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Blogtailors - o blogue da edição

Entrevistas Booktailors: Sven Mensing [parte I]

27.11.12

 

Há cerca de dois meses, o Goethe-Institut organizou dois eventos com autores de expressão alemã que esgotaram os lugares do seu auditório: uma sessão com a escritora laureada com o prémio Nobel de Literatura em 2009, Herta Müller, em setembro, e, em outubro, o lançamento de O Colecionador de Mundos, de Ilija Trojanow. Segundo Sven Mensing, diretor do Departamento Informação & Biblioteca do Goethe-Institut Portugal, a criação de eventos literários que sejam um sucesso a longo prazo é um dos objetivos da instituição, até porque, diz, em Portugal «a cultura alemã em geral, os artistas e as infraestruturas são bem recebidos».


O Goethe-Institut faz uma aposta grande na divulgação da literatura alemã. Como estruturam e desenvolvem essa divulgação?

O Goethe-Institut é um instituto cultural onde não existe uma hierarquia entre as expressões artísticas. Tentamos sempre trabalhar com uma ampla diversidade de temas: da arquitetura às artes visuais, do cinema à música e mesmo à videoarte, apenas para citar alguns. Ao mesmo tempo, organizamos também algumas conferências sobre questões atuais da sociedade. A literatura é um tema entre outros, mas não é nem mais nem menos importante do que os restantes.

 

O nosso planeamento de projetos funciona, de certa forma, como um concurso de ideias: as boas ideias prevalecem, independentemente da área a que pertencem. Mas uma boa ideia por si só não garante o sucesso. É sempre mais vantajoso ter um bom parceiro local para um projeto, tanto em termos de logística como ao nível da organização e do desenvolvimento de conteúdos. Para nós, é também importante que as coisas que fazemos tenham uma certa sustentabilidade. Quem já organizou projetos com outras instituições sabe que pode demorar algum tempo até encontrar um objetivo comum, mas, quando este é alcançado, tudo se torna mais simples e os projetos podem crescer. A curto prazo e com dinheiro suficiente, é possível fazer tudo com qualquer parceiro. Mas normalmente esses eventos pontuais caem no esquecimento, e da próxima vez que queremos fazer um novo projeto é necessário começar novamente do zero. Os nossos festivais de cinema (KINO) e os concertos de jazz no Jardim do Goethe-Institut (JiGG), pelo contrário, são exemplos do sucesso de uma estratégia e de uma cooperação a longo prazo. Na área da literatura também queremos chegar a esse nível. Até agora, temos feito projetos muito esporádicos e por conta própria, mas o nosso próximo objetivo é conseguir encontrar mais parceiros para projetos, oferecendo, por exemplo, em troca, a possibilidade de convidar autores alemães para estarem presentes nos lançamentos de livros, ou disponibilizando as nossas instalações para eventos com parceiros da área literária, onde o tema não é a Alemanha ou a literatura alemã. Um projeto que desenvolvemos, numa tentativa de chegar mais facilmente às instituições do mundo do livro, foi o ciclo de eventos EDITA, que teve lugar na Feira do Livro de Lisboa em 2012. A médio prazo, esperamos deste esforço a possibilidade de realizar um projeto maior no campo literário, o qual, se tudo correr bem, terá pernas para andar a longo prazo.

 

A animosidade dos Portugueses para com a Alemanha ainda não chegou à literatura?

Penso que a maioria dos portugueses consegue separar claramente o que é a política e a economia do que é a cultura (e a literatura). A cultura alemã em geral, os artistas e as infraestruturas são bem recebidos em Portugal. Tivemos, por exemplo, um evento em setembro com a escritora Herta Müller, e um em outubro com o escritor Ilija Trojanow, que encheram o nosso auditório. Penso também que a cooperação leal do Goethe-Institut com instituições culturais de todos os tipos e dimensões, bem como a colaboração com os principais atores da cena cultural em Portugal, que vem sendo construída ao longo de cinco décadas, são reconhecidas. A nossa prioridade é o diálogo. Queremos, como é óbvio, mostrar o que de melhor se faz na Alemanha, mas também não temos receio de refletir criticamente. A nossa tarefa é fornecer uma plataforma onde as pessoas da área das artes, da cultura e da educação possam trocar experiências sobre temas sugeridos por nós ou por outros (por parceiros de Portugal e da Alemanha), e onde se possam estabelecer contactos. Promovemos essas redes e apoiamos estas relações para que estes laços sejam não apenas duradouros mas também resistentes, especialmente quando as circunstâncias externas não são as mais favoráveis.

 

Sabemos que a biblioteca do Goethe, em Lisboa, tem uma boa rotação de livros, quer na requisição, quer na disponibilização de novidades. O que procuram os vossos leitores e como conseguem surpreendê-los?

