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Blogtailors - o blogue da edição

Blogtailors.br: Entrevista com Leandro Sarmatz

26.11.12

 

Ser autor e editor é, segundo Leandro Sarmatz, «uma relação estranha», já que o «editor costuma ser muito severo com o autor». Felizmente, isso não tem impedido o autor de escrever e de ser inclusivamente apontado como um dos melhores jovens escritores brasileiros pela revista literária Granta. Em entrevista ao Blogtailors.br, Leandro Sarmatz fala de dois temas que bem conhece: o seu último livro, Uma Fome, e da edição no Brasil.


Foi apontado pela Granta como um dos melhores jovens escritores brasileiros. Em que é que essa distinção mudou a sua carreira?

Acima de tudo, deu mais visibilidade ao meu trabalho — tenho recebido convites para seminários e para publicar, que antes pareciam mais rarefeitos.

 

É escritor e editor (Companhia das Letras). De que forma uma atividade influencia a outra?

Acaba sendo uma relação estranha muitas vezes, e é preciso ficar de orelha em pé. O editor costuma ser muito severo com o autor, de modo que este último precisa às vezes ignorar ou fazer-se de surdo diante de alguns apelos do editor. 

 

Acompanha o trabalho desenvolvido pelas editoras portuguesas que entraram no mercado brasileiro (LeYa, Tinta-da-china)? Que opinião tem do trabalho que estão a desenvolver?

Acompanho, sim, e vejo com muito bons olhos o trabalho desenvolvido pelas editoras portuguesas, além de admirar a qualidade de seus livros.

 

Tem por hábito acompanhar o mercado editorial português? O que lhe desperta mais interesse?

Conheço menos do que deveria, confesso, mas há editoras que se impõem pela qualidade, rigor e catálogo. É o caso da sempre lembrada Cotovia, uma das editoras que mais admiro entre todas.

 

O seu livro Uma Fome descreve a vida da comunidade judia em plena Segunda Grande Guerra. Este tipo de temas favorece a publicação no estrangeiro ou é um obstáculo por não dar a cor local brasileira?

Na verdade, meu livro de contos Uma Fome tem uma seção inteira, com três contos, em que aspectos da experiência judaica diante do Holocausto é ficcionalizada. No restante do livro, nos demais 8 contos, isso aparece marginalmente ou de forma mais sutil. Quanto a favorecer ou não a publicação no estrangeiro, não posso falar muito a respeito porque ainda não tive essa grata experiência. Mas imagino que, embora a literatura de cor local, ou mesmo de exotismo, possa atrair certo leitorado, é cada vez mais presente uma literatura brasileira mais cosmopolita e menos marcada pelos temas que há muito são repisados por alguns de nossos escritores.

 

É responsável pela coleção «Carlos Drummond de Andrade», mas também pelas obras de Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. O mercado editorial brasileiro tem facilidade em manter vivo o interesse dos leitores pelos autores já desaparecidos?

No caso desses grandes autores, sim — e por uma razão que vai além da evidente qualidade de sua produção. O governo brasileiro compra milhares de exemplares desses e de outros autores para distribuí-los em escolas e bibliotecas. Um autor canônico como Drummond já é bastante lido pelo leitor que vai à livraria, mas é mais lido ainda — ou pelo menos circula muito mais — graças às compras de governo.  

 

A poesia, em Portugal, luta com muita dificuldade para conseguir espaço nos pontos de venda. Essa é, aliás, uma tendência europeia. No Brasil, a poesia está a perder espaço nas livrarias e nas editoras?

A boa poesia, de uma forma ou outra, acaba aparecendo e ganhando espaço. Claro que, em comparação com um gênero comercialmente mais hegemônico como o romance, o espaço da poesia é bem menor. Mas ainda assim há boas editoras que publicam poesia no Brasil, e as melhores livrarias sabem que há um público bem informado e disposto a consumir as novidades dessa área.

 

Que autor ou obra brasileira contemporânea sugeriria a um editor português para publicar imediatamente?

Vários. Alguns já foram publicados, mas mesmo assim vale frisar: Bernardo Carvalho, Eucanaã Ferraz, Eduardo Sterzi, Fabricio Corsaletti, Daniel Galera, Tatiana S. Levy — e muitos outros.

 

A revista Monocle garante que a língua portuguesa é atualmente a língua do poder e do comércio. Concorda com esta visão da lusofonia?

Creio que terei de discordar. Há uma língua do poder e do comércio, e ela surgiu naquela ilha fria chuvosa que deu ao mundo Shakespeare e outros titãs. Agora, com o crescimento da economia brasileira, há uma tendência de publicações como a Monocle de observarem melhor os nossos passos.

 

 

 

Leandro Sarmatz nasceu em Porto Alegre, em 1973. É jornalista e mestre em Teoria Literária pela PUC-RS. Mora em São Paulo desde 2001. Trabalhou nas editoras Abril e Ática e atualmente é editor na Companhia das Letras. Publicou os livros Mães & Sogras (teatro, IEL, 2000), Logocausto (poemas, Editora da Casa, 2009) e Uma Fome (contos, Record, 2010). Foi selecionado para a edição brasileira da revista Granta.