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Blogtailors - o blogue da edição

Opinião: Tangerina em Bolonha, por Nuno Seabra Lopes

07.06.10
TANGERINA EM BOLONHA,
por Nuno Seabra Lopes (*)

N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER de Maio de 2010.

Planeta Tangerina. Duas palavras coloridas, com quatro caras alegres por detrás — Bernardo Carvalho, Isabel Minhós Martins, Madalena Matoso e Yara Kono —, que, na sua «viagem de negócios» à medieval Bolonha, encantaram os visitantes, pelo segundo ano consecutivo, na principal feira profissional de livros infantis e juvenis do mundo, que decorreu no final de Março.

Apesar da sua curta existência, a editora é já uma referência na ilustração infantil. Vencedora de prémios e menções honrosas nacionais e internacionais (CJ Award, Best Book Design, FIBDA 2009, Melhor Design Infantil e editora revelação dos Prémios de Edição LER/Booktailors, além do Prémio Nacional de Ilustração atribuído a Madalena Matoso e, este ano, a Bernardo Carvalho), começa a assumir uma posição de relevo no mercado internacional.

Se em 2009 a Planeta Tangerina se apresentou «sobre rodas» — leia-se «numa estrutura ambulante» —, este ano surgiu em Bolonha com stand fixo, partilhado com a italiana Topipittori. Tão elogiado quanto concorrido, ostentava uma bandeira nacional desenhada por Bernardo Carvalho.

O expositor não era a sua única marca na feira italiana. Aparecia também no fundo da decoração do stand da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e em outros expositores, particularmente no da coreana CJ Awards.

A Planeta Tangerina sabe o caminho que trilha e investe nele, cria conteúdos comercializáveis no estrangeiro e vê os seus livros vendidos e editados em diversos idiomas. É, pois, um exemplo nacional de qualidade e profissionalismo, que merece ser seguido com atenção.

(*) Nuno Seabra Lopes é licenciado em Estudos Europeus, tem Especialização para Técnicos Editoriais e Mestrado em Estudos Editoriais. Trabalha desde 1999 no sector da edição, sendo Especialista Convidado do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É sócio-fundador da Booktailors e consultor editorial especializado nas áreas da edição e da estratégia.
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Opinião: É a economia, estúpido!, por Paulo Ferreira

04.06.10
É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!,
por Paulo Ferreira (*)

N.E.: Texto originalmente publicado na revista LER de Abril de 2010.

Criar uma editora é algo de relativamente fácil. O mercado da edição não apresenta grandes entraves à partida, não exige elevado investimento inicial e a tecnologia está democratizada. Em poucas semanas, um editor pode estar a comercializar os seus livros. Deixa-se assim implícito que é fácil fazer livros, o que apenas em parte é verdade: há uma enorme diferença entre «fazer» e «fazer bem».

Da mesma forma, é relativamente fácil, de um ponto de vista empresarial, criar uma estrutura editorial (os requisitos burocráticos, legais e administrativos são comuns a muitos outros segmentos de mercado), pelo que, uma vez mais, o maior obstáculo é conseguir manter uma gestão equilibrada e profiláctica das grandes dificuldades do sector de edição de livros, onde o armazenamento e a gestão de stocks assumem uma relevância particular.

Vem este intróito a propósito do «massacre dos livros», tema assim baptizado pela actual ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, pianista com diversas obras musicais gravadas, que se terá indignado com a destruição, por parte do grupo LeYa, de alguns títulos sem potencial de mercado. Segundo a ministra, esses livros poderiam ser oferecidos.

Enquanto leitores, a destruição de livros deixa-nos sempre agastados, e a solução de oferta, numa primeira instância, parece nunca deixar de receber o aplauso de todos. Tudo estaria assim bem, se não fosse este um negócio de concorrência directa e se a responsável em causa não tivesse, ela própria, ignorado que o quadro legal português não permite a oferta sem os custos de pagamento de direitos de autor (cerca de dez por cento), do IVA (cinco por cento) e demais despesas de transporte por parte das editoras. Mais: se oferecerem os seus livros aos PALOP, por exemplo, criam concorrência desleal, na medida em que respondem a necessidades de mercados que dispõem de editores em actividade. Existe ainda a possibilidade de a oferta ser feita a instituições públicas, privadas e de apoio à comunidade, como bibliotecas ou centros sociais. Porém, tendo em conta que essas entidades são clientes das editoras, de que forma conseguirão estas, daí em diante, fazer comércio com aquelas instituições?

