Booktailors
info@booktailors.com

Travessa das Pedras Negras

N.º 1, 3.º Dto.

1100-404 Lisboa
(+351) 213 461 266

Facebook Booktailors
Twitter Booktailors

FourSquare Booktailors



Facebook Bookoffice


Editoras Nacionais
Livrarias Nacionais
Livrarias on-line
Editoras Brasileiras
Imprensa Brasileira
Blogosfera Brasileira
Eventos no Brasil
Imprensa Internacional

Associações e Institutos de Investigação
Feiras internacionais
Sex, 2/Jul/10
Sex, 2/Jul/10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte V),
por Francisco Vale (*)

 

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.


[Parte I]
[Parte II]
[Parte III]
[Parte IV]


Riscos para os autores

 

Num certo sentido, pode dizer-se que agora os riscos vão ser corridos tanto pelos editores como pelos autores, cuja relação com os leitores atravessa um processo de mudança num ciberespaço onde é difícil acautelar os direitos, o estatuto criativo e mesmo a integridade das obras.

 

Ao longo de décadas, os autores foram postos em causa a nível teórico pelo desconstrucionismo. O digital tende agora a esbater a barreira selectiva do custo da impressão em papel, daí resultando uma avalanche de livros que ameaça submergir os autores realmente criativos. Além disso, estes podem ver as suas obras reelaboradas num processo em que o leitor deixa de ser alguém que responde à actividade singular do escritor para se assumir como participante num agregado em que todos são, mais ou menos, colaboradores em regime de hipertexto.

 

O «borgiano» projecto inicial do Google, destinado a resolver o seu problema de conteúdos digitalizando todas as bibliotecas, alarga este risco à escala do planeta, por maior que seja a vantagem de colocar qualquer livro a disposição do mais remoto dos leitores.

 

Os editores e escritores têm, em certos aspectos, interesses diferentes. Mas da sua colaboração depende, em boa parte, que tais riscos sejam evitados e que as novas possibilidades de contacto com os leitores se desenvolvam de um modo que impeça a diluição do papel criativo do autor.

 

A Relógio D’Água e os novos tempos

 

Editar surge como uma profissão de risco neste início de século, quando se ignora ainda onde vão ficar as fronteiras do livro tipográfico passada esta segunda vaga do digital.

 

Cada vez mais a razão de ser de um editor está na sua capacidade de escolha, de ir construindo um catálogo de referência que atraia os autores e inspire confiança aos leitores. O resto é a agilidade de uma estrutura, o financiamento, a qualidade das traduções e revisões, o grafismo, a paginação e a promoção.

 

Por isso considero actual a afirmação de Jason Epstein (co-fundador da The New York Review of Books, criador da Library of America, director da Random House e precursor da venda de livros on-line), que já fizera minha mesmo antes de a ler pela primeira vez:

 

«A edição de livros é por natureza uma indústria artesanal, descentralizada, improvisada e pessoal; realizam-na melhor pequenos grupos de pessoas com ideias afins, consagradas à sua arte, ciosas da sua autonomia, sensíveis às necessidades dos escritores e aos diversos interesses dos leitores» (A Indústria do Livro: Passado, Presente e Futuro da Edição).

 

Creio que esta concepção se mantém válida, embora a paisagem editorial se possa tomar irreconhecível em poucas décadas.

 

A Relógio D’Água continuará tranquilamente a publicar livros em papel, um suporte que continua a ter vantagens e não está sujeito a obsolescência tecnológica. Mas prepara-se para os novos tempos, prevendo a edição digital nos contratos e os respectivos direitos, adquirindo conhecimento das linguagens informáticas adequadas e refazendo o seu site e blogue. Analisará também as diferentes plataformas para divulgação do livro digital que vão instalar-se em Portugal, privilegiando as que resultarem da conjunção de editoras, à semelhança da criada em França pela Flammarion, Seuil e Gallimard.

 

Mas, amanhã como ontem, o essencial continua a ser a imaginação dos autores e a existência de leitores capazes de reconhecer um bom livro, mesmo que este passe por mais metamorfoses que os seres fantásticos de Ovídio.

 

(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 30/Jun/10
Qua, 30/Jun/10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte IV),

por Francisco Vale (*)

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.


[Parte I]
[Parte II]
[Parte III]


Futuros conjugados

Neste início de século, o destino do livro impresso depende da configuração psíquica das novas gerações, da sua habituação a leitura em ecrãs, um processo em que a plasticidade neurológica surge configurada pelas novas tecnologias de informação, os jogos de computador e consola e as artes de vanguarda ligadas ao vídeo.

Sobre estes aspectos é possível extrapolar observações de McLuhan sobre a influência cognitiva e social de novos media. Sabemos que saímos de uma civilização em que o livro impresso foi um meio de distanciamento e objectividade, que encorajou a iniciativa individual e finalidades pessoais, e que, em termos de alta cultura, conviveu bem com regimes ditatoriais. A sociedade em que já estamos é mais povoada de imagens, oral, sonora, interactiva e em rede, talvez com maiores potencialidades de participação política e resistência a projectos ditatoriais, pelo menos em formas declaradas.

Neste contexto, o livro impresso e a literatura parecem mais do que nunca reunidos num futuro incerto.

É a primeira vez que isso sucede desde o tempo em que a literatura era feita de narrativas sem suporte algum fora do corpo humano, como nos mitos, lendas e alegorias que seriam reunidas no Antigo Testamento e na poesia épica oral, do Gilgamesh à Odisseia.

Depois, e por muitos séculos, a literatura esteve associada ao papiro e ao pergaminho. Desde 1439, com a invenção dos caracteres móveis, a literatura e o livro impresso passaram a estar ligados na forma que hoje conhecemos. Mas o romance e o conto só puderam florescer, no século XVIII em Inglaterra e no século XIX na França e Rússia, com o advento da sociedade burguesa, a vida privada e os espaços de silêncio e lazer. As absortas leitoras dos quadros de Fantin-Latour são a melhor ilustração desse período.

Nas últimas décadas — com as mudanças da vida urbana e a expansão da oralidade, da música e do multimédia — o romance e mesmo o conto revelam-se géneros históricos e, portanto, perecíveis.

E se esses géneros literários vierem um dia a perder vitalidade, não parece haver razões para o livro impresso, ou mesmo electrónico, sobreviver na forma e com a influência que hoje possui.

Esse eventual definhamento não será efeito do suporte digital do livro, nem consequência directa das novas tecnologias e meios de comunicação. No passado, as mudanças na literatura não foram o resultado da passagem da narrativa oral para a escrita ou do livro em pergaminho para o tipográfico. Foi Homero que subverteu a poesia épica, não o facto de ela ter deixado de ser oral. As peças de Shakespeare, que permaneciam muito tempo manuscritas, não devem a sua ruptura com o drama isabelino à impressão em tipografia. As regras da criação literária têm uma larga autonomia das tecnologias que utilizam. Contudo, e ao contrário do que Harold Bloom sugere em O Futuro da Imaginação, são sensíveis aos contextos sociais, como se pode ver nalguns casos limite. É difícil de aceitar como coincidência individual de criadores geniais o que sucedeu com a arte e a filosofia na Grécia de Péricles, e com a literatura na Rússia que vai da libertação dos servos à revolução de 1905 e viu surgir Tolstói, Dostoievski, Tchékhov e Turguénev. O mesmo se poderia dizer do que ocorreu nos anos 30 a 50 nos EUA com Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Flannery O’Connor, Eudora Welty e Carson McCullers. Uma prova pela negativa é dada pela prolongada mediania da ficção francesa contemporânea em contraste com a joyciana fecundidade das letras irlandesas.

Actualmente só uma reduzida percentagem de adolescentes consegue ler sem a companhia de um som musical. A questão já não reside apenas na ausência de espaços de silêncio que permitam uma leitura atenta. Está também na recusa do próprio silêncio, em considerar a solidão da leitura inaceitável, na dificuldade de imaginar a partir da escrita fonética. É mesmo possível que se caminhe para uma certa dissociação entre a leitura e o livro, sobretudo o digital, tomando-se a leitura sequencial mais rara em benefício da fragmentária. O facto de os leitores de e-books serem conectáveis com a Internet e o inesperado êxito do Twitter confirmam esta possibilidade.

Aqueles que, como Steiner, celebram a diversidade permitida por Babel e encaram cada língua como a possibilidade de um mundo emocional diferente sentem a uniformização da literatura e a transformação do anglo-americano em novo esperanto como ameaças à criatividade.

Hoje a vulnerabilidade da literatura vem também da atracção exercida sobre muitos escritores de talento pelas possibilidades que a televisão, o cinema, a Internet e outros media oferecem em termos financeiros e de novos processos narrativos. Não é absurdo pensar que se Eça e Camilo vivessem hoje estariam a escrever argumentos televisivos ou cinematográficos e que os equivalentes de Os Maias e de Amor de Perdição teriam formas diversas.

E, no entanto, a escrita de contos e romances continua a ser a que menos meios tecnológicos exige, uma esferográfica e um papel ou um processador de texto. A escrita surge no prolongamento quase imediato da mão, está próxima da biologia humana, o que faz com que as obras surjam como resultado imediato da imaginação. É por isso que o livro é considerado um manancial de conteúdos para o multimédia e que escritores de talento vão resistindo aos apelos da televisão e da Internet.


[Parte V]

(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 28/Jun/10
Seg, 28/Jun/10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte III),

por Francisco Vale (*)

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.


[Parte I]
[Parte II]


Um novo fôlego?

Na época do digital, o livro impresso tem os inconvenientes da sua natureza material. Exige o abate de certas espécies de árvores, causa poluição fabril, é difícil de transportar, requer espaço e é perecível.
A impressão em offset só consegue custos unitários razoáveis para tiragens elevadas. E como se publica para um mercado incerto, a sobras e pesados custos de armazenamento antecipados nos preços.
A distribuição, venda nas livrarias, devoluções e armazenagem são responsáveis por mais de 60 por cento do preço do livro. O papel e a impressão por cerca de 15 por cento. Por isso, à primeira vista tudo o condena no confronto com a «imaterialidade» dos bits.
Será o livro impresso capaz de uma flexibilidade que o torne mais concorrencial, ao mesmo tempo que preserva a sua particular relação com o leitor? Terá futuro, pelo menos nos géneros que requerem uma leitura sequencial e reflectida, como a literatura e parte dos ensaios?
A própria evolução tecnológica no fabrico de papéis e o digital oferecem novas possibilidades ao livro impresso.
Verifica-se um crescente recurso a papéis reciclados, agora com preços mais acessíveis e gamas variadas. Por outro lado, e tal como se verifica nos escritórios actuais, nada garante que a leitura digital diminua o consumo de papel. Constata-se, aliás, que muitos dos que lêem e-books adquirem depois versões impressas.
O digital pode também dar uma ajuda na redução da incerteza das tiragens e nos custos de transporte e armazenamento. A impressão digital com máquinas industriais permite já, para tiragens inferiores a 700 exemplares, custos por unidade bem inferiores aos de offset. Há vários anos que é usada para imprimir em papel géneros menos vendáveis como a poesia e o teatro ou nas reedições. A impressão a pedido é hoje corrente e em breve estará disponível em livrarias portuguesas. Para os editores, esta tecnologia tem vantagens, permitindo disponibilizar fundos esgotados e reduzir custos de transporte, já que estará acessível nos principais centros urbanos.
Finalmente, esses processos, conjugados com os e-books e vendas na Internet, vão diminuir a dependência em que editores e distribuidores se encontram das livrarias, cujas margens se tornaram excessivas. Estas vão ser forçadas a uma acelerada reconversão e, à imagem do que já fazem as Borders Books, a articular as experiências livreiras tradicionais com a criação de centros digitais (fornecendo materiais como entrevistas com os autores e chats nas suas páginas web, livros on-line e impressão a pedido).
Também os editores deverão atravessar um processo análogo, serem Janus capazes de olhar ao mesmo tempo para o futuro e o passado, conjugando a sua tradicional actividade no livro impresso com o recurso a linguagens para fornecimento de livros on-line, e-books e impressão a pedido. (A obra de José Afonso Furtado, Os Livros e as Leituras, adianta pistas interessantes nesta área.)
Se o livro impresso conseguir baixar em cerca de 20 por cento o seu preço, ser-lhe-á possível, mesmo permanecendo mais caro que o digital, manter as suas vantagens na leitura sequencial, cujo exemplo acabado, para Umberto Eco, é o «policial» (ao mesmo tempo que o digital será preponderante nas leituras selectivas de ensaios, dicionários, enciclopédias, revistas e diários generalistas).
As vantagens do livro impresso, reverso da sua fragilidade, remetem também para a sua natureza material. Esta passa pelo papel, grafismo, formato e marcas do tempo, por um relacionamento singular em contraste com a monótona uniformidade das obras digitais.
É mais fácil imaginar que nas páginas fechadas de um livro impresso, personagens como Antígona, Iago, Fabrício, Natacha, o capitão Flint, Orlando, Corto Maltese ou Herzog continuam a sua existência e esperam o leitor, do que nos píxeis do livro electrónico.
E mesmo a questão do preço não é linear, pois não se pode emprestar um livro digital como o fazemos com uma edição em papel que, além disso, dura mais que uma vida e não consome energia.
Como escreveu Walter Benjamin, em Desembrulhando a Minha Biblioteca, «a existência do coleccionador de livros tem uma relação muito enigmática com a posse» e com os «objectos em que não sublinha o seu valor funcional, utilidade, ou destino prático, antes os considerando e os valorizando como cenário, teatro do seu destino». Daí que, em sua opinião, o coleccionador «como deve ser» mantenha «a mais profunda relação com os objectos: a posse».
Existe uma apropriação do livro impresso que passa pelo olhar, o cheiro e o manuseamento, a possibilidade de o folhear num gesto rápido ou pausado e de compor estantes onde se estabelecem singulares relações de vizinhança.
Daí que uma biblioteca possa ser um cenário quotidiano, algo que se transmite, uma passagem de testemunho entre gerações.
Nada disso tem correspondência em textos digitais.

[Parte IV]
[Parte V]


(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 25/Jun/10
Sex, 25/Jun/10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte II),

por Francisco Vale (*)

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.


[Parte I]

Séculos de livro impresso

Na sociedade actual, a cultura deixou de ser sinónimo de livro manuscrito ou impresso como o foi ao longo de 2500 anos, desde os papiros pré-socráticos até à invenção da tipografia, passando pelos pergaminhos medievais que acolheram a forma de códice. No Egipto dos faraós, a leitura e a escrita foram privilégio de escribas e sacerdotes. Na Grécia Antiga, e na sua forma utilitária, essas tarefas eram atribuições de escravos. Os volumina romanos estiveram ao serviço da expansão do latim e do Império. Mais tarde, o livro seria consagrado pelo cristianismo medieval e renascentista para fins religiosos. Porém, e de um modo geral, as três religiões do Livro tiveram problemas com os seus congéneres profanos. Basta pensar em Espinosa, Giordano Bruno ou nos antecessores de Salman Rushdie. Nalguns países protestantes, as populações eram ensinadas a ler para conhecerem a Bíblia, mas não a escrever. A Igreja Católica chegou mesmo a desaconselhar a leitura do Antigo Testamento e durante a Inquisição muitas obras só existiam nos esconsos de algumas bibliotecas e no Índex do Santo Ofício.

A democratização do livro inicia-se mais de três séculos depois de Gutenberg, sob o impulso dos ócios das famílias de comerciantes e das necessidades de literacia da revolução industrial. É nessa época que o livro chega aos domicílios burgueses, conhecendo, enquanto romance, um apogeu naquilo que os historiadores designam como o Grande Verão Europeu, e que foi da derrota de Napoleão à I Guerra Mundial. É desse período a identificação entre europeu culto e leitor.

Já em pleno século xx a importância do livro teve dois reconhecimentos indesejáveis. Sob o regime nazi as «obras degeneradas» eram purificadas à temperatura de 451 graus Fahrenheit. Estáline, por seu lado, preferia congelar em kolimás siberianos a imaginação de escritores refractários aos encantos do «realismo socialista».

A predominância das imagens

Entretanto, desde o início do século xx que uma nova mudança se fazia sentir. A fotografia generalizou-se e invadiu jornais e revistas. Nos anos 30, o cinema tornou-se popular na Europa, como arte influenciada pelos irmãos Lumière, e nos EUA, sobretudo como espectáculo inspirado nos «efeitos especiais» de Méliès. Na década de 50, surgiu a televisão que depressa se transformou no principal meio de comunicação de massas, recriando hábitos sociais e modos de fazer política e alterando as percepções do espaço público.

O livro, entretanto democratizado pela edição de bolso e pelos novos canais de distribuição, foi sendo secundarizado, e com ele a sociedade alfabética, pelas novas artes e meios de comunicação associados a imagem. A partir dos anos 80, com os computadores, a Internet, e depois os chats e as mensagens SMS, reforçou-se de novo a componente alfabética da sociedade após um longo período de afirmação da imagem. A escrita partilha mesmo hoje o fascínio dos ecrãs junto das novas gerações, embora ao preço de uma fragmentação simplificadora. É, no entanto, possível que o YouTube e a facilidade de envio de imagens em «banda larga» restabeleçam a situação anterior.

Para se entender a evolução próxima do livro impresso, é, pois, necessário considerá-lo na sua evolução específica e na relação com outros meios de comunicação. E para compreender o seu futuro é preciso relacioná-lo com os suportes digitais, os processos cognitivos e os novos hábitos de leitura, e mesmo com o destino da literatura a que tendencialmente poderá estar confinado.


[Parte III]
[Parte IV]
[Parte V]


(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 23/Jun/10
Qua, 23/Jun/10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte I),

por Francisco Vale (*)

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.

 

Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas na Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».

A frase era irónica, numa época em que os artigos sobre a crise do livro tipográfico formavam uma espécie de género ensaístico menor. Alguns anos depois tingiu-se de humor negro com o surgimento dos leitores de e-books e de uma geração habituada aos ecrãs e desabituada de livros.

Mas o livro impresso entrou no século XXI com inesperado vigor e as previsões sobre o avanço da edição electrónica revelavam-se apressadas.

Nos últimos anos acentuaram-se, contudo, as mudanças nos processos de circulação de textos e de outros materiais semânticos com a generalização dos computadores, a Internet e o ciberespaço. O surgimento de leitores de e-books com ecrãs de tecnologia e-ink, a redução dos seus preços e a disponibilização crescente de obras como resultado da corrida entre o Google e a Amazon fizeram o livro digital entrar em directa concorrência com a sua versão impressa.

Ao contrário do que ocorreu na década de 90, as previsões sobre o livro electrónico começam agora a ser antecipadas. É o que deverá suceder com o recente estudo internacional, citado por Juergen Boos, director da Feira de Frankfurt, que prevê que em 2018 as vendas de conteúdos digitais ultrapassem as do livro tradicional.

Há actualmente cerca de um milhão de leitores de e-books, sobretudo nos países anglo-saxónicos. Dentro de alguns anos serão dezenas de milhões, envolvendo uma parte considerável dos «grandes leitores» em todo o mundo.

O projecto do Google Books, de digitalizar o maior número possível de livros prossegue, apesar do desaire que conheceu nos EUA. Em breve, uma parte importante das obras no domínio público e outras negociadas com editores e autores estarão na Internet ao alcance dos dispositivos com ela conectáveis, computadores, televisores, iPhones, telemóveis e leitores de e-books.

Em vários países as bibliotecas públicas emprestam obras electrónicas aos associados. Os próprios ensaios e revistas tradicionais começam, também eles, a integrar imagens digitais móveis. E as marcas de leitores de e-books multiplicam-se, o mesmo sucedendo com as plataformas de difusão ainda em busca de uma linguagem comum.

O digital ocupa hoje uma pequena faixa costeira no continente do livro. Mas é uma maré que alastra, reflui e de novo avança removendo obstáculos e decidida a, dentro de algumas décadas, deixar apenas ilhas e arquipélagos de romances impressos ao alcance dos leitores de ficção.

Enquanto mercadoria com valor cultural, o livro tende a tornar-se um ramo da sociedade multimédia, muitas vezes remetido ao estatuto de fornecedor de conteúdos. O suporte em papel surge como uma das suas modalidades possíveis. E a mudança para o digital vai a par com a alteração das capacidades imagéticas e uma maior dispersão dos jovens leitores.


[Parte II]
[Parte III]
[Parte IV]
[Parte V]


(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 21/Jun/10
Seg, 21/Jun/10
CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A BOOKEXPO AMERICA (BEA) (parte III),

por Pedro Miguel Martins (*)

[Parte I]
[Parte II]


5. HABLA ESPAÑOL?

A BEA, em parceria com o Ministério da Cultura de Espanha, a Federação dos Editores de Espanha e a Comissão de Comércio de Espanha, promoveu a presença de representantes da indústria editorial do país vizinho, despertando o interesse por esse mercado — dos autores e editores ao público falante de castelhano.

A indústria editorial espanhola anseia seduzir os milhares de falantes do castelhano nos Estados Unidos. Além disso, a literatura espanhola tem sido traduzida com sucesso e tem vindo a ganhar, cada vez mais, o reconhecimento por parte dos leitores de língua inglesa, atingindo uma audiência cada vez mais alargada.

Assim, a oferta de seminários e conferências foi imensa — com mais de 16 temas diferentes disponíveis —, e o stand de promoção à indústria do livro espanhola era impressionante, apresentando autores novos e consagrados. Era ainda visível a promoção ao projecto America Reads Spanish, com o objecto de aumentar o número de leitores de língua castelhana com recurso a livrarias, escolas e bibliotecas americanas.

6. O LIVRO MAIS BADALADO!

Os vampiros estão na moda, e muito na moda! A confirmar isso, o livro The Passage, do escritor Justin Cronin, estava na lista de presentes de muitos dos participantes na BEA. Aliás, a presença do livro era permanente, dos enormes cartazes espalhados pelo Javits Center aos crachás que identificavam os participantes. Segundo foi possível apurar, dizem que é o livro de que todos falam. A crítica de um periódico distribuído durante os três dias do evento dizia que todos os livreiros e críticos literários que o tinham lido gostaram imenso. The Passage conta a história de vampiros que, ao contrário do que estamos acostumados, não nasceram de mordidas de morcegos, mas de experiências científicas mal-sucedidas. Sarah Palin e Tiger Woods continuam a dar que falar, a julgar pelos vários stands que promoviam livros sobre eles.

7. A NUVEM DA GOOGLE

O objectivo do Google Books é tornar mais fácil aos leitores encontrarem os livros que buscam quando e onde desejarem, seja num PC, em smartphones, em e-reader, etc.

Este programa da Google está disponível para editores, livreiros e, claro, leitores, sendo o seu objectivo concentrar o maior número de títulos disponíveis. Para os editores, permite concentrar numa única plataforma a sua oferta de livros e e-books, sendo eles a controlar a possibilidade de copiar/colar, imprimir e mesmo de visualizar o conteúdo, visualização essa que é normalmente de 20% do total da obra. Para o livreiro, o Google Books apresenta a vantagem, na janela de visualização do conteúdo, de o Google listar os locais na Internet onde o livro pode ser adquirido. Para os leitores, permite-lhes sobretudo aceder aos livros onde querem e quando necessitam a partir de telemóveis e de smartphones. Esse foi mesmo o dispositivo mais referido. Vale a pena consultar o respectivo sítio Web.

 

(*) Pedro Miguel Martins é licenciado em Design Visual pelo IADE desde 2003, exercendo a sua profissão no grupo r/com — renascença comunicação multimédia. Em 2006, concluiu o curso de especialização para Técnicos Editoriais na FLUL. É ainda fundador e editor da Letras d’Ouro.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 18/Jun/10
Sex, 18/Jun/10
CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A BOOKEXPO AMERICA (BEA) (parte II),

por Pedro Miguel Martins (*)

[Parte I]
3. E-BOOK: NÃO SEJA TECNOFÓBICO!

Há um sentimento generalizado de que as coisas estão a mudar no universo editorial. Numa das conferências, Nick Bilton, jornalista do The New York Times Bits Blog, defendeu a ideia de que existe hoje no mundo editorial um medo irracional das novas tecnologias, e ilustrou essa ideia, em tom jocoso, relatando a preocupação do New York Times, em 1876, de que o telefone haveria de ditar a morte da música ao vivo! Assim, a indústria do livro não deve viver de forma tecnofóbica, mas deve antes aproveitar as oportunidades.

Exemplo disso foi o fórum «DigitalBook2010, Where the digital book industry convenes», que reuniu os principais agentes ligados ao livro digital. Embora a participação nas conferências desse fórum fosse restrita, foi possível ter uma ideia sobre o tema visitando os stands expostos da quantidade de interessados na disputa deste mercado, apresentando aos editores plataformas e software para a leitura e uso dos e-books. Destaquemos dois exemplos: o BLIO, um software de leitura de e-books que, entre muitas ferramentas, permite a anotação, a partilha de notas e vídeos nos livros. O BLIO está disponível nas diversas plataformas, como iPod, iPad, Android, Windows e Mac, e é gratuito para o utilizador que o pretende descarregar. O outro exemplo interessantíssimo foi a apresentação da Live Ink, que, partindo de uma longa investigação acerca da forma como lemos e assimilamos o conteúdo da leitura, apresenta uma solução inovadora de formatação da mancha de texto em dispositivos digitais. Vale a pena ver o sítio Web.

Houve ainda espaço para a apresentação de soluções de apps para telemóveis, cujo uso está em forte crescimento. Assim, neste espaço pretendeu discutir-se as oportunidades destas soluções tecnológicas aplicadas ao universo editorial, com um foco especial na forma como os editores estão a usar as apps para promoverem os seus livros e até possibilitarem a venda e a distribuição de conteúdos.

De notar que não esteve presente na BEA a Amazon com o seu Kindle; esperava, aliás, encontrar algumas marcas a promoverem os seus e-readers, mas isso não aconteceu.

4. PODIA VIVER SEM O TWITTER OU O FACEBOOK?

Construir robustas comunidades on-line de leitores é um veículo crucial para autores, editores e livreiros terem visibilidade na Internet — mas como saber se estão no caminho certo? Estar presente no Twitter ou no Facebook implica saber como usar essas ferramentas de modo a passar a mensagem que se deseja, mantendo as pessoas despertas e interessadas. Os autores têm um papel preponderante no uso destas redes sociais para um maior contacto com os seus leitores. Porém, cuidado com o que se escreve ou se revela nesses meios! O assunto de conversa deve ser o universo à volta do livro e do autor, e não outros temas que possam desviar a atenção daquilo que se quer promover.
[Parte III]
(*) Pedro Miguel Martins é licenciado em Design Visual pelo IADE desde 2003, exercendo a sua profissão no grupo r/com — renascença comunicação multimédia. Em 2006, concluiu o curso de especialização para Técnicos Editoriais na FLUL. É ainda fundador e editor da Letras d’Ouro.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 16/Jun/10
Qua, 16/Jun/10
CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A BOOKEXPO AMERICA (BEA) (parte I),

por Pedro Miguel Martins (*)


1. ALERTA!

Esta foi a minha primeira experiência numa feira do livro dedicada em exclusivo ao ramo editorial. Assim, não poderei fazer qualquer comparação com outro evento do género nem tenho uma visão histórica para criticar ou projectar o futuro. O que vão ler corresponde à minha experiência pessoal, ao que escutei nas diferentes conferências a que assisti. Porque a memória é traiçoeira, alguns dos pontos que apresento têm o apoio do jornal diário Publishers Weekly, que foi sendo distribuído e que contém o resumo do muito que foi acontecendo ao longo dos três dias na BookExpo America.

2. O VALOR DO LIVRO

A abertura da BEA iniciou-se com um interessante (e disputado!) debate sobre «O Valor do Livro», com a participação dos principais dirigentes da indústria editorial americana, a saber: Oren Teicher, director-geral da American Booksellers Association; Bob Miller, editor da Workman; Scott Turow, presidente da Authors Guild; Esther Newberg, da International Creative Management; Skip Prichard, director-geral da Ingram; David Shanks, director-geral da Penguin, e Jonathan Galassi, presidente da Farrar, Straus and Giroux, que desempenhou o papel de moderador — tendo o debate sido centrado, logo de início, nas questões à volta do universo do e-book. Foi imediatamente perceptível que não há unanimidade neste tema: autores, agentes literários, editores e livreiros, todos apresentaram um tom crítico à forma como o e-book está a ser oferecido e comercializado.

Desde logo, foram expostas três grandes preocupações: pirataria, royalties, distribuição. Todos percebem que a pirataria já é uma realidade, tendo o director-geral da Penguin dado o exemplo, por muitos conhecido, de livros que são editados em papel e depois digitalizados e distribuídos pela Internet, advertindo, por isso, que não é o e-book como formato o culpado da pirataria, mas antes a ausência de uma oferta organizada. Aludiu-se ainda ao exemplo do que se passou com a indústria discográfica quando do aparecimento do MP3. As consequências da pirataria variam de acordo com o tipo de livro: quanto mais caro, mais pirateado. Enciclopédias, livros ilustrados e académicos em geral tendem a sofrer mais. A discussão centrou-se ainda no modelo de remuneração dos autores relativamente ao seus «direitos de autor», tendo o grupo sido dividido em dois: por um lado, Scott Turow e Esther Newberg defendiam que a edição do livro em e-book deveria ter uma remuneração maior em direitos de autor, considerando o preço final da venda desse formato; por outro lado, os editores defendiam-se indicando que ainda era cedo para se chegar a uma conclusão sobre esse assunto. Porém, referiu-se a política de preços da Amazon, de 9,99 dólares, como uma estratégia perigosa de dominação de mercado, pois não só cria um rombo na própria Amazon, como também deixa entrever a regra de que o electrónico tem de custar muito menos do que o impresso.

Relativamente à distribuição do e-book, notou-se uma crescente preocupação por não existir um «formato neutro», isto é, compatível com todos os modelos de leitores electrónicos, tendo sido veiculada uma crítica à Amazon por vender simultaneamente o livro em papel e o e-book. Na opinião de Jonathan Galassi, esse gesto foi um enorme erro em relação ao qual não se poderá voltar atrás; a melhor forma é pensar-se em modelos de venda que permitam tirar partido da actual situação.
[Parte II]

[Parte III]

(*) Pedro Miguel Martins é licenciado em Design Visual pelo IADE desde 2003, exercendo a sua profissão no grupo r/com — renascença comunicação multimédia. Em 2006, concluiu o curso de especialização para Técnicos Editoriais na FLUL. É ainda fundador e editor da Letras d’Ouro.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 14/Jun/10
Seg, 14/Jun/10
O REI VAI NU? SOBRE A VERGONHA DE GUILHOTINAR LIVROS (parte II),

por Diogo Madre Deus (*)

[Parte I]

O verdadeiro motivo para as enormes quantidades de stock, com tendência a aumentar e aumentar, é simples: os editores publicam demasiado. E fazem-no porque a tal são obrigados: porque editar significa facturar pouco e não paga todos os custos ou riscos que correm; porque este é um mercado pequeno (com pouco consumo), muito concorrencial, onde actualmente, como é sabido, todos os custos e riscos de edição cabem ao editor. Tendo menos custos, o editor aumentaria a sua margem e publicaria menos.

Para quando uma verdadeira resposta aos complexos problemas sectoriais da edição?

É curioso saber que, em mercados como o italiano, existe há muito uma política para o IVA editorial que funciona como medida estrutural de incentivo para o sector e não como medida correctora, para tentar resolver pontualmente um episódio da vida cultural do país. Em Itália, o IVA editorial — que é de 4% — é assumido exclusivamente pelo editor (o distribuidor e o livreiro ficam de fora). O editor deve, naturalmente, reembolsar o Estado italiano sobre as vendas que faz. As vendas são calculadas pela tiragem, às quais se subtraem as devoluções do mercado. O Estado, por defeito e como incentivo, considera que 70% da tiragem publicada pelo editor lhe será devolvida e que, portanto, fica isenta de imposto.

Entre muitas outras medidas de um pacote abrangente, os editores podem ainda contar com um custo subvencionado na expedição postal de livros (0,65 €) ou com uma contabilidade específica, que expressa de forma realista o valor e as existências no balanço.

Foi também o Estado italiano que comparticipou a implementação do primeiro sistema estatístico de controlo de vendas de livros em livraria, que permite aos agentes do sector, como acontece noutras áreas de consumo, saber em tempo real quanto e onde se vendeu determinado livro. Um instrumento crucial para perceber o ritmo de vendas e controlar o desperdício das altas tiragens. A política de compras das bibliotecas é eficaz. Não me acontece em Itália receber telefonemas de bibliotecas a pedirem ofertas por falta de orçamento para compra de livros. O que deve o editor fazer? Oferecer a umas e vender a outras?

Escolhi a Itália, porque conheço bem o mercado do livro nesse país, mas sei que noutros países também é assim: países onde existe, desde há muito, um pacote eficaz de medidas de protecção aos sectores culturais. Essas medidas ganharam forma após um estudo atento e sério dos problemas e das fragilidades dos vários sectores.

Não é de estranhar que a Itália, com a mesma percentagem de leitores de Portugal, seja o quinto maior mercado mundial do livro, bem à frente de países com populações maiores. Um mercado em que a facturação de um trimestre de apenas um dos três maiores grupos é equivalente ao total do nosso mercado nacional. E nós, com um mercado de exportação infinito quando comparado com o italiano... Foi preciso a entrada de capital financeiro de outras áreas no mercado do livro para a política perceber que este até é um sector importante da economia e não apenas um objecto de conversas de salão. Mas, por enquanto, e parece-me que ainda será por muito tempo, teremos apenas a velha lei do preço fixo como único instrumento de apoio sério ao sector. Merecíamos todos melhores políticos? Sim, merecíamos.

 

(*) Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro, fundou em 2005, com Romana Petri, a Cavallo di Ferro editore, com sede em Roma.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 9/Jun/10
Qua, 9/Jun/10
O REI VAI NU? SOBRE A VERGONHA DE GUILHOTINAR LIVROS (parte I),

por Diogo Madre Deus (*)

Que a Sr.ª Ministra da Cultura e os membros do seu gabinete ministerial tenham anunciado recentemente com pompa, numa aparente ingenuidade de leigos, que a solução para a destruição dos livros tinha sido por eles finalmente encontrada foi algo que me surpreendeu — isso e o facto de trazerem para a praça pública termos demagógicos como o de «massacre de livros». Afinal de contas, incendiar plateias é fácil, e, quando a classe política anuncia uma tão grandiosa solução, esperamos nós sempre que seja o fruto maduro do estudo, da moderação e do rigor. Ao invés, e infelizmente, toda esta cruzada contra a destruição de livros não passa de mais um equívoco, decerto bem-intencionado, mas resultado de uma exaltação repentina e efémera, ar de balão que, depois de inchado, se esvazia aos poucos, como tudo no nosso país, perante a passividade geral e a anuência militante de alguns.

No entanto, julgo que todos os editores sabem que não é com doações que se resolve o problema crescente do stock invendável ou o da sua destruição. Que ajudam, sim, talvez pouco, mas resolver: não. Longe de mim fazer a apologia do «massacre de livros», pois até estou (pelo menos por enquanto) de mãos limpas nessa matéria. É claro que hoje em dia ninguém fica indiferente à destruição de um livro. De igual forma, admito que é difícil reconhecer como boa decisão destruir um fundo editorial precioso. Por outro lado, recordo que os editores fazem um contrato privado com os autores, a quem devem prestar contas e dar explicações, e não com a sociedade. Depois, podem ficar descansados os bibliófilos, que fundos raros e preciosos não são decerto o que mais abunda nos grandes armazéns das grandes editoras. Para quem gosta de livros, esse fundo podemos nós encontrar com renovado prazer de arqueólogo nos alfarrabistas e nas livrarias de fundo.

Mas o que fazer com milhares de novidades que retornam todos os meses das livrarias, algumas delas em edições descuidadas, falhadas ou pelo menos em excesso? Digo eu que, em alguns casos, são os próprios autores os primeiros a desejarem que desapareçam de vez, para darem lugar a novas edições.

Gostaria ainda que me dissessem quais são e onde estão essas instituições espalhadas por Portugal e pelo mundo lusófono, preparadas e ansiosas por receberem todos esses livros, do mais recente método para emagrecer a ser feliz, tudo multiplicado por centenas de cópias a um ritmo mensal, ritmo esse multiplicado por anos.

Começando por dizer que, num país em que metade da população não lê livros e a outra metade pouco compra, haverá sempre excesso de stocks, estes, pelo andar das coisas, serão sempre demasiado grandes e terão tendência para aumentar. É igualmente prejudicial alimentarmos a grande escala leitores subvencionados, sobretudo por parte de quem tem menos meios ou dever de o fazer: os editores.

Não se lê, porque não se compra. Não se compra, porque não se quer ler. Como se pode constatar pelo resultado pouco animador das feiras de saldos, instaladas agora de forma perene pelo país fora. É hipocrisia dizer que a questão se funda no custo dos livros.


[Continua]

(*) Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro, fundou em 2005, com Romana Petri, a Cavallo di Ferro editore, com sede em Roma.

-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Seg, 7/Jun/10
Seg, 7/Jun/10
TANGERINA EM BOLONHA,
por Nuno Seabra Lopes (*)

N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER de Maio de 2010.

Planeta Tangerina. Duas palavras coloridas, com quatro caras alegres por detrás — Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins, Madalena Matoso e Yara Kono —, que, na sua «viagem de negócios» à medieval Bolonha, encantaram os visitantes, pelo segundo ano consecutivo, na principal feira profissional de livros infantis e juvenis do mundo, que decorreu no final de Março.

Apesar da sua curta existência, a editora é já uma referência na ilustração infantil. Vencedora de prémios e menções honrosas nacionais e internacionais (CJ Award, Best Book Design, FIBDA 2009, Melhor Design Infantil e editora revelação dos Prémios de Edição LER/Booktailors, além do Prémio Nacional de Ilustração atribuído a Madalena Matoso e, este ano, a Bernardo Carvalho), começa a assumir uma posição de relevo no mercado internacional.

Se em 2009 a Planeta Tangerina se apresentou «sobre rodas» — leia-se «numa estrutura ambulante» —, este ano surgiu em Bolonha com stand fixo, partilhado com a italiana Topipittori. Tão elogiado quanto concorrido, ostentava uma bandeira nacional desenhada por Bernardo Carvalho.

O expositor não era a sua única marca na feira italiana. Aparecia também no fundo da decoração do stand da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e em outros expositores, particularmente no da coreana CJ Awards.

A Planeta Tangerina sabe o caminho que trilha e investe nele, cria conteúdos comercializáveis no estrangeiro e vê os seus livros vendidos e editados em diversos idiomas. É, pois, um exemplo nacional de qualidade e profissionalismo, que merece ser seguido com atenção.

(*) Nuno Seabra Lopes é licenciado em Estudos Europeus, tem Especialização para Técnicos Editoriais e Mestrado em Estudos Editoriais. Trabalha desde 1999 no sector da edição, sendo Especialista Convidado do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É sócio-fundador da Booktailors e consultor editorial especializado nas áreas da edição e da estratégia.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 4/Jun/10
Sex, 4/Jun/10
É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!,
por Paulo Ferreira (*)

N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER de Abril de 2010.

Criar uma editora é algo de relativamente fácil. O mercado da edição não apresenta grandes entraves à partida, não exige elevado investimento inicial e a tecnologia está democratizada. Em poucas semanas, um editor pode estar a comercializar os seus livros. Deixa-se assim implícito que é fácil fazer livros, o que apenas em parte é verdade: há uma enorme diferença entre «fazer» e «fazer bem».

Da mesma forma, é relativamente fácil, de um ponto de vista empresarial, criar uma estrutura editorial (os requisitos burocráticos, legais e administrativos são comuns a muitos outros segmentos de mercado), pelo que, uma vez mais, o maior obstáculo é conseguir manter uma gestão equilibrada e profiláctica das grandes dificuldades do sector de edição de livros, onde o armazenamento e a gestão de stocks assumem uma relevância particular.

Vem este intróito a propósito do «massacre dos livros», tema assim baptizado pela actual ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, pianista com diversas obras musicais gravadas, que se terá indignado com a destruição, por parte do grupo LeYa, de alguns títulos sem potencial de mercado. Segundo a ministra, esses livros poderiam ser oferecidos.

Enquanto leitores, a destruição de livros deixa-nos sempre agastados, e a solução de oferta, numa primeira instância, parece nunca deixar de receber o aplauso de todos. Tudo estaria assim bem, se não fosse este um negócio de concorrência directa e se a responsável em causa não tivesse, ela própria, ignorado que o quadro legal português não permite a oferta sem os custos de pagamento de direitos de autor (cerca de dez por cento), do IVA (cinco por cento) e demais despesas de transporte por parte das editoras. Mais: se oferecerem os seus livros aos PALOP, por exemplo, criam concorrência desleal, na medida em que respondem a necessidades de mercados que dispõem de editores em actividade. Existe ainda a possibilidade de a oferta ser feita a instituições públicas, privadas e de apoio à comunidade, como bibliotecas ou centros sociais. Porém, tendo em conta que essas entidades são clientes das editoras, de que forma conseguirão estas, daí em diante, fazer comércio com aquelas instituições?

No mercado actual, os livros têm aquilo a que se chama «prazo de validade do iogurte», ou seja, depois de produzidos e colocados no mercado, podem ter uma exposição de curtas semanas, logo substituídos pelas novidades seguintes; os exemplares devolvidos (ou nem sequer comercializados) ficam a ganhar poeira nos armazéns dos editores, saindo apenas para vendas directas, sobretudo na Feira do Livro. Obviamente, esta situação implica custos muito elevados na gestão e no armazenamento de stocks. Desta forma, os editores vêem-se forçados a destruir livros e a limitar os custos inerentes. O que o grupo LeYa fez, e diga-se que o que fez é muito comum — serão poucos (ou nenhuns) os editores que não o fazem —, foi tão-só destruir livros sem possibilidade de comercialização. Tratou-se de uma decisão empresarial e não política, devidamente justificada numa perspectiva operacional, com pouco romantismo à mistura. Contudo, o pagamento de salários, rendas, IVA, prestações a fornecedores vários para a feitura do livro e, ainda, impostos ao Estado, tem também pouco de sexy ou glamoroso. É a cultura, mas também é a economia, estúpido.

Se se deve lamentar? Sem dúvida. Mas não podemos esperar que entidades privadas, com obrigações fiscais e financeiras a cumprir, assegurem e mantenham o acesso e a oferta cultural a todos os cidadãos — aquilo que um Estado social e de direito deve ser capaz de cumprir. Se o actual Executivo, na pessoa da ministra da Cultura, considera que se está a assistir a um «massacre», pois então que disponibilize as verbas necessárias para adquirir obras aos editores — e seja o próprio Estado o responsável pela distribuição das obras que considerar relevantes.

(*) Paulo Ferreira é consultor editorial na Booktailors, da qual é um dos fundadores. Com a Pós-Graduação em Edição: Livros e Suportes Digitais da Universidade Católica Portuguesa, co-lecciona actualmente no mestrado de Edição da Universidade de Aveiro a cadeira de Marketing do Livro.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 2/Jun/10
Qua, 2/Jun/10
ESCREVER À VISTA, DESENHAR SOBRE LETRAS (parte II),
por Carla Maia de Almeida (*)

[Parte II]

Carla Maia de Almeida (CMA): Não sentes que os livros são deixados ao abandono?
Danuta Wojciechowska (DW): Depois de serem publicados?
CMA: Já nem falo disso, aí é mesmo o abandono total. É como deixá-los na roda e entregá-los aos santinhos… Referia-me ao processo de produção. Nos escritores, há muito a ideia de que já fizeram a sua parte e acabou. Escrevem o texto e desinteressam-se da ilustração. Também não quero criticar isso. Têm esse direito.
DW: Eu achava bonito se nós caminhássemos no sentido de surgir este espaço de conversa entre escritor e ilustrador, cada um especializado na sua área, mas havendo uma boa relação de colaboração. E cultivar esse intercâmbio, que é fundamental.

CMA: E os editores? Sem bons editores não se fazem bons livros.
DW: O editor é outro elemento fundamental nesta parceria. Um bom editor de livros para crianças deve ter sensibilidade para a ilustração, deve marcar posição aí. Aliás, a História pode demonstrar isso. A «idade de ouro» dos livros para crianças, no século XIX, também se deveu em grande parte a um editor como o Edmund Evans… O nosso papel, enquanto autores, é o de valorizar ao máximo o papel do editor. Nas condições de trabalho que podemos criar para o futuro, é fundamental.

CMA: Aí entra a questão dos direitos de autor. Eu sou a favor de que ilustrador e escritor sejam pagos exactamente da mesma forma. Se há adiantamentos para um, também deve haver para o outro. Uma lógica de win-win. Mas aí os ilustradores levam vantagem, porque normalmente conseguem negociar melhor com os editores. Quanto aos escritores, enquanto se acreditar que os livros para crianças se escrevem no intervalo de almoço… não vamos lá.
DW: Também acho que devem ser pagos da mesma forma. É a minha prática. Eu dantes não era considerada como autora. Assinava um contrato, mas era um forfait. Quando comecei a fazer ilustrações de livros para crianças, há dez anos, ainda havia muitos editores que não punham o nome do ilustrador na capa.

CMA: Foi o teu caso?
DW: Não, mas manifestei-me abertamente em relação a isso.

CMA: O que se passou com os prémios da SPA ainda é um reflexo dessa mentalidade. Como é possível que o Prémio Autor de Melhor Livro Infanto-Juvenil [O Tubarão na Banheira] não tenha ido também para o Paulo Galindro, que fez o livro a meias com o David Machado? Tu também ilustraste o livro da Cristina Carvalho [O Gato de Uppsala] e não foste nomeada.
DW: Só fiz a capa. Nesse caso, o texto é que faz a força do livro, não tenho a pretensão de ser co-autora… E acho louvável lançar-se um prémio para valorizar os autores, mas é preciso ter mais cuidado na maneira como se põem as coisas ao lado umas das outras. O livro da Cristina Carvalho não é bem para crianças, ainda que seja colocado nessa secção, só porque tem uns bonequinhos. O Tubarão na Banheira é um livro ilustrado, assim como o do Eugénio Roda e Gémeo Luís [Azul Blue Bleu]. Mas não se podem comparar entre si, porque são livros de categorias distintas.

