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Blogtailors - o blogue da edição

Morreu Maya Angelou

28.05.14

 

«A poetisa e activista dos direitos dos afro-americanosa Maya Angelou morreu esta quarta-feira aos 86 anos, na sua casa em Winston-Salem, nos Estados Unidos.» Ler no Sol e aqui.

 

«Angelou  foi uma das escritoras negras mais lidas nos Estados Unidos e foi convidada a ler poemas em duas tomadas de posse presidenciais – em 1993, com Bill Clinton, e de novo em 2009, com Barack Obama.

 

Entre as suas obras mais conhecidas estão I Know Why the Caged Bird Sings, de 1969, e Carta à minha filha: um legado inspirador para todas as mulheres que amam, sofrem e lutam pela vida – dedicado à filha que nunca tive, de 2008 mas editado em Portugal em 2009.» Ler no Público.

 

«Poeta, escritora, dramaturga e atriz, Maya Angelou foi também uma figura de primeiro plano na luta pelos direitos cívicos da população negra nos Estados Unidos e próxima de Martim Luther King.» Ler no Diário Digital e no Correio da Manhã.

 

«Nasceu Marguerite Ann Johnson a 4 de Abril de 1928, em St. Louis. Porque as letras lhe roubaram quase todo o espaço que tinha reservado para possíveis paixões, foi naturalmente cedo que decidiu contar a sua história, a que lhe moldou o resto da vida, num livro que haveria de se tornar um sucesso de crítica e de vendas. I Know Why The Caged Bird Sings (1969) é o título da autobiografia, focada nos primeiros anos da vida de Maya e que a acompanha desde frágil criança até mulher feita de determinação. E este foi apenas o primeiro de uma série de sete volumes que relatam toda a vida da escritora.» Ler no iOnline, aqui e aqui.

 

«Um dos seus poemas mais conhecidos, intitulado On the Pulse of Morning, foi recitado durante a tomada de posse presidencial de Bill Clinton, em 1993. Em 2006, voltou a ser convidada para a posse presidencial de Barack Obama.» Ler no Expresso.

 

«Além de escritora, foi bailarina, autora de peças de teatro, atriz e a primeira realizadora negra de cinema de Hollywood.» Ler no Jornal de Notícias.

Centro Atlântico promove o passatempo «O Guardador de Rebanhos em Vídeo»

28.05.14
O Centro Atlântico está a promover, no Facebook, o passatempo «O Guardador de Rebanhos em Vídeo», convidando os interessados a gravar um vídeo com a leitura de um dos poemas de Alberto Caeiro e a partilhá-lo na sua página de Facebook. Ao atingir 100 gostos, o vídeo poderá concorrer a «499 Euros em prémios», divulga a página. Saiba mais na página do concurso, aqui.

Começa hoje o festival Livros a Oeste

28.05.14

 

«Cinco dias, quase 30 escritores, teatro, cinema, música e muita conversa. Será assim a 3ª edição do Festival Livros a Oeste, que decorre entre 28 de Maio e 1 de Junho, no concelho da Lourinhã. No ano em que inaugurou a nova biblioteca municipal, a Lourinhã recebe no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira, situado no local da antiga biblioteca, escritores como Mário Zambujal, Rui Zink, Afonso Cruz, David Machado, Patricia Portela, o poeta Nuno Júdice ou Margarida Fonseca Santos.

 

Organizado pela autarquia, o festival que tem este ano como tema o "Mundo Global".» Ler na Renascença.

84.ª Feira do Livro de Lisboa começa amanhã, dia 29

28.05.14

 

«A 84.ª Feira do Livro de Lisboa abre na quinta-feira, no Parque Eduardo VII, com 250 novos pavilhões de 537 editoras e chancelas, mais 80 do que no ano passado, e um conjunto de atividades que inclui um "picnic literário".

 

O número de pavilhões é semelhante ao do ano passado, mas com um design novo, disse à Lusa fonte da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), que organiza o evento.» Ler no iOnline.

 

«O secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, e o presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, João Alvim, inauguram na quinta-feira a Feira do Livro de Lisboa.

 

O parque Eduardo VII volta a ser o cenário da Feira do Livro, que, nesta 84.ª edição, espera receber mais de 500 mil visitantes e muitos autores e ilustradores, entre eles, Jeff Kinney, autor de «O Diário de um Banana», e que foi nomeado pela revista Time como uma das pessoas mais influentes em todo o mundo.» Ler no Diário de Notícias.