No mercado actual, os livros têm aquilo a que se chama «prazo de validade do iogurte», ou seja, depois de produzidos e colocados no mercado, podem ter uma exposição de curtas semanas, logo substituídos pelas novidades seguintes; os exemplares devolvidos (ou nem sequer comercializados) ficam a ganhar poeira nos armazéns dos editores, saindo apenas para vendas directas, sobretudo na Feira do Livro. Obviamente, esta situação implica custos muito elevados na gestão e no armazenamento de stocks. Desta forma, os editores vêem-se forçados a destruir livros e a limitar os custos inerentes. O que o grupo LeYa fez, e diga-se que o que fez é muito comum — serão poucos (ou nenhuns) os editores que não o fazem —, foi tão-só destruir livros sem possibilidade de comercialização. Tratou-se de uma decisão empresarial e não política, devidamente justificada numa perspectiva operacional, com pouco romantismo à mistura. Contudo, o pagamento de salários, rendas, IVA, prestações a fornecedores vários para a feitura do livro e, ainda, impostos ao Estado, tem também pouco de sexy ou glamoroso. É a cultura, mas também é a economia, estúpido.

Se se deve lamentar? Sem dúvida. Mas não podemos esperar que entidades privadas, com obrigações fiscais e financeiras a cumprir, assegurem e mantenham o acesso e a oferta cultural a todos os cidadãos — aquilo que um Estado social e de direito deve ser capaz de cumprir. Se o actual Executivo, na pessoa da ministra da Cultura, considera que se está a assistir a um «massacre», pois então que disponibilize as verbas necessárias para adquirir obras aos editores — e seja o próprio Estado o responsável pela distribuição das obras que considerar relevantes.

(*) Paulo Ferreira é consultor editorial na Booktailors, da qual é um dos fundadores. Com a Pós-Graduação em Edição: Livros e Suportes Digitais da Universidade Católica Portuguesa, co-lecciona actualmente no mestrado de Edição da Universidade de Aveiro a cadeira de Marketing do Livro.
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Opinião: Escrever à vista, desenhar sobre letras (Parte II), por Carla Maia de Almeida

02.06.10
ESCREVER À VISTA, DESENHAR SOBRE LETRAS (parte II),
por Carla Maia de Almeida (*)

[Parte II]

Carla Maia de Almeida (CMA): Não sentes que os livros são deixados ao abandono?
Danuta Wojciechowska (DW): Depois de serem publicados?
CMA: Já nem falo disso, aí é mesmo o abandono total. É como deixá-los na roda e entregá-los aos santinhos… Referia-me ao processo de produção. Nos escritores, há muito a ideia de que já fizeram a sua parte e acabou. Escrevem o texto e desinteressam-se da ilustração. Também não quero criticar isso. Têm esse direito.
DW: Eu achava bonito se nós caminhássemos no sentido de surgir este espaço de conversa entre escritor e ilustrador, cada um especializado na sua área, mas havendo uma boa relação de colaboração. E cultivar esse intercâmbio, que é fundamental.

CMA: E os editores? Sem bons editores não se fazem bons livros.
DW: O editor é outro elemento fundamental nesta parceria. Um bom editor de livros para crianças deve ter sensibilidade para a ilustração, deve marcar posição aí. Aliás, a História pode demonstrar isso. A «idade de ouro» dos livros para crianças, no século XIX, também se deveu em grande parte a um editor como o Edmund Evans… O nosso papel, enquanto autores, é o de valorizar ao máximo o papel do editor. Nas condições de trabalho que podemos criar para o futuro, é fundamental.

