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Blogtailors - o blogue da edição

Opinião: Uma profissão de risco no século XXI (parte II), por Francisco Vale

25.06.10
UMA PROFISSÃO DE RISCO NO SÉCULO XXI (parte II),

por Francisco Vale (*)

N. E.: Publicado originalmente no livro Autores, Editores e Leitores (Relógio D’Água), editado em Novembro de 2009.


[Parte I]

Séculos de livro impresso

Na sociedade actual, a cultura deixou de ser sinónimo de livro manuscrito ou impresso como o foi ao longo de 2500 anos, desde os papiros pré-socráticos até à invenção da tipografia, passando pelos pergaminhos medievais que acolheram a forma de códice. No Egipto dos faraós, a leitura e a escrita foram privilégio de escribas e sacerdotes. Na Grécia Antiga, e na sua forma utilitária, essas tarefas eram atribuições de escravos. Os volumina romanos estiveram ao serviço da expansão do latim e do Império. Mais tarde, o livro seria consagrado pelo cristianismo medieval e renascentista para fins religiosos. Porém, e de um modo geral, as três religiões do Livro tiveram problemas com os seus congéneres profanos. Basta pensar em Espinosa, Giordano Bruno ou nos antecessores de Salman Rushdie. Nalguns países protestantes, as populações eram ensinadas a ler para conhecerem a Bíblia, mas não a escrever. A Igreja Católica chegou mesmo a desaconselhar a leitura do Antigo Testamento e durante a Inquisição muitas obras só existiam nos esconsos de algumas bibliotecas e no Índex do Santo Ofício.

A democratização do livro inicia-se mais de três séculos depois de Gutenberg, sob o impulso dos ócios das famílias de comerciantes e das necessidades de literacia da revolução industrial. É nessa época que o livro chega aos domicílios burgueses, conhecendo, enquanto romance, um apogeu naquilo que os historiadores designam como o Grande Verão Europeu, e que foi da derrota de Napoleão à I Guerra Mundial. É desse período a identificação entre europeu culto e leitor.

Já em pleno século xx a importância do livro teve dois reconhecimentos indesejáveis. Sob o regime nazi as «obras degeneradas» eram purificadas à temperatura de 451 graus Fahrenheit. Estáline, por seu lado, preferia congelar em kolimás siberianos a imaginação de escritores refractários aos encantos do «realismo socialista».

A predominância das imagens

Entretanto, desde o início do século xx que uma nova mudança se fazia sentir. A fotografia generalizou-se e invadiu jornais e revistas. Nos anos 30, o cinema tornou-se popular na Europa, como arte influenciada pelos irmãos Lumière, e nos EUA, sobretudo como espectáculo inspirado nos «efeitos especiais» de Méliès. Na década de 50, surgiu a televisão que depressa se transformou no principal meio de comunicação de massas, recriando hábitos sociais e modos de fazer política e alterando as percepções do espaço público.

O livro, entretanto democratizado pela edição de bolso e pelos novos canais de distribuição, foi sendo secundarizado, e com ele a sociedade alfabética, pelas novas artes e meios de comunicação associados a imagem. A partir dos anos 80, com os computadores, a Internet, e depois os chats e as mensagens SMS, reforçou-se de novo a componente alfabética da sociedade após um longo período de afirmação da imagem. A escrita partilha mesmo hoje o fascínio dos ecrãs junto das novas gerações, embora ao preço de uma fragmentação simplificadora. É, no entanto, possível que o YouTube e a facilidade de envio de imagens em «banda larga» restabeleçam a situação anterior.

Para se entender a evolução próxima do livro impresso, é, pois, necessário considerá-lo na sua evolução específica e na relação com outros meios de comunicação. E para compreender o seu futuro é preciso relacioná-lo com os suportes digitais, os processos cognitivos e os novos hábitos de leitura, e mesmo com o destino da literatura a que tendencialmente poderá estar confinado.


[Parte III]
[Parte IV]
[Parte V]


(*) Francisco Vale foi um dos fundadores da Relógio D’Água em 1983, sendo desde então seu responsável editorial. É autor de dois romances, Cláudia Telefonou Depois e Os Amantes Prendem nos Braços Tudo o Que lhes Dói. Traduziu obras de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Le Clézio, Foucault, Ernesto Sabato, Javier Marías e Fernando Savater.

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