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Blogtailors - o blogue da edição

Entrevistas Booktailors: Paulo Gonçalves

18.10.12

 

«Estranheza» é o que lhe provoca o conceito de «excesso de livros publicados», que considera «uma desvalorização do bem cultural que é o livro», e demonstra «uma visão estreita» «do exercício da liberdade criativa e intelectual». Paulo Gonçalves, há 16 anos na Porto Editora, atual responsável pelo Gabinete de Comunicação e Imagem do grupo, sabe do que fala. E, quando questionado sobre o mito do escritor que se comporta como diva, destrói todas as ideias pré-concebidas: os autores são acessíveis e gostam de contactar com os seus leitores.


Num país com uma alta taxa de iliteracia e com tão pouco espaço para os livros nos meios de comunicação social, em que medida ser responsável pela comunicação de uma editora é um desafio à imaginação?

O mundo da edição é, em si, um estímulo à imaginação e à criatividade, o que é verdadeiramente fascinante para quem vive e respira comunicação. Em relação aos aspetos que apontou, contraponho uma perspetiva positiva: assistimos a uma diminuição sustentada dessa taxa e ao aparecimento de espaços de divulgação editorial nos novos media. Ou seja, à imaginação e à criatividade, devemos aliar visão estratégica que permita perceber, ou antecipar, as oportunidades.

 

Já sentiu que o excesso de títulos publicados o impediu de trabalhar melhor um determinado livro?

Em primeiro lugar, causa-me estranheza o conceito de «excesso de títulos publicados», pela simples razão de não conhecer quais as variáveis quantitativas e qualitativas para se chegar a essa consideração. Mais estranheza me causa por quanto o nosso país carece de massa crítica. Afirmar que há um «excesso de títulos publicados» é uma desvalorização do bem cultural que é o livro e, pior, remete para uma visão estreita e limitativa do exercício da liberdade criativa e intelectual. Quero crer que essa ideia pouco feliz resultará mais da conjuntura que atravessamos.

De qualquer forma, mesmo que tivesse só um livro para trabalhar, tenho a certeza absoluta de que chegaria ao fim do processo e concluiria que poderia ter feito melhor. Não há trabalhos perfeitos.

 

Os escritores portam-se como divas ou aceitam bem os planos de comunicação que a editora desenha?

Os nossos planos de comunicação são desenvolvidos com os escritores. Nada se faz nem nada se decide sem eles. Os escritores têm consciência da importância de dar a conhecer a sua obra aos potenciais leitores. Aliás, um dos fenómenos mais interessantes que se verifica, nos últimos anos, é a vontade crescente que os escritores têm de contactarem com os leitores, de os ouvirem, de conversarem com eles, o que contraria, desde logo, esse mito de os escritores se comportarem como divas. E é justo dizer que os profissionais de comunicação da Porto Editora e da generalidade das editoras têm contribuído para que isso aconteça.

 

Os Portugueses leem pouco porque não há espaço nos media para falar de livros ou há pouco espaço nos media porque os Portugueses leem pouco?

Os Portugueses leem mais, e há cada vez mais portugueses a ler apesar da diminuição de espaço de divulgação nos media tradicionais, é algo que resulta do desenvolvimento cultural e educacional verificado nas últimas décadas, da concretização de programas como o Plano Nacional de Leitura, cuja influência é já visível e o será ainda mais nos próximos anos. Mas, voltando à questão da diminuição do espaço de divulgação literária nos media tradicionais, é de sublinhar — e louvar — o empenhamento dos jornalistas da área em encontrar espaços alternativos de divulgação, sobretudo através dos novos media. Uma opção que acaba também por os beneficiar ao permitir uma relação mais próxima com os leitores.

 

Ainda aparecem muitos jornalistas a fazer entrevistas a escritores sem terem lido o livro?

A indispensabilidade de o jornalista ler o livro relaciona-se com o género de entrevista que se pretende fazer, do ângulo de abordagem. É óbvio que é importante e positivo para o jornalista na preparação da entrevista — e durante a entrevista, pois todo o escritor aprecia quando percebe que o interlocutor leu a sua obra —, como também é importante conhecer o perfil do autor, o seu percurso, as suas obras anteriores, entre muitos aspetos.

 

Os jornalistas portugueses deixam-se seduzir mais por autores nacionais ou internacionais?

Os jornalistas interessam-se por livros e por escritores, pelas histórias que os envolvem ou que oferecem.

 

Já alguma vez lhe apeteceu deixar de falar com um jornalista/crítico na sequência de uma crítica literária?

Jamais. A crítica literária pode influenciar, positiva ou negativamente, o percurso de um livro ou de um autor. Mas estamos a falar de um exercício de liberdade de opinião, e isso é intocável. Temos é de saber lidar com as críticas negativas e encontrar nelas algo de positivo.

 

Teme uma subida do IVA no livro?

Se isso acontecer, então deixará mesmo de existir o conceito de «excesso de livros publicados».

 

Que campanha de comunicação ou que livro já o fizeram sentir que vale a pena trabalhar na comunicação editorial?

Tenho a felicidade de o meu percurso de 16 anos na Porto Editora coincidir com um período notável da história desta empresa, durante o qual abraçou o digital, a internacionalização, a diversificação editorial, a transformação em grupo. Sinto que vale a pena trabalhar na comunicação editorial desde o primeiro dia.

 

O que tem a Porto Editora de especial?

O bastante para eu não ser hoje um jornalista, um repórter de guerra. O jornalismo sempre foi a minha paixão, as minhas opções escolares e académicas foram feitas considerando essa meta. Hoje estou no chamado «outro lado», vivendo outras batalhas, e sinto-me privilegiado por isso.

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial.

Por estes dias, mais do que uma boa ideia, só consigo partilhar o meu profundo desejo de que o setor e o país consigam sobreviver a esta realidade austera. Sejamos resilientes.

 

 

(C) Sandra Barão Nobre

 

Entrou na Porto Editora em março de 1996, era então finalista na Escola Superior de Jornalismo, como redator para a que viria a ser o produto multimédia de maior sucesso em Portugal, a Diciopédia. Passou pela exigente área do marketing escolar e é responsável pelo Gabinete de Comunicação e Imagem desde finais de 1998.

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