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Opinião: A indústria do livro - um futuro interrogativo, por Francisco José Viegas

30.11.09
N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER.

A INDÚSTRIA DO LIVRO – UM FUTURO INTERROGATIVO
por Francisco José Viegas (*)

De que fala esta revista desde 1986? De livros. De literatura e de não-literatura – mas de livros. Do mundo português dos livros. Livros impressos em papel, encadernados, cheirando a papel e tinta, dispostos nas estantes das livrarias e das bibliotecas, recordados e criticados (amados, detestados) por centenas de autores de textos que, ao longo dos últimos 23 anos, colaboraram nas páginas da LER.

De então para cá, o mundo alterou-se substancialmente – mas ninguém pôs em causa a existência do livro, a sua longevidade, o seu futuro, a sua necessidade. Está na altura de o fazer, nem que seja como simples «hipótese académica»: o livro, tal como o conhecemos hoje, pode desaparecer a prazo. As «hipóteses para o futuro» estudadas por várias fundações, organismos internacionais, institutos privados ou públicos acentuam essa perspectiva: a de o mundo do livro poder vir a alterar-se gradualmente na próxima década – o que se traduziria no aumento crescente de livros disponibilizados em suporte digital, e na diminuição da percentagem de livros impressos em papel e publicados para o circuito tradicional de livraria. Esta hipótese, por mais «criativa» que seja, devia fazer pensar a indústria do livro (mais do que os leitores propriamente ditos, que não deixariam de ler).

Vamos por partes. A primeira delas: a «indústria do livro» aprendeu pouco com a crise vivida pela «indústria da música». Confiante na plataforma tradicional do papel impresso, transformou a palavra «longevidade» na palavra «eternidade», e prefere evitar a discussão franca e aberta sobre os próximos anos. Compreende-se: por um lado, a «indústria editorial» vive do negócio do papel impresso; por outro, admitindo que reflecte sobre o assunto, fá-lo em segredo, porque este é, ainda, a alma do negócio. Há, por isso, quem esteja mais e menos preparado para os próximos tempos.

A segunda: não relacionando a crise da «indústria musical» com o seu trabalho, pretende afirmar a especificidade do seu negócio e do seu ofício, como se – ao longo dos últimos 30 anos – não tivesse senão seguido as pisadas da sua congénere, dedicando parte substancial do seu trabalho a transformar a edição de livros em edição de puro entertainment.

A terceira: no mundo da «indústria editorial», só os editores e os autores estarão em condições de enfrentar as dificuldades que se prevêem. Esta é a boa notícia mascarada de boa notícia. A má notícia mascarada de má notícia ou de boa notícia, consoante a perspectiva em que cada um se coloque, é que a indústria gráfica e as redes de distribuição e de comercialização sofrerão muito mais. O que pode levar muita gente a pensar que há uma vantagem perversa nessa vitória do e-book: desabará a má economia com que os editores têm, actualmente, de alimentar um circuito de distribuição perverso. É provável que os editores possam publicar sem terem de investir tanto em margens comerciais e num sistema de intermediários que, realmente, têm cada vez menos a ver com o livro em si mesmo (a sua qualidade, a sua natureza e a sua fragilidade), e mais com a natureza irremediável das redes de distribuição e a imposição das suas regras.

Fazer o download de um livro pela Net dispensará uma série de etapas. Era bom que essas pessoas e empresas (que hoje são «as etapas») estivessem de sobreaviso. Actualmente, são elas que detêm grande parte do poder de decidir a sorte ou a má sorte de um livro do ponto de vista puramente comercial – talvez por isso devessem tratar melhor os editores e os autores, esforçar-se mais, escolher melhor, pensar que a capacidade do mercado não é infinita e que é necessário reinventar ou inventar outros instrumentos para vender livros e prolongar a sua vida nas estantes.

A indústria do livro deve retirar lições – e lições importantes – sobre o que aconteceu com a indústria da música, onde as equipas comerciais e a rede de distribuição foram queimadas vivas (ou estão moribundas) porque, entre outras coisas, sacrificaram os editores e os autores. Podemos dar as mãos e evitar isso. Porque a forma como «o retalho» está a sacrificar os editores, afunilando as escolhas de livros para venda, é apenas uma fuga para a frente. Se o e-book triunfar, daqui a 10 ou 20 anos, vai restar apenas um pouco desse mundo. E já vai ser tarde para se arrependerem. Ou nos arrependermos.

(*) Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor. Multipremiado enquanto autor, desempenha actualmente as funções de director editorial da Quetzal e de director da revista LER. Distinguido com o Prémio APE, pelo romance Longe de Manaus, o seu romance mais recente intitula-se O Mar em Casablanca.
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