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Blogtailors - o blogue da edição

No princípio era a Verbo

04.12.12

 

 

É já amanhã o lançamento do primeiro volume da coleção «Protagonistas da Edição», dedicado a Fernando Guedes, fundador da Editorial Verbo. A apresentação de Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses estará a cargo de Francisco Espadinha e terá lugar na Casa Fernando Pessoa, pelas 18.30 de quarta-feira, dia 5.

 

Este é o primeiro título da coleção editada pela Booktailors, que dará voz a algumas das mais importantes personalidades da área da edição em Portugal.

 

O livro encontra-se disponível para pré-encomenda através do e-mail encomendas@booktailors.com. As encomendas serão expedidas a 5 de dezembro, após confirmação de pagamento. O livro custará 10,80 €, já com desconto de 10 por cento e oferta de portes incluídos (oferta válida para território nacional).

Entrevistas Booktailors: André Letria

04.12.12

 

O Pato Lógico, mais do que uma editora de livros infantis, é, segundo André Letria, «uma necessidade lógica e inadiável», fruto da vontade de um ilustrador que quis fazer livros «à sua maneira». E, como tal, é perfeitamente lógico que desenvolva projetos como a Nave Especial, dedicados à criação de histórias para plataformas digitais, para perceber o que é, afinal, um livro digital. 

 

Lançar uma editora neste momento é um gesto de pato ou é perfeitamente lógico?

É perfeitamente lógico, quando se acorda imbuído de um espírito aventureiro e empreendedor. Mais lá para o meio da tarde estes impulsos tendem a esmorecer e começa a crescer o pato que há em nós. Normalmente, estas alturas coincidem com as conversas sobre contabilidade ou distribuição. Tirando isso, lançar uma editora foi uma necessidade lógica e inadiável de um ilustrador que quis começar a fazer os seus livros à sua maneira. Há coisas às quais não se consegue fugir.

 

Há mercado para livros de ilustração, com um cuidado gráfico apurado?

Há um mercado que se trabalha diariamente, cativando amigos e não clientes. É um mercado que faz chegar coisas, que não são só livros, às pessoas. Dá-lhes ideias, propostas para olhar o mundo de forma diferente, fazendo-as sentir que pertencem a um grupo que tem interesses semelhantes. 

 

O que é a Nave Especial?

A Nave Especial é digital, inovadora, criativa e portuguesa. Está a chegar e vem à procura de histórias. Quando as descobrir, vai escolher as melhores para as transformar em aplicações digitais ilustradas. Tem aos comandos duas empresas que se interessam pelas plataformas digitais — o Pato Lógico e a Biodroid — e que querem ver o que os criadores portugueses têm para oferecer nesta área.

Além de um concurso, é também uma conferência — ABC da Edição Digital, A 1.ª Conferência em Portugal sobre Edição Digital de Livros para Crianças —, que vai acontecer a 28 de janeiro, na Gulbenkian, e que pretende ser um espaço de discussão que envolverá alguns dos maiores especialistas nacionais e internacionais nesta área. Para a organização desta conferência contamos com a ajuda do Neal Hoskins, entre outras coisas, conselheiro da Feira de Bolonha para os assuntos digitais.

 

Ao contrário dos livros para um público mais adulto, os livros infantis têm muito a ganhar com as plataformas digitais?

Os livros infantis, ou pelo menos aqueles a que chamamos álbuns ilustrados, dependem muito da imagem para a sua eficácia narrativa. Aqueles que foram imaginados para o papel e que se transformam em objetos digitais, às vezes, ficam a perder, porque não foram pensados para funcionar dessa maneira. Não basta transformá-los em coisas que se leem com um ecrã pelo meio. É fácil cair na tentação de os transformar em jogos, ou animações. Acho que ainda estamos todos a tentar perceber o que deve ser um livro digital, se é que se pode chamar assim. Talvez até deixe de ser um livro. Espero que a Nave Especial (prémio e conferência) nos ajude a perceber mais coisas sobre assunto.

 

A pirataria não deveria inibir o investimento na edição digital?

