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Opinião: Quanto vale um livro?, por Rui Azeredo

19.10.09
QUANTO VALE UM LIVRO?
Rui Azeredo (*)

A primeira coisa que me perguntaram mal li No Teu Deserto de Miguel Sousa Tavares, foi: «Vale o dinheiro?» E porquê? Porque o livro é pequeno (cerca de 120 páginas) e custa 15 euros. Mas será essa a melhor maneira de avaliar o valor de um livro? Penso, naturalmente, que não. O que é preciso ter em conta é o prazer que nos dá ler determinado livro e o que permanece em nós após terminada essa leitura. Quanto ao livro em causa, deu-me algum prazer lê-lo, é inegável, mas não é uma obra que me tenha marcado como me marcaram outras muito mais pequenas. Por exemplo, A Neta do Senhor Linh, de Philippe Claudel, tem menos de 100 páginas, e ainda hoje me lembro do que senti enquanto a lia, e já lá vão três anos, e saberia recontar toda a história do início ao fim. Não se pense que apenas saberia reproduzir o conteúdo da obra por ela ser pequena, pois também o poderia fazer relativamente a Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, que tem mais de 400 páginas e que li há já 18 anos. Marcou-me de tal forma que ainda tenho muito presente o que senti aquando de leitura tão impressionante.

E quantas vezes achamos que determinado livro de 600 páginas caberia perfeitamente numas meras 400? O que fica após a leitura desse tipo de obras? Quantas vezes pensamos que determinada obra só teria a ganhar se fosse mais pequena, se se retirasse a «palha» que autores inseguros acharam por bem lá plantar? Inseguros, sim, porque acham que a credibilidade se conquista com obras maiores, esquecendo que o poder de síntese é uma característica tão boa quanto qualquer outra de uma peça literária. Assim, conseguem apenas que a primeira impressão retida sobre «tal» livro seja o tempo que um leitor perdeu a ler páginas que não levaram a lado nenhum – falha aqui também dos editores que «deixam passar» tanta «palha», parecendo temer a ira desses autores mais prolixos. Por isso, um livro vale o que vale conforme o que se retira e o que se retém dele.

Esta ideia do valor de um livro levanta outra questão: os livros são caros? Por muitas «inimizades» que possa ganhar com a minha opinião, tenho de dizer sinceramente que não. Há livros caros, é verdade, especialmente para quem só pretenda ler novidades. Mas se a opção passar por pretender ler livros bons e adequados às preferências de cada um, aí já não se pode dizer que sejam caros. Por exemplo, a revista Sábado já vendeu a 1 euro obras como Orgulho e Preconceito (Jane Austen), A Sangue Frio (Truman Capote), A Fogueira das Vaidades (Tom Wolfe), Gabriela, Cravo e Canela (Jorge Amado), Sputnik, Meu Amor (Haruki Murakami), etc.; há constantes promoções em estabelecimentos como a Fnac, o Continente, o Jumbo (já lá comprei livros a 2,5 euros); os livros de bolso estão finalmente a impor-se; os mercados de livros sucedem-se. A oferta abarca vários géneros literários e uma vasta gama de autores. Claro que quem pretenda um livro para embelezar a estante terá de pagar por isso, tal como teria de pagar por um qualquer objecto decorativo (jarros, candeeiros, estatuetas, etc.).

Serve isto para dizer que quem quer efectivamente ler encontra sempre algo que lhe agrade, não resultando a desculpa frequente de que não lê mais porque os livros são caros. As novidades podem ser caras, mas, à semelhança dos livros, o mesmo acontece com os discos, os computadores ou os leitores de MP3.

Claro que é legítimo pretender ler novidades, mas a verdade é que temos um mercado suficientemente vasto (não se diz mesmo que se editam livros de mais?) para proporcionar uma grande variedade de escolha aos leitores.

E, além disso, quem tiver feitio para tal pode recorrer ao bookcrossing, às bibliotecas, aos livros usados e emprestados. Sendo a vontade de ler o mais importante, livros e boas histórias decerto não faltarão.

(*) Rui Azeredo nasceu no Porto e é bacharel em Comunicação Social na Escola Superior de Jornalismo. Foi jornalista n’O Comércio do Porto, entre 1992 e 2005, sendo desde então revisor literário em editoras como a ASA, a Gailivro, a Mill Books Editores, a Booksmile e a Porto Editora. É autor do blogue Porta-Livros.
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