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Opinião: Capa ou rosto, livro ou produto. Venha o mercado e escolha., por Rui Penedo e Vítor Paulino

29.05.09
CAPA OU ROSTO, LIVRO OU PRODUTO.
VENHA O MERCADO E ESCOLHA.,
por Rui Penedo e Vítor Paulino (*)

A actividade de um designer numa casa editora de livros não se esgota no conceito de «capista».

O livro, como objecto tradutor de sentimento, cultura e educação é muito mais do que a sua capa. Começar no formato, passar pelo rosto e acabar no cólofon: cada vez mais, o processo resume-se a estímulos comerciais, leis de mercado, barreiras administrativas.

As estruturas editoriais viram-se, cada vez mais, para as políticas comerciais, para os agentes potencializadores de vendas, sendo precisamente esta mudança ou evolução aquilo que o designer deve entender e potenciar.

O design deve assumir-se como um processo activo na transmissão de cultura e de conhecimento, não podendo, por isso, demitir-se da sua responsabilidade de adicionar camadas ao potencial criativo e orgânico de uma editora.

Trabalhar em equipa é um dever do qual não poderá prescindir. Perceber motivações editoriais, comunicacionais, para as poder transmitir no seu trabalho diário.

O quotidiano ensina-nos a começar pelas capas. O rosto da obra é, sempre, o momento de maior discussão e afinação. Não existindo uma segunda oportunidade para criar uma boa primeira impressão, este é um peso que as editoras não querem deixar na mão de uma mente «iluminada», que deambula entre a arte a técnica... e a moda.

O designer gosta sempre de chamar a si esta responsabilidade, não percebendo que o produto é o método, o diálogo e as motivações.

Transportar as palavras dos autores para imagens, depois de estes terem transportado para palavras as suas próprias imagens, é uma actividade difícil e que deve ser sempre prosseguida como uma atitude responsável, construtiva e proactiva.

«Deixar» que todos os agentes contribuam com o seu input, para partir para o acto criativo de uma forma mais estruturada, responsável e cuidadosa.

O designer deve sempre fidelidade ao autor, aos seus sentidos. Ao editor, como intérprete de vontades e necessidades. Ao marketeer, que saberá onde enquadrar o produto e que estudará a melhor forma de o fazer. Ao departamento comercial, por este o conseguir colocar em diálogo directo com o mercado. Por o ouvirmos com tanta atenção, este nunca nos deixará errar, sempre nos obrigará a copiar e jamais nos deixará ousar.

Face a esta correlação de agentes e motivações, o designer nunca poderá deixar de tentar.

Tentar que o oiçam, que o potenciem, ser uma mais-valia. Tentar dizer que, no livro, no produto, o trabalho gráfico não é só uma capa. Tentar dizer que o mercado também olha para o miolo. Tentar provar que esse mesmo mercado chega a conseguir ler o miolo, que «compra» as palavras que o desenham.

Investir na capa e não respeitar o miolo não é mais do que uma fuga comercial capaz de desrespeitar o sempre amigo mercado. Também o miolo se vende e, por vezes, talvez a capa não o consiga transportar às costas. Quando um autor não consegue «transportar» uma capa, como pedir à capa que transporte o miolo? Um produto deverá ser sempre composto pela soma das partes, desde que estas recorram todas à mesma linguagem algébrica.

Enfim, dirão: pequenas preocupações de designer num mar tão austero e imenso.

Serei sempre um rosto, e não por acaso me chamarei sempre capa.

Serei sempre um livro, e não por acaso me vou transformando em produto.

Serei sempre design, sem itálicos nem preconceitos.

(*) Rui Penedo e Vítor Paulino emprestam os seus nomes ao ateliê de design que formaram em 2002: a RPVP Designers. Ao longo do seu percurso, desenvolveram diversos trabalhos para casas editoriais portuguesas, como Quetzal Editores, Livros de Seda, Porto Editora, Nova Vaga, Bertrand Editora, Círculo de Leitores, Edições 70, entre outras.
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