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Blogtailors - o blogue da edição

A génese da gestão editorial

01.03.12

Segundo o blogue The Late Age of Print, a gestão editorial moderna tem muito a agradecer a Orion Howard Cheney, um banqueiro que, nos anos 30, publicou o primeiro estudo compreensivo sobre a indústria literária americana, alertando para a importância de os editores se basearem mais em factos e menos em sorte, na escolha dos livros a publicar. Leia mais aqui.

Entrevistas Booktailors: Carlos da Veiga Ferreira

01.03.12

 

É natural de Penafiel, mas nem por isso deixa de ser um dos editores portugueses com horizontes mais largos. É um verdadeiro TT (Teorema/Teodolito) da edição e diz-se preparado para enfrentar os tempos difíceis que atravessamos. Ele, que outrora se «atravessou» junto dos agentes internacionais, colhe agora os frutos do seu empenho pessoal, no momento de criar um catálogo de raiz. Garante que o livro em papel será mais forte do que o e-book, pelo menos enquanto for vivo. Longa vida a Carlos da Veiga Ferreira.

 

Qual a situação mais delicada por que passou enquanto editor?

Foi, sem dúvida, a minha primeira participação na Feira de Frankfurt, depois de ter passado a ser o responsável único pela Teorema. Do anterior, vinha uma quantidade significativa de direitos em dívida, e o meu trabalho foi andar de stand em stand a convencer agentes e editores de que iria pagar a curto prazo e a situação não se repetiria. Esse trabalho valeu a pena, as minhas promessas foram cumpridas, e o meu acesso a editores e agentes internacionais ficou definitivamente aberto. Na maioria dos casos, estabeleceram-se relações de amizade que ainda hoje perduram.

 

O que devem os editores saber rapidamente sob pena de desaparecerem?

Se, no passado, conhecesse a resposta a essa pergunta, hoje estaria rico. Hoje, continuo a não saber responder e não conseguiria mais do que alinhar uma série de generalidades e banalidades, que em nada adiantam.

 

Para que serve a Feira do Livro de Frankfurt hoje em dia?

A Feira de Frankfurt não serve, hoje em dia, para muito, tendo em vista a possibilidade que as tecnologias nos oferecem de permanente contacto com todos os agentes do mercado internacional do livro. No entanto, e uma vez que a sociedade ainda não se desumanizou completamente, a Feira permite-nos o contacto pessoal e o reencontro com a tribo do livro, onde a amizade ainda é, em muitos casos, um grande valor. Por outro lado, permite-nos ver, à vol d'oiseau, é certo, a evolução da produção editorial em todo o mundo.

 

Como foi a sua saída do grupo LeYa? Continua a acompanhar o catálogo da Teorema?

A minha saída do grupo LeYa, em dezembro de 2010, deveu-se a uma proposta de alteração de estatuto que contrariava o contrato que nos ligava, alteração que, por razões de dignidade, como a entendo, não podia aceitar. Continuo, obviamente, a acompanhar o catálogo da Teorema e constato, com mágoa, que o mesmo tem vindo a descaracterizar-se, sobretudo pela saída de vários autores emblemáticos. Por outro lado, a produção caiu a pique, de uma média de 40 títulos novos por ano para 9 ou 10 em 2011. Entretanto, o editor, que me tinha substituído em dezembro de 2010, foi despedido em janeiro de 2011… Resta-me esperar que o grupo perceba melhor o valor da marca Teorema e consiga levantá-la do chão em que caiu no ano que passou. E há alguns sinais nesse sentido.

 

O que podemos esperar da Teodolito?

Pode esperar-se da Teodolito um trabalho sério e dedicado com a publicação de autores de qualidade, como penso que foi quase sempre o caso na Teorema. Os meus gostos literários, na ficção e no ensaio, continuam a ser os mesmos, e essa será a linha que vou seguir.

 

Que autores espera levar consigo para o novo projeto?

Sem entrar em nenhuma espécie de competição, que seria inútil e despropositada, espero trazer para a Teodolito alguns dos autores que publiquei no passado (os primeiros livros que publiquei, agora, são de Vila-Matas, Atiq Rahimi e Antonio Skármeta). Mas espero também fazer o que é a alegria de um editor: descobrir novos autores e publicar alguns clássicos e consagrados que, há muito, fazem parte dos meus projetos.

 

O que pensa dos e-books?

É conhecida a minha posição de Velho do Restelo em relação aos e-books. No entanto, não me atreverei a negar que este suporte conhecerá um crescimento acelerado, sobretudo, a partir do momento em que as camadas mais jovens se tornem leitoras, e oxalá sejam muito. Atrevo-me, porém, a afirmar, sem qualquer dúvida, que no meu tempo de vida o livro em papel continuará a predominar. E permito-me citar Borges, outro dos autores perdidos: «Talvez a velhice e o temor me enganem, mas suspeito de que a espécie humana — a única — está para se extinguir e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, inútil, incorruptível, secreta… A minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.»

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

A mesma pergunta que já uma vez lhe fiz: «Porque aceitou este cargo?»

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Outra pergunta a que não sei responder, por uma razão simples: não acredito que seja possível avaliar o valor económico e financeiro de bens imateriais e morais.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Publicar menos e publicar melhor.

 

Os livros da Teodolito vão ser feitos com o mesmo rigor editorial da Teorema?

Se não puder ser ainda maior.

 

  


Carlos da Veiga Ferreira nasceu em Penafiel a 3 de abril de 1948. Fez o liceu no Porto e, em 1967, foi para Lisboa estudar Ciências Sociais. Terminado o curso, ingressou no Ministério da Indústria, onde trabalhou no Serviço de Relações Internacionais. Paralelamente, viveu sempre no mundo do livro, através da leitura frenética, da tradução e da amizade com a maior parte dos nossos escritores. Em 1985, entrou como sócio para a Teorema, da qual passou a ser responsável a partir de 1989. Em 2007, vendeu a editora a um fundo de investimento, a Explorer Investments. Em 2010, deixou a Teorema, em rutura com o grupo LeYa. Em abril de 2012, em conjunto com a Afrontamento, criou a Teodolito.

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