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Blogtailors - o blogue da edição

II Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial

30.10.13

«A língua portuguesa quer ter um lugar próprio nas organizações internacionais e ser língua de referência na inovação e na ciência.» Ler no Público.


«Se fosse virtual, a II Conferência sobre a Língua Portuguesa em Lisboa podia começar com uma visita, no Museu da Língua Portuguesa de São Paulo. Uma visita guiada pelo director Antonio Sartini do primeiro museu dedicado a um património tão imaterial como uma língua. Um museu com honras no New York Times, que na altura se congratulou por finalmente “a língua portuguesa ser colocada no pedestal que merecia”, lembrou Antonio Sartini, na mesa que coordenou, esta quarta-feira, dedicada à internacionalização e indústrias culturais.» Ler no Público.

Morreu Fernanda Pinto Rodrigues

30.10.13

Morreu, no passado fim-de-semana, Fernanda Pinto Rodrigues, tradutora de alguns dos nomes mais relevantes da literatura anglo-saxónica. Com uma vida dedicada à tradução, pelas suas mãos passaram autores como Doris Lessing, Nabokov, Rex Stout, Agatha Christie, J. G. Ballard, J. R. R. Tolkien, Stephen King, Ray Bradbury, Henry Miller, Hervé Bazin, Bernanos, Ian McEwan, A.S. Byatt, Hermann Hesse, Collette, Soljenitsine, Ishiguro, Defoe, Updike, Orwell, Malcolm Lowry, Jane Austen, Raymond Chandler, Mark Twain, Patricia Highsmith, Ruth Rendell, Saul Bellow, Steinbeck.

 

Recebeu, em 1995, o Grande Prémio de Tradução, atribuído pelo P. E. N. Clube Português e pela Associação Portuguesa de Tradutores. Para assinalar a sua carreira notável, a tradutora foi inclusivamente distinguida, em 2009, com o Prémio Especial Tradução dos Prémios LER/BOOKTAILORS, anunciado durante a 10.ª edição do Correntes d'Escritas.

Reportagem Blogtailors: Livraria Ferin

30.10.13

 

Na semana em que regressa o Ensaio Geral na Ferin, o Blogtailors visita a livraria que todas as primeiras sextas-feiras de cada mês recebe o programa da Rádio Renascença e os seus convidados, para uma conversa com o público presente.

 

Alguns turistas entram na Livraria Ferin. Passeiam os olhos não só pelos livros mas também pela livraria, como que se apercebendo de que o sítio testemunhou a passagem dos tempos e merece ser visitado, não como outra loja de comércio. A um canto, o livreiro João Paulo Dias Pinheiro conversa longamente com um vendedor, a quem pede livros específicos, discutindo cada pormenor.

 

A Livraria Ferin, que se situa na rua Nova do Almada, ao Chiado, é talvez uma das mais antigas lojas em funcionamento no coração da cidade de Lisboa. E é certamente a casa que há mais anos preserva o negócio livreiro na família. «Livraria Ferin: desde 1840» não é apenas um lema. É «um aspeto de solidez, confiança, de gente que há muitos anos está nisto», entende João Paulo Dias Pinheiro, porque «quando a livraria se mantém estes anos todos, é por amor aos livros, à profissão».

 

Na Ferin, os livros ainda são tratados como objeto de dimensão elevada e de paixão, recebendo por isso os melhores cuidados. Os livros em exposição estão envoltos por um elástico que os cuida e impede que a capa fique enrugada, cuidado que só poderia ser tido por um livreiro que ame os seus livros. A livraria cheira a madeira encerada, odor que emana das prateleiras de madeira escura e que instintivamente nos situa num sítio antigo e respeitável.

 

 

«A livraria tem este ar antigo e pesado, mas pode interessar a uma camada a partir dos 18-20 anos», crê João Paulo Dias Pinheiro, que receia um afastamento do público mais jovem do seu estabelecimento tão antigo, dada a proximidade da FNAC do Chiado. Os clientes fiéis, esses, tem-nos, sendo que muitos deles foram ou são figuras conhecidas da vida intelectual portuguesa (não utiliza o termo «ilustres»: «ilustres são todos os clientes»). E começamos uma viagem pela memória da livraria nos relatos de João Paulo Pinheiro.

 

Mouzinho de Albuquerque, militar e governador colonial português, cuja ação foi determinante para a ocupação portuguesa de parte do território moçambicano, viria a suicidar-se a 8 de janeiro de 1902, em Lisboa. Mas antes disso terá passado pela Livraria Ferin para liquidar todas as suas contas e levantar algumas encadernações. Eça de Queirós citou a livraria várias vezes na obra A Capital. Já na atualidade, podem referir-se alguns nomes como Dom Duarte de Bragança, Maria Barroso, José Pacheco Pereira, António Pedro Vasconcelos, entre outros. O próprio José Saramago terá frequentado a livraria. João Paulo Dias Pinheiro fala com especial amizade das muitas vezes que terá atendido Sophia de Mello Breyner: «vinha sempre ao fim do dia, quando estava quase a fechar a porta. Ficávamos a conversar», lembra. Enquanto decorre a entrevista a João Paulo, o poeta Nuno Júdice também entra na livraria.

 

 

Entre vendas e leilões, João Paulo Dias Pinheiro vai tentando angariar algumas relíquias que contam o passado da Ferin. Entre estes livros-relíquia, que não estão disponíveis para venda, encontram-se entre outros uma edição da tradução portuguesa de Hamlet, de Shakespeare, da autoria do rei D. Luís e assinada pelo próprio, com encadernação dourada por folhas, feita na livraria. Possui ainda outro exemplar do mesmo livro, com uma encadernação diferente, também executada na Ferin. João Paulo Dias Pinheiro guarda ainda a Medalha de Ouro arrecadada pela livraria na Exposição Universal Internacional de Paris, em 1900, e uma outra, de prata e mais antiga, conseguida na Exposição Internacional do Porto, em 1865.

 

No coração da cidade e das transformações

Localizada a uns escassos metros da Câmara Municipal de Lisboa, no coração da capital, que é tantas vezes o palco de revoluções e mudanças políticas, a livraria chegou mesmo a ter proteções de ferro que a resguardaram das arruaças na Primeira República, por exemplo. Felizmente, esses utensílios não têm utilidade desde esses tempos, mas outras ameaças à livraria surgiram. O incêndio que deflagrou no Chiado em 1988 obrigou à construção de um guarda-vento na entrada da livraria. «Ao fim do dia, a cinza e a fuligem deixavam os balcões e os livros todos negros», lembra João Paulo Dias Pinheiro.

 

Nota-se, em João Paulo, um saudosismo de outros tempos, desses tempos que já só a livraria pode recordar: «saiu da rotina o vir folhear uns livros para a livraria», lamenta o livreiro. O passado da Ferin relembra uma vida intelectual ativa na cidade de Lisboa, que despontava na livraria, na qual acabavam por acontecer encontros e tertúlias com várias personalidades proeminentes da época. «A tertúlia, antigamente, era uma coisa espontânea, informal. Hoje, serve para travar a desertificação e trazer as pessoas às livrarias», explica. Tempos em que a avidez de conhecimento era satisfeita na livraria, não na Internet.

 

João Paulo Dias Pinheiro conta: «há uns anos já largos, quando cheguei a Frankfurt [à Feira do Livro], [os novos suportes de leitura do livro] já ocupavam um pavilhão». O livreiro tem o Natal de 2009 como o ponto de viragem do mercado, quando as vendas de livros digitais da Amazon superaram as vendas em papel. Mas é veemente quando afirma a sua convicção de que «o livro nunca acabará», garantindo que «neste momento ainda se vende muito livro em papel», e que o futuro terá que se resumir num balanço entre os dois meios. Quanto a João Paulo Dias Pinheiro, o livreiro de 55 anos, 39 dos quais ao serviço da livraria, em que lado se situa? Não hesita: «sou um livreiro do papel». Para ele, é isso que o livro é.

 

Uma livraria que é um membro da família

João Paulo Dias Pinheiro é um dos membros da sexta geração da família Ferin em Portugal. Tal dado pareceria despropositado, não fosse o facto de a Livraria Ferin ver na genealogia heráldica uma das suas especializações, além do evidente orgulho do livreiro na antiguidade e história da família. A livraria foi fundada pela sua quinta-avó, o que significa que o negócio foi passando, de geração em geração, até à sexta geração de Ferins. João Paulo vê a livraria «como parte integrante da família».

 

A primeira geração de Ferins livreiros inicia-se com duas irmãs de ascendência francesa. Maria Teresa casou-se, em 1837, com o belga Pedro Langlet, mercador de livros em Lisboa que possuía uma livraria no Cais do Sodré, tendo depois passado a sua livraria para a Ferin. Gertrudes Clara, que tinha um gabinete de leitura na Rua Nova do Carmo, casou-se, em 1840, com um encadernador, Manuel Robin, que era proprietário de uma oficina de encadernação na rua da Horta Seca. Manuel Robin também transferiu para a livraria a encadernação. Neste tempo, a livraria ganhou notoriedade como encadernadora e foi nomeada por D. Pedro V, em 1861, encadernadora das reais bibliotecas, o que lhe conferia o direito de usar as armas reais.

 

 

João Paulo Dias Pinheiro define a Ferin como uma «livraria internacional», no sentido em que a livraria não tem livros apenas em português. A origem francófona dos primeiros livreiros Ferin, assim como o facto de, no século XIX, grande parte das ideias da cultura europeia serem importadas de França, criou a tradição do livro francófono no estabelecimento, que ainda hoje é mantida. Livros de História e biografia política, em francês, são os que predominam nesta vertente, além dos livros sobre arte e dos que são importados não só de França mas também de Inglaterra, Itália e Espanha. No entanto, a facilidade com que atualmente se encomendam livros do estrangeiro veio tirar mercado à livraria. Mas João Paulo Dias Pinheiro ressalva que «há clientes que preferem vir aqui adquirir os seus livros».

 

Em português, os livros que podem encontrar-se na Ferin estão sobretudo relacionados com História e atualidade política, em simultâneo com livros sobre temas como as artes. «Temos clientela fidelizada e apanhamos nichos de mercado», explica João Paulo Pinheiro. «Procuramos ter livros que sejam menos comuns e que não se encontrem com facilidade noutras livrarias».

 

 

Aquilo que o livreiro mais lamenta é o tempo reduzido para apreciar e fazer a escolha dos livros e a consequente alteração na relação com os editores e fornecedores. «A livraria tem o reconhecimento dos editores porque está no mercado há estes anos todos. Os próprios vendedores reconhecem uma diferenciação, reconhecimento também da atenção que lhes dou. Esta relação é importante», admite. No entanto, «os editores recorrem muito mais aos e-mails e PDF», algo que leva João Paulo Dias Pinheiro a afirmar que já gostou mais de ser livreiro, noutros tempos. «Passamos a ter menos tempo para fazer aquilo de que gostamos: dar uma vista de olhos pelos livros, falar com os clientes». E observa ainda o «receio» que se sente na edição, «não só em Portugal mas também na Europa», fruto de uma crise geral.

 

No caso de Lisboa, que tem vindo a assistir ao encerramento de várias livrarias históricas como a Livraria Portugal, a Sá da Costa e a Citação, João Paulo crê que «não poderá ser má gestão» a causa dos encerramentos, pois o cenário não se limita a Lisboa, nem ao país, mas estende-se à Europa. Como forma de se afirmar no mercado, a Livraria Ferin associou-se ao grupo Princípia em 2011, garantindo João Paulo Pinheiro que a Ferin mantém a sua independência como livraria, vendo esta relação como uma convergência de esforços «para desenvolver as duas empresas».

 

Os eventos promovidos pela Livraria Ferin

Como forma de travar a desertificação da livraria, a Ferin promove vários eventos no piso inferior dos números 70 a 74 da rua Nova do Almada. Além do programa Ensaio Geral, que é realizado em parceria com a Booktailors e é emitido uma vez por mês na Rádio Renascença, criou três tertúlias quinzenais (uma diplomática, outra sobre pensamento e política e uma terceira sobre a reforma do Estado), organizadas pelo eurodeputado José Ribeiro e Castro, para as quais são convidadas personalidades da área — embaixadores estrangeiros em Portugal, por exemplo. A Ferin deseja ainda, para breve, inaugurar novas tertúlias sobre diversos temas — poesia, História, artes, entre outros. A sua vontade é «recuperar o espírito antigo e pôr a livraria na rota do quotidiano das pessoas». Um projeto antigo para a criação de um café, de apoio à presença dos clientes e que seja um ponto de encontro, também não está esquecido. João Paulo Dias Pinheiro lembra ainda que a sala da livraria está «à disposição das editoras e dos autores» para eventos.

 

Os tempos de crise que chegam às livrarias levam João Paulo Dias Pinheiro a ser assertivo: ser livreiro «é uma profissão apaixonante, mas em termos económicos não é o que as pessoas ambicionam». Apesar de tudo, tem transmitido às outras gerações da família o gosto pelos livros. «Procuro, sempre que há eventos, trazer os meus filhos para aqui», declara.

 

Como livreiro, um dos seus objetivos passa por «transmitir esta paixão pelos livros», e aponta a partilha com os clientes da Ferin como «a parte mais rica da profissão». Orgulha-se de pequenas recompensas que recebe pelo seu trabalho, como o facto de perceber que os turistas estrangeiros gostam de visitar a livraria. Pontualmente, faz até visitas guiadas. Já teve um pedido de um grupo de 20 franceses, por exemplo, e este é um ótimo sinal para o livreiro, que pretende manter a Livraria Ferin nas rotas de portugueses e estrangeiros. É como visitar um ponto histórico da cidade — mas não um museu, realça João Paulo Dias Pinheiro.

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