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Opinião: Uma feira, duas feiras e um mercado insensato, por Pedro Patacho

20.02.09
UMA FEIRA, DUAS FEIRAS E UM MERCADO INSENSATO,
por Pedro Patacho (*)

Umas linhas introdutórias para saudar a Booktailors pelo excelente trabalho que está a fazer a favor do sector editorial. Há muito que não se via em Portugal um projecto que transpirasse tanta inovação e criatividade quanto este. Parabéns por mais esta iniciativa.

Todos os anos, milhares de portugueses visitam as feiras do livro de Lisboa e do Porto. Há muito tempo que me habituei a fazer parte desses milhares de visitantes, bem antes de me tornar editor. Residindo em Lisboa, frequentava anualmente esta montra do livro nacional. É curioso que, todos os anos, subia em primeiro lugar o corredor do lado esquerdo. Muitas vezes, já exausto e carregado de compras, deixava o corredor do lado direito para outra oportunidade. Frequentemente, essa oportunidade acabava por não chegar, ficando para o ano seguinte. Depois de me tornar editor, mudei radicalmente este padrão de comportamento que, sem me aperceber, tinha desenvolvido ao longo dos anos, muito atraído pelas maiores, mais antigas e mais reputadas casas editoriais do país. Entretanto, ficou-me uma questão: quantos portugueses desenvolverão padrões de comportamento semelhantes na visita à Feira do Livro? É possível que, no ano passado, tenha havido maior fluxo de visitantes do outro lado, já que no cimo havia o controverso stand do maior grupo editorial português. Será possível pensar que, até aqui, tenha havido duas feiras dentro da Feira do Livro de Lisboa? Seria interessante adoptar um critério aleatório de distribuição dos editores pelo espaço da feira, já que parece haver um padrão perfeitamente nítido na posição ocupada pelas diversas casas editoriais.

Todos sabemos que, numa economia de mercado aberta e pouco regulada, imperam as leis do mercado, tal como sabemos que a obrigatoriedade de crescimento das organizações, no contexto de uma globalização económica predatória, as orienta inexoravelmente para uma única finalidade: o crescimento dos lucros. O que esquecemos frequentemente são as consequências que esta lógica tem em projectos de menor dimensão, mais dirigidos, independentes e essencialmente preocupados com o desenvolvimento cultural e social.

O mercado do livro sobrevive, obviamente, da venda de livros. Portanto, não é preciso ser grande gestor para perceber que, no ponto de venda, tem de ser concedido o maior espaço possível aos livros que vendem mais. Só assim se garantirá o crescimento do volume de negócios da organização, pois ela vive, repito, de vender livros! Quem decide que livros vendem mais? O público, claro! Neste círculo vicioso, os editores ajustam, cada vez mais, os seus planos editoriais às tendências do mercado. Ditadas por quem? Pelo público, claro está!

Não deixa de ser curioso comparar o que se passa em Espanha ou no Brasil com o que se passa aqui no nosso quase afundado rectângulo à beira mar. Há uma imensidão de autores que estão publicados nestes países que nunca verão a luz do dia no nosso país. E muitos outros vêem publicada apenas uma pequena parte do seu trabalho, quando, nesses países, a sua presença é muito maior. Será um problema da dimensão do mercado? Das escolhas dos editores? Das tendências do mercado?

Ao mesmo tempo, proliferam nos catálogos editoriais livros absolutamente vulgares que vivem e sobrevivem da banalidade. Mas será que os editores têm alguma responsabilidade social e cultural, dada a especificidade da sua actividade? Que consequências poderá ter, a longo prazo, o consumo de doses massivas de banalidade?

Vivemos numa época perigosa. Nunca esteve tão na moda ser singularmente ignorante em relação a tudo o que é vital para a democracia e para a nossa sobrevivência enquanto cidadãos livres e pensantes. Imagens de produtos vistosos e atraentes abundam nos meios de comunicação, reforçando uma ideologia consumista assente na crença de que a qualidade da vida quotidiana das pessoas é irrevogavelmente melhorada pela acumulação contínua de riqueza material. A vulgaridade e a futilidade vieram para ficar. Neste turbilhão consumista, os grandes conceitos-chave, as grandes narrativas, as grandes ideias que têm mobilizado gerações inteiras são domesticadas, entrando na trivialidade do senso comum, como se os seus significados estivessem, à partida, garantidos.

Sem conseguirmos avaliar realmente como os nossos sonhos, os nossos desejos e acções foram manufacturados e socialmente condicionados, no contexto de uma revolução económica neoliberal que prossegue a um ritmo avassalador, permanecemos escravizados na ética do consumo em que tudo, mas virtualmente tudo, incluindo a cultura, é simplesmente um produto empacotado. Produto esse cuja sobrevivência, para lá das questões da sua qualidade intrínseca e pertinência, está exclusivamente dependente de um único critério: o número de unidades vendidas. Mas será que é assim tão mau vender 200 ou 300 unidades de um livro? Estarão esses projectos votados à extinção porque representam um pequeno nicho de mercado?

Enquanto os meios de comunicação social glorificam o crescimento dos lucros das grandes empresas, e até a sua responsabilidade social (novos conceitos interessantes começam a aparecer, como é exemplo a economia social), aproximadamente 2,8 mil milhões de pessoas, o que é quase metade da população mundial, lutam em desespero para sobreviver. Ao mesmo tempo, 400 corporações transnacionais detêm dois terços dos activos fixos do planeta, controlando mais de 70% do comércio mundial. E, enquanto isto, a outra metade da população mundial entretém-se a celebrar os excessos dos ricos e famosos, esgatanhando-se para ter o que eles têm, ignorando a sua condição verdadeiramente subordinada e manietada e a fugaz ilusão que é a sua condição social e o conforto momentâneo que conseguiu obter por via profissional. Este é o público!

Todos nós somos aquilo que conhecemos. Aquilo que conhecemos é, em parte, aquilo que lemos. Todos nós lemos o que é possível ler. Se não existir não pode ser lido. Quem dita, então, o que pode ser lido? O mercado?

(*) Pedro Patacho nasceu em Lisboa, em 1977. É professor de Matemática e de Ciências da Natureza no Ensino Básico, actividade profissional que desenvolve ininterruptamente desde 1999. Mestre em Educação pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, frequenta actualmente o programa de Doutoramento em Educação na Universidade da Corunha, Espanha. Em 2004, sentindo o panorama da publicação académica em Portugal e entendendo a necessidade de um projecto alternativo que oferecesse aos leitores mais possibilidade de escolha, criou as Edições Pedago, essencialmente vocacionadas para a publicação em Educação e Ciências Sociais, onde se mantém como editor e director editorial das Edições Pedago.

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