Muitos dos nossos leitores são alunos do Instituto, que procuram principalmente material para a aprendizagem da língua alemã. Nesta área, os editores DaF (alemão como língua estrangeira) têm conseguido alcançar uma qualidade notável nos últimos anos, o que se reflete na oferta da nossa biblioteca. Os livros de «leituras fáceis», que servem de apoio à aprendizagem da língua, são os materiais mais bem recebidos na biblioteca. São pequenos livros, escritos com o recurso a uma linguagem mais simples, e que têm temas tão diversos como as histórias da vida quotidiana, os romances policiais e os clássicos da literatura. Estes livros incluem geralmente muitas ilustrações para facilitar a leitura, exercícios de compreensão de texto e CD áudio que permitem ouvir o texto, facilitando a aprendizagem da língua de uma forma prática e divertida.

 

Muitas pessoas que visitam a nossa biblioteca pela primeira vez estranham o facto de o nosso acervo incluir também livros em português. Isto acontece principalmente nas áreas da Literatura e da Filosofia, onde temos muitas traduções portuguesas de obras alemãs. Noutras áreas, como na História, possuímos também alguns livros em inglês, para que aqueles leitores que não dominam a língua alemã possam ter acesso à história alemã. Na área da Literatura, os clássicos são os autores mais procurados pelos leitores portugueses, entre os quais Goethe, Joseph von Eichendorff, Franz Kafka, Herman Hesse, Thomas Mann, Rainer Maria Rilke, ou até mesmo Bertolt Brecht, Hans Magnus Enzensberger e Günter Grass. Nos últimos anos temos tentado modernizar a nossa secção de literatura, dando alguma ênfase à literatura alemã contemporânea, especialmente aos autores que surgiram após a reunificação alemã e que são pouco conhecidos em Portugal. Na hora de escolher os livros a comprar para a biblioteca, baseamo-nos nas inúmeras recensões literárias, que têm uma tradição sólida na imprensa alemã, e também nas listas de recomendações da nossa sede em Munique, criadas por especialistas da área da literatura para todas as bibliotecas da rede do Goethe-Institut no mundo. E, é claro, também aceitamos as dicas e sugestões dos nossos leitores, algo que infelizmente ainda não tem grande expressão.

 

Além de livros, o acervo da nossa biblioteca inclui também revistas, CD de música, filmes e documentários em DVD e audiolivros, que são requisitados com muita frequência (por vezes mais do que os livros). Para muitos leitores da biblioteca, a sua «carreira de utilizador» começou com o empréstimo de DVD, até que, mais tarde, descobriram que a biblioteca tem muito mais para oferecer.

 

Há cada vez mais portugueses a querer aprender alemão?

Sim, o número de alunos tem aumentado em ambos os institutos em Portugal (Lisboa e Porto), especialmente nos últimos dois anos. Além do aumento do número de alunos, temos também notado um crescente interesse pela aprendizagem da língua alemã, o que reflete a triste tendência de abandono do país de jovens licenciados e de pessoas qualificadas, que procuram na Europa um emprego. A estes, juntam-se todos aqueles que esperam, através da aprendizagem da língua alemã, garantir o seu emprego ou conseguir um emprego melhor em Portugal. Pessoas que aprendem alemão no nosso instituto apenas por interesse cultural ou por curiosidade são, no entanto, poucas. É de destacar também o facto de alguns alunos terem uma ideia errada de quanto tempo demora para aprender a língua alemã, ou de quão difícil é dominar esta língua, de forma a ter uma oportunidade realista no mercado de trabalho alemão. Todos os semestres temos muitos alunos nos níveis iniciais, mas poucos passam a barreira inicial e prosseguem para os níveis intermédio ou avançado. Um dos nossos objetivos é trabalhar mais para conseguir garantir a nossa sustentabilidade, incentivando a progressão nos cursos.

 

 

  

Nasceu em 1977 em Lauchhammer (antiga RDA). Estudou Biblioteconomia na Universidade de Ciências Aplicadas de Potsdam entre 1997 e 2001. É licenciado em Biblioteconomia, com um trabalho na área de Gestão da Qualidade no Centro de Informação do Research & Development da Volkswagen em Wolfsburg. Em 2002 trabalhou na Biblioteca do Max Planck Institute for Human Development em Berlim. De 2003 até 2006 foi bibliotecário no Goethe-Institut em Lisboa, sendo também responsável pela rede informática e pela página da Internet. Desde 2007 é diretor do Departamento Informação & Biblioteca do Goethe-Institut Portugal.

 

* Esta entrevista continua quinta-feira, dia 29 de novembro.

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