CMA: Totalmente de acordo. Olha, diz-me só mais uma coisa: tu vives dos livros que ilustras?
DW: Eu sou ilustradora, sou designer, dou aulas, vou a escolas e bibliotecas… Aquela ideia que as pessoas têm: «Ah, tu só fazes ilustração, não é?»
CMA: Não é bem assim.
DW: Mesmo nada. É muito difícil viver só da ilustração de livros, talvez num país como os Estados Unidos, para aquele ilustrador que está bem lançado no mercado, ou então no caso da Lisbeth Zwerger, que só faz um livro por ano… Mas eu gosto da diversidade. Essa possibilidade de contactar com vários aspectos da sociedade e traduzir isso numa linguagem para as crianças é interessante. Também gosto muito de ilustrar jogos. Ficar presa a uma só coisa é redutor, não gosto de becos. Tenho medo de me limitar.

CMA: Não gostavas de te dedicar só à ilustração, se pudesses?
DW: Bem, eu gostava de me reformar e viver numa quinta, com um burro e um limoeiro, mas agora estou aqui, no meio da cidade, não posso fazer nada contra isso.

CMA: Podes fazer mais livros.
DW: Podemos fazer mais livros. É possível ir mais longe se cada pessoa for especializada na sua área e se houver um bom editor pelo meio.

CMA: E, já agora, um bom director de arte.
DW: E um bom leitor. E muita gente a comprar livros. Nós também estamos a trabalhar para que isso seja uma tradição em Portugal. Não é tradição o livro para crianças ser consumido por um público generalista.

(*) Jornalista freelancer, colabora com a LER, Notícias Magazine e Notícias Sábado. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma pós-graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O gato e a Rainha Só, Não Quero Usar Óculos e Ainda Falta Muito?. Escreve sobre livros e não só no blogue O Jardim Assombrado. Nasceu em Matosinhos, a 12 de Janeiro de 1969.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 31/Mai/10
Seg, 31/Mai/10
ESCREVER À VISTA, DESENHAR SOBRE LETRAS (PARTE I),
por Carla Maia de Almeida (*)

Estava sem saber do que falar na crónica para o Blogtailors quando me ocorreu telefonar à Danuta. Danuta Wojciechowska, ilustradora e designer de origem canadiana e nome complicado (sei um truque mnemónico, se quiserem explico), a viver e a trabalhar em Lisboa desde 1984. Ganhou o Prémio Nacional de Ilustração em 2003 e já fez livros com uma série de escritores, incluindo Mia Couto, Ondjaki, António Mota e Alice Vieira. Adivinhem qual foi o tema da conversa.

Carla Maia de Almeida (CMA): É difícil trabalhar com escritores?
Danuta Wojciechowska (DW): Não posso generalizar. É uma experiência que muda de livro para livro, até com o mesmo escritor. Uma pessoa cria expectativas e depois acontece uma coisa diferente. Mas isso é o mais fascinante, quando se faz um livro a meias.

CMA: E exigente. Não sei é possível fazer um bom picture book se a relação entre escritor e ilustrador não for minimamente… fluente. Não digo que precisem de ser amigos, mas será possível fazer um bom livro se houver um mau relacionamento?
DW: Talvez só com um escritor morto…
CMA: Sim, pelo menos esses não levantam cabelo.
DW: Mas olha, eu já ilustrei contos do Hans Christian Andersen e foi como se ele voltasse a viver. Quando estava a trabalhar sobre o texto, era como se ele ganhasse vida própria. Isto pode parecer uma coisa um bocado maluca.

CMA: Nem por isso. E alguma vez recusaste ilustrar um livro?
DW: Já.

CMA: Não vamos personalizar. Mas qual foi o motivo, o texto ou a pessoa?
DW: Foi o texto. Há textos que eu começo a ler e vejo logo o que vou fazer, estou dentro; e há outros em que faço um trabalho grande de pesquisa, porque tenho de me transportar para uma realidade que desconheço. Quando se vai estar dez ou 12 horas por dia a trabalhar num livro que alguém escreveu, há que ponderar.

CMA: Visto do lado de cá, digo-te que esse trabalho pode ser um bocado invasivo…
DW: Gostava de te perguntar isso. Quando entregas o livro, sabes que o ilustrador vai ter uma influência enorme. De certo modo, é como se mexesse no texto. O que é que sentes?
CMA: Sinto uma ansiedade enorme. Como é que ele ou ela vai interpretar as minhas palavras? Não é fácil… Ao mesmo tempo, considero que o ilustrador pode ser tão autor como o escritor. Não têm de ser amigos, mas o ideal é que haja uma admiração recíproca. Uma sensibilidade e um respeito pelo trabalho artístico do outro.
DW: Para mim, as melhores soluções ocorrem quando escritor e ilustrador são a mesma pessoa, ou então quando são muito próximos. Por exemplo, o caso do Jean de Brunhoff, que inventou o elefante Babar. Dizem que era a mulher dele quem escrevia. Ou então como o Anthony Browne ou o Peter Sís ou a Marie-Louise Gay, que escrevem e ilustram ao mesmo tempo.

CMA: Acho que esse é o sonho de qualquer autor, ser uma espécie de artista total. Não gostavas?
DW: Gostava. Tenho cadernos cheios de ideias para livros. Ideias, esboços, estruturas, pequenas frases… Quem vem das artes talvez tenha mais capacidade para depois escrever. É mais difícil para quem escreve conquistar o domínio das linguagens pictóricas. De qualquer modo, é raro alguém dominar essas duas valências. Se houver a hipótese de as pessoas caminharem juntas na concepção de um livro em que exista esse tal respeito que tu referes… Confesso que perco um bocado o interesse se o escritor me quer dirigir muito. Perco a motivação. Quero sentir essa liberdade, no que é o meu campo.

CMA: Mas demasiada liberdade também não pode ser desmotivante?
DW: Pode. Eu não gosto de me sentir abandonada com a responsabilidade toda. Não quero que o escritor desapareça e me deixe com a criança nas mãos…
CMA: Percebo-te.
DW: Tem de haver equilíbrio. Da mesma maneira, penso que o escritor também não gostaria que o ilustrador mexesse no texto.
CMA: Não, mas a verdade é que, mesmo sem tocar numa palavra, o ilustrador já está a mexer no texto quando o interpreta por imagens.
DW: Exactamente, ele acrescenta a sua perspectiva.

CMA: Nesse sentido, o escritor fica mais «na mão» do ilustrador. No meu caso, houve alturas em que olhei para as ilustrações e pensei: «Não é isto. E agora, como é que vou dizer-lhe?» É aí que o editor pode desempatar, funcionando como uma espécie de «o juiz decide». Claro que é preciso distinguir o que são preciosismos e vaidades do ego de outras coisas que afectam a linha narrativa e a correspondência entre texto e imagem.
DW: Agora temos mais um elemento em jogo, embora cá em Portugal não apareça muito, que é o director de arte da editora. Normalmente, dá indicações muito importantes para o livro, porque tem mais conhecimentos da área das artes que o editor. Ele vê o livro exactamente como quer vê-lo, mesmo antes de estar pronto.

CMA: E tens de obedecer?
DW: Temos de aprender a lidar com eles, especialmente quando são muito intervencionistas. No caso dos asiáticos, então…

CMA: Como é a maneira de trabalhar dos asiáticos?
DW: Eles mandam o briefing e já têm tudo preparado. Dizem qual é a parte do texto que deve ser ilustrada na página x, podem ir ao ponto de descrever a expressão facial que querem, às vezes até mandam alguns esboços… Os americanos também funcionam muito assim. Até têm uma expressão de que eu não gosto nada: «we will use» ou «we might use your illustrations». É como o aluguer de um serviço. Existe o perigo da redução do papel do ilustrador e o resultado pode ser um produto mais «comestível».

CMA: É uma atitude bastante comercial.
DW: Sim, mas como depois aquilo é muito bem pago, há uma elevação do trabalho, há um diálogo que é recompensado. Essa parte é muito importante. Infelizmente, não é o que se passa em Portugal.

CMA: O mercado está a nivelar por baixo?
DW: A tendência é essa. E seria bom conseguir fugir dessas pressões e criar condições para que pudessem surgir livros originais, especiais.
CMA: «Os livros que ressoam», como diz a Cristina Taquelim, da Biblioteca de Beja. Gosto muito dessa expressão.

[Continua]

(*) Jornalista freelancer, colabora com a LER, Notícias Magazine e Notícias Sábado. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma pós-graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O gato e a Rainha Só, Não Quero Usar Óculos e Ainda Falta Muito?. Escreve sobre livros e não só no blogue O Jardim Assombrado. Nasceu em Matosinhos, a 12 de Janeiro de 1969.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 28/Mai/10
Sex, 28/Mai/10
«COMPANHEIRO, AMIGO, PALHAÇO, DESTE CIRCO QUE É A VIDA»,
por Pedro Bernardo (*)

Mais um ano, mais uma polémica. A Feira do Livro parece ter o condão de dar sucessivos tiros no pé, não importa para onde aponte. A organização parece também não ser capaz de traçar um rumo, cumpri-lo (e fazer cumpri-lo). O episódico fecho semanal mais cedo e a rábula «feira à chuva», com ordem (e comunicação ao público) de encerramento-que-afinal-já-não-é-porque-há-quem-não-cumpra, não prestigia a direcção da Feira e transmite uma ideia de bandalheira. O prolongamento, com pretextos anedóticos, começa a ser norma: a chuva, o Benfica campeão, meu Deus!, e, para não invocar o nome do Senhor em vão, a visita de Sua Santidade. Tudo serve para prolongar a facturação, que corria de feição, haja rolos.

Entretanto, dos atropelos à lei do preço fixo nos livros do dia, a organização não quer saber; da relação com os livreiros, companheiros e amigos no resto do ano, mas palhaços durante a Feira, também não, embora haja vozes que se insurgem contra isto (Booksmile, Antígona e Assírio & Alvim, honra lhes seja feita). É certo que, se os pequenos livreiros invocam este período em que não facturam como crucial para a sua existência, então provavelmente deveriam reequacionar o seu negócio. Mas também é verdade que o espírito com que a Feira foi concebida — apresentação ao público de fundos, que entretanto desapareceram do mercado — tem vindo a ser sistematicamente pervertido, com a conivência de quase todos e para conveniência de muitos. A rede livreira é parte essencial do sector, e as práticas de sã concorrência deveriam imperar.

Ciclicamente erguem-se vozes a perguntar por que razão coexistem na mesma associação entidades com interesses diferentes, embora complementares; outros perguntam o que faz a APEL em prol dos seus associados para além de lhes cobrar quotas e mais uns milhares pela inscrição no evento que organiza actualmente; outros ainda perguntam porque não tem cursos de formação profissional para as várias actividades que caem na sua alçada. Os mais cépticos perguntam para que serve. Os mais cínicos chamam a atenção para o facto de o ponto alto da actividade do sector ser a apresentação do seu produto a preço de saldo em barraquinhas. Os mais estóicos aguentam.

(*) Pedro Bernardo, licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é director editorial de Edições 70, tendo ainda a seu cargo a produção da mesma editora, onde desempenha funções desde 2000. No seu percurso profissional, foi também tradutor e revisor.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Qua, 26/Mai/10
Qua, 26/Mai/10
O PONTO E O CONTRAPONTO — CONCENTRAÇÃO VERTICAL
NO MUNDO EDITORIAL: AS CONSEQUÊNCIAS (parte II),
por Nuno Pinho (*)

[Parte I]

Porto Editora: grupo de editoras/rede de retalho Wook e Bertrand/revista LER/Wook
LeYa: grupo de editoras/rede de retalho CE/revista Os Meus Livros/Mediabooks

Quais são as consequências desde agigantar de empresas já de si muito destacadas no panorama editorial? Em primeiro lugar, os restantes grupos editoriais diminuem sem nada fazerem. O recente grupo Babel, que entrou com tanta ambição no panorama editorial, parece subitamente mais pequeno, mesmo após ter adquirido/criado uma série de chancelas. Poderá ter dificuldades acrescidas na sua estratégia. O mesmo é válido para a rede de retalho Almedina (grupo onde trabalho) ou para editoras de dimensão já elevada, como a Presença ou a Civilização.

As redes de livrarias/hipermercados sofrerão uma pressão maior destes grupos, que agem de forma cada vez mais profissional (ambos trabalham com agências publicitárias, tendo a Porto Editora feito mesmo um recente rebranding) e poderão negociar melhor os descontos «de factura». Inversamente, poderão não só piorar as condições de entrada para as restantes editoras, como ocuparão uma percentagem ainda maior do espaço disponível nas lojas (estima-se que os dois grupos poderão ocupar mais de dois terços do espaço disponível), potenciando uma espiral de concentração que se auto-alimenta. Como mudará o negócio, por exemplo, no mundo das gráficas? Relembre-se que a PE tem bloco gráfico próprio, enquanto a Bertrand recorria ao outsourcing.

Em suma, o recente movimento de concentração editorial vertical terá certamente consequências profundas para o mercado editorial, ainda que nem sempre visíveis à superfície. Gostaria de deixar claro que estas movimentações são legítimas e até expectáveis, mas não podem deixar de ser assinaladas e analisadas. Como pode o resto do mercado responder e reagir? Isso daria outra conversa, que estará decerto na boca de muitos editores durante o próximo ano. Não se distraiam com o iPad: o futuro da edição passa por aqui.

(*) Nuno Pinho é secretário editorial no grupo Almedina e leitor insaciável, estando a terminar um mestrado em Estudos Editoriais na Universidade de Aveiro, após uma curta passagem pela Fnac.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 24/Mai/10
Seg, 24/Mai/10
O PONTO E O CONTRAPONTO — CONCENTRAÇÃO VERTICAL
NO MUNDO EDITORIAL (parte I),
por Nuno Pinho (*)

De uma forma talvez menos espectacular, mas igualmente importante, estamos a assistir à entrada numa nova fase evolutiva do nosso mercado editorial. Nos anos 1990, deu-se o aparecimento das redes livreiras e a emergência dos hipermercados como pontos de venda. Em anos recentes, uma espécie de resposta chegou através do movimento de concentração editorial protagonizado com grande alarido pela LeYa, mas não com menos eficácia por parte da Porto Editora (quantos deram pela aquisição da Sextante?).

Com o retalho livreiro num relativo impasse, cabe aos grupos editoriais tentar novamente desequilibrar este jogo de forças. Abriu-se uma nova fase de concentração, mas agora a nível vertical. Enquanto inicialmente o sentido do crescimento deu-se dentro de uma área do negócio (uma livraria que abre/compra mais livrarias, uma editora que cria ou adquire novas chancelas), os dois grandes grupos editoriais portugueses expandem-se agora ao longo de toda a cadeia de valor da indústria, da concepção dos livros à venda e comunicação.

Passo a exemplificar. Do lado da LeYa, assistimos a uma expansão para o retalho, via parceria com a rede de 17 livrarias da Coimbra Editora (e subsequente aquisição da Buchholz). Para além de adquirir espaço privilegiado nestas livrarias, a LeYa conta ainda ajudar a CE a abrir novas livrarias em pontos-chave, particularmente na área da Grande Lisboa. Por outro lado, assistimos ao regresso relâmpago da revista Os Meus Livros, nem mais nem menos adquirida pelas livrarias da CE (note-se, no entanto, que, segundo José da Ponte, director da rede livreira da CE, não existem «quaisquer ligações entre a revista e a parceria estabelecida entre a editora e o grupo LeYa»). O resultado? Uma importante revista de divulgação dos livros na posse de uma empresa editorial, como aliás é visível pelo simples folhear da revista. Não há aqui um problema de transparência: é o próprio director da revista que afirma em editorial «uma revista com estas características é um aliado importante para uma rede de livrarias», mas trata-se de um passo que poderá desequilibrar a relação de força das editoras no acesso à divulgação das suas obras. Note-se, por exemplo, que o departamento de publicidade passa a estar a cargo da CE, como se pode verificar na ficha técnica. Finalmente, a LeYa/CE estarão a desenvolver uma loja on-line, provavelmente relançando a Mediabooks (o sítio Web é gerido pela TexEdiPrint, uma empresa do grupo LeYa).

A Porto Editora, continuando a primar pela eficácia, cresceu ainda mais. A aquisição do DirectGroup Portugal é tão massiva que terá de ser aprovada pela Autoridade da Concorrência. Depois de se ter queixado do «estrangulamento» que as redes livreiras impunham às editoras, o Eng.º Vasco Teixeira vai ficar com a maior cadeia de livrarias e com duas marcas, Wook e Bertrand (questão: sobrevivem as duas?). Sabendo-se das dificuldades da Bertrand, é de admitir ajustamentos dolorosos para esta referência histórica do nosso mundo livreiro. Mas com a Bertrand vêm editoras e o Círculo de Leitores, o que reforçará ainda mais a presença da PE fora do mercado escolar. Prevê-se um processo mais suave que durante as aquisições da LeYa, mas quem ousará agora dizer que os grandes grupos não percebem nada de livros?

As declarações abaixo reproduzidas, feitas pelo responsável da PE, não poderiam ser mais claras:

«Somos o contraponto da LeYa, na medida em que somos o único grupo editorial de raiz portuguesa com origem no sector», afirma Vasco Teixeira. «A LeYa está transitoriamente na edição e, mais cedo ou mais tarde, vai ser vendida a alguém que, provavelmente, será estrangeiro» (JL, 06-05-2009).

Mas a LeYa não foi vendida e desafia a PE como maior grupo editorial nacional, como se pôde ver pela discussão recente sobre o volume de negócios de ambos os grupos. Não se prevê que a «guerra» acabe, pelo contrário. Via Bertrand, a PE entra também no ramo da divulgação, tornando-se à partida (caso o negócio seja aprovado) dona da revista LER. Se neste número da revista, que sempre teve uma presença forte do grupo Bertrand (o que é natural), ainda não há mudanças na ficha técnica (apenas alterações gráficas bem agradáveis), estamos em crer que a PE não vai deixar de aproveitar a oportunidade para dinamizar a comunicação dos seus livros. Quanto ao on-line, a PE continua a dar cartas neste domínio, estando muito avançada no mercado escolar, com o projecto Escola Virtual e os quadros interactivos. Tem ainda a maior livraria on-line nacional, a Wook, que conta com 12 milhões de visitas por ano (segundo números avançados no recente colóquio de Gestão Editorial em Coimbra). Sabemos que é da natureza dos grandes grupos procurar sinergias e reduzir ineficácias, para usar o jargão da gestão. Com mais ou menos sensibilidade, as mudanças serão inevitáveis.

[Continua]

(*) Nuno Pinho é secretário editorial no grupo Almedina e leitor insaciável, estando a terminar um mestrado em Estudos Editoriais na Universidade de Aveiro, após uma curta passagem pela Fnac.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 21/Mai/10
Sex, 21/Mai/10
O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS (parte III),
por Carlos Fiolhais (*)

N. E.: texto publicado originalmente no blogue De rerum natura
, correspondente à intervenção de 15 de Abril no Colóquio sobre Gestão Editorial, organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra:


Claro que uma coisa é a existência digital na Internet e outra o respectivo acesso. Estar na Internet não significa que seja grátis, e estou convencido que terá de haver cada vez mais pagamento de custos de acesso ao digital que não seja simplesmente a favor da operadora telefónica: também pagamos a electricidade não só a quem a transporta mas também e principalmente a quem a produz. Sei bem que esta questão do copyright é polémica — é conhecida a oposição aos projectos da Google de alguns editores e autores, mas estou em crer que é necessário encontrar um novo equilíbrio entre o necessário reconhecimento da criatividade e o direito da comunidade ao acesso ao património. Um editorial recente da revista The Economist, por ocasião dos 300 anos da lei do copyright britânica, vai precisamente nesse sentido, lembrando que os prazos de reivindicação de direitos eram à época muito menores do que hoje. Mas não é fácil concretizar um esquema justo de pagamento, sem ao mesmo tempo permitir a liberalização da cópia, que a tecnologia tornou demasiado fácil.

Com o cut and paste indiscriminado feito a partir da Internet, ao qual dificilmente será posto cobro (a escola portuguesa não só não o enfrenta como até o incentiva!), o papel das bibliotecas terá de ser sempre o da salvaguarda das obras e dos autores originais, para além de ajudar na educação que cada vez se revela mais necessária para encontrar o ouro no meio de muita, mesmo muita ganga. Há ideias novas a pôr em prática. Uma delas é a instituição do depósito digital. O depósito legal é uma instituição em muitos países desde há muito tempo, que consiste em garantir a guarda para memória futura e acesso público de pelo menos uma cópia de uma publicação em papel (livros, revistas, jornais, etc.). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a mais antiga biblioteca pública portuguesa (em 2013 fará 500 anos), é beneficiária desde há quase um século do depósito legal. Ora, parece que ainda ninguém se lembrou que hoje todos os livros, revistas ou jornais que se imprimem começam por existir em forma digital, pelo que, se o que está em jogo é a preservação e o acesso aos conteúdos, faz todo o sentido iniciar um depósito electrónico generalizado, de forma a que não prejudique os direitos de autor. Não se trata apenas de fazer cópias digitais da Internet, ou de domínios dela (o que decerto é não só viável como útil), pois há muita informação, digital ou não, que não está na Internet. Mas sim de criar uma nova biblioteca, uma biblioteca mundial, de onde pudessem ser feitas consultas e transferências, de uma maneira que há obviamente que regular. Os direitos de autor deveriam continuar a ser reconhecidos e os autores devidamente recompensados. O que não faz muito sentido, na minha opinião, é criar um documento digital, materializá-lo em papel e, mais tarde, se se quer um documento em forma digital, ter de o digitalizar. O depósito legal foi uma criação dos estados, naturalmente ciosos das suas línguas e das suas culturas. É por isso que hoje há grandes bibliotecas nacionais, como a do Congresso dos Estados Unidos, a maior do mundo, e não há grandes bibliotecas internacionais. Mas poderia haver um depósito digital verdadeiramente internacional, uma biblioteca mundial, que poderia chamar-se «Biblioteca de Babel». No mundo global em que vivemos, um depósito digital não pode nem deve ser apenas nacional. O Projecto Gutenberg de disponibilização on-line de obras que não têm direitos de autor aponta nesse sentido. O open access, o movimento em curso no sentido de liberalizar o acesso a criações científicas (e que está na base do «Estudo Geral»), vai também nesse sentido, o de facultar a todos o máximo do saber humano, pois, como disse o astrofísico norte-americano Carl Sagan, o «destino do homem é o conhecimento». A «Biblioteca de Babel» inteiramente digital é uma utopia ao nosso alcance, pois é viável tecnologicamente, assim haja vontade política para isso. Será um projecto mais para uma organização internacional como as Nações Unidas do que para uma empresa multinacional, como a Google, mas poder-se-á pensar numa parceria entre público e privados. A ideia da «Biblioteca de Babel» não é original, pois já o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu um conto com esse mesmo título, com a diferença de que a biblioteca borgiana era excessivamente grande: tinha tudo o que já se escreveu e se pode algum dia vir a escrever, em qualquer língua do mundo, quando eu me contentaria com tudo o que já algum dia se escreveu, de forma organizada e para ser divulgado. É difícil conceber a mudança que poderia resultar, nas nossas vidas, do facto de termos acesso a esse repositório imenso de saber e de sonho, de conhecimento e de imaginação!

Lembro que a história de Babel vem na Bíblia, no Génesis: os homens, que formavam uma comunidade de uma só língua, tentaram fazer um edifício que chegasse a Deus, e este, furioso, destruiu-o dispersando a humanidade em comunidades de várias línguas. A «Biblioteca de Babel», na linha do que disse Keith Richards, é uma das formas, talvez a melhor forma, de o homem, tal como no mito bíblico, aspirar à omnisciência, isto é, aspirar a uma das qualidades de Deus.

(*) Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 19/Mai/10
Qua, 19/Mai/10
O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS (parte II),
por Carlos Fiolhais (*)

N. E.: texto publicado originalmente no blogue De rerum natura
, correspondente à intervenção de 15 de Abril no Colóquio sobre Gestão Editorial, organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra:


E qual será o futuro das bibliotecas, que foram desde tempos imemoriais os sítios onde se depositaram os livros para ficarem à disposição de todos? Nunca é de mais elogiar o papel das bibliotecas. Saiu nas notícias recentemente que Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones, sempre quis ser bibliotecário. O segredo é revelado na sua autobiografia, Life, a sair em Outubro. Nela Richards revela que, como uma criança e jovem nos anos 1950 em Londres, encontrou refúgio nos livros e nas bibliotecas antes de descobrir a música. Declarou: «Quando somos jovens, há duas instituições que nos afectam fortemente: a igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca, que te pertence.»

As bibliotecas começaram por ter catálogos electrónicos, para passarem a ter livros electrónicos (digitalizando livros antigos ou modernos, como faz a Google, ou arquivando livros electrónicos de raiz, como acontece com os repositórios digitais de teses e de outros trabalhos científicos). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) e a Imprensa da Universidade de Coimbra têm acordos com a Google para digitalização das suas edições próprias, e a Universidade de Coimbra, através do seu Serviço Integrado de Bibliotecas (SIBUC), disponibiliza urbi et orbi o Estudo Geral, repositório de obras modernas, com cerca de 8000 itens, e a Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra, repositório de obras antigas, com cerca de 5000 itens. De certo modo, a rede mundial de computadores que temos hoje é já uma gigantesca biblioteca, que inclui numerosas bibliotecas virtuais e tudo o resto a que também, com alguma boa vontade, se poderá chamar biblioteca. As bibliotecas modernas são híbridas — espaços inspiradores guardando e mostrando livros tradicionais em papel que importa preservar e, ao mesmo tempo, sítios no ciberespaço, permanentemente acessíveis, com e sem fios (por exemplo, com smartphones). A Biblioteca Joanina não perde o seu poder encantatório por parte dos seus livros (infelizmente ainda pequena) estarem na Net. O movimento imparável é no sentido de digitalizar tudo o que não foi criado em forma digital. Existem os meios técnicos para isso, e Portugal está muito atrasado neste domínio (porque não está todo o Eça de Queiroz acessível digitalmente?), pelo que terá rapidamente de recuperar esse atraso, por meio de um grande esforço nacional e transnacional: por que não envidar esforços sérios com o Brasil e outros países de língua portuguesa para aumentar a presença da nossa língua na Net? Estou, neste domínio, optimista: aquilo que se pode fazer vai ser feito, até porque neste caso há muito para fazer e é bom que se faça…

As vantagens das bibliotecas digitais são óbvias, desde logo a concentração no espaço e a rapidez de acesso. Os físicos e os engenheiros resolverão os problemas técnicos dos suportes magnéticos de longa duração, transferindo a informação em bits dos suportes que se vão tornando obsoletos e resolverão também os problemas da comunicação, que só não é instantânea porque há o limite da velocidade da luz. A nanotecnologia virá ajudar, com a criação de dispositivos minúsculos que armazenem informação gigantesca — talvez numa folha de papel possa caber toda a Biblioteca Joanina. Lembro que a ideia de nanotecnologia foi lançada em 1959 pelo físico norte-americano Richard Feynman («Há muito espaço lá em baixo») que pretendia nada mais nada menos do que colocar os 24 volumes da Enciclopédia Britânica na cabeça de um alfinete e verificou, fazendo as contas, que era possível colocar todos os livros do mundo num minúsculo grão de poeira. Parafraseando William Blake: «all the books in a grain of dust

[Continua]

(*) Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 17/Mai/10
Seg, 17/Mai/10
O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS (parte I),
por Carlos Fiolhais (*)

N. E.: texto publicado originalmente no blogue De rerum natura
, correspondente à intervenção de 15 de Abril no Colóquio sobre Gestão Editorial, organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra:

A Internet mudou as nossas vidas. Mudou, por exemplo, os livros e as bibliotecas. Mas ainda não é muito claro, porém, o modo como vão evoluir o livro e as bibliotecas com a revolução digital em curso. Certo é que estão a evoluir e que irão evoluir mais.

Os livros mantiveram-se em papel (publicam-se aliás cada vez mais, em Portugal é um em cada meia hora!), mas apareceram também em versões digitais, e-books — de alguns livros há só mesmo em versões digitais —, que, em vários formatos, podem ser lidas por vários dispositivos dos quais ainda não existe um standard (há o Kindle, por exemplo, que já se vê muito nos Estados Unidos, e há recentemente o iPad, que elimina o teclado e rato, mas cujo futuro se desconhece). A vantagem dos livros digitais é óbvia: a de evitar o «insustentável peso» do papel (as árvores e o clima agradecem!), a possibilidade de encontrar rapidamente uma passagem que se quer, etc. Os meus alunos, por exemplo, já estudam por PDF que guardam nos seus portáteis ou netbooks, qualquer dia será nos seus telemóveis. Os inconvenientes do digital, para além da dificuldade, permitida pela cópia rápida e barata, de reconhecer e recompensar devidamente os autores e editores, são também óbvios: um livro é um objecto material com um design tão perfeito para cumprir a função que desempenha, que, na minha opinião, nunca será inteiramente substituído. Também a roda, uma vez inventada, nunca mais veio a ser substituída. O livro cabe na mão, acompanha-nos a qualquer lado, funciona de modo low-tech (nunca avaria!). É um bom presente para se dar a alguém, isto é, passa bem de uma mão a outra. Por alguma razão não houve ainda nos livros a revolução que houve na música, com o quase desaparecimento das lojas de discos em favor das transferências digitais. Estou convencido de que, no futuro, haverá a coexistência de livros em papel e livros digitais, com algum natural crescimento destes últimos nos próximos tempos. Soluções como a Classica Digitalia, publicada pelo Centro de Estudos Clássicos de Coimbra com o apoio da Imprensa da Universidade, em que os livros aparecem simultaneamente on-line em papel são augúrios do futuro. O print on-demand, permitido por máquinas como a Expresso Book Machine e outras, será uma realidade, pois não há tecnicamente nenhuma razão para não fornecer qualquer livro, mesmo esgotado ou mesmo nunca antes publicado em papel, a alguém que o queira e que esteja disposto a pagar os custos da respectiva materialização e outros. Passar do digital ao analógico em papel será conveniente, será mesmo necessário nalguns casos. Mas uma certa confusão entre suporte magnético e suporte em papel poderá vir a existir: cientistas como a portuguesa Elvira Fortunato querem — e conseguem — fazer transístores no papel. Se a ideia vingar, os ecrãs poderão ser tão flexíveis como o papel, apesar de terem uma imagem tão renovável como os ecrãs de cristais líquidos. «O futuro do livro é bom», como disse o escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, que acrescentou logo a seguir, «pois sempre vai existir o livro, ainda que noutra forma». O mais fantástico será se o livro existir de outra forma na mesma forma!

[Continua]

(*) Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 14/Mai/10
Sex, 14/Mai/10
N. E.: adaptado livremente de um artigo publicado no suplemento literário do jornal Il Sole 24 Ore (Itália), de 21 de Fevereiro de 2010, da autoria de Diogo Madre Deus.

ESTRATÉGIAS DA (NOVA) INTERNACIONALIZAÇÃO
DA LITERATURA (parte II),
por Diogo Madre Deus (*)

[Parte I]

A proliferação de prémios literários internacionais garante, por outro lado, que o fenómeno não se confina ao sector mais popular do mercado. Apesar das suas discutíveis decisões e estranhas escolhas, o Nobel é visto como um prémio mais prestigioso do que qualquer consagração nacional que exista. O prémio Impac na Irlanda, o Mondello em Itália, o prémio literário na Alemanha tornam-se, ano após ano, mais desejados. Até o conservador Campiello criou recentemente uma edição internacional para premiar (com um júri externo) a melhor obra italiana traduzida. Os decisores do gosto literário já não são os co-nacionais do escritor, não fazem parte da sua sociedade, nem ele pode sequer conhecer o mundo em que se movimentam.

E quais são as consequências de tudo isto na literatura? No momento em que o escritor se apercebe de que o seu público já não é nacional, mas sim internacional, a natureza da sua escrita está destinada a mudar. Especificamente, há a tendência de eliminar na escrita certos obstáculos a uma compreensão internacional massificada.

Nos anos 1960, um escritor como Hugo Claus, profundamente envolvido na cultura e na política do seu país, não parecia muito preocupado pelo esforço exigido aos leitores ou aos tradutores dos seus romances para que o percebessem fora da Bélgica. Em claro contraste, autores contemporâneos como o norueguês Per Petterson ou o italiano Alessandro Barrico oferecem-nos romances que não exigem especiais conhecimentos ou esforços, ou, em sentido contrário, não são capazes de gratificar os leitores por terem superado na sua leitura certos obstáculos.

Não se trata, obviamente, de eliminar da escrita todo e qualquer virtuosismo linguístico ou aspecto de cultura local, basta que estes não se tornem impeditivos de serem exportados. Para impedir que tal aconteça, põem-se em acção estratégias narrativas, que passam por simplificá-los e transformá-los em elementos «literários» e «fantasiosos» imediatamente reconhecíveis. Um processo em tudo análogo à entediante linguagem franca dos efeitos especiais no cinema moderno.

Importante é igualmente salientar no texto uma sensibilidade política que imediatamente situe o autor entre «aqueles que lutam pela universalidade dos direitos e pela paz mundial». E eis que todo o exagero fantasioso de um Pamuk ou a extravagância de um Rushdie estejam sempre pari passu com certas posições liberais, pois, tal como dizia Borges, a maior parte do público possui um sentido estético de tal forma exíguo que prefere apoiar-se noutros critérios para apreciar o livro que está em vias de ler.

O que nestes tempos parece destinado a desaparecer, ou a ser marginalizado, é a tradição do romance que se alicerça na subtileza da própria língua e cultura literária. No actual mercado literário global, Shakespeare deveria ter mais cuidado com os jogos de palavras, e uma nova Jane Austen nunca ganharia o Nobel. O mesmo se poderá dizer da nossa Agustina. Quantos escritores por essa Europa ainda arriscam frases como as de João de Melo? Estaremos nós, leitores, reduzidos ao suave entretenimento de uma boa história?

(*) Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro, fundou em 2005 com Romana Petri, a Cavallo di Ferro editore, com sede em Roma.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 12/Mai/10
Qua, 12/Mai/10
N. E.: adaptado livremente de um artigo publicado no suplemento literário do jornal Il Sole 24 Ore (Itália), de 21 de Fevereiro de 2010, da autoria de Diogo Madre Deus.

ESTRATÉGIAS DA (NOVA) INTERNACIONALIZAÇÃO
DA LITERATURA (parte I),
por Diogo Madre Deus (*)

Nem todos os escritores sabem para quem escrevem ou reflectem se a sua obra está direccionada para um determinado público. É, no entanto, evidente que, em certos momentos da História, essa percepção se transformou e inevitavelmente teve consequências na elaboração do texto literário. O exemplo mais clamoroso é o abandono na Europa, dos séculos xiv ao xvi, do latim em prol da língua «vulgar». Esta transformação, que permitiu o acesso ao texto literário por parte de sectores da população até então dele afastados, é habitualmente saudada nos livros de História como um evento ideológico positivo e inspirador das realidades locais e da democracia. Em verdade, os escritores deram esse passo simplesmente porque escrever em latim não fazia mais sentido. A afirmação da nova classe burguesa determinara uma mudança na comunidade que arbitrava o gosto social — incluindo a fruição literária. Esta comunidade deixara de ser uma elite clerical supranacional e passara a ser uma classe burguesa nacional. Os escritores trocaram o latim pelo dialecto local para irem ao encontro do seu novo público. A mesma revolução parece estar agora a acontecer, mas no sentido inverso.

Como consequência de uma globalização em constante aceleramento, estamos a deslocar-nos na direcção de um mercado internacional da literatura. Um autor, para se considerar «grande», deve cada vez mais ser um fenómeno internacional, e não apenas nacional. Esta percepção pode não ser totalmente evidente em mercados fortes com o dos Estados Unidos ou o britânico, que se exprimem na língua por excelência do mercado global. Mas, cada vez mais autores europeus, asiáticos e sul-americanos se sentem diminuídos por não conseguirem atingir um público internacional. Mesmo em países europeus com fortes mercados internos, como o francês, o alemão ou o italiano, são cada vez mais os autores desapontados por não conseguirem encontrar um editor de língua inglesa para o seu mais recente livro. Lamentam-se — muito interessante — que o facto de não estarem publicados no estrangeiro retire parte do prestígio de que gozam no seu próprio país. É como se mercado ou público leitor lhes dissessem: se não te querem publicar no estrangeiro, é porque, afinal, não deves ser assim tão bom quanto isso. Para se perceber quanto mudaram os tempos, basta pensar que a reputação de um Zola, de um Verga, não era minimamente afectada se os seus livros não fossem imediatamente publicados em Londres.

Esta transformação foi enormemente acelerada pela transmissão electrónica dos textos. Nos tempos que correm, mal um romance ou apenas o seu primeiro capítulo estão escritos, são logo enviados para dezenas de editores em todo o mundo. E já não constitui surpresa alguma que os direitos de uma obra sejam vendidos para o estrangeiro antes de ela ser publicada no seu país de origem ou negociados mesmo antes de estar completamente acabada. Um agente literário astuto consegue orquestrar o lançamento simultâneo de uma obra em vários países pondo em acção, com poucos meios e com muitos contactos, uma verdadeira estratégia promocional que antigamente associávamos a grandes empresas multinacionais

Na mesma medida, um leitor que compre o novo Dan Brown ou o novo Harry Potter, ou mesmo o mais recente Umberto Eco, Ian McEwan, Haruki Murakami ou, já agora, Bolaño fá-lo com a consciência de que esse mesmo romance está em vias de ser lido nesse mesmo instante em todo o mundo. Ao comprar o livro, esse leitor sente que está a entrar numa comunidade internacional, uma percepção que faz aumentar o valor e o fascínio da própria obra.

[Continua]

(*) Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro, fundou em 2005 com Romana Petri, a Cavallo di Ferro editore, com sede em Roma.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 10/Mai/10
Seg, 10/Mai/10
N. E.: texto publicado originalmente no blogue O Novo Ecléctico.

INTRODUÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO À POLÉMICA DOS LIVROS GUILHOTINADOS (parte II),
por Hugo Xavier (*)

[Parte 1]

c)

Há pouco tempo li aqui no blogue um texto do escritor David Machado, no qual este discutia o desgoverno do escritor/autor. Ao longo dos anos, conheci escritores que, de tão felizes por terem sido publicados, nem olhavam para os contratos que assinavam. Conheci autores presos por contratos de exclusividade que nem sabiam que os tinham assinado e autores que ficavam surpresos por as editoras invocarem este ou aquele ponto de um contrato. Percebo que nem todos os escritores tenham conhecimentos legais e jurídicos, mas o facto de não saberem recorrer a quem os tenha, quando não conseguem interpretar um texto de tal ordem, é outra grande falha.

Mencionemos, por fim, a ignorância dos escritores relativamente aos processos de mercado. Os escritores que se queixam, passados meses da saída da sua obra, de que não a encontram em lado nenhum revelam que não percebem nada do mercado editorial (não que ele funcione de forma correcta, entenda-se!). Este tipo de ignorância lembra-me os muitos colegas que tive na Faculdade de Letras e que nem sequer gostavam de ler, mas, como tinham uma aversão e bloqueio total no que tocava a números, tinham seguido aquela alternativa (são muitos desses colegas que andam a ensinar os nossos filhos a gostar de ler; alguém mais vê a perniciosidade disto tudo?).

* * *

Senhora Ministra, em Itália, há mais de 25 anos, o governo percebeu que não conseguia controlar o sector e que os editores não cumpriam leis e normas. Tomou, então, uma sábia medida: criou uma base de dados nacional através da qual, ainda hoje, qualquer editor, livreiro ou cliente descobre se um livro x está publicado, onde está disponível e em que quantidades (para além dos preços). Esta solução evita os contínuos incumprimentos no pagamento de direitos a autores nacionais e estrangeiros, pois os detentores de direitos podem sempre verificar quem deve o quê, a partir da diferença entre o número de livros injectados no mercado e os que realmente foram vendidos ao fim de determinado período; evita as trafulhices de editores e gráficas nas alegações do número real de exemplares produzidos; evita que os empregados das livrarias, mal pagos, desconhecedores, sem formação nem interesse, respondam que uma obra está esgotada sempre que não lhes apetece consultar o computador (a Bertrand é, infelizmente, especialista nesse tipo de situações), para além dos empregados que não sabem se hão-de procurar Pessoa no campo de autores nacionais ou estrangeiros (sim, já me aconteceu!).

CONCLUSÃO

A senhora ministra Gabriela Canavilhas informa agora que irá estabelecer parcerias para facilitar as doações de fundos mortos das editoras. Há quantos anos se queixam os editores desta falta de parcerias e soluções?

A senhora ministra considera esta destruição um «massacre». Seria, contudo, mais conveniente reflectir nos pontos que indiquei acima e tentar perceber porque ficam tantos livros sem compradores. Já agora, será que valerá mesmo a pena doar todos os livros sem compradores? Será que o facto de não terem encontrado público não significa que efectivamente não há público para eles? De que servem, então, as doações?

Não saberá a Senhora Ministra que a destruição de livros acaba por ser o resultado de um sector que publica sem orientações nem fiscalização? Um sector onde há mais editoras e títulos publicados do que consumidores? Um sector que, se devidamente fiscalizado e legislado, seria certamente reduzido ao número correcto de publicações e editoras, de forma a não haver necessidade de recorrer a falcatruas para sobreviver, para haver a responsabilidade de publicar com conhecimento do público e das suas necessidades e não se ser obrigado a guilhotinar excedentes?

Se todos os agentes do sector se informarem um pouco mais sobre o trabalho e as necessidades uns dos outros, se todos procurarem harmonizar a sua acção face às realidades do mercado e ao inimigo comum que é a baixíssima taxa de leitura da nossa população, talvez tudo melhore — e quem melhor do que o Ministério para encabeçar essa noção de mudança?

Quanto à destruição de livros, que é pratica comum em todo o mundo (desenganem-se ministras e autores), acontece porque é necessário que aconteça. Podem encontrar-se algumas soluções, mas não serão totais nem definitivas. A destruição de livros que muitas vezes ocorre é amiga dos autores, pois o desaparecimento de exemplares disponíveis atenua a carga de aluguer de espaço de uma editora (ou distribuidora) e, recebendo essa editora várias encomendas de um título destruído, avaliando a necessidade financeira da sua reedição (caso tenham profissionais capazes de fazer essa avaliação), fará nova edição, apresentada como novidade — o que garante maior destaque —, provavelmente recorrendo a novo design, o que também ajudará à sua venda.

Por último, queria chamar a atenção para o facto de esta polémica ter partido, de acordo com o Público, «de José da Cruz Santos, editor que trabalhou com a Asa (que foi integrada na LeYa) e que disse ao JN ter sido informado pela editora de que muitos dos títulos que se encontravam em armazém iam ser guilhotinados, sobrando apenas poucos exemplares de cada obra». Falava-se da destruição de «milhares de livros de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura». Ora, queria relembrar que muitos desses autores estão agora noutras editoras com edições novas e que, por lei, os exemplares remanescentes nas antigas editoras, em semelhantes circunstâncias, devem precisamente ser destruídos! Caso contrário, prejudica-se seriamente as editoras que fizeram novos investimentos nesses autores: imagine-se que os fundos de livros de Jorge de Sena apareciam agora no mercado, isentos da lei do preço fixo, ao preço da chuva. O que sucederia aos novos livros publicados pela Babel de Teixeira Pinto?

Se os livros, por outro lado, forem doados a bibliotecas, estamos perante mais outra perda de potenciais clientes para a editora actual, que investiu em novas edições desses autores.

Para terminar, queria perguntar quem é o senhor Cruz Santos para invocar esse tipo de situações, quando se sabe perfeitamente que, através do projecto Modo de Ler que lidera, está a relançar para o mercado, recapadas, edições ilegais (sem direitos pagos e sem cavaco aos tradutores) de livros que outrora publicou na sua editora Inova (entretanto falida). Atenção, pois não tiro o mérito ao senhor Cruz Santos, da muita coisa notável que fez pela edição em Portugal durante dezenas de anos, mas fê-lo como se fazia antigamente: olhando apenas aos aspectos legais para os quais era conveniente olhar e desleixando as questões essenciais dos direitos de autor. Mais uma vez, esse tipo de situações continua a existir sem que haja fiscalização das entidades superiores da cultura em Portugal. E, quem conheça o meio, sabe muito bem porque motivo veio trazer a público estas questões o senhor Cruz Santos, «esquecendo-se» de que a destruição dos livros não só é legal como também necessária para o equilíbrio do mercado e para bem dos autores. O mesmo não se passa no caso dos livros de Maria Teresa Horta, situação que tem origem, a meu ver, no mau funcionamento dos serviços de encomendas e informática das livrarias e distribuidoras. A situação seria facilmente resolvida de forma legal e menos dispendiosa, trazendo ao mesmo tempo maior clareza ao mercado, através de medidas mais sensíveis e informadas por parte do Ministério.

(*) Nascido em 1976, formou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Trabalhou como assistente editorial na Vega e, posteriormente, preparou projectos de relançamento editorial para a Civilização e a Estúdios Cor. Em 2003, com Diogo Madre Deus, fundou a Cavalo de Ferro. Foi ainda director editorial do grupo Fundação Agostinho Fernandes para as áreas de Ensaio, Poesia e Ficção. É actualmente responsável pela ficção estrangeira na chancela Ulisseia, pertencente ao grupo Babel.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 7/Mai/10
Sex, 7/Mai/10
N. E.: texto publicado originalmente no blogue O Novo Ecléctico.

INTRODUÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO À POLÉMICA DOS LIVROS GUILHOTINADOS (parte I),
por Hugo Xavier (*)


Com a polémica levantada recentemente por Maria Teresa Horta, tem-se ouvido muita coisa, mas, curiosamente, os poucos editores que se pronunciaram explicaram a situação da pior forma possível.

As intervenções da senhora ministra revelaram, por sua vez, algo que já todos os que andam no mundo dos livros sabiam há algum tempo: que o distanciamento e desconhecimento do Ministério da Cultura e mesmo dos organismos que tutelam o livro e a edição (mas nada tutelam) relativamente ao negócio do livro são totais.

Esta situação de desconhecimento e, diria, intencional desligamento das obrigações perante um sector vital de transmissão da cultura — pois através do livro podem reunir-se quase todas as restantes artes e nem sequer será necessário mencionar que ele é um instrumento central no processo de divulgação cultural entre gerações — reflecte o espírito das instituições que tutelam a área cultural no nosso país: falta de profissionalismo, falta de conhecimentos de gestão no que ao negócio da cultura respeita. E foi há perto de 50 anos que a Unesco definiu o livro e outros bens como produtos culturais, ou seja, algo que deve ser pensado com base num ângulo teórico e filosófico mas que deve, igualmente, ser visto como produto comercial, pois sem um pensamento financeiro as industrias culturais só sobrevivem por milagre.

Assim, é este o retrato que podemos fazer do sector do livro no nosso país.

a)

Um grande número de editores sem conhecimentos de gestão e sem nenhum tipo de profissionalismo, que vivem de ideias quixotescas e que, quando confrontados com realidades financeiras graves, preferem recorrer à ilegalidade, não pagando a agentes do sector (tradutores, revisores, designers), ignoram pagamentos de direitos de autor (ou fazem mesmo tábua rasa deles), publicam obras estrangeiras sem sequer terem contrato ou sem pagarem os avanços de direitos, negoceiam direitos que não lhes pertencem, ignoram a legislação, continuam a publicar obras com contratos há muito caducados, etc. Ninguém regulamenta isto.

Eu, por exemplo, comecei a trabalhar, saído da universidade, numa editora que existia (e continua a existir) há 27 anos, fazendo toda a sorte de ilegalidades. Aliás, num catálogo de quase 500 títulos, se houvesse algum que não arrastasse consigo uma qualquer ilegalidade ou falta de pagamento, ficaria surpreendido.

Muitos editores queixam-se dos elevadíssimos avanços de direitos solicitados por editoras e agências internacionais. Já tive oportunidade de sondar muitas dessas editoras e agências, que me informaram que a imagem dos editores portugueses, enquanto péssimos pagadores e fazedores de edições ilegais, é tão internacionalmente famosa que é esse o mecanismo possível para que possam proteger, dentro do razoável, os direitos dos autores que representam.

b)

Mas a falta de profissionalismo continua. Uma das coisas que tenho vindo a apontar ao longo dos anos é o total desconhecimento da maioria dos agentes do mercado editorial em relação ao trabalho uns dos outros: editores que desconhecem os problemas das gráficas, gráficos que não sabem os problemas das livrarias, tradutores que não conhecem as dificuldades dos editores... A lista é extensa, e, no entanto, todos se queixam sem tentarem saber motivos. Já nem menciono um ministério da Cultura que voga ao sabor das marés, sem conhecer um milionésimo do sector — não intervindo, não fiscalizando e não legislando (nem através das sub-estruturas criadas precisamente para esse efeito).

A título exemplificativo, há uns anos descobri que o apoio para a divulgação de obras de uma cultura europeia noutra cultura europeia, atribuído pelo programa europeu Cultural 2000, era canalizado entre nós para apoio à publicação de obras de autores africanos.

Sempre que falava com um novo tradutor ou revisor e fazia um retrato da situação da edição e do livro em questão, explicando por que motivo não podia pagar mais, percebia que mesmo profissionais com mais de 40 anos de profissão nunca tinham ouvido sequer como funcionava a distribuição de custos da feitura de um livro.

Li artigos em blogues nos quais se alegava que os únicos profissionais do sector do livro que arriscavam alguma coisa eram os livreiros.

Enfim, a lista é extensa e não admira que um sector que tem de combater a crescente falta de leitores (vendem-se ligeiramente mais livros mas trata-se sobretudo de uma questão macroeconómica e refere-se particularmente a livros técnicos ou de estudo; além disso, o livro continua a ser dos presentes de prestígio mais baratos) nunca se tenha unido. Essa união não agrada a muitos, que preferem manter as trevas em torno das suas acções, e incomoda muitos outros, que preferem continuar deplorando orgulhosamente a decadência cultural do país.

Queria ainda, neste ponto, reforçar a ausência de legislação comercial e a pouca fiscalização existente. Os modelos são desadequados e poucos os cumprem. E nem falemos da lei do preço fixo, que acho ser das coisas mais idióticas jamais criadas, sobretudo num mercado onde a fiscalização é o que é.

[Continua]

(*) Nascido em 1976, formou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Trabalhou como assistente editorial na Vega e, posteriormente, preparou projectos de relançamento editorial para a Civilização e a Estúdios Cor. Em 2003, com Diogo Madre Deus, fundou a Cavalo de Ferro. Foi ainda director editorial do grupo Fundação Agostinho Fernandes para as áreas de Ensaio, Poesia e Ficção. É actualmente responsável pela ficção estrangeira na chancela Ulisseia, pertencente ao grupo Babel.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 5/Mai/10
Qua, 5/Mai/10
N. E.: texto publicado originalmente no blogue Sniper.

ALGUMAS HIPÓTESES REALISTAS PARA O FUTURO PRÓXIMO,
por José Vegar (*)

Como é do conhecimento daqueles que amavelmente seguem os escritos deste espaço, tenho acompanhado com a maior concentração possível o debate em torno do futuro dos autores e do livro, que se reacendeu um pouco por todo o mundo quando a Apple partilhou, há algumas semanas, a configuração essencial do iPad, o seu novo gadget. Uma primeira reflexão deu já origem a um post no Sniper risco intenso para o escritor português»), mas alguns contributos recentes e decisivos de especialistas obrigam a novas linhas. Para este momento, isolo dois textos particularmente importantes, um publicado no Financial Times em 9 de Fevereiro («A page is turned») e outro de Jason Epstein, o real insider da edição, na New York Review of Books de 11 de Março («Publishing: The Revolutionary Future»).

Curiosamente, os dois textos, equivalentes em importância, unem-se numa linha de fundo estrutural: o máximo a que se pode chegar neste momento é a uma conjectura com um grau sério de realismo. Contudo, eles também se complementam. O do FT procura dar conta da estratégia dos grandes conglomerados editoriais globais face à existência do texto digital. A investigação trouxe à tona revelações insólitas. A resposta desses conglomerados é a de manter o modelo de produção assente no papel (edição-impressão-distribuição) e continuar a editar no modelo codex, reservando para o mercado do texto digital apenas a negociação do preço de venda dos livros em formato digital com as entidades que o distribuem e o irão distribuir. Esmiuçando esta estratégia, os editores não vão editar na plataforma digital, estando apenas preocupados, para já, em conseguir a melhor negociação possível com os grandes players deste ambiente, como a Amazon e a Apple.

É neste ponto fundamental que o texto de Epstein — com o peso de muitas décadas na edição — ganha um interesse maior, pois, para ele, a estratégia dos conglomerados é um total suicídio. No seu texto, Epstein garante que «the transition within the book publishing industry from physical inventory stored in a warehouse and trucked to retailers to digital files stored in cyberspace and delivered almost anywhere on earth as quickly and cheaply as e-mail is now underway and irreversible. This historic shift will radically transform worldwide book publishing, the cultures it affects and on which it depends».

Na sua longa reflexão, Epstein toca em todos os nós vitais da cadeia escritores-editores-distribuição-venda, mas neste post reflicto apenas sobre os que mais me tocam. Primeiro: o actual modelo empresarial da edição está condenado. Tal como defendi há umas semanas no Sniper, há alguns traços que convém destacar. A distribuição e a venda em livraria tradicional são os nós onde haverá mais impacto. A edição será totalmente reformulada, e em lugar da grande editora nacional de gestão vertical, pertencente ou não a uma multinacional, teremos nichos de editores, ligados além-fronteiras por interesses editoriais comuns e capazes de juntar numa rede privada e empresarial todas as funções necessárias: pesquisa de autores, edição, comunicação e venda. Aqui, será aparentemente decisivo o modo de venda, com a introdução de modelos como o da expiração da licença, o aluguer, a protecção do conteúdo face à ideologia do ficheiro gratuito. O processo não está ainda em marcha porque, escreve Epstein, «the resistance today by publishers to the onrushing digital future does not arise from fear of disruptive literacy, but from the understandable fear of their own obsolescence and the complexity of the digital transformation that awaits them [...]».

Para os autores, o futuro próximo é igualmente complexo. No «literary chaos of the digital future», como o classifica Epstein, várias tendências aparecem desenhadas. Um ponto essencial parece ser o da obtenção de um «contrato global de direitos de autor», que permita precisamente a venda directa do livro digital na Internet, ou seja, em todo o mundo. Depois de obtido, vislumbram-se várias possibilidades. Uma delas é a de o autor acantonar-se no espaço virtual de um editor de reputação, capaz de lhe dar visibilidade num directório global como o Google. Outra, que começa a ser adoptada pelos monstros best-sellers saxónicos, é a do autor, secundado por especialistas, assumir a comunicação e a venda. Qualquer que seja o cenário, a liderança em vendas e notoriedade será sempre dos autores que estejam posicionados, como existem já exemplos em Portugal, para comunicar em todas as plataformas, especialmente na televisão e na rede, e escrevam segundo as regras mainstream do momento. Neste cenário, vários problemas graves se levantam. Talvez o mais importante seja o da preservação segura e durável da cultura e do conhecimento, indubitavelmente transmitidos, acima de tudo, pelo livro. Em que suporte transmitir os textos às bibliotecas, de que modo assegurar a sua inviolabilidade eterna, como garantir a disponibilização aos leitores dos fundos de livros (um problema já actual, dada a alta rotatividade dos títulos nas livrarias), estes são temas em aberto. Uma única certeza existe neste processo: tal como em todas as outras áreas do mundo contemporâneo, há muito tempo, na verdade desde 1850, que a sociedade humana não acelerava tanto.

(*) José Vegar é autor dos livros de ficção Cerco a um Duro e A Balada do Subúrbio e dos livros de não-ficção O Inimigo Sem Rosto — Fraude e Corrupção em Portugal (com Maria José Morgado) e Serviços Secretos Portugueses. Frequenta o doutoramento em Sociologia no ISCTE. Escreve nos blogues sniper e operaçãosniper.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 3/Mai/10
Seg, 3/Mai/10
N. E.: texto publicado originalmente no blogue o homem que queria ser luís filipe cristóvão.

«PELA ÚLTIMA VEZ SOBRE A SUPERFÍCIE LUNAR DA TERRA» (*),
por Luís Filipe Cristóvão (**)

António Guerreiro lê Um Toldo Vermelho e premeia-o com cinco estrelas expressas — o que seria de nós, os que se interessam por poesia, se não comprar o Expresso fosse uma opção. Cinco estrelas e uma frase final que merece ser repetida: «a poesia anterior de Joaquim Manuel Magalhães continua disponível e serve-nos de vingança. É a guerra.»

Peguemos por aqui: Guerreiro, talvez imbuído pela analogia ao seu nome, mantém acesa a declaração de guerra que Magalhães sempre preconizou para a poesia, uma guerra em que se quer pensar que existe uma poesia certa e uma errada ou, de uma forma ainda mais radical, que a poesia é isto e nunca aquilo. Mantém-se acesa essa declaração de guerra como no Resumo onde, por 4 euros, somos levados a pensar que a poesia portuguesa são 35 nomes, seleccionados de 30 publicações, as quatro mais representadas com números de apenas duas revistas. A declaração de guerra de se pensar que toda a poesia é apenas uma casa, uma visão do mundo, por mais sufocante que ela ameace ficar, tão impermeável a leituras externas parece. Mantém-se acesa essa declaração de guerra, de pensar que a poesia é um feudo, um território por conquistar, pior, a poesia portuguesa é um recinto, onde o direito à exposição, à elaboração de gerações, de princípios e de causas comuns cabe apenas aos iluminados. A guerra de quem está dentro, dentro está, sem convites, sem aparições.

Caro Guerreiro, a guerra não é essa. A guerra não é contra os poetas, contra os leitores, contra os livros. A guerra é a convivência com a palavra. A guerra é a leitura aberta, sincera e desejosa desse choque que promove a reflexão, a reprodução inventiva. A guerra é a tradição e a impossibilidade segura da sua compreensão total. A guerra é lermos e lermos e sentirmos, ainda assim, que a nossa sensação perante o acontecimento poético vai diferindo, passo a passo. A guerra não é matar o passado — é saber vivê-lo e continuar a produzir sem a ele estarmos presos.

Recuso toda a guerra que não seja uma guerra pela vitória da poesia. Recuso toda a guerra que não seja pela abertura do campo de visão, do sonho, da literatura. Recuso as vossas repetidas declarações de guerra, também. Reivindico a soberania da palavra. Reivindico a soberania do diálogo. Reivindico a soberania da beleza. Reivindico a possibilidade da paz para enfrentar o verdadeiro combate. Tudo o resto é desgaste inconsequente. Nada mais.

(*) Título retirado do poema «Praia do Amanhã», de Manuel de Freitas, no livro terra sem coroa.
(**) Luís Filipe Cristóvão (Torres Vedras, 1979) é editor e programador cultural. Autor de vários livros de poesia, mantém o blogue o homem que queria ser luís filipe cristóvão.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 30/Abr/10
Sex, 30/Abr/10
N. E.: texto originalmente publicado no sítio Web eBook Portugal.

O IPAD E A PIRATARIA DE E-BOOKS,
por Ricardo Silva (*)

O sucesso do iPad e das tablets concorrentes vai provocar um aumento significativo da pirataria de e-books já a partir de 2010.

Depois da pirataria de software, música e filmes sangrar há anos a indústria informática e de entretenimento, a disseminação ilegal de e-books vai agora começar a atormentar a indústria livreira a nível mundial, mas poupando… jornais e revistas.

Porquê só agora?
Numa época (ainda) de recessão económica, em que a leitura, o cinema e os jogos sociais on-line actuam como um escape psicológico, o fácil acesso a uma oferta infindável de e-books piratas gratuitos vai agora tornar-se muito mais atractivo.

Mas porquê só agora? Porque, ao fim de uma década de tentativas falhadas a indústria informática começou finalmente a vender aparelhos de segunda geração (pós e-ink) que permitem o consumo confortável de livros digitais em qualquer local ou ocasião, com ecrãs a cores e sensíveis ao toque.

Quanto aos e-books: best-sellers, romances de ficção, antologias, poesia, biografias, dicionários e guias culinários, tudo passa a estar à mercê dos piratas que os disponibilizam e dos leitores que os consomem.

As estatísticas do Google mostram um interesse crescente dos consumidores em obter e-books. Em 2010, essa tendência poderá explodir, dependendo somente do sucesso das vendas de e-readers e do preço dos e-books.

O que mudou?
Até agora, os e-books piratas não prejudicavam grandemente as vendas das edições em papel e até eram benéficos (!) em muitas situações, pois serviam de aperitivo (teaser). Autores como Paulo Coelho chegaram mesmo a incentivar a pirataria dos seus próprios livros!

Ora, o leitor imprimia ou lia no computador (ou num smartphone!) dois ou três capítulos do e-book e, quando gostava, sentia-se compelido a comprar a edição em papel. Pois aprende-se rapidamente que não compensa nem é prático gastar papel e tinta a imprimir um romance de 300 ou 400 páginas em folhas A4…

Isso tornou os e-books pouco atractivos durante anos, não afectando as vendas em papel. Até agora.

O caso especial dos manuais escolares
Num nicho à parte, a disseminação de manuais escolares em versão «e-book pirata» vai ser mais peculiar e fragmentada, pois é condicionada pela localização/país do consumidor, pelo currículo escolar nacional e pelo dinamismo das editoras.

Que é como quem diz: os manuais escolares oficiais mais populares e mais caros (que estiverem disponíveis) serão os primeiros alvos preferenciais do circuito alternativo de distribuição de e-books.

No caso português, várias editoras já complementavam os manuais em papel com materiais educativos e lúdicos em CD/DVD. Esses materiais, incluindo versões electrónicas dos manuais, eram muitas vezes ignorados (!) pelos alunos e encarregados de educação. Até hoje.

A sedução das versões originais
Globalmente, o idioma dos «e-books piratas» também vai influenciar a sua popularidade. Perante a inexistência de uma edição nacional de um determinado best-seller, alguns leitores mais fluentes poderão agora optar facilmente pela versão original, se ela estiver disponível.

Dada a qualidade discutível de determinadas traduções, isso até poderá constituir um aliciante inesperado.

Jornais, revistas e… a banda desenhada
Um pouco mais resguardadas do fenómeno da pirataria vão estar as editoras de jornais e revistas. Os seus produtos não têm tido grande circulação nos sites piratas e redes torrent/P2P, com excepção das revistas técnicas, masculinas e… da banda desenhada.

Aqui, o caso muda de figura. É fácil prever um aumento exponencial na pirataria de comics americanos e manga japonesa. Os novos tablets são uma excelente plataforma para a visualização deste tipo de publicações, devido à semelhança nas dimensões das tablets e da BD em papel. As primeiras aplicações para visualizar BD no iPad já estão a chamar a atenção.

A cereja em cima do bolo é que estamos perante um tipo muito específico de consumidor.

Há uma grande sobreposição entre o perfil do leitor-típico de BD e o do comprador-típico deste tipo de gadgets

Os standards e o malfadado DRM
É claro que as editoras de livros estão há meses a matutar no que fazer, para tentar evitar que o céu lhes caia na cabeça, como aconteceu às editoras discográficas e cinematográficas.

Desde meados de 2009 que era consensual o facto de que iriam surgir inúmeros modelos de tablets apetrechados com software para ler e-books e que o fenómeno da pirataria poderia explodir.

A popularidade/adesão à pirataria de e-books será agora determinada:
— pelo preço das edições legais;
— pelos formatos digitais dos e-books (standard/abertos versus proprietários); e
— pelas eventuais contra-medidas adoptadas (tecnologia anti-pirataria ou DRM).

Como combater a pirataria
Os últimos anos mostraram que, se um determinado produto estiver facilmente acessível e a um preço razoável, os consumidores preferem-no em vez de recorrerem às versões pirata.

Veja-se o caso do iTunes, com uma interface amigável, multi-plataforma… e músicas avulsas a 99 cêntimos.

Se os e-books das livrarias on-line forem vendidos a preços acessíveis e estiverem disponíveis em formatos standard/abertos (como ePub ou PDF) e sem truques DRM, essas serão as medidas mais eficazes para desincentivar a pirataria de e-books.

Infelizmente, esta não parece ser a visão da indústria, que aumentou recentemente o modelo de preços dos e-books vendidos on-line, numa altura em que a Apple tenta a todo o custo cativar potenciais compradores, levando o resto dos fabricantes a reboque.

Cá vamos nós outra vez… RIAA versão 2.0?

(*) Ricardo Nuno Silva tem 40 anos e já assistiu a muitas modas tecnológicas e a umas quantas revoluções digitais. Passou a última década a observar a influência da tecnologia na sociedade, com uma dose saudável de cepticismo.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 28/Abr/10
Qua, 28/Abr/10
MERCADOS E FEIRAS:
A INSERÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO (parte II),
por Maria do Rosário Pedreira (*)

[Parte 1]


Em 1996, quando começámos a preparar a programação de Portugal como país convidado da FILF, demo-nos conta de que a literatura portuguesa clássica não estava praticamente traduzida; e de que a contemporânea tinha começado por ser traduzida e difundida no Leste da Europa, onde os escritores perseguidos pelo regime, muitos deles militantes comunistas, tinham conseguido criar uma rede de contactos nos países do Pacto de Varsóvia, mas nem sequer aí eram muito lidos. Os outros tinham um ou outro título traduzido em países da União Europeia, mas raramente as editoras que os tinham levado à estampa prosseguiam a edição da obra, se esse primeiro livro não tivesse vendas significativas. Muitas editoras estrangeiras procuravam um título em português, e apenas um, por terem espaço no seu catálogo para um livro de uma língua estranha, exótica, mas ainda assim preferiam claramente um escritor africano de expressão portuguesa, porque aí o exotismo lhes parecia mais real. Enfim, a sensação era a de que tínhamos uma língua minoritária e de que tudo estava por fazer.

Com uma verba do Estado português excepcionalmente generosa, o trabalho foi feito, julgo que com eficiência. Não o digo por ter integrado a equipa que o realizou, mas porque ainda hoje vários países convidados da FILF nos pedem conselhos, dizendo que os alemães dão sempre Portugal como exemplo de uma operação francamente bem-sucedida. Nada se teria feito sem o dinheiro, sublinho, e ele permitiu levar ao certame mais importante do mundo em termos editoriais quase uma centena de autores lusófonos dos quatro cantos do mundo e ao mesmo tempo mostrar na Alemanha — não só aos alemães, mas também a todos os estrangeiros que ali vão para a Feira — a arte, a arquitectura, a música, a gastronomia, uma cultura de qualidade que os portugueses ainda não tinham exportado em bloco. Simultaneamente, criou-se um subsídio para os editores estrangeiros que quisessem traduzir autores portugueses, uma ajuda que se revelou fundamental para a inserção da nossa literatura no mundo.

Os efeitos dessa iniciativa de 1997 fizeram-se sentir rapidamente. O número de traduções decuplicou em poucos anos, ajudando a firmar uma literatura europeia algo periférica e bem assim autores de Angola, Moçambique e Cabo Verde, cujas literaturas ainda não se elevaram ao estatuto de sistemas literários independentes, até porque a língua portuguesa nesses países não é exclusiva.

Em 1998, José Saramago ganhou o Prémio Nobel da Literatura, e tê-lo-ia ganho mais tarde ou mais cedo, mas a visibilidade do evento de Frankfurt pode ter ajudado Estocolmo a pensar no autor português naquele ano específico. Nos anos seguintes, Portugal foi o país convidado da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, do Salão do Livro de Paris e da Feira do Livro de Genebra. Foi, pois, possível prolongar a «operação de charme» por vários anos e convocar novos públicos para a literatura de língua portuguesa. Os autores que começaram a publicar em 2000 tiveram a vida muito facilitada pelo trabalho anterior, e alguns deles estão hoje traduzidos em mais de 20 línguas, incluindo o inglês (nas edições inglesa e americana, que, como todos sabemos, são dificílimas de conseguir).

Mas também o mercado do livro mudou profundamente na última década. Com a compra maciça de editoras por grandes grupos multinacionais, a edição assumiu-se recentemente como uma indústria, que já não tem o autor como centro, mas o leitor — que é, na verdade, o consumidor final e aquele que dita regras e tendências. Nesta conjuntura, os editores perderam independência e as editoras perderam identidade, mas o autor pode sair beneficiado por estar num grupo multinacional, já que as suas obras podem ser mais rapidamente publicadas por editoras que o mesmo grupo a que pertence a sua editora original detenha noutros países. As mudanças no mercado geraram, porém, um novo paradigma de escritor: um escritor é hoje um profissional da escrita quando antes era quase sempre um profissional de outra área que se dedicava à escrita nas horas vagas. E, como profissional, tem de mostrar-se ao seu público e deslocar-se a festivais, bibliotecas, livrarias e universidades. Neste ponto específico, os festivais de escritores, mais íntimos e menos mercantilistas do que as feiras, criam uma teia de relações fundamental na internacionalização da obra de um autor. Num só encontro de poesia, numa pequena cidade do Sul de França, consegui, sem nada ter feito para isso senão ler, que os meus poemas fossem traduzidos e publicados em revistas literárias, antologias ou volumes autónomos na Grécia, em França, em Itália, em Espanha, na Eslovénia e até em catalão, numa editora das Ilhas Baleares, com a vantagem de muitas dessas traduções terem sido realizadas por poetas e em permanente diálogo e troca de impressões. Estes festivais, onde muitos escritores de nacionalidades diferentes se tornam amigos, facilitam igualmente a recomendação para bolsas ou residências literárias, financiadas pelos países de acolhimento ou pelos países visitantes, onde às vezes os autores são descobertos por um agente literário que os retira do anonimato internacional. Os leitorados do Instituto Camões espalhados pelo mundo, com ligações às universidades locais e aos estudantes de Português no estrangeiro, têm também um papel preponderante na internacionalização de um escritor, sendo o Estado quem financia as viagens e outras despesas de deslocação.

Infelizmente, as crises também se internacionalizam e as torneiras fecham-se. Quase sempre, a cultura é a primeira a sofrer as consequências da seca. Um trabalho de anos, concertado, pode tornar-se praticamente inútil se não for feito de forma continuada, e hoje sinto que corremos esse risco. Além disso, em Portugal somos apenas dez milhões de habitantes — e dez milhões de habitantes no sistema mundial equivale a dizer que não temos massa crítica suficiente para nos afirmarmos. Se nunca fomos especialmente afirmativos, se ainda hoje vivemos à sombra das glórias dos Descobrimentos, num momento de crise internacional como o que atravessamos teremos uma dificuldade acrescida em sê-lo.

Tenho, pois, a noção de que, na questão particular da internacionalização da língua, são os outros países lusófonos, com um número de falantes de português muito superior ao nosso, que têm de tomar a dianteira. Mais do que todos, o Brasil, pois é aquele que se encontra em desenvolvimento mais acelerado e, simultaneamente, o único que tem o português como língua exclusiva e um sistema literário independente. Creio, aliás, que, ao ratificar o Acordo Ortográfico — ainda antes de saber se Angola ou Moçambique o fariam —, foi isto mesmo que o Estado português quis dizer ao Brasil, que o grande exportador da língua portuguesa está agora, decididamente, do outro lado do Atlântico. Custa-nos muito reduzirmo-nos à nossa insignificância; mas, se até o fado, que é a canção mais genuinamente portuguesa, tem raízes no Brasil (e por isso é tão bela), será que podia ser de outra maneira?

(*) Maria do Rosário Pedreira é editora e escritora. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, ingressou na carreira editorial em 1987, sendo actualmente editora do Grupo LeYa. É autora de livros de poesia, ficção e literatura infanto-juvenil.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 26/Abr/10
Seg, 26/Abr/10
MERCADOS E FEIRAS:
A INSERÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO (parte I),
por Maria do Rosário Pedreira (*)

Fui recentemente convidada pela CPLP para uma conferência internacional em Brasília sobre o futuro da língua portuguesa no mundo, tendo-me sido pedido que me debruçasse sobre o tema que dá título a esta crónica. O convite teve certamente por base a minha actividade profissional: trabalho na edição há mais de 20 anos e, nos últimos dez, tenho-me dedicado especialmente à descoberta e publicação de autores de língua portuguesa, alguns dos quais traduzidos em várias línguas — ou seja, «inseridos no mundo»; e sou, por inerência das minhas funções, visita regular de feiras internacionais do livro. Como autora, estou igualmente familiarizada com os festivais internacionais de escritores e o grande contributo que estes podem dar à tradução e publicação de livros e antologias de literatura portuguesa no estrangeiro. Mas, para lá de tudo isso, partilhei uma experiência única no domínio da internacionalização das literaturas lusógrafas, pois integrei a equipa que organizou a programação de Portugal como país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt (FILF) em 1997 — o ano imediatamente anterior à atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago. E, no entanto, embora tenha tentado reduzir a comunicação ao âmbito da minha experiência profissional, a verdade é que não consegui escapar completamente à minha condição de simples portuguesa, algo céptica quanto à capacidade de Portugal conseguir tornar a sua língua um idioma mais relevante do que é hoje no contexto internacional. Espero, pois, que me possam perdoar uma abordagem talvez um pouco polémica quanto a este ponto particular e uma introdução para a justificar.

Nasci em 1959 num pequeno país da Europa, que então não tinha sequer nove milhões de habitantes — menos do que os que existem hoje só em São Paulo. Era um país pobre, triste e cinzento, onde, além do mar, tínhamos apenas um vizinho — a Espanha — que, curiosamente, apesar de certas afinidades, continuava a ser tratado nos manuais escolares como inimigo histórico. Estávamos ainda isolados do mundo por uma ditadura de que não podíamos evidentemente orgulhar-nos e encontrávamos consolo na vanglória de um passado com mais de quatro séculos, em que os portugueses tinham partido em naus e caravelas e levado a língua portuguesa até à Ásia, à África e à América, porque na Europa ela parecia cada vez mais enferrujada: mais de metade da população portuguesa era analfabeta e, como tal, não podia usar todos os recursos que uma língua oferece; e a outra metade também não podia falar nem escrever livremente, sob a ameaça do lápis azul da censura e da perseguição política. Ora, num país que não se sabe expressar ou que tem medo de se expressar, a língua está sempre em segundo plano.

Nesse tempo, ao contrário do que acontecera com os nossos gloriosos avós (os grandes exportadores da língua portuguesa), também quase não viajávamos — o Presidente do Conselho, para dar o exemplo, deslocara-se uma vez a Madrid (e foi, ao que parece, a sua única viagem fora de Portugal); e aqueles que saíam do país faziam-no obrigados pelas piores circunstâncias — eram os pobres que emigravam para a França, a Alemanha e a Suíça, onde esqueciam rapidamente a sua língua para falarem a dos outros; ou os intelectuais que se exilavam ou eram exilados no estrangeiro, mas cujas obras só chegavam a Portugal em pequeníssimas redes clandestinas.

Não existe prisioneiro que não sonhe com a liberdade. E, portanto, no Portugal da minha infância, sobrevivíamos entre a saudade de um tempo que não tínhamos vivido e o desejo de um tempo que ansiávamos viver e no qual pudéssemos ser mais cosmopolitas, mais modernos e, acima de tudo, mais livres. Isso — e o facto de termos sido sempre de uma grande abertura ao Outro — fez com que passássemos a elogiar o que vinha de fora em detrimento do que possuíamos — fôssemos até um pouco subservientes com os estrangeiros (hábito que ainda não perdemos completamente) — e nos tornássemos uma espécie de esponjas, procurando absorver o que, achávamos nós, demoraria séculos a cá chegar. A França, como país livre, laico e não muito distante, instituiu-se naturalmente como primeiro modelo a seguir e, assim, o francês tornou-se língua corrente entre a população ilustrada (em minha casa, quando os meus pais não queriam que percebêssemos as conversas, falavam entre eles em francês); e, mais tarde, talvez fascinados com a vida afortunada dos tios da América — donde nem sequer podíamos importar Coca-Cola —, passámos sem problemas ao inglês. Já para não dizer que, por causa da vizinhança (não importa agora se boa ou má), muitas gerações de portugueses comunicavam desde sempre de forma satisfatória em castelhano. Foi, pois, de língua em língua que conhecemos o mundo moderno, porque a nossa nos parecia demasiado curta para o que queríamos saber. (Claro que, ao que todos dizem, temos uma aptidão extraordinária para as línguas; e o facto de os filmes e os programas de televisão terem sido sempre legendados ajudou claramente ao desenvolvimento dessa aptidão. Contudo, é talvez também um certo desdém por nós próprios, aprendido e nunca desaprendido, que ainda hoje leva qualquer português, mesmo em Portugal, a falar a língua do estrangeiro que ali trabalha ou está de visita, em vez de tentar que ele cumpra o ditado «Em Roma, sê Romano» — o que um espanhol nunca faria, muito menos em Espanha.)

É evidente que esse país onde cresci não existe, felizmente, há 35 anos. Mas, se falo dele, é apenas porque, mesmo que tudo tenha mudado, a verdade é que, no que respeita à língua, tudo está mais ou menos na mesma. Quando antes fomos exportadores, hoje somos importadores mais do que competentes. O português que se fala actualmente, sobretudo entre os jovens, está cheio de palavras de outros idiomas (muitas inglesas, sobretudo as que se prendem com as novas tecnologias), tendo caído em desuso muitos vocábulos portugueses, agora substituídos por estrangeirismos. Com a descolonização, o regresso dos ex-colonos e a imigração oriunda dos países africanos de língua portuguesa, absorvemos também uma variedade de expressões africanas. Com a chegada das telenovelas brasileiras, deixámos de perguntar «Como está?» ou «Como passou?» para perguntarmos, sem excepção: «Tudo bem?» E, tendo-se invertido a situação com a nossa entrada na União Europeia — somos hoje um país de imigrantes, quando fomos durante décadas um país de emigrantes —, é bem provável que importemos ainda muito mais palavras e modos de dizer, quiçá alguns de países tão distantes como a Ucrânia. Serve isto para dizer que a atenção que Portugal deu ao seu património linguístico nunca foi, em suma, suficiente, e o facto de o melhor dicionário de língua portuguesa ter sido feito no Brasil, por António Houaiss, é prova disso mesmo, como o é também o Museu da Língua Portuguesa estar situado em São Paulo. Embora esteja consciente de que é positivo uma língua enriquecer-se quotidianamente com os contributos de outras e de vocábulos e expressões de outros países com a mesma língua, sinto que continuamos demasiado permeáveis, como se, no fundo, ainda estivéssemos isolados do mundo e a democracia não nos tivesse aberto portas e fronteiras.

Tenho, mesmo assim, a convicção de que nos resta uma saída para emendar este caminho: a literatura, importantíssimo veículo para a inserção de uma língua no mundo. E disso falarei na próxima crónica.

[Continua]

(*) Maria do Rosário Pedreira é editora e escritora. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, ingressou na carreira editorial em 1987, sendo actualmente editora do Grupo LeYa. É autora de livros de poesia, ficção e literatura infanto-juvenil.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Sex, 23/Abr/10
Sex, 23/Abr/10
MÉTODO INFALÍVEL PARA SABER TUDO O QUE HÁ PARA SABER SEM PERGUNTAR AO PROFESSOR MARCELO,
por Afonso Cruz (*)

Há livros que têm aquela fama de conter todo o conhecimento humano. Um taxista sírio explicou-me, um dia, que não precisava de mais nenhuma leitura além do Alcorão. Mostrou-mo, devidamente embrulhado, tirando-o do tablier. Disse-me que ali estavam todas as respostas. Não deixei de me sentir impressionado pelo facto de aquele conhecimento todo caber dentro de um tablier.

Há muitos outros monoteístas a pensar da mesma maneira e nem sequer têm um táxi. A Bíblia, como toda a gente sabe, é uma espécie de 2666 para alguns cristãos. Está lá tudo. Certas partes do Pentateuco, por exemplo, estão especialmente sujeitas a várias leituras. A ambiguidade faz com que as obras se aproximem do infinito, pois podem conter tantas interpretações quanto leitores. Orígenes apontou algumas leituras com estas características: os primeiros capítulos do Génesis, o Cântico dos Cânticos e o Êxodo. Afirmava que só deveriam ser lidos depois dos quarenta. E por homens. Meynrink, num dos seus romances, escreveu que o Zohar é um livro desses: uma pessoa lê aquilo e não precisa de ler mais nada, pode até deitar fora os livros de Paulo Coelho. São Tomás escreveu a Suma Teológica, uma coisa definitiva para pessoas mais escolásticas. A lista é extensa, mas há que falar no livrinho infinito de Rámon Llull.

Por volta de mil trezentos e tal, Llull, também conhecido por «Doctor Illuminatus», publicava A Arte Breve, livro que conteria, resumidamente, todas as três partes da Sabedoria do Mundo. Esta obra foi um dos primeiros computadores de bolso da História. Llull já tinha, anos antes, criado o desktop chamado Ars Magna, mas sentiu ser necessária alguma mobilidade, já que a sua intenção era converter infiéis. E estes nem sempre estão junto às nossas secretárias. Os boatos dizem que a ideia para estes livros de Rámon Llull foi baseada num instrumento combinatório árabe chamado «zairja». Llull usou uma série de conceitos básicos, ontológicos nos seus melhores dias, representados por letras e números que, quando combinados através de círculos e de tabelas, fariam perguntas e dariam respostas, todas elas perfeitamente lógicas, sobre a natureza de Deus e essas coisas. Um método infalível para saber tudo. De certo modo, custa imaginar que um homem como Llull, que convivia quotidianamente com pessoas medievais, pudesse criar um artefacto destes sem usar silicone.

Quando, pela primeira vez, ouvi falar deste livro, A Arte Breve, procurei adquirir um exemplar como quem demanda um graal. Apesar de raro, acabei por conseguir comprá-lo, numa tradução francesa. Foi uma desilusão. Logo para começar a leitura, somos obrigados a decorar os vários significados que Llull dá a cada letra do seu alfabeto. Sem me alongar muito, é aborrecido. Esta experiência levou-me a concluir, numa altura da vida em que deveria era frequentar as matinés do Crazy Nights, que não existe nenhum livro — excepto naquele labirinto minóico que é a cabeça de Borges — capaz de conter todo o conhecimento humano. Mas ainda me assusta pensar em tudo o que pode caber no tablier de um táxi.

(*) Nasceu em 1971 e é autor dos livros A Carne de Deus (Bertrand, 2008), Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal, 2009) e Os Livros que Devoraram o Meu Pai (Caminho, 2010). Também é músico (da banda The Soaked Lamb), ilustrador e realizador.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 21/Abr/10
Qua, 21/Abr/10
TRANSAcção,
por José Rentes de Carvalho (*)

É uma vergonha. Ou melhor: são duas vergonhas, e não adianta esconder. Confesso já. Mesmo que não me livre do peso, fica o consolo de ter demonstrado carácter.

Primeira vergonha: tenho uma coisa com Mónica Marques. Tentarei explicar adiante as circunstâncias que a originaram, tanto mais bizarras quanto eu nada sei da pessoa.

Referir a segunda vergonha dói mais ainda: daqui a escassos meses faço 80 anos.

Ambos estes elementos emprestam um sabor amargo a uma situação que algures, por exemplo na Índia ou no Iémen, é corrente nos usos e sancionada pelo Livro. O proibido entre nós, o geronte que se oferece uma garota de 10 anos ou 12 anos, é nessas paragens coisa corriqueira, olhada até como sensível conforto da velhice.

Continuando. Entre os vinte e poucos e os quase 40, muito andei entre o Rio e São Paulo. Não juro que tenha sido tempo paradisíaco, mas, por entre os trambolhões, houve também horas de folia, em que evas, dextras nas coisas do feitiço e do candomblé, me tentaram com mais de uma maçã.

São isso episódios de meio século passado, e a memória vai diluindo a lembrança dos corpos, as juras feitas. Mantém-se, mas ténue, a visão de um sorriso, uma meiguice, a luz da tarde num apartamento da avenida Atlântica, o rosto de Donatella, enfim, momentos desses. No todo, são como que acontecimentos de uma vida que, de tão agitada, hoje me parece alheia e contrasta forte com a pacatez dos meus dias.

Infelizmente, uns meses atrás, oito, para ser exacto, essa pacatez foi perturbada quando pessoa amiga, conhecedora das citadas vivências, me ofereceu um livro intitulado Transa Atlântica, acrescentando, cúmplice, que de certeza o acharia interessante.

— Marques? Do García Márquez?

— Não. Da Mónica Marques.

Desconhecia a dama, transa não era vocábulo do meu tempo, mas lá o encontrei no Houaiss, e dos significados escolhi o que melhor acompanhava as pernas nuas e a mini-saia da capa.

Devo dizer que, de começo, estranhei e a leitura não me entusiasmou. Mas, à medida que nela progredia, fui caindo de susto em assombro, menos por culpa da autora do que pelo transtornado desejo que sempre tenho de ser personagem nas histórias doutrem. Se a coisa me atrai, em vez de ler tresleio, quando dou por mim estou enterrado até às orelhas nas reviravoltas da vida alheia. Mas, desta vez, exagerei mais do que costumo, fazendo do que lia o pano de fundo da minha alucinação.

Assim me vi num éden sem passado nem futuro, só presente, abundante de festa e sol, caipirinhas, praias douradas, mónicas púberes e menos púberes, donatellas maduras, mulatas com o sangue de sete nações, aqui e ali um garanhão, além uma corça, acolá um doce veado.

Estava eu nesse enlevo, certo de que se iriam repetir os gozos dos meus melhores anos, quando, em modo igual àquele com que Vénus e Ursula Andress («a major sex symbol of the 1960s and James Bond object of desire in Dr. No») saem das ondas, se ergueu radiante uma jovem esbelta, felina e pernilonga que, estendendo as mãos…

Os abanões da minha mulher, perguntando se me tinha dado alguma coisa — com os idosos nunca se sabe — demoraram a tirar-me do devaneio, mas, por fim, fechando o livro e escondendo a capa, balbuciei que me sentia cansado.

— Leitura interessante?

Tomei o modo afectado de quem só lê a Agustina:

— Nestes modernos, é sexo e mais sexo, bebida, festa… A rapariga escreve escorreito, é original e mostra talento…

— Rapariga? Conhece-la?

Com característica leviandade feminina, virou-me as costas, desinteressada da resposta.

À noite, terminei o livro e sonhei o resto. Desde então, quando o abro, Mónica Marques, creio que é ela, sai dentre as páginas e dá-me o braço, sussurra ao ouvido que não tenho que ir fazer 80 anos. Venda a alma, deixe-me levar, e ela mostrará como se volta aos 30.

(*) De ascendência transmontana, J. Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia. Cursou Românicas e Direito, em Lisboa, antes de abandonar o país por motivos políticos. Viveu no Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque, Paris, antes de se fixar em Amesterdão, em 1956. Licenciou-se na Universidade de Amesterdão, onde foi docente de Literatura Portuguesa. Desde 1988 que se dedica exclusivamente à escrita, tendo uma colaboração vasta em periódicos portugueses, brasileiros, belgas e holandeses. A sua bibliografia inclui romances, contos, diário, crónica e guias de viagens. Publicou, pela Quetzal Editores Com os Holandeses (crónicas) e Ernestina (romance).
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 19/Abr/10
Seg, 19/Abr/10
O PRAZER DE LER BOLAÑO,
por Francisco José Viegas (*)

Comecei a ler 2666, de Roberto Bolaño, em Dezembro de 2008 — o Inverno ajuda muito nestes casos e sempre tive uma tentação por livros extensos para enfrentar o frio. Não há uma regra. Há quem os prefira para o Verão; sestas de férias — mesmo curtas, dependuradas sobre a tarde — são, quando se pode, o cenário ideal para que o livro demore mais nas nossas mãos. Não foi assim comigo.

O que 2666 me trouxe, nunca soube explicar senão em redor desse primeiro livro em que conheci quatro loucos apaixonados pela obra de Archimboldi, um escritor de que havia notícias vagas e em redor do qual se foi construindo uma mitologia muito parecida com a de J. D. Salinger. Desses quatro, três (é o número ideal: um triângulo amoroso ou apenas erótico — neste caso, apenas literário —, do qual fica excluído um, que é o do «amor verdadeiro») partem para o México em busca de um Benno von Archimboldi que passa como uma sombra pelo painel de Santa Teresa. O que faz um escritor nascido em 1920, na Rússia, naquele cenário? O mesmo que eu fiz, muitos anos antes, nas ruas sujas de Ciudad Juárez. Não há quase nada que recomende esta cidade do estado mexicano de Chihuahua, feia e cercada pela violência, como a mais indicada para um turista, a não ser a memória do cinema (Man on Fire, com Denzel Washington, por exemplo, mas também numerosos westerns, porque está ligada à fronteira texana de El Paso), da música («Cocaine Blues», de Johnny Cash, e «Just Like Tom Thumb’s Blues», de Bob Dylan, para não ir mais longe) e da literatura: é um dos cenários de Cormac McCarthy.

Em 1995, Ciudad Juárez não era nada disso; apenas um cenário de papel sujo, rasgado pelos cartéis da droga e da prostituição. Havia caravanas de grandes jipes atravessando a fronteira por El Paso, em busca de droga, tequila, mulheres e má comida. O mesmo cenário para Stan Laurel e Oliver Hardy atravessarem um dos momentos mais difíceis das suas vidas (nuvens de álcool, nuvens de poeira atravessando as janelas de um hotel miserável), como aparece no quase monumental A Quatro Mãos, o livro de Paco Taibo II — um dos livros «onde tudo aparece»: Trotsky escrevendo um romance policial, Malcolm Lowry abandonado nas ruas de Cuernavaca, Frida Khalo perdendo (ainda mais) a voz.

Volto atrás: eu estava em Ciudad Juárez em 1995. Treze anos depois, regressei — pela mão de Bolaño. A cidade era a mesma. Eu diria a mesma coisa de Macondo, se tivesse ido a Macondo. Já lá vou.

A nossa relação com a literatura da América Latina passa por esse momento de infinita grandeza — Macondo, a cidade de García Márquez, um dos cenários mais imitados de toda a literatura posterior, como uma espécie de ilha da Utopia do «maravilhoso & fantástico» latino-americano. Antes dele, só os barrancos poeirentos de Juan Rulfo, quando o personagem se põe a caminho para perseguir o fantasma de Pedro Páramo numa cidade de mortos que regressam à vida. Era atraente esse mundo mágico onde até os generais cruéis merecem a nossa compaixão e se tornam heróis. As mulheres que seriam víboras na Europa, ou uma das velhas de A Casa de Bernarda de Alba, de Lorca, são ali sibilas de vozes profundíssimas.

