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Blogtailors - o blogue da edição

Entrevistas Booktailors: Teolinda Gersão

23.10.12

 

Professora durante anos, Teolinda Gersão declara que há ainda muito a fazer em termos de criação de hábitos de leitura nas escolas e que não há um livro ou uma fórmula milagrosa para conquistar os alunos para a leitura. Há apenas a certeza de que os hábitos de leitura nascem na escola, e, nesse sentido, a autora vai dar o seu contributo quando, na próxima sexta-feira, dia 26, visitar a Escola Secundária Nun’Álvares, em Castelo Branco, no âmbito do 1.º Festival Literário da cidade.*


Vai estar no Festival Literário de Castelo Branco. Como vê esta maior exposição dos escritores ao público?

Os encontros com o público fazem parte, hoje em dia, da vida de um escritor. Embora impliquem um gasto por vezes grande de tempo e de energia, é algo que suponho que a maioria de nós faz com prazer, porque gostamos de encontrar os leitores e de ter algum feedback sobre as leituras que fizeram dos livros.

Em encontros literários, só estive uma vez em Castelo Branco, e já foi há vários anos. É uma boa ocasião de lá voltar, é uma bela cidade, onde tenho amigos.

 

Ainda falta fazer muito trabalho de divulgação da leitura nas escolas e nos meios mais interiores?

Sim, ainda há muito a fazer. Os alunos não têm hábitos de leitura, e o público mais vasto também não. E é nas escolas que se começam a criar hábitos de leitura, de contrário não se vão adquirir nunca.

 

Da sua experiência como professora, que livro se mostrou imbatível na conquista dos alunos para a leitura?

Essa é uma pergunta a que não sei responder, porque sempre gostei de variar os programas, os autores e as épocas. Fui professora catedrática de Literatura Alemã e de Literatura Comparada na Universidade Nova de Lisboa e trabalhei com os alunos obras muito diversificadas, de várias literaturas.

Se quiser escolher algumas obras que mais interessaram aos alunos, posso citar por exemplo a poesia do expressionismo, ou o movimento Dada. Não lhe posso citar um livro, isoladamente.

 

Vemos que aderiu com entusiasmo ao Facebook. Como tem sido essa experiência?  

O Facebook é como a vida, nele encontramos todo o tipo de pessoas. A vantagem maior é que, de facto, nos pode pôr em contacto com pessoas da nossa área profissional ou cultural, que partilham as nossas preocupações e interesses, em todos os lugares do mundo.

E por vezes o Facebook dá-nos também acesso a informações que de outro modo não teríamos, porque não aparecem nos jornais nem nas televisões, ou, no caso de aparecerem, não têm o relevo que deviam. As redes sociais também são um modo de passar informação, de forma eficaz e rápida.

 

Dá muitas sugestões de leitura, de exposições, etc. Como tem sido a reação dos seus seguidores a este papel de consultora?

Que ideia, não tenho nem quero ter qualquer papel de consultora, se quisesse procuraria por exemplo uma coluna num jornal. E não tenho seguidores, de modo nenhum, só tenho amigos «facebookianos»,como toda a gente. Quando falo de livros, exposições ou filmes, é um tema de conversa como qualquer outro, ao sabor do que vi na altura e me apetece partilhar. Isso, aliás, é comum no Facebook, há inclusive quem tenha criado páginas interessantes como «o que andamos a ler»…

 

Hoje os escritores falam mais entre si graças ao Facebook?

O Facebook também nos põe em contacto, sim. Ficamos a saber mais sobre colóquios, lançamentos de livros etc. Mas os escritores acabam em geral por se conhecer fora do Facebook. Vejo as redes sociais sobretudo como um espaço de comunicação entre pessoas muito diversas.

 

A lógica das redes sociais estimula-lhe a reflexão e produção literária?

Penso que não. São mundos muito diferentes.

 

Tem estado muito empenhada no combate ao novo Acordo Ortográfico. Porquê?

Porque ele não faz nenhum sentido. Já escrevi sobre isso, é impossível uniformizar. Há variantes da língua, nos vários países em que ela é falada, e ainda bem que assim é. Não há hierarquias entre estas variantes, e ninguém é proprietário da língua.

Basta pensar que desde 1990 se discute e as pessoas resistem ao Acordo Ortográfico. Há quase 23 anos, portanto. Entra pelos olhos dentro que há qualquer coisa de profundamente errado na base de tudo isto.

 

Não fugiu a uma polémica com Maria Helena Mira Mateus, no Público. Fazem falta mais polémicas nos jornais?

Foi sobre o ensino do Português no ensino básico e secundário. Não sou de fugir a nada, mas a questão não é haver ou não polémicas nos jornais. A questão é que é muito difícil, e infelizmente está a ser lento fazer mudanças estruturais em Portugal. Há estruturas que se instalaram e se julgam inamovíveis.

 

Estão os escritores demasiado calados neste momento histórico do nosso país? Ou estão a guardar material para escrever romances nos próximos anos?

Não posso responder em nome deles. O que julgo verificar é que, de uma maneira geral, os mais novos são mais desligados do contexto sociopolítico do que a minha geração.

 

* Esta entrevista não respeita o novo Acordo Ortográfico, por vontade expressa de Teolinda Gersão.

 

 

 

Teolinda Gersão é autora de doze livros (romances e contos), traduzidos em 11 línguas. Foram-lhe atribuídos por duas vezes o Prémio de Ficção do PEN Clube, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio de Literatura da Fundação Inês de Castro, e foi selecionada para o prémio europeu de romance Aristeion. Foi escritora-residente na Universidade de Berkeley em 2004. Alguns dos seus livros foram adaptados ao teatro e encenados em Portugal, Alemanha e Roménia. O seu romance mais recente, A Cidade de Ulisses (Sextante, 2011), é uma história de amor passada em Lisboa, que é também uma história de amor por Lisboa.

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