fazer algo em que acreditamos, esperamos sempre conseguir o melhor. É com este espírito que estamos na vida e nas Correntes. Queremos sempre chegar mais longe. Como diz Cesário: «Os obstáculos estimulam-me, tornam-me perverso.»

 

Que outras medidas, na área da promoção da leitura, exerce a Câmara Municipal da Póvoa do Varzim ao longo do ano?

Na primeira quinzena de agosto, temos a Feira do Livro, sendo a 3.ª em volume de vendas no país. Temos uma média de 4 livros lançados, por mês, ao longo do ano. Somos uma Câmara Municipal com uma linha editorial própria, criando uma coleção e editando ou coeditando com uma grande frequência. Na nossa Biblioteca, possuímos espólios de grandes escritores e pensadores como Alexandre Pinheiro Torres, Francisco Gomes de Amorim, Flávio Gonçalves, Luísa Dacosta, Sousa Rebelo…

 

Como vê o aparecimento de outros festivais literários, que de alguma forma vão buscar a inspiração às Correntes d’Escritas?

Alguns deles revelam essa fonte. Sentimo-nos orgulhosos por sermos uma referência no campo cultural. O aparecimento de outros acontecimentos literários vem enriquecer o panorama cultural do país, motivar escritores e editores e, seguramente, criar mais leitores.

 

Como é que olha para o modelo da FLIP, em que os encontros são pagos? As Correntes d’Escritas poderão evoluir para esse sistema?

Em Portugal, ainda não chegámos a esse patamar. Podemos pagar, e bem, para assistir a um jogo de futebol; no entanto, sentimos alguma dificuldade em fazer o mesmo num evento cultural. Penso que havemos de lá chegar.

 

Que futuro prevê para os festivais literários em Portugal?

O futuro é moldado por nós. Os eventos que têm valor sairão reforçados. Só temos de adaptá-los à evolução dos tempos.

 

O que nos pode desvendar da edição de 2012 das Correntes d’Escritas?

Continuaremos a dar voz a jovens escritores, incentivaremos o gosto pela leitura e pela escrita junto dos mais novos, através de prémios literários direcionados a turmas do 4.º ano de escolaridade e a jovens até aos 18 anos. Iremos às escolas falar de livros e de literatura. Teremos na conferência de abertura a presença sempre sábia e cativante de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto. Uma importante exposição de fotografias de Jorge Barros. A entrega dos prémios LER/Booktailors, muitos escritores, jornalistas, editores e uma multidão de leitores. Gostaria de realçar as presenças de Eduardo Lourenço e de Rubem Fonseca.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

«Crise.»

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Não tenho ódios, muito menos de estimação. Mas não posso com a inveja.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

E agora, Francisco José?!

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Deveríamos valorizá-la, não esquecendo os clássicos, como, infelizmente, estamos a fazer no ensino. A poesia trovadoresca faz parte da nossa vivência literária, Camões, Gil Vicente, Camilo… Acredito que o bom uso da língua dará origem a melhores falantes.

 

Acha que devíamos implementar o novo Acordo Ortográfico?

Não vejo grande necessidade. E Angola e Moçambique?…

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

A língua não se molda à força, ou por decreto. Ela adapta-se à região, ao clima e aos que a utilizam.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Qualidade. Só qualidade!

 

 

©Rui Sousa 


Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Início de funções docentes em 1980/81, na Escola Secundária de Águas Santas. Adjunto do Gabinete de Apoio à Presidência da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, em 1994/96. Vereador, a tempo inteiro, na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, nas áreas do Turismo, Acção Social, Juventude, e Desporto, em 1996/97; nas áreas do Turismo, Acção Social, Desporto, Educação e Cultura, em 1998/2001, nas áreas do Turismo, Educação, Cultura, Juventude e do Desenvolvimento Local, entre 2001 e 2005; nas áreas da Educação e Ação Social, entre 2005 e 2009. Presidente da Direção da Associação Pró-Música, responsável pela Escola de Música da Póvoa de Varzim. Presidente do Conselho de Administração da Empresa Municipal Varzim Lazer, desde 2011. No presente mandato é vereador de Educação e Cultura.

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Ter, 21/Fev/12
Ter, 21/Fev/12

 

Tece as correntes que ligam a literatura à Póvoa de Varzim desde sempre. Vive e trabalha na Câmara Municipal de Macondo, local onde se concretiza, com o mais mágico dos realismos, o maior festival literário português. Este ano espera que a magia aconteça na voz de Rubem Fonseca e que este traga o calor e a intensidade de uma «francesinha da Póvoa». É ela, Manuela Ribeiro, a responsável por estas Correntes brutais.

 

O que é, afinal, o espírito das Correntes d’Escritas?

Não sei. Nem sei se as Correntes têm um espírito. Mas talvez as pessoas se sintam bem na Póvoa de Varzim e se identifiquem com duas das características que marcam o encontro: a informalidade e o profissionalismo com que tudo se organiza e com que são tratados todos os que por aqui passam. Talvez a relação que a cidade tem com a literatura seja um pouco mágica. E talvez a sinceridade, como me dizia um amigo, há uma semana, seja a base de tudo.

 

Há algum escritor que ainda não perdeu a esperança de vir a ter como convidado nas Correntes?

Nunca perdi a esperança de ter cá o Rubem Fonseca.

 

Como vê o aparecimento de outros festivais literários no país? Ainda há espaço para mais festivais literários em Portugal?

Creio que todos os festivais são sempre bem-vindos. Há sempre espaço para mais um se cada um souber inovar relativamente aos restantes. Acho que não vale a pena fazer cópias. Como em tudo, não é? De resto, creio que todas as iniciativas ajudam a formar e a fidelizar públicos.

 

Em que se inspiraram para criar o atual modelo das Correntes?

Na nossa imagem e semelhança?!… Foi só juntar a ideia de um à vontade e experiência de outros e seguir aprendendo com tudo: erros, sugestões, propostas, envolvendo o maior número de pessoas e entidades, criando cumplicidades. O resto foi-se construindo, sempre tendo como base toda a experiência que está para trás, em várias áreas.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Austeridade.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Eu, ódio? E ainda por cima de estimação? Não tenho tempo para isso! Mas odeio a pequenez de pensamento e mentes mesquinhas.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Como é que te foste meter nessa, Francisco?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Pensando no que podemos continuar a fazer pela nossa língua e fazendo. E se cada um der o seu contributo, custará muito menos e chegaremos muito mais longe neste processo de valorização deste património vivo e, consequentemente, em constante evolução e mudança. A língua falará sempre mais alto com ou sem PT.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

Nem é nem deixa de ser. Acho que a língua é de quem a fala, independentemente de como a fala. Com mais c ou menos p.

 

O novo Acordo Ortográfico é um erro? Porquê?

Pode ser apenas uma questão de hífens, cês e pês.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

«Sentir, sinta quem lê!»

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«Qual o prato preferido?»

 

 

 ©Rui Sousa

 

Natural de Navais, Póvoa de Varzim. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas — Estudos Portugueses e Franceses, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi professora de Português e Francês na Escola Secundária Eça de Queirós, trabalhou como jornalista na SOPETE Rádio Mar e como correspondente no jornal Público. Desde 1995 está ligada ao Pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. Coorganizadora do evento literário Correntes d’Escritas — Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, desde a 1ª. edição, em 2000, e cocoordenadora da revista Correntes d’Escritas. Publicou Cego do Maio Anjo da Salvação, na meiosdarte, em dezembro de 2005, O Catitinha, na Campo das Letras, em Novembro de 2006 e Rosa e os Feitiços do Mar, na Trinta por uma Linha, em dezembro de 2010. Diretora da coleção infantil «Papéis Pintados» da editora 7 dias 6 noites.