Quando se chega a Santa Teresa, o cenário ficcional, e se conhece Ciudad Juárez, o cenário real, percebemos que alguma coisa mudou nessa literatura — nada mais nada menos do que o centro, o epicentro, o palco central, o motor de inspiração geográfica. Bolaño, apesar da compreensível antipatia que lhe é dedicada por muitos dos seus conterrâneos latino-americanos, é o responsável por essa revolução que substitui a atrevida dimensão poética das tiranias pela realidade suja das cidades mexicanas, para cá ou para lá do deserto de Sonora (a paisagem mais derradeira de Os Detectives Selvagens). No fundo, o que a talentosa literatura que ficou conhecida por «o fantástico latino-americano» postulava, era o seguinte: até os maus são bons neste mapa. Até os maus transportam, gravado no rosto, o sinal da piedade, do talento, da misericórdia, do amor brutal, do desespero. Os maus vêm de fora — os gringos, os exploradores, os imperialistas que abrem as veias da América Latina. Bolaño veio depois e, sem querer, transformou os maus em maus e os bons em perdidos.

Tudo começa pela literatura e pela invenção da literatura, como nessa primeira parte do livro, a dos críticos. Literatura pura, o destino de Fate. Literatura brava, infame, descritiva, enumeração — a parte dos crimes. Deixem-me dizer-lhes: ninguém sai vivo desta crueldade, fria, cortante, fatal, determinada. As mulheres mortas de 2666 já não são a poesia delicada, aventureira e sinfónica do «fantástico latino-americano» — em seu lugar, a cosmogonia de Roberto Bolaño muda de centro, de epicentro, de placas tectónicas. Ele segue o percurso de muitos escritores latino-americanos para a Europa, escapando à perseguição dos pequenos fascismos locais, dos regimes militares e das tropas revolucionárias. E fica na Europa; é da Europa que ele olha esse mundo onde os generais já não são loucos, como Bolívar, não têm quem lhes escreva, não sobrevivem à falta de amor nem ao medo de serem eternos como um relâmpago que explica a miséria do continente, as ditaduras sanguinárias, e até os compromissos históricos que levam os combatentes dos anos 60 a aliarem-se a outros sanguinários e a outros ditadores. Em vez desse mundo fantástico, os personagens vivem no meio da miséria real ou da corrupção, dos livros que deixam pendurados numa corda de roupa, dos filhos que não conseguem compreender, das ex-mulheres que nunca os abandonam, das estrelas escondidas — no céu — pela poeira da pólvora ou da sujidade de Santa Teresa, arrastada pelos ventos.

Tristram Shandy; lembrei várias vezes Tristram Shandy, de Sterne, enquanto lia 2666. Por causa do labirinto de vozes e de desencontros (Bolaño segue os sonhos de Borges), por causa da ideia de romance, despedaçada e fragmentada, cheia de sonhos e de delírios.

2666, por isso, é um livro sobre todos os grandes livros, como Os Detectives Selvagens era um livro escrito em nome da literatura e dos autores perdidos, como O Terceiro Reich é um labirinto (outra vez) cheio de referências à literatura, ao medo, ao nazismo real, ao desamor e à solidão — e ao risco, ao exílio, à incapacidade de sonhar. Ler Bolaño é participar, como espectador, dessa incapacidade e desse medo. Há quem escreva no fio da navalha; e há quem, como os leitores de Bolaño, observe o fio da navalha atravessando todos os livros que vêm lá dentro, como uma ameaça do fulgor e da esperança — a única — que vem na literatura.

(*) Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor. Multipremiado enquanto autor, desempenha actualmente as funções de director editorial da Quetzal Editores e de director da revista LER. Foi distinguido com o Prémio APE, pelo romance Longe de Manaus. O seu romance mais recente intitula-se O Mar em Casablanca.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Sex, 16/Abr/10
Sex, 16/Abr/10
DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE CARVER,
por Lúcia Pinho e Melo (*)

«To carve» significa dividir em partes pelo corte; cortar de forma a obter a forma desejada; cinzelar; esculpir.

Quando lemos a prosa limpa, seca, depuradíssima, de Raymond Carver, é com esse trabalho de esculpir, radical e impiedoso, levado a cabo sem compromissos, que inevitavelmente nos confrontamos. Sobretudo em What We Talk About When We Talk About Love — a recolha de contos que tornou famoso o autor, até então pouco conhecido, de Will You Please Be Quiet, Please?.

Numa entrevista de 1986, dois anos após a publicação da terceira colectânea, Carver falava assim do seu inconfundível estilo: «Se puderes retirar o que quer que seja, retira-o. Assim, darás mais força à escrita. Reduz, reduz e reduz ainda mais.»

Porém, desde a sua morte, em 1988, corriam rumores de que o estilo minimalista de Carver não se devia inteiramente ao seu próprio processo criativo. E sabemos agora, com a publicação de Beginners — versão original do conjunto de 17 short stories posteriormente intitulado What We Talk About When We Talk About Love —, que o autor desse intenso trabalho de depuração não foi Carver, mas o seu editor e amigo Gordon Lish.

Segundo artigos do jornal The Guardian de 17 e 24 de Outubro de 2009, Lish não só cortou como o fez «até ao osso», reescreveu, renomeou (contos e personagens), refez parágrafos e suprimiu comparações e metáforas; «e não só encurtou muito as histórias como as tornou mais elípticas, dando-lhes um fim mais aberto, tornando-as mais sombrias, mais violentas, mais duras, mais classe operária e menos intelectuais, mudando-lhes o tom e a atitude geral perante as mulheres».

A intervenção drástica do então editor sénior da Alfred A. Knopf — que muitos consideram mais censor do que editor — desgostou Carver, humilhou-o. Quando recebeu a versão final de What We Talk About When We Talk About Love, escreveu a Lish, exigindo que suspendesse a impressão. No entanto, uma semana mais tarde, noutra carta, confessava-se-lhe empolgado com o livro e pedia-lhe apenas uma ou outra alteração (Telegraph, 30 de Outubro de 2009).

Ainda que a emoção que nos provoca a escrita de Carver em What We Talk About When We Talk About Love — o assombro perante a formulação justa, desapaixonada e, ainda assim, tão envolvente e próxima da alma humana — releve, em grande parte, da pena de Lish, como agora se sabe, somos tentados a julgar abusivo o alcance do editing do texto original de Beginners. Sobretudo ao observar-se a sua reprodução gráfica na transcrição publicada na revista The New Yorker («“Beginners,” edited — the transformation of a Raymond Carver classic»), em que se assinalam todas as supressões (com a aposição de um traço horizontal sobre as palavras eliminadas), todos os acrescentos (a negro) e todos os novos parágrafos introduzidos (com o respectivo símbolo).

A recente edição de Beginners, pela Jonathan Cape, apadrinhada pela viúva de Carver, Tess Gallagher, em que William L. Stull e Maureen P. Carroll restauram a versão original da obra, demonstra mais aprofundadamente a «destruição» levada a cabo por Lish (em cerca de 50 por cento) do manuscrito apresentado por Carver em 1980 à Alfred A. Knopf, hoje preservado na Lilly Library da Universidade do Indiana. Nela, cada um dos contos é anotado com uma resenha das respectivas alterações sofridas desde, em alguns casos, a sua prévia publicação em revistas, passando por What We Talk About When We Talk About Love, até agora.

Não se pretende aprofundar aqui as questões levantadas pela edição (no sentido estrito de editing), que são sempre controversas (haja em vista toda a publicação de inéditos póstumos); nem advogar a causa do autor e a inviolabilidade da obra, apesar da sua imperfeição; nem a do supremo interesse do leitor, em benefício do qual se justifica uma acção mais severa do editor sobre o manuscrito (excluindo à partida, naturalmente, a persecução de outros objectivos menos legítimos). A história editorial dos clássicos modernos está repleta de casos semelhantes ao de Carver e de Beginners / What We Talk About When We Talk About Love. Porém, este — empolgante na perspectiva do editor, do estudioso e do leitor, angustiante na do escritor — distingue-se dos demais por ser uma história que acaba onde começa e que começa com a palavra de Carver. Agora, em Beginners, como no início, menos cirúrgica, mais voluptuosa, mais cheia de seiva, mais imperfeita. Justamente, menos carveriana.

De que falamos, afinal, quando falamos de Carver?

Com a recém-publicada edição de O Que Sabemos do Amor (título que se atribuiu em Portugal a Beginners), e com uma nova tradução de De Que Falamos Quando Falamos de Amor (a publicar até ao fim de 2010), ambas pela Quetzal Editores, o leitor saberá.

(*) Lúcia Pinho e Melo nasceu em Aveiro. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e começou a trabalhar com livros em Frankfurt, no Centro do Livro e do Disco de Língua Portuguesa. Antes de se dedicar exclusivamente à edição, fez traduções em regime freelance e deu aulas de Português. Foi gestora de direitos estrangeiros e coordenadora editorial da revista A Phala, na Assírio & Alvim, onde também fez trabalho de edição e leitura de manuscritos. Foi editora de autores portugueses na Bertrand Editora e é, actualmente, editora na Quetzal Editores.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 14/Abr/10
Qua, 14/Abr/10
VICIOS Y VIRTUDES,
por Héctor Abad Faciolince (*)

He comprobado a lo largo de la vida que si uno persigue pulir sus virtudes con un celo excesivo, puede volverse un moralista insoportable. Y lo mismo al contrario: hay que tener cuidado de no combatir con demasiado ahínco los propios defectos, porque estos tienen su gracia escondida. Uno es mal juez de sí mismo, pero pensemos en esto: nuestros amigos más queridos, sin los defectos que les son característicos, perderían la mitad de su encanto. ¿Qué queda de Juan sin su loca hipocondría, de Pepa sin sus celos, de Carlos sin su vanidad? Un bulto amorfo y vacío. Lo que somos, lo somos también, y en buena medida, por nuestros defectos.

El que tenga un defecto, que lo cuide. He conocido personas que, de tanto vapulear su vanidad, se quedan sin amor propio. Mujeres que por domar su gula con demasiado esfuerzo, han terminado anoréxicas, y otras que a fuerza de vigilar su concupiscencia se volvieron frígidas. Conozco también avaros que por temor de serlo llegaron a ser manirrotos y todo lo perdieron. Es más: avaros y manirrotos no son otra cosa que manirrotos y avaros en potencia.

Todo aquello que la moral de las virtudes persigue y el terrorismo de los defectos abomina, puede ser visto de distinta manera. La tendencia de alguien a ser lento e inactivo no es necesariamente pereza y abulia: puede verse como la actitud de alguien que no está interesado en la desenfrenada competencia del mundo y prefiere marginarse y sumirse en una inoperante paz espiritual. La misma a la que llegan ciertos santones a quienes mucho se admira porque parecen meditabundos, y en realidad dormitan.

De tanto querer ser sabios, algunos eruditos se vuelven pedantes, pedorros de citas, siempre en esa insufrible actitud docente en la que creen que todo conocido, amigo o amante no es otra cosa que un alumno. De tanto perseguir la indudable virtud del conocimiento, hay sabihondos que se vuelven insufribles. Y lo mismo se puede decir de la verdad: los que exageran con ella, los héroes de la sinceridad, son una amenaza para la convivencia pacífica.

El orden y la limpieza son saludables, sin duda, pero quién no conoce enfermos de orden y maniáticos de la higiene que convierten en un calvario la vida cotidiana. Yo siempre he sospechado que los que mucho se lavan no son otra cosa que sucios intrínsecos que añoran con denuedo una limpieza que nunca alcanzarán. Sospecho de los puros, de los limpios, de los que hacen alarde permanente de su apego a la moral y a la verdad. Ahí mismo pienso en lo contrario. No hay que exagerar, pero prefiero un toque de olor en la axila al inodoro sobaco de un maniquí viviente.

El perfeccionismo puede ser un defecto grave. No hace mucho los ingenieros de ferrocarriles japoneses hallaron una estadística preocupante: sus trenes se descarrilaban mucho más que los trenes europeos, sin motivo aparente. Al fin hallaron la respuesta en la excesiva precisión de su cultura: los durmientes estaban puestos a una distancia precisa, al milímetro, y lo mismo los espacios que se dejan entre los rieles para efectos de dilatación. Pues bien, estas distancias perfectas producían al pasar de los trenes una especie de resonancia que hacía que todo el hierro vibrara al unísono, hasta salirse de su sitio. Ya lo ven, no hay que renunciar a todas las imperfecciones ni a todos los defectos. Nos ayudan.

La perfección, dijo alguien, es una tentación luciferina. Conozco muchos escritores que no escriben, atormentados por la incapacidad de soportar el peso de sus defectos. Lo primero que hay que aprender a soportar cuando se escribe, cuando se emprende cualquier actividad artística, es el destino inevitable de la imperfección. Eso es lo humano y así nos crearon los dioses que no existen: tan imperfectos como ellos. A imagen y semejanza de lo posible. Los padres o profesores que persiguen hijos y alumnos perfectos, producen monstruos. Hay que tener el valor de convivir con los defectos propios, y con los ajenos. Y también el valor de no buscar ser, a toda costa, un dechado de virtudes que, a la larga, es más bien un duchazo de antipatía.

(*) Héctor Abad Faciolince nasceu em Medellín, na Colômbia. Viajou para Itália, depois de ter sido expulso da Universidad Catolica de Colombia (por causa de um artigo contra o Papa). Regressou à Colômbia em 1987, ano em que os paramilitares assassinaram o seu pai. Alvo de ameaças de morte, refugiou-se novamente em Itália, antes de regressar à Colômbia, onde iniciou a sua carreira de escritor. Publicou quatro romances, e a sua obra está traduzida para inglês, alemão, grego e português.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 12/Abr/10
Seg, 12/Abr/10
ESTE LIVRO E NÃO OUTRO,
por Margarida Ferra (*)

Todas as noites, em frente à estante, tento convencer os meus filhos a lermos determinado livro e não outro. A escolha é negociada em plenários familiares, cheios de argumentos e razões. Para o rapaz, é importante que nas histórias não entrem lobos (mesmo que sejam a fingir) ou ursos (mesmo que sejam bons). Para a rapariga, pode ser essencial que o livro tenha o seu nome escrito algures, que tenha qualquer coisa cor-de-rosa, que seja uma história que não contamos há muito tempo ou uma que já decorou. Tudo depende da noite. Para mim, geralmente o que importa é que seja uma história curta, e só uma, uma, perceberam bem?, amanhã há mais.

Esta é a linha final da vida dos livros, a estante: o último lugar que lhes foi destinado e onde, mais uma vez, lado a lado com outros volumes, são escolhidos e lidos ou preteridos e esquecidos. Até aí, houve todo um percurso de argumentos, razões, listas de pontos fortes, discursos inflamados sobre livros que alguém leu, dirigidos a alguém que se quer convencer a fazer qualquer coisa com esse mesmo livro.

Nesta corrente de persuasão, cabe-me ser convencida pelos editores de que este livro é o melhor entre muitos, por isso o publicamos. Vou ouvindo falar do livro enquanto se compram direitos e se planeiam os próximos meses de edição, leio qualquer coisa na imprensa estrangeira, sou interrompida por uma editora encantada que me lê alto passagens na língua original (quando pode), ouço-a falar ao telefone com o tradutor, explicar-lhe de que livro se trata e porque é ideal para ser traduzido por aquela pessoa, ouço-a deleitar-se com o texto em português, interrompe-me para me ler algumas passagens, elogiar o tradutor. Vejo depois o revisor entrar no escritório com o saco das provas revistas, o Carlos ou o Leal ou o João a discutirem com a Lúcia os detalhes, as opções, as longas investigações motivadas por uma palavra duvidosa.

É mais ou menos nessa altura que procuro ler o que ainda não li sobre o livro, espreito o original (quando posso), espero pacientemente pelo PDF final. E vou falando dele a quem escreve sobre livros, deixando umas notas no Facebook, talvez no blogue, e mails, muitos mails, a explicar que o autor vem cá, porque já tínhamos falado do livro ao Francisco Guedes, à Manuela Ribeiro, que se interessaram também pelo autor, pelo livro novo que vamos publicar e que sim, que tem tudo a ver com as Correntes D’Escritas, vão ver se o podem receber. Procuro, então, as palavras certas para explicar aos jornalistas que o livro é sobre isto ou aquilo, que interessou a este, que dele se disse que. Procuro o jornalista a quem me parece que poderia interessar mais o livro, o que mais se podia motivar a escrever sobre ele. Se o encontrar, falo-lhe do livro. Se forem muitos livros os que me parece que poderiam interessar-lhe, talvez seja melhor encontrarmo-nos para lhe entregar os exemplares, que entretanto já recebemos. E levo comigo essa sensação que me ficou de quando chegaram as caixas, eu, já tomada pelo entusiasmo alheio e pelo meu próprio, fui outra vez surpreendida pelas capas, agora posso tocar-lhes, e aprecio-lhes a temperatura (sempre frios, frescos, um grau de que me lembro ainda do tempo das livrarias, quando chegavam as caixas das novidades).

Depois, há vidas com sorte, posso conseguir estar presente no momento em que o autor vê o livro pela primeira vez. Ver-lhe o olhar de espanto, o modo como gosta ou duvida da capa, como pergunta, a medo, se a tradução está boa, o sorriso cúmplice quando descobre a vinheta. Ou oiço ao longe o telefonema do Francisco a chamá-lo, dizer-lhe que já cá estão os exemplares, ou simplesmente chamá-lo com um outro pretexto só pelo prazer de o surpreender um pouco mais. Ou enviamo-lhes os livros pelo correio, se moram longe, e posso ficar à espera do e-mail, desejando que, desta vez, o José Rentes de Carvalho goste tanto quanto do livro anterior e que não termine a mensagem sem me convidar, mais uma vez, para ir a Trás-os-Montes, quase me ameaçando a vir a Lisboa buscar-me por um braço, a mim e à Quetzal em peso, por todos os braços, se não formos lá ver ao vivo como é o cenário de Ernestina.

E todos os dias chego a casa, os banhos, os desenhos animados, o jantar, talvez no meio disso ainda um livro, e depois a hora de ir para a cama. As crianças gostam de rituais e um deles é precisamente o plenário da biblioteca: Que livro vamos ler hoje? Tem lobos? Tem ursos? Tem cinta? Vai ter montras? É cor-de-rosa? É em estrangeiro? Sabes de cor? Por favor, só um, tento convencê-los e escapar aos argumentos deles, atirados com um entusiasmo que não conseguirei igualar na manhã seguinte.

(*) Margarida Ferra tem 32 anos e é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou numa pizzaria, num jornal, numa galeria de arte contemporânea, em duas livrarias e no Palácio da Ajuda. É responsável, desde Janeiro de 2009, pela área de comunicação da Quetzal Editores.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 9/Abr/10
Sex, 9/Abr/10
RECURSOS HUMANOS E LITERATURA,
por António Manuel Venda (*)

A ideia não foi minha, foi de quem promoveu a edição deste conjunto de artigos; deram-me um mote, «o autor como um recurso humano». Para a maioria das pessoas que possam vir a ler este texto, devo explicar porquê. É que, apesar de eu escrever histórias quase sempre do campo, e cada vez mais histórias que se passam pelo campo à volta da minha casa — de onde, por mais alta que seja a árvore a que se suba, não se avista outra casa —, apesar disso, tenho alguma ligação a coisas, digamos assim, mais cosmopolitas. Os meus estudos andaram bem longe das Letras, em Gestão de Empresas, e o trabalho levou-me a ser director de uma revista nesse âmbito e, mais tarde, a criar a minha própria revista. E esta revista nem foi pelo tema generalista da gestão, centrou-se apenas numa das áreas, a que diz respeito à gestão das pessoas nas organizações, vulgarmente conhecida por gestão de recursos humanos.

Ou seja, o mote surgiu desta minha história complicada. De qualquer forma, em termos de gestão de recursos humanos, nunca se falaria de um autor como «um recurso humano», tanto mais que a expressão nunca é aí usada no singular. Nem por certo se usaria uma expressão ainda mais em voga, «capital humano», ou a versão inglesa (human capital), que muitos dos portugueses da área estranhamente preferem (há consultoras com departamentos não de «capital humano» mas de human capital, assim como executive directors em vez de «directores executivos», e por aí adiante). Explico… No meio editorial, se falarmos de recursos humanos ou de capital humano — pela lógica da gestão de recursos humanos —, referimo-nos às pessoas que lá trabalham; nas editoras, nas gráficas, nas distribuidoras, nas livrarias… Se nos centrarmos numa editora, serão as pessoas dessa mesma editora, ficando os autores de fora. Por aí, nunca os autores apareceriam como recursos humanos, nem sequer como uma outra coisa de que agora tanto fala quem está ligado a gestão de recursos humanos: o talento. Um talento seria uma pessoa muito importante das que trabalham na editora, um editor que conseguisse publicar livros geniais, com resultados fantásticos, um designer que fizesse capas fabulosas, um revisor capaz de transformar um livro cheio de erros numa obra-prima.

Os autores estão mesmo fora. Outra área que não a de recursos humanos poderá acolhê-los, mas a verdade é que eu nem sei bem qual possa ser. Se pensarmos no caso do futebol, aos jogadores agora chama-se activos, apesar de alguns serem absolutamente passivos, como se percebe recordando determinadas contratações do meu clube, o Sporting, nos últimos anos (Purovic, Farnerud, Caicedo, Angulo…).

Por falar em futebol, lembro-me de uma reportagem publicada na revista que referi no início, uma reportagem com o Benfica, em que também entrava a respectiva directora de recursos humanos. Para as centenas de funcionários, havia muito trabalho a fazer, mas notava-se que esse trabalho não chegava aos futebolistas (que eram também eles funcionários, enquanto os autores não o são nas editoras). O que estava definido no clube, por exemplo, em termos de recrutamento e selecção, formação, avaliação de desempenho, sistemas de compensação (alguns aspectos tradicionais da gestão de recursos humanos), era para todos os funcionários excepto os atletas. Não chegava aos futebolistas, como nas editoras não chega aos autores. Nem se justifica, nem eles provavelmente haveriam de querer.

Desculpem maçar-vos com isto.

(*) Nasceu em Monchique, em 1968. Publicou nove livros de ficção, sendo o mais recente o romance Uma Noite com o Fogo. Destes, alguns receberam prémios literários de instituições como o Instituto Abel Salazar, o Centro Nacional de Cultura, a Câmara Municipal de Almada, a Secretaria de Estado da Cultura e a Sociedade Portuguesa de Autores. Mantém inéditos dois livros de histórias (O Bilhete do Senhor Scolari e Políticos, Esses Animais) e uma primeira aventura de um pequeno super-herói chamado Zeca Zângão (Mandriões na Roda Gigante). Trabalha actualmente em diversos projectos de ficção. Vive no Alentejo e escreve no blogue Floresta do Sul.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 7/Abr/10
Qua, 7/Abr/10
LOS IMPRECISOS LÍMITES DEL INFIERNO,
por Milton Fornaro (*)

Hay algunas historias que, en verdad, parecen no tener principio. Estos sucesos podrían calificarse utilizando casi sin variantes la frase que, desde las paredes del pueblo, anunciaba la apertura de un night club: «El espectáculo comienza cuando usted llega», se puede leer todavía, no sin esfuerzo, en los desvanecidos carteles.

Cada uno de los conmovidos pobladores ha inventado un punto de partida diferente, y todo parece confundirse en los relatos diversos que han surgido. «Los hechos», dijo el Ciego Borges, son meros puntos de partida para la invención y el razonamiento». No necesitábamos, el Escribano Olivera y yo, de esa frase, que oímos acodados en el mostrador sobre el cual el Ciego pasaba un paño mugriento, para convencernos de la necesidad de marcar un inicio convencional a lo ocurrido. Esto lo comprendimos cuando nos dimos cuenta de que la tarea de establecer los antecedentes nos llevaba mucho más allá de los hechos. Que, en definitiva, la búsqueda contribuía a confundirnos más. Para nosotros, pues, la historia se inicia cuando el Doctor Soto entró en la misma.

1

El repiquetear del teléfono sonó lejos, amortiguado por las paredes. Los timbrazos, inquietantes allá abajo en la cantina, se apagaban dos pisos más arriba, en la pieza donde se jugaba al póquer. Llegaban confundidos con el murmullo de la veintena de socios que dejaba transcurrir la tarde del domingo, jugando al dominó o al billar en la planta baja del club.

Además de las frases imprescindibles dichas por los jugadores, a veces acompañadas por el choque de las fichas, en la pieza sólo se oía el traqueteo producido por el pesado ventilador, que movía el aire cargado y dispersaba los olores del encierro. El calor parecía desconocer las vueltas desganadas de las aspas sobre las cabezas en círculo. El juego atenuaba las molestias del calor, evidenciadas por las persistentes gotas, que eran barridas de rostros y cuellos por pañuelos cada vez más percudidos.
Ninguno de quienes estaban en la habitación atendía otra cosa que no fuera el póquer y la jerga adornadas por locuciones inglesas, mal pronunciadas pero entendidas por los presentes.

Si el Doctor Soto, que estudiaba los semblantes de sus tres contendores con miradas imperceptibles por sobre los caídos lentes, no tuviese en sus manos aquel doble par de ases con reyes, habría podido medir justamente el instante vivido. Por su doble condición de profesional: médico y jugador, Soto era el único de los presentes capaz de comparar aquella pieza enrarecida con una aséptica sala de operaciones en el momento de una intervención quirúrgica. Sólo él percibía aquel tiempo de voces y silencios acompasados, de movimientos que marchaban con la respiración. Ni un músculo de su cara se contraía, ni el temblor se evidenciaba en sus dedos, cuando, con la misma maestría, dirigían el corte o sostenían en prudente abanico una escalera servida. Igualmente sereno extendía la mano, tanto para reclamar el instrumento necesario, como para tomar las fichas y dejarlas en el centro del tapete verde. Con la misma entonación decía «deme el pulso» o «veo los mil, y van mil más».

Los jugadores advirtieron que algo sucedía cuando oyeron los pasos taconeados en la escalera, y casi inmediatamente vieron la cara de Manuel, el mozo, asomando por la puerta entreabierta.

— Lo llaman por teléfono, doctor — avisó. — Parece que es de apuro.

— Averigüe quién es y qué quiere — respondió Soto, y, dirigiéndose a los que estaban en el juego, preguntó: — ¿Alguien va, señores? Subí a cinco mil.

Cuando Manuel apareció nuevamente, Soto levantó su mano derecha, e impidiendo hablar al mensajero tranquilizó a quien estaba sentado enfrente, diciéndole:

— Usted gana. Ahora sí, ¿qué pasa, Manuel?

Un camión atropelló a la hija de Quintana. Dicen que se está muriendo. Dicen que vaya de apuro al hospital. Dicen…

— ¿Qué más? — preguntó el médico, mientras recogía las fichas.

— Dicen que es una lástima, que es la más chica…

— Gracias, Manuel. Lo siento, señores, pero tengo que irme. La suerte me es adversa. —Y mirando al que contaba las fichas, advirtió: — Hay doce mil quinientos. Deme doce mil y estamos a mano.

El Doctor Soto salió detrás del mozo. Guardaba los billetes en un bolsillo del ajado pantalón cuando dejó el rellano y pisó el primer escalón para descender. Desde allí, apenas levantando la voz pidió:

— Manuel, búsqueme un taxi, por favor.

2

El barraquero Álvaro Quintana, don Álvaro para casi todos, aguardaba noticias sentado en una de las tres sillas metálicas de la sala de espera del hospital. Sus manos trataban en vano de peinar sus desordenados cabellos. Por instantes, la cara quedaba al descubierto, mientras los ojos acechaban la única puerta de la sala. Aquellos movimientos de pájaro apedreado fueron intensificándose con el paso de los minutos. Habían comenzado cuando llegó al hospital y se encontró con el rostro petrificado de Ingrid, su mujer. No hubo necesidad de palabras entre ellos.

A Ingrid el policía que le llevó la noticia la encontró en su casa. A don Álvaro tuvo que buscarlo e interrumpirle la siesta que compartía con Dorita, una ex-empleada de la barraca.

Mientras Quintana maldecía por lo bajo el instante en que, accediendo a los ruegos de sus hijas, compró la bicicleta con motor, Ingrid no dejaba de observarlo con su mirada lacerante, apenas turbada por las lágrimas que borroneaban los ojos grises. La mujer había permanecido de pie, como cumpliendo una penitencia. Podría decirse que rezaba. En lugar de un rosario, sus manos estrujaban un pañuelo inmaculado. Inmóvil, parecía contemplar los helados paisajes de su niñez nórdica.

A Quintana le pareció más ridículo que nunca el único cuadro que alteraba la blancura uniforme de las paredes. La cara antigua de la enfermera recomendando silencio estaba de más. Tuvo deseos de descolgar el adefesio y estrellarlo contra el piso, para romper, precisamente, el silencio insoportable.

Por último, la puerta se abrió para dar paso al Doctor. Quintana fue el primero en abordarlo para, sin pausa, preguntarle todo lo que venía a su mente.

— Vivirá — dijo Soto, contestando a la única pregunta que el padre no se animó a formular. — Hemos hecho lo que estaba a nuestro alcance, pero todo depende del post operatorio. Deben ser fuertes.

— ¿Volverá a caminar? — la voz de Ingrid sonó destemplada. — ¿Volverá a caminar, doctor?

— No sé. El tiempo lo dirá. De milagro está viva.

Quintana cayó pesadamente en la silla que había abandonado. Ingrid lo miró con desprecio.

El Doctor Soto salió sin apremio, arrastrando los pies al caminar. Iba pensando en la última frase que dijo. No había esperanza, y lo supo desde que comenzó a operar.
De regreso al hotel, hundido en el asiento trasero del taxi que detuvo al comprobar que el calor no había aflojado, Soto trató de recordar la cara de la otra hija de Quintana. Frente a sí tenía todavía la de la niña accidentada. Una vez más, ratificó sus condiciones de pésimo fisonomista. Conforme con eso se dejó estar, mientras su abulia estuvo marcada por el ruido de las fichas del aparato taxímetro al caer. Era seguro que esa tarde terminaría en lluvia.

3

Los días siguientes confirmaron la mentira del Doctor al salir de la sala de operaciones. Susana Quintana, de doce años de edad (al decir del diario pueblerino), jamás se recuperaría. Su vida terminó realmente aquel domingo de tarde.

No es necesario en esta historia hablar de las virtudes de Susana. Es sabido que los niños, sobre todo las niñas, a los doce años son un dechado de dones. Que nada ni nadie puede ensombrecer las expectativas de quienes creen en las augurales posibilidades de los jóvenes. Y más si estos fervientes adoradores de imágenes son los padres.

Susana Quintana, que aun vive, luego del accidente quedó postrada. Más vegetal que animal, la niña nunca recuperó el conocimiento. Un botellón de suero día y noche vigilado fue, y es, su alimento. Quienes todavía hablan de este asunto, al llegar a esta parte del relato mueven invariablemente la cabeza y dicen: «Es cosa de no creer.» Todas las palabras que se nos ocurran serán insuficientes para expresar lo que significa dormirse y despertarse escuchando los ronquidos de algo que vive por el líquido viscoso que desciende a través de un tubo de plástico.

En alguna mal iluminada película proyectada en el cine del pueblo, hemos visto escenas de una truculencia parecida. Lo recordábamos con el Escribano Olivera al hablar de Susana Quintana. Es frecuente que, antes del final, quizá por un extendido pudor de los directores, estos despojos humanos expiren. «Esta vez», dijo el Escribano cruzando sus piernas flacas, «no contamos con la piadosa determinación del director». La niña, más cadáver que otra cosa, sigue viva. No murió en el primero ni en el segundo rollo. Y todos se acostumbraron a esperar el momento en que ya no fuera necesario el suero, sabiendo que la película seguiría rodando, aunque la sala estuviera vacía e iluminada.

Ingrid repartió desproporcionadamente su tiempo entre las dos hijas. Ana, la mayor, había heredado de su madre la cara de rasgos angulosos. Sus ojos también eran grises y, aunque nunca habían visto la nieve, parecían retener los destellos del sol sobre la superficie acerada. Susana, aparentemente, dormía un sueño plácido. Debajo de sus párpados hubo un par de ojos verdosos, que miraban como los de su abuelo, don Rafael A. Quintana, fundador de la barraca Quintana e Hijo, que en vida del viejo fue el negocio más próspero del pueblo.

Las ausencias de don Álvaro de su casa se hicieron más prolongadas luego del accidente. Antes de que transcurriera una semana alquiló habitación en el hotel y comenzó el traslado de sus pertenencias. Poco a poco, como descuidadamente, abandonó el barco con su pesada carga. Al mes, los únicos vínculos que mantenía eran las cuentas que invariablemente pagaba, y las visitas de Ana a la barraca o al hotel. Fue así que el Doctor Soto se acostumbró a verla en el salón comedor del Touring. La primera vez que la vio, almorzando sola y sonriendo al mozo que la colmaba de atenciones, no pudo separar esa imagen del ronquido al cual había quedado reducida la vida de su hermana.

Al principio, fue inevitable que recordáramos a Susana Quintana cada vez que veíamos a Ana. Creo que nuestra capacidad de olvido y la lozanía de la joven, la mayoría de los días enfundada por el azul del uniforme del colegio, terminaron por convencernos de la existencia de una sola hija de don Álvaro. Alejado del dolor, en la otra orilla del drama, diría el Escribano, algo similar le sucedió al padre, sin lugar a dudas.

Ingrid no volvería a salir de la casa. Los sólidos muros de piedra emparedaron la tragedia. Los que siempre fueron blancos postigos abiertos ante los ventanales de sobrias cortinas mostaza, se hincharon al pasar cerrados todo el invierno. De noche, oscura en el conjunto de los jardines iluminados del barrio residencial, la casona de los Quintana parecía un viejo animal herido que en las sombras intentaba proteger el resuello. La única que entraba y salía era Ana. El Doctor Soto fue diariamente durante el primer mes. Al ser innecesaria su presencia, espació las visitas hasta que, como don Álvaro, optó por alejarse para siempre. Ese fue el deseo incumplido, común a Soto y Quintana.

4

Una noche de conversación, cuando aun nos ocupábamos en hurgar los antecedentes que nos permitieran comprender, o al menos acercarnos a la comprensión cabal de lo sucedido, el Escribano Olivera aseveró: «No cabe duda de que fue una venganza largamente planeada, y ejecutada a la perfección.» Antes de que continuara hablando, le recordé al Escribano nuestro pacto de no abrir juicio sobre el hecho. Se disculpó sonriendo y luego movió la cabeza con el gesto elocuente de quien intuye la verdad final. Después, nos quedamos largo rato en silencio.

Unos ladridos lejanos inquietaron al cuzco del Ciego Borges. El animal se asomó a la puerta, ladró a la noche estrellada y, jadeante, se echó cerca de la mesa que ocupábamos. «Perro loco», murmuró el Ciego detrás del mostrador. Más fuerte, saludó: «Buenas noches, Doctor»; y a mis espaldas oí la voz de Soto. Adelantándose, el Escribano lo invitó a sentarse con nosotros, y a poco ya estábamos conversando de lo sucedido en la casona de los Quintana.

— En verdad, todo es muy raro — dijo el Doctor Soto, en tanto apoyaba sobre la descascarada superficie la copa de coñac. — A pesar de la truculencia y de todo lo que podamos decir, no es sin embargo un sinsentido. Pienso que es lo peor que he vivido en mis treinta y cuatro años de médico. Nunca creí, como aquella mañana, acercarme tanto al fondo de la existencia humana. Creo que me entienden. Es algo que se siente muy adentro de uno, y que nos deja confundidos. Tan absurdo como ir a color, hacer escalera real, jugarse todo lo uno tiene, y perder frente a otra escalera. Parece cosa de sueños, o pesadillas, mejor dicho. Ustedes los saben tanto como yo, sólo se pueden hacer conjeturas y nadie nunca sabrá la verdad. Pasará mucho tiempo antes de que don Álvaro se reponga. Ingrid está muerta. Sobre ella siempre fue poco lo que se supo. Todos la vimos cuando don Álvaro la trajo al pueblo. Él me contó que la conoció en la capital, y allí se casó. El pasaporte dice que era, creo, sueca o noruega…

— Detalles sin importancia, Doctor — interrumpió el Escribano. — Estamos convencidos — agregó, señalándome con la cabeza — de que la historia, o al menos el desenlace, empezó el día del accidente de Susana. Y sabemos también que no termina la mañana que usted recuerda, con los dos estampidos que despertaron a los vecinos de la zona residencial.

Soto aprovechó la interrupción para ordenar otra vuelta de coñac. Difícilmente podría aceptar la opinión de Olivera. No recuerdo si lo dijo, pero es evidente que el olor de la pólvora y la escena que descubrió en la casona de piedra, son para él los acordes finales. Aunque, eso sí lo sabemos los tres, esta vez ninguno de los músicos se levantará a agradecer los aplausos.

— Sí — consintió el Doctor ante una sugerencia del Escribano —, ésta es una historia armada por silencios. La fría mañana en que me dirigía hacia lo de Quintana, mientras el taxista me abrumaba con preguntas que no podía responder, iba pensando en los silencios. Precisamente en el mutismo de Ingrid, en esa manera callada de dejar pasar los días, que antes atribuí a su condición de inmigrante, y que luego justifiqué por el accidente y la actitud del marido. Iba pensando en eso en el coche, y a la vez agradeciendo, pues de haber estado en el hotel a esa hora, sin duda que me habrían despertado quienes fueron a buscar a don Álvaro. Habría sido de los primeros en llegar. Por suerte, digo ahora, estaba en el hospital cuando la policía fue al hotel. El conserje que me habló por teléfono tenía la voz quebrada, con esa expresión urgente y plañidera a la cual los médicos nos hemos tenido que acostumbrar. Dijo exactamente: «Doctor, sucedió algo horrible. Vaya a la casa de Quintana. La mujer mató a la hija y se pegó un tiro en la boca.»

En el taxi viajaba conmigo el practicante Álvarez. Le temblaban las piernas. En ese momento me di cuenta de la juventud de Álvarez. Después de aquella mañana dejó el hospital y se fue del pueblo. Hace dos años se recibió. En la carta que me escribió para darme la noticia hace mención a nuestro viaje hacia lo de Quintana, y habla de la despiadada condición humana.

El Doctor Soto hizo una pausa larga, bebió un trago de coñac que hizo durar en la boca, y repitió:

— La despiadada condición humana… Ese misterio se me metió, como el olor a pólvora en la nariz, apenas entré. Había gente en la casa. Alguien tuvo la feliz ocurrencia de ahorrarme el trabajo de tapar los cadáveres. Cuatro policías trasladaban los bultos hacia la camioneta que esperaba a la entrada. Las sábanas comenzaban a teñirse por la sangre. No tuve tiempo de detener a los camilleros, porque Álvarez, quien iba unos pasos más adelante, dejó caer mi maletín al enfrentarse a la puerta del dormitorio de las niñas. El muchacho estaba demudado, apenas de pie contra la pared del pasillo. Me acerqué. Primero oí el ronquido que me era familiar. Después descubrí a don Álvaro arrodillado junto a la cama de Susana. El vegetal seguía en el lecho. El padre miraba sin ver el botellón de suero que pendía casi lleno. Sus ojos interrogaban el inmenso vacío que se abría más allá de la ventana. No dijo nada hasta que lo ayudamos a incorporarse. Entonces preguntó: «¿Por qué?» Quienes lo rodeábamos nos miramos en silencio y ninguno pudo contestar nada.

Esa noche, después de oír el relato de Soto, ya no bebimos más. Dormido, el perro del Ciego se revolvía cerca de nuestros pies.

(*) Milton Fornaro nasceu em Minas, Uruguay. Foi co-director do Diccionario de la Literatura Uruguaya (1986), participou no romance colectivo La Muerte Hace Buena Letra (1993) e foi guionista de TV para o programa humorístico Plop (1991-1992). Foi co-fundador das revistas de humor El Dedo e Guambia. É autor de uma obra teatral, Coquita Superestar (1992), e de vários livros de contos, sendo os mais recentes Murmuraciones Inútiles (Prémio Nacional de Literatura 2005) e Querida Susana y Otros Cuentos (2007). Publicou também vários romances, dos quais o mais recente, Un Señor de la Frontera, foi finalista da edição de 2009 do Prémio Planeta - Casa da América.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 5/Abr/10
Seg, 5/Abr/10
TRECHO DA PARTE UM, CADERNO B, CAPÍTULO QUATRO DE TZIMTZUM!,
por Afonso Cruz (*)
Um cão pequenino, de pêlo crespo, corria atrás da cauda.

— Deus é como um cão atrás da cauda — disse o padre.

— Já sei. Quando nos voltamos, Ele já lá não está. Como a cauda dum cão — disse Moisés Kupka.

— Vejo que se lembra da conversa que tivemos no outro dia, mas agora a metáfora é outra, Sr. Kupka: é o infinito. Naquele movimento está o infinito. Um cão atrás da cauda é um tratado de Teologia, uma suma mais do que teológica, S. Tomás de Aquino que me perdoe. Um cão atrás da cauda é um movimento eterno, um rodar perpétuo até àquele lugar impossível que é Deus (para o crente) e a cauda (para o cachorro). Um homem, quando pensa caminhar, apenas roda sobre si mesmo. Já ouviu falar do Mevlana?

— O sufi que rodopiava? Rumi? — interrompeu uma das Rodrigues, a mais magra.

— Precisamente — confirmou o padre. — Rodopiava para estar com Deus e pôs os seus discípulos todos a dançar assim, para também eles estarem com Deus. Na verdade, todos os homens rodopiam. Pensam que vão a direito como uma régua, mas andam às voltas, dão voltas em torno de si mesmos. Todos procuram a sua cauda. Não passamos de ouroboros, aquelas serpentes que, como as pescadinhas, engolem o próprio rabo. Sabia, Sr. Kupka, que Friedrich August Kekulé von Stradonitz sonhou com uma serpente destas? Foi graças a tal onirismo que chegou à forma do anel de benzeno. Sabe o que é o anel de benzeno? É um sufi a rodopiar sobre si mesmo. É c6h6, um hidrocarboneto. A sua estrutura molecular foi descoberta porque Kekulé sonhou com uma serpente em 1865. Não precisava de ter sonhado com ouroboros para chegar a uma conclusão tão evidente, bastava olhar para o modo como um cão persegue a cauda e descobriria a estrutura molecular do benzeno, bem como vários outros mistérios divinos de muito maior relevância. O Sr. Kupka, quando viaja, não faz senão o mesmo que este cão que vê aqui a perseguir o rabo. Dá voltas pelo mundo para se ver a si e, quando não consegue, volta a tentar, viaja mais. Anda atrás da cauda. E reafirmo: tudo o que nós, seres quase humanos, procuramos é a nossa própria cauda.

— Deus, para o crente — rematou a Rodrigues mais gorda.

— Isso, isso. Andamos todos em órbita de nós mesmos à procura duma porta que nos leve para dentro da nossa alma. Procuramos entrar dentro de nós, mas é um mundo que nos está vedado.

— O bacalhau está uma delícia — comentou o Sr. Rodrigues.

— Uma delícia — corroborou a priminha. Mas ninguém a ouvia.

O cão continuava a rodar sobre si mesmo, como o dervixe persa, o Mevlana, e, segundo consta, o anel de benzeno.

(*) Nasceu em 1971 e é autor dos livros A Carne de Deus (Bertrand, 2008) e Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal, 2009). Também é músico (da banda The Soaked Lamb), ilustrador, e realizador.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 31/Mar/10
Qua, 31/Mar/10
DIAS DE ANTIOQUIA,
por Eduardo Pitta (*)

De um modo geral, os encontros de escritores, e os festivais de poesia em particular, são como os pratos de nouvelle cuisine. Visto o primeiro, estão todos vistos. Na Europa, o padrão é quase sempre melancólico. Presumo que nos Estados Unidos e no Canadá não ande longe disso.

Em contrapartida, na Colômbia, é uma experiência para a vida.
Durante anos, mais de 15, ouvi falar do Festival Internacional de Poesia de Medellín como de um rito de passagem. Amigos foram e voltaram com relatos de episódios homéricos. Entre eles, Ana Luísa Amaral e Nuno Júdice.

O festival leva a Medellín, todos os anos, dezenas de poetas do mundo inteiro. Em 2008, o «meu» ano, éramos 74, sendo colombianos 14. Da Coreia do Norte ao Uruguai, dos Estados Unidos ao Malawi, das Filipinas a Cuba, sem esquecer uma forte representação europeia — Alemanha, Espanha, Estónia, França, Irlanda, Noruega, Países Baixos, Suécia e outros —, a 18.ª edição do festival acolheu representantes de 54 países.

O colombiano Fernando Rendón, director da revista Prometeo, é quem gere a máquina infernal. Sob os seus ombros, a responsabilidade de garantir a segurança e o prestígio do festival, na cidade que viu nascer Botero. Verdade que Medellín não é mais o feudo de Pablo Escobar ou qualquer outro chefe de cartel, mas continua sendo uma metrópole perturbante, mesmo sem o traço grosso dos romances de Fernando Vallejo ou do filme que Barbet Schroeder fez a partir de La Virgen de los Sicarios (1993). Tudo pode acontecer naquele importante centro industrial e cultural cuja área metropolitana tem perto de seis milhões de habitantes. Se há sítio onde a Guerra dos Mil Dias (1899-1903) deixou sequelas, esse sítio é Medellín, segunda cidade do país. A querela entre liberais e conservadores prolonga-se hoje na cumplicidade velada ou no combate declarado às temidas FARC, que mantêm o terror em extensas zonas do sul, junto à fronteira com o Equador. A guerrilha de rua foi extinta, mas o impressionante número de «desaparecidos» não é de molde a tranquilizar ninguém.

Nenhuma surpresa, portanto, se confessar a inquietação que senti ao receber o convite de Fernando Rendón, lenda viva no milieu da literatura de causas, inimigo jurado da Direita colombiana, que todos os anos tenta, sem sucesso, associar o festival à lavagem de dinheiro das FARC. Em 2008, coube a dois poetas com colunas na imprensa de Bogotá, Harold Alvarado Tenorio e Eduardo Escobar, orquestrar a campanha mediática contra a Izquierda Asesina e os «convidados estrangeiros da Internacional Comunista». Sendo público que a organização recebe subsídios do Governo e apoio do presidente Álvaro Uribe, membro destacado da oligarquia dominante, a fronda destina-se a consumo interno (da corporação literária, entenda-se). Até a New Yorker, em artigo de Yvette Siegert, que acompanhou o festival, achou as acusações ridículas. E o holandês Bas Kwakman, director do Festival de Roterdão (e um dos mais reputados especialistas em Fernando Pessoa), fartou-se de rir com a cena dos «estrangeiros comunistas». A mim também já me chamaram muitas coisas, mas isso foi a primeira vez.

