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Ter, 20/Nov/12
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O Planeta Tangerina trouxe para o mercado livros infantis que desde o início se destacaram por uma componente visual muito forte. E essa é uma aposta que, embora tenha surgido sem um plano definido, como afirma Isabel Minhós Martins, tem dado bons frutos. Principalmente no que respeita ao investimento feito pela chancela na Feira do Livro Infantil de Bolonha, que tem tido um bom retorno, garante a autora.

 

Qual é a maior dificuldade no momento de lançar uma editora de livros infantis?

Penso que o problema não é tanto lançar uma editora, mas sim manter uma editora a funcionar, cumprindo, de forma justa, as suas obrigações com todos os envolvidos, autores, fornecedores, leitores. Digo isto porque é relativamente fácil publicar livros infantis de qualidade mediana a preços baixos (basta procurar livros editados em mercados internacionais e imprimi-los nos países asiáticos a custo baixo). E é também relativamente fácil pegar em autores e ilustradores novos (cheios de entusiasmo mas alguma inexperiência) e publicar os seus trabalhos com base em condições pouco dignas, mesmo para quem está a começar. A parte da distribuição é seguramente a mais difícil, mas resolve-se também. O mais difícil, sobretudo em tempos de crise, é criar livros novos e fazê-los competir com esse mercado de livros de baixo custo (muitas vezes um baixo custo que é conseguido sacrificando uma série de questões que me são caras). Podemos pensar: «Ah, são livros diferentes, chegam a públicos diferentes, nem chegam a competir uns com os outros.» Será? Talvez sejam estas pequenas mudanças que distinguem este tempo de crise do tempo sem crise. Em muitos casos, deixamos de poder fazer escolhas.

 

A distribuição pode matar uma pequena editora?

Uma pequena e uma grande. A História já o demonstrou não apenas uma vez…

 

O que significou para as editoras de livros infantis o investimento feito na Feira de Bolonha?

Para o Planeta Tangerina tem sido um investimento com bom retorno. Mas é, sem dúvida, um investimento grande para uma pequena editora, feito sem subsídios ou apoios. Tudo nos sai do pelo (agora sem acento circunflexo)…

 

O livro infantil parece estar na moda, e toda a gente quer escrever um. É mesmo assim?

Acho que sim, é mesmo assim. Mas o fenómeno já não é de agora... Que não faltem (e não deixem de editar) todos os outros: os que não ligam a modas e fazem o seu trabalho levando a coisa mesmo a sério.

 

Como consegue um pai avaliar a qualidade de um livro infantil com tanta oferta? Falta algum mecanismo de regulação ou deve haver liberdade absoluta de edição para a infância?

Liberdade absoluta, claro. Cada um escreve e publica o que quer. Era o que faltava que houvesse reguladores a montante. Mas uma das funções de um editor é precisamente ser regulador: triar, escolher, separar o trigo do joio. A jusante, é importante que se dê espaço a quem sabe distinguir o que merece ser distinguido e sobretudo chamar a atenção para os livros de qualidade que podem passar despercebidos entre toda essa grande oferta. Dêmos espaço à crítica de livros infantis nos media (televisão, rádio, jornais e revistas), dêmos trabalho aos mediadores da leitura, dmos boa formação aos bibliotecários, professores e livreiros. Se tudo isto funcionar, os pais aprenderão aos poucos a fazer a sua avaliação (e, num mundo a funcionar, os livros mais «ranhosos» deixariam de vender... Oh, ilusão!).

 

O Plano Nacional de Leitura veio ajudar a criar hábitos de leitura na infância?

Isso é muito difícil de avaliar, e acho que nem com um estudo encomendado se saberia com rigor. Uma parte da vontade/gosto pela leitura já vem connosco, acho eu (e não tenho certezas nenhumas). Acho também que a fome pelos livros é o melhor Plano Nacional de Leitura. Como diz Adélia Prado, «não quero faca nem queijo, quero a fome». Mas como é que se dá essa fome? É complicado. Vivemos numa época de extremos: em muitos aspetos há um excesso que rodeia as crianças (e que nada tem a ver com pobreza nem riqueza): excesso de programas, projetos e iniciativas, excesso de televisão, excesso de tralha até na mochila da escola, excesso de solicitações e ruído. Para a leitura dar prazer, tem de haver imersão total. Para haver imersão total, tem de haver silêncio. Para haver silêncio, tem de se desligar a tralha toda lá de casa… E é tão difícil hoje em dia. Eu defendo que se crie uma tarde por semana na escola em que cada um vá para a biblioteca e leia o que lhe apeteça: revistas, jornais, livros de banda-desenhada, romances, livros sobre futebol ou dinossauros ou poesia. E no final ninguém é obrigado a preencher uma ficha de leitura. (Mas acho que iniciativas como o Plano Nacional de Leitura são excelentes, claro. Muitas pessoas que estavam fora do universo dos livros passaram a estar mais atentas.)

 

Optar por fazer livros com uma estética tão forte não foi um risco muito grande?

Foi uma coisa que aconteceu sem existir um plano. Acho que não é algo que eu insira no plano das escolhas, mas noutra categoria, mais autoral, talvez… Que não se escolhe mas que sai assim.

 

Já alguma vez lhe apeteceu deixar de falar com um jornalista/crítico na sequência de uma crítica literária?

Credo, não.

 

Teme uma subida do IVA no livro?

Só quem não faz contas pode não temer…

 

A crise já obrigou a repensar o plano editorial do Planeta Tangerina?

Sempre editámos poucos livros por ano. Sete, no máximo oito. Por isso não tivemos de cortar gorduras nem fazer ajustamentos ou refundações (diz-me o meu corretor ortográfico que esta palavra não existe. Estranho, ia jurar que…). Mas nunca damos nada por adquirido e sentimos sempre um grande alívio quando os leitores gostam e compram os nossos livros. Vamos ver se pode continuar a ser assim.

 

 

 

Nasceu em Lisboa em 1974. É formada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes (1997). Fundou, juntamente com três amigos, a editora Planeta Tangerina, especializada em álbuns ilustrados. Ganhou uma Menção Honrosa no I Prémio Internacional Compostela de Álbuns Ilustrados. Em 2010, foi nomeada para os Prémios de Autor da SPA/RTP na categoria Literatura Infanto-Juvenil com O Livro dos Quintais (ilustrações de Bernardo Carvalho). Tem livros selecionados para a lista White Ravens, Banco del Libro ou CJ Picture Book Festival. Tem livros publicados em Espanha, França, Inglaterra, Itália, Brasil, Alemanha, Noruega, Coreia.

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por Booktailors às 09:00 | comentar | partilhar

2 comentários:
De J. a 20 de Novembro de 2012 às 10:49
adoro os livros da planta tangerina, e tenho comprado varios para a biblioteca onde trabalho, em frança. fazem muitos sorrisos nas horas do conto em português :) e, agora, em francês!


De Luís Belo a 22 de Novembro de 2012 às 19:01
Para o sucesso e qualidade de uma editora, ou qualquer empresa, é necessário uma boa gestão e uma excelente visão. Nas artes o universo parece mais premeável e ao ler esta entrevista percebe-se o porquê do sucesso da Planeta Tangerina que não tem "só" grandes ilustradores, mas uma óptima gestão.

Parabéns pelo trabalho.


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