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Qui, 16/Fev/12
Qui, 16/Fev/12

 

Entretém-se a matar papas, e ainda assim a Igreja ignora-o. Luís Miguel Rocha, que já esteve no top do The New York Times, escreve parte dos seus romances no telemóvel e não se mostra preocupado com as comparações com Dan Brown. Expectante com a anunciada visita de Rubem Fonseca a Portugal, o autor de A Mentira Sagrada garante que vai continuar a entreter e dar espetáculo aos seus leitores.

 

O público comprou maciçamente o seu último romance, A Mentira Sagrada, mas a crítica portuguesa está longe de o consagrar. A que acha que se deve essa dicotomia?

O reconhecimento dos leitores deixa-me muito feliz. E, sinceramente, sinto que a crítica tem vindo a reconhecer cada vez mais o meu trabalho enquanto escritor.

 

Qual o seu foco principal quando está a escrever um livro?

Entreter, proporcionar um espetáculo ao leitor, sem intenção de ferir suscetibilidades, nem criar controvérsia. Faço questão de usar o máximo rigor factual para oferecer uma perspetiva diferente aos leitores mas deixando bem claro que escrevo ficção.

 

Qual o método de pesquisa que usa para escrever as suas obras? Quais as suas fontes?

Para se escrever é preciso ler muito. Ficção e não ficção. Documento-me o máximo possível sobre o tema a que me dedico. No que toca a estes romances dedicados ao Vaticano, há grandes historiadores e teólogos com obras importantes que faço questão de consultar. O Arquivo e a Biblioteca Vaticana permitem a consulta de inúmeros documentos. Há também jornalistas que me ajudam nestas pesquisas, profissionais que investigam casos ligados ao Vaticano há muitos anos e são censurados no seu país. Não é um processo tão secreto como as pessoas pensam. Aliás, não tem nada de secreto. Mas exige muita dedicação, muito trabalho.

 

A sua oficina de escrita obedece a que princípios?

É um trabalho criativo extremamente sensitivo. Depois de me documentar e dar por encerrada a pesquisa, necessito de uma história que me permita contar aquilo que pretendo. Os factos históricos são apenas informação para o leitor. Os meus livros, normalmente, não vivem apenas disso. Há personagens que ganham vida, que nada têm a ver com as histórias do Vaticano e que vão contar a história da maneira que entenderem.

 

Como lida com o facto de o sucesso da sua obra ter chegado primeiro no exterior?

Ter reconhecimento internacional é o sonho de qualquer escritor. Comigo aconteceu ao contrário do que é normal, encaro-o com satisfação.

 

O que preferia: uma referência no Dica da Semana ou uma boa crítica no jornal Expresso?

Ambos são importantes e cada um tem o seu papel, se quisermos que o nosso trabalho seja conhecido e reconhecido. Um tem uma tiragem enormíssima e chega a muita gente, o outro costuma conferir prestígio junto de leitores exigentes.

 

Receia que os escritores sérios o olhem de lado?

O que é um escritor sério? Acho que um escritor sério, se tal conceito existir, nunca olhará um colega que se considera sério de lado.

 

Não tem receio de ser visto como um sucedâneo do Dan Brown?

Nunca como um sucedâneo, porque tenho mais livros sobre o Vaticano do que Dan Brown, mas não me importo que comparem o meu sucesso ao dele.

 

Quais as maiores dificuldades que um autor sente para publicar um primeiro livro?

Eu, felizmente, não senti dificuldades em publicar. Como dica para quem o quer fazer, se me é permitido, lembro que a indústria tem mecanismos que é preciso conhecer. Todos os autores devem ser assessorados por um profissional, um agente literário. É ele quem deve representar o autor junto do editor.

 

O que podemos encontrar em A Mentira Sagrada que ainda não vimos nos seus outros livros?

Todos os livros são diferentes. Há uma evolução no registo, como que um depurar do estilo. No que toca ao enredo, e mesmo utilizando as mesmas personagens, nota-se a evolução das vidas delas. Os leitores costumam perguntar o que vai acontecer à Sarah e ao Rafael. Isso deixa-me muito feliz, significa que as personagens saltaram do texto.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

Não há palavras intoleráveis.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

Odeio quando uma personagem com potencial tem de morrer e assisto, impotente.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Quando publica o próximo livro?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

A língua portuguesa é o nosso bem mais precioso. É nosso dever preservá-la e lembrar que tem uma vantagem em relação a qualquer empresa, mesmo das mais bem cotadas: não corre o risco de falir de um momento para o outro.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

Não concordo com o novo Acordo. A sobrevivência da língua portuguesa não está ameaçada para necessitar de salvamento nem de salvadores. A língua é um organismo vivo, evolui naturalmente, não faz qualquer sentido modificá-la artificialmente. Em vez de perderem tempo com acordos ortográficos deviam esforçar-se por expandi-la. Custa-me, nas viagens que faço ao estrangeiro, ver sempre a ausência do português nos guias turísticos, nos museus, nas ementas… Acordo de Expansão Geográfica da Língua Portuguesa. É nisso que deviam investir.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Iniciar um plano de investimento bem pensado, bem estruturado e consistente no livro de bolso. É um produto de futuro e que permitiria a captação de milhares de novos leitores.

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

Podiam ter-me perguntado o que é que destaco neste início de ano, do ponto de vista editorial. Eu responderia: a anunciada vinda do grande Rubem Fonseca a Portugal e a publicação do seu brilhante A Grande Arte.

 

 

© Sigrid Estrada

 

Luís Miguel Rocha nasceu na cidade do Porto, em 1976. Foi repórter de imagem, tradutor e guionista. Atualmente dedica-se em exclusivo à escrita. A Mentira Sagrada é o seu quinto livro, depois de Um País Encantado (2005), O Último Papa (2006), Bala Santa (2007) e A Virgem (2009). As suas obras estão publicadas em mais de 30 países, e foi o primeiro autor português a entrar para o top do The New York Times. O Último Papa, êxito de vendas internacional, vendeu mais de meio milhão de exemplares em todo o mundo.

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Ter, 14/Fev/12
Ter, 14/Fev/12

 

Esta entrevista necessita de uma consulta ao simposium terapêutico para ser entendida plenamente. O crítico, poeta e ensaísta Eduardo Pitta não deixa os créditos do seu blogue, Da Literatura, ao abandono (i.e., não se furta a temas incómodos e não contorna polémicas). Como crítico, «dá a ler». Como entrevistado, dá que falar.

  

Para que serve a crítica literária?

Para descrever, contextualizar e avaliar aquilo que, do saco sem fundo da indústria da edição, merece ser individualizado. Dito de outro modo, para dar a ler. De preferência, em linguagem clara (um discurso obscuro esconde quase sempre uma profunda ignorância). Infelizmente, a sinalética estelar reduziu a função judicativa à sua expressão mínima. Serve também para «construir» um autor, bem como para ocasionais ajustes de contas de natureza geracional, ideológica ou de classe.

 

Na crítica literária devem tratar-se os iguais como iguais e os diferentes como diferentes?

Se, por iguais, quer significar Lídia Jorge e António Lobo Antunes e, por diferentes, Manuel Arouca e Luísa Castel-Branco, a questão não está no serem «tratados» de modo diferente mas na justificação do eventual investimento hermenêutico. Isto dito, nenhum livro cai do céu virgem de pecado original. Uma obra consistente (i. e., um conjunto de livros publicados ao longo de vários anos) não deixa o crítico indiferente.

 

Já alguma vez um autor lhe deixou de falar na sequência de uma crítica literária?

Sim. Uma autora esteve 20 anos sem falar comigo por causa da recensão que fiz a um livro seu. Uma pessoa do primeiro círculo das minhas amizades que reagiu muito mal ao texto que publiquei (1989) na revista Colóquio/Letras. Foi um caso extremo.

 

Sobre que autor nunca faria uma recensão?