Impedido, por razões pessoais, de permanecer a semana toda do outro lado do Atlântico, cheguei a Medellín ao terceiro dia do festival e fiquei até ao fim. O Instituto Camões pagou 40% do valor do bilhete de avião, a Prometeo pagou os outros 60%, mais o hotel, refeições, deslocações na cidade, pocket money (o equivalente a 300 euros), tradutor e «leitor». Tudo muito eficiente, sem falhas. Mais: com grande e natural afabilidade por parte do staff da organização, constituído por rapazes e raparigas ligados ao ensino universitário e ao meio cultural. Quase todos falando um inglês irrepreensível. O tradutor designado para me acompanhar foi desviado para outras tarefas, uma vez que o meu portunhol foi unanimemente considerado perfeito.

A viagem de ida durou cerca de 20 horas, escalas incluídas, entre Lisboa, Madrid, Miami e Medellín. Cheguei à Colômbia às 11 da noite, quando eram quatro da manhã em Lisboa. Medellín tem dois aeroportos, o doméstico e o internacional. Desembarquei no segundo, mal equipado e pior iluminado, onde a primeira coisa que vi foram retratos (120 cm x 80 cm) de traficantes de droga e dos membros das FARC mais procurados. Nas salas e galerias de passagem, um polícia armado a cada dez metros, um cão para cada dois polícias, semblantes carregados. O europeu Schengen fica com vontade de voltar ao ponto de partida. Súbito, a «organização» toma conta de nós. Cada poeta convidado tem direito a tratamento VIP. Ninguém toca na nossa bagagem. Ao fim de meia hora, estou sentado num confortável jipe Hummer para passageiros, na companhia de Alexandra e Johnny. A cidade fica a pouco mais de uma hora, com dois checkpoints no trajecto.

É quase uma da manhã quando entro no hotel. Pela agitação, parece que são cinco da tarde. Um hotel com 74 poetas (deviam ser 76, mas os representantes do Brasil e da Itália desistiram da viagem), expressando-se em 28 idiomas diferentes, mais as equipas de acolhimento — tradutores, acompanhantes, honni soit qui mal y pense, funcionários da organização, fotógrafos e jornalistas —, é uma espécie de Babel. Fernando Rendón e o filho, Luis Eduardo, recebem-me no lobby. Querem que os acompanhe ao bar, mas vou directamente para o quarto. Afinal, estou há mais de 24 horas sem dormir.

No dia seguinte, ao pequeno-almoço, conheço o meu «leitor». John Viana é actor, um rapaz de simpatia desarmante, que trabalha numa dramaturgia do Livro do Desassossego. Fala da minha poesia como se toda a vida não tivesse feito outra coisa senão lê-la. Cita Pessoa com desembaraço. Nos dias seguintes, à margem da agenda literária, será o meu guia fora do perímetro «oficial». Foi ele que me levou aos municípios populares de Itagüí e Bello, à favela de Santo Domingo e também a Envigado, um subúrbio middle-class de fazer inveja à linha de Cascais. Santo Domingo, tida como das favelas mais perigosas do mundo até 2003, é hoje uma atracção turística por causa da Biblioteca Espanha (obra monumental de Giancarlo Mazzanti), a que se chega de teleférico a partir das profundezas do vale de Aburrá. Subindo as cordilheiras, o teleférico prolonga a linha do metropolitano, a maior da América Latina, única existente na Colômbia. Na sua companhia, conheci também o centro histórico: a famosa Candelária, basílica entalada numa rua estreita pejada de vendedores ambulantes; a Catedral Metropolitana, celebrizada pelo filme de Schroeder, situada no topo do Parque Bolívar; o Teatro Lido, um belo edifício art déco restaurado a preceito; o Museu de Antioquia, depósito da donación que Botero deixou antes de partir para o exílio europeu; a Passaje Junín, rua para peões que lembra Calcutá, etc. Na Passaje Junín, fica um café-restaurante de grande tradição literária, o Versailles. Almoço superlativo a qualquer coisa como 9 euros, para dois. O Museu de Antioquia inclui o melhor da obra de Botero, motivo de atrito permanente com os oligarcas, além de uma excelente representação de Débora Arango (a mulher que pintou os primeiros nus frontais, pagando cara a ousadia), Schnabel, Frankenthaler, Rodin, Manzù, Ernst, Katz, Matta, Tàpies, Barceló, Stella, Estes, Rauschenberg e outros. A menos de 100 metros do hotel, o trajecto para o museu faz-se por um «corredor» entre a avenida Greiff e a rua Calibio, no sentido da Carabobo, ladeado por esculturas monumentais de Botero. Em extremos diferentes, a moderníssima zona de serviços, decalcada a régua e esquadro do modelo americano, e o elegante Poblado, o bairro dos condomínios de luxo, do comércio de griffe, dos hotéis das grandes cadeias internacionais, dos melhores restaurantes, dos colégios e clubes privados, enfim, a Medellín glamorosa. A antítese da lenda.

Não houve tempo para o Museu de Arte Moderna nem para o Parque de los Deseos.

Nos oito dias do festival, realizaram-se para cima de 100 sessões: as 96 que tiveram lugar em Medellín e mais 14 noutras cidades de Antioquia. Houve também um seminário de poesia. Em Medellín, os espectadores são às centenas em cada uma das 12 ou 14 sessões que se realizam por dia, em horário simultâneo. Nos saraus colectivos de abertura e fecho, são aos milhares. Eu sei que custa a acreditar. Não fui o único a ficar perplexo.

Como sempre acontece, o anedotário é de regra. Por exemplo, na sessão de encerramento, no Teatro Carlos Vieco (auditório ao ar livre em forma de teatro grego, com 5000 lugares em anfiteatro), completamente lotado, tendo em vista a participação dos 74 poetas, ficou estabelecido um único poema por poeta. Como a maior parte dos poemas obriga a duas leituras, a primeira pelo autor, na língua original, a segunda pelo tradutor, em castelhano, a sessão dura perto de sete horas (das 16 até quase às 23 horas). Sobrevivi. Toda a gente respeitou, embora Eduardo Espina, do Uruguai, tenha lido um poema com 666 versos; Yolande Mukagasana, do Ruanda, tenha feito um speech de 40 minutos sobre a matança entre hutus e tutsis, na qual perdeu o marido, os três filhos e os irmãos; Andrei Khadanovich, da Bielorrússia, que não dispensou o número de circo, dando pinotes e invertendo a ordem de leitura (o tradutor primeiro, depois ele); e a fogosa Freedom Nyamubaya — uma mulher chamada Freedom não augura nada de bom —, do Zimbabwe, que entrou, levantou os braços e esteve mais de meia hora a dar gargalhadas roucas, levando a plateia ao rubro e pondo em risco a instalação sonora.

No lobby do hotel, territórios definidos. Hierática, a delegação da Coreia do Norte nunca se mistura. Os de África também não. Só Frank Chipasula, do Malawi, homem de humor muito fino, que me disse ter um filho a estudar em Maputo. Os europeus cada um na sua. Os do Báltico quase a pedirem desculpa de existirem, atordoados com o langor. O esloveno Brane Mozetic, activista gay, tradutor de poetas portugueses, mobilizando quem pode para a ronda da noite. Medellín não é Cáli, a Sodoma colombiana, mas candidata-se ao lugar. O sueco Henrik Nilsson, que viveu uns meses em Lisboa, e levou Sophia à Escandinávia, pergunta pelo estado da nossa literatura. Lina Zerón, do México, prefere o agit-prop. Participa comigo em duas sessões, é a preferida do público. A colombiana Isabel García, e seu marido, Armando Orozco, bem como a israelita Rachel Tzvia Back, são companhias constantes. O corrupio entre bibliotecas, casas de cultura, clubes privados, teatros, universidades, bares, parques públicos, etc., toma o tempo todo. No jardim de um country club de luxo, na penúltima noite, uma assistência elegante não arreda pé quando começa a chover. Abrem os chapéus e continuam a ouvir-nos. No fim, como de regra, vêm pedir autógrafos, comentar os poemas, fazer elogios. Não são os estudantes da Sala Beethoven (o teatro de concertos), são adultos sofisticados, entre os 30 e os 50 anos, que citam Creeley e Akhmatova com naturalidade. A noite acaba com Pinot noir chileno, entre a luz coada pelas palmeiras.

O regresso é atribulado. O avião tem partida marcada para as sete da manhã de domingo. É preciso estar no aeroporto com três horas de antecedência. Avisam-me: «O carro que o vai levar sai do hotel às 02h50 da madrugada. Esteja na entrada dez minutos antes.» Passa-se isto na noite de sábado para domingo. A clausura acabou perto das 11, segue-se o jantar de despedida, e depois um baile… A maioria dos poetas partirá à tarde, mas há o grupo madrugador: eu, a israelita Rachel Tzvia Back (que voa comigo para Miami), os cubanos Manuel Garcia Verdecia e Alex Fleites, além de Chiqui Vicioso, da República Dominicana. Todos temos de estar prontos às 02.40, o que significa que nem baile nem dormida.

A equipa de León não falha: partimos à hora marcada. Na noite escura estão talvez sete graus. O terminal do aeroporto desaparece na neblina. Tenho de pagar um imposto esquisito para deixar o país, qualquer coisa como 20 euros, uma fortuna em moeda local. O cansaço é alucinante. Adormeço assim que o avião vence os Andes. Só chegarei a Lisboa ao cabo de uma jornada de 29 horas consecutivas, porque a conexão em Miami é de seis horas. À chegada a Miami, um funcionário da Alfândega, de origem porto-riquenha, quer saber o que fui fazer a Medellín. Explico. O rapaz nunca ouviu falar de festivais de poesia. Revista a bagagem de mão e apalpa-me com salero.

Já do «outro lado», vou directamente para o Miami International, o hotel com acesso pelo piso 2 do Terminal E. Pausa para sms & gin tonic no bar da entrada. Depois, SPA no 8.º piso. Às duas, almoço no Top of the Port, vendo chegar e partir aviões em grande angular, num silêncio absoluto. Quando saio, falta menos de uma hora para embarcar. A bordo, reflicto na espantosa demonstração de vitalidade e profissionalismo da equipa Prometeo.

(*) Eduardo Pitta nasceu em 1949. É escritor, poeta, ensaísta, crítico, colunista da revista LER e autor do blogue Da Literatura. A sua obra mais recente é o livro de crónicas Aula de Poesia (2010).
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 29/Mar/10
Seg, 29/Mar/10
VOU LÁ CONHECER LEITORES,
por Manuel Jorge Marmelo (*)

Há que saber ver as coisas pelo lado bom que sempre têm. Mesmo o mais destrambelhado e discreto dos escritores beneficia da admiração de um pequeno grupo de leitores, nem que sejam a própria mãe, duas vizinhas viúvas, quatro amigos e um gato. As vantagens desta condição são bastante óbvias: conhecem-se os leitores pelo nome e pode conversar-se com eles, quando se vai comprar o pão, e abraçá-los e beijá-los muito amiúde (para além da companhia que imagino que um gato sempre faça).

Por muito que isso me contrarie durante o resto do ano, não me incomoda nada ser um escritor pouco lido nos quatro dias que duram as Correntes d’Escritas, da Póvoa de Varzim. Os poucos leitores que tenho mimam-me, ali, como se eu fosse um escritor a sério. Pedem-me autógrafos, dispõem-se a ouvir-me gaguejar e conversam comigo. Melhor do que isto só se conseguisse conquistar um leitor novo, coisa que, por incrível que pareça, às vezes também acontece.

Os escritores de verdade acolhem-me cordialmente como se eu fosse um entre iguais, o que, bem vistas as coisas, é o melhor testemunho do carácter tolerante das pessoas que se dedicam à literatura. São seres especiais, e isso nota-se perfeitamente nestas pequenas coisas, ainda que, à noite, no bar do hotel, se comportem como os mortais comuns. Contam anedotas, dão gargalhadas e bebem cerveja e vinho. Gente impecável.

Sinto-me, pois, um indivíduo muito bem-aventurado. A equipa que prepara e faz acontecer as Correntes trata-me com simpatia, e alguns fizeram-se meus amigos. Parece que apreciam ter-me por lá, uma vez que me convidam a regressar todos os anos. Eu resmungo (está-me na massa do sangue), argumento que já não sei mais o que dizer, que é quase pecado ocupar espaço no mesmo palco onde vão escritores de verdade contar belas histórias e dizer coisas inteligentes, que tenho um aparelho nos dentes e, por isso, sou capaz de me babar em público, o que não é particularmente bonito de se ver — mas a Manuela Ribeiro convence-me quase sempre a voltar à Póvoa.

Este ano, para me demover, tenho quase certeza que arranjou forma de conspirar com a única pessoa que poderia convencer-me, a qual, por gostar de mim mais do que provavelmente mereço, me diz coisas muito encorajadoras e bonitas, as quais chegam a persuadir-me de que sou capaz de ir às Correntes fazer alguma coisa minimamente aceitável. E, depois, a Manuela contou-me como um dos motoristas da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, o Joaquim, lê aquilo que eu escrevo, se deixa tocar e vai mostrá-lo a outras pessoas. Um sujeito enternece-se, não há como negá-lo.

Não sei o que lhes dá para me terem tanto afecto, mas eu gosto. Provavelmente é um defeito só meu e que não afecta os escritores a sério, mas, enquanto sujeito que escreve livros (e contribui decisivamente para a falência das editoras que o publicam), eu sou como um bebé que necessita de muito mimo e que lhe mudem as fraldas frequentemente. Careço de ter por perto os meus 15 ou 20 leitores, de ver-lhes os rostos e escutar-lhes as vozes, para saber que são de verdade, que existem realmente e que ainda não desistiram de ler o que escrevo, por muito tolo que isso me pareça durante a maior parte do tempo.

Regresso, pois, às Correntes uma vez mais. Os meus leitores são poucos, e eu conheço-os a (quase) todos. Tenho péssima memória para decorar nomes, mas não me esqueço dos rostos. E vão lá estar também os amigos, os que fui fazendo nestes dez anos. Hei-de abraçar todos. No ano que vem, se calhar, convencem-me a voltar. Como o Ruy Duarte de Carvalho, atravessando Angola para ir ao Namibe visitar os pastores macubais, cubro a escassa distância que vai do Porto à Póvoa com o sobressalto morno do reencontro antecipado. É bom, muito bom, ir lá conhecer leitores.

(*) Manuel Jorge Marmelo nasceu no Porto em 1971. É jornalista e estreou-se na literatura em 1996. É autor de vários romances — de entre os quais se destacam As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções (1999) e O Amor é para os Parvos (2000) —, volumes de contos e livros infantis, sendo presença assídua em colectâneas nacionais e estrangeiras. É o mais jovem biografado do Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX. Publicou na Quetzal Editores As Sereias do Mindelo.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 26/Mar/10
Sex, 26/Mar/10
BIBLIOTECAS VIVAS POR DENTRO (*),
por Sara Figueiredo Costa (**)

Depois da morte do autor e do fim da História, a morte do livro insinuou-se na fonte sensacionalista que alimenta as capas de jornais. Por cada aparelhómetro novo, uma certidão de óbito para os livros. E, vários aparelhómetros depois, os livros ainda por aqui andam, e o ritmo avassalador a que chegam novas espécies às livrarias não parece dar crédito aos coveiros do impresso. Mas a futurologia não costuma ser um exercício menos do que arriscado. Mais preocupante do que a morte dos livros perante o desfile de aparelhómetros é a relação que estabelecemos com os ditos aparelhómetros. E aqui, passa-se do risco da futurologia para o risco do ridículo. Paciência. Também as cartas de amor sofrem desse mal e já toda a gente sabe o que delas se disse em canónica letra de forma.

Evocar o contacto físico com as páginas impressas, o gesto de folhear, o cheiro a tinta nova ou a folha velha, tudo isso são coisas que entraram numa espécie de zona proibida no meio letrado, e quem delas se socorre para lamentar a hipótese do lento desaparecimento dos livros impressos leva com o rótulo de antiquado, nostálgico ou ridículo. Assim vai o mundo, há que ter paciência. Certo é que de gestos e rituais se fazem os crescimentos e as descobertas, e não creio que alguém que cresça a ler apenas em suporte digital estabeleça com a leitura a mesma relação que as gerações que o fizeram com papel encadernado entre mãos. Não discuto se é melhor ou pior, mas parece-me que não há muitas hipóteses de ser igual, sobretudo quando se observa que o importante na leitura digital é o admirável mundo da simultaneidade e do instantâneo (lê-se um parágrafo e salta-se para uma página da Internet, volta-se ao livro e passa-se para o trailer do filme respectivo), e não a concentração no texto único que se tem à frente.

O que assusta (o que me assusta a mim, mas vou manter o sujeito impessoal para parecer que assusta muita gente) quando pensamos sobre as mudanças de fundo que a leitura em suporte digital traz consigo não passa propriamente pelo formato ou pelas aplicações dos aparelhos, mas antes pelo modo como lemos. Aparentemente, tudo é semelhante: agarramos num objecto, olhamos para ele e deciframos as sequências de letras no ecrã. Uma diferença óbvia: com excepções muito concretas e limitadas, não podemos emprestar aquele livro a outra pessoa, a não ser que lhe emprestemos o aparelho. É uma ninharia? Não creio. Para além do nível pessoal, é importante recordar que as bibliotecas públicas emprestam livros gratuitamente (pelo menos por enquanto, pelo menos em Portugal). Como funcionará esse processo se só houver livros digitais? Obriga-se cada utente a ter o seu próprio aparelhómetro? E as bibliotecas, levarão elas a melhor sobre os vendedores de livros online, conquistando o direito de emprestarem livros? Não pode ser uma ninharia.

E a propriedade? Sem entrar em dialécticas, a ideia de uma biblioteca infinita à disposição de qualquer pessoa munida de um aparelhómetro pode ser bucólica e recheada de ecos borgesianos, mas será real? Saltando do ridículo para o apocalíptico, penso muitas vezes no que aconteceria se uma catástrofe marcial ou um conflito económico destruíssem o acesso aos servidores que alojam todas estas espécies virtuais. Esses servidores têm existência real e não são infalíveis, para além de precisarem de energia. Se algo falhar, para onde vai a biblioteca infinita? Claro que, se houver um incêndio, a minha biblioteca também arde, mas seria preciso um incêndio mundial para que todos os livros impressos ardessem, e aí também não devia sobrar ninguém para se lamentar... O que quero dizer é que, enquanto dominarmos as técnicas de feitura de um livro, asseguramos a preservação de milhares de conteúdos e a propagação de novos. E nem precisamos de energia, se ainda houver quem se lembre de como se compõe uma página com tipos de chumbo e se imprime numa máquina unicamente mecânica. (Eu, pelo sim pelo não, guardo um cavalete cheio de tipos e uma pequena máquina tipográfica, não vá o diabo ou a Google tecê-las, e pretendo continuar a aprender o ofício.) O quadro será exagerado, concedo, com algo de Fahrenheit 451 e uma teimosia em querer manter as lombadas à vista nas estantes, mas o entusiasmo frenético e incondicional em relação ao digital não deixa de me parecer um bocadinho irreflectido.

(*) Título do texto retirado de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.
(**) Sara Figueiredo Costa é colaboradora de diversas publicações, entre elas o Expresso e a Time Out, assinando crítica sobre literatura, banda desenhada e ilustração. Mantém os blogues Cadeirão Voltaire, onde escreve sobre livros e leituras, e Beco das Imagens, em co-autoria, onde escreve sobre banda desenhada e ilustração.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 24/Mar/10
Qua, 24/Mar/10
O ELO MAIS FORTE,
por Nuno Seabra Lopes (*)

As Correntes chegaram em 1999, pouco dias após termos tomado conhecimento da morte de Iris Murdoch e bem antes de as palavras «medo» e «terrorismo» se conjugarem em todos os idiomas, em todas as televisões. Foi então que o Francisco Guedes conheceu a Manuela Ribeiro e, com o apoio do vereador Luís Diamantino, viram aquilo que ninguém queria ver: existia espaço para criar uma utopia. Mas, ao invés de um sonho, criavam, de modo pouco inocente, uma doença de rápida disseminação, letal e transmissível pelo mais breve contacto.

Recordo-me que, nesse ano, não se falava das Correntes; vivia este mundo mais distraído com idiotias científicas, como o Y2K (ou bug do milénio) e coisas quejandas, pelo que poucos se deram conta do surgimento das Correntes, e ainda menos das suas consequências a médio prazo. Pessoalmente, foi nesse ano que comecei a trabalhar e, apesar de estar ali tão perto, no Porto, e de trabalhar aqui tão próximo, nos livros, descurei os avisos que certamente havia. Hoje só posso dizer que sou culpado, que não estava à espera.

Culpado, confesso e infectado. Incapaz de passar mais de um ano longe das Correntes sem que algo de tortura e sofrimento se conjugue em mim. Se tivesse que descrever os sintomas, diria, de forma atabalhoada, que existem palavras, das quais dependo desde sempre, que conseguiram sair do espaço privado que tenho entre os olhos e o cérebro e, de forma estranha, se materializaram e me envolveram como um vírus. Eu sei, a ideia é insuficiente e, confesso, algo parva. Mas é real, e parte do conceito de que só palavras conseguem substituir palavras, de que as palavras ditas e partilhadas da Póvoa têm o poder de ficar ao ar e permanecer nossas, privadas, disseminadas por uma multidão.

Além disso, sou egoísta. Gosto do sol invernal desta praia de Fevereiro, das ruas húmidas desta terra atlântica que conheço desde cedo, e gosto do olhar da gente poveira, que nos acolhe curiosa, como familiares vindos de universos invulgares que, talvez por essa razão, são atraentes para a normalidade da vida. Apesar disso, a minha ida à Póvoa ultrapassa um entendimento pessoal, que partilho com todos os que por lá caminham «acorrentados». Falo das Correntes e sei que falo de uma doença na acepção sentimental do termo, que troco palavras como radiografias entre todos vós, também adoentados.

Após sermos infectados, não mais se pode falar de retorno, só de doença e de recaídas. E assim recaio anualmente, como doente crónico vivendo a sua sezão predilecta, libertando o corpo das responsabilidades que esta doença acarreta. Como em todos os casos, estas Correntes são também malvadas e sabem ter a dimensão exacta, sabem que não podem permitir que cheguemos à exaustão e terminam perto da saciedade, despedindo-se com um sorriso maroto de quem sabe que, na fase posterior de acalmia, o corpo aplaca-se, mas a mente sente-se atormentada durante as 51 semanas seguintes.

Hoje, tendo passado a fase de recusa, cheguei à fase da raiva e digo que as Correntes acarretam em si uma parte sombria que nos amarra. O próprio nome o indica, e ninguém evita sequer dizer o contrário. Sei por experiência que, na Póvoa, todos se deslocam a horas impróprias, tentando tornar o normal em perfeito e o bom em mortal. Senti directamente a forma com que o Francisco, a Manuela e toda a equipa nos acolhem, com uma familiaridade que torna esta doença inevitável para tantos que por lá passam. O conluio é, julgo eu, maior do que o esperado, e todos para ele contribuem, da multidão que anseia inocentemente aquilo que todos têm para dar, a nós, que, manietados, só podemos dar o nosso melhor.

Resta-me aceitar a doença e inspirar a avidez do público, a descontracção deste espaço fora do tempo, esta luz difusa e romântica do Inverno na Póvoa. Sei hoje que, no ano em que se temia um bug informático, foi criado este vírus literário; que, num país onde poucos gostam de livros, muitos se deslocam aqui por eles; que, perto desta praia, existe uma utopia que infecta, anualmente e para toda a vida, gerações inteiras.

Nesta ilusão, acredito que tudo aquilo a que aspiramos é sermos quem somos, e que só nas Correntes D’Escritas isso se consegue, e por isso cá estou.

(*) Nuno Seabra Lopes é licenciado em Estudos Europeus, tem Especialização para Técnicos Editoriais e Mestrado em Estudos Editoriais. Trabalha desde 1999 no sector da edição, sendo Especialista Convidado do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É sócio-fundador da Booktailors e consultor editorial especializado nas áreas da edição e da estratégia.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 22/Mar/10
Seg, 22/Mar/10
A FORÇA DAS CORRENTES,
por Paulo Ferreira (*)

As Correntes D’Escritas, na Póvoa de Varzim, marcam de forma indelével o ano editorial. Após uma década em que se sucederam eventos, encontros, amizades, casamentos que se cumpriram (confissão do próprio Manuel Alberto Valente, editor da Porto Editora), as Correntes são o principal acontecimento literário português. Têm a alegria que falta às feiras do livro de Lisboa e do Porto e o reconhecimento de todos os profissionais.

Vai-se às Correntes e vive-se o espírito das Correntes. Vai-se às Correntes e sabe-se que se está a viver a rentrée literária. Nas Correntes, tudo parece fácil. As salas ficam repletas de gente, com temas nem sempre fáceis, e na Póvoa é tão fácil falar com muitos dos nomes que habitualmente vemos publicados nas lombadas dos livros como pedir uma bebida no bar, que fica aberto até tarde, e mais além. É uma cozinha de afectos, condimentada por muitos livros e autores, bem regada até às tantas.

A força das Correntes dá-se por um conjunto de factores que, embora óbvios para quem já foi lá, nunca é de mais salientar. Nas Correntes, assiste-se à vontade política de uma autarquia que se mostra empenhada na causa (fala-se com o vereador Luís Diamantino e salta à vista a alegria de ter tanta gente na cidade); nas Correntes, existem funcionários dedicados, que se desdobram para que nada falhe; nas Correntes, o cansaço de Manuela Ribeiro e Francisco Guedes — os verdadeiros obreiros de tudo — não nos desmotiva, porque é totalmente ultrapassado pelo sorriso que vem logo de seguida. Nas Correntes, protelam-se amizades e selam-se outras, com o espírito de que só ali se vive. Por isso, para mim, as Correntes não duram uma semana; duram 52. Porque o melhor das Correntes nem sequer é o que ali se vive. É o que fica para depois. E é longa a espera pela nova edição. Sei do que falo. Em 2009, ainda de malas na mão, fui apresentar-me à Manuela Ribeiro. Era a minha estreia. Ela sorriu e disse: «Vai gostar muito.» À despedida, depois de cinco dias de muita poesia (e não falo só dos livros) e de tanta coisa séria que mais parecia do domínio da ficção, respondi-lhe que sim, que tinha gostado muito.

Este ano, volto às Correntes e apenas desejo que tudo continue lá. A Póvoa de Varzim percebeu que a melhor forma de colocar uma cidade num mapa é exportá-la. É dizer ao resto do país que não é preciso estar no centro para nos considerarem essenciais. E as Correntes são isso mesmo. São essenciais para o público profissional, que vê ali uma janela do tamanho do mar para falar dos seus livros (falar de «produtos» não faz aqui sentido); para os autores, que têm uma hipótese de se encontrar com quem os lê, os critica, os divulga; para o comércio local e infra-estruturas adjacentes, que se dinamizam e se recriam em redor de uma ideia. No fundo, essencial para todos os leitores que percebem, olhos nos olhos, por que razão nem sempre o que está impresso nos livros é o mais importante.

(*) Paulo Ferreira é consultor editorial na Booktailors, da qual é um dos fundadores. Com a Pós-Graduação em Edição: Livros e Suportes Digitais da Universidade Católica Portuguesa, co-lecciona actualmente no mestrado de Edição da Universidade de Aveiro a cadeira de Marketing do Livro.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 19/Mar/10
Sex, 19/Mar/10
MEMÓRIAS CORRENTES,
por Francisco José Viegas (*)

A maior parte dos visitantes e participantes das Correntes D’Escritas enumerará o fundamental: que a Póvoa, durante esses dias, será uma bravíssima «capital da literatura». Reconheço que é verdade — fala-se bastante de literatura, de livros. Encontram-se escritores que não se viam há um ano e, em alguns casos, há dois. Já me aconteceu encontrar escritores que nunca tinha visto, além de ter encontrado pessoas que não sabia que eram escritores. Subscrevo tudo. Subscrevo um louvor à Câmara da Póvoa — ao presidente e ao vereador da Cultura. Sério. E, inevitavelmente, à incansável Manuela Ribeiro, mãe de todos nós (e amiga), e ao inesgotável Francisco Guedes. Também subscrevo um louvor à paciência de dois dos barmen do hotel onde ficamos alojados, o Vermar, que fornecem bebidas em abundância e compreensão a olhos vistos. Os elevadores do hotel também me parecem merecer uma palavra, porque trabalham com esmero e eficiência — além do estimado público, que vem do Porto e de Miranda do Douro, de Salamanca e de Viseu, de São Paulo e de Lisboa.

Das duas últimas edições, trago recordações literárias importantes, alinhadas entre as memórias dessa semana da Póvoa. Entre elas estão: quatro garrafas de Jameson, novo, e uma de Bushmills, malte; um saco de gelo usado para ilustrar a presciência do Jameson, e subtraído com codícia aos frigoríficos do bar do hotel, já fora de horas; o frio que os fumadores apanham no hotel, junto da piscina, à noite; 17 anedotas literárias ou académicas contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; quatro trocas de nomes de convidados, da responsabilidade de José Carlos Vasconcelos; o bigode de Leonardo Padura (não me refiro à barba); uma gracinha dita por Luís Fernando Veríssimo durante uma das cinco vezes (no total) em que experimentou falar; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de Mia Couto, e que o trocaram por José Eduardo Agualusa; uma peça de lingerie encontrada num corredor do 6.º piso, perto do quarto onde Daniel Mordzinsky tira as suas melhores fotografias; três anedotas de cariz eminentemente sexual contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 16 pacotes de Chesterfield esgotados por Carlos da Veiga Ferreira; uma edição da Playboy brasileira à venda no quiosque do hotel; o esparregado, as batatas salteadas, a salada de feijão e os ovos verdes do buffet do hotel; os chapéus de Manuel Rui; o ar de tédio do colombiano Santiago Gamboa ao pensar que está de regresso a Mumbai; cinco anedotas de motivo principalmente religioso contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; a inveja por uma das camisolas de gola alta de Almeida Faria; a inveja por José Manuel Fajardo, em geral e por um motivo em particular; a descoordenação motora e vocal de Isabel Coutinho durante os pequenos-almoços; o bigode (entretanto desaparecido) de Antonio Sarabia; o bigode (nunca desaparecido) de João Rodrigues; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de José Eduardo Agualusa, e que o trocaram por Mia Couto; os escritores galegos, quase todos, com quem é mais fácil partilhar aguardentes locais; Corsino Fortes, o único escritor vegetariano de Cabo Verde; seis anedotas essencialmente políticas contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 23 boatos escrupulosamente tentados por Manuel Alberto Valente; nove penteados diferentes de Ondjaki; Nuno Júdice dançando com Alice Vieira; a conferência genial de Héctor Abad Faciolince no ano passado; a conferência inaugural de Eduardo Lourenço no ano passado; seis vezes que adormeci durante as conferências; José Mário Silva, o mais dedicado dos jornalistas presentes; a troca de mensagens entre José Eduardo Agualusa e Mia Couto; 43 anedotas de temática açoriana contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; quatro autores que mudaram de editor durante as Correntes; uma aparição de Enrique Vila-Matas; duas sestas que dormi na varanda do hotel enquanto os meus colegas discutiam, empenhada e entusiasticamente, o devir da literatura, a importância da Língua Portuguesa, o silêncio das esferas e a vida estrepitosa dos escritores, creio que do Uruguai, mas não me lembro. Gostei de tudo.

(*) Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor. Multipremiado enquanto autor, desempenha actualmente as funções de director editorial da Quetzal Editores e de director da revista LER. Foi distinguido com o Prémio APE, pelo romance Longe de Manaus. O seu romance mais recente intitula-se O Mar em Casablanca.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 17/Mar/10
Qua, 17/Mar/10
NA CORRENTE, NAS CORRENTES,
por Pedro Vieira (*)

Caramba, é preciso um grande atrevimento para andar a glosar o Paredes (Carlos) e as Correntes (D’Escritas) no mesmo título, isto vindo de alguém com propriedade e presenças nos tops e pergaminhos reconhecidos ainda se tolera, mas neste caso estamos na presença de um extraterrestre que se prepara para dar um ar da sua graça de mochila às costas, sendo que a diferença (em relação a outros extraterrestres) é que dispensará o disco voador e chegará de veículo da CP, sempre é mais económico e o défice é o que se sabe, um extraterrestre que não procurará escravizar os humanos incautos nem pretenderá fundar uma religião para a qual se sintam atraídas as estrelas de cinema ibero-americanas, as de Hollywood já têm com que se entreter e o L. Ron Hubbard nem sequer foi convidado, outras línguas, outras Correntes, quando um com as suas, e estas decorrem na Póvoa de Varzim, local onde estive num par de ocasiões, e repare-se que abandonei o discurso na terceira pessoa (tenho pavor de ser confundido com um futebolista, embora estimasse muito a minha caderneta de cromos da época 1982/83 que trazia a estampa do Washington, central temível do Varzim SC cujo nome sempre me fascinou), dizia, à Póvoa já fui mas as recordações são difusas, estão ancoradas na primeira metade da década de 1980, altura em que parte das minhas férias de Verão eram passadas a norte na desconcertante praia da Apúlia, capital do mar gelado e areias negras e procissões ao sabor da maré, já para não falar na nortada, mãe, que toldos são aqueles enterrados no chão?, sem saber que aquelas famílias faziam parte do grupo dos avisados, gente que transportava sempre consigo os milagrosos guarda-ventos, quanto a nós era chicotada de meia-noite, para enrijar e formar o carácter e amaldiçoar o Verão à moda do Minho, mas eis que um dia alguém se lembra de guinar para a Póvoa (a avó, contrariada, gostava de estar em linha recta com a Braga natal) e eu cheio de fé na mudança, uma fé que se estilhaçou em dois tempos ante o mar tão grande, sai daí, Pedro, eu de corpito anafado de frente para as vagas, não podes ir ao banho, Pedro, e a areia a fazer lembrar berlindes, um gigantesco jogo do guelas, corta.

Noutra ocasião, uma visita para ver chegar o pelotão da Volta e eu que nem sequer sei andar de bicicleta, corta. Fast forward.

Com o passar dos anos, e já depois de dar o corpo ao manifesto no negócio do livro, a Póvoa começa novamente a povoar o meu imaginário, desta vez sem areia praça de touros casino mar cavado, as Correntes isto, as Correntes aquilo, fornadas de escritores a agruparem-se a 300 quilómetros de distância e eu a sentir uma inveja surda a crescer, é feio, não corresponde à minha formação cristã mas é humano como o catano, pardon my French como dizem os americanos, e a Internet que só piora as coisas, dos blogues então é melhor não falar, ufanos no retratar das mesas, dos lançamentos, das conferências, dos episódios pícaros (diabos me levem se algum dia vou esquecer o episódio da banana contado pelo Moacyr Scliar), as Correntes cada vez mais incontornáveis, aliás, as Correntes já dispensam adjectivações, as Correntes, ponto.

Na 11.ª edição estarei presente, de portátil à ilharga e mesa de desenho pronta a disparar, disposto a retratar um mundo que assusta e que fascina, um mundo encorpado, pejado de letras travessões histórias, de marés cheias de força, de vagas nas quais farei por mergulhar de cabeça. Não podes ir ao banho, Pedro. Isso é que era doce.

(*) Pedro Vieira, natural de Lisboa, livreiro, ilustrador e blogger, trabalha no grupo Almedina e é ilustrador residente da revista LER. Mantém o blogue pessoal irmaolucia e participa no blogue colectivo Arrastão. Está a escrever o seu primeiro romance, a ser publicado pela Quetzal Editores.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 15/Mar/10
Seg, 15/Mar/10
UMA CORRENTE DE TWEETS,
por José Mário Silva (*)

JoseMarioSilva @Blogtailors Pronto, Paulo. Já fiz o copy/paste. Convém só avisar as pessoas que devem começar a ler isto não pelo princípio, mas pelo fim.
less than a minute ago from web

Blogtailors Não me parece mal. Mas talvez “Uma corrente de tweets” fique melhor. PF
2 minutes ago from web

Manuela­_Ribeiro E o título sempre fica “Corrente de Tweets”?
3 minutes ago from web

JoseMarioSilva @Blogtailors Nem cinco minutos, Paulo. Uns dois. Três, no máximo.
4 minutes ago from web

Blogtailors Por mim, tudo bem. Desde que o texto venha no máximo dentro de cinco minutos. PF
5 minutes ago from web

Manuela­_Ribeiro Corrente de tweets é uma expressão engraçada. Até podia ser o título.
5 minutes ago from web

JoseMarioSilva OK. Então fazemos assim. O texto é este. Quer dizer: este thread de tweets. Esta corrente de tweets. Pode ser?
6 minutes ago from web

Blogtailors @JoseMarioSilva Qual é a parte da palavra deadline que não percebes? Não tarda muito, explicar-te-ei com gosto o significado de “dead”. PF
7 minutes ago from web

Manuela­_Ribeiro Mas tu não aprendes, Zé Mário? Já com a foto e a minibiografia que te pedimos foi a mesma coisa. Um castigo até enviares os ficheiros.
8 minutes ago from web

JoseMarioSilva @Blogtailors Está quase, está quase. Está mesmo quase.
9 minutes ago from web

Blogtailors Tanta coisa, tanta coisa, mas a verdade é que ainda não recebi o texto e a B:MAG tem que fechar. Em que é que ficamos? PF
10 minutes ago from web

JoseMarioSilva @OnesimoTA Essa também é uma boa ideia. Com um defeito: só vejo o Onésimo a passá-la para o papel com o humor e a ironia no ponto certo.
12 minutes ago from web

JoseMarioSilva @Fantasma_de_Bolano Conseguir isso seria muito bom. Mas se não tenho unhas para a ideia do Ondjaki, menos ainda teria para a sua.
13 minutes ago from web

OnesimoTA Eu por mim fazia uma coisa que fosse só uma sucessão de histórias engraçadas, anedotas, conversas de corredor. Resulta sempre.
15 minutes ago from web

Fantasma_de_Bolano Isto aqui é só conversa fiada. Coragem, coragem, era escrever o texto do meu ponto de vista. O ponto de vista de quem nunca lá esteve.
17 minutes ago from web

JoseMarioSilva @Ondjaki Fica com ela, Ondjaki. Eu não teria unhas para essa guitarra.
19 minutes ago from web

Ondjaki @JoseMarioSilva Não dizes nada? Olha, se não gostas da ideia, deixa estar. Fico eu com ela.
21 minutes ago from Echofon

Fantasma_de_Borges @JoseMarioSilva Um saque, é o que é. Já não há respeito.
22 minutes ago from web

JoseMarioSilva @Fantasma_de_Borges Eu diria antes uma homenagem.
23 minutes ago from web

Fantasma_de_Borges @JoseMarioSilva Vá chamar caríssimo mestre a outro. Sei muito bem que anda para aí a passar-se por Bibliotecário de Babel. Um descaramento.
23 minutes ago from web

JoseMarioSilva @Fantasma_de_Borges Isso são ciúmes? Olhe que não lhe fica bem, caríssimo mestre.
24 minutes ago from web

Fantasma_de_Borges Não percebo esta atenção toda que dão aos novatos. O rapazito Bolaño tinha talento, sim, mas houve quem viesse antes dele.
25 minutes ago from web

Ondjaki @JoseMarioSilva Então e se fizesses uma cena assim toda em verso? Uma espécie de epopeia lírica das Correntes? Parece-te bem?
27 minutes ago from Echofon

FranciscoJViegas @Fantasma_de_Bolano Parece que sim, caro fantasma. Embora preferisse tê-lo conhecido em carne e osso.
29 minutes ago from web

Daniel_Mordzinski @jpcuenca Gatinhas caminhando no Calçadão interessam-me. Tens o número de telefone de alguma?
31 minutes ago from web

Fantasma_de_Bolano Ouvi dizer que vou pairar sobre a próxima edição das Correntes. É verdade?
32 minutes ago from web

jpcuenca @JoseMarioSilva Nada disso. Basta vestir a camiseta do Flamengo e dar uma espreitada, da janela, às gatinhas caminhando no Calçadão.
33 minutes ago from Echofon

JoseMarioSilva @jpcuenca E passa como? Álcool, cafeína, estupefacientes?
35 minutes ago from web

FranciscoJViegas RT @Manuela_Ribeiro: “As minhas memórias são as dos outros.” Vou já anotar. Pode muito bem vir a ser o tema de uma das mesas, em 2011.
35 minutes ago from web

jpcuenca Eu sei bem o que você sente, Zé Mário. Às vezes, na hora de botar a crónica para fora, também fico assim meio vazio. Mas passa logo.
36 minutes ago from Echofon

JoseMarioSilva Então e as ideias para o texto? Ideias, ideias, ideias. É disso que eu preciso.
37 minutes ago from web

Ondjaki Olá meus irmãos, que saudades de vocês todos. Eu até ajudava mas estou aqui a escrever uns versos junto ao Farol. Já volto.
39 minutes ago from Echofon

Daniel_Mordzinski Já agora, pergunto: há por aí escritores que ainda não tenham sido fotografados por mim? É que vai sendo cada vez mais difícil encontrar um.
41 minutes ago from web

Daniel_Mordzinski Eu acho que para falar das Correntes D’Escritas não são necessárias palavras. A minha máquina e o meu olho chegam.
42 minutes ago from web

FranciscoJViegas @Manuela_Ribeiro Boa. É assim mesmo. Nada como adiantar serviço. Desde que não me coloques nessa mesa, tudo bem.
45 minutes ago from web

Manuela_Ribeiro “As minhas memórias são as dos outros.” Até soa bem, não soa? Vou já anotar. Pode muito bem vir a ser um dos temas das mesas, em 2011.
47 minutes ago from web

JoseMarioSilva Pois foi, Francisco. Bela enumeração. Fartei-me de rir.
47 minutes ago from web

FranciscoJViegas O que eu tinha a dizer, já disse ao Diário Digital (http://bit.ly/a28C9l), um texto que aliás citaste no teu blogue, Zé Mário.
48 minutes ago from web

OnesimoTA Olha, desta vez coube tudo. Se calhar é uma questão de jeito.
49 minutes ago from web

Manuela_Ribeiro Francamente, Zé Mário. Então precisas de vir para aqui buscar inspiração? Não te bastam as tuas próprias memórias?
50 minutes ago from web

OnesimoTA Outra vez? COMO SE NOS QUISESSEM CALAR. Não tenho paciência para esta gaita, amigo. Vai ter de se desenrascar sozinho.
50 minutes ago from web

OnesimoTA Então mas isto não dá para escrever nada? Um gajo ainda está a começar a dizer uma coisa e o botão do update fica logo bloqueado como se nos
51 minutes ago from web

OnesimoTA Ó meu amigo, estou sempre disposto a ajudar. E as Correntes lembram-me histórias giras. Como daquela vez que estava no Pico, e vi uma rapari
52 minutes ago from web

JoseMarioSilva Vou escrever um texto sobre as Correntes D’Escritas para a revista B:MAG e ainda não sei muito bem como pegar no assunto. Alguém tem ideias?
about 1 hour ago from web

(*) José Mário Silva nasceu a 2 de Março de 1972, em Paris (França). Frequentou a licenciatura em Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. É coordenador da secção de Livros do suplemento «Actual» (semanário Expresso), onde já publicava recensões literárias desde Fevereiro de 2008. É ainda colaborador permanente da revista LER. Publicou, até agora, três livros: Nuvens & Labirintos (poesia, Gótica, 2001); Efeito Borboleta e Outras Histórias (narrativas breves, Oficina do Livro, 2008); e Luz Indecisa (poesia, Oceanos, 2009). Escreve no blogue Bibliotecário de Babel.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 12/Mar/10
Sex, 12/Mar/10
ENCONTROS IMEDIATOS,
por Luís Ricardo Duarte (*)

Ele estava ali, sozinho, à hora do pequeno-almoço. Cheias e barulhentas, as mesas ali ao lado, mas a sua, de dez lugares, grande e reluzente, inexplicavelmente vazia. Eu estava ali, sozinho, à hora do pequeno-almoço, com o queijo e o fiambre num prato, a carcaça e o croissant noutro, um sumo de laranja entre os dois, num instável equilíbrio que só a desatenção própria de uma noite mal dormida poderia justificar.

Estávamos então os dois ali, sozinhos, ele a olhar para o vazio, eu a olhar para ele. Sabia que tínhamos agendado, no dia anterior, uma entrevista para as dez da manhã, daí a uma hora, mas mesmo assim aquela pareceu-me a melhor oportunidade para conhecer quem há muito desejava conhecer: Enrique Vila-Matas. Timidamente, numa timidez que vim a descobrir igual à sua, pedi licença para me sentar. E apresentei-me como jornalista em serviço nas Correntes d’Escritas, o mesmo com quem ia falar mais tarde. Com disponibilidade, respondeu-me que sim. E, acto contínuo, começou a falar: «Estou um pouco preocupado», disse-me, «porque tive de escrever uma crónica para o suplemento “Cataluña” do El País e decidi que o tema seria a minha viagem à Póvoa. Mas escrevi-a antes de vir para cá.» Depois de uma pausa, e agora com o olhar directo e suspeito, rematou: «O bom é que até agora tudo bate certo. Até chove e está enublado como eu previa…»

Foi mesmo a melhor introdução que poderia ter tido ao mundo das coincidências que domina a prosa do autor de Bartleby & Companhia, Doutor Pasavento e Exploradores del Abismo. Algumas fortuitas, como os improváveis encontros defendidos pelos surrealistas, outras deliberadamente provocadas, desencadeadas, manipuladas, artificiais e genialmente construídas por ele. Uma veia criativa que Vila-Matas nunca temeu aplicar à sua própria vida, mesmo depois do colapso cardíaco que o aproximou da morte, em 2006. «Agora sinto-me Outro», desabafou-me já no fim da entrevista; «Como se estivesse a beneficiar dos méritos póstumos de um escritor.»

