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Blogtailors - o blogue da edição

Blogtailors.br: Entrevista com Leandro Narloch

07.11.12

 

É o autor de um dos livros mais vendidos e dos mais polémicos publicados no Brasil nos últimos anos, Guia politicamente Incorreto da História do Brasil, que escreveu para irritar as pessoas que usavam «um esquema marxista da história para ganhar votos e discussões». Em entrevista ao Blogtailors.br, Leandro Narloch fala ainda das polémicas levantadas pela obra e explica o que faria se um dia fosse incumbido de dirigir o Ministério da Cultura do Brasil.


Veja garante que o Leandro Narloch é responsável por «uma virada provocativa» nas obras generalistas sobre a História. O Guia politicamente Incorreto da História do Brasil vendeu 400 000 exemplares. Como é que identificou este vazio editorial, esta necessidade de revisão de uma historiografia muito marcada pelo combate ideológico de esquerda?

Nascido e educado nesse ambiente ideológico de esquerda, eu demorei para perceber a influência. (Se bem que talvez nem tanto, já que muita gente só se dá conta aos 50 ou 60 anos.) Percebi, fazendo reportagens sobre história do Brasil para revistas, que a história da escola era baseada num esquema marxista simples. Os ricos (colonizadores portugueses, diplomatas britânicos, empresários americanos) sempre ganhavam o papel de vilões, e os pobres (índios, negros) nunca eram protagonistas, só apareciam nos livros em voz passiva (humilhados, explorados, escravizados). Foi interessante descobrir que índios e negros também mataram ou escravizaram, e que quase tudo o que o Brasil tem de bom vem de fora, do futebol ao Cristo Redentor. Como muita gente usava aquele esquema marxista da história para ganhar votos e discussões, resolvi escrever um livro para irritá-los. 

 

O meio cultural já lhe perdoou ter retirado do armário os esqueletos de muitos escritores canónicos? Os brasileiros já absorveram a ideia de que Jorge Amado defendeu Hitler e Estaline ou de que Machado de Assis era um censor?

Sim. Esses assuntos na verdade não renderam muita polêmica. No caso do Machado, o fato de ele ter sido censor não tira sua genialidade. E o Jorge Amado se envergonhava das baixarias ideológicas da juventude. 

 

É uma voz bastante crítica do Ministério da Cultura brasileiro, ao ponto de afirmar que podia passar a uma Secretaria de Estado. O que é que não está a funcionar bem no ministério? Onde falhou a ministra Anna de Holanda?

Meu problema não é apenas com a ex-ministra, mas com a essência do ministério. Ele está fundamentado na ideia de que o mercado faz mal à arte, que os artistas não devem se submeter às leis do mercado. Eu acredito no oposto: a necessidade de dinheiro e a dificuldade é que levam os artistas a criar. Muitos artistas brasileiros se especializaram na arte de preencher papéis para financiamentos e editais. Quando conseguem um financiamento, não se preocupam em atingir o grande público, pois já receberam seu dinheiro. É assim que o Ministério da Cultura sabota a arte. Se eu fosse incumbido de dirigir esse ministério, no primeiro dia de trabalho encerraria as atividades e diria aos funcionários que procurassem outro lugar para fingir que trabalham. O melhor incentivo que o governo pode dar à arte é cobrar menos impostos, deixando as pessoas com mais tempo e dinheiro para o lazer. 

 

Como vê este recente interesse português pelo mercado editorial brasileiro?

Opa, nem sabia que esse interesse existia! Eu ligo pouco para a língua portuguesa. Brinco com meus amigos que deveria ser proibido ensinar português na escola e que os alunos deveriam aprender somente inglês. Imagine, por exemplo, que na época do Império Romano você morasse na Núbia, abaixo do Egito. Ficaria preocupado com a Música Popular Núbia, a língua núbia? Muito melhor falar latim e experimentar o fervo de Roma. 

 

Para um escritor brasileiro, que publica para um universo de quase 200 milhões de potenciais leitores, o que significa publicar em Portugal?

Apesar do menor número de leitores, há sim um significado, afinal vemos Portugal como um guardião da história do Brasil. 

 

Qual foi o último livro de um autor português que teve vontade de ler?

João Pereira Coutinho, que é ídolo de muita gente em São Paulo, foi coautor do Por que virei à direita. O texto dele é o melhor desse livro. 

 

Que livro ou autor brasileiro você aconselharia a que fosse editado imediatamente em Portugal?

As crônicas esportivas do Nelson Rodrigues (para mim o melhor escritor de toda a nossa história) já devem ter sido publicadas em Portugal. Mas seria interessante haver outras edições com uma boa divulgação. Com só um pouco de provincianismo eu diria que são material à altura de um Dostoiévski. 

 

 

 

O jornalista Leandro Narloch nasceu em Curitiba, Paraná. Foi repórter da revista Veja e editor das revistas Aventuras da história Superinteressante. Tem 31 anos e vive em São Paulo com a sua mulher, Gisela.