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Opinião: O valor das palavras, por David Machado

19.02.10
O VALOR DAS PALAVRAS,
por David Machado (*)

Desde que me preocupei em compreender o sistema montado em redor da literatura, a revelação mais desconcertante que tive foi a de que há pouca gente tão desgovernada como um escritor. Existe o preconceito generalizado de que viver exclusivamente daquilo que se escreve é uma tarefa tão difícil (impossível, na maior parte dos casos) como viver exclusivamente do ar que se respira, sem se saber que os primeiros responsáveis por essa dificuldade são precisamente os escritores. A questão não será tanto a forma como um escritor gasta ou esbanja os seus rendimentos, mas sim os rendimentos que não chega a ganhar por falta de discernimento económico.

A maior e a mais comum razão de escândalo são os ditos míseros 10% sobre o preço de capa de um livro que a maioria dos escritores recebe. Não quero discutir isto. A percentagem poderia ser mais elevada, claro, e, se tivéssemos o pensamento tão orientado para o lucro como o devem ter as editoras, as distribuidoras e os livreiros, esse valor poderia mesmo subir. Mas, pelo menos aqui, existe uma percentagem. O meu problema é outro.

Quem habita este meio sabe bem que, nos dias de hoje, a actividade principal de um escritor é escrever livros e que, depois disso, existem uma série de trabalhos paralelos que complementam e se cruzam com os livros que escrevemos. Em relação a isso, o maior equívoco é o facto de estes trabalhos paralelos serem muitas vezes encarados por toda a gente (autores incluídos) como promoção dos livros publicados e, como tal, não devem ser pagos. Deste modo, um escritor é convidado a escrever contos e crónicas para revistas, jornais, sítios Web e antologias, a estar presente em escolas, bibliotecas e livrarias ou a ceder os direitos de autor de um livro seu para adaptação a uma peça de teatro ou a uma curta-metragem, tudo a troco de 0%, e não deve recusar porque se trata de publicidade para vender mais livros. É assim que o sistema funciona, e toda a gente é cúmplice. Por oportunismo ou insensatez, há sempre quem se aproveite. São eles os editores de revistas e jornais, as editoras de livros, os livreiros, os directores das escolas, das bibliotecas e das companhias de teatro e os produtores de cinema, só para nomear os mais relevantes. É uma perspectiva enviesada, claro. Da mesma forma, um músico daria concertos sem ser pago só para promover os seus discos, ou um canalizador faria de graça um simples remendo num cano, à espera que, pelo boca-a-boca, mais tarde o contratassem para substituir a canalização inteira de uma casa.

Por difícil que me seja, eu entendo isso. Se fosse editor, director ou produtor, também procuraria reduzir os meus custos ao máximo. Por outro lado, não compreendo que um escritor reduza os seus proveitos ao mínimo. Não consigo lembrar-me de outra profissão em que isto aconteça de forma tão conformada e generalizada. Nem sequer nas outras artes. Não se espera que um pintor ceda um esboço que seja de borla. A palavra-chave aqui é precisamente «trabalho». Escrever é trabalho. Falar em público é trabalho. E o trabalho, como qualquer outro bem no planeta, tem um mercado. A oferta e a procura dançam até se encontrarem. Este é o único mercado no mundo onde a oferta e a procura se encontram no zero. Em qualquer outro mercado, os agentes teriam saltado fora muito antes disso. Mas um escritor desrespeita o seu trabalho a ponto de o dar por nada.

Uns por vaidade, outros por desesperança, os escritores são incapazes de recusar o convite para escrever um conto. Sem se aperceberem de que esse conto é um produto e, como tal, tem um valor. Um texto guardado no computador pode representar aquilo que cada um bem entender; no entanto, a partir do momento em que a intenção é publicá-lo, quer queiram quer não, para a sociedade, esse texto torna-se, entre outras coisas, um produto. Porque é que um autor há-de ceder o seu produto de graça? Toda a gente num jornal — directores, editores, jornalistas, cronistas, entrevistadores, cartoonistas, paginadores, etc. — é paga. Porque é que um autor de ficção não o há-de ser?

Passamos aos exemplos. Por um conto de 4000 caracteres, já recebi entre 150 e 400 euros. Fiquemo-nos pelos 150 euros. Quando uma revista me pede que escreva um conto e não me paga, na verdade, aquilo que me estão a pedir são 150 euros. Não é irrisório. Porque é que hei-de dar 150 euros a essa revista? Pela mesma lógica, não peço a revista de borla, e são apenas 2 ou 3 euros. Parece-me bem que existam hierarquias (tabelas, na verdade) de pagamento, e que escritores de topo ganhem, para escrever um conto, cinco, dez ou até cem vezes mais do que um escritor menos célebre (acho justo, traz mais leitores à revista) ou que, num jornal nacional de referência, se pague o dobro daquilo que paga uma publicação com menos protagonismo. Os valores podem e devem variar. Mas tem de existir um valor superior a zero. É tão simples quanto isto: a única razão pela qual os editores, os directores e os produtores oferecem 0 euros por um conto, por uma sessão numa escola ou pelos direitos de adaptação de um livro é porque sabem que há autores que aceitam os 0 euros.

Fico com a sensação de que a poucos autores passou pela cabeça que uma alternativa possível é recusar estes convites, e que essa é a única maneira de valorizarem e respeitarem o seu trabalho. Existem publicações, escolas, bibliotecas, companhias de teatro dispostas a pagar direitos de autor e honorários. Que é o mesmo que dizer: existe mercado. Mas, a partir do momento em que alguns autores decidem trabalhar de graça, esse mercado fica arruinado para todos.

(*) Nascido em 1978, David Machado é licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão. Entre outras obras, publicou, pela Editorial Presença, o romance O Fabuloso Teatro do Gigante e os contos infantis A Noite dos Animais Inventados (vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca 2005) e O Tubarão na Banheira, para além do volume de contos Histórias Possíveis.
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