CMA: Aí entra a questão dos direitos de autor. Eu sou a favor de que ilustrador e escritor sejam pagos exactamente da mesma forma. Se há adiantamentos para um, também deve haver para o outro. Uma lógica de win-win. Mas aí os ilustradores levam vantagem, porque normalmente conseguem negociar melhor com os editores. Quanto aos escritores, enquanto se acreditar que os livros para crianças se escrevem no intervalo de almoço… não vamos lá.
DW: Também acho que devem ser pagos da mesma forma. É a minha prática. Eu dantes não era considerada como autora. Assinava um contrato, mas era um forfait. Quando comecei a fazer ilustrações de livros para crianças, há dez anos, ainda havia muitos editores que não punham o nome do ilustrador na capa.

CMA: Foi o teu caso?
DW: Não, mas manifestei-me abertamente em relação a isso.

CMA: O que se passou com os prémios da SPA ainda é um reflexo dessa mentalidade. Como é possível que o Prémio Autor de Melhor Livro Infanto-Juvenil [O Tubarão na Banheira] não tenha ido também para o Paulo Galindro, que fez o livro a meias com o David Machado? Tu também ilustraste o livro da Cristina Carvalho [O Gato de Uppsala] e não foste nomeada.
DW: Só fiz a capa. Nesse caso, o texto é que faz a força do livro, não tenho a pretensão de ser co-autora… E acho louvável lançar-se um prémio para valorizar os autores, mas é preciso ter mais cuidado na maneira como se põem as coisas ao lado umas das outras. O livro da Cristina Carvalho não é bem para crianças, ainda que seja colocado nessa secção, só porque tem uns bonequinhos. O Tubarão na Banheira é um livro ilustrado, assim como o do Eugénio Roda e Gémeo Luís [Azul Blue Bleu]. Mas não se podem comparar entre si, porque são livros de categorias distintas.

CMA: Totalmente de acordo. Olha, diz-me só mais uma coisa: tu vives dos livros que ilustras?
DW: Eu sou ilustradora, sou designer, dou aulas, vou a escolas e bibliotecas… Aquela ideia que as pessoas têm: «Ah, tu só fazes ilustração, não é?»
CMA: Não é bem assim.
DW: Mesmo nada. É muito difícil viver só da ilustração de livros, talvez num país como os Estados Unidos, para aquele ilustrador que está bem lançado no mercado, ou então no caso da Lisbeth Zwerger, que só faz um livro por ano… Mas eu gosto da diversidade. Essa possibilidade de contactar com vários aspectos da sociedade e traduzir isso numa linguagem para as crianças é interessante. Também gosto muito de ilustrar jogos. Ficar presa a uma só coisa é redutor, não gosto de becos. Tenho medo de me limitar.

CMA: Não gostavas de te dedicar só à ilustração, se pudesses?
DW: Bem, eu gostava de me reformar e viver numa quinta, com um burro e um limoeiro, mas agora estou aqui, no meio da cidade, não posso fazer nada contra isso.

CMA: Podes fazer mais livros.
DW: Podemos fazer mais livros. É possível ir mais longe se cada pessoa for especializada na sua área e se houver um bom editor pelo meio.

CMA: E, já agora, um bom director de arte.
DW: E um bom leitor. E muita gente a comprar livros. Nós também estamos a trabalhar para que isso seja uma tradição em Portugal. Não é tradição o livro para crianças ser consumido por um público generalista.

(*) Jornalista freelancer, colabora com a LER, Notícias Magazine e Notícias Sábado. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma pós-graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O gato e a Rainha Só, Não Quero Usar Óculos e Ainda Falta Muito?. Escreve sobre livros e não só no blogue O Jardim Assombrado. Nasceu em Matosinhos, a 12 de Janeiro de 1969.
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Opinião: Escrever à vista, desenhar sobre letras (Parte I), por Carla Maia de Almeida

31.05.10
ESCREVER À VISTA, DESENHAR SOBRE LETRAS (PARTE I),
por Carla Maia de Almeida (*)

Estava sem saber do que falar na crónica para o Blogtailors quando me ocorreu telefonar à Danuta. Danuta Wojciechowska, ilustradora e designer de origem canadiana e nome complicado (sei um truque mnemónico, se quiserem explico), a viver e a trabalhar em Lisboa desde 1984. Ganhou o Prémio Nacional de Ilustração em 2003 e já fez livros com uma série de escritores, incluindo Mia Couto, Ondjaki, António Mota e Alice Vieira. Adivinhem qual foi o tema da conversa.