Haverá sempre pirataria e a necessidade de a combater com originalidade.

 

O que é mais complicado: ilustrar ou gerir uma editora?

Ilustrar os livros da editora que se gere é ainda mais complicado. Mas, se não fosse assim, como seria? Já não me apetece pensar de outra maneira.

 

O André autor já se irritou com o André editor?

São os dois muito tolerantes.

 

A distribuição pode matar uma pequena editora?

Não, se não se depender dela. As editoras como o Pato Lógico, a que se chama independentes, ou simplesmente pequenas editoras, não podem depender de um sistema que já deu o que tinha a dar. Têm de funcionar noutros circuitos, mais próximos dos leitores, sem intermediários. Os nossos livros estarão sempre nas livrarias, mas tem de haver outras formas de os levar às pessoas. Vamos a escolas fazer ateliês sobre os livros e organizamos festas à volta dos livros. Também temos livros digitais que nunca passarão pelas livrarias e que obrigam a repensar a forma como os damos a conhecer.

 

O que é que significou para as editoras de livros infantis o investimento feito na Feira de Bolonha?

Não sei exatamente o que aconteceu com os nossos colegas de stand. No nosso caso foi muito proveitoso. Temos quatro contratos assinados para a venda dos direitos do Se Eu Fosse Um Livro. Um deles já está publicado em norueguês, e estamos prestes a receber o livro em coreano. Fomos convidados para falar do nosso projeto e pôr em prática as nossas oficinas pedagógicas num festival em Roma e estabelecemos contactos que hão de dar frutos brevemente.

 

Como é que um pai consegue avaliar a qualidade de um livro infantil com tanta oferta? Falta algum mecanismo de regulação ou deve haver liberdade absoluta de edição para infância?

Liberdade, sempre. Para regulação, devia bastar que um pai conheça o seu filho e tenha uma ideia daquilo que quer transmitir-lhe. A nós, interessa-nos fazer os livros como queremos, pelo gozo.

 

O Plano Nacional de Leitura veio ajudar a criar hábitos de leitura na infância?

Não sei. Veio facilitar a escolha de quem não se quer preocupar muito a escolher e, pelo que sei, traduz-se em apoio financeiro às escolas para a compra de livros. Já não é mau. Ainda bem que existe.

 

Teme uma subida do IVA no livro?

Temo, pois. 

 

A crise já obrigou a repensar o plano editorial do Pato Lógico?

O Pato Lógico sempre viveu em crise. Nasceu de um sonho de um ilustrador, o que já por si não augura um grande futuro comercial, e durante os seus dois anos de existência tem visto muita coisa a afundar-se à sua volta. Editamos muito poucos livros por ano, porque não temos muito dinheiro, mas também porque precisamos de tempo para os fazer. O nosso plano editorial está sempre pensado em dois níveis: o ideal, que conseguiríamos cumprir se fôssemos ricos e os dias tivessem 48 horas; e o pragmático, que usa uma parte do anterior, à medida das possibilidades. Assim estamos sempre contentes.

Apesar da incerteza, ou por causa dela, temos ganhado uma grande capacidade de adaptação, aproveitando oportunidades que nascem muitas vezes da associação a parceiros e da vontade de descoberta constante que nos move.

 

 

 

Nasceu em Lisboa em 1973. Frequentou o curso de Pintura da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Trabalha como ilustrador desde 1992, ilustrando regularmente livros para crianças e colaborando com diversas publicações periódicas. Recebeu diversos prémios, de entre os quais se destacam o Prémio Nacional de Ilustração, em 2000; o prémio Gulbenkian, em 2004; e um Award of Excellence for Illustration, atribuído pela Society for News Design (EUA). Está publicado em diversos países, como EUA, Inglaterra, Espanha ou Turquia. Participou em exposições na área da ilustração infantil, como a Bienal de Bratislava, em 1995 e 2005; Bolonha, em 2002; Sarmede, em 1999; ou Ilustrarte, em 2003, 2005 (Menção Especial) e 2009. Está incluído na secção «Children’s Books» da edição de 2009 do anuário de ilustração 3x3, tendo ganhado uma medalha de prata com uma das séries apresentadas. Trabalhou como cenógrafo para a Companhia Teatral do Chiado, de 2000 a 2005. Realizou a curta-metragem Zé Pimpão, o «Acelera», baseada no livro com o mesmo nome, de José Jorge Letria, com a qual ganhou o prémio Melhor Filme Português no Festival Animatu 2007. Realizou e escreveu a série de animação Foxy & Meg, baseada numa coleção de livros e personagens com o mesmo nome. Criou e coorganiza o Farol de Sonhos — Encontro sobre o Livro e o Imaginário Infantil.

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Campanha «Formai-vos!»: desconto de 50% para desempregados e recém-licenciados. Novidades 2012: [Porto] Revisão de Texto - nível intermédio.

Blogtailors.br: Fernando Guedes sobre a Verbo e a edição no Brasil

03.12.12

 

 

«Em 1968, quando se cria a filial da Verbo no Brasil, como era o mercado brasileiro e a visão que os editores portugueses tinham dele?

O Brasil é um mercado muitíssimo mais poderoso do que o nosso. O tempo em que iam daqui barcos carregados de livros escolares, e de alguns outros, para o Brasil morreu definitivamente ainda eu nem sonhava com a Verbo, mas ficou uma ideia a pairar na imaginação de nós todos de que o Brasil era o eldorado. E não é, nem nunca foi. Porque é que nunca fizemos nada de jeito no Brasil? Porque não temos dimensão. Agora não sei como é; pode ser que algum dos grandes grupos editoriais tenha dimensão para fazer lá alguma coisa, mas, mesmo assim, tenho dúvidas. O Brasil tem editoras muitíssimo maiores do que qualquer uma das nossas, pelo menos antes desta aglomeração recente, da LeYa e da Porto Editora. E, depois, nunca tivemos possibilidades financeiras e económicas para fazer frente àquele território imenso. Território imenso que, sobretudo naquele tempo em que mais me interessei pelo Brasil, se estendia quase só pela orla marítima, mas numa extensão como daqui à Polónia. E havia que aguentar aquilo, o que exigia fontes de financiamento e capacidade humana que não  tínhamos. E creio que ainda hoje não há. Portanto, quando se dizia mal do Brasil, o que também era uma moda, o que se devia dizer era que nós nunca fomos capazes de aguentar, de nos pormos à frente no Brasil, com uma entrada a sério no mercado. Instalámo‑nos lá dez anos depois de se criar a Verbo e ainda fizemos umas coisas, durante uns anos, sobretudo numa área que era possível trabalhar, a área do crediário. Na livraria, tentámos, mas nunca conseguimos fazer nada de importante. O crediário era mais fácil, até pelas características dos nossos sócios brasileiros, e o que fizemos foi pegar em enciclopédias, em obras completas, como as de Camões, ou de Pessoa, em livros do tipo medicina caseira, etc., e essas obras conseguíamos vender lá. O que fazíamos não era ter um crediário propriamente dito, ainda que o tenhamos chegado a ter, durante algum tempo, mas sim vender as obras aos crediaristas que havia por todo o Brasil, que eram muitos. E aí já não era só na orla marítima mas também para o interior, para os confins daquela terra imensa. E esse foi um período importante e frutuoso da nossa Verbo de São Paulo. Depois, o crediário lá também começou a fraquejar, hoje suponho que quase não existe, e nós também não existimos. Ou não existíamos, em 2009. Entretanto, um dos sócios morreu, e a única coisa que havia a fazer era fechar a porta.»

 

Excerto retirado das páginas 64 a 66 de Fernando Guedes: O decano dos editores portugueses, primeiro volume da coleção «Protagonistas da Edição» da autoria de Sara Figueiredo Costa, uma edição Booktailors. A obra será lançada na próxima quarta-feira, dia 5 de dezembro, pelas 18.30, na Casa Fernando Pessoa. A apresentação será de Francisco Espadinha, fundador da Editorial Presença.