Sobre um indivíduo chamado Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, agente da polícia política angolana, autor de livros publicados em Portugal, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela.

 

O que é fundamental para se ser um bom crítico literário?

Por junto: background de leituras, domínio da língua, cultura (no sentido lato do termo), conhecimento da tradição e civility. Noções de História da Literatura ajudam sempre. É essencial ter ultrapassado a fase do armário. A fase do armário é aquela em que o «crítico» debita pela boca do antigo mestre, dando pontapés na sintaxe em nome de um Todorov real ou imaginado.

 

O Da Literatura é muitas vezes acusado de ser o Da Política. Que lhe apetece responder a essas pessoas?

A literatura não vive num limbo. Nenhuma revista literária, em parte alguma e em época alguma, viveu alheada da política. Dirá que um blogue não é uma revista, e eu respondo que um blogue é o que nós quisermos. A história dos prémios literários, aqui e em toda a parte, é a história política da sua outorga. A mais importante e exclusiva revista literária do mundo, a The New York Review of Books (cem mil assinantes), publica no seu último número um artigo sobre o caso Dominique Strauss-Kahn na perspetiva das eleições presidenciais francesas. Voltando ao blogue, devo concluir que «essas pessoas» são jovens com uma noção paroquial da vida literária. Durante os 50 anos que durou a Guerra Fria, as mais respeitáveis publicações literárias americanas e europeias foram financiadas por fundos secretos da CIA e organizações afins… Eu, infelizmente, tenho de manter o blogue à revelia de qualquer sponsor

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

«Senhor secretário de Estado: qual dos seus pares no governo devia ser investigado pelo inspetor Jaime Ramos?»

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Não percebo a relação entre a língua portuguesa e a PT. A língua portuguesa é falada por cerca de 280 milhões de pessoas em todo o mundo, estando associada a um património literário invejável (item em que o peso do Brasil não pode ser ignorado).

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

O setor editorial português não precisa dos meus palpites para nada. O que lhe posso dizer, na dupla qualidade de escritor e leitor, é que a edição portuguesa usa a internet com a displicência de quem joga Scrabble. Isso tem de mudar. O que não está na internet não existe. Mas estar na internet não significa ter um blogue ou um sítio. Estar na internet significa ter um sítio com uma base de dados sólida, atualizada em tempo real. Em Portugal, nenhuma editora tem um sítio como deve ser. A avaliar pelo que existe, o denominador comum é o «custo zero» (isso em parte explica os blogues). É capaz de me indicar o sítio de uma editora portuguesa que faculte informação sistematizada da sua atividade? Da «sua» atividade! Não se trata de exigir ao Editor A informação sobre o Editor B. Convinha tratar estas coisas com profissionalismo.

 

Qual a melhor banda sonora para se escutar enquanto se lê um texto de António Guerreiro?

Textos? São textos? Não são efeitos secundários do bisacodil?

 

 

© PSR

 

Poeta, escritor, ensaísta e crítico, nasceu em 1949. Entre 1974 e 2011 publicou 18 livros, sendo Cidade Proibida (2007, romance), Aula de Poesia (2010, ensaio) e Desobediência (2011, poesia) os mais recentes. Faz crítica literária no Público e na Sábado. É colunista da revista LER e autor do blogue Da Literatura. Poemas seus encontram-se traduzidos em inglês, francês, castelhano e italiano. Tem participado em congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Tudo sobre o autor em www.eduardopitta.com.

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Qui, 9/Fev/12
Qui, 9/Fev/12

 

O mercado editorial pedia formação específica para o setor. A Universidade de Aveiro respondeu a essa necessidade com uma licenciatura e um mestrado. Cristina Carrington, que foi vice-coordenadora do mestrado de Estudos Editoriais, explica como a relação entre o meio editorial e universitário pode ser proveitosa para ambos, como os salários na indústria da edição são baixos e como faz falta aprender mais línguas além do inglês.

 

 

Quais as razões que estiveram por detrás da criação do Curso de Estudos Editoriais da Universidade de Aveiro?

Diz bem «Curso de Estudos Editoriais», pois, no fundo, temos na Universidade de Aveiro não apenas um Mestrado em Estudos Editoriais mas também uma Licenciatura em Línguas e Estudos Editoriais. E é exatamente aí que a «história» começa.

 

Em 2003, a minha amiga e colega Teresa Cortez foi convidada, pelo então Presidente do Departamento António Miranda, a pensar uma Licenciatura que diversificasse a oferta de cursos que o Departamento de Línguas e Culturas propunha. Surgiu a ideia de criar uma licenciatura em Edição, uma vez que, se não estou em erro, havia na altura apenas um Curso de Pós-Graduação para Técnicos Editoriais, na Universidade de Lisboa. A nível internacional, a situação era bem diferente, pois os cursos em Edição eram uma realidade de há muito. Por outro lado, sabíamos que as editoras recrutavam os seus colaboradores sobretudo entre os licenciados em Humanidades, mas que se ressentiam da falta de colaboradores com formação específica.

 

Uma aturada busca em Universidades estrangeiras, francesas, inglesas, alemãs e espanholas, com o intuito de apurar os cursos que ofereciam e como se estruturavam curricularmente, levou ao delinear e depois à criação de, primeiramente, uma Licenciatura (em 2003) e depois de um Mestrado em Estudos Editoriais (em 2007, desta vez a convite do Presidente do Departamento João Torrão). Foram entretanto estabelecidos contactos pessoais com as Universidades de Munique, Oxford Brookes e Pompeu Fabra (Barcelona), e falámos com vários editores portugueses para troca de impressões e acerto nos planos de estudos. Uma condição essencial, e que desde o início orientou o projeto, foi a da ligação interdepartamental na Universidade, por forma a conseguir a lecionação de disciplinas que não se circunscrevessem à área das Humanidades. Juntaram-se assim ao Departamento de Línguas e Culturas o Departamento de Comunicação e Arte, o Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial e o Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território. O primeiro Curso de Licenciatura (que então se chamava Línguas e Administração Editorial) teve início em 2004-2005, e o Mestrado arrancou no ano letivo de 2007-2008. Estamos na 5.ª edição e temos uma frequência média de 20 alunos por ano.

 

Qual a taxa de empregabilidade dos alunos dos cursos de Edição da Universidade de Aveiro? Têm algum estudo nesse sentido?

Não contando com os alunos que finalizaram o Mestrado em 2011 (relativamente aos quais não temos ainda dados exatos), a taxa de empregabilidade no setor livreiro e editorial ronda os 65 %. Alguns dos que fizeram o Mestrado em Estudos Editoriais, sobretudo nos dois primeiros anos, eram estudantes-trabalhadores, já com emprego, quer na área da edição, em editoras ou em jornais, quer na área de biblioteconomia, em bibliotecas municipais, ou então na área da docência. Com exceções pontuais, esses ex-alunos mantiveram-se nos antigos lugares de trabalho. Com o passar dos anos fomos recebendo no Mestrado estudantes licenciados em áreas muito diversificadas (Línguas e Literaturas, História, Design, Novas Tecnologias da Comunicação, Marketing, Economia, Estudos Europeus, Relações Internacionais, etc.), tendo alguns sido contratados pelas editoras onde tinham feito o estágio curricular ou com as quais tinham entrado em contacto durante o Mestrado (Almedina, Presença, Âncora, Actual, Civilização, Educação Nacional, Asa-LeYa, Imprensa da Universidade de Coimbra, Imprensa da Universidade Fernando Pessoa). Outros, uma vez terminado o Mestrado, ficaram colocados noutras editoras (Papiro, Alêtheia, Educação Nacional) ou em empresas de comunicação, em Portugal e no estrangeiro (uma das nossas ex-mestrandas trabalha para um empresa americana que tem escritórios na Suíça, a Multilingual Publishing Specialist), ou então aventuraram-se como freelancers, fazendo sobretudo revisão textual, tradução e/ou colaborando em projetos editoriais (com a Porto Editora, LIDEL, Almedina, Publindústria, Civilização, etc.). Dos quatro estudantes brasileiros que recebemos, três voltaram ao Brasil, onde iniciaram ou prosseguiram carreiras no setor editorial. Alguns antigos alunos aceitaram lugares que nada têm que ver com a sua área de especialização, e, infelizmente, há quem não tenha ainda conseguido emprego. De qualquer forma, face à crise laboral que atravessamos, a taxa de empregabilidade é animadora.