 

«O Grupo LeYa está presente com 14 pavilhões, de acordo com os números da editora, organizados numa praça própria e, pela primeira vez, fará entrega do Prémio LeYa, no valor de 100.000 euros, na feira.

O Prémio Leya 2013 foi ganho por Gabriela Ruivo Trindade, pelo romance, Uma outra voz, e será entregue no dia 7 de junho, por Miguel Pais do Amaral, presidente do Conselho de Administração do Grupo.

 

A LeYa mantém a tradição de entregar também os Prémios do Concurso Literário Uma Aventura, que acontecerá no dia 2 de junho, com a presença das autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, e de cerca de mil alunos, segundo previsões da LeYa.

 

O grupo, que inclui, entre outros, a Editorial Caminho e a Casa das Letras, apresenta no certame uma nova imagem e "um programa forte e diversificado assente, também ele, na diversidade dos livros e dos autores publicados", disse à Lusa fonte editorial.» Ler na RTP.

 

«Além das editoras e suas chancelas e da participação de Moçambique, que se inscreveu, a Feira conta ainda com a participação de dez alfarrabistas.

A modernização do equipamento da Feira passa também pelo seu auditório, a meio do Parque Eduardo VII, um espaço fechado de 90 metros quadrados, climatizado, com capacidade para 80 pessoas. Aqui se realizarão vários debates, palestras e apresentações de livros.» Ler na TVI24.

Cabide, a revista «ao vivo», tem a sua primeira edição entre amanhã e domingo

28.05.14

 

«Cabide é uma revista: tem um plano editorial jornalístico e uma posição editorial, mas nada disto é vendido em papel na banca de um quiosque, ou até mesmo online. Nenhum dos seus conteúdos está sequer escrito. Cabide é uma revista "ao vivo", em que as entrevistas, os debates, os ensaios acontecem no palco à frente dos leitores.

 

Entre quinta-feira e domingo, no Cinema S. Jorge, em Lisboa, o jornalista João Pombeiro e o designer Luís Alegre, directores da revista, apresentam o plano editorial que organizaram para responder à pergunta do primeiro número: "Saberemos tomar conta de nós?" Todas as edições desta revista semestral – o número dois acontece pelo final deste ano – vão ter como ponto de partida uma pergunta que se prende com actualidade. Neste caso, a pergunta é motivada pela saída da troika e pelas eleições europeias. "Apesar da pergunta ter uma origem política, não vamos ter respostas só ao nível político-partidário", diz João Pombeiro, que sublinha querer uma revista abrangente.» Ler no Público.
«A resposta à pergunta da capa da Cabide - "Saberemos tomar conta de nós?"  - poderá estar numa entrevista ao vivo a Eduardo Lourenço, numa conferência de Gonçalo M. Tavares ou num ensaio de Pedro Rosa Mendes para ver e ouvir, explica à Renascença o jornalista João Pombeiro, director da revista.» Ler e ouvir na Renascença. Ver na RTP.
«"A pessoa, quando entra na sala, é como se estivesse a entrar num artigo." Para imaginar o que é uma revista ao vivo, o que tem de fazer é conceber a ideia que acaba de ler, tal e qual, como foi explicada por João Pombeiro. Não se trata de um jogo, mas sim de uma nova proposta jornalística que tem como nome Cabide, nada mais nada menos que uma revista ao vivo que a partir de hoje e até domingo vai ocupar as salas do Cinema São Jorge, em Lisboa.» Ler no iOnline.

Dia 6 de junho, Gastão Cruz e Rui Lopes Graça no Ensaio Geral na Ferin

28.05.14

 

No mês de junho, o poeta Gastão Cruz e o coreógrafo Rui Lopes Graça juntam-se à jornalista Maria João Costa para o Ensaio Geral na Ferin. Transmitido semanalmente e gravado uma vez por mês na Livraria Ferin (rua Nova do Almada, 70-74, Lisboa), o Ensaio Geral tem lugar na livraria no dia 6 de junho, pelas 18.45. A entrada é livre.

 

Este ciclo de tertúlias tem levado, nas primeiras sextas-feiras de cada mês, um autor e uma personalidade de outra área ao espaço desta livraria, para debate de ideias e uma conversa com o público presente.

