Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogtailors - o blogue da edição

Entrevistas Booktailors: Guilherme Pires

06.11.12

 

Tornou-se daninho na companhia de um amigo de longa data, e juntos estabeleceram-se no Histórias Daninhas, que, durante cerca de um ano, foi o meio de partilha da sua produção literária. O projeto terminou em julho, mas despediu-se com a edição de um livro. Guilherme Pires, assistente editorial na 2020 Editora, faz um balanço da sua incursão na microficção e fala do festival que levou os autores às escolas da sua cidade natal: o Festival Literário de Castelo Branco.


O que foi o projeto Histórias Daninhas e que balanço faz dele, agora que terminou?

O Histórias Daninhas foi uma oficina de escrita para mim e para o João Afonso, sem rede. Somos amigos desde miúdos, partilhámos a infância em Castelo Branco, o gosto pelos livros em adultos, a vontade de descobrir se temos em nós o que a escrita exige — talvez tenha sido por isso que nos tornámos daninhos. Sabíamos que os nossos cadernos tinham material escrito mas nunca partilhado, por pudor, por desconforto, por outras razões. A vontade existia, faltava tudo o resto: em abril de 2011 deixámo-nos de hesitações e decidimos oferecer, a quem quisesse lê-los, dois contos breves por semana (com, no máximo, 300 palavras). E continuámos, apesar de. Fizemo-lo até julho deste ano. Pelo caminho, abrimos a porta a 13 convidados para que publicassem as suas daninhas (e juntámos a essa lista um escritor escondido, Robert Walser), participámos no Festival Silêncio (no qual recebemos uma menção honrosa, atribuída ao microfilme de lançamento do projeto), publicámos alguns contos nas revistas Macondo e A Sul de Nenhum Norte e visitámos clandestinamente a Feira do Livro de Lisboa de 2011 para oferecer histórias em papel. A nossa despedida é o livro, que já está à venda. Gostamos do que fizemos, fez-nos sorrir. E agora terminou.

 

A micronarrativa e o conto não vendem em Portugal. A que se deve esta rejeição ao formato mais curto?

A micronarrativa, não sendo recente, é incomum no nosso mercado, pelo que é natural que não venda cá. Existem algumas edições de autor ou de coletivos de autores, e uma ou outra aposta de algumas editoras (a Lydia Davis é talvez o exemplo mais recente, pela Ulisseia e agora pela Relógio D’Água, mas existem também os esforços de casas como a Ahab, a Angelus Novus ou a Livros de Areia, e de outras), embora sempre em tiragens modestas, sem grande promoção, talvez porque não existe tradição no nosso mercado. O mesmo talvez se aplique aos contos, embora neste caso existam edições bastantes, tanto de autores de prestígio como de outros mais comerciais ou até desconhecidos, publicadas nas editoras mais reputadas, nas «independentes» e até nas más. Se não vendem, é porque grande parte dos leitores portugueses prefere romances ou novelas, seja por uma razão ou por outra: pelas narrativas mais elaboradas, por um fôlego maior para as personagens e os enredos, porque os romances são mais pesados, ajudam a preencher as estantes e têm capas mais luzentes — mesmo quando a justificação é mentirosa.

 

Enquanto editor, como vê este fenómeno dos festivais literários?

São úteis para as editoras, aqui, como no Reino Unido, como no Brasil. Ajudam a promover os autores e os livros, aproximam-nos dos jornalistas e consequentemente também do público; são, claro, momentos de partilha com os leitores, estimulam a leitura e a perceção de que o livro é um lugar de privilégio, uma experiência importante para o ser humano (e dessa forma talvez estimulem também o consumo, sem o qual as editoras não existem); e podem ser oportunidades para que os editores conheçam potenciais autores e partilhem experiências.

 

A sua terra natal organizou recentemente o Festival Literário de Castelo Branco. Como vê o advento destes festivais e a sua chegada aos meios mais distantes das grandes cidades?