 

Quais as maiores dificuldades que os alunos dos cursos de Edição da Universidade de Aveiro sentem quando enfrentam o mercado de trabalho?

A maior dificuldade é, sem dúvida, a ausência de postos de trabalho nas editoras. Há, como sabemos, uma grande contenção de despesas em todas as áreas, e mesmo grandes grupos editoriais, que tiveram os nossos estudantes como estagiários durante vários meses (e que ficaram muito agradados com o seu trabalho), acabaram por não os contratar. Em alguns casos, os nossos diplomados trabalham como colaboradores dessas editoras. Um outro obstáculo são os baixos salários que, na maior parte dos casos, lhes são propostos. Temos alguns casos de mestres que foram escolhidos para ocupar lugares muito bons em editoras de Lisboa, mas que não puderam aceitar, pois não conseguem suportar as despesas de renda, água, luz e alimentação.

 

Quais as grandes diferenças entre os cursos de edição da Universidade de Aveiro e os da concorrência?

A Licenciatura em Línguas e Estudos Editoriais é única nas universidades portuguesas. Oferece uma boa preparação em línguas, literaturas, culturas e integra um núcleo de disciplinas introdutórias na área da edição, que garante uma formação de base, embora não especializada, claro. Caso os alunos queiram aprofundá-la, poderão depois ingressar em mestrados de edição, mas se preferirem enveredar por outras especializações são muitas as portas que se lhes abrem, tendo em conta o leque de competências adquiridas. O Mestrado em Estudos Editoriais, no qual podem ingressar alunos licenciados em qualquer área científica, tem uma conceção diferente da dos mestrados ou pós-graduações em Edição oferecidos pelas Universidades de Lisboa. É, por assim dizer, um mestrado «de banda larga», que foi delineado em consonância com masters de grande reputação em diversas universidades europeias.

 

A formação é, como disse antes, abrangente, isto é, as disciplinas lecionadas pretendem abordar um variado leque de conteúdos relacionados com o mundo editorial. Assim, temos cadeiras como História e Cultura do Livro, Tipologias da Edição, Edição na Atualidade, Revisão de Texto, Crítica Textual, Propriedade Intelectual e Direitos de Autor, Gestão Editorial, Marketing Editorial, Multimédia Editorial e Design Editorial, isto além de outras opcionais. É um conjunto muito rico e multidisciplinar, que conta com a colaboração dos quatro departamentos que já referi, com a colaboração de profissionais do setor editorial e que pretende dar uma visão o mais completa possível da evolução e da realidade atual da edição em Portugal e no resto do mundo.

 

A concorrência de outras universidades é, neste caso, muito saudável, tanto mais que os candidatos podem escolher entre cursos que dão formações diferentes no domínio da edição.

 

Porque é que um estudante interessado em ingressar no mercado editorial português deve fazer os seus estudos na Universidade de Aveiro?

Além de tudo o que acabei de referir, e que diz respeito à formação académica dos estudantes, sublinharia a importante rede de contactos que temos com editoras e que temos vindo a alargar, a colaboração de profissionais e de outros especialistas na lecionação de disciplinas, o programa de conferências sobre temáticas relacionadas com a edição e a possibilidade de finalizar o Mestrado com um estágio (curricular) de 4 ou 6 meses numa editora. O contacto com o mundo editorial in loco, a perceção das dificuldades, dos contratempos, mas também dos sucessos e das alegrias que se experienciam no processo de publicação de um livro fazem com que os nossos estudantes tenham verdadeira consciência das tarefas e procedimentos a desenvolver no seu futuro profissional. Por outro lado, quem gostar de investigação e quiser desenvolver um projeto editorial ou optar por uma dissertação poderá aproveitar as sinergias interdisciplinares que o Mestrado propicia e explorá-las em trabalhos que, de outro modo, dificilmente seriam exequíveis. Muitos dos projetos e dissertações em Estudos Editoriais já defendidos — por exemplo, projetos de livros ou estudos sobre a edição em Portugal — foram orientados conjuntamente por docentes de diferentes Departamentos da Universidade de Aveiro. E, contrariamente ao que se possa pensar, a taxa de empregabilidade dos alunos que optaram por dissertação ou projeto é muito semelhante à daqueles que preferiram fazer um estágio.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual ministro da Educação, qual seria?

Ao atual Ministro da Educação, não faria uma pergunta, mas aproveitaria para me associar às suas preocupações com a «valorização do conhecimento social e humano» dos nossos jovens em idade escolar, como vem escrito na nova proposta-base da Revisão da Estrutura Curricular, agora em consulta pública. Nesse sentido, sublinharia a necessidade de um maior investimento no ensino de várias línguas estrangeiras, não apenas de inglês, «língua franca», certamente, mas não a única adequada a um mundo cada vez mais intercultural e multilingue.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

A pergunta não é fácil… O meu contacto com a edição é muito recente, sou germanista de formação e comecei a interessar-me e a dedicar-me ao mundo da edição poucos anos antes do início do mestrado, em 2007. No entanto, julgo que a preocupação que sempre tivemos de estar em permanente contacto com editores, livreiros e com a APEL (e também com a UEP, antes da junção), de forma a trazermos até aos nossos estudantes a realidade editorial portuguesa (através de aulas abertas e seminários temáticos, módulos específicos, a cargo de diferentes coordenadores editoriais ou de consultores editoriais, como vocês), tem sido uma excelente forma de, também nós, recebermos ensinamentos e percebermos melhor como vive/sobrevive o mercado do livro nacional (e também o mercado internacional, claro).

 

Mas, voltando à sua pergunta, vem-me à ideia um artigo publicado no vosso blog no início do mês de dezembro, em que se refletia sobre as idiossincrasias da língua espanhola na indústria editorial em Espanha e nos países Latino-Americanos.

 

Uma das questões que se colocavam era exatamente a das diferenças realmente existentes entre o castelhano e as «várias línguas» espanholas faladas na América Latina, chamando a atenção para o facto de que cada uma dessas línguas traz consigo um contexto histórico-cultural e social e uma identidade nacional que é necessário ter em conta quando se pensa na publicação ou «simples» exportação de um livro. Algo de semelhante se passa connosco, e com os países de língua oficial portuguesa, o Brasil e os países africanos. Sabemos bem que muito do nosso mercado futuro estará aí, e por isso mesmo não podemos ignorar que, apesar da proximidade linguística, há dissemelhanças sintáticas, especificidades vocabulares, e há ainda a individualidade própria desses futuros leitores, que temos de ter em consideração. Daí que para que a edição portuguesa possa entrar «em força» nos países lusófonos me pareça importante uma atenção e um cuidado particular àquilo a que eu chamaria «acerto» na forma, na linguagem, sem, obviamente, prejuízo do original — e não estou a referir-me ao Acordo Ortográfico…

 

Uma outra proposta, e que vem afinal ao encontro do que lhe disse antes sobre a importância da aprendizagem de várias línguas, tem que ver com a existência de excelente literatura publicada nas muitas línguas do mundo, e que não chega cá. O mercado do livro está cada vez mais «anglo-americanizado», mas todos sabemos que existem, por exemplo, livros fantásticos para crianças de autores/ilustradores de diferentes países europeus que ficam por editar em português. Parece-me que seria muito proveitoso investir na exploração do muito que há de bom que não vem do mundo anglófono, contrariando assim esta «globalização», que julgo estar a afetar negativamente a edição europeia.