 

O Ensaio Geral é uma iniciativa conjunta da Livraria Ferin, Rádio Renascença e Booktailors.

 

Ouça a edição de novembro aqui (que juntou Afonso Cruz e José Avillez), a edição de dezembro aqui (na qual estiveram D. Manuel Clemente e Gonçalo M. Tavares), a edição de janeiro aqui (que contou com Pedro Vieira e José Gil), a edição de fevereiro aqui (que teve como convidados António Mega Ferreira e João Luís Carrilho da Graça), a edição de março aqui (que levou à Ferin Jacinto Lucas Pires e Mário Laginha), a edição de abril aqui (com Adelino Gomes e Alfredo Cunha) e o programa de maio, com João Tordo e António-Pedro Vasconcelos, aqui.

 

Pode ainda conhecer os convidados da primeira edição do programa aqui.

Entrevistas Booktailors: Manuel Portela

28.05.14

 

O entrevistado do Blogtailors no mês de maio é poeta, tradutor e professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde dirige o programa de doutoramento em Materialidades da Literatura. Manuel Portela é também o investigador que coordena o projeto do Arquivo Digital do Livro do Desassossego, adiantando que deverá estar concluído no verão de 2015.

 

Lidera, neste momento, a constituição do arquivo digital do Livro do Desassossego (LdoD). Originalmente, de onde partiu a ideia do projeto? E porquê o Livro do Desassossego?

A ideia tem origem na investigação que realizei desde o início da década de 2000 sobre edições e arquivos digitais de obras do património literário impresso. Pelo menos desde meados da década de 90 que um conjunto significativo de projetos de investigação desenvolveu modelos de edição digital a partir da consciência de que uma parte significativa do património cultural da humanidade iria ser progressivamente digitalizado à medida que a comunicação digital em rede instituía um novo espaço de publicação. No caso da literatura, muitos desses projetos pioneiros chegaram a um modelo de edição que passava pela reconstituição digital do arquivo das obras, isto é, do conjunto de documentos da sua história material.

 

Igualmente importante para a conceptualização deste projeto foi a ideia de que o meio digital poderia ser usado não só para efeitos de representação textual (dos autógrafos e das edições já existentes), mas também para efeitos de simulação dos próprios processos literários de ler, escrever e editar, tirando partido da processabilidade e da natureza dinâmica e colaborativa da Web 2.0. O Arquivo LdoD terá assim um conjunto de funcionalidades de virtualização do LdoD que permitirão aos leitores assumirem diferentes papéis no estudo, manipulação e apropriação da obra. Porquê o Livro do Desassossego? Pela sua natureza material de obra inacabada e fragmentária, e pelo seu grande apelo imaginativo para inúmeros leitores em todo o mundo, o LdoD surgiu como a obra ideal para levar a cabo esta experiência conceptual e técnica.

 

O projeto teve início em março de 2012 e tem a sua conclusão prevista para o fim de fevereiro de 2015. Quais as fases que atravessou? E qual a fase em que está no momento?

O projeto tem três componentes de investigação: uma de natureza textual, que implica a análise dos documentos autorais e análise das quatro edições principais da obra (Jacinto do Prado Coelho, 1982; Teresa Sobral Cunha [1990–91] 2013; Richard Zenith [1998] 2012; Jerónimo Pizarro [2010] 2013); outra de natureza computacional, que passa pela construção de um modelo de codificação eletrónica XML para todos os textos do LdoD e pelo desenvolvimento da programação adequada ao conjunto de funcionalidades do modelo de virtualização concebido; e uma terceira, de natureza teórica, que pretende investigar a relação entre escrita e livro nas práticas modernistas, incorporando nessa investigação os conhecimentos obtidos no processo de remediação digital da obra. Se tudo correr bem, o Arquivo LdoD será publicado no verão de 2015.

 

Como é que os suportes e as materialidades da literatura a influenciam? A máxima de Marshall MacLuhan «o meio é a mensagem» aplica-se de alguma forma à literatura?