Ser repórter na Póvoa de Varzim, durante as Correntes d’Escritas, é isto: estar sujeito a encontros imediatos que mudam ou aprofundam o entendimento que temos da obra de um autor, da sua personalidade, do seu método de trabalho, das suas fontes de inspiração e dos acasos que põem a máquina da criação em andamento. Em última análise, é uma enorme e incomparável aula de Literatura.

Sentado na plateia do Auditório Municipal, ouvindo o encadeado dos discursos, não consigo deixar de evitar a imagem de uma resma de papel sobre a qual trabalha um escritor. Com a caneta em riste e uma caligrafia vigorosa, vai assentando as suas ideias, num périplo pela imaginação. Cada página preenchida deixará marcas nas seguintes, num relevo quase invisível, às vezes mais forte, outras vezes apenas subtilezas, mas que, no fim, compõe o mapa para a explicação da criatividade. E todas as respostas são possíveis. Como diferentes também são as intervenções dos escritores convidados.

Nas Correntes d’Escritas, percebe-se que, apesar das opiniões que possamos ter sobre o resultado final, os caminhos para a Literatura não são estreitos. Podem começar na necessidade psiquiátrica ou nas mentiras de um avô que sobreviveu a um campo de concentração, na experiência iniciática do jornalismo ou na experiência única de um romance, no dom de ilimitados contornos ou no saber contar uma história, nas memórias de uma vida cheia ou nas dinâmicas do pensamento. O trabalho e a disciplina fazem o resto.

Mas nada disto é muito sério, nem excessivamente académico. Não tem o peso das verdades definitivas. Este encontro de escritores de expressão ibérica é, acima de tudo, um convívio. Um espaço em que o tempo se suspende durante quatro dias e o mundo se assemelha a um livro que apetece ler. E nesta geografia sentimental e literária ninguém consegue, nem deve, ficar muito tempo sozinho, quer ao pequeno-almoço, quer ao longo do dia, quer pela noite dentro. Os encontros imediatos não têm hora marcada.

(*) Luís Ricardo Duarte nasceu em Lisboa, em 1977. É jornalista do Jornal de Letras, Artes e Ideias, desde 2003. Foi director do jornal Os Fazedores de Letras, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em História, variante História da Arte.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 10/Mar/10
Qua, 10/Mar/10
DA PÓVOA PARA O MUNDO,
por Luís Caetano (*)

O que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas. O que acontece na Póvoa de Varzim, em Fevereiro, segue para todo o mundo, levado pelos escritores e por todos aqueles que vivem as Correntes d’Escritas. Nos últimos anos, as Correntes têm seguido também pela rádio, nas dezenas de horas de cobertura feita pela Antena 2. A rádio alarga a intimidade do que é o maior encontro de escrita que acontece em Portugal, partilha as mesas de conversa, entrevista os autores, relata a rede de afectos que se cria entre escritores, público, escolas, organização, jornalistas e editores. Para além da Antena 2, tenho feito a cobertura para a Antena 1 e para o programa Câmara Clara da RTP 2. Por tudo isto, em Fevereiro, para além de ligado às Correntes, fico ligado à corrente. Este encontro é uma tentação de excessos para um jornalista que habitualmente trabalha sobre livros. É como ficar fechado numa destilaria irlandesa. Não que tenha passado pela experiência. Com pena.

Quando, em 2009, a 10.ª edição convidou 120 escritores, pensei seriamente em tomar complementos energéticos. Ainda por cima, são cada vez mais as actividades paralelas. A minha preferida é a corrida: os sprints entre gravações no hotel anfitrião, entrevistas no Auditório Municipal, as reportagens nas escolas. De repente, à uma da manhã, o restaurante do hotel passa a ser um estúdio improvisado, e um convite para subir ao quarto tem apenas a séria intenção de gravar uma entrevista longe do ruído do bar. Na hora de partir, metade da bagagem faz-se de livros dos escritores presentes.

«As Correntes são um momento que justifica todo o trabalho de escrita, toda a magia da leitura, toda a conjura das palavras.» A frase, disse-a Eduardo Prado Coelho, que era bom no que dizia. As Correntes D’Escritas resultam de muita vontade, e de prazer também. Fazem-se de rotinas cúmplices, de momentos imprevistos, e de muitas histórias. Aliás, uma boa história é o que nos une. É o que procuram escritores e jornalistas, é o que o público quer ouvir nas mesas de conversa do Auditório Municipal. São as boas histórias que animam o ambiente ao jantar e pela noite dentro, no bar do hotel, quando também nascem novas histórias, que serão ou não contadas noutros anos. Aliás, a noite nas Correntes não se fez para dormir. Há tempo para isso depois. Trabalha-se, sim, e discute-se literatura, mas também a vida à volta dela. Contorna-se o fecho do bar à uma da manhã com improvisos vários. Desafia-se o Inverno à beira da piscina, quando as palavras pedem um cigarro. Um convívio que facilmente se torna caloroso, porque reconhecem-se os que vivem com livros à volta. Todos se entendem, apesar das variantes ibéricas e, se for preciso, há sempre esse imenso espaço de diálogo que é o silêncio, como disse na Póvoa a mexicana Laura Esquivel. São muitos, tantos, os momentos inesquecíveis vividos nas Correntes, dentro dos seus programas oficiais e fora deles, fora de horas. Para quem participa no encontro, «vocês sabem do que eu estou a falar». Para quem ainda não o fez, que estas palavras sirvam de aliciante.

As Correntes são um modelo do que dá certo. Do que é aberto. Qualquer pessoa pode participar nos debates, juntar-se às noites de poesia no hotel anfitrião. Esta não é uma proposta elitista, e isso é coisa rara na cultura em Portugal. A Manuela Ribeiro, o Francisco Guedes e todos os que, na Câmara da Póvoa de Varzim, contribuem para as Correntes d’Escritas merecem um enorme reconhecimento. São já 11 anos de celebração dos livros. Onze anos de um estranho fenómeno oceânico que ilumina os Invernos.

(*) Realizador e apresentador da Antena 2, onde actualmente assina os programas Um Certo Olhar, um debate sobre a actualidade, A Força das Coisas e Última Edição, dois programas de entrevista e divulgação literária, que receberam o Prémio Fahrenheit 451, em 2006, para a melhor divulgação dos livros em rádio. É jornalista residente do programa Câmara Clara, da RTP2. Cobriu para a RDP várias edições da Feira do Livro de Frankfurt, dos Concertos Promenade de Londres e da Folle Journée de Nantes, bem como das Correntes D'Escritas e do encontro LeV - Literatura em Viagem. É licenciado em Ciências da Comunicação e formado pelo CENJOR. Foi jornalista da TVI.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 8/Mar/10
Seg, 8/Mar/10
UM DIA TUDO ISTO SERÁ TEU,
por Possidónio Cachapa (*)

CENA 1

EXT. DIA. FRENTE AO PALÁCIO DAS CORRENTES

O dia está particularmente frio. Um grande número de pessoas aperta-se em frente aos vidros da feira do livro a fumar, a conversar (pressupõe-se pelo gesticular) sobre a comodidade das cadeiras do auditório e o tempo em geral. Um HOMEM SEGURANDO UMA MALA cheia de livros aproxima-se de um GRUPO DE CARAS CONHECIDAS, ostentando um sorriso promissor, mas elas ignoram-no, virando-lhes as costas enquanto lançam fumo para o ar.

HOMEM DA MALA
Pois claro, pois claro... Essas coisas são assim.

As caras conhecidas viram-lhe ostensivamente as costas, olhando-o de soslaio. Ele não as desencoraja e contorna-as, de forma a ficar de frente para a conversa.

HOMEM DA MALA
Pois claro, pois claro. Há sempre gente que, enfim...

Um carro luxuoso da organização pára numa travagem rápida. A porta abre-se e um ESCRITOR JOVEM, de sucesso, sai de lá, já sorridente, a caneta na mão pronta para o autógrafo. Um RAPAZ E UMA RAPARIGA, vestidos de negro, reconhecem-no, dizem o seu nome em uníssono e correm para ele. O rapaz mais rápido do que a rapariga. Mas, antes que o possam alcançar, um ESCRIBA ESPERANÇADO ganha-lhes e abraça-o.

ESCRIBA ESPERANÇADO
Até que enfim, pá. Já tinha perguntado por ti. Onde é que andará a nossa estrela internacional?

Ri-se muito e não larga o braço ao outro, que vai respondendo, olhando em volta, para ver se há alguém a quem lhe seja mais útil falar.

ESCRITOR JOVEM
Ah, como é que vai? Não o via desde... Foi em Sarajevo ou na Nova Caledónia?

O escriba solta-lhe o braço, um bocadinho amuado.

ESCRIBA ESPERANÇADO
Arouca, a semana passada, no Encontro de Poesia a Metro...

O outro, já com o corpo a uma boa distância, responde-lhe sem o olhar, enquanto assina uns postais negros e vermelhos que o casal de admiradores lhe estende.

ESCRITOR JOVEM
Isso, isso... Até à próxima, então.

Um MEMBRO DA ORGANIZAÇÃO, visivelmente cansado, vem agora na sua direcção. O escritor mostra-se simpaticamente em stress.

ESCRITOR JOVEM
Olha, só posso ficar aí uma meia hora. Ainda tenho de ir despachar dois poemas para ler logo à noite num festival de Barcelona. Nem sei sobre o quê...

Coça a cabeça pensativa.

ESCRITOR JOVEM
Não te lembras de nada, não? Qualquer coisa. Isto depois, lido com emoção, marcha tudo... Ainda mais em espanhol.

Entra no auditório, enquanto várias pessoas se apressam a tocar-lhe nas vestes e outras viram ostensivamente a cara.

CENA 2

INT. DIA. BAR

Um JORNALISTA CULTURAL tenta engatar uma ASSISTENTE EDITORIAL. Estão sentados a poucos metros de um ESCRITOR PREMIADO que dá uma entrevista em francês, falando muito baixo.

ASSISTENTE EDITORIAL
Ele é genial. O meu chefe já disse que para o ano o vamos trazer para a editora.

O jornalista avança um pouco mais a perna, quase ao ponto de tocar o joelho que se desnuda no aquecimento da sala.

JORNALISTA CULTURAL
Sim, do melhor. Este ano, já fizemos capa com ele, três vezes. Duas por causa de romances e uma por ter coçado o rabo enquanto citava Ernst Cassirer (1874-1945).

Os olhos da assistente brilham, românticos.

ASSISTENTE EDITORIAL
Sim, gosto tanto. Nunca acabo de ler nada dele... Mas enquanto beijo as páginas...

JORNALISTA CULTURAL
Beijas as páginas? Eh, lá... Isso promete. E quando ele emula Herbert Marcuse (1898-1979)?

Empurra agora os dois joelhos contra os dela, uma das mãos a voar, súbita sobre o seu braço.

JORNALISTA CULTURAL
Vais almoçar a que horas?

Mas o telefone dela toca, o que a faz levantar-se de rompante e afastar-se. O jornalista olha-a, melancólico, enquanto a vê desaparecer na direcção do sol.

O escritor premiado também já terminou a entrevista e fala ao telemóvel.

O jornalista levanta-se, e os seus olhos deparam-se com a figura de um notável crítico, que descansa os olhos numa pequena moldura com a figura seminua de Eva Mendes. Dirige-se a ele.

JORNALISTA CULTURAL
Vamos almoçar?

O crítico olha-o criticamente, por um instante. Depois, guarda, resignadamente, a moldurazinha no bolso do blazer sem gosto.

NOTÁVEL CRÍTICO
Vamos... A esta hora deve estar o Germano a protestar contra a mesa. Sempre temos um avanço para as carnes assadas...

Saem os dois, sem se olharem, empurrando a porta de vidro. No interior do carro de luxo, o jovem escritor diz qualquer coisa ao motorista. O crítico e o jornalista correm para apanhar boleia, mas o carro já se pôs em movimento.

JORNALISTA CULTURAL
Ainda o apanhamos!

NOTÁVEL CRÍTICO
Ainda o apanhamos!

Mas o carro já vai longe, e o sol, que saiu subitamente das nuvens, deixa-os cegos. Correm durante mais alguns segundos, mas desistem, ofegantes. Atrás deles, o edifício começa a deixar sair grupos de pessoas de sobretudos pesados.

(*) Possidónio Cachapa nasceu em 1965, em Évora. Licenciado em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, é autor de romances, peças de teatro e livros de crónicas. Mantém o blogue Prazer Inculto.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 5/Mar/10
Sex, 5/Mar/10
COMO SE FORA UMA CORRENTE,
por Francisco Guedes (*)

Hoje está um dia idêntico àquele dia de Outubro de 1999, chuvoso e cinzento, quando entrei na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. A entrevista tinha sido marcada por um amigo comum. Ia falar com o vereador da Cultura. Para quê, não sabia.

Falámos cerca de uma hora, e aquela sala tornou-se na nascente, ainda ténue, do que viriam a ser as Correntes, que à altura ainda não tinha este nome, nem outro qualquer. Esse chegaria com a Manuela uns dias depois. Os primeiros dois, três anos foram o romper dos diques dos cépticos, dos que não acreditavam no projecto «que era muito caro», que não havia gente para usufruir dele, que não havia massa critica, que não havia… Foram também os anos de vencer as angústias dos temas, de criar a revista, de apresentar aos interessados novos autores, foram os anos de afirmar a Póvoa no mundo da cultura ibero-americana, foram os anos em que um dos objectivos se solidificou: unir as três margens do mar.

Pouco a pouco, as Correntes e a Póvoa distinguiam-se. Surge o Prémio Correntes D’Escritas/Casino da Póvoa, importante e monetariamente interessante, que, ano sim ano não, premiava ficção e poesia. A seguir, surgiu o Prémio Correntes D’Escritas/Papelaria Locus (ideia do Alfredo, dono da Locus). Este veio abrir um novo caminho aos jovens, até aos 18 anos, de todos os locais onde se fala português (houve um ganhador do Brasil). E, pouco a pouco, outro objectivo se solidificou: chegáramos a uma juventude pouco interessada em literaturas.

O tempo consolidava as Correntes, torneava-as, dava-lhes uma forma única que ultrapassaria as fronteiras, como ultrapassou, fazendo de nós, mesmo dos mais cépticos, dos mais incrédulos, uns aCorrentados a esta ideia de cultura, a esta forma intensa de a descentralizar e viver durante quatro dias, a cultura pela cultura, sim, sem subterfúgios, encarando-a como essencial ao desenvolvimento do homem. Essa, penso, é a grande força das Correntes D’Escritas. E essa é a força a ser seguida.

(*) Nasceu por obra e graça de seus pais, Maria Estela e João, naquela ensolarada manhã de 29 de Julho de 1949. Entrou para as Edições Asa como revisor, em 1984, onde se manteve por dez anos. Por gozação, escreveu sete livros, cujo tema era a culinária, para o jornal Público. A saga da escrita continuou nas Publicações Dom Quixote, com mais três livros da mesma temática. Traduziu quatro livros, dando a conhecer autores até então não traduzidos em Portugal. Co-organiza desde o seu início, em 2000, as Correntes D’Escritas na Póvoa de Varzim. Em 2006, passou a organizar o LeV — Literatura em Viagem, em Matosinhos.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 3/Mar/10
Qua, 3/Mar/10
CORRENTES AO SABOR DA PENA,
por Manuela Ribeiro (*)

Pedem-me um texto sobre as Correntes. Que maldade! Logo agora que as Correntes prendem e apertam e ferem e magoam. Sim, as Correntes também doem.

Ninguém diria, eu sei. Ou melhor, imagino!

A verdade é que não consigo olhar para trás sem pensar que sempre acreditei que as Correntes chegariam aqui. Falta saber o que é «aqui». Advérbio de lugar? De tempo?

Neste momento, espalhadas pela minha secretária, pilhas de documentos: horários de comboios (Lisboa-Porto-Lisboa), planos de viagens de avião, lista de participantes, com nacionalidades e sem nacionalidades, orçamento, várias propostas de temas de mesas — ai!, os temas, esses quebra-cabeças de alguns —, o orçamento, o programa e muitos papéis e mais papéis e mais orçamentos, nesta mesa desorganizada e enlouquecida. Na minha caixa de correio electrónico, muitas mensagens por responder. Umas por não serem urgentes e interessantes, outras por não saber o que dizer, outras porque «o que não tem remédio, remediado está». E-mails a chegarem a cada instante, uns a seguir aos outros. E muitas respostas. A tudo. A todas as perguntas. A todos os pedidos. A todos os desafios. E que desafios! Os mais variados. E os convites e os cartazes e os marcadores de livros e os envelopes e o telefone que toca e toca e o telemóvel. E outra vez as perguntas. E orçamentos e o orçamento a martelar-me o cérebro. Já não durmo ou durmo com o orçamento. E garanto-vos que gostaria de muito melhor companhia. Mas essa já não me cai na sopa!

As paredes do gabinete forradas de caras de escritores, nas expressões mais variadas. Ali, a fazerem-me sofrer ainda mais. Algumas sorriem, outras olham-me, indiferentes.

E eu de roda do programa e das mesas e dos lançamentos de livros e das escolas, e os editores a quererem saber coisas, e os autores a precisarem ainda de mais uns pormenores, e os jornalistas a solicitarem informação, e o gabinete de comunicação a querer organizar os materiais de divulgação, e os textos para a revista, e a falta de respostas e… Ah!, tenho de organizar a sessão de abertura, e saber quem vai estar na mesa, e saber se os convidados já responderam, e o número de páginas da revista e as medidas, e os possíveis patrocinadores, que teimam em estar em reuniões e mais reuniões, a adiarem as respostas para o dia seguinte. E, às vezes, muitos «às vezes» este ano, finalmente, uma pequena vitória. Ai, que bom! Não estava à espera desta resposta e nem desta. Mas logo, mais derrotas! Estes disseram que não: «Ainda se fosse desporto!» De preferência futebol, acrescento eu! E estes também: «Não!» Não! Não é possível!

Pena! Raiva!

Os bilhetes de comboio a caírem no computador. E os de avião para reencaminhar. E de novo o orçamento e os números, e eu que fui para Letras para fugir dos números, que me perseguem desde a mercearia dos meus pais, desde os tempos da mais tenra infância, quando era necessário fazer contas à vida. E agora, não é?

Pois, já perceberam que esta não é a melhor altura para escrever o que quer que seja sobre as Correntes. Quais Correntes? Ah, aquelas que chegaram aqui.

Pois, estando aqui e olhando para diante, não sei onde poderão ainda chegar as Correntes. A actual conjuntura e a crise de que ouvimos falar a cada instante impedem-me de pensar num futuro. De pensar se haverá futuro para as Correntes. Tão negro é pintado o presente. Até me pergunto quem terá sido o brincalhão que escondeu a paleta de cores que permitia sonhar um sorriso nas caras tão sorumbáticas de um quotidiano de pessoas tristes.

E eu a pensar que era chegada a hora de Portugal acreditar que a leitura, os livros, enfim, a literatura, fariam a diferença.

Fartamo-nos de ouvir falar da importância da indústria cultural na economia do país. Da quantidade imensa de gente que vive (talvez sobreviva, ou nem por isso!) à custa dessa actividade. A verdade é que a cultura ainda assusta. Pois, alguma razão haverá. O conhecimento não liberta as pessoas? Não era disto que falava Platão, afinal? Pois. E quem é Platão? Ah, não! Isso são teorias. Do tempo das Cavernas! Utopia.

E chegámos lá. À Utopia. E não é utopia o que acontece na Póvoa de Varzim? Lídia Jorge acha que, na Póvoa, em Fevereiro, «um pedaço de Utopia é possível». E isso, a quem interessa, afinal?

Arnold Wesker responderia: «Se achas que a educação» — eu digo a cultura — «sai cara, experimenta a ignorância!»

Mas, e isso conta?

Os meus amigos dizem que sou pessimista. Talvez. Mas quem não é? O mundo gira à roda do dinheiro. A cultura também. E dinheiro não há.

E manter a ignorância é, de facto, mais barato. Muito mais barato. Incomparavelmente mais barato. O resto, que importa?

Que importa que, 11 anos depois, se mantenha de pé o único encontro de escritores que, em Portugal, durou pelo menos 11 anos?

Olho para trás e pergunto-me se valeu a pena.

Vale a pena acreditar na Utopia? Vale a pena apresentar salas cheias para ouvir falar de livros e de literatura?

Vale a pena acreditar na magia da voz das palavras?

Vale a pena acreditar em diálogos entre escritas e geografias?

Vale a pena acreditar em mais de 300 escritores?

Vale a pena acreditar em 35 000 espectadores, 212 novos livros, 95 mesas redondas, 97 mesas para o público escolar, 30 sessões de poesia, nove exposições, seis catálogos, oito revistas, seis conferências de abertura, três prémios literários, mais de 1500 livros ou trabalhos já publicados ou inéditos e mais de 15 prémios entregues?

Vale a pena acreditar no que dizem de nós, os escritores? Não são eles ficcionistas? Não estarão eles a inventar mais uma história?

«Uma improbabilidade. Um milagre!» — Hélia Correia

«Um exemplo de persistência» — Inês Pedrosa

«Singular acontecimento cultural» — José Carlos de Vasconcelos

Vale a pena acreditar em adjectivos para definir a organização, «impecável e irrepreensível», citando Francisco Belard?

Para mim vale. Para muitos vale.

Francisco Duarte Mangas considera que «o evento é a prova, afinal, de que as palavras não são pátria de ninguém».

E isto importa à pátria? Se não importa, tem de importar. A pátria tem de acreditar que há uma pátria de e da PALAVRA na Póvoa de Varzim. E os patriotas também.

Ou, então, vamos todos à procura de um livro que possa mudar a nossa vida. Mudamos de vida e pronto.

(*) Nasceu em 1963, na freguesia de Navais, Póvoa de Varzim. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses e Franceses, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi professora de Português e Francês na Escola Secundária Eça de Queirós, trabalhou como jornalista na SOPETE Rádio Mar e como correspondente no jornal Público. Está ligada, desde 1995, ao pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, sendo responsável pelo Gabinete de Projectos Socioculturais. É co-organizadora do evento literário Correntes D’Escritas — Encontro de Escritores de Expressão Ibérica e co-coordenadora da revista Correntes D’Escritas.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 1/Mar/10
Seg, 1/Mar/10
UMA QUESTÃO DE PALAVRA,
por Luís Diamantino (*)

Pedem-me que escreva um texto sobre isto ou sobre aquilo. Mais isto do que aquilo. Mas eu não sei o que dizer sobre aquilo, muito menos sobre isto. O que está mais perto vê-se sempre pior, ou será o contrário?!

Esperam, possivelmente, um texto muito bem vestido, muito bem calçado e à prova de crítica. Procurei-o em todos os arquivos da minha já fraca memória, mas não o encontrei; procurei-o em todas as gavetas atulhadas de textos, mas não dei por ele; procurei-o na lógica instalada no ficheiro do meu computador, mas talvez tal texto ainda não tenha sido escrito.

Gostaria de falar sobre isto como se nada mais existisse, ou falar da existência disto ou daquilo, mas a dúvida da existência permanece inalterada…

Lá fui juntando sílabas, palavras pouco acostumadas a encontrarem-se nestes textos, previsivelmente oficiais, e descubro novas ideias, realidades escondidas na penumbra de uma ficção por inventar. É que, às vezes, damos de caras com palavras que já não encontrávamos há muito tempo. Olhamo-las nos olhos e perguntamo-nos se não as conhecemos de algum lado. Será um bom início de conversa, poderemos mesmo levá-las a passear, talvez assistir a um encontro cultural, daqueles com muita gente a falar sobre a invenção da palavra…

De braço dado e de olhos nos olhos, lá fomos até uma biblioteca, para encher o depósito das palavras raras. Tarefa difícil, pois tivemos de recusar tantas e tantas, gastas por uso indiscriminado, algumas delas perfeitamente ocas, outras perdidas no turbilhão da comunicação dos nossos tempos. Transportamo-las com imenso cuidado, não se fossem quebrar ou escapar por qualquer diálogo sem sentido.

Já em pleno encontro de palavras, assistimos à pirotecnia de ritmos e sons africanos, sul-americanos e ibéricos. As palavras vestiam-se e despiam-se com tanta frequência que pareciam outras: mais enleantes, mais doces ou mais duras. Mais cruéis, mais carinhosas ou mais sufocantes, levando ao riso ou tocando a alma num passe de mágica.

Palavras coloridas de opiniões e libertas das amarras sociais. Palavras recheadas de histórias infindáveis, sempre recomeçadas noutra conversa. Palavras pontiagudas de arestas firmes, sulcando fundo o diálogo, para uma sementeira única.

E, nesta multidão de formas e de cores, descobrimos outros sentidos e esquecemos o sentido único obrigatório que nos querem fazer seguir.

No fim da festa, saímos carregados com palavras como «diferença», «afecto», «imaginação», «amizade»…

No palco, casam-se palavras da mesma família: «livro», «escritor», «editor», «tradutor», «leitor»…

Descemos as escadas, porque no elevador não caibo com as palavras que trago dentro de mim e com as que arrasto até à rua, num abraço de «até para o ano» ou «até ao próximo livro».

(*) Nasceu a 5 de Fevereiro de 1956. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses e Franceses, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Iniciou as funções docentes em 1980-1981, na Escola Secundária de Águas Santas, e integrou o corpo docente da Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, entre 1982 e 2006. É, desde 1996, vereador a tempo inteiro na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, onde já assumiu pelouros como os do Desporto, do Turismo, da Acção Social, da Juventude, da Educação e da Cultura. No presente mandato, é vereador da Educação e Cultura, pelouro responsável pela criação e organização do Encontro de Escritores de Expressão Ibérica Correntes D’Escritas.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 26/Fev/10
Sex, 26/Fev/10
QUEM TEM MEDO DAS PALAVRAS VEM ÀS CORRENTES,
por João Pombeiro (*)

Tenho com as palavras uma relação de desconfiança. A desconfiança é mútua, devo acrescentar: elas não acreditam que eu as saiba utilizar com propriedade, esmero e elegância, o que se justifica plenamente; eu, por qualquer lado e circunstância, temo pelo seu jogo duplo. Aprendi a conviver com isso. E sem cão.

Há poucos minutos, quando amarrava palavras à folha (como é possível que algumas teimem em não querer associar-se ao meu bom nome?), avisaram-me de que este texto não deveria ser (acabo de inventar) mais um daqueles exercícios, bastante gastos, de autodepreciação ou de criação de pseudofactos próprios de quem não sabe muito bem o que fazer às palavras e precisa de encher chouriços. Confesso: adoro encher chouriços porque nunca soube muito bem o que fazer com as palavras. Problema crónico, este. Por isso, quando me pedem para escrever sobre as Correntes, o medo aumenta. Não só por ser um caloiro na coisa, mas sobretudo porque, na Póvoa de Varzim, durante quatro dias, estão homens e mulheres para quem as palavras são o seu nome do meio ou, muitas vezes, o seu melhor amigo.

«Estou farto das palavras.» Não fui eu quem o disse. Estes quatro vocábulos (sinónimo que me deixa mais tranquilo…), publicados por esta ordem, foram tema de uma das mesas das Correntes de 2009, o meu ano de praxe. Carlos Pinto Coelho, para quem o céu é o limite quando se trata de associar as ditas, avisava ser um tema provocador. Exagero, caramba. Quem não está fartinho das palavras? A mesa moderada por C. P. C. (estou em condições de declarar peremptoriamente) funcionou como Prozac momentâneo. Fiquei apaziguado com o mundo durante alguns dias.

As palavras, escrevinhei eu na altura no blogue da LER, com aquele tom genérico de quem se borra de medo, justificam, só elas, a eternidade das Correntes. Das palavras que os alunos das várias escolas da Póvoa ouviram de Dulce Maria Cardoso, João Paulo Cuenca, José Luís Peixoto ou Eucanaã Ferraz; das palavras que detestam a folha em branco; das palavras impressas nos livros de Andrea Blanqué, Álvaro Uribe, Adriana Lisboa ou Héctor Abad Faciolince; das palavras que se destacam nos títulos apresentados (de António Garrido ou Juan José Millás) noite dentro, numa sala do hotel onde um dos estúpidos passatempos dos presentes é encontrar uma cadeira livre; «palavras que estão gastas arruínam casamentos e editoras», como sentenciou o escritor espanhol Victor Andresco; palavras que nos podem salvar (Rui Cardoso Martins), quando a morte aparece cobardemente; palavras que faltam quando a imaginação é torrencial (Daniel Galera); palavras que mudam (mudam mesmo) a vida das pessoas, contou Luís Fernando Veríssimo a propósito de uma das obras-primas de seu pai (Olhai os Lírios do Campo); palavras desenhadas com prazer a lápis (Almeida Faria, que um dia chegou a copiar o que aparecia no ecrã do seu computador para o papel, garantindo assim, acreditava ele, que não perdia nada do que escrevera); palavras cantadas pela moçambicana Paulina Chiziane («os meus olhos de escritor de repente disparam, alguma coisa cai, eu recolho e levo para casa. Passado um tempo, que pode ser um mês ou um ano, torna-se a minha presa, levo-a para a cozinha e preparo-a com requinte»); palavras lidas numa emocionada carta ao pai (Eduardo Bettencourt Pinto); palavras que nos guiam pelo mundo (Antonio Orlando Rodríguez só sentiu ter chegado a Alexandria quando conseguiu deitar-se na cama de Kavafis; José Mário Silva viajou até à Patagónia, com Chatwin, e a East Anglia, com Sebald, sem sair de casa); palavras encalladas (de calle), descobertas por Eloy Santos — «da impossibilidade do caminho nasce a possibilidade do relato, da narrativa»; palavras que Gonçalo M. Tavares se demora a esmiuçar, como «reparar»; palavras que levaram Xavier Queipo, poeta e escritor galego, a anunciar na Póvoa uma Constituição Europeia dos Poetas, apresentada em Bruxelas daí a poucas semanas.

Quem tem medo (mesmo das palavras) compra um cão; eu venho às Correntes. Frase estúpida, própria dos medricas, que nunca sabem como acabar o que quer que seja.

(*) João Pombeiro é editor executivo da revista LER. Anteriormente, assumiu as funções de editor da Notícias Sábado, revista de sábado do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias. Nasceu em Évora, em Agosto de 1978, mas foi em Lisboa que se licenciou em Comunicação Social, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Em 2002, ingressou na revista Grande Reportagem, onde exerceu o cargo de jornalista até 2005. Ao longo do seu percurso profissional, colaborou com diversas publicações. Publicou em 2007, pela Esfera dos Livros, uma colectânea que reúne as frases mais hilariantes dos políticos portugueses, no pós-25 de Abril e, em 2009, pela Quetzal Editores, 30 Anos de Mau Futebol, uma recolha das frases mais extravagantes do futebol português.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 24/Fev/10
Qua, 24/Fev/10
N.E.: Este texto segue as regras do Novo Acordo Ortográfico.

ACORRENTADOS,
por Francisco José Viegas (*)

Os leitores sabem que enfrentam a eternidade e, ao mesmo tempo, a fragilidade do papel, da tinta, da sombra. É esta a nossa história ao longo dos séculos: procurar os livros, proteger os livros, amaldiçoá-los também (porque matam, porque perturbam, porque nos arrastam para o abismo) — e perdê-los por quase nada, por uma tentação, por uma distração. É por isso que as Correntes D’Escritas esperam por nós, todos os anos. Nós — os leitores. Os autores. As correntes de ar. As noites inteiras. O sopro que vem nos livros e se comunica às bravas meteorologias dos encontros literários. O sono fora de horas. As conversas que têm fim e nunca tiveram um começo, um ponto de partida, um hemisfério, um mapa, uma circunferência desenhada numa mesa vazia.

Começamos por vir — pura curiosidade. Depois, puro hábito. Puro relógio e folha de calendário. As Correntes fazem parte desse calendário preciso e fatal, romântico como um folhetim de jornal do outro século. Inventários: necessidade de riso, necessidade de recolhimento, de conversa, de maldição e de abrigo. Tudo o que vem nos livros e todas as razões por que se leem livros: por inveja, por medo, por má sorte, por alegria, por infelicidade absoluta. Por dedicação e por acaso, por sem razão e por alguma razão. Por causa do frio, das energias demoníacas, dos labirintos, das portas entreabertas, das varandas em frente ao mar. Por causa das tardes de Fevereiro, por causa de uma causa, por não sabermos as causas.

Parte desses livros estão aqui, nas Correntes. São como a frase de Kafka: «O meu navio não tem leme, é empurrado pelos ventos que sopram nas regiões mais profundas.» Todos os anos chegamos para espreitar as vozes que espreitam mais fundo: autores, leitores, editores, bibliotecários, impressores, agentes, professores, todos anónimos que deixam um nome impresso na poeira da Póvoa, rente à maravilhosa luz do seu mar.

Esta edição especial da B:MAG traz as novidades essenciais: os mundos da Booktailors e da Quetzal vêm com ela. Também aí, autores, prémios de edição, aventuras de papel. Foi isso que sonhámos, com a Manuela Ribeiro, o Francisco Guedes, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim (o vereador Luís Diamantino), os lugares onde circulam as correntes de ar das Correntes D’Escritas.

(*) Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor. Multipremiado enquanto autor, desempenha actualmente as funções de director editorial da Quetzal e de director da revista LER. Distinguido com o Prémio APE, pelo romance Longe de Manaus, o seu romance mais recente intitula-se O Mar em Casablanca.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 22/Fev/10
Seg, 22/Fev/10
UMA QUESTÃO DE FÉ,
por Sérgio Coelho (*)

− Sou revisor – diz o nosso linguista, tentando abrir actividade numa repartição de finanças.
− E é da CP ou da Carris?
− …
− Diga qualquer coisa, homem…
− Pronto, ponha aí de Letras.
− Ah… essa não conheço. Mas se o senhor o diz…

Deixemos para trás questões metafísicas, sobre se a profissão de revisor o será realmente ou se não consistirá sobretudo num agregado de competências aplicado a uma tarefa específica, a uma determinada fase de um projecto editorial («revisor de vocação é fenómeno desconhecido», diria o nosso colega da História do Cerco de Lisboa).

Não falemos para já do quão mais saboroso é regar a nossa boa posta de bacalhau com um belo e espesso azeite, em lugar de um mais vulgar óleo de azeitonas; de como o nosso automóvel prefere a gasolina à essência; do tão mais descansado que ficamos ao sabermos que a civilização em que vivemos anda sobre rodas, em lugar de o fazer sobre ruas…

Ignoremos a particularidade de, tantas vezes, certamente por omissão ou esquecimento, o nosso nome não ser incluído na ficha técnica; o de desempenharmos uma actividade com um dos valores/hora mais baixos do mercado profissional português; o de nem sequer nos oferecerem um exemplar das obras que revemos; o de…

Detenhamo-nos, isso sim, numa outra preocupação bem mais concreta. Na necessidade de, a cada passo de um trabalho de revisão, sabermos tão rigorosamente como possível o âmbito de intervenção requerido, as especificidades linguísticas e sintácticas da obra em causa, o máximo de informação sobre o público a que a obra se destina, os critérios originais do autor ou do tradutor, a fase do ciclo de produção em que a obra se encontra e as especificidades inerentes.

Muitas vezes, tais indicações pululam dispersas, na melhor das hipóteses em livros de estilo ou cadernos de normas, por vezes em e-mails ou folhas de rosto, quando não nas margens de jogos de provas.

Dos tipos de revisão…
Ora, rever não é apenas reler e muito menos caçar gralhas. Na verdade, rever é uma actividade que assume dimensões diferentes, com características e exigências distintas. Poderíamos, assim, falar de diferentes tipos e níveis de revisão.

Uma operação basilar passa pela normalização, que consistiria na detecção de situações recorrentes, na formatação tipográfica tendo em conta os critérios definidos pela editora (versaletes, aspas, numeração, parêntesis…). Usual e preferencialmente feita em ficheiro digital, contudo, deve ser considerada um conceito norteante em todo o ciclo de revisão.

Já a revisão linguística pressupõe a correcção de situações linguísticas, como sejam incorrecções gramaticais, concordâncias, gralhas, normalização de construções frásicas e vocabulares.

Quanto ao que se usa designar por revisão tipográfica, e aqui já, predominantemente, no domínio das provas em papel, para além da caça à gralha implícita e da já referida normalização, pressupõe a verificação de situações estruturais da obra, como seja a divisão das secções que a constituem ou a estruturação de elementos gráficos. Exemplos de situações nas quais o revisor deverá depositar a maior atenção são as notas de rodapé (chamada e resposta), as referências bibliográficas (em miolo e em secção bibliográfica) e as regras e convenções definidas para a translineação (por exemplo, evitar hifenização em final de página).

Num âmbito mais alargado, poderemos ser chamados a intervir ao nível da linguagem. Normalmente, esta necessidade coloca-se quando urge adaptar a linguagem do original a um público final específico. É o que sucede, por exemplo, numa obra de divulgação histórica destinada a um público infantil.

Já por revisão literária entenderíamos uma intervenção ao nível da estrutura narrativa e linguística do texto, tendo sempre como fiel da balança o posicionamento pretendido para a obra.

Resolvidos estes problemas, urge ainda, quando aplicável, determinar o rigor dos conteúdos veiculados. Uma revisão deste teor poderá justificar-se tanto pela necessidade de adequação do conteúdo ao público-alvo, quanto pela exigência de fidedignidade requerida pelo tipo de obra em causa.

E quanto ao editing? Este é, porventura, um dos conceitos mais difíceis de enquadrar no ciclo de pré-impressão. Não têm esse problema os anglo-saxónicos, cujo editor tem, precisamente, o editing como tarefa suprema. Sendo sumários, e sem entrarmos em elaborações que, mais do que resolver problemas preexistentes, se limitam a criar novos, diríamos que pressupõe interpretação mais profunda dos conteúdos originais. Assim, poderá ser requerida a selecção de novos conteúdos ou a eliminação ou adaptação de outros. Por vezes, poderá estar mesmo em causa a reescrita do original ou de partes deste. A este respeito, e enquanto verdadeira síntese prática daquilo que deve ser um bom editing, aconselho vivamente a leitura da crónica Memórias Internas da Ditadura, de José Vegar, já publicada no Blogtailors.

… aos níveis de abordagem
Em jeito de síntese, e porque o levantamento das necessidades de revisão de uma obra poderá não nos ser apresentado de forma linear, poderíamos falar de dois níveis de abordagem fundamentais:

Abordagens restritivas: competirá ao revisor efectuar emendas preponderantemente tipográficas (gralhas, translineações, normalização de situações/elementos gráficos e de paginação, sugestão de melhoramentos gráficos) e linguísticas (correcção gramatical, frásica e contextual);

Abordagens extensivas: competirá ao revisor, para além de atentar às questões acima mencionadas, proceder a um melhoramento linguístico mais acentuado (revisão de pendor literário) ou a uma verificação do rigor do conteúdo (revisão de pendor científico); poderá ser também requerida uma adequação da linguagem ao público-alvo, esteja em causa uma faixa etária ou um segmento temático específico. Tal intervenção poderá justificar-se por necessidade de adaptação da linguagem ao público leitor (a nível etário, geográfico, cultural ou terminológico), de adequação científica ou mesmo adaptação contextual.

Acima de tudo, todas estas são informações que o revisor deverá procurar obter antes de se debruçar sobre um trabalho, as mesmas que o editor ou o coordenador editorial deve procurar sistematizar e fornecer-lhe.

Para outras calendas ficam as questões de abertura. Umas quantas frustrações, próprias e de outrens inúmeros, que levam alguns a concluir que isso da revisão é quase uma questão de fé, que só com a crença disto se pode fazer vida. Que o «tornar a ver» etimológico, em busca do quase mitificado sentido original do texto, em tudo se assemelha à «re-ligação» do homem a Deus, metáfora que peca por hiperbólica.

E há aqueles que defendem que o amor ao livro ou à língua «tudo sofre, tudo crê, tudo suporta». Que afirmam que o revisor é o seu próprio meta-leitor. Um idealista concreto. E isso muda tudo. «O Mais que isto é Jesus Cristo.»

(*) Com formação superior em Comunicação Social, Sérgio Coelho iniciou o seu percurso profissional no universo jornalístico, onde veio a exercer funções de editor e de chefe de redacção. Ingressando no mundo dos livros em 2002, de então para cá, tem exercido sobretudo funções de coordenação editorial, as mesmas que actualmente exerce na Booktailors. Frequentou a Pós-Graduação em Edição – Livros e Novos Suportes Digitais ministrada pela Universidade Católica e efectua trabalhos de tradução e revisão para diversas editoras nacionais.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Sex, 19/Fev/10
Sex, 19/Fev/10
O VALOR DAS PALAVRAS,
por David Machado (*)

Desde que me preocupei em compreender o sistema montado em redor da literatura, a revelação mais desconcertante que tive foi a de que há pouca gente tão desgovernada como um escritor. Existe o preconceito generalizado de que viver exclusivamente daquilo que se escreve é uma tarefa tão difícil (impossível, na maior parte dos casos) como viver exclusivamente do ar que se respira, sem se saber que os primeiros responsáveis por essa dificuldade são precisamente os escritores. A questão não será tanto a forma como um escritor gasta ou esbanja os seus rendimentos, mas sim os rendimentos que não chega a ganhar por falta de discernimento económico.

A maior e a mais comum razão de escândalo são os ditos míseros 10% sobre o preço de capa de um livro que a maioria dos escritores recebe. Não quero discutir isto. A percentagem poderia ser mais elevada, claro, e, se tivéssemos o pensamento tão orientado para o lucro como o devem ter as editoras, as distribuidoras e os livreiros, esse valor poderia mesmo subir. Mas, pelo menos aqui, existe uma percentagem. O meu problema é outro.

Quem habita este meio sabe bem que, nos dias de hoje, a actividade principal de um escritor é escrever livros e que, depois disso, existem uma série de trabalhos paralelos que complementam e se cruzam com os livros que escrevemos. Em relação a isso, o maior equívoco é o facto de estes trabalhos paralelos serem muitas vezes encarados por toda a gente (autores incluídos) como promoção dos livros publicados e, como tal, não devem ser pagos. Deste modo, um escritor é convidado a escrever contos e crónicas para revistas, jornais, sítios Web e antologias, a estar presente em escolas, bibliotecas e livrarias ou a ceder os direitos de autor de um livro seu para adaptação a uma peça de teatro ou a uma curta-metragem, tudo a troco de 0%, e não deve recusar porque se trata de publicidade para vender mais livros. É assim que o sistema funciona, e toda a gente é cúmplice. Por oportunismo ou insensatez, há sempre quem se aproveite. São eles os editores de revistas e jornais, as editoras de livros, os livreiros, os directores das escolas, das bibliotecas e das companhias de teatro e os produtores de cinema, só para nomear os mais relevantes. É uma perspectiva enviesada, claro. Da mesma forma, um músico daria concertos sem ser pago só para promover os seus discos, ou um canalizador faria de graça um simples remendo num cano, à espera que, pelo boca-a-boca, mais tarde o contratassem para substituir a canalização inteira de uma casa.

Por difícil que me seja, eu entendo isso. Se fosse editor, director ou produtor, também procuraria reduzir os meus custos ao máximo. Por outro lado, não compreendo que um escritor reduza os seus proveitos ao mínimo. Não consigo lembrar-me de outra profissão em que isto aconteça de forma tão conformada e generalizada. Nem sequer nas outras artes. Não se espera que um pintor ceda um esboço que seja de borla. A palavra-chave aqui é precisamente «trabalho». Escrever é trabalho. Falar em público é trabalho. E o trabalho, como qualquer outro bem no planeta, tem um mercado. A oferta e a procura dançam até se encontrarem. Este é o único mercado no mundo onde a oferta e a procura se encontram no zero. Em qualquer outro mercado, os agentes teriam saltado fora muito antes disso. Mas um escritor desrespeita o seu trabalho a ponto de o dar por nada.

Uns por vaidade, outros por desesperança, os escritores são incapazes de recusar o convite para escrever um conto. Sem se aperceberem de que esse conto é um produto e, como tal, tem um valor. Um texto guardado no computador pode representar aquilo que cada um bem entender; no entanto, a partir do momento em que a intenção é publicá-lo, quer queiram quer não, para a sociedade, esse texto torna-se, entre outras coisas, um produto. Porque é que um autor há-de ceder o seu produto de graça? Toda a gente num jornal — directores, editores, jornalistas, cronistas, entrevistadores, cartoonistas, paginadores, etc. — é paga. Porque é que um autor de ficção não o há-de ser?

Passamos aos exemplos. Por um conto de 4000 caracteres, já recebi entre 150 e 400 euros. Fiquemo-nos pelos 150 euros. Quando uma revista me pede que escreva um conto e não me paga, na verdade, aquilo que me estão a pedir são 150 euros. Não é irrisório. Porque é que hei-de dar 150 euros a essa revista? Pela mesma lógica, não peço a revista de borla, e são apenas 2 ou 3 euros. Parece-me bem que existam hierarquias (tabelas, na verdade) de pagamento, e que escritores de topo ganhem, para escrever um conto, cinco, dez ou até cem vezes mais do que um escritor menos célebre (acho justo, traz mais leitores à revista) ou que, num jornal nacional de referência, se pague o dobro daquilo que paga uma publicação com menos protagonismo. Os valores podem e devem variar. Mas tem de existir um valor superior a zero. É tão simples quanto isto: a única razão pela qual os editores, os directores e os produtores oferecem 0 euros por um conto, por uma sessão numa escola ou pelos direitos de adaptação de um livro é porque sabem que há autores que aceitam os 0 euros.

