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Opinião: «Companheiro, amigo, palhaço, deste circo que é a vida», por Pedro Bernardo

28.05.10
«COMPANHEIRO, AMIGO, PALHAÇO, DESTE CIRCO QUE É A VIDA»,
por Pedro Bernardo (*)

Mais um ano, mais uma polémica. A Feira do Livro parece ter o condão de dar sucessivos tiros no pé, não importa para onde aponte. A organização parece também não ser capaz de traçar um rumo, cumpri-lo (e fazer cumpri-lo). O episódico fecho semanal mais cedo e a rábula «feira à chuva», com ordem (e comunicação ao público) de encerramento-que-afinal-já-não-é-porque-há-quem-não-cumpra, não prestigia a direcção da Feira e transmite uma ideia de bandalheira. O prolongamento, com pretextos anedóticos, começa a ser norma: a chuva, o Benfica campeão, meu Deus!, e, para não invocar o nome do Senhor em vão, a visita de Sua Santidade. Tudo serve para prolongar a facturação, que corria de feição, haja rolos.

Entretanto, dos atropelos à lei do preço fixo nos livros do dia, a organização não quer saber; da relação com os livreiros, companheiros e amigos no resto do ano, mas palhaços durante a Feira, também não, embora haja vozes que se insurgem contra isto (Booksmile, Antígona e Assírio & Alvim, honra lhes seja feita). É certo que, se os pequenos livreiros invocam este período em que não facturam como crucial para a sua existência, então provavelmente deveriam reequacionar o seu negócio. Mas também é verdade que o espírito com que a Feira foi concebida — apresentação ao público de fundos, que entretanto desapareceram do mercado — tem vindo a ser sistematicamente pervertido, com a conivência de quase todos e para conveniência de muitos. A rede livreira é parte essencial do sector, e as práticas de sã concorrência deveriam imperar.

Ciclicamente erguem-se vozes a perguntar por que razão coexistem na mesma associação entidades com interesses diferentes, embora complementares; outros perguntam o que faz a APEL em prol dos seus associados para além de lhes cobrar quotas e mais uns milhares pela inscrição no evento que organiza actualmente; outros ainda perguntam porque não tem cursos de formação profissional para as várias actividades que caem na sua alçada. Os mais cépticos perguntam para que serve. Os mais cínicos chamam a atenção para o facto de o ponto alto da actividade do sector ser a apresentação do seu produto a preço de saldo em barraquinhas. Os mais estóicos aguentam.

(*) Pedro Bernardo, licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é director editorial de Edições 70, tendo ainda a seu cargo a produção da mesma editora, onde desempenha funções desde 2000. No seu percurso profissional, foi também tradutor e revisor.
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