 

Como reage às críticas de que os cursos universitários portugueses estão muito desligados das necessidades do mercado de trabalho?

That’s a long story! Não sei os números, não tenho dados concretos, mas posso dizer-lhe que, por exemplo, na Universidade de Aveiro, já anos antes da entrada em vigor no Processo de Bolonha, tínhamos numerus clausus zero para Cursos de Ensino (quer em Humanidades, quer nas áreas das Ciências como Biologia, Física ou Matemática), pois considerou-se que não seria sério formar professores numa altura em que não existia mais essa necessidade nas escolas. Ao mesmo tempo, e exatamente com a preocupação de uma melhor adaptação às necessidades do mercado de trabalho, criaram-se cursos com ligações à realidade laboral, como os de Línguas e Relações Empresariais, Tradução Especializada e Línguas e Administração Editorial.

 

Com o Processo de Bolonha pretendeu-se formar licenciados que estariam aptos a entrar no mundo do trabalho, e que seriam capazes de desenvolver e aplicar o que tinham aprendido e adquirido nas universidades. Se me pergunta se a maioria dos licenciados sai da universidade com conhecimentos alargados e sólidos, dir-lhe-ei que não. São apenas três anos e com uma carga horária que pressupõe um trabalho autónomo, individual, de estudo em casa, que muitos não cumprem — estou a falar daquilo que sinto nas minhas aulas. São esses licenciados que vão depois tentar o mercado de trabalho, que exige, além de conhecimentos, cada vez maior flexibilidade, disponibilidade e capacidade de trabalho. Alguns estão preparados, outros não, mas o mundo laboral é, como sabe, também, muito, um mundo de oportunidades, e nos nossos dias há menos… O ónus não tem de cair (só) nas universidades.

 

 


Doutora em Literatura Alemã pela Universidade de Aveiro, é professora na mesma instituição desde o ano letivo de 1979-1980. Foi vice-coordenadora do mestrado em Estudos Editoriais de setembro de 2007 a março de 2011. Nos últimos anos tem tido a seu cargo a lecionação de disciplinas dos cursos de licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas; Tradução; Línguas e Estudos Editoriais; Línguas e Relações Empresariais; assim como dos mestrados em Estudos Alemães e em Estudos Editoriais. Tem como áreas de estudo e de investigação: Relações Literárias e Culturais Luso-Alemãs; Mitos e Figuras Femininas da História e da Bíblia na Literatura de Expressão Alemã Contemporânea; A Edição em Portugal na Atualidade.

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Ter, 7/Fev/12
Ter, 7/Fev/12

 

Num momento em que Portugal parece viver num jet-lag ortográfico, o comissário do Plano Nacional de Leitura (PNL), Fernando Pinto do Amaral, explica a semelhança entre a ortografia e os fusos horários. Sem desorientações está o plano que quer pôr Portugal a ler e ainda tem cinco milhões de relutantes à leitura. Esta é a entrevista que explica o que aí vem do PNL e o que faz falta no mercado editorial.

 

Os Portugueses estão a ler mais?

Nos últimos anos, de acordo com os estudos disponíveis, os jovens portugueses estão a atribuir maior importância à leitura, e creio que isto também será válido para a população em geral. Do ponto de vista dos editores, o número de títulos publicados também parece indicar algum aumento. De qualquer modo, não é motivo para ficarmos satisfeitos, porque cerca de 50 % da população não lê habitualmente livros, o que ainda é um valor demasiado alto.

 

Como vê a pasta da Cultura integrada numa secretaria de Estado ao invés de um ministério?

Ao passar de Ministério para Secretaria de Estado, é inegável que houve alguma perda de estatuto simbólico. Em todo o caso, o facto de a Cultura depender diretamente do Primeiro-Ministro e, sobretudo, a circunstância de ser Francisco José Viegas o titular da pasta são fatores positivos para o setor do livro. Na verdade, mais do que ser ou não ser Ministério, parece-me decisivo o perfil da pessoa que tutela a Cultura.

 

O que podemos esperar do Plano Nacional de Leitura para 2012?

Em 2012 o Plano Nacional de Leitura irá prosseguir o trabalho realizado nos últimos cinco anos, tentando consolidar os resultados obtidos no 1.º e no 2.º ciclos do Ensino Básico, bem como na Educação Pré-Escolar. Procuraremos também desenvolver iniciativas que se dirijam aos alunos mais velhos, ou seja, os do Ensino Secundário. Tendo em conta os recursos disponíveis, iremos apostar mais na qualidade e não tanto na quantidade, promovendo, por exemplo, estudos sobre a aprendizagem da leitura e orientações para os professores. Também será necessário ultrapassar os atuais constrangimentos orçamentais e diversificar as fontes de financiamento. A propósito, aproveito para dizer que a próxima edição da Semana da Leitura, em março de 2012, será apoiada financeiramente pelo Banco Popular, com quem assinámos um protocolo nesse sentido. De qualquer modo, o essencial, quanto a mim, será mobilizar os professores, cujo trabalho é determinante, porque são eles que, no quotidiano das escolas, podem motivar os nossos jovens a ler mais e a ler melhor.

 

Qual a sua posição face ao novo Acordo Ortográfico?

Isso seria matéria para uma longa conversa… Seja como for, o Acordo Ortográfico foi aprovado e nos documentos oficiais está já a ser aplicado. Dito isto, a minha posição pessoal, como escritor, sempre foi fortemente reticente a este Acordo, que aliás não unifica a ortografia, admitindo muitas palavras com dupla grafia. «Recepção», por exemplo, continuará a escrever-se com p no Brasil (onde a consoante se pronuncia), enquanto essa letra cairá em Portugal. Na prática, creio que isto tornará a ortografia mais próxima da fonética, o que irá implicar, para muita gente, uma relativa desvalorização do próprio conceito de ortografia, já que as pessoas irão perceber que, de facto, a mesma palavra pode escrever-se de várias maneiras. Aliás, a ortografia é uma convenção, embora não seja arbitrária e esteja baseada numa realidade objetiva. É um fenómeno análogo ao da invenção dos fusos horários, que obviamente também não são arbitrários e se baseiam no movimento de rotação da Terra, mas que, em última análise, são também uma convenção… Voltando ao Acordo Ortográfico, tenho pena que não tenha havido maior debate e que as decisões não tenham sido mais ponderadas em tempo próprio, mas também devo dizer que, do ponto de vista da literatura, não é assunto que me tire o sono, até porque o valor literário de um texto não depende nem nunca dependeu da ortografia — era o que faltava! Durante séculos tivemos grandes escritores, quando pura e simplesmente não havia ortografia. Cada um escrevia à sua maneira, e os textos não perderam a qualidade literária por causa disso — ai de nós se assim fosse…

 

De que forma pode um mediador da leitura socorrer-se do PNL para incentivar os mais novos a serem (mais) leitores?

O PNL não veio inventar a roda e está presente nas escolas, em estreita ligação com a Rede de Bibliotecas Escolares, já que os nossos grandes mediadores de leitura são, de facto, os professores, e em especial os professores bibliotecários. É claro que eles podem socorrer-se de algumas orientações do PNL, mas o mais importante é que acompanhem os alunos nos seus percursos individuais de leitura, desde a mais tenra idade. Esse acompanhamento dos professores é fundamental. Para os mais velhos, no Ensino Secundário, uma das propostas que têm funcionado é a organização de Clubes de Leitura, de inscrição voluntária, que periodicamente reúnem para debater os livros lidos, segundo o modelo das Comunidades de Leitores.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Uma ideia seria a publicação de boas coleções de clássicos da literatura portuguesa, mas também da literatura universal: livros baratos e acessíveis, de bons autores, objetos fáceis de transportar e de manusear. Sei que a Imprensa Nacional, por exemplo, está a preparar uma coleção desse género, e já começa a haver outras no mercado. Uma ideia diferente poderia ser uma boa coleção de biografias, que talvez suscitasse a adesão dos leitores.