Este projeto parte precisamente da análise material e textual dos documentos autógrafos, tal como aconteceu com as quatro edições principais ao fazerem as suas transcrições, seleções e organizações particulares dos elementos do livro. O projeto parte ainda da exploração da processabilidade simulatória do meio digital para criar um espaço de virtualização que permita compreender simultaneamente os processos de construção autoral e de construção editorial do LdoD. A relação particular entre meio e mensagem pode observar-se nos modos de construção material e social da obra enquanto livro impresso, por um lado, e enquanto arquivo digital, por outro. Um exemplo: a edição sob a forma impressa obriga a uma tomada de decisão sobre a ordenação relativa dos fragmentos; no entanto, esta ordenação pode tornar-se flexível e reconfigurável no espaço digital, dando origem a um conjunto diferente de princípios editoriais. Se usarmos a linguagem de MacLuhan, podemos dizer que a recriação do arquivo autoral e das edições do LdoD em meio digital altera a escala das nossas interações com os textos.

 

Está postulado como sendo um dos objetivos do arquivo digital «representar a dinâmica dos atos de escrita e de edição na produção do LdoD». Quanto a isso, qual é o balanço da dinâmica da edição da obra?

No que se refere à dinâmica da edição da obra, observamos quatro modelos distintos de construção do LdoD. Poderíamos resumi-la deste modo: um modelo que procura associar os fragmentos combinando afinidade temática e proximidade cronológica; um modelo que considera dois períodos e heterónimos diferenciados (Vicente Guedes e Bernardo Soares) e que, dentro de cada um deles, tenta reforçar a unidade discursiva dos fragmentos, por exemplo através da eliminação da numeração ou da reordenação interna do texto de alguns manuscritos fragmentários; um terceiro modelo, que coloca a produção de Bernardo Soares como eixo da obra e intercala os restantes fragmentos de modo que haja preponderância da voz Soares, relegando para uma parte final os grandes trechos; finalmente, um modelo que reconstitui crítica e geneticamente a cronologia dos fragmentos, aproximando o livro do arquivo da obra. É claramente observável o modo como as edições lutam entre si para legitimarem os seus modos particulares de construção do LdoD a partir do arquivo de Pessoa. Uma luta que reflete também a dinâmica comercial de concorrência no mercado do livro. Ou seja, as variações na forma textual interna do LdoD não dependem só dos critérios explícitos invocados pelos organizadores de cada uma das edições, mas também de um conjunto de fatores socioliterários implícitos.

 

Como descreve a abrangência do doutoramento em Materialidades da Literatura, criado pela Universidade de Coimbra?

O doutoramento em Materialidades da Literatura surgiu a partir do trabalho de investigação  desenvolvido ao longo da última década, que, no meu caso, incidiu especialmente sobre as questões da história e da materialidade do livro, assim como sobre a criação literária e artística em meio digital. Enquanto área de investigação, este doutoramento resulta da interseção do trabalho de vários investigadores, a trabalhar sobre problemas como a voz, a escrita, o cinema e a imagem técnica em geral; a história e as tecnologias de virtualização; e as teorias materiais da cultura — problemas com uma forte incidência na teorização literária da última década. Por outro lado, este contexto de investigação local ocorre num contexto internacional de expansão dos estudos comparados dos média e de uma teorização das mudanças sistémicas em curso nas tecnologias de inscrição e de literacia em consequência da crescente digitalização das formas culturais e dos processos sociais.

 

Nos 17 projetos de doutoramento em curso, é possível observar a emergência de uma constelação de problemas de investigação centrados na questão da materialidade e das tecnologias mediais de inscrição e comunicação na sua relação com a significação literária. Este é provavelmente o aspeto principal da reorientação metodológica que nos permitiu construir objetos de investigação diferentes daqueles que têm tido como base apenas a articulação entre literatura e cultura. A perspetiva do programa tende a ser interdisciplinar e intermedial, procurando integrar múltiplos contextos culturais, sociais e linguísticos. 

 

Portugal é um país que ainda não privilegia a leitura de livros em formato digital, quando comparado com outros países. Em que é que isto nos pode tornar diferentes de outros países na compreensão da leitura?

Independentemente dos formatos vistos como «livro digital» num sentido restrito, o facto importante a assinalar é o de que a leitura é hoje predominantemente digital e que é feita em rede, ou seja, segundo uma lógica hipertextual, que salta de documento em documento e de género em género, sem respeitar as fronteiras discursivas impostas pelos limites materiais dos meios analógicos.