Para Castelo Branco foi uma excelente notícia. Embora seja capital de distrito, é, desde que me conheço, uma cidade com pouco apetite pela cultura, e em particular pelo livro. Neste momento, não existe uma única livraria no centro da cidade, e apenas uma Bertrand (pequenina, pequenina…) num dos centros comerciais das periferias. As visitas de escritores são raras, mas quando acontecem e são bem organizadas têm quase sempre casa cheia. Há, por isso, uma enorme necessidade de eventos culturais como este festival, que ajuda a divulgar nas escolas o livro e alguns autores, e quem sabe aproxima as pessoas ao mundo da literatura. Acredito que uma cidade como Castelo Branco reagiria de outra forma ao livro — leria mais — se o livro fosse divulgado com empenho, em vez de escondido nas prateleiras (escassas) dos hipermercados ou das papelarias e em livrarias claustrofóbicas ou congeladas no tempo (como eram as que existiam na cidade até 2010).

 

A 2020 não ficou imune ao furacão das insolvências na distribuição. Será que é desta que o mercado se vai ajustar às necessidades das editoras e dos livreiros?

Não. Infelizmente, ficará tudo na mesma, porque o modelo de negócio e as regras do mercado não mudaram. A 2020 Editora conseguiu sobreviver porque tem ótimos profissionais, colaboradores e fornecedores, que continuaram a trabalhar com o mesmo empenho apesar de tudo o que se passou, e porque foi feito um enorme esforço financeiro e de gestão para que se erguesse uma estrutura de distribuição própria. Tendo distribuição própria, o controlo aumenta, ganha-se força. Mas é necessário ter dimensão e ambição para isso: quando estes dois preceitos não existem, os editores têm de colocar-se nas mãos dos distribuidores e rezar a todos os santos para que essas empresas consigam gerir o seu negócio, manter-se vivas e não estrangular a circulação do dinheiro. É assim hoje como sempre foi, e um pouco por todo o lado, com menor ou maior gravidade de acordo com a dimensão do mercado, o número de leitores compradores no país, a dimensão das editoras, das livrarias e das distribuidoras, o empenho dos autores, etc.

 

Vale mais a pena investir em coleções e títulos estrangeiros ou criar de raiz um produto nacional?

Depende da perspetiva. Se analisarmos apenas pelo investimento de tempo e dinheiro que os projetos exigem, talvez seja mais vantajoso investir em coleções ou títulos estrangeiros: nestes casos, os acordos financeiros são mais agradáveis para o editor; os títulos podem trazer consigo o prestígio ou publicidade da edição original e do autor; os livros podem chegar já estruturados, com projetos gráficos acabados e que apenas precisam de adaptação; existirão a priori mais argumentos para convencer as pessoas a comprar ou ler o livro. São apostas mais seguras, talvez. Uma resposta a esta pergunta variará muito em função do tipo de livro, do autor e do perfil ou filosofia da editora, claro.

 

O mercado infantojuvenil alguma vez esteve em crise nos últimos cinco anos?

No último ano e meio, tudo esteve e está em crise. Essa palavra é uma espécie de novo deus, omnipresente, ditador, castigador, transformador. O mercado infantojuvenil tem muita força, mas também sofre com a quebra de consumo.

 

Ainda há muitos maus livros infantis a circular nas escolas?

O que é um muito mau livro infantil?

 

O PNL vai mesmo formar leitores para a vida?

São os livros, os autores, os editores, as famílias, os amigos e os desamores que formam leitores para a vida, não os planos, por mais méritos que tenham.

 

O que gostava de editar na 2020 e ainda não conseguiu?

A 2020 edita o que público quer ler. Por isso, existem muitos livros que gostaríamos de publicar e que ainda não publicámos — é uma questão de tempo.

 

 


Guilherme Pires nasceu em 1982, em Castelo Branco. Licenciado em Ciências da Comunicação, foi jornalista para dar uso ao diploma, mas cedo se arrependeu. Desde 2010 é assistente editorial na 2020 Editora, onde ajuda a fazer livros para as chancelas Booksmile, Vogais, Nascente e Topseller. É coautor, com João Afonso, do livro Histórias Daninhas.

-

Campanha «Formai-vos!»: desconto de 50% para desempregados e recém-licenciados. Novidades 2012: [Lisboa] Comunicação Editorial, Livro Infantil [Porto] Revisão de Texto - nível intermédio.