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Blogtailors - o blogue da edição

A traição das traduções – A posição de Helena Pitta e resposta de Hugo Xavier

09.03.09
N.E.: O texto de Helena Pitta está a negro e a resposta de Hugo Xavier a azul.

«Caros Booktailors:

Peço desculpa por utilizar esta via, mas não sei «postar» nem como vos fazer chegar de outra forma um comentário à resposta de Hugo Xavier. Mas não consegui resistir. De modo que vos envio por e-mail. Se acharem que tem algum interesse, terão de fazer esse trabalho por mim, com o meu pedido de desculpas. Vou tentar aprender para o futuro.

Caro Hugo Xavier, apesar de concordar com muitas das coisas que afirma, há 3 pontos que não posso deixar de comentar. Diz você:

1. «É difícil para as editoras pagar mais aos tradutores com tiragens de 1200 e 1500 exemplares»;
Estamos a falar de realidades diferentes e, portanto, os preços praticados pelas grandes e pelas pequenas editoras não podem ser os mesmos: é comparar Hollywood ao cinema independente. Acredito que seja difícil, ou mesmo impossível, as pequenas editoras praticarem preços mais justos na tradução. Mas a minha discordância é total no que diz respeito às grandes editoras ou grupos editoriais (e, dos livros publicados, que percentagem é publicada pelas grandes editoras?). Essas já podem praticar outros preços, mesmo que as tiragens sejam pequenas. Podem compensar esses pagamentos com os tais best-sellers; com o livro escolar que algumas delas têm; e cortando nalguns custos, porque não se compreende que sejam só os tradutores a pagar a crise do sector. E estou absolutamente convencida de que, a serem praticados preços mais justos pelas grandes editoras, as pequenas editoras não sofreriam grandemente com isso. São, no geral, editoras com catálogos pequenos mas de grande qualidade e qualquer tradutor interessado faria, com gosto, traduções a outros preços, só pelo prazer de traduzir um bom livro que, convenhamos, se está a tornar um bem cada vez mais escasso. Seria uma solidariedade voluntária (e apreciada) em vez da solidariedade imposta a que nos obrigam muitas vezes algumas editoras.

Apesar de esta questão ser muito mais complexa, penso que grande parte da responsabilidade pela situação recai sobre os tradutores, incapazes até agora de se organizarem em associações de classe que lhes permitam ter um maior poder negocial e reivindicativo junto das editoras. Mas há uma pergunta que não posso deixar de fazer: apesar de todas as declarações de boas intenções, por que razão não se vê nenhum editor de nenhuma grande editora arriscar fazer a diferença nesta área?

Cara Helena,

Obrigado pela sua resposta.

Vou começar pela sua última pergunta. Vê nalgum grupo editorial grande, algum grande editor? Sim, recentemente há alguns. E atenção que os preços que eles praticam, subiram bastante recentemente. Mas como também saberá, até há muito pouco tempo as grandes editoras (exemplo a Dom Quixote ou a Asa) eram editoras que tinham bons editores, muito volume de negócio mas que estavam tecnicamente falidas. E essa foi a realidade durante anos. Eram editoras que se mantinham porque tinham uma política de chutar para a frente: publicar e publicar para tentar acertar um título que fosse pagando as contas.

Quanto às tiragens respondi agora a outro comentário onde explicava uma questão importante: a questão das médias. Se uma tiragem média em Portugal é de 1200 exemplares imagine, nos milhares de livros editados ao ano, quantos têm realmente tiragens superiores a 10.000 exemplares... uma minoria.

E a grande e verdadeira questão é a seguinte: o que aconteceria se as grandes editoras de uma minoria de livros pagasse 25% mais, ou ainda acima disso, aos tradutores? Imagine a realidade... haveria tradutores para as pequenas editoras? Haveria assim tantos tradutores como os que pululam no mercado?

Por último a questão da unidade. Concordo. Mas cuidado com ela. Lembro-me de ter acesso a tabelas de preços de tradução recomendadas pela APT e de me rir com a sua impraticabilidade, mesmo para os grandes grupos. Eram somas astronómicas que impediriam qualquer livro de ser publicado. Então nem imagina quando se referiam a traduções de línguas menos comuns, ou a essa espantosa categoria das línguas com caracteres não romanos... O trabalho de uma boa tradução é ou não o mesmo se se traduzir do japonês ou do castelhano?