Fico com a sensação de que a poucos autores passou pela cabeça que uma alternativa possível é recusar estes convites, e que essa é a única maneira de valorizarem e respeitarem o seu trabalho. Existem publicações, escolas, bibliotecas, companhias de teatro dispostas a pagar direitos de autor e honorários. Que é o mesmo que dizer: existe mercado. Mas, a partir do momento em que alguns autores decidem trabalhar de graça, esse mercado fica arruinado para todos.

(*) Nascido em 1978, David Machado é licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão. Entre outras obras, publicou, pela Editorial Presença, o romance O Fabuloso Teatro do Gigante e os contos infantis A Noite dos Animais Inventados (vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca 2005) e O Tubarão na Banheira, para além do volume de contos Histórias Possíveis.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Qua, 17/Fev/10
Qua, 17/Fev/10
N. E.: texto publicado originalmente no blogue operaçãosniper.

MEMÓRIAS INTERNAS DA DITADURA,
por José Vegar (*)

Felizmente, o autor, um quadro superior de uma das instituições mais importantes da ditadura salazarista, tinha escrito as suas memórias num computador. O texto, quando o recebemos, estava perto do caos. O testemunho tinha sido escrito ao sabor dos entusiasmos do momento do autor e, notava-se claramente, em vários períodos muito distantes entre si. O trabalho de edição obrigava à execução de algumas tarefas clássicas, e algumas outras próprias do texto entregue. Antes de mais, foi preciso ler o original e tentar encontrar um fio condutor das memórias. Esse era um dos principais problemas. O autor queria, no mesmo texto, mostrar o seu conhecimento do Estado salazarista, contar as suas experiências profissionais, partilhar o seu olhar do mundo e ajustar algumas contas pessoais, com figuras da ditadura mas também com algumas da democracia. A solução encontrada foi a de dividir as memórias em quatro partes isoladas, movimentando e recolocando porções consideráveis de texto. A partir daqui, estava criada uma base de trabalho para intervenções cirúrgicas no texto, primeiro ao nível da ordem, depois ao nível do ritmo e estilo. No primeiro caso, optou-se pela solução clássica da ordenação cronológica, primeiro, e temática, depois. A harmonização de ritmo e estilo foi mais sensível. Se, nalguns trechos, existia emoção a mais, noutros a secura de pormenores imperava. Com a colaboração do autor, fornecendo os dados, criou-se o equilíbrio desejável. O passo seguinte foi eliminar uma das falhas mais comuns das memórias: a repetição de factos e acções em pontos diferentes da narrativa. Aqui, o que é exigido é concentração, já que a repetição, por vezes, dá-se apenas ao nível de um parágrafo. O trabalho de edição passou, então, para a tarefa mais simples mas mais sensível, já que tocava em sensibilidades pessoais do autor. Na verdade, este, ao longo da sua vida, cultivou três ódios de estimação. E, com uma regularidade extraordinária, insultava as três pessoas a cada dez páginas das suas memórias. Após uma negociação intensa, foi concedida a redução da frequência de agressões. O texto ficou límpido, isto é, pronto a ser publicado.

(*) José Vegar é autor dos livros de ficção Cerco a um Duro e A Balada do Subúrbio e dos livros de não-ficção O Inimigo Sem Rosto – Fraude e Corrupção em Portugal (com Maria José Morgado) e Serviços Secretos Portugueses. Frequenta o doutoramento em Sociologia no ISCTE. Escreve nos blogues sniper e operaçãosniper.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 15/Fev/10
Seg, 15/Fev/10
N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER, de Dezembro de 2009.

UM JOGO ENTRE LINHAS - RESTO DO MUNDO,
por Paulo Ferreira (*)

[Selecção Nacional]

Philip Roth
Capitão de equipa, é a voz de comando. Trabalhador, consistente e competente, com muitos jogos nas pernas, já recebeu praticamente todos os prémios que há para ganhar. Menos aquele que lhe continuam a negar, ano após ano, a cada Outono que passa.

Guillermo Cabrera Infante
Obra imaculada, protagonizou uma das transferências da época, ao trocar a sua editora de sempre em Portugal pela Quetzal. Os inéditos continuam a suceder-se, como legado à mulher, numa comovente prova de amor – uma herança que ela pudesse rentabilizar. Seja feita a sua vontade.

Italo Calvino
Valor seguro, com muitas provas dadas, tem ainda muitos trunfos por traduzir em livro. Com a nova imagem, defraudou alguns fãs.

Gabriel García Márquez
Continua seguro de si. Já não corre como dantes, mas continua a ser uma mais-valia na equipa (Dom Quixote).

Herta Müller
Chegou sem ser anunciada, e não foi sequer contratada para titular. Mas convenceu o treinador, sendo agora um trunfo pelas equipas em que alinha (Cotovia e Difel). Esperam-se mais edições desta (des)conhecida autora.

Dan Brown
Foi a estrela da equipa (Bertrand) para este final de ano. Lesionado durante cerca de cinco anos, não foi por causa disso que deixou de marcar golos. Resta perceber se continuará ao mesmo nível.

Thomas Mann
Pela primeira vez em tradução directa do alemão, foi uma das grandes apostas do ano. Apesar de reconhecido, foram notórias, durante anos, as dificuldades de transposição da sua prosa para a nossa língua – problema apenas sanado este ano, pelas mãos de Gilda Lopes Encarnação.

Stieg Larsson
Chegou ao mercado português com boas referências e fama de goleador. Ainda não se impôs da forma que o fez em campeonatos mais competitivos. Tem tempo para se consolidar.

Kindle
É um médio moderno que joga para toda a equipa, representando uma posição nova no miolo do terreno. Dele esperam-se sempre novas estratégias para resolver os problemas de sempre. Ainda tem muito para dar.

Stephenie Meyer
É o grande pulmão da selecção de estrangeiros. Um verdadeiro «n.º 10», joga e faz jogar, levando atrás de si toda uma série de fast followers. Este ano, a palavra mais ouvida, a par de «crise», foi «vampiros». Afinal, que editores poderão dizer que deste sangue não beberão?

Roberto Bolaño
Verdadeiro ponta-de-lança. Já fora utilizado no campeonato, mas na posição errada. Chegou, viu e venceu. 2666 poderia ser o número de golos que marcou, mas, na verdade, são já 23 000, o número de exemplares vendidos em dois meses para mais de 1000 páginas de livro. É obra.

Suplentes
Paolo Giordano: é um jovem com uma larga margem de progressão. Para já, com A Solidão dos Números Primos, alinhando pela Bertrand, atingiu as quatro edições.

Equipa técnica
Carlos da Veiga Ferreira (treinador): com uma equipa ímpar, desperdiça muitas vezes alguns talentos, por não os tratar bem. Falha no plano técnico.
Luís Oliveira (treinador-adjunto): familiarizado com o mercado internacional, tem-se esforçado por trazer a melhor técnica possível para o campeonato português. Dele apenas se poderá esperar o que é fundamental. Da velha guarda, defende que os jogadores não devem ser apenas bons – têm de ser igualmente bonitos, de aspecto cuidado.
Andrew «Chacal» Wyllie (preparador físico): ninguém como ele é capaz de consolidar valores e recuperar um jogador perdido, colocando-o na equipa correcta. Bolaño é apenas um dos mais recentes exemplos. Diz-se que outros se seguirão. É igualmente um olheiro de sonho.

(*) Paulo Ferreira é consultor editorial na Booktailors, da qual é um dos fundadores. Com a pós-graduação em Edição: Livros e Suportes Digitais da Universidade Católica Portuguesa, co-lecciona actualmente no mestrado de Edição da Universidade de Aveiro a cadeira de Marketing do Livro.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 12/Fev/10
Sex, 12/Fev/10
N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER, de Dezembro de 2009.

UM JOGO ENTRE LINHAS - SELECÇÃO NACIONAL,
por Paulo Ferreira (*)

Grupo Porto Editora
Continuam a ser líderes no segmento escolar e paraescolar, com larga vantagem. Como pretendem manter essa posição, continuam a investir. Apresentam-se igualmente, e cada vez mais, como um player a ter em conta nas edições gerais. Estão a apostar no retalho – convencional e online – e revelam uma invejável preparação para o mercado digital.

Herberto Helder, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, Jorge de Sena
É uma defesa de sonho do património literário português. Já não correm como corriam, mas continuam a dar solidez a qualquer catálogo. Há que saudar, por isso, as cuidadas edições de Herberto Helder na Assírio & Alvim e as reedições, também cuidadas, da obra completa dos outros três escritores (algo esquecidos e marginalizados por um país que nunca tratou bem os seus melhores).

António Lobo Antunes
É também um dos grandes defensores da língua portuguesa. Um rochedo. Já não marca tantos golos, e às vezes já nem isso se lhe pede. Só que jogue. Passa jogador, não passa a bola. E com ela faz o que quer.

valter hugo mãe
Extremo literário, é um dos grandes trunfos da literatura portuguesa. Protagonizará em breve uma das principais transferências do campeonato.

Mia Couto
O estilo muito próprio tem dificultado a sua internacionalização. É um dos casos em que uma carreira profissional paralela tem sido essencial para poder manter-se em jogo.

José Eduardo Agualusa
Extremo criativo, tem-se assumido pela solidez da obra e dos golos que marca. Largamente disputado, esteve quase a mudar-se da equipa que o formou – e onde singrou para a escrita.

João Tordo
Jovem que viu o seu mérito reconhecido esta época com a atribuição do Prémio José Saramago (com quem faz dupla atacante). Espera-se que seja um dos jogadores mais disputados do mercado a breve trecho.

José Saramago
Pela esquerda. Sempre. É o capitão de equipa e por isso protesta muito. Podia estar na defesa, mas continua a marcar demasiados golos. Há quem defenda que deveria alinhar pela equipa adversária – um clássico.

Suplentes
Miguel Sousa Tavares: ainda à espera da consagração como titular. É pouco utilizado como exemplo nas palestras dos treinadores, mas festeja muitos golos. Sempre que entra, resolve. M. S. T. podia ser o Liedson, mas não passa do Mantorras da literatura portuguesa.
Pedro Vieira: à espera de uma oportunidade, é um jovem de quem muito se espera.

Equipa técnica
Eduardo Lourenço (um senhor treinador): o grande patrono do que é ser português. A sua voz é ouvida por todos os jogadores.
Manuel Alberto Valente (adjunto e olheiro): em pesquisas, reuniões e jantares, tem descoberto autores goleadores. Mas também defesas sólidos, com pendor atacante. Pela sua grande capacidade de adaptação a diferentes ambientes, é o relações públicas da Selecção Nacional.
Maria do Rosário Pedreira (preparadora física): cura lesões, acelera recuperações. Implacável, exige sempre mais. É uma grande aliada dos jogadores. Das suas mãos nasceram recuperações quase milagrosas e algumas consagrações. Tem especial pontaria para o Prémio José Saramago, que raramente lhe foge. Cartão vermelho para o estilo e para a forma como trata alguns jogadores, deixando-os lesionados para o resto da vida.

[Resto do Mundo]

(*) Paulo Ferreira é consultor editorial na Booktailors, da qual é um dos fundadores. Com a pós-graduação em Edição: Livros e Suportes Digitais da Universidade Católica Portuguesa, co-lecciona actualmente no mestrado de Edição da Universidade de Aveiro a cadeira de Marketing do Livro.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 10/Fev/10
Qua, 10/Fev/10
N.E.: texto publicado originalmente no jornal Metro.

A CULTURA DA BORLA,
por Rui Zink (*)

Querido Metro,

O caso Face Oculta não é nada, comparado com o caso Face Culta. No Face Oculta, o problema é um empresário ter distribuído dinheiro a rodos em troca de favores. No Face Culta, o problema é as empresas quererem favores sem distribuírem dinheiro nenhum. É que a cultura é a área na qual há a cultura de não pagar — não atribuir um valor — a grande parte do trabalho que se faz. Idas a escolas «falar com jovens», apresentações de livros, debates, conferências, leituras críticas, é toda uma indústria que vive da vergonha do dinheiro, dos «conhecimentos», dos «contactos», das «amizades». E, na sua face mais sórdida, do «uma mão lava a outra», a sugestão ignóbil de que, se dermos uma borla hoje, pode ser que amanhã nos atirem um ossito. Sei do que falo, porque chapinho nesta área há quase 30 anos. E eu próprio já cravei artistas — pode-se lá viver sem ter cravado artistas! Mas é feio. Todos os anos, dezenas de escritores vão graciosamente a centenas de escolas. E, se nunca nos sentimos explorados pelos professores ou pelos alunos, o mesmo já não direi do ministério, que devia ter uma verba para estas minudências. As televisões ainda são piores. Não há semana em que não chova um convite, o que é simpático, só que… Este é um caso de corrupção tão enraizada que ninguém dá por ele. E o pior é que não há nenhum Empresário Godinho a distribuir cheques! Se houvesse não estaria eu para aqui a jeremiar. Mas não, como «a cultura não tem preço», e o artista é de «pensamentos elevados», nicles cacau, népia pilim, nanja verdum. Isto depois é contagioso: incautos comerciantes que não oferecem nem um cafezinho (55 cêntimos) estranham que um escritor não lhes dê um livro (14 euros). Para já não falar de primos, vizinhos, amigos, jornalistas. Entrementes, o polvo lá vai cantando e rindo, fazendo ao mesmo tempo de corruptor e de PJ: «Se continuas a recusar-te a dar-nos borlas, pá, garantimos-te o anonimato.»

(*) Nascido em Lisboa em 1961, Rui Zink é escritor e professor no departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo também aí coordenado a pós-graduação em Edição de Texto. Autor de uma vasta obra ficcional traduzida em várias línguas, O Destino Turístico, publicado pela Teorema em 2008, é o seu romance mais recente.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 8/Fev/10
Seg, 8/Fev/10
A ESCOLHA DE VALDANO,
por António Manuel Venda (*)

Não que os grandes escritores não saibam escrever histórias de futebol. Nada disso. O que acontece é que as histórias de futebol escritas por grandes escritores poucas vezes me interessaram. Na volta, o problema é meu. Por exemplo, Camilo José Cela, que tem um livrinho (Onze Contos de Futebol, edição da ASA), escrito nos anos 60 do século passado… Em páginas ao calhas, encontram-se coisas como «se corre o notório risco de terminar enforcado, o árbitro deve abster-se de assinalar penáltis, castigo que pode ser substituído pelo livre ou até pelo deixar jogar»; mas o que mais há é coisas como «no céu voou um abutre sem penas a que chamam xofrango-quebranta-osso, enquanto as viúvas de mau agoiro (roídas de inveja) ficavam com a voz embargada na garganta». Comprei o livrinho por atenção ao notável escritor galego, mas lê-lo com o fascínio com que li outros livros dele, nem pensar nisso...

Antes do Verão de 2002, com um mundial de futebol quase a começar, foi editado pela Relógio d’Água um livro chamado Contos de Futebol, com nomes como Alfredo Bryce Echenique, Javier Marías ou Osvaldo Soriano. Sem caírem na prosa cifrada do Cela dos Onze Contos…, as histórias acabaram por também não me interessar muito. Do livro, a que retive, a que nunca mais esqueci, foi a do coordenador da edição, Jorge Valdano, o famoso futebolista companheiro de Maradona na selecção argentina que foi campeã mundial em 1986 (e talvez uma de Julio Llamazares, sobre o penalty falhado por um jogador do Deportivo de Coruña, no último minuto da última jornada do campeonato espanhol e que custou aquele que seria o primeiro título nacional do clube galego).

Valdano conta a história de um guarda-redes que nos sonhos defende um penalty no último minuto de um jogo que está empatado a zero. Um dia, acontece na realidade, a 4 minutos do fim. Ele atira o boné para dentro da baliza antes de se colocar na posição para tentar agarrar a bola. E acaba por defender o penalty, tornando-se o herói da multidão, por uns segundos, até ao momento em que, com a bola bem segura, entra na baliza para ir buscar o boné.

*

Uma vez, em Madrid, perguntei a Valdano, durante uma entrevista, se a história era verdadeira, e ele disse-me que a ouvira contar desde pequeno, mas que não se tratava de uma situação real. Seria, contudo, possível no futebol, por isso a tinha escrito; para ele, era uma das muitas histórias de perdedores, uma história que mostrava as duas faces do futebol em poucos segundos, o herói e o proscrito.

Aproveitei para lhe perguntar também como se tinha sentido no meio de tantas estrelas da literatura, se tinha sido mais difícil do que jogar ao lado de Diego Maradona ou de Jorge Burruchaga, e ele disse-me que o mundo do futebol é que é o seu mundo. Eu acrescentei, sem que fosse uma pergunta, que todos os escritores do livro gostavam muito de futebol, e Valdano acabou por dizer-me que se sentia muito bem com eles, que tinha muitos amigos na literatura, de todas as gerações, Mario Benedetti, Francisco Umbral, Manuel Vázquez-Montalban... Referi ainda Javier Marías, um grande adepto do Real Madrid, clube onde Valdano tinha jogado e onde então era director-geral, como agora voltou a ser. Ele ignorou, quase mudando de assunto; gostava muito de escrever, disse, mas gostava ainda mais de ler. E, quando eu já não ia dizer mais nada, nem perguntar, acrescentou que, no entanto, se tivesse de escolher entre ser Borges ou ser Maradona, haveria de decidir-se por Maradona.

(*) Nasceu em Monchique, em 1968. Publicou nove livros de ficção, sendo o último dos quais o romance Uma Noite com o Fogo. Destes, alguns receberam prémios literários de instituições como o Instituto Abel Salazar, o Centro Nacional de Cultura, a Câmara Municipal de Almada, a Secretaria de Estado da Cultura e a Sociedade Portuguesa de Autores. Mantém inéditos dois livros de histórias (O Bilhete do Senhor Scolari e Políticos, esses Animais) e uma primeira aventura de um pequeno super-herói chamado Zeca Zângão (Mandriões na Roda Gigante). Trabalha actualmente em diversos projectos de ficção. Vive no Alentejo e escreve no blogue Floresta do Sul.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 5/Fev/10
Sex, 5/Fev/10
BIBLIOTECAS, LIVRARIAS E LIVROS UNIVERSITÁRIOS,
por Pedro Patacho (*)

Noticiava o El País, no final de Dezembro de 2009, no contexto de uma entrevista a Camila Alire, presidente da Associação de Bibliotecas Americanas, na altura de visita a Espanha, que nos Estados Unidos existem mais bibliotecas do que McDonald’s, cerca de 16 500 no total, e que mais de dois terços dos norte-americanos têm cartão de biblioteca, sendo que a maior parte são utilizadores assíduos.

Aquele número inclui naturalmente todas as bibliotecas, mas interessa-me aqui deter a nossa atenção nas bibliotecas académicas, situadas no interior dos pólos universitários e, por inerência, essencialmente vocacionadas para a construção de acervos bibliográficos académicos. Estas têm habitualmente, para além de uma política muito activa de pesquisa e aquisição bibliográficas, chorudos orçamentos que lhes permitem estar, com efeito, entre os principais clientes dos editores vocacionados para o público universitário, havendo mesmo editores norte-americanos que nem sequer distribuem as suas edições no circuito livreiro convencional. Outro dado interessante é que, muitas vezes, associadas à rede de bibliotecas de cada campus, estão as livrarias universitárias, cuja organização é reveladora de uma política séria de fomento do livro e de um feroz combate à fotocópia. Entrar pela primeira vez numa livraria universitária norte-americana é surpreendente para qualquer aluno ou professor português. Habitualmente, estes espaços comerciais estão divididos em corredores, que correspondem às áreas de formação existentes na instituição. Em cada um desses corredores, é possível encontrar zonas dedicadas a cada curso e, por sua vez, prateleiras dedicadas a cada unidade curricular do curso, onde se pode encontrar os livros recomendados por cada professor. Acresce o facto de, na maior parte dos casos, o cliente poder optar entre o livro novo e o usado. Há até casos em que, tratando-se de uma obra antiga fora de circulação, são vendidas as fotocópias da obra, acompanhadas de um carimbo da universidade e de uma declaração comprovando que os direitos para a comercialização daquela obra foram pagos e que as fotocópias são, por isso, autorizadas. Algo que por cá até dá vontade de rir... pelo menos foi assim que reagiram algumas das pessoas com quem partilhei estas observações. Não sei se será assim em todas as universidades públicas norte-americanas, mas pelo menos foi o que observei numa dezena de casos que conheci até à data.

À medida que, em Portugal, se reduz o espaço disponível para as publicações académicas no circuito comercial do livro generalista, seria desejável que se ensaiassem novas fórmulas para a comercialização do livro académico na rede nacional do ensino superior. Muitas instituições de ensino superior têm acervos bibliotecários modestos e não possuem qualquer espaço livreiro vocacionado para o público universitário. Fortalecer e expandir a rede de bibliotecas ligadas às instituições de ensino superior, repensar e expandir os espaços livreiros associados a essas instituições e avaliar a possibilidade de uma política de preços alternativa para estes espaços parecem-me questões a necessitar de atenção.

No meio de todo o turbilhão tecnológico em torno do sector editorial, é importante não perder de vista que é no país da Amazon.com e do Kindle que se continuam a fazer crescentes investimentos na rede nacional de bibliotecas, que se pretende fortalecer e expandir, tendo por base o livro em papel, o que não nos revela grande coisa sobre como evoluirá o comportamento dos eBooks no mercado, mas deixa perceber que o futuro do livro, tal como o conhecemos hoje, não será certamente tão sombrio como alguns se apressaram a vaticinar.

(*) Pedro Patacho nasceu em Lisboa, em 1977. É professor de Matemática e de Ciências da Natureza no ensino básico, actividade profissional que desenvolve ininterruptamente desde 1999. Mestre em Educação pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, frequenta actualmente o programa de doutoramento em Educação na Universidade da Corunha, Espanha. Em 2004, sentindo o panorama da publicação académica em Portugal e entendendo a necessidade de um projecto alternativo que oferecesse aos leitores mais possibilidade de escolha, criou as Edições Pedago, essencialmente vocacionadas para a publicação em Educação e Ciências Sociais, onde se mantém como editor e director editorial.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 3/Fev/10
Qua, 3/Fev/10
RELER
por Manuel Margarido (*)

Permanece entranhada no corpo daqueles que contam mais de cinquenta anos, dizem, a memória deste vírus que novo dizem. Antigo será então, cinquenta anos séculos contariam na história dos vírus, tivessem eles memória. E têm. Recordam-se das barreiras que terçaram, e em lembrando recombinam-se para enganar a memória orgânica dos que têm mais de cinquenta anos. Não enganam, por poderosa ser a biblioteca do corpo destes homens, destas mulheres. Em meninos combateram na trincheira do sistema imunitário, viveram para ainda transportarem a memória de um triunfo. São mais fortes, os que envelhecem. Relêem a gripe A. Não precisam muito de vacinas.

(E não se resgatarão um dia da morte, seja como for.)

Melhor seria o emprego de inesgotáveis lotes de vacinas (best-sellers, apropriados Livros do Ano) contra a memória do que já lemos. Um paliativo para combater a sua febril redescoberta, os arrepios, a suspensão do próprio respirar. Porque, ainda que passado muito tempo, num livro que nos atacou até às entranhas opera-se uma proeza de transmutação: sendo o mesmo é fatalmente outro. Mais poderoso que a nossa indefesa memória, feliz e rendida, por via de ser ela a recombinar. E assim se derrotar.

Pego nos Sonetos do Antero, rascunhados a lápis aos dezasseis anos. Releio: «Só males são reais, só dor existe;/ Prazeres só os gera a fantasia;/ Em nada, um imaginar, o bem consiste,/ Anda o mal em cada hora e instante e dia.» Anotada, a lápis, a palavra sentencioso. Expus-me ao Antero com dezasseis anos. Febril, fervi. A ele volto, outra vez me assola, três décadas mais tarde. E não tenho defesas para a contagiosa emoção que inaugura; nem vacina para a palavra que escreveria hoje: lúcido.

No trânsito da memória emotiva é devastador reler; nada que se compare à inútil mutação de um vírus na memória do corpo dos que têm mais de cinquenta anos.

(Resgata-nos um dia à morte, seja como for.)

(*) Manuel Margarido é consultor de comunicação, editor, publisher e escritor. Vive em união de facto com a poesia. É autor do blogue As Folhas Ardem.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 1/Fev/10
Seg, 1/Fev/10
N. E.: Texto originalmente publicado aqui.

DA DISTRIBUIÇÃO NOS TEMPOS DA CONCENTRAÇÃO — CONSIDERAÇÕES,
por Hugo Xavier (*)

Hoje tive uma conversa com outras pessoas do meio sobre as realidades do sector e abordámos, ao de leve, a questão dos paradigmas da distribuição. Isto levou-me a pensar um pouco sobre a influência que a actual situação de mercado tem e virá a ter em breve na distribuição e, no prisma inverso, a influência que a actual situação da distribuição poderá ter na situação presente e futura do mercado editorial. Estas considerações partem de uma posição que tenho defendido e continuo a defender: o digital demorará mais do que se diz, e ficar parado à espera da sua chegada será um erro para distribuidores e editores.

Vamos, pois, considerar duas realidades diferentes: as distribuidoras independentes e as distribuidoras ligadas a editoras ou grupos editoriais.

No caso das segundas, a situação contemporânea comporta duas possibilidades: ou se trata de um grupo grande cujo output ocupa os recursos dos sectores comercial e logístico da distribuidora, ou essa distribuidora terá de procurar rentabilizar os seus recursos. Para este fim, recorrerá, geralmente, à distribuição de editoras externas ao grupo, mas isso acarreta um dilema de difícil resolução.

Se o grupo está orientado para uma área específica de trabalho, dificilmente a equipa comercial conseguirá impor ou ter capacidade de trabalhar livros de áreas diferentes. Contudo, se a distribuidora trabalhar com editoras com afinidades temáticas e/ou genéricas, estará a criar concorrência interna e dará por si a preferir os livros «da casa».

A única solução que antevejo para esta questão reside na criação de equipas de comerciais independentes dentro da distribuidora. Isto acarreta custos e, obviamente, volta a colocar em questão o máximo aproveitamento de recursos… Estamos perante a velha pescadinha-de-rabo-na-boca. Mas traz também uma concorrência interna saudável e não autofágica, que pode rentabilizar, e muito, cada um dos clientes distribuídos.

No que toca às distribuidoras independentes, a situação é complicada mas solúvel. Ainda assim, antes de entrarmos nesse assunto, convirá fazer uma pequena radiografia do mercado das distribuidoras independentes. Os seus clientes repartem-se entre os grandes grupos livreiros, que representam cerca de 60% a 70% do mercado; os livreiros independentes, que representam, quase por inteiro, a percentagem remanescente; e os clientes institucionais e excepcionais, que detêm uma percentagem mínima e variável.

No que toca aos grandes grupos, não haverá questões de maior: o seu paradigma de funcionamento não precisa, salvo no que toca a uma maior profissionalização, de grandes alterações.

Quanto aos livreiros independentes, na minha opinião, ou se dá, efectivamente, a criação de uma associação de livreiros independentes que lhes permita concorrer enquanto grupo de grande dimensão, ou acabarão «esmagados» pelos grandes grupos, reduzidos ao número das livrarias alternativas essenciais — aquelas que fazem, de facto, um trabalho de excepção ou são «salvas» por factores específicos (localização, decoração, enfoque especial dos títulos apresentados, etc.) —, e prevejo para um futuro breve esta calamidade. Unidas, criando uma central de compras ou pelo menos um sistema centralizado de encomendas com uma gestão financeira apoiada e realista, talvez ainda consigam ir a tempo de aparecer e impor a sua força no mercado. Claro que o problema das LI será o dinheiro para estas mudanças, mas, se se apresentarem como grupo e com um projecto financeiro consciente, o seu peso terá, decerto, influência junto das instituições de crédito.

Quanto aos clientes excepcionais e institucionais, há, na minha opinião, muito trabalho a fazer. A criação de mercados de escoamento alternativo tem de ser trabalhada de forma criativa. E aquilo que sempre me pareceu grave por parte de editoras e distribuidoras é a falta de imaginação na procura e criação destes canais alternativos, que têm um enorme potencial em conjunto. Sobre esse assunto, gostaria de voltar a falar no futuro, mas agora ocuparia demasiado espaço.

A solução para as distribuidoras independentes passa por uma reconfiguração, face à realidade de um mercado em que os clientes distribuídos dificilmente terão peso enquanto clientes individuais, quer em volume quer em espectro.

Numa evolução natural do sector, iremos, assim o creio, assistir a uma redução no número de distribuidoras independentes. Sobreviverão as que se saibam adequar à nova realidade dos seus clientes e saibam ter uma ideia formativa do catálogo de representação. Claro que isto trará, também por si, uma triagem muito mais efectiva do âmbito real da qualidade do que é editado (ou pelo menos do que é aceite para distribuição). A empresa que, até agora, distribuía tudo, passando despercebida no meio de muitas outras, vai começar a destacar-se pela falta de qualidade ou, pelo menos, pela irregularidade qualitativa e comercial da sua oferta, e terá de combater essa situação exigindo dos seus clientes padrões que lhe permitam manter-se no mercado.

Tendo em conta esta evolução necessária e a inerente redução do número de distribuidoras independentes, o serviço destas terá de ser reconfigurado à semelhança do que acontece noutros países. O tratamento desleixado e a falta de informação prestada aos seus clientes editoriais terão de ser totalmente invertidos. A distribuidora que dê dados reais e concretos, mapas geográficos, de marketing e contabilísticos de vendas terá uma enorme mais-valia. Mas não pode ficar por aqui: as distribuidoras, à semelhança do que acontece lá fora, terão de assumir serviços que os seus pequenos clientes não conseguem assegurar, como serviços de marketing, publicidade e promoção, de apoio estratégico ao editor e talvez mesmo de apoio financeiro, em casos específicos e justificados.

A criação de accounts para cada cliente é um passo incontornável para o futuro. Para um tratamento próximo do cliente e para a distribuidora ter, ela própria, uma noção clara dos resultados e do potencial de cada cliente, esses accounts deverão acompanhar toda a fase promocional e de marketing e poderão mesmo apresentar sugestões no que respeita à política estratégica da editora.

Se esta evolução não tiver lugar, creio que viremos a assistir, muito em breve, a um processo calamitoso de ruptura no mercado editorial, onde apenas as raras empresas iluminadas, capazes de alterações como estas, virão a garantir elementos de diferenciação e potencial «ofensivo» contra os grandes grupos.

(*) Nascido em 1976, formou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Trabalhou como assistente editorial na Vega e, posteriormente, preparou projectos de relançamento editorial para a Civilização e a Estúdios Cor. Em 2003, com Diogo Madre Deus, fundou a Cavalo de Ferro. Foi ainda director editorial do grupo Fundação Agostinho Fernandes para as áreas de Ensaio, Poesia e Ficção.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue. | Participe no inquérito aos leitores do Blogtailors aqui.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 2/Dez/09
Qua, 2/Dez/09
Informamos os nossos leitores que a actividade da coluna de opinião do Blogtailors é interrompida durante a época natalícia, regressando à sua periodicidade habitual em Janeiro de 2010.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 30/Nov/09
Seg, 30/Nov/09
N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER.

A INDÚSTRIA DO LIVRO – UM FUTURO INTERROGATIVO
por Francisco José Viegas (*)

De que fala esta revista desde 1986? De livros. De literatura e de não-literatura – mas de livros. Do mundo português dos livros. Livros impressos em papel, encadernados, cheirando a papel e tinta, dispostos nas estantes das livrarias e das bibliotecas, recordados e criticados (amados, detestados) por centenas de autores de textos que, ao longo dos últimos 23 anos, colaboraram nas páginas da LER.

De então para cá, o mundo alterou-se substancialmente – mas ninguém pôs em causa a existência do livro, a sua longevidade, o seu futuro, a sua necessidade. Está na altura de o fazer, nem que seja como simples «hipótese académica»: o livro, tal como o conhecemos hoje, pode desaparecer a prazo. As «hipóteses para o futuro» estudadas por várias fundações, organismos internacionais, institutos privados ou públicos acentuam essa perspectiva: a de o mundo do livro poder vir a alterar-se gradualmente na próxima década – o que se traduziria no aumento crescente de livros disponibilizados em suporte digital, e na diminuição da percentagem de livros impressos em papel e publicados para o circuito tradicional de livraria. Esta hipótese, por mais «criativa» que seja, devia fazer pensar a indústria do livro (mais do que os leitores propriamente ditos, que não deixariam de ler).

Vamos por partes. A primeira delas: a «indústria do livro» aprendeu pouco com a crise vivida pela «indústria da música». Confiante na plataforma tradicional do papel impresso, transformou a palavra «longevidade» na palavra «eternidade», e prefere evitar a discussão franca e aberta sobre os próximos anos. Compreende-se: por um lado, a «indústria editorial» vive do negócio do papel impresso; por outro, admitindo que reflecte sobre o assunto, fá-lo em segredo, porque este é, ainda, a alma do negócio. Há, por isso, quem esteja mais e menos preparado para os próximos tempos.

A segunda: não relacionando a crise da «indústria musical» com o seu trabalho, pretende afirmar a especificidade do seu negócio e do seu ofício, como se – ao longo dos últimos 30 anos – não tivesse senão seguido as pisadas da sua congénere, dedicando parte substancial do seu trabalho a transformar a edição de livros em edição de puro entertainment.

A terceira: no mundo da «indústria editorial», só os editores e os autores estarão em condições de enfrentar as dificuldades que se prevêem. Esta é a boa notícia mascarada de boa notícia. A má notícia mascarada de má notícia ou de boa notícia, consoante a perspectiva em que cada um se coloque, é que a indústria gráfica e as redes de distribuição e de comercialização sofrerão muito mais. O que pode levar muita gente a pensar que há uma vantagem perversa nessa vitória do e-book: desabará a má economia com que os editores têm, actualmente, de alimentar um circuito de distribuição perverso. É provável que os editores possam publicar sem terem de investir tanto em margens comerciais e num sistema de intermediários que, realmente, têm cada vez menos a ver com o livro em si mesmo (a sua qualidade, a sua natureza e a sua fragilidade), e mais com a natureza irremediável das redes de distribuição e a imposição das suas regras.

Fazer o download de um livro pela Net dispensará uma série de etapas. Era bom que essas pessoas e empresas (que hoje são «as etapas») estivessem de sobreaviso. Actualmente, são elas que detêm grande parte do poder de decidir a sorte ou a má sorte de um livro do ponto de vista puramente comercial – talvez por isso devessem tratar melhor os editores e os autores, esforçar-se mais, escolher melhor, pensar que a capacidade do mercado não é infinita e que é necessário reinventar ou inventar outros instrumentos para vender livros e prolongar a sua vida nas estantes.

A indústria do livro deve retirar lições – e lições importantes – sobre o que aconteceu com a indústria da música, onde as equipas comerciais e a rede de distribuição foram queimadas vivas (ou estão moribundas) porque, entre outras coisas, sacrificaram os editores e os autores. Podemos dar as mãos e evitar isso. Porque a forma como «o retalho» está a sacrificar os editores, afunilando as escolhas de livros para venda, é apenas uma fuga para a frente. Se o e-book triunfar, daqui a 10 ou 20 anos, vai restar apenas um pouco desse mundo. E já vai ser tarde para se arrependerem. Ou nos arrependermos.

(*) Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor. Multipremiado enquanto autor, desempenha actualmente as funções de director editorial da Quetzal e de director da revista LER. Distinguido com o Prémio APE, pelo romance Longe de Manaus, o seu romance mais recente intitula-se O Mar em Casablanca.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Sex, 27/Nov/09
Sex, 27/Nov/09
VALE A PENA PUBLICAR?
por Nuno Seabra Lopes (*)

Quantas são as vezes em que um editor se confronta com esta questão? Quem trabalha diariamente entre provas e manuscritos, sabe que esta é uma pergunta constante do trabalho de editor. Semanalmente, chegam-lhe obras em avaliação, e a pergunta insinua-se: vale a pena publicar? Na resposta a dar, têm-se envolvido cada vez mais pessoas, os comerciais e o departamento de marketing, a administração e um conjunto de outras personagens, que têm respostas mais ou menos pensadas de acordo com a sua visão dos livros e com as suas necessidades de trabalho. Mas que visões são essas?

* * *

Valer a pena publicar foi sempre uma decisão difícil, uma decisão editorial que é sinónimo de investimento num livro em detrimento de outro. O resultado final corresponde à nossa produção, logo, àquilo que ditará o sucesso, financeiro ou de outro tipo, da editora e do editor.

Independentemente do facto de a decisão respeitar, por vezes, critérios diferenciados, dos mais culturais e pessoais até questões de posicionamento ou de comunicação, o factor mais comum nas principais empresas do ramo editorial é a capacidade de determinado título gerar dinheiro. Como empresas que são, é vital que os livros dêem dinheiro para poderem sobreviver, pagar salários e ter lucro.

Essa análise da obra – que considera a capacidade de um livro gerar dinheiro – é já feita, muitas vezes e nas principais estruturas, com base numa avaliação que ultrapassa o produto e o editor. As velhas interrogações do editor («existe mercado para este livro?», «será que há gente suficiente para o comprar?») são restritivas e insuficientes para os dias de hoje. Daí que as editoras pensem já para além dos seus livros e tenham em atenção tanto o mercado quanto as suas vantagens competitivas face à concorrência.

Em relação ao produto, se considerarem que é bom, verão também se o conseguem produzir com um custo tão baixo ou com uma margem semelhante à da concorrência. Se fazem algo barato, procuram averiguar se, na concorrência, existe outro produto mais adequado, e por aí em diante. Isto é, avaliam o livro de forma global, olhando para além dele próprio e comparando-o com o que existe no mercado.

Como em todos os mercados, este funciona também em concorrência, e os nossos produtos – por mais únicos e individuais que julguemos que sejam – têm de vingar num mercado onde outros cumprem as mesmas motivações e têm como destinatário o mesmo público final. Ou seja, são observados na sua adequação para a mesma função, face ao mesmo preço.

Hoje em dia, valer a pena publicar tem menos a ver com o livro do que connosco: os nossos recursos, a adaptação e a experiência da nossa estrutura, a nossa capacidade comercial, o valor da nossa marca, etc. Valer a pena publicar é uma questão que vai para além do mero palpite, e muitas editoras sabem-no já, pois especializam-se e criam enfoques, direccionam marcas e procuram criar a sua estrutura apostando somente nos elos que lhes dão riqueza.

Daí que, hoje em dia, tantas pessoas se envolvam na decisão de publicação de uma editora, porque editar já não é só uma função do editor.

(*) Nuno Seabra Lopes é licenciado em Estudos Europeus, tem Especialização para Técnicos Editoriais e Mestrado em Estudos Editoriais. Trabalha desde 1999 no sector da edição, sendo Especialista Convidado do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É sócio-fundador da Booktailors e consultor editorial especializado nas áreas da Edição e de Estratégia.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 25/Nov/09
Qua, 25/Nov/09
N.E.: Texto originalmente publicado aqui.

O AMOR DOS ESCRITORES,
por Senhor Palomar (*)

Escritor é gente que não sabe amar sem meias medidas - nem à vez, já agora - sendo conhecidas as muitas infidelidades de J.-P. Sartre, que tanta angústia trouxeram a Simone de Beauvoir. Já Jorge Amado afirmava que «não se pode dormir com todas as mulheres do mundo, mas esse esforço deve ser feito». Há um autor das Publicações Dom Quixote que está sempre reunido de mulheres - como um íman, vejo-o trocar copos e sorrisos. Numa entrevista de vida, António Lobo Antunes (outro autor Publicações Dom Quixote) disse a João Céu e Silva que não tinha tido assim tantas mulheres. O interlocutor, que se dispôs a reunir numa longa entrevista o vasto percurso biobibliográfico do autor, colocou uma nota para o leitor, confirmando que, na verdade, foram muitas. Não é que de facto, para o vulgar humano, não tivessem sido muitas as mulheres que António Lobo Antunes teve. Por isso nem o escritor estava a mentir, nem o comentário do interlocutor era despropositado. Cada um de nós vê o mundo com o seu olhar, e todos nós temos bagagem quando embarcamos. Por isso, e porque António Lobo Antunes não parece ter um problema com a aritmética, o que ali se assistiu foi a diferença de mundo entre um vulgar homem e um (grande) escritor. Se nos comovemos com o que escrevem, é porque o fazem de forma exacerbada e única. E, se há autores que precisam de uma musa, na verdade, o que eles estão a dizer é que precisam de materializar numa ideia o mundo todo. Todas as mulheres. Uma por uma: as belas, altas, magras, mas também as gordas, as feias, as desajeitadas.

São conhecidas as aventuras amorosas de Lobo Antunes, em que mulheres lhe dão o número de telefone em caligrafia delicada, esperando que sejam uma das eleitas. Algumas, ao que parece muitas, são-no. Não será por isso à toa que muitos convidados acabaram por ser expulsos do local onde o escritor escrevia. Estavam a mais. O autor precisava de amar. Só mais um pouco. Uma amiga do Senhor Palomar fez uma vez uma pergunta ao autor de Manual dos Inquisidores numa sessão pública. A pergunta perdeu-se no vozeirio e nos silêncios da sala. Mas Lobo Antunes não a esqueceu: nem a ela nem à pergunta. No final, disse-lhe que gostara da pergunta. Estiveram 30 minutos a falar, só os dois. Durante aquele período, a amiga confirma-me que ele passou o tempo todo a olhá-la. Foram apenas 30 minutos da sua vida, mas volta e meia conta-me a história. Again and again. Ela conta sempre isto sem se importar, como se o olhar de António elevasse, ou pelo menos não pesasse. Talvez seja isso.

Claro que existe sempre o outro lado, bem como o machismo latente em cada uma das frases que o Senhor Palomar escreveu até aqui, coisa de que o narrador não quer ser acusado pela Senhora Palomar. Ela sabe que não é assim, bem certo, porque já o conhece o suficiente, mas nada como colocar os pontos nos is. Claro que o outro lado o comove (não preocupa). Nem mesmo uma mulher independente e livre como Simone de Beauvoir era capaz de lidar, sem sofrer com essa situação, com os muitos amores do Nobel francês. E é claro que tudo isto que foi dito nos primeiros parágrafos desculpabiliza uma série de choros e tristezas. Houve vidas decepadas e rotinas destruídas, que acabaram na caixa de urgências. Houve quem nunca mais dali saísse. Mas isso dá-se apenas porque ainda não percebemos que escritor é um bicho. É um bicho com mais ventrículos e aurículas que o vulgar homem. Escritor acha que ali caberá, sempre, todo o mundo. E o mais provável é que caiba mesmo.

(*) Benfiquista, Senhor Palomar é uma ficção de uma ficção e mantém o blogue homónimo. Tem 31 anos e cursou Ciências da Comunicação. Gosta de livros. E de tostas mistas.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 23/Nov/09
Seg, 23/Nov/09
N.E.: texto publicado originalmente no jornal Metro.

UM SANTO HOMEM,
por Rui Zink (*)

Querido Metro,

acho que há uma prova da existência de Deus: é que uma entidade da qual passamos a vida a falar tem forçosamente, nem que seja na nossa cabeça, de existir. Aliás, quando está escrito «No princípio é o verbo», isso dá para os dois lados, como de resto tudo no texto bíblico: dá para falar da criação do mundo (foi a Palavra Divina), e também para dizer que é através da palavra (humana) que a humanidade descobre Deus. Por isso me zango quando as pessoas dizem «é só conversa», «o silêncio é d’oiro», «eles falam, falam, falam». É que não é só a falar que a gente se entende, é a falar que a gente é gente. No princípio é o verbo? Pois no meio e no fim também. A palavra é divina, mesmo quando não é palavra divina. Dito isto, confesso que gosto muito do Saramago e gosto muito da Bíblia. Ambos têm idade para merecer o nosso respeito e ambos dizem coisas controversas, umas vezes mais acertadas, outras mais perturbantes – mas sempre folgazões e intrigantes. Um grande livro, um grande homem, e sobretudo ajudam-nos a viajar. No viajar é que está o ganho. Saramago não é teólogo? Graças a Deus, pois a religião é uma coisa demasiado séria para ficar só entregue a especialistas. O bom José tem a autoridade de quem conviveu com o mundo e a linguagem ao longo de toda uma vida. Não será um erudito do texto sagrado, mas pensa pela própria cabeça, sabe ler, leu muito, tem voz própria, e é isso que se espera dum escritor. E querem maior prova da existência de Deus que um ateu, aos 87 anos, esmiuçar o episódio de Caim, o proscrito, resgatando-o como irmão humano? Ou gesto mais generoso do que estender a mão ao primeiro dos «malfeitores», ao contrário dos que (tenho uma lista) passaram estes dias a praticar a triste arte da preterição, dizendo que nem vale a pena falar do assunto de que estão a falar? Com franqueza, se isto não é um santo homem, indiquem-me o vosso santo caixote do lixo.

(*) Nascido em Lisboa em 1961, Rui Zink é escritor e professor no departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo também aí coordenado a pós-graduação em Edição de Texto. Autor de uma vasta obra ficcional traduzida em várias línguas, O Destino Turístico, publicado pela Teorema em 2008, é o seu romance mais recente.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 20/Nov/09
Sex, 20/Nov/09
BANDA DESENHADA – ESSA DROGA,
por Diogo Coelho (*)

Quando começou o meu vício por banda desenhada, reinava ainda a teoria entre adultos de que a BD tinha como alvo crianças demasiado preguiçosas para ler «coisas a sério». Alguns professores mais novos achavam que era uma boa estratégia para meter os miúdos a ler. Já os pais não ligavam. Desde que estivessem entretidos, não havia problema. Até ver, foi a segunda teoria que prevaleceu. O prazer de ler romances, ficção ou ficção científica veio mais tarde. Mal sabiam eles que o problema não era esse.

