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Opinião: Da obsolescência e outros temas, por Jorge Colaço

03.06.09
DA OBSOLESCÊNCIA E OUTROS TEMAS,
por Jorge Colaço (*)

Quando magicava na escolha de um tema para esta crónica, o texto de Jorge Palinhos, intitulado «Os livros obsoletos», aqui publicado em 8 de Abril, veio inesperadamente tirar-me de hesitações.

Sendo insofismável que um comprador como J. Palinhos faz a felicidade de qualquer livreiro e constitui, sem margem para dúvidas, um sólido alicerce da indústria dos livros, factos que merecem ser salientados, verifiquei com justificada surpresa que este meu companheiro de crónicas deixou, de certo modo, de «acreditar» nos livros.

Suponho, aliás, que deva ser essa a outra razão, para além do gosto manifesto de possuir exemplares não maculados pelo uso, por que afirma não ter com os livros uma relação inteiramente racional. Nessa relação, a função primeira dos livros parece, nuns casos, quase ter desaparecido, e, noutros, estar em vias de desaparecer, substituída pelas vantagens da internet.
Não creio, na verdade, que tenham sido certos livros que se tornaram obsoletos, mas sim a relação de J. Palinhos com esses livros que se tornou obsoleta.

Por mim, confesso com humildade que mantenho uma relação com os livros (e a leitura) que, dando primazia ao seu conteúdo, o transcende, abrangendo uma dimensão visual, táctil e olfactiva, que torna imprescindível o manuseio do objecto.

Depois de ter passado, como toda a gente, uma fase de aquisição compulsiva e não orientada, tornei-me naturalmente muitíssimo mais selectivo, pelo que muitos dos meus livros estão cheios de papéis com notas e marcações: a preparação dos regressos.

Confio, pois, nos livros que por alguma razão escolhi. Quando precisei de enciclopédias não escolhi as primeiras que me apareceram, entre vários dicionários não optei automaticamente pelo de menor preço, não adquiri a primeira gramática ou o primeiro dicionário de verbos que encontrei e cuja cor de capa me agradou. Escolhi cada um deles em função do autor ou autores, do meu próprio juízo crítico, da garantia que pode constituir o prestígio de uma casa editora, ou usei outros critérios que, em matéria de confiança, minimizassem riscos.

As milhares de respostas obtidas numa pesquisa do Google acrescentam, mas não substituem, as duas ou três que encontrarei em livros da minha confiança. A Wikipédia é tão irregular (para dizer o mínimo) que, para não ficar na dúvida, é sempre necessário confrontar outras fontes. E, francamente, consultar dezenas ou centenas de especialistas (?!) que participam do actual frenesim do twitter, do facebook e dos outros canais que preenchem hoje os dias de muito boa gente, não garante nada sobre a qualidade da informação. Além de que tira imenso tempo à leitura.

Vivemos uma época de muitos simulacros e estamos dispostos a acreditar mais neles do que na realidade que eles imitam (e escondem). É preciso distinguir, diferenciar, escolher. Mas sem que aconteça o que presenciei uma vez na IKEA – o lixo que o cliente foi induzido a separar por compartimentos, certamente por questões de imagem e de correcção ambiental, foi depois recolhido por junto… literal e indistintamente no mesmo saco.

(*) Jorge Colaço (n. Ferreira do Alentejo, 1956) é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ensinou Português como Língua Estrangeira, exerceu actividade docente no ensino secundário e criou um curso livre de redacção e revisão, do qual foi coordenador e professor. Desempenhou, desde 1992, funções de coordenador editorial da área de Humanidades da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 vols., 1998-2003), para a qual também redigiu dezenas de verbetes. Assumiu funções idênticas em outras obras de referência, nomeadamente nos volumes Annualia. Colaborador de Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, tem publicado textos críticos e literários em obras colectivas e revistas.
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