Carla Maia de Almeida (CMA): É difícil trabalhar com escritores?
Danuta Wojciechowska (DW): Não posso generalizar. É uma experiência que muda de livro para livro, até com o mesmo escritor. Uma pessoa cria expectativas e depois acontece uma coisa diferente. Mas isso é o mais fascinante, quando se faz um livro a meias.

CMA: E exigente. Não sei é possível fazer um bom picture book se a relação entre escritor e ilustrador não for minimamente… fluente. Não digo que precisem de ser amigos, mas será possível fazer um bom livro se houver um mau relacionamento?
DW: Talvez só com um escritor morto…
CMA: Sim, pelo menos esses não levantam cabelo.
DW: Mas olha, eu já ilustrei contos do Hans Christian Andersen e foi como se ele voltasse a viver. Quando estava a trabalhar sobre o texto, era como se ele ganhasse vida própria. Isto pode parecer uma coisa um bocado maluca.

CMA: Nem por isso. E alguma vez recusaste ilustrar um livro?
DW: Já.

CMA: Não vamos personalizar. Mas qual foi o motivo, o texto ou a pessoa?
DW: Foi o texto. Há textos que eu começo a ler e vejo logo o que vou fazer, estou dentro; e há outros em que faço um trabalho grande de pesquisa, porque tenho de me transportar para uma realidade que desconheço. Quando se vai estar dez ou 12 horas por dia a trabalhar num livro que alguém escreveu, há que ponderar.

CMA: Visto do lado de cá, digo-te que esse trabalho pode ser um bocado invasivo…
DW: Gostava de te perguntar isso. Quando entregas o livro, sabes que o ilustrador vai ter uma influência enorme. De certo modo, é como se mexesse no texto. O que é que sentes?
CMA: Sinto uma ansiedade enorme. Como é que ele ou ela vai interpretar as minhas palavras? Não é fácil… Ao mesmo tempo, considero que o ilustrador pode ser tão autor como o escritor. Não têm de ser amigos, mas o ideal é que haja uma admiração recíproca. Uma sensibilidade e um respeito pelo trabalho artístico do outro.
DW: Para mim, as melhores soluções ocorrem quando escritor e ilustrador são a mesma pessoa, ou então quando são muito próximos. Por exemplo, o caso do Jean de Brunhoff, que inventou o elefante Babar. Dizem que era a mulher dele quem escrevia. Ou então como o Anthony Browne ou o Peter Sís ou a Marie-Louise Gay, que escrevem e ilustram ao mesmo tempo.

CMA: Acho que esse é o sonho de qualquer autor, ser uma espécie de artista total. Não gostavas?
DW: Gostava. Tenho cadernos cheios de ideias para livros. Ideias, esboços, estruturas, pequenas frases… Quem vem das artes talvez tenha mais capacidade para depois escrever. É mais difícil para quem escreve conquistar o domínio das linguagens pictóricas. De qualquer modo, é raro alguém dominar essas duas valências. Se houver a hipótese de as pessoas caminharem juntas na concepção de um livro em que exista esse tal respeito que tu referes… Confesso que perco um bocado o interesse se o escritor me quer dirigir muito. Perco a motivação. Quero sentir essa liberdade, no que é o meu campo.

CMA: Mas demasiada liberdade também não pode ser desmotivante?
DW: Pode. Eu não gosto de me sentir abandonada com a responsabilidade toda. Não quero que o escritor desapareça e me deixe com a criança nas mãos…
CMA: Percebo-te.
DW: Tem de haver equilíbrio. Da mesma maneira, penso que o escritor também não gostaria que o ilustrador mexesse no texto.
CMA: Não, mas a verdade é que, mesmo sem tocar numa palavra, o ilustrador já está a mexer no texto quando o interpreta por imagens.
DW: Exactamente, ele acrescenta a sua perspectiva.