 

Qual o papel da leitura num contexto de crise? Nunca precisámos tanto de ler como agora?

Neste contexto de crise o papel da leitura parece-me ainda mais importante, desde logo porque os livros — cujo IVA se manteve na taxa reduzida de 6 % — são comparativamente baratos em relação a outros bens culturais. Além disso, as bibliotecas públicas são gratuitas, estão bem equipadas, e, existindo uma rede espalhada por todo o território, toda a gente pode ter acesso aos livros. De um ponto de vista mais subjetivo, acrescentaria que a leitura pode tornar-se mais crucial em períodos de crise porque um livro representa, muitas vezes, um escape para as dificuldades da vida terrena ou mesmo uma consolação para o sofrimento humano. É certo que houve livros — e bons livros como o Werther de Goethe — que já levaram pessoas ao suicídio, mas mesmo isso faz parte dos riscos e dos encantos da leitura… A verdade é que graças à leitura podemos compreender melhor o mundo, e mesmo o seu aparente caos ou absurdo podem ganhar algum sentido. A leitura serve também para adquirirmos sentido crítico, para pormos em causa algumas ideias feitas e para pensarmos com a nossa própria cabeça, fugindo à mentalidade do rebanho e não indo atrás das opiniões generalizadas. Enfim, e ainda no que toca à crise, eu diria que a leitura pode contribuir para que o empobrecimento material não implique forçosamente um empobrecimento intelectual ou espiritual — antes pelo contrário, é em épocas de sacrifícios materiais que muitas vezes as pessoas dão mais valor ao essencial, àquilo que não tem preço, que não se compra nem se vende.

 

Como vê as críticas que indicam que a malha de seleção de obras para integrar as listas do PNL é demasiado larga?

Essa é uma questão sempre delicada, porque podemos ser presos por ter cão ou presos por não ter… Há também quem se queixe de que a malha é estreita e de que há excelentes livros que por qualquer motivo não figuram nas listas do PNL. A verdade é que essas listas referem apenas um conjunto de livros sugeridos ou recomendados e, portanto, não constituem nenhum cânone ou nenhum programa de ensino nem pretendem sê-lo. São elaboradas por uma equipa de especialistas, composta por escritores e professores de literatura infanto-juvenil, e incluem geralmente obras de qualidade, mas volto a sublinhar que estão longe de ser um cânone. Pessoalmente, procuro desdramatizar essa questão, mas reconheço que em Portugal sentimos ainda os efeitos de uma mentalidade muito centralizadora e dirigista, em que alguns professores tendem a olhar para tudo o que vem do Ministério da Educação como uma Bíblia ou uma Lei Sagrada. Pelo contrário, quando vou às escolas, digo sempre aos professores que as listas do PNL, mesmo servindo de orientação útil, não são para seguir cegamente, e que eles, professores, podem sugerir também outros livros aos seus alunos. Sem ignorar o papel de referência que as listas desempenham — e que é fundamental como orientação —, creio que esta atitude de autonomia é a mais equilibrada.

 

 

 

Nascido em Lisboa, em 1960, Fernando Pinto do Amaral frequentou a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa durante três anos, mas abandonou o curso (1982), vindo a licenciar-se em Línguas e Literaturas Modernas (1986), concluindo o mestrado (1990) e o doutoramento em Literatura Portuguesa (1998). É professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem publicado livros desde 1990 (poesia, ensaio, ficção) e traduziu poemas de Baudelaire, Verlaine, Jorge Luis Borges e Gabriela Mistral. Prefaciou edições de poesia de Camões, Bocage, Antero de Quental, Cesário Verde, Ruy Cinatti, Tomaz Kim e Luís Miguel Nava, entre outros. Integra desde a origem a direção da Fundação Luís Miguel Nava e o Conselho Editorial da revista de poesia Relâmpago (publicada desde 1997). Foi comissário da exposição 100 Livros do Século (CCB, 1998), tendo igualmente comissariado as presenças portuguesas na Feira do Livro de Frankfurt nos anos 1998 e 1999, bem como no Salão do Livro de Genebra em 2001 e na LIBER — Feira do Livro de Barcelona em 2002. Exerceu com regularidade crítica literária no JL, Público, Diário de Notícias, COLÓQUIO/Letras e noutras publicações. Tem sido membro de diversos júris de prémios literários, sendo membro permanente do júri do prémio Dom Dinis, da Fundação da Casa de Mateus. O seu «Fado da Saudade», cantado por Carlos do Carmo e incluído no filme Fados, de Carlos Saura, recebeu em Espanha o prémio Goya para melhor canção original em 2008. Exerce desde o outono de 2009 as funções de comissário do Plano Nacional de Leitura.

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Qui, 2/Fev/12
Qui, 2/Fev/12

 

No tempo que lhe levar a ler esta entrevista, é muito provável que José Jorge Letria escreva um novo livro. Prolixo como poucos, o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores mostra-se preocupado com o advento da pirataria de e-books, se bem que a velhinha fotocópia lhe continue a merecer as maiores preocupações. Garante que a SPA, tal como o universo, continua em expansão e que é a grande defensora dos criadores portugueses.

 

No contexto da edição em livro digital, da pirataria, da pouca clareza relativamente à tutela dos direitos de autores, que pode a SPA fazer para proteger os seus autores? Ou não existe motivo para estarem sequer preocupados?

Existem, naturalmente, motivos de preocupação, já que as novas tecnologias podem ser, desde que reguladas e regulamentadas, o maior aliado dos autores, mas também o seu maior inimigo se evoluírem de uma forma selvagem e descontrolada, como acontece atualmente com os mercados. Por isso estamos particularmente atentos ao que se passa e sempre recetivos em relação ao que os autores têm para nos dizer sobre a sua atividade, receios e expectativas. Aos autores, dizemos ainda que, fora da SPA, estão seriamente desprotegidos. Por outro lado, temos hoje um grau elevado de diálogo com os editores e com a estrutura que os representa — a APEL —, o que não acontecia ainda há alguns anos. Há indícios de que a pirataria vai expandir-se no domínio digital, mas, neste momento, o mais grave é a proliferação da fotocópia, que prejudica gravemente os autores e os editores, deixando-nos, nesta matéria, na cauda da Europa da União.

 

O José Jorge Letria é um dos autores mais prolixos da literatura portuguesa. Como conjuga a atividade da escrita com os vários cargos que tem vindo a ocupar?

Tento conjugá-las com disciplina, obstinação e algum espírito de sacrifício. Umas atividades completam e enriquecem as outras. Como fui jornalista profissional durante quase 25 anos, sobretudo em jornais diários, ganhei o hábito de escrever depressa e de gostar de trabalhar sob pressão. Além disso, é importante que diga que não imagino a minha vida sem o ato de escrever regular e empenhadamente.

 

Há algum ilustrador com quem ainda não tenha trabalhado e com quem gostasse muito de trabalhar num futuro livro?

Creio que tenho trabalhado com os maiores ilustradores portugueses desde que comecei a publicar para crianças em 1979 (para o outro público comecei com um livro de poemas, Mágoas Territoriais, Assírio & Alvim, em 1973). Há alguns ilustradores de muita qualidade com os quais ainda não trabalhei, mas lá chegaremos. Estão sempre a aparecer novos e excelentes criadores nesta área. Mas estou muito satisfeito com o elenco daqueles com os quais tenho trabalhado, destacando, pelo volume de colaborações, o André Letria e o Afonso Cruz. Também me bati bastante pelo reconhecimento dos ilustradores como autores de pleno direito, quando isso estava longe de ser regra em Portugal.

