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Opinião: O prazer de ler Bolaño, por Francisco José Viegas

19.04.10
O PRAZER DE LER BOLAÑO,
por Francisco José Viegas (*)

Comecei a ler 2666, de Roberto Bolaño, em Dezembro de 2008 — o Inverno ajuda muito nestes casos e sempre tive uma tentação por livros extensos para enfrentar o frio. Não há uma regra. Há quem os prefira para o Verão; sestas de férias — mesmo curtas, dependuradas sobre a tarde — são, quando se pode, o cenário ideal para que o livro demore mais nas nossas mãos. Não foi assim comigo.

O que 2666 me trouxe, nunca soube explicar senão em redor desse primeiro livro em que conheci quatro loucos apaixonados pela obra de Archimboldi, um escritor de que havia notícias vagas e em redor do qual se foi construindo uma mitologia muito parecida com a de J. D. Salinger. Desses quatro, três (é o número ideal: um triângulo amoroso ou apenas erótico — neste caso, apenas literário —, do qual fica excluído um, que é o do «amor verdadeiro») partem para o México em busca de um Benno von Archimboldi que passa como uma sombra pelo painel de Santa Teresa. O que faz um escritor nascido em 1920, na Rússia, naquele cenário? O mesmo que eu fiz, muitos anos antes, nas ruas sujas de Ciudad Juárez. Não há quase nada que recomende esta cidade do estado mexicano de Chihuahua, feia e cercada pela violência, como a mais indicada para um turista, a não ser a memória do cinema (Man on Fire, com Denzel Washington, por exemplo, mas também numerosos westerns, porque está ligada à fronteira texana de El Paso), da música («Cocaine Blues», de Johnny Cash, e «Just Like Tom Thumb’s Blues», de Bob Dylan, para não ir mais longe) e da literatura: é um dos cenários de Cormac McCarthy.

Em 1995, Ciudad Juárez não era nada disso; apenas um cenário de papel sujo, rasgado pelos cartéis da droga e da prostituição. Havia caravanas de grandes jipes atravessando a fronteira por El Paso, em busca de droga, tequila, mulheres e má comida. O mesmo cenário para Stan Laurel e Oliver Hardy atravessarem um dos momentos mais difíceis das suas vidas (nuvens de álcool, nuvens de poeira atravessando as janelas de um hotel miserável), como aparece no quase monumental A Quatro Mãos, o livro de Paco Taibo II — um dos livros «onde tudo aparece»: Trotsky escrevendo um romance policial, Malcolm Lowry abandonado nas ruas de Cuernavaca, Frida Khalo perdendo (ainda mais) a voz.

Volto atrás: eu estava em Ciudad Juárez em 1995. Treze anos depois, regressei — pela mão de Bolaño. A cidade era a mesma. Eu diria a mesma coisa de Macondo, se tivesse ido a Macondo. Já lá vou.

A nossa relação com a literatura da América Latina passa por esse momento de infinita grandeza — Macondo, a cidade de García Márquez, um dos cenários mais imitados de toda a literatura posterior, como uma espécie de ilha da Utopia do «maravilhoso & fantástico» latino-americano. Antes dele, só os barrancos poeirentos de Juan Rulfo, quando o personagem se põe a caminho para perseguir o fantasma de Pedro Páramo numa cidade de mortos que regressam à vida. Era atraente esse mundo mágico onde até os generais cruéis merecem a nossa compaixão e se tornam heróis. As mulheres que seriam víboras na Europa, ou uma das velhas de A Casa de Bernarda de Alba, de Lorca, são ali sibilas de vozes profundíssimas.

Quando se chega a Santa Teresa, o cenário ficcional, e se conhece Ciudad Juárez, o cenário real, percebemos que alguma coisa mudou nessa literatura — nada mais nada menos do que o centro, o epicentro, o palco central, o motor de inspiração geográfica. Bolaño, apesar da compreensível antipatia que lhe é dedicada por muitos dos seus conterrâneos latino-americanos, é o responsável por essa revolução que substitui a atrevida dimensão poética das tiranias pela realidade suja das cidades mexicanas, para cá ou para lá do deserto de Sonora (a paisagem mais derradeira de Os Detectives Selvagens). No fundo, o que a talentosa literatura que ficou conhecida por «o fantástico latino-americano» postulava, era o seguinte: até os maus são bons neste mapa. Até os maus transportam, gravado no rosto, o sinal da piedade, do talento, da misericórdia, do amor brutal, do desespero. Os maus vêm de fora — os gringos, os exploradores, os imperialistas que abrem as veias da América Latina. Bolaño veio depois e, sem querer, transformou os maus em maus e os bons em perdidos.

Tudo começa pela literatura e pela invenção da literatura, como nessa primeira parte do livro, a dos críticos. Literatura pura, o destino de Fate. Literatura brava, infame, descritiva, enumeração — a parte dos crimes. Deixem-me dizer-lhes: ninguém sai vivo desta crueldade, fria, cortante, fatal, determinada. As mulheres mortas de 2666 já não são a poesia delicada, aventureira e sinfónica do «fantástico latino-americano» — em seu lugar, a cosmogonia de Roberto Bolaño muda de centro, de epicentro, de placas tectónicas. Ele segue o percurso de muitos escritores latino-americanos para a Europa, escapando à perseguição dos pequenos fascismos locais, dos regimes militares e das tropas revolucionárias. E fica na Europa; é da Europa que ele olha esse mundo onde os generais já não são loucos, como Bolívar, não têm quem lhes escreva, não sobrevivem à falta de amor nem ao medo de serem eternos como um relâmpago que explica a miséria do continente, as ditaduras sanguinárias, e até os compromissos históricos que levam os combatentes dos anos 60 a aliarem-se a outros sanguinários e a outros ditadores. Em vez desse mundo fantástico, os personagens vivem no meio da miséria real ou da corrupção, dos livros que deixam pendurados numa corda de roupa, dos filhos que não conseguem compreender, das ex-mulheres que nunca os abandonam, das estrelas escondidas — no céu — pela poeira da pólvora ou da sujidade de Santa Teresa, arrastada pelos ventos.

Tristram Shandy; lembrei várias vezes Tristram Shandy, de Sterne, enquanto lia 2666. Por causa do labirinto de vozes e de desencontros (Bolaño segue os sonhos de Borges), por causa da ideia de romance, despedaçada e fragmentada, cheia de sonhos e de delírios.

2666, por isso, é um livro sobre todos os grandes livros, como Os Detectives Selvagens era um livro escrito em nome da literatura e dos autores perdidos, como O Terceiro Reich é um labirinto (outra vez) cheio de referências à literatura, ao medo, ao nazismo real, ao desamor e à solidão — e ao risco, ao exílio, à incapacidade de sonhar. Ler Bolaño é participar, como espectador, dessa incapacidade e desse medo. Há quem escreva no fio da navalha; e há quem, como os leitores de Bolaño, observe o fio da navalha atravessando todos os livros que vêm lá dentro, como uma ameaça do fulgor e da esperança — a única — que vem na literatura.

(*) Francisco José Viegas é jornalista, escritor e editor. Multipremiado enquanto autor, desempenha actualmente as funções de director editorial da Quetzal Editores e de director da revista LER. Foi distinguido com o Prémio APE, pelo romance Longe de Manaus. O seu romance mais recente intitula-se O Mar em Casablanca.
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