CMA: Nesse sentido, o escritor fica mais «na mão» do ilustrador. No meu caso, houve alturas em que olhei para as ilustrações e pensei: «Não é isto. E agora, como é que vou dizer-lhe?» É aí que o editor pode desempatar, funcionando como uma espécie de «o juiz decide». Claro que é preciso distinguir o que são preciosismos e vaidades do ego de outras coisas que afectam a linha narrativa e a correspondência entre texto e imagem.
DW: Agora temos mais um elemento em jogo, embora cá em Portugal não apareça muito, que é o director de arte da editora. Normalmente, dá indicações muito importantes para o livro, porque tem mais conhecimentos da área das artes que o editor. Ele vê o livro exactamente como quer vê-lo, mesmo antes de estar pronto.

CMA: E tens de obedecer?
DW: Temos de aprender a lidar com eles, especialmente quando são muito intervencionistas. No caso dos asiáticos, então…

CMA: Como é a maneira de trabalhar dos asiáticos?
DW: Eles mandam o briefing e já têm tudo preparado. Dizem qual é a parte do texto que deve ser ilustrada na página x, podem ir ao ponto de descrever a expressão facial que querem, às vezes até mandam alguns esboços… Os americanos também funcionam muito assim. Até têm uma expressão de que eu não gosto nada: «we will use» ou «we might use your illustrations». É como o aluguer de um serviço. Existe o perigo da redução do papel do ilustrador e o resultado pode ser um produto mais «comestível».

CMA: É uma atitude bastante comercial.
DW: Sim, mas como depois aquilo é muito bem pago, há uma elevação do trabalho, há um diálogo que é recompensado. Essa parte é muito importante. Infelizmente, não é o que se passa em Portugal.

CMA: O mercado está a nivelar por baixo?
DW: A tendência é essa. E seria bom conseguir fugir dessas pressões e criar condições para que pudessem surgir livros originais, especiais.
CMA: «Os livros que ressoam», como diz a Cristina Taquelim, da Biblioteca de Beja. Gosto muito dessa expressão.


(*) Jornalista freelancer, colabora com a LER, Notícias Magazine e Notícias Sábado. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma pós-graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O gato e a Rainha Só, Não Quero Usar Óculos e Ainda Falta Muito?. Escreve sobre livros e não só no blogue O Jardim Assombrado. Nasceu em Matosinhos, a 12 de Janeiro de 1969.
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Opinião: «Companheiro, amigo, palhaço, deste circo que é a vida», por Pedro Bernardo

28.05.10
«COMPANHEIRO, AMIGO, PALHAÇO, DESTE CIRCO QUE É A VIDA»,
por Pedro Bernardo (*)

Mais um ano, mais uma polémica. A Feira do Livro parece ter o condão de dar sucessivos tiros no pé, não importa para onde aponte. A organização parece também não ser capaz de traçar um rumo, cumpri-lo (e fazer cumpri-lo). O episódico fecho semanal mais cedo e a rábula «feira à chuva», com ordem (e comunicação ao público) de encerramento-que-afinal-já-não-é-porque-há-quem-não-cumpra, não prestigia a direcção da Feira e transmite uma ideia de bandalheira. O prolongamento, com pretextos anedóticos, começa a ser norma: a chuva, o Benfica campeão, meu Deus!, e, para não invocar o nome do Senhor em vão, a visita de Sua Santidade. Tudo serve para prolongar a facturação, que corria de feição, haja rolos.

Entretanto, dos atropelos à lei do preço fixo nos livros do dia, a organização não quer saber; da relação com os livreiros, companheiros e amigos no resto do ano, mas palhaços durante a Feira, também não, embora haja vozes que se insurgem contra isto (Booksmile, Antígona e Assírio & Alvim, honra lhes seja feita). É certo que, se os pequenos livreiros invocam este período em que não facturam como crucial para a sua existência, então provavelmente deveriam reequacionar o seu negócio. Mas também é verdade que o espírito com que a Feira foi concebida — apresentação ao público de fundos, que entretanto desapareceram do mercado — tem vindo a ser sistematicamente pervertido, com a conivência de quase todos e para conveniência de muitos. A rede livreira é parte essencial do sector, e as práticas de sã concorrência deveriam imperar.