A pergunta parece referir-se essencialmente à transposição da experiência do códice impresso para os tabletes digitais, cuja portabilidade permitiu que assumissem nos últimos anos a condição de principais emuladores do livro, como se neste dispositivo se tivesse consolidado um vínculo entre hardware e software que o tornasse apto a ser percebido como a reencarnação digital do livro. De facto, a publicação e a distribuição simultânea de livros nos dois formatos, que já se generalizou em alguns mercados livreiros, está ainda pouco desenvolvida em Portugal. No entanto, não vejo que decorra daí qualquer diferença na compreensão da leitura, já que a diferença específica das literacias atuais é determinada pela leitura multimodal em rede e que essa experiência caracteriza as nossas interações com os dispositivos, interfaces gráficas e conteúdos digitais, nas suas diferentes configurações, independentemente de uma distribuição de ficheiros chamados «livros» para serem lidos em e-book readers. A identificação tradicional entre leitura e livro impede-nos de perceber um conjunto vasto de outras práticas de leitura que têm lugar quer no universo impresso quer no universo digital que não dependem do «livro» enquanto formato específico.

 

Quais os principais desafios das humanidades perante a era digital?

As tendências de investigação recentes neste campo epistemológico mostram dois conjuntos de respostas diferentes no processo de remediação digital dos objetos e dos métodos das humanidades. Um grupo de respostas incorpora as ferramentas digitais, muitas das quais concebidas em domínios científicos com uma natureza fortemente instrumental, procurando transformar os métodos da disciplina em causa de modo a conformar-se à lógica da ferramenta. Disso são exemplos projetos de prospeção e visualização de dados em grandes quantidades de texto ou de imagem ou de imagem em movimento. Trata-se de adotar metodologias quantitativas no domínio da análise da linguagem, da literatura, da história, da cultura e das artes, que suplementam ou desafiam as práticas de análise hermenêutica de objetos singulares ou de pequenos conjuntos de objetos. Um segundo grupo de respostas procura conceber as próprias ferramentas digitais de acordo com os protocolos de conhecimento das práticas das humanidades, isto é, com a consciência da dimensão interpretativa e intersubjetiva do conhecimento humanístico. Por outras palavras, trata-se de usar as capacidades da tecnologia digital de modo infletido que consiga incorporar categorias como a temporalidade, a historicidade e a subjetividade específica das representações e dos seus códigos próprios. A configuração futura das «Humanidades Digitais» resultará da dinâmica entre a componente humanística e a componente digital. Creio que o principal desafio consiste na apropriação dos instrumentos computacionais para modificar os métodos das disciplinas, mas também para desenvolver métodos computacionais reflexivos e conscientes da natureza interpretativa e construída dos seus objetos.

 

A literatura está dependente da era digital? Como encarar a atitude de alguns autores de permanecerem apenas do lado de uma criação física, em papel?

Esta pergunta tem várias respostas: num certo sentido, a literatura já está dependente da era digital desde que os processos de escrita, composição tipográfica, paginação e impressão incorporaram o computador. A maior parte das obras produzidas desde a década de 1980 são digitais, mesmo quando a sua distribuição final é feita sob a forma de códice impresso. A história do processador de texto e a história dos programas de paginação demonstram que a digitalização da literatura precede a sua distribuição eletrónica em rede, que tende a constituir para nós, hoje, a perceção tipificadora dessa transformação tecnológica. Outra resposta possível: à medida que a experiência de leitura se torna predominantemente hipertextual e se centra no ecrã, a experiência literária passará a ocorrer também (e, eventualmente, sobretudo) nesse meio. Esta experiência literária digital, por sua vez, pode ser pensada de dois modos: ou como transposição dos formatos impressos para formatos digitais que mantêm a modularidade do impresso e a maior parte das suas convenções; ou como a criação de formas programadas e com origem no próprio meio digital, como acontece com a chamada «literatura eletrónica» ou «literatura digital», que incorpora como elemento da sua retórica literária a programabilidade e outras propriedades materiais do meio digital.

 

Uma terceira resposta possível, uma das que poderia ser dada pelos autores que querem permanecer do lado do papel: a intensidade da atenção e do envolvimento que o livro de papel implica, na sua ergonomia de leitura, é um elemento essencial da leitura e da experiência literária. Para estes autores, a atenção interrompida, extrospetiva, multimedial e descontínua da hiperleitura não seria compatível com a leitura contínua, introspetiva e intensa que define a experiência literária. Quer dizer que a defesa da leitura em papel é, muitas vezes, a defesa desta prática de leitura e da perceção desta prática como essencial à produção do literário enquanto tal. A meu ver, mais do que pensar na concorrência e na oposição entre digital e papel, devemos pensar na interação criativa entre papel e digital, e entre digital e papel. É isso que alguns escritores têm feito, tentando inventar experiências literárias digitais ou experiências literárias no códice intensificadas pelo uso de meios digitais. Claro que persiste o problema de saber qual será a forma típica da experiência literária na nova ecologia medial, em que a interrupção da atenção e a multimodalidade se tornam modos de interação privilegiados.

Uma pergunta possível seria esta: quais as formas e práticas que reconheceremos como experiências literárias no meio digital? Aquelas em que reconhecemos um vínculo com experiências de leitura das operações de linguagem intensificadas pelo códice? Aquelas em que reconheceremos uma profunda consciência do novo meio e das suas modalidades próprias de inscrição? Outra pergunta ainda: qual o lugar relativo da escrita e dos processos de uso e transformação da linguagem verbal na produção da experiência literária em meio digital? Poderá a experiência literária sobreviver à desvinculação entre «letra» e «literatura», permitindo-nos reconhecer «literatura» também em formas sem mediação dos códigos da escrita (formas sonoras, visuais, audiovisuais, cinéticas)? Residirá a experiência literária na apropriação do espaço eletrónico como espaço de escrita e leitura através da construção explícita e socializada de ligações entre os objetos que entendemos ler como literários? A «literatura» como categoria tem de ser produzida: não decorre da simples vinculação a determinada forma ou formato material.

 

 

 

Manuel Portela é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses, pela Universidade de Coimbra, e é doutorado em Cultura Inglesa pela mesma universidade. É professor auxiliar com agregação no Departmento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra, onde dirige o programa doutoral em Estudos Avançados em Materialidades da Literatura. É investigador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. É o investigador responsável do projecto «Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego» (Universidade de Coimbra, 2012–15). Dos seus muitos ensaios, destaque para os livros Scripting Reading Motions: The Codex and the Computer as Self-Reflexive Machines (MIT Press, 2013), e O Comércio da Literatura: Mercado e Representação (Antígona, 2003).Traduziu para português Laurence Sterne, William Blake e Samuel Beckett. Em 1998 recebeu o Grande Prémio de Tradução pela tradução de The Life and Opinions of Tristram Shandy.

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Guerra e Paz edita Retratos de Camões, o último livro de Vasco Graça Moura

27.05.14

 

A editora Guerra e Paz anuncia o lançamento, a 3 de junho, de Retratos de Camões. O último livro de Vasco Graça Moura será apresentado na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), pelas 18.30, no Auditório Maestro Frederico de Freitas. Estarão presentes no lançamento José de Guimarães, Vítor Aguiar e Silva e José Jorge Letria, presidente da SPA. O livro chega às livrarias no dia 4 de junho.

 

A poucos dias do 10 de Junho, Dia de Camões, «a Guerra e Paz Editores, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores, tem a honra de fazer chegar aos leitores um livro de Vasco Graça Moura sobre a iconografia camoniana. É um pequeno livro, encadernado, com ilustrações a cores, que inclui retratos contemporâneos de Camões da autoria de Júlio Pomar, José de Guimarães, João Cutileiro e José Aurélio, a par dos retratos clássicos», divulga a editora em comunicado. Retratos de Camões é uma obra de não-ficção, ensaística, «um estudo histórico dos retratos de Camões, identificando os que terão sido feitos em vida do poeta e os que, posteriormente, deram substância à imagem que hoje temos dele».

 

Iniciativa «A Poesia está na Rua» celebra em Lisboa 40 anos do 25 de Abril

27.05.14

 

«Os escritores Arlete Piedade Louro e Samuel Pimenta organizam a caravana de poesia e música "A poesia está na rua" no dia 31 de Maio (sábado), pelas 15.30, pelas ruas da Baixa de Lisboa, para comemorar os 40 anos do 25 de Abril.

 

A iniciativa conta com a parceria da Associação 25 de Abril, da "Literarte - Associação Internacional de Escritores e Artistas", da "U.L.L.A - União Lusófona das Letras e das Artes" e da "Associação Internacional de Poetas".» Ler no Diário Digital.