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual ministro da Economia, qual seria?

Talvez lhe fizesse esta, mesmo sem lhe chamar Álvaro: como se pode falar no papel das exportações para a recuperação da nossa economia agonizante se não se criarem condições para a internacionalização dos nossos bens culturais (a começar pela música), que são, sem dúvida, dos mais exportáveis e prestigiantes junto de outros públicos e mercados?

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Em primeiro lugar é preciso acreditar que esse é um património de cultura e civilização que nos garante, no mundo, um lugar respeitado e competitivo. Depois é preciso que haja uma política da língua, coisa que nunca chegou a ser minimamente delineada. Além disso, é preciso garantir a sustentabilidade dessa política não fechando leitorados e dando ao Instituto Camões uma dinâmica correta, competente e com verdadeiro sentido estratégico, apesar dos constrangimentos impostos pela crise. Ora, isso está praticamente tudo por fazer, como sempre esteve.

 

Acha que o novo Acordo Ortográfico é fundamental para a sobrevivência e expansão da língua portuguesa?

Embora pessoal e tecnicamente eu não tenha aderido às regras do Acordo Ortográfico, por razões culturais e geracionais considero que a dinâmica criada impõe a aceitação da norma, sobretudo se quisermos contar com o mercado do Brasil e com o emergente da África lusófona. O Acordo não foi discutido como deveria ter sido no momento certo, de forma transparente e participada, o que foi lamentável, e nisso foi enorme a responsabilidade do governo português da altura, mas agora é uma inevitabilidade à qual nos iremos adaptando, mesmo quando é preciso chamar «espetadores» aos «espectadores». Mas há quem seja pago para adaptar os textos para a nova norma.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Acho que está confuso, incerto e muito apreensivo, devido às nefastas consequências que a crise também provoca no setor. Ninguém sabe como vai evoluir a lógica da concentração da propriedade das editoras em grandes grupos, que espaço vai restar para as pequenas e médias editoras, como é que o mercado vai evoluir, apesar da manutenção positiva do IVA e como é que a pirataria digital poderá vir a afetar a atividade, que tem, naturalmente, uma forte componente de negócio. É preciso esperar para ver, com seriedade, lucidez e exigência. Certo é que aquilo que condiciona o mundo do livro em Portugal tem muito pouco que ver com o livro e com quem vive dele e para ele.

 

Como vê as críticas que apontam a SPA como uma mera cobradora de valores?

As sociedades de autores existem basicamente para cobrar direitos e para os distribuir corretamente, depois de retirarem a comissão que legitimamente lhes pertence. Mas a SPA é muito mais do que isso. Tem uma forte política assistencial para apoiar os seus associados (desde o seguro de saúde até ao subsídio estatutário a partir dos 60 anos), garante-lhes apoio jurídico regular, tem uma programação cultural coerente e abrangente e um fundo cultural que já apoiou nos últimos três anos mais de 80 projetos de diversas disciplinas de criação. De outro modo nunca se teriam concretizado. Como se vê, é muito mais do que uma mera estrutura de cobrança, embora todas as outras valências dependam de uma boa cobrança, de resto cada vez mais difícil num grave contexto de crise. De qualquer modo, é importante que os autores de todas as áreas percebam que só sendo associados da SPA terão os seus direitos verdadeiramente protegidos. Já assim era, mas agora esta evidência ganhou uma forma inquestionável. Por isso há cada vez mais autores a inscreverem-se na SPA, que é a única sociedade de autores existente em Portugal e é totalmente multidisciplinar. Só em Portugal temos cerca de 25 mil autores representados, mas muitos mais vão chegar, por perceberem que este é o seu espaço e a sua casa.

 

 

© Inácio Ludgero

 

José Jorge Letria é poeta, jornalista, dramaturgo e autor de uma vasta obra para crianças e adultos, nasceu em Cascais em 1951. Trabalhou, durante mais de duas décadas e meia, em alguns dos mais importantes jornais portugueses, sendo mestre em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa. Foi vereador da Cultura da Câmara Municipal de Cascais entre 1994 e 2002. Com livros traduzidos em cerca de uma dezena de línguas, foi distinguido com dois Grandes Prémios da Associação Portuguesa de Escritores (teatro e conto), com o prémio Aula de Poesia de Barcelona, com o prémio Internacional Unesco, com o prémio Plural (México), com o prémio Eça de Queirós-Cidade de Lisboa, com um prémio Gulbenkian e com o prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte, entre outros. Foi um dos criadores do programa Rua Sésamo, na versão portuguesa, e também autor de vários programas de rádio e televisão. Ao lado de nomes como José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, foi uma das vozes mais representativas da canção política em Portugal, tendo sido agraciado com a Ordem da Liberdade em 1997. O essencial da sua obra poética encontra-se condensado nos dois volumes da antologia O Fantasma da Obra.

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Ter, 31/Jan/12
Ter, 31/Jan/12

 

O que une José Rodrigues dos Santos a Rogério Casanova? Guilherme Valente, fundador e editor da Gradiva, sabe e conta-o nesta entrevista. Não gosta do título de editor independente e admite que este é o momento de recorrer ao mealheiro. E como sobreviverá uma editora que aposta na divulgação da ciência num país em que desaparecem os leitores?

 

Qual a maior dificuldade que um editor independente sente no dia a dia?

Não acho adequado o sentido com que anda a ser usada a expressão «editor independente». Independente de quem ou de quê? Todos os editores, que eu saiba, são independentes, não estão a cumprir qualquer desígnio que não seja editarem.

 

Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editor?

Delicada, no sentido de difícil, só me recordo da situação que vivíamos antes do 25 de Abril, um tempo em que chegavam a apreender livros (nas editoras onde então trabalhei) por causa do texto numa contracapa. Ou seja, uma contingência sempre imprevisível, até ao ridículo. Muitas vezes percebia-se a razão (e podíamos prevê-lo), mas outras estupidamente — ou talvez não, porque o objetivo era sempre também fragilizar a editora. Um exemplo: num pequeno livrinho duma coleção das Publicações Dom Quixote, dedicado à questão da Irlanda, de que fui autor, escrevi na contracapa, para ilustrar a fotografia de um edifício em chamas, algo como isto: «Não há exército que consiga apagar o incêndio que devasta a Irlanda.» E o censor terá visto no meu texto uma alusão à guerra colonial… e viu bem.

 

Mas conseguíamos passar muitas mensagens, claro, muitas vezes no fio da navalha. Um exercício de criatividade, cujo êxito nos divertia muito.

 

Se a pergunta se refere a dificuldades económicas na minha condição de editor da Gradiva, respondo que temos sabido antecipar-nos sempre. Treino a antecipação todos os sábados no jogo de futebol com os meus Amigos.

 

Num outro sentido acrescento ainda que a maior dificuldade para uma editora como a nossa é a morte da escola, o domínio do analfabetismo e do iletrismo, a perda do desejo de saber, da curiosidade e da liberdade intelectual. Por isso é tão relevante publicar livros que façam leitores. Para acompanharmos um espírito livre em permanente inquietação e indagação intelectual — esse é um intelectual! — e, já agora, para nos apercebermos da miséria da nossa realidade intelectual dominante de hoje, leiam-se as cartas de António José Saraiva para Luísa Dacosta, um livro que acabámos de publicar, de que os especialistas em livros não irão falar, claro. Um bálsamo para quem o ler.

 

O que devem os editores saber rapidamente, sob pena de desaparecerem?

Disse-me um dia um grande editor americano que a atividade empresarial da edição é a mais difícil de todas. Quem tiver êxito nesta atividade empresarial terá em qualquer outra, disse-me. Uma editora como a Gradiva vive com gente culta e de talento. E depende da sobrevivência de leitores, de curiosidade intelectual e desejo de saber.