Tudo começou com a pilha de comics herdada do irmão mais velho, o primeiro dealer. Era chegar da escola, despachar o TPC e entreter-me a lê-los, uns a seguir aos outros, no local de trabalho dos progenitores, antes do regresso a casa. O vício arrancou com os gibis (traduções de inglês para português do Brasil): pequenos livros que compilavam dois e três comics, publicados com alguns anos de atraso. Lia-se, nos anos 1990, coisas publicadas nos Estados Unidos nas duas décadas anteriores. Este material, de qualidade questionável, fez-me confundir um pouco o português português com o português brasileiro. É «entretinha-me a ler» ou «me entretinha a ler»? (O que vale é que o Nuno Quintas ainda vai rever o texto).

Depois de devorar o que tinha em mãos, precisava de mais, e começava a ressaca. Lá vinham os empréstimos, completando o universo Marvel, com um pouco de DC à mistura (os dois principais produtores de conteúdos da BD norte-americana). Férias inteiras da escola dedicadas ao vício. Sempre super-heróis. Os tios patinhas e patos donalds tinham ficado, há muito, pelo caminho. Como se não bastasse, começava o consumo directo. Só que a mesada não dava para tudo, pelo que, durante a adolescência, o acesso permanecia restrito. Em desespero, instigava os colegas na escola, com conversas de aventuras de homens crescidos, de fatos justos e capas, a voar e a disparar raios dos olhos. Levar comics para a escola, lê-los durante as aulas, metidos no livro de Matemática, e emprestá-los. «Toma só um. Só uma vez não vicia.» Convencê-los a comprar determinados títulos, para poder ler mais e mais. Gerou-se um grupo que se excluiu dos demais. Crianças estranhas que viam o mundo de forma diferente.

Cheguei à faculdade. A liberdade aumentou na mesma proporção da mesada. Se os tios patinhas eram o álcool e a BD brasileira as drogas leves, a americana era a cocaína e a heroína. Vim de uma terra pequena para a capital e encontrei sítios com estantes cheias de trade paperbacks e graphic novels. Tudo à descoberta. De repente, tinha acesso a coisas adultas, numa altura em que os heróis da moda, para poder salvar o dia, respeitavam cada vez menos as leis. O estado era tal que passava madrugadas no vício, noite dentro, sem parar de ler. Só mais um. Só mais 15 minutos. Aulas… nem vê-las.

Já não é tão mau. Hoje em dia, a capacidade social é mais desenvolvida. Os outros já não percebem tão claramente as olheiras nem os pensamentos distantes, que deambulam por outros mundos. Trabalhar para alimentar o vício, é o que por vezes parece. Chegado ao fim do mês, as tremuras tomam conta do corpo. Arrancam os contactos com o dealer mais recente. «Quando chega o material? […]. Está atrasado outra vez?!» O pânico na voz. A dose nas mãos. Ir comprá-la a correr, durante a hora de almoço. Contar os minutos até acabar mais um dia de trabalho. Chegar a casa com o saco dentro da mochila. O delírio de ver capas anunciadas meses antes da publicação. Folhear e recordar a história interrompida durante um mês inteiro. A frustração combinada com o êxtase, ao vislumbrar as palavras no final: To Be Continued.

O meu nome é Diogo Coelho e sou viciado em BD. É a minha paixão. É a minha desgraça. É o meu primeiro amor.

(*) Diogo Coelho é viciado em BD, filmes e séries de televisão. Qualquer interacção pessoal serve somente para descrever a última obra de ficção descoberta ou para conseguir acesso a mais «drogas». Tirou um curso que pouco ou nada contribui para a sociedade. Foi «adoptado» pelos Booktailors, em Fevereiro de 2009.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 18/Nov/09
Qua, 18/Nov/09
(NÃO) HÁ LIVROS GRÁTIS,
por Nuno Quintas (*)

[Parte 1]

Um primeiro exemplo das possibilidades de edição de obras clássicas na era digital é a versão hipertextual da obra maior de William Faulkner, The Sound and the Fury. Da responsabilidade da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, esta edição apresenta uma primeira versão linear do texto, como concebido e publicado por Faulkner. Contudo, o leitor pode ordenar cronologicamente todas as sequências da primeira secção, muito fragmentária, narrada por Benjy, ou localizar, graças um código de cores, os acontecimentos e períodos a que se refere cada passo da segunda secção, da responsabilidade de Quentin.

Outra proposta diferente é a edição crítica de Madame Bovary, da Universidade de Rouen. A versão completa da inclui uma versão facsimilada do manuscrito, devidamente transcrita e com a marcação visual das emendas do próprio autor. Ao leitor é dá a oportunidade de ler o manuscrito, a transcrição ou cotejá-los entre si. Este sítio Web oferece-nos, assim, a oportunidade de surpreender o génio de Flaubert em pleno trabalho

Se o Projecto Gutenberg aposta na divulgação de clássicos em edições generalistas, para um público muito abrangente, os dois projectos mencionados destinam-se a estudiosos e a leitores tanto curiosos quanto especializados. Este tipo de trabalho continua a ser habitualmente publicado em edições académicas de maior ou menor luxo, financiadas pelo Estado e com tiragens reduzidas, que acabam inevitavelmente depositadas — e esquecidas — em arquivos e bibliotecas.

Creio que continua por fazer a reflexão acerca do futuro da edição de clássicos. Em Portugal, pelo soslaio com que a academia olha as novas tecnologias até bem recentemente (e, ainda assim, não sem alguma suspeição), continua a apostar-se nestas edições como se o seu acesso fosse vedado aos não-iniciados, e o papel fosse um suporte sagrado. Estes projectos constituem exemplos de que o cânone não esgotou a sua energia — e que os clássicos, longe de serem coisa do passado, ainda têm pela frente um futuro brilhante.

(*) Tradutor, revisor e formador. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas e frequenta o mestrado em Edição de Texto, no âmbito do qual realiza um estágio na Booktailors – Consultores Editoriais. Aventurou-se durante alguns anos pelo Norte de Inglaterra e por lá deixou parte do coração. Nasceu em 1980.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 16/Nov/09
Seg, 16/Nov/09
(NÃO) HÁ LIVROS GRÁTIS,
por Nuno Quintas (*)

Porquê ler os clássicos? Em tempos de recessão, mais não seja por serem gratuitos.

Nos últimos anos, tem-se adensado o debate em torno da sobrevivência do livro, tal como o conhecemos hoje. Sem direito a Kindle (até agora), Portugal parecia passar ao lado desta transformação profunda, um facto tanto mais surpreendente quanto a vitalidade do sector editorial nos últimos anos (e o contributo inestimável de José Afonso Furtado para esta discussão). Se dúvidas persistissem, as vendas do último romance de Dan Brown, em versão e-book, e a polémica em torno do projecto de digitalização da Google, o Google Books, parecem confirmar a entrada definitiva do livro electrónico nas contas das editoras.

Mas pergunto-me frequentemente, enquanto futuro utilizador de um e-reader, porque não regressamos aos clássicos. Não pretendo aqui reacender o sempiterno debate acerca da formação do cânone. Espanta-me, contudo, que um dos maiores acervos bibliográficos disponíveis na Internet continue ignorado, entre a avalancha de novidades editoriais e a divisão da gamela dos direitos de autor. Falo do mui ignorado Projecto Gutenberg.

O projecto nasceu em 1970, quando a Web não era ainda a 2.0, com a missão de «estimular a criação e a distribuição de livros electrónicos». Uma equipa de utilizadores provenientes de todo o mundo, com as mais variadas formações e sensibilidades, toma em mãos textos digitalizados por OCR, limpa-os de erros e ruídos, formata-os e publica-os em linha. Parece simples e, na verdade, é-o, porque a paciência e a capacidade de gestão de projectos, alguns deles de grande complexidade, conta com uma experiência de décadas. Os Distributed Proofreaders, a rede de voluntários deste projecto, vão construindo pacientemente um notável acervo bibliográfico, com a dedicação de quem tem os olhos fixos no futuro.

Ora, se a leitura de texto no ecrã do computador era tudo menos prática, os e-readers alteraram radicalmente essa experiência – e só comprovam a clarividência dos mentores deste projecto. É graças a eles que podemos hoje consultar uma biblioteca virtual de obras nacionais e estrangeiras (em permanente crescimento) ou a versão electrónica do Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo.

Mas a edição electrónica não se limita a formatar texto para monitores. Na verdade, permite produzir novas cartografias textuais e revisitar obras que julgávamos conhecer de cor e salteado.

[Parte 2]

(*) Tradutor, revisor e formador. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas e frequenta o mestrado em Edição de Texto, no âmbito do qual está a realizar um estágio na Booktailors – Consultores Editoriais. Aventurou-se durante alguns anos pelo Norte de Inglaterra e por lá deixou parte do coração. Nasceu em 1980.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 13/Nov/09
Sex, 13/Nov/09
N.E.: Apresentamos aqui o texto de Hugo Xavier, em resposta ao texto de Rui Zink, publicado na passada quarta-feira.

Após a publicação do texto hoje, o editor Hugo Xavier enviou-nos uma nova versão do texto que aqui publicamos.

COMÉRCIO E LITERATURA,
por Hugo Xavier(*)

Li o texto do Professor Rui Zink com o qual concordo em parte mas que também não deixa de ser uma generalização perigosa (algo de que tenho sido acusado diversas vezes neste blogue).

Em primeiro lugar acho curioso que seja dito que as pessoas vão para as editoras com «algumas ilusões». Isso pressupõe que, do ponto de vista do RZ, é um dado garantido que o modelo é todo igual. Ora sabemos bem que apesar de tudo ainda se publicam coisas boas, espalhadas um pouco por quase todas as editoras (até a LeYa e as filiais de empresas espanholas e alemãs). Apesar de não gostar particularmente, vi com bons olhos a coragem na publicação de Musil, por exemplo.

Mais ilusório, parece-me, é não compreender que, quando se vai trabalhar para a edição (e para qualquer negócio, já agora), é preciso pensar em fazer dinheiro. A questão está em ser-se obrigado a só fazer dinheiro ou a fazer dinheiro e não só.

O editor que se preze, qualquer pessoa que trabalhe numa editora com algum tipo de poder de decisão ou pelo menos de sugestão editorial, tem de estar preparado para saber vender o seu peixe. Leiam-se as trocas de correspondência entre Eça, Camilo e os seus editores. Nada disto é novo, só que estamos numa sociedade em evolução onde o marketing dita padrões, a promoção gera modas. É uma necessidade que o editor seja adaptável porque a cultura é cada vez mais interdisciplinar e adaptável também ela. O editor tem de saber navegar entre as correntes e as modas. Tem de ter ao seu lado um bom departamento de marketing e promoção e, sobretudo, ser capaz de percepcionar o imutavelmente garantido segredo da literatura que vende. Essa defeniu-a Aristóteles na sua «Poética» e nada mudou de lá para cá. É a literatura do exemplo, aquela com que os leitores se identificam porque diz algo sobre a sua realidade. É uma literatura de referentes e não a literatura erudita de alcance minoritário. Mas, atenção, que nada disto significa que esta literatura que vende seja má literatura. A história da literatura abunda de exemplos de escritores best-sellers nas suas épocas que entraram para os cânones e de outros que foram totalmente esquecidos. O tempo gera, normalmente, o factor de diferenciação.

Não percebo como evitar o ponto 1) que o RZ enuncia. Nós editores somos humanos. Concordo com o ponto 2) e acho ridículas as situações enunciadas nos restantes. Possíveis mas longe de generalizadas.

A realidade é só uma: é possível apresentar ao público boa literatura (ficção, não-ficção) mostrando a esse público o que há de comum entre a obra e a vivência ou ambição de vida do leitor potencial. Para esta realidade acontecer é preciso uma boa máquina de promoção, porque é assim que o mundo hoje funciona e não se pode escapar a isso.

Claro que concordo com quase tudo o resto que o RZ indica, mas creio que falta explicar porque é que as coisas não devem ser como são e esse é o ponto fulcral, a lacuna principal no texto do RZ.

Esse problema essencial já eu o foquei repetidas vezes neste blogue e noutras ocasiões e locais. É a obrigação que o profissional do sector livreiro tem para com esse mesmo sector e, por conseguinte, para consigo mesmo. Num sector dependente de uma franja reduzida de compradores/clientes/leitores com tendência para se reduzir ainda mais, tem de ser tarefa importante do profissional do livro saber trabalhar para o público que tem mas, mais do que qualquer outra coisa, trabalhar para o público que ainda não tem. Tem de se ganhar novos leitores e isso só se faz com um sistema de ensino diferente, que apele para o gosto e comum trabalho na área editorial, que aproxime o público do produto.

E agora, mais uma vez, concordo totalmente com o RZ: não é o produto que tem de se aproximar do leitor, mas não deixa de ser o trabalho do editor analisar o público e saber como comunicar o seu produto a um leque mais alargado de público. Os truques existem e são truques honestos. Um exemplo que irrita muita gente são as capas de livros com elementos gráficos referentes a filmes. Se estamos a falar de uma boa edição de um bom livro, não vai ser essa capa (ou pelo menos não deveria ser essa capa) a afastar o público conhecedor e reconhecedor de qualidade e, ao mesmo tempo, pode ganhar-se alguns leitores potenciais.

Na área em que tenho trabalhado habitualmente, a da ficção, procurei sempre entender porque é que algumas coisas vendem e outras não e se há algo de que tenho a certeza é que a modernidade (englobando a pós-modernidade) afastou quase definitivamente o artista do público. A arte com aspirações a arte não procura linguagens comuns, funciona para um sector hermético de entendidos ou pseudo-entendidos. Deixou de ser um factor de interligação para ser um instrumento de elitização.O artista é egoísta nos tempos que correm. Quer fazer o que gosta de fazer e escrever na sua linguagem, meramente porque os tempos e filosofias actuais sugerem que apenas a criação pela criação é válida. De uma forma lata acho que a cultura tem, neste momento constrangedor, o maior perigo e maior candidado a némesis que se possa imaginar. O artista deve procurar expressar-se de forma a ser entendido, e se isso implica que tenha de usar uma linguagem «das ruas», assim terá de ser. Conseguir com os instrumentos comuns fazer algo que seja arte, esse é o verdadeiro talento. E quando olhamos para trás na história do Homem, vemos que os grandes exemplos de arte são esses mesmos: os que ainda hoje, de uma forma ou de outra comunicam com o seu público mas também com os outros.

Nesse espírito, o trabalho de um editor está em encontrar o equilíbrio e saber defender essa visão perante o administrador-gestor; saber explicar que algumas coisas se publicam porque fazem dinheiro, outras porque dão prestígio e que algumas, poucas, conseguem ambos os objectivos. Agora, o talento do editor está em fazer este trabalho e manter fasquias de qualidade para ganhar leitores. O trabalho feito por várias editoras portuguesas ao longo dos anos é exemplificativo. Vejamos a Presença, por exemplo: publica prémios Nobel, escritores consagrados, clássicos e todos em edições cuidadas, publica muitos novos autores nacionais, promove-os. Ao mesmo tempo, não deixa de publicar Nicholas Sparks, J. K. Rowling, Susanna Tamaro, séries de literatura infanto-juvenil de qualidade, obras policiais e de ficção fantástica ou científica. E dentro de todos os moldes é das editoras portuguesas que está a construir uma posição de futuro no nosso mercado. Dentro dos vários parâmetros editoriais, faz um trabalho de qualidade (porque temos de ser capazes de dizer que Sparks tem qualidade dentro do seu segmento, que o Harry Potter também, que a Patricia Cornwell também, etc).

Assim, o que tem de acontecer é a consciencialização de quem queira trabalhar na área para que, como em quase todas as áreas ligadas ao produto/mercadoria cultural, não basta apenas ser bom para poder fazer aquilo de que se gosta. Tem de se saber adaptar aquilo de que se gosta ao gosto dos outros e trabalhar numa expectativa de alargamento e difusão cultural.

Ninguém me convence de que o afastamento da literatura do público não é, em parte, responsável pela perda de valores da nossa sociedade. A literatura e a arte foram, desde a antiguidade, meios para ensinar e transmitir valores, História e histórias de proveito e exemplo. A partir do momento em que se afasta de um prisma societário para um alcance pessoal e reduzido, perde-se esta capacidade. O editor tem, hoje mais do que nunca, de exercer a sua responsabilidade de intermediário cultural e tem de ter o talento para o poder ser dentro de uma sociedade mercantilista e capitalista. E é possível fazê-lo, só que o talento não se produz em massa e está apenas ao alcance de uns poucos eleitos. O sistema globalizante é que nos convence cada vez mais de que cada qual pode fazer o que quer, da mesma forma que convence qualquer um a ir a concursos de televisão com perguntas de cultura geral, mesmo quando essa pessoa não tem a mínima cultura; convence qualquer pessoa de que pode ser um artista, quando o essencial para um artista não é o génio mas a capacidade de comunicar e saber sobreviver (veja-se os mestres do renascimento); que convence qualquer um de que pode ingressar numa universidade, quando estaria muito mais indicado para um curso técnico; que convence qualquer um de que pode ser poeta, meramente porque leu os sonetos da Florbela... enfim, os exemplos poderiam alongar-se infinitamente.

Hugo Xavier

Editor desempregado


(*) Nascido em 1976, formou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Trabalhou como assistente editorial na Vega e, posteriormente, preparou projectos de relançamento editorial para a Civilização e a Estúdios Cor. Em 2003, com Diogo Madre Deus, fundou a Cavalo de Ferro. Foi ainda director editorial do grupo Fundação Agostinho Fernandes para as áreas de Ensaio, Poesia e Ficção.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 11/Nov/09
Qua, 11/Nov/09
UM MOMENTO CONSTRANGEDOR,
por Rui Zink (*)

Com o novo sistema de hierarquização em muitas editoras – responder a um administrador-delegado com o livro do deve e do haver em dia –, a pressão é cada vez maior para sacar coelhos da cartola. Tradução: mostrar que se fez dinheiro. E isto não é uma boca à LeYa. Quer dizer, também é, mas não só, porque há também as sucursais de grupos espanhóis, e mesmo aquelas que não têm uma entidade superior à qual responder acabam a comportar-se como se a tivessem, por osmose, ou como aqueles amputados que ainda sentem o membro fantasma. O resultado é penoso. Pessoas que tinham ido para o negócio com algumas ilusões não só as perdem como se vêem obrigadas a fazer algo com que não contavam: ter «ideias editoriais». Essas ideias vão do menos mau ao pior que mau e já podemos começar a ver o resultado nas livrarias: geralmente são achados que não lembram ao diabo, mas lembraram àqueles pobres diabos. Os «sete momentos» mais importantes na obtenção duma pátria, as «12 etapas» da salvação do orgasmo, «36 receitas mágicas» nos contos de fadas tradicionais. A inspiração vem obviamente da América, como antes os bebés e a literatura vinham de Paris. Algumas dessas «ideias» até dão filme: uma rapariga que fez «365 receitas num ano» já está anunciada em cartaz no Fórum Picoas, por sinal ao lado duma livraria que, se o editor for atento, terá o livro na montra, desde que para tal haja dinheiro. Por alguma razão estas ideias têm quase sempre uma máscara aritmética: suspeito que é simplesmente por causa da suspeita de as pessoas andarem tão desmioladas que os números emprestam alguma ilusão de ordem. Nada tenho contra fazer dinheiro, e há formas mais desonestas do que fazendo um «achado» em papel com uma capa colorida. Simplesmente, parte destas brilhantes ideias nem sequer vende. Porque acontece uma de várias coisas: 1) o editor não está a escolher o que vende mas o que ACHA que vende; 2) ao tentar arranjar produtos exclusivamente para vender, o editor baixa ainda mais a fasquia do que necessário; 3) ao sentir algum asco e vergonha por si mesmo (porque não foi para isto que a sua mãezinha o educou), o editor transfere esse asco para o leitor; 4) o génio do marketing, esse sim formado para «vender», está demasiado ocupado a vender-se como peça valiosa (síndrome de Edson) e, por isso, acaba por não fazer tão bem o seu trabalho; 5) o editor, sobretudo se jovem e ambicioso, está a ver se consegue o seu winner shot, que o levará a ser cobiçado pelos grupos rivais e, como nas empresas a sério, a conseguir negociar um contrato blindado e suculento a nível de estrela pop.

(*) Nascido em Lisboa em 1961, Rui Zink é escritor e professor no departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo também aí coordenado a pós-graduação em Edição de Texto. Autor de uma vasta obra ficcional traduzida em várias línguas, O Destino Turístico, publicado pela Teorema em 2008, é o seu romance mais recente.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Seg, 9/Nov/09
Seg, 9/Nov/09
AS LIÇÕES DOS LIVROS ESCOLARES,
por Paulo Ferreira (*)

Confundindo-se dimensão com facilitismo, considera-se muitas vezes que os sectores escolar e paraescolar são de capital e retorno garantidos. Contudo, esquece-se que, acompanhado das boas perspectivas de negócio, vem igualmente um risco muito elevado, que transforma esta área num verdadeiro case study de método e rigor no sector editorial.

As diferenças entre os segmentos escolar e paraescolar e as edições gerais são abissais e começam, desde logo, pelos preparativos e recursos que é necessário agrupar, não só pela longa equipa que envolvem (coordenadores editoriais, autores, designers, paginadores, infografistas, ilustradores, fotógrafos, aquisição de direitos de imagem, etc.), como pela diversidade de suportes produzidos (manuais, livro do professor, suportes multimédia). O carácter prescritivo destes suportes leva, pois, as editoras a fazer autênticas maratonas de norte a sul do país, reunindo em hotéis e noutros locais com professores, em encontros para os quais é necessário produzir maquetas de materiais diversos. Mas se os materiais são maquetas – algumas delas, como os próprios manuais, muito próximas do resultado final –, os custos associados a essa promoção não o são.

O futuro de seis anos (período normal de vigência para este tipo de livros), anulando-se desta forma críticas de que os livros «não servem para anos seguintes», joga-se, assim, nessas apresentações de poucas horas, mas também ao longo de todo o ano, com um subtil jogo de sedução junto dos prescritores, aos quais se tenta mostrar, de forma indubitável, que aquele é «o» manual, que aquele é «o» parceiro com que os professores podem contar ao longo do ano. Para isso, promovem-se acções de formação e esclarecimento sobre as mais variadas áreas (TLEBS, Novo Acordo Ortográfico, novos programas), entre outras iniciativas, e estabelecem-se canais estreitos de comunicação para tentar estar um passo adiante das necessidades vividas nas escolas.

A concorrência é feroz e os agentes em causa são, muitas vezes, gigantes, o que leva a que existam no mercado dois grandes players, que têm em comum o facto de mais de metade da respectiva facturação provir desta área de negócio: o grupo Porto Editora (que inclui igualmente a Areal e a Lisboa Editora), detendo mais de 50% dos segmentos escolar e paraescolar; e o grupo LeYa (Texto Editores, Sebenta, Nova Gaia, Asa, Gailivro). De fora desse núcleo, que, por maioria de razão, agrega a esmagadora maioria da quota disponível, encontram-se nomes históricos como o grupo Editorial Plátano (que inclui a Didáctica e a Paralelo), o Grupo Santillana/Constância, a Editora Educação Nacional e outros actores de menor dimensão.

As políticas de educação têm sofrido constantes alterações, obrigando não só os professores mas também as próprias editoras a adaptarem-se, não sendo de menosprezar que, neste momento, se torna necessário o agréement por parte do Ministério da Educação para que um livro seja considerado elegível para adopção.

Tudo isto requer das editoras grande capacidade de resposta e, sobretudo, de investimento, pois os adiantamentos são de deixar o editor a pensar duas vezes, às vezes mais, sobre o caminho a seguir. Como já ouvimos dizer, a edição escolar não é «para meninos». Claro que, sendo um negócio de risco, os possíveis retornos são também muito elevados. Mas, se é assim tão fácil, por que razão não há mais editores a arriscar?

(*) Paulo Ferreira é consultor editorial na Booktailors, da qual é um dos fundadores. Com a Pós-Graduação em Edição: Livros e Suportes Digitais da Universidade Católica Portuguesa, co-lecciona actualmente no mestrado de Edição da Universidade de Aveiro a cadeira de Marketing do Livro.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 6/Nov/09
Sex, 6/Nov/09
ALMOÇOS, OPINIÕES E AS REDES SOCIAIS,
por José Noronha Brandão (*)

O meu avô dizia-me frequentemente que a disciplina e o método eram regras fundamentais para se levar a vida. Tudo deveria ser planeado e executado no seu tempo, e a preguiça era uma das causas para o desmoronamento das nossas existências. Por isso, na casa dos meus avós – e pais –, havia horas para tudo, como se a rotina assegurasse a identidade. Fundamental, acredito ainda hoje.

Confesso-me mais preguiçoso e, há muito pouco tempo, ouvia o seguinte conselho: «Não te fies na memória, que falha. Planifica e executa de acordo com o teu plano. Diariamente dá baixa do que fizeste e do que está ainda por fazer, atribui importância numeral e conclui, por dia, o que está na zona crítica, o que tem tempo e o que ficou descontrolado.» Fundamental, acredito ainda.

E, depois da teoria, vem a prática. Acordo cedo, pratico os dois princípios básicos da cabala, não reajas e não julgues, nas intermináveis filas da A5 ou da Marechal Craveiro Lopes (sim, a Segunda Circular), e tento, quando posso, correr à hora de almoço e não sair muito além das 19.30. Mas este meu BI profissional deve ser um tanto ou quanto igual a mais uns milhares nesta Europa. De quando em vez, almoça-se com uns amigos, conhecidos ou futuras relações profissionais. Nunca temos tempo para todas as actividades de lazer que, durante a semana, nos chegam via e-mail, já deixei de ter tempo para comprar e ler jornais diariamente, e um dos prazeres do fim-de-semana (que ridículo) é comprar jornais e folheá-los, com um circunspecto ar de quem assumiu ser leitor e editor daquela recente propriedade.

Nesta lufa-lufa diário, mas que se repete por semanas a fio – o Verão impõe-me outras rotinas –, acabamos por perceber que a nossa existência se reduziu a uma página de Internet e às redes sociais. Existimos mais no Facebook e no Twitter (tenho as minhas reservas sobre o Twitter) do que na plácida existência material. Falamos, refilamos, opinamos, tornamo-nos amigos e bloqueamos mais do que propriamente na vida, olhos nos olhos. Quando é que nos perdemos? Quando é que passámos a fazer tão facilmente amigos no computador e quando perdemos essa enorme capacidade de interagir?

O contra-senso começa aqui, começa no exacto momento em que não nos envergonhamos de falar e escrever para uma fotografia, um endereço de e-mail, um blogue, mas, em carne e osso, não o conseguimos fazer a um perfeito estranho.

Mas este texto não era para ser uma divagação ontológica sobre mim e a minha visão social, mas antes para que se entendesse o que mudou e a forma como quem está neste mercado editorial tem que passar a olhar. Um livro é um conjunto de palavras e/ou imagens que sugerem ideias, pensamentos, posições. Um repositório de intenções a serem percepcionadas – lato sensu. Quem edita tem uma preocupação, vender, e pode acumular outra: a qualidade do que quer vender. Mas, para vender, é preciso definir a quem, e neste «quem» cabe a minha divagação ontológica: mudámos todos e mudamos conforme o meio onde estamos. Eu sou eu aqui na escrita, mas altero-me em pessoa e adquiro outras coragens e atitudes ao vivo e a cores, no meu Facebook ou no da empresa onde trabalho. Eu sou pessoano, pois sou eu e os outros e, por vezes, os outros é que são o Inferno!

Os livros são como as luvas: mesmo que não assentem na perfeição, a maior qualidade é serem confortáveis ou servirem o propósito com que os adquirimos. Se uma luva de lã tem uma função mais prática que uma de pele, se a de pele exibe um estatuto, um hábito, uma ideologia, um sonho, uma aspiração, tudo pode ser explicado, mas nada se compara à sensação de conforto que um livro nos dá numa certa altura.

Uma editora, nos dias de hoje, mais do que a qualidade, a variedade, o público perfeito, tem de se arriscar a dar a cara e a comunicar! Uma editora tem de entrar noutros domínios que não os seus, de escrita invasiva, evasiva, intrusiva, construtiva, socializante. Uma editora tem de se dar a conhecer, pôr-se na boca da Net!

Vende mais? Duvido. Os amigos de uma rede traduzem gostos de consumidores, mas não são amostra fiável. O que se diz numa rede é aceitável na realidade? Não. Mas cria notoriedade, visibilidade, projecção. Humaniza uma marca, uma empresa, confere-lhe um plano afectivo.

É como um almoço com um amigo conhecido ou com um estranho: não nos dá a conhecer mais do que aquilo que permitimos ao outro que conheça, mas confere-nos um plano humano – o tal dos arquétipos e da literatura grega. As atribuições humanas aos deuses tinham o propósito pedagógico da identificação do leitor com os modelos. O mais velho truque literário, afinal, ainda é a roda original das redes sociais.

Mas aqui fica um conselho, corajoso leitor desta croniqueta: não deixe de dizer bons dias no elevador, de sorrir abertamente a um estranho, de almoçar com os amigos ou de fazer questão de saber o nome do segurança do seu edifício. Porque, tal como nas redes, mais do que a simpatia, o que nos vende é mesmo o tal toque humano. Fundamental, acredito desde sempre.

(*) José Noronha Brandão é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, Português/Alemão, pela Universidade Nova de Lisboa. Concluiu a parte curricular do curso de doutoramento em Ciências Políticas, da Universidade Católica Portuguesa. Ao longo da sua actividade profissional, passou pela Media Consulting, pelo Teatro Nacional D. Maria II e pela LPM Comunicação. É actualmente responsável de comunicação da Booksmile.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 4/Nov/09
Qua, 4/Nov/09
ÉS COMPETENTE PARA EDITAR?,
por Nuno Seabra Lopes (*)

Durante centenas de anos editar era um domínio à parte, estável e pouco sujeito à alteração das competências necessárias para o fazer. A função de editor estava integrada na então «arte negra» da impressão, e os segredos da tintagem e da composição passavam dos mestres para os aprendizes, ao longo de toda uma vida de trabalho. Valorizar os conteúdos era algo que ia surgindo e desenvolvendo-se progressivamente, e a capacidade para se ser editor confundia-se com a cultura geral, o conhecimento humanista ou científico, assim como a mundanidade e o prestígio que determinado indivíduo dava à sua casa editorial.
Um editor era então um ser cultural e, só ocultamente, um ser industrial.

O tempo é hoje outro, e as necessidades de especialização cresceram grandemente com o desenvolvimento do sector, dos públicos, dos mercados, da concorrência, das obrigações empresariais, e até dos conteúdos e da forma de os trabalhar. Vivemos num mundo editorial complexo e em mudança, e o que se exige passou a ser mais restrito em termos de cultura, mas mais profundo e complexo na área de especialidade.

A partir dos anos 70, e em Portugal particularmente nos últimos dez anos, os estudos editoriais e as especializações de todas as áreas envolvidas pelo negócio do livro começaram a desenvolver-se, os profissionais e os candidatos a profissionais do sector passaram a dispor de alguma formação avançada, que tem em consideração as especificidades do produto e do negócio do livro.

As competências implícitas, que eram adquiridas no local de trabalho com a experiência (e que, desde sempre, foram o principal activo dos profissionais instalados), passaram a coexistir com estruturas cada vez mais organizadas, com culturas internas capazes de potenciar as capacidades dos recursos humanos e de desenvolver adicionalmente outras competências (tácitas), seja junto de profissionais experimentados ou de jovens profissionais. Surgiu em muitos locais da edição a cultura empresarial, e as exigências instrumentais a ela associada.

Actualmente, o espectro de especialização é já abrangente e as exigências para se ser um bom profissional na área editorial é cada vez maior. A formação em edição torna-se um elemento quase tão preponderante como a experiência, e o mercado começa a abrir-se a pessoas de outras áreas.
Mais do que um editor humanista e culto, hoje em dia, pedem-se também que os profissionais dos livros sejam pessoas que saibam, de facto, o que fazer com este produto.

(*) Nuno Seabra Lopes é licenciado em Estudos Europeus, tem Especialização para Técnicos Editoriais e Mestrado em Estudos Editoriais. Trabalha desde 1999 no sector da edição, sendo Especialista Convidado do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
É sócio-fundador da Booktailors e consultor editorial especializado nas áreas da Edição e de Estratégia.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Seg, 2/Nov/09
Seg, 2/Nov/09
Quase esgotado,
por Jorge Colaço (*)

[N.E.: Esta crónica foi originalmente publicada no blogue Annualia]

Escrever letra à frente de letra, palavra após palavra, frase a frase, sem erros de ortografia, de pontuação e de acentuação, sem grandes deslizes de sintaxe e de sentido, embora hoje um feito digno de nota, não deveria ser um facto notável em si mesmo. Sobretudo, se estivermos a falar de gente que escreve, edita, revê, traduz, publica.

O que quero dizer é que, para escrever bem, não basta escrever certo. Do ponto de vista do acerto, não faltam hoje legitimações de vasta gama de usos e costumes espúrios. Para escrever bem, no entanto, é necessário conjugar alguns outros factores, objectivos uns, muito subjectivos outros, mas nem por isso inexistentes ou menos importantes – a adequação e propriedade do que se diz, a escolha mais ou menos feliz das palavras, relacionável com a maior ou menor familiaridade com a língua e a maior ou menor consciência da sua plasticidade, o tom que se adopta, expresso pelo grau de formalidade ou informalidade, pelo ritmo imprimido, pela pontuação, pelo cúmulo de cultura implícita, pelo tipo de recursos utilizados, pela elegância da frase…

Mas como medir a elegância da frase e a pertinência comunicacional ou estilística de uma determinada opção lexical ou sintáctica? Como se mede o gosto ou a falta dele? Este é um terreno difícil, onde facilmente se esbarra no relativismo opinativo e reinante. Um simples «eu não acho» deita por terra quaisquer argumentos.

Veja-se a diferença, nestes exemplos muito simples, entre escrever «como é que se cumprimenta um extraterrestre?» e escrever «de que forma se cumprimenta um extraterrestre?», entre «que é que se diz a um talibã?» e «que conversa manter com um talibã?», entre «como é que se discute com um urso?» e «como discutir com um urso?». Nenhuma das frases está gramaticalmente errada, mas há uma diferença, para quem estiver em situação de a compreender.

O drama é que, hoje, quem lê, mesmo profissionalmente, lê a um nível baixo: o que nunca ouviu está mal e o que não conhece não existe. Escrever bem, não apenas escrever certo e dentro dos limites de um fraseado insípido e incolor, surge como uma estranheza, uma anormalidade que é aconselhável reduzir ao corrente e vulgar.

Muitos chamam «simplificação» a este processo de tornar uniforme e raso o que não entra nos seus padrões de uso. Mas esta suposta simplificação, inimiga confessa do estilo, faz cair textos realmente bem escritos, sobretudo se forem saborosamente bem escritos, no campo de um exotismo intolerável.

Neste mundo às avessas, escrever bem, nesta acepção não exclusivamente gramatical, tornou-se perigosamente conotado com escrever mal. E é este mal, neste preciso sentido, que muitos resolveram querer assanhadamente extirpar.

Como se costuma dizer: «é o que temos, o resto está esgotado». Ou, pelo menos, está quase.

(*) Jorge Colaço (n. Ferreira do Alentejo, 1956) é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ensinou Português como Língua Estrangeira, exerceu actividade docente no ensino secundário e criou um curso livre de redacção e revisão, do qual foi coordenador e professor. Desempenhou, desde 1992, funções de coordenador editorial da área de Humanidades da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 vols., 1998-2003), para a qual também redigiu dezenas de verbetes. Assumiu funções idênticas em outras obras de referência, nomeadamente nos volumes Annualia. Colaborador de Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, tem publicado textos críticos e literários em obras colectivas e revistas.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Sex, 30/Out/09
Sex, 30/Out/09
UMA ESPÉCIE DE PARAÍSO DEMASIADO DISTANTE,
por Margarida Ferra (*)

Tenho passado umas boas horas da minha vida a arrumar livros. Primeiro, aprendi a ordená-los por tamanhos, numa escada atabalhoada com o empenho e a solenidade que as crianças põem nas primeiras tarefas. Eram os meus livros. Havia mais livros infantis em casa, mas não eram meus, eram muito mais bonitos e pareciam eternamente novos, eu só podia mexer-lhes com autorização. Mas lembro-me ainda hoje da cor e do tamanho das lombadas e do lugar preciso que ocuparam, durante anos, a estante da sala. O que quer dizer que aquele era o sítio daqueles livros – os livros para pequeninos que pertenciam aos crescidos.

Quando trabalhei em livrarias, os títulos eram arrumados no menos mau dos sistemas de classificação. Numa lógica que pudesse ser facilmente deduzida por todos os outros colegas, ou mesmo por um cliente mais atento e audaz. Ficção em língua portuguesa, ficção traduzida, poesia, BD, infantil, livro técnico e apoio escolar, tudo arrumado como dava jeito, porque o mobiliário nem sempre se adequa à oferta, que, como bem sabe o leitor, varia com a época do ano. Foi nessa fase da vida que apurei o meu sentido localizador de livros perdidos: outra vez a memória da espessura da lombada e as cores, e o mais básico dos truques – conhecer de cor os logótipos de todas as chancelas. E saber que, quando não estão organizados por ordem alfabética segundo o apelido do autor, o mais provável é estarem arrumados por editora, o mesmo alfabeto a distribui-las na estante. Se assim não for e se os livreiros forem expeditos, estarão alinhados lado a lado com os outros do mesmo distribuidor, numa ordem silenciosa que só os profissionais do sector dominam e que se justifica pelo comodismo na hora das devoluções.

Em casa a matéria persegue-me. Várias mudanças depois, as «Billy» acolhem os volumes que têm vindo a tomar conta do apartamento. Gosto de pensar na melhor classificação para arrumar os livros, simplificar a procura, dar cor às estantes, saber ao certo onde vai ficar cada novo título que chega. Na cozinha, os de receitas. No quarto das crianças, os que lhes pertencem. O outro quarto de dormir recebe duas mesas-de-cabeceira, que são estantes de leituras prometidas, em curso, eternamente adiadas, edições únicas e especialíssimas. E mais estantes com álbuns, BD, edições várias das Alices do Carroll e tudo o que restou da minha infância. Na sala, poesia portuguesa – a secção mais difícil de arrumar dada a espessura da lombada, mínima, e que muitas vezes não traz informação –, poesia estrangeira (traduzida ou não), ficção em português. No corredor: teatro, ficção estrangeira (traduzida ou não), livros sobre livros, biografias de escritores, revistas, literatura de viagens (dos guias a Theroux), livros sobre xadrez e uma colecção de ficção científica. No escritório: ensaio, crónica e toda a não-ficção que não coube em mais lado nenhum.

É um sonho poder criar um sistema de raiz, à medida de quem o usa, e aplicá-lo. Mas, como todos os sonhos, nada disto passa deste texto e de uma outra anotação, de várias conversas e instruções aos restantes utilizadores. Da mesa pequena que supostamente recebe novidades – que, depois de apreciadas e conhecidas, deviam encontrar o seu lugar na estante –, mal se vêem as pernas, o tampo adivinha-se. No escritório, as secretárias estão imersas. As «Billy» da sala e do corredor suportam com dificuldade uma fila dupla de novos títulos que, em comum, têm letras na lombada, numa completa perversão da ordem que ocultam. Inalcançável, um paraíso de que nunca sou merecedora, uma biblioteca organizada que revela sem exibir e que liga os livros uns aos outros por linhas invisíveis na primeira visita.

(*) Margarida Ferra tem 32 anos e é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou numa pizzaria, num jornal, numa galeria de arte contemporânea, em duas livrarias e no Palácio da Ajuda. É responsável, desde Janeiro de 2009, pela área de comunicação da Quetzal Editores.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

Qua, 28/Out/09
Qua, 28/Out/09
PICTURE BOOKS: MAIS DO QUE LIVROS COM IMAGENS
Carla Maia de Almeida (*)

Não há muito tempo, tive o desprazer de ouvir uma conhecida autora e ilustradora referindo-se em público a «esses livros com pouco texto» com um desdém notável. «Livros com pouco texto» são aqueles que se escrevem «enquanto se lava a louça», para dar o seu próprio exemplo – a não seguir. Em bom rigor, teremos de lhes chamar picture books ou álbuns, consoante se prefira a terminologia da escola anglófona ou francófona. Opto pela primeira, por razões geracionais e não só.

É verdade que os picture books, ou picture story books, têm pouco ou mesmo nenhum texto. A brevidade faz parte da sua natureza, à semelhança dos aforismos e ao contrário das epopeias. Nada a fazer a esse respeito. Com muito texto, é provável que entrem na categoria de livros ilustrados, mas não de picture books. Não sendo as fronteiras entre uns e outros totalmente estanques nem isentas de controvérsia, há um critério fundador a ter em conta: os picture books distinguem-se pela relação sempre indissociável entre texto e ilustração, assentando normalmente num esquema de leitura de página dupla (double-page spread), marcado pela tensão dramática e pela expectativa em relação ao que vem a seguir.

Um bom picture book não mostra tudo; antes sugere e provoca inferências de significado, estimulando a capacidade de interpretação da criança e de qualquer leitor. Mais do que uma relação forte, palavras e imagens desenvolvem uma relação de forças, no sentido em que se gera uma tensão criativa entre as duas linguagens, longe da mera função complementar do livro ilustrado tradicional. Em vez de se limitar a reproduzir em imagens o que já é dito por palavras, um bom picture book acrescenta informação ao texto, podendo mesmo subvertê-lo com a inclusão de efeitos irónicos, ambíguos ou incongruentes. Quando escritor e ilustrador se libertam do ego e do complexo competitivo, esta tensão criativa costuma dar origem a livros admiráveis. O mesmo acontece quando escritor e ilustrador são um só, sendo a competição mais fácil de gerir nesse caso. Last but not least, o design, o grafismo e a concepção editorial contribuem para o enriquecimento do que pode ser uma obra de arte global, talvez a primeira a que a criança tem acesso fácil.

Peter Hunt, professor da Universidade de Cardiff e um nome de referência nestas matérias, considera que o picture book será o único contributo – genuíno e original –, para o campo literário em geral, da literatura para crianças. Seria bom ver mais editores portugueses a interessarem-se por este amplo mercado, ainda muito preenchido por traduções de qualidade oscilante. E também escritores, ilustradores e designers gráficos ou directores de arte, já que todos têm um papel determinante no conjunto do processo criativo. Ainda há um juízo de valor implícito na apreciação dos picture books, como se os livros ilustrados não pudessem ser também literatura. Como se um escritor de livros para crianças provasse o seu talento seguindo o ritmo do contador de caracteres. Convenhamos: se escrever pouco e bem fosse fácil, os melhores publicitários não seriam tão generosamente remunerados. Grandes ideias podem surgir «enquanto se lava a louça», mas fazer um bom picture book dá mais trabalho do que parece.

(*) Jornalista freelancer, é colaboradora das revistas LER, Notícias Magazine e Notícias Sábado. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma pós-graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O Gato e a Rainha Só, Não Quero Usar Óculos e Ainda Falta Muito?. Escreve sobre livros e não só no blogue O Jardim Assombrado. Nasceu em Matosinhos a 12 de Janeiro de 1969.
-
Consulte a oferta de formação da Booktailors na barra lateral do blogue.


por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar


Subscreva a nossa newsletter

* indicates required
Publicações Booktailors
Carlos da Veiga Ferreira: Os editores não se abatem, Sara Figueiredo Costa



PVP: 12 €. Oferta de portes (válido para território nacional).

Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses, Sara Figueiredo Costa



PVP: 10,80 €. Preço com 10% de desconto e oferta de portes (válido para território nacional).

A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, José Afonso Furtado



PVP: 16,99 €. 10% de desconto e oferta de portes.

Livreiros, ler aqui.

PROMOÇÃO BLOGTAILORS



Aproveite a oferta especial de dois livros Booktailors por 20 €.

Compre os livros Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses, de Sara Figueiredo Costa e A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, de José Afonso Furtado por 20 €. Portes incluídos (válido para território nacional).

Encomendas através do e-mail: encomendas@booktailors.com.

Clique nas imagens para saber mais.
Leitores
Acumulado (desde Setembro 2007):

3 000 000 visitas


Site Meter
arquivo

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Etiquetas

acordo ortográfico

adaptação

agenda do livro

amazon

apel

associativismo

autores

bd | ilustração

bertrand

bibliotecas

blogosfera

blogtailors

blogtailorsbr

bookoffice

booktailors

booktrailers

byblos

coleção protagonistas da edição

correntes d'escritas 2009

correntes d'escritas 2010

correntes d'escritas 2011

correntes d'escritas 2012

design editorial

dia do livro

direitos de autor

distribuição

divulgação

e-book

e-books

edição

editoras

editores

emprego

ensaio geral na ferin

entrevista

entrevistas booktailors

estado | política cultural

estatísticas e números

eventos

feira do livro de bolonha 2010

feira do livro de frankfurt 2008

feira do livro de frankfurt 2009

feira do livro de frankfurt 2010

feira do livro de frankfurt 2011

feira do livro de frankfurt 2013

feira do livro de lisboa

feira do livro de lisboa 2009

feira do livro de lisboa 2010

feira do livro do porto

feira do livro do porto 2009

feiras do livro

feiras internacionais

festivais

filbo 2013

fnac

formação

formação booktailors

fotografia | imagem

fusões e aquisições

google

homenagem

humor

ilustração | bd

imagens

imprensa

internacional

kindle

lev

leya

língua portuguesa

literatura

livrarias

livro escolar

livro infantil

livros

livros (audiolivro)

livros booktailors

london book fair

marketing do livro

mercado do livro

notícias

o livro e a era digital

óbito

opinião

opinião no blogtailors

os meus livros

poesia

polémicas

porto editora

prémios

prémios de edição ler booktailors

profissionais

promoção à leitura

revista ler

sítio web

sociologia e hábitos da leitura

tecnologia

top livros

twitter

vídeo

todas as tags