2. «…salvo os tradutores e editores de best-sellers, os restantes editores e tradutores que queiram trabalhar em boas obras estão a fazer isto com sacrifícios e por gosto»;
Em relação ao ponto 2, nunca trabalhei para a Cavalo de Ferro, mas relativamente às editoras que conheço essa situação não se verifica. Traduzir um romance com uma edição de 1200 exemplares ou um best-seller com 20 edições significa, em termos monetários para o tradutor, rigorosamente a mesma coisa. Traduzi durante vários anos vários best-sellers e nunca recebi mais por isso. Não só não recebi qualquer pagamento para além do preço inicial da tradução como, anos seguidos, tive de esperar 5, 6, 9 meses pelo pagamento da tradução desses best-sellers, sem qualquer explicação ou contacto por parte da editora. Os prazos de pagamento são outro drama, para outro comentário. Outro comentário que pudesse abordar também a pouca vergonha dos contratos que somos forçados a assinar se queremos continuar a trabalhar e que nos obrigam a ceder os direitos de autor por décadas ou por toda a vida.

Tem razão. Erro meu. De facto apenas alguns tradutores exigem preços fora do comum. Dou-lhe exemplos conhecidos do mercado: o professor António Barrento (do alemão) ou o António Pescada (do russo). São pessoas que exigem bastante pelo seu trabalho. A maioria, com efeito não consegue mais por traduzir o «Harry Potter» do que um livro de tiragem banal.
Quanto ao prazo de pagamento creio que a questão é devida à falta de honestidade. Ainda não houve a coragem para fazer a grande pergunta: se um editor recebe a 120 dias - com sorte - da sua distribuidora ou dos livreiros, como pode ele pagar a tempo aos tradutores em prazos mais curtos?


Em Itália um tradutor recebe no prazo mínimo de 6 meses. A Cavalo de Ferro, salvo em períodos de crise, procurou sempre honrar os seus comproimissos e prazos. E por isso mesmo temos a concreta noção da dificuldade de reunir num mercado que funciona por investimento primeiro e lucros incertos: temos de pagar a gráficas, tradutores e revisores, designers e quase sempre antes de sequer sabermos o sucesso que uma obra está a ter.

Daí que eu concorde com a partilha do risco. O tradutor deveria igualmente receber o seu pagamento como direitos de autor, mas pergunto-me então e apenas, como já o fiz no texto anterior, se haveria tradutores para o Robert Walser, para o Bioy Casares ou para tantos outros que vendem pouco mais de 1500 exemplares (se lá chegarem).


3. «Há tradutores a mais numa área que não consegue absorvê-los, a qualidade dos mesmos é fraca ao nível da formação, não há brio nem rigor profissional.»
Relativamente a este ponto, o meu comentário é apenas acerca da tradução literária de contemporâneos e suponho que é a ela que se refere também. A tradução de clássicos é, em minha opinião, uma outra área e a discussão teria de ser outra.