 

Como é a sua relação com o autor bestseller José Rodrigues dos Santos?

Perfeita. É um homem com uma inteligência brilhante e muito pragmático.

 

O que esteve por detrás da ideia de criar a Gradiva?

Contribuir para mudar a cultura portuguesa, pensando desde logo na promoção da cultura científica e na educação. Parecia uma ambição delirante, mas não esqueço o que o meu Amigo Professor Sedas Nunes me disse quando considerei a possibilidade de criar uma editora, hipótese que ele muito encorajou e apoiou: «O País precisa mais de um grande editor do que de mais um grande professor, não hesite.» O Professor Sedas Nunes era muito meu Amigo, de qualquer modo, sem falsa modéstia, acho que não o teria dececionado completamente.

 

Na verdade, não conseguimos tanto como sonhámos, mas tive testemunhos de que o nosso trabalho terá contribuído para a descoberta de algumas vocações e para suscitar outras iniciativas. Curiosa e surpreendentemente, nem só de Portugal. E houve mesmo um tempo, breve, em que o resultado da nossa intervenção se manifestou nas escolas. Depois veio o eduquês, e aconteceu o que Mário de Sottomayor Cardia bem previu, bem antes de eu o ter começado a combater — o eduquês com o seu efeito de idiotização geral. E a Gradiva trouxe-me Amigos fantásticos, que alimentam hoje a minha vida, a minha vontade de continuar a combater.

 

É dos poucos editores que não têm medo de dizer que ganham dinheiro com o seu trabalho. Quais os segredos da Gradiva e afinal quanto vale a editora?

Não me ficará mal revelar um dos segredos: as pessoas, as pessoas competentíssimas e generosas (generosas também porque conseguem ser minhas Amigas) que me rodeiam, o espírito da Gradiva, que também a mim me condiciona e de que se apercebe logo quem vem conviver connosco. Se há atividade em que a qualidade intelectual, profissional e humana das pessoas é decisiva, é a edição.

 

A editora, como caso singular que é, não tem preço. Quanto ao dinheiro que a Gradiva ganhou, podemos agora, temos agora, de começar a ir ao mealheiro.

 

Que projetos podemos esperar para o futuro da Gradiva?

Grandes livros, ainda mais rigorosamente selecionados, nos vários géneros que publicamos, desde logo na ciência (agora, uma verdadeira resistência). Enfim, livros de que a generalidade da crítica de hoje não é capaz de falar, mas que os nossos leitores esperam de nós e sabem apreciar.

 

Acho, aliás, ao contrário do que muita gente nesta atividade me parece continuar a pensar, que muito em breve só haverá mesmo lugar para os grandes livros.

 

Os e-books não serão capazes de salvar a leitura na dimensão que estou a referir. De facto, temos estado a assistir (há muitos indicadores disto) ao fim da leitura enquanto fenómeno generalizado, instrumento estruturante praticado, promovido, pela escola. Restará uma elite cada vez mais restrita. Repare que mesmo nas universidades já se lê muito pouco — não apenas os alunos, mas também os professores. Vou anualmente a uma Universidade participar em aulas ou conferências e todos anos vou verificando crescentemente isso. E os meus Amigos professores sentem e verificam o mesmo. A partir de 1500 (período em que grandes especialistas consideram ter ocorrido a única revolução total) não houve nenhuma grande manifestação humana, nas artes, nas ciências, etc., que não implicasse, de algum modo, a leitura e o livro. Estaremos a viver o fim dessa era?

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Com o meu Amigo Francisco José Viegas tenho muitos temas para agradáveis e enriquecedoras conversas. Ao Secretário de Estado da Cultura não tenho nada para perguntar.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Ter boas ideias próprias. Além da vergonha que devia ser andar atrás das boas ideias e dos bons autores que outros descobriram, a falta de ideias próprias traduz-se numa empobrecedora falta de diversidade editorial e, logo, intelectual e cultural.

 

Como vê as críticas que apontam a inclusão de José Rodrigues dos Santos como um fator de deterioração do catálogo da Gradiva?

Li com muito interesse e sempre com grande proveito todos os livros de José Rodrigues dos Santos. Se não fosse assim, não o publicaríamos. Recusei muitos livros que sabia irem ser bestsellers (perdoem-me não dizer quais). Também sempre achei incompreensível aquela ideia que se tornou quase um slogan: «Publicamos os maus para podermos publicar os bons.»

 

Hoje, infelizmente, não leio tanta ficção como gostaria, mas estou a ler cada vez mais outra vez, sobretudo os clássicos que não li na altura própria — eu que julgava ter lido tudo. Tenho uma filha que é leitora compulsiva e se mete muito comigo por não ter lido o que ela já leu… Leio igualmente alguns autores contemporâneos, autores que o nosso meio literato promove muito, e interrogo-me: será que daqui a 50 anos alguém falará neles ainda? Que autores resistirão ao julgamento isento do tempo? A História está cheia de revelações surpreendentes.

 

Sabe, José Rodrigues dos Santos comete o pecado que entre nós, Portugueses, é o mais difícil de ser perdoado: o do êxito.

 

A inveja é um sentimento humano universal. Mas entre nós, na nossa cultura dominante, manifestamo-la de um modo terrível, autoflagelador (esse sentimento — ao contrário do que no meio popular se costumava ouvir — fere é quem o sente e exerce): tenta-se destruir os que invejamos, em vez de se tentar perceber o que os faz serem o que são e conseguirem o que conseguem e, assim, ir-se mais além, para benefício próprio e de todos. A visão do outro traduz-se, deste modo, numa dialética negativa, de que resulta uma diminuição de nós próprios, em vez de se traduzir numa dialética positiva, a superação das nossas próprias limitações.

 

E já agora, porque falamos em José Rodrigues dos Santos e estamos na época das prendas, vou oferecer ao Blogtailors uma «cacha»: não é José Rodrigues dos Santos, de facto, o autor dos livros publicados com o seu nome. O verdadeiro autor é… Rogério Casanova!

 

 

 

Guilherme Valente nasceu em Leiria a 1 de julho de 1941. Licenciado em Filosofia e pós-graduado em Relações Interculturais. É um dos editores mais prestigiados, no país e no estrangeiro, cultural e empresarialmente. Trabalhou nas Publicações Europa-América, nas Publicações D. Quixote e na Editorial Presença, editoras em que assumiu várias funções, tendo sido responsável pela publicação de inúmeras obras e por inúmeras iniciativas de promoção do livro e da leitura. Criou a editora Gradiva em 1981, um projeto editorial cuja novidade, qualidade e ação cultural têm sido amplamente reconhecidas. Criou e dirige na sua editora várias colecções pioneiras dedicadas à divulgação científica, à ciência, à matemática. Foi condecorado, em 1993, pelo presidente da República Dr. Mário Soares, com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique, pelo contributo continuado e diversificado que tem prestado para a valorização da cultura portuguesa. Em 1998, foi agraciado pelo presidente Dr. Jorge Sampaio com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo trabalho pioneiro e continuado persistentemente na valorização da cultura científica e do interesse pela ciência, particularmente entre as novas gerações.

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Qui, 26/Jan/12
Qui, 26/Jan/12

 

A partir do próximo dia 31 de janeiro, o Blogtailors passará a publicar semanalmente entrevistas exclusivas a figuras importantes do panorama editorial português, sobre temas como a expansão dos grupos editoriais para o mercado brasileiro, o Acordo Ortográfico ou a diminuição da presença da cultura nos meios de comunicação social.

 

As «Entrevistas Booktailors» vão ser publicadas todas as terças e quintas. A rubrica começará com Guilherme Valente, autor, editor e fundador da editora Gradiva.


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