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Opinião: O futuro dos livros e das bibliotecas (Parte II), por Carlos Fiolhais

19.05.10
O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS (parte II),
por Carlos Fiolhais (*)

N. E.: texto publicado originalmente no blogue De rerum natura
, correspondente à intervenção de 15 de Abril no Colóquio sobre Gestão Editorial, organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra:


E qual será o futuro das bibliotecas, que foram desde tempos imemoriais os sítios onde se depositaram os livros para ficarem à disposição de todos? Nunca é de mais elogiar o papel das bibliotecas. Saiu nas notícias recentemente que Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones, sempre quis ser bibliotecário. O segredo é revelado na sua autobiografia, Life, a sair em Outubro. Nela Richards revela que, como uma criança e jovem nos anos 1950 em Londres, encontrou refúgio nos livros e nas bibliotecas antes de descobrir a música. Declarou: «Quando somos jovens, há duas instituições que nos afectam fortemente: a igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca, que te pertence.»

As bibliotecas começaram por ter catálogos electrónicos, para passarem a ter livros electrónicos (digitalizando livros antigos ou modernos, como faz a Google, ou arquivando livros electrónicos de raiz, como acontece com os repositórios digitais de teses e de outros trabalhos científicos). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) e a Imprensa da Universidade de Coimbra têm acordos com a Google para digitalização das suas edições próprias, e a Universidade de Coimbra, através do seu Serviço Integrado de Bibliotecas (SIBUC), disponibiliza urbi et orbi o Estudo Geral, repositório de obras modernas, com cerca de 8000 itens, e a Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra, repositório de obras antigas, com cerca de 5000 itens. De certo modo, a rede mundial de computadores que temos hoje é já uma gigantesca biblioteca, que inclui numerosas bibliotecas virtuais e tudo o resto a que também, com alguma boa vontade, se poderá chamar biblioteca. As bibliotecas modernas são híbridas — espaços inspiradores guardando e mostrando livros tradicionais em papel que importa preservar e, ao mesmo tempo, sítios no ciberespaço, permanentemente acessíveis, com e sem fios (por exemplo, com smartphones). A Biblioteca Joanina não perde o seu poder encantatório por parte dos seus livros (infelizmente ainda pequena) estarem na Net. O movimento imparável é no sentido de digitalizar tudo o que não foi criado em forma digital. Existem os meios técnicos para isso, e Portugal está muito atrasado neste domínio (porque não está todo o Eça de Queiroz acessível digitalmente?), pelo que terá rapidamente de recuperar esse atraso, por meio de um grande esforço nacional e transnacional: por que não envidar esforços sérios com o Brasil e outros países de língua portuguesa para aumentar a presença da nossa língua na Net? Estou, neste domínio, optimista: aquilo que se pode fazer vai ser feito, até porque neste caso há muito para fazer e é bom que se faça…

As vantagens das bibliotecas digitais são óbvias, desde logo a concentração no espaço e a rapidez de acesso. Os físicos e os engenheiros resolverão os problemas técnicos dos suportes magnéticos de longa duração, transferindo a informação em bits dos suportes que se vão tornando obsoletos e resolverão também os problemas da comunicação, que só não é instantânea porque há o limite da velocidade da luz. A nanotecnologia virá ajudar, com a criação de dispositivos minúsculos que armazenem informação gigantesca — talvez numa folha de papel possa caber toda a Biblioteca Joanina. Lembro que a ideia de nanotecnologia foi lançada em 1959 pelo físico norte-americano Richard Feynman («Há muito espaço lá em baixo») que pretendia nada mais nada menos do que colocar os 24 volumes da Enciclopédia Britânica na cabeça de um alfinete e verificou, fazendo as contas, que era possível colocar todos os livros do mundo num minúsculo grão de poeira. Parafraseando William Blake: «all the books in a grain of dust


(*) Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
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