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Blogtailors - o blogue da edição

Entrevistas Booktailors: João Luís Barreto Guimarães

20.03.12

 

Esta entrevista é cirúrgica. As respostas são como bisturis. João Luís Barreto Guimarães pegou no marcador e desenhou na pela do meio editorial todas as estrias a eliminar, a massa gorda a retirar e os implantes necessários para turbinar a nossa literatura. Poucos dias depois de ter revelado os haicai de Vítor Gaspar, o poeta do rés do chão garante que o tamanho provoca fracos desempenhos.

 

Eduardo Lourenço diz que «Portugal trata bem os seus poetas». Concorda?

Concordo. Só precisam de morrer primeiro.

 

Em França, há 100 000 poetas vivos identificados, mas as edições de poesia não ultrapassam os 300 exemplares. Os poetas não gostam de ler a poesia uns dos outros?

Gostam até muito. Só não têm é dinheiro para comprar os outros 99 700 livros…

 

Acredita mesmo que o tamanho do poema não interessa, ou é só uma desculpa?

Acredito que interessa. Quanto maior o poema, pior o desempenho.

 

Quando reviu os seus livros para o volume Poesia Reunida, não sentiu a tentação de corrigir uma estria ou fazer um lifting a um ou outro verso?

Senti. E corrigi. Para envelhecerem melhor, para parecerem mais velhos.

 

Agustina Bessa-Luís escreveu em Fanny Owen: «Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e está calada.» José Miguel Silva reformulou-o em: «Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e escreve versos sem sentido.» Há muita poesia portuguesa vestida de preto e sem sentido?

Alguma. Em particular aquela que se desloca em sentido único.

 

Que palavra já não consegue ouvir?

A palavra «eco», à quinta ou sexta repetição.

 

Qual o seu maior ódio de estimação?

A palavra «ódio».

 

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?

Perguntaria ao Francisco quando sai o seu próximo livro de poemas.

 

Na atual conjuntura, como fazemos para que a língua portuguesa valha mais do que a PT, como apontou o ex-ministro da Cultura Pinto Ribeiro?

Essa é fácil. Retiramo-la do bolso e metemo-la na bolsa.

 

Que pensa do novo Acordo Ortográfico?

O Acordo é uma cena que a mim não me assiste.

 

Admite rever os seus poemas segundo o novo Acordo?

Não. Isso é algo com que estou em completo desacordo.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Uma coleção de pequenas antologias de bolso com uma seleção dos 40 melhores poemas da obra de poetas portugueses dos séculos XX e XXI, precedidos de um prefácio, ao preço de 4,90 euros, que os leitores pudessem levar no bolso para o trabalho. Os que ainda têm trabalho, claro…

 

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?

«É hoje que vai revelar quem é o Sr. Lopes?»

 

 



Nasceu no Porto, a 3 de junho de 1967. Vive em Leça da Palmeira. Tem uma filha. É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto, especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. Publicou o primeiro livro de poemas, Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram: Rua Trinta e Um de Fevereiro (1991); Este Lado para Cima (1994); Lugares Comuns (2000); 3 (Poesia 1987-1994), em 2001; Rés-do-Chão (2003); Luz Última (2006); e A Parte pelo Todo (2009). Poesia Reunida aproxima os sete livros que constituem a sua obra editada até ao momento.

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