Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogtailors - o blogue da edição

Entrevista Booktailors: Joana Emídio Marques

04.10.12

 

Enquanto jornalista freelancer tem a liberdade de escolher os livros ou os autores sobre os quais escreve. Ainda assim, não pode entrevistar os escritores que verdadeiramente gostaria de entrevistar porque já não se encontram entre nós. Mas o que lamenta mesmo é a ausência, no país, de «verdadeiras políticas culturais que emancipem os cidadãos», que estimulem o gosto pela leitura, apesar dos festivais literários, cada vez em maior número, que considera serem instrumentos certeiros «para a formação de públicos».


A cultura e os livros estão condenados a desaparecer dos jornais?

Não acredito nem em mortes, nem em romances anunciados. A realidade das coisas ultrapassa sempre a nossa capacidade ficcional. Não acredito que a cultura desapareça dos jornais, tal como não acredito no desaparecimento dos jornais em papel. Temo sim que tanto a cultura como os jornais se tornem pastilha elástica, produtos de consumo alienado e alienante. A sofisticação tecnológica e as novas formas de configuração da vida social e coletiva apontam para um empobrecimento da linguagem, da capacidade de ler/interpretar simbolicamente o mundo, o que faz ascender e vingar produtos que se disfarçam de cultura mas que nada mais são que lixo (entre eles certos livros e certos jornais).

 

Que critérios utiliza na seleção dos livros que escolhe e dos autores que entrevista?

Critérios? Isso ainda se usa? Sou jornalista freelancer, o que me dá uma margem de liberdade diferente. Não tenho de seguir a agenda do jornal. Por isso utilizo o meu faro literário, que como eu é anárquico e caótico. Evito os escritores/livros que têm muito ruído mediático à volta, porque sei que aquilo que é novo e diferente começa por causar repulsa e desagrado e aquilo que agrada a muita gente tende a desagradar-me a mim. Sim, sou assumidamente snob.

Outras vezes a possibilidade de entrevistar ou não um autor também determina a minha escolha da obra, pois o DN [Diário de Notícias] não tem um espaço apenas dedicado à crítica.

Por fim, há ainda o peso das opiniões de pessoas próximas e que considero intelectualmente, como é o caso do meu colega Albano Matos ou dos escritores Vasco Luís Curado e Hélder Macedo.

 

É preciso existir mais espaço para os livros nos jornais para que os Portugueses leiam mais? Ou é preciso que os Portugueses leiam mais para que haja mais espaço para livros nos jornais?

O problema da falta de mais leitores em Portugal não pode ser remetido para os jornais (por mais importantes que sejam enquanto veículo de divulgação literária), mas sim para a ausência de verdadeiras políticas culturais que emancipem os cidadãos. Isto é algo que atravessa a nossa História e os governos da direita à esquerda. Não há, nunca houve um verdadeiro desejo de promover a cultura, sempre vista mais como um ornamento do que como uma necessidade política. Elites incultas não desejam um povo culto. Portanto, penso que o que é preciso mudar são as elites, as pessoas que estão à frente de cargos políticos, institucionais, que estão à frente dos jornais, das televisões, das escolas. Todas elas donas de uma cultura «de trazer pelo salão», que confundem armazenamento de informação com conhecimento, que acham que saber usar uma língua é não dar erros ortográficos e que fazem questão de mostrar que conhecem muitos escritores «estrangeiros»…

 

Fez recentemente um dossiê de cinco páginas sobre poesia. Na sequência desse trabalho desabafou sobre a falta de atenção que ele recebeu nos blogues de poesia e de poetas. Como explica essa indiferença?

A indiferença, explico-a pelo facto de hoje todos querermos ser emissores, todos acharmos que somos o centro do processo comunicativo e nos estarmos nas tintas para ouvir/ver os outros. O Humano é naturalmente autocentrado, e os dispositivos tecnológicos de comunicação (que aparentemente facilitam o relacionamento com os outros) estão, na verdade, a fechar-nos cada vez mais em nós mesmos. O Facebook, o Twitter, os blogues, permitem-nos emitir. Mas, à medida que o número de emissores cresce, diminui fatalmente o número de recetores. Cada vez mais falamos para ninguém. Os autores de blogues, os amantes de poesia, os jornalistas de cultura estão mais interessados no seu discurso do que no meu. O que é terrível é que esse fechamento ao Outro (que é a antítese da poesia) representa um enorme empobrecimento de todos nós.

 

Os festivais literários são uma boa ideia?

Os festivais literários são um ato de verdadeira política cultural, daquela que numa resposta acima disse fazer falta neste país. Porque, ainda que tenham o seu lado de fogueira de vaidades, são um instrumento certeiro para a formação de públicos. Penso nos festivais literários como as antigas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian (onde me formei como leitora): um pequeno milagre cujas verdadeiras repercussões demorarão ainda muitos anos a serem percebidas.

 

É fácil convencer os editores dos jornais a garantir a cobertura de um festival literário?

Não, não é fácil. O ideal seria que eles próprios fossem a um para perceberem a sua importância e o seu impacto nas comunidades onde acontecem. Infelizmente os livros não estão na moda como a música ou o cinema. Apenas alguns escritores estão na moda, e é isso que acaba por ditar a cobertura ou não de um festival literário.

 

Que autor gostava de entrevistar e ainda não se proporcionou?

Todos os escritores que verdadeiramente gostaria de entrevistar estão mortos. Terei de esperar a minha entrada para o Inferno para os encontrar.

 

Fala-se muito em crise no meio editorial. Tem recebido menos livros no último ano?

Sim, felizmente. Penso que a crise do meio editorial advém mais do excesso de publicações do que da falta delas. Não creio que seja preciso editar mais. Creio que é preciso editar melhor. Isto significa investir nos autores, na formação de (bons) leitores. Porque editar bestsellers para pessoas que são leitores vagos não me parece ser uma boa estratégia a longo prazo.

 

Já teve vontade de telefonar para uma editora e pedir que não lhe mandasse mais livros?

Sim. Mas também já tive vontade de telefonar a algumas a queixar-me dos seus assessores de imprensa, que não mandam sequer os livros que nós pedimos para trabalhar.

 

Tem tempo para ler o que gosta, ou o programa condiciona todas as leituras?

Tenho muito pouco tempo para ler o que realmente gosto (poesia e ensaios) mais por indisciplina do que pela agenda de trabalho. Mas, quando entrevisto um escritor, tento sempre ler integralmente o livro. É precisamente por só ter esta vida e este tempo que atiro à parede os livros que considero maus. Não se pode perdoar a quem rouba tempo da nossa vida.

 


 

Joana Emídio Marques tem 38 anos e é mestre em Estudo dos Media e Cultura Contemporânea, pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre as transformações das narrativas jornalísticas intitulada Géneros Jornalísticos: discursos em metamorfose. É colaboradora do Diário de Notícias e da revista Notícias Magazine desde 2009, escrevendo essencialmente sobre teatro, dança e literatura. Desde abril de 2012 é responsável por uma rubrica de moda (Coisas Novas no Cabide) no DN online.

-

Campanha «Formai-vos!»: desconto de 50% para desempregados e recém-licenciados. Novidades 2012: [Lisboa] Revisão de Texto - nível inicial, Comunicação Editorial, Livro Infantil [Porto] Revisão de Texto - nível inicial, Revisão de Texto - nível intermédio.