Dito isto, concordo inteiramente com a sua observação acerca do excesso de tradutores e da falta de qualidade de muitos deles. Não há lançamento de livro, mesa-redonda, encontro literário, onde não se fale, muitas vezes em apartes jocosos e sem continuidade, geralmente acompanhados por um risinho cúmplice da assistência, da falta de qualidade das traduções. Não podia estar mais de acordo. Mas esquecemo-nos de uma questão fundamental: esses tradutores existem, proliferam e traduzem ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE porque as editoras lhes dão trabalho. Muitas vezes quem refere essa falta de qualidade das traduções literárias esquece-se de que quem tem a faca e o queijo na mão são as editoras. Se as editoras não os contratassem, eles desapareciam naturalmente, teriam, por uma questão de sobrevivência, de se reconverter, de trabalhar noutra área qualquer. A TRIAGEM DA QUALIDADE SÓ PODE SER FEITA PELAS EDITORAS PORQUE SÓ ELAS TÊM OS MEIOS NECESSÁRIOS PARA O FAZER. Porque são as editoras que nos contactam, que definem preços, prazos, contratos, são elas, exclusivamente, que determinam quem pode e quem não pode trabalhar. Os tradutores trabalham à tarefa, não têm vínculos com as editoras, não podem decidir traduzir este ou aquele livro. Um mau tradutor só trabalha se uma editora o contratar. É tão simples como isto. Acredito que possa haver um primeiro engano. Mas um segundo? O que leva uma editora a contratar pela segunda, terceira, quarta vez um mau tradutor? O facilitismo desse tradutor? O facto de traduzir o que quer que seja em 3 semanas ou num mês? O entregar a tradução às fatias, «para se ir adiantando serviço»? O cortar palavras, frases, parágrafos que não entende, mas que deixam a tradução compreensível e não chateiam o autor com pedidos de esclarecimento (colaborei com uma grande editora que se recusava a dar o contacto dos autores porque «eram pessoas importantes e não podiam ser incomodadas»)? Os baixos preços que praticam? O que leva uma editora a contratar um tradutor que traduz de 3, 4, 5 línguas? A não ser em casos excepcionais, que os há também, como se pode ter um domínio tal de tantas línguas que permita fazer-se tradução literária de todas elas? Com a agravante de, pelo menos no caso das línguas espanhola, francesa e inglesa, serem faladas em muitos países de vários continentes, com todas as diferenças que isso implica, a nível vocabular, cultural, económico, histórico, etc? Traduzir um escritor tunisino não é o mesmo que traduzir um escritor francês, traduzir um escritor indiano ou australiano não é o mesmo que traduzir um escritor inglês, tal como traduzir um espanhol não é o mesmo que traduzir um cubano, um mexicano ou um argentino. Não basta falar a língua. A tradução de escritores falantes da mesma língua mas de países ou continentes diferentes exige conhecimentos muito mais abrangentes. Como se pode traduzir alguém cujos códigos se desconhece? Fala-se muito no domínio deficiente do português por parte de muitos tradutores. É verdade. Mas uma tradução num português escorreito, até bonito, não é, de todo, sinónimo de uma boa tradução. O domínio da língua materna é muito importante, julgo que isso é consensual. Mas o domínio da língua de partida é essencial. O conhecimento das particularidades vocabulares, culturais e históricas dos países falantes dessa língua é fundamental para uma boa tradução. Quantos o têm? E valerá a pena tentar adquiri-lo com esta política seguida pelas editoras? Valerá a pena investir nisso? E por investir nisso entende-se: pesquisar bibliografia; estabelecer contactos com especialistas que possam avaliar a qualidade dessa bibliografia (que não existe nas livrarias, não é possível ser folheada, pesquisada com o livro na mão de modo a permitir-nos uma avaliação pessoal; no caso do espanhol quase nem existe na Europa); manter uma rede de livreiros de qualidade que nos vá informando das coisas que saem; descobrir livrarias on-line que tenham esses livros; conhecer alguém nesses países que nos possa fotocopiá-los das bibliotecas de Institutos e Universidades (porque são, maioritariamente, obras universitárias com pouca tiragem e esgotadíssimas) ou que possa perder imenso tempo em alfarrabistas; esperar que na alfândega estejam bastante ocupados nesse dia para que os livros nos cheguem a casa sem termos que pagar por eles 2 ou 3 vezes mais, e uma série de etcs que alongariam excessivamente este texto. Como se pode traduzir escritores contemporâneos sem um domínio muito grande da língua de partida, numa época em que a oralidade está cada vez mais presente na literatura? Como é possível fazê-lo sem um contacto permanente com gente desses países? Sem uma actualização frequente de bibliografia? E a bibliografia não se resume a dicionários e gramáticas, tem de abranger uma série de áreas que nos permitam compreender as especificidades desses países que falam a língua que traduzimos. Daí a minha perplexidade ao ver esta proliferação de gente que não só traduz de uma série de línguas, como tem sistematicamente trabalho. Somos, definitivamente, um país de génios.

Cara Helena. Tem razão. Toda e completa, à excepção de dever estender a necessidade de triagem não apenas às editoras mas aos orgãos de formação. Acredite que já aconteceu uma coisa tão ridícula como eu ter todos os meus tradutores de inglês ocupados, precisar de outro e fazer centenas de testes para acabar por escolher um mal menor porque não encontrava tradutores para aquela obra que, por contrato, tinha de traduzir dentro de um prazo. Escolhi o tradutor menos mau e fiz eu a revisão.

Quanto às condições impostas pelas editoras, existem e são erradas. Em muito poucos casos a Cavalo de Ferro teve de impor condições dessas. E quando o fizémos, tivemos o cuidado de rever a obra de forma muito mais completa. E aí também tem toda a razão. É uma realidade a corrigir.

A grande pergunta que Hugo Xavier coloca e que o Jorge não terá respondido («como é que pode haver tanta gente interessada em fazer tradução literária sem quaisquer bases de leitura») não deve ser dirigida aos tradutores. Deve ser dirigida aos editores. Há tanta gente interessada em fazê-lo porque compensa ser mau tradutor, um mau tradutor até pode ganhar bem. Despachar uma tradução em 3 semanas dá um salário razoável. O que não compensa, o que é uma enorme frustração, é ser-se bom tradutor. A minha grande pergunta é esta: como e porquê há tantas editoras tão sistematicamente interessadas em contratar maus tradutores de literatura?

A Helena traduziria por 4 a 6 € / página para a Livros do Brasil? Há mercados para tudo. Mas tem razão em parte. Como é que os tradutores podem ser recompensados se a editora não tem posses para lhes dar mais dinheiro? Acontece com os tradutores bons da Cavalo de Ferro: têm garantia de ter mais trabalhos. Os maus não voltam cá - felizmente foram poucos os casos.

A questão é que as margens de recompensa são mínimas. Um bom tradutor poderá auferir mais 1 a 2 € por página do que um mau tradutor, mas essa diferença existe. As más editoras trabalham por norma com maus tradutores e o inverso também é verdade. E uns classificam os outros. A diferença é essa, num mercado onde não há margens para grandes diferenças. Só é pena que os maus tradutores não fiquem pelas más editoras e que os bons tradutores por vezes queiram traduzir para as más editoras na vã esperança que sejam melhor recompensados (e por vezes são). É um negócio de muita complexidade, como referiu. Não sei como se resolve, salvo pela filtragem nas universidades que cada vez mais reflectem o espírito de mediocridade do país. Todos passam. Tudo se aceita. Ninguém tem responsabilidades. Como editor, sempre assumi as minhas más traduções, sempre defendi os meus tradutores e continuarei a fazê-lo. É o mais que posso fazer na realidade do mercado. Procuro sempre os melhores tradutores e é quando recebo bons CV's que, mal tenha um trabalho, contacto os que me parecem melhores.

Que maus tradutores «de carreira» ou que miúdos acabados de sair da faculdade, com pouca formação e menos leitura, queiram traduzir literatura é um desejo pessoal legítimo. Que o possam fazer porque há editoras que sistematicamente lhes dão trabalho, apesar da sua evidente falta de qualidade, é outra. Muito mais grave. Eu também gostaria imenso de ter boa voz e poder cantar em público. Mas não tenho e não sobreviveria nessa área porque ninguém me daria trabalho. Acho que mais simples que isto é impossível.

Não é possível sermos um país de tradutores excepcionais. As pessoas excepcionais são isso mesmo: excepcionais. Mas ficaria muito contente se fôssemos um país em que as editoras procurassem, pelo menos, tradutores honestos, briosos e profissionais. Porque a norma é a mediania, não é a excepcionalidade. E um tradutor mediano, mas profissional e brioso fará certamente um trabalho honesto e escorreito. E é isso que se pretende.

Só para concluir: estou absolutamente convencida de que a qualidade só é possível com a profissionalização. Enquanto formos uma classe profissional de biscateiros, nunca teremos traduções literárias de qualidade em número significativo. E somos, maioritariamente, uma classe profissional de biscateiros, não por opção própria, mas porque é quase impossível ser-se bom tradutor e conseguir-se sobreviver exclusivamente da tradução. Dizem-nos, muitas vezes, que devíamos investir noutras línguas. Quem já fez tradução literária sabe que isso é muito difícil. Dominarmos uma língua a ponto de nos permitir fazer tradução literária com qualidade não é objectivo que se atinja em poucos anos. Muito mais difícil ainda, isso implicaria um redireccionar da paixão. Porque só a paixão explica o gozo, o brio, a necessidade permanente e obsessiva de se saber mais acerca de, a persecução da invisibilidade, o respeito pelo trabalho criativo de outro, o contentamento apesar da penúria ou da dependência económica. E como todos sabemos, não se escolhem as paixões.

Mais uma vez só lhe posso dar razão, com a ressalva que a minha sugestão de outra língua menos comum era destinada aos jovens que me mandam dezenas de CV's à semana com especialização em francês e inglês.»

Helena Pitta (tradutora de literatura de língua espanhola)