Ciclicamente erguem-se vozes a perguntar por que razão coexistem na mesma associação entidades com interesses diferentes, embora complementares; outros perguntam o que faz a APEL em prol dos seus associados para além de lhes cobrar quotas e mais uns milhares pela inscrição no evento que organiza actualmente; outros ainda perguntam porque não tem cursos de formação profissional para as várias actividades que caem na sua alçada. Os mais cépticos perguntam para que serve. Os mais cínicos chamam a atenção para o facto de o ponto alto da actividade do sector ser a apresentação do seu produto a preço de saldo em barraquinhas. Os mais estóicos aguentam.

(*) Pedro Bernardo, licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é director editorial de Edições 70, tendo ainda a seu cargo a produção da mesma editora, onde desempenha funções desde 2000. No seu percurso profissional, foi também tradutor e revisor.
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Opinião: O ponto e o contraponto - concentração vertical no mundo editorial: as consequências (Parte II), por Nuno Pinho

26.05.10
O PONTO E O CONTRAPONTO — CONCENTRAÇÃO VERTICAL
NO MUNDO EDITORIAL: AS CONSEQUÊNCIAS (parte II),
por Nuno Pinho (*)

[Parte I]

Porto Editora: grupo de editoras/rede de retalho Wook e Bertrand/revista LER/Wook
LeYa: grupo de editoras/rede de retalho CE/revista Os Meus Livros/Mediabooks

Quais são as consequências desde agigantar de empresas já de si muito destacadas no panorama editorial? Em primeiro lugar, os restantes grupos editoriais diminuem sem nada fazerem. O recente grupo Babel, que entrou com tanta ambição no panorama editorial, parece subitamente mais pequeno, mesmo após ter adquirido/criado uma série de chancelas. Poderá ter dificuldades acrescidas na sua estratégia. O mesmo é válido para a rede de retalho Almedina (grupo onde trabalho) ou para editoras de dimensão já elevada, como a Presença ou a Civilização.

As redes de livrarias/hipermercados sofrerão uma pressão maior destes grupos, que agem de forma cada vez mais profissional (ambos trabalham com agências publicitárias, tendo a Porto Editora feito mesmo um recente rebranding) e poderão negociar melhor os descontos «de factura». Inversamente, poderão não só piorar as condições de entrada para as restantes editoras, como ocuparão uma percentagem ainda maior do espaço disponível nas lojas (estima-se que os dois grupos poderão ocupar mais de dois terços do espaço disponível), potenciando uma espiral de concentração que se auto-alimenta. Como mudará o negócio, por exemplo, no mundo das gráficas? Relembre-se que a PE tem bloco gráfico próprio, enquanto a Bertrand recorria ao outsourcing.

Em suma, o recente movimento de concentração editorial vertical terá certamente consequências profundas para o mercado editorial, ainda que nem sempre visíveis à superfície. Gostaria de deixar claro que estas movimentações são legítimas e até expectáveis, mas não podem deixar de ser assinaladas e analisadas. Como pode o resto do mercado responder e reagir? Isso daria outra conversa, que estará decerto na boca de muitos editores durante o próximo ano. Não se distraiam com o iPad: o futuro da edição passa por aqui.

(*) Nuno Pinho é secretário editorial no grupo Almedina e leitor insaciável, estando a terminar um mestrado em Estudos Editoriais na Universidade de Aveiro, após uma curta passagem pela Fnac.
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Opinião: O ponto e o contraponto - concentração vertical no mundo editorial (parte I), por Nuno Pinho

24.05.10
O PONTO E O CONTRAPONTO — CONCENTRAÇÃO VERTICAL
NO MUNDO EDITORIAL (parte I),
por Nuno Pinho (*)

De uma forma talvez menos espectacular, mas igualmente importante, estamos a assistir à entrada numa nova fase evolutiva do nosso mercado editorial. Nos anos 1990, deu-se o aparecimento das redes livreiras e a emergência dos hipermercados como pontos de venda. Em anos recentes, uma espécie de resposta chegou através do movimento de concentração editorial protagonizado com grