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Blogtailors - o blogue da edição

Entrevistas Booktailors: Francesco Valentini [parte II]

13.12.12

 

[Parte I]


Há ainda muitos autores que Francesco Valentini, da Nova Delphi, gostaria de publicar. No entanto, tratando-se de um projeto a longo prazo, haverá tempo para os incluir no catálogo, apesar das dificuldades que o mercado português impõe a uma editora com a dimensão da Nova Delphi, nomeadamente o eterno problema da distribuição. Mas haja ideias para contornar as dificuldades, e isso é algo que não falta a Francesco Valentini.

 

A crise já obrigou a repensar o plano editorial?

Se pensar que nós começámos a publicar em 2010, quando a crise estava já muito presente… Sim, fizemos alguns ajustes, mas nada que alterasse profundamente o nosso plano inicial.

 

Que escritor gostava de poder editar e ainda não o fez?

Somos uma editora com um projeto de longo prazo. A maioria dos escritores vivos de que nós gostamos, obviamente, ainda não foi publicada por nós, mas ficaríamos muito satisfeitos se, talvez dentro dos próximos 20 anos, conseguíssemos publicar pelo menos uma pequena parte deles.

 

Gosto de pensar que a vida de uma editora possa ser representada como se fosse um livro, em que cada coleção realizada possa representar os capítulos do livro e as histórias dos autores publicados são as histórias dos protagonistas de cada capítulo. Com base nesta metáfora, a Nova Delphi ainda não terminou de escrever o primeiro capítulo. Esta é a única resposta sensata que posso dar.

 

Tem tablet? Ou não se imagina a ler e-books?

Tenho e já li e-books. Antes do tablet tive um e-reader. Não têm nada a ver, mas isto para dizer que tenho acompanhado as novas tendências, as novas formas de ler, os novos suportes. É uma área pela qual me interesso e à qual dedico muitas horas de leitura e estudo.

 

Além disso, a Nova Delphi apostou desde o início em ter todos os seus livros publicados no formato tradicional e em e-book, em vários formatos para facilitar a leitura nos diversos suportes que existem no mercado. Por exemplo, os nossos e-books estão disponíveis no formato ePub e mobi (para o Kindle).

 

O que é que um editor tem de saber para sobreviver no mercado português?

A pergunta é intrigante, mas vou tentar responder desta forma: existem duas grandes barreiras à entrada de um novo editor no mercado editorial português, sobretudo se for pequeno. A primeira barreira – que é comum a todos os mercados editoriais ocidentais que conheço – é a da distribuição. A distribuição em Portugal é mal organizada, a situação financeira dos distribuidores independentes é péssima. Na realidade, o que acontece é que o distribuidor gere indevidamente a tesouraria dos seus clientes editores mantendo-os pela garganta… A única distribuição que funciona é a que pertence aos grandes grupos editoriais que todos nós conhecemos, que, obviamente — e eu acho que com razão —, privilegiam as suas próprias marcas editoriais. A segunda barreira — na minha opinião, ainda mais grave do que a primeira — é a total ausência de informação estatística organizada sobre as várias fases da fileira editorial. Bom, na realidade esta informação existe, mas o acesso a ela está sujeito a um preço elevado, o que não permite que editores mais pequenos, que queiram entrar no mercado ex novo, possam ter uma ideia prévia do funcionamento do mercado editorial, de como é estruturado e de quais as tendências editoriais atuais e quais serão as tendências futuras. Consequentemente, existem muitas dificuldades na conceção de estratégias editoriais ganhadoras e direcionadas para identificar nichos de mercado a ser explorados.

 

As considerações acimas referidas são mais interessantes, e explicam muitas coisas, se considerarmos que a indústria editorial em Portugal no período 2008-2011 (no pior período de crise) representou um dos poucos setores da economia, baseada no mercado interno, que apresentou dados anticíclicos. Em suma, estamos perante um setor económico, o editorial, que realizou um volume de negócios positivo, aumentou em vez de diminuir. Então, talvez essa pergunta — e digo isto com alguma ironia — deve ser reformulada da seguinte forma: o que pode fazer uma editora em Portugal para sobreviver? E porquê sobreviver em vez de viver de facto, quando há espaço à conta do crescimento do setor?

 

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.

Como eu sou muito generoso, quero fornecer duas boas ideias… que espero que sejam úteis:

1) Criar uma plataforma digital e uma base de dados estatísticos comuns a todos os operadores do setor editorial, os editores e não só, plataforma que possa ser adquirida a preços baixos e onde encontrar todas as estatísticas do mundo do livro, do autor ao leitor. Na Itália existe (ver aqui: http://www.ie-online.it/sx/sx.html) e ajuda principalmente as pequenas e médias empresas da fileira editorial, pois assim conseguem cruzar dados e ajustar a oferta à procura. Aproveito para fazer um convite à APEL, em particular, para fazer o acompanhamento desta iniciativa, sem medo, todos nós precisamos;

 

2) Criar, por parte do mundo editorial em colaboração com os meios de comunicação de massa tradicionais (televisão), e com os novos media digitais (redes sociais), programas culturais e formatos que permitam explicar aos jovens que ler (e ler livros tanto em versão em papel quanto digital, não importa… o importante é ler) é bom para a saúde, melhora a vida, diminui o stresse. Citando indevidamente Umberto Eco, acho que existem duas experiências religiosas que dão a vertigem de prazer, uma é o sexo, a outra é a leitura, a primeira faz vibrar o corpo, a outra a mente: se nós pusermos os assuntos nesses termos, ainda conseguimos um percurso mais persuasivo com o objetivo da formação cultural dos jovens.

 

O que distingue o mercado editorial português do italiano?

O mercado editorial italiano e o português são mercados que estruturalmente se assemelham: oligopólios consolidados com severas restrições sobre a concorrência na distribuição do livro. Há uma diferença quantitativa, que se transforma em qualitativa, como muitas vezes acontece: a população italiana, embora inclinada a ler tanto quanto a portuguesa, é cerca de seis vezes a população lusitana; portanto, tenho a sensação de que em Itália há mais espaço para os pequenos e médios editores sobreviverem com dignidade; isso é o que também me foi confirmado pelo Dr. Germano Panettieri, diretor editorial da filial italiana da Nova Delphi (http://www.novadelphi.it). Apenas para ter uma ideia, eis alguns dados disponíveis postos online no mês de outubro de 2012 pela associação italiana AIE (http://www.aie.it/), homóloga da APEL:

 

• Títulos publicados: (2010) 57 558; (2011) 63 800 (10,8%);

• Mercado (total) e volume de negócio com base o preço de capa:

- (2010) 3 470 779 mil euros (0,5%);

- (2011) 3 309 713 mil euros (-3,4%);

• Compradores de pelo menos um livro durante o ano de 2011: 22,8 milhões (44% da população com idade acima de 14 anos).

 

Finalmente um desejo: espero que ambos os mundos editoriais, o italiano e o português, com uma língua e uma literatura tão ricas, possam, no futuro, encontrar-se não só para avaliar o que os diferencia e enriquecê-los mas também para descobrir as fundações que partilham e que lhes dão origem.

 

 

 

Francesco Valentini nasceu em Gorizia, Itália, em 1966. Licenciou-se em Direito, área onde exerce até hoje a sua atividade profissional enquanto advogado de negócios internacionais e perito em direito fiscal e comercial internacional. Vive no Funchal, Madeira, com a família desde 1995. Em 1996 partilhou a vida profissional com o ensino em várias universidades. Foi docente dos mestrados em Direito Tributário, Direito da Economia e da Empresa em universidades públicas (Bolonha, Bari, Roma, Lisboa) e organizações privadas (Milão, Roma, Bolonha, Bari). No final de 2009, concretizou um sonho antigo ao fundar uma editora, a Nova Delphi, que tem sede no Funchal e uma filial em Roma. O desafio era, e continuará a ser, conjugar um setor empresarial tradicional com as novas tecnologias e, por outro lado, promover eventos culturais como o Festival Literário da Madeira, que se concretiza em parceria com a Booktailors. Em 2010, traduziu O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa, para a língua italiana, obra publicada em Itália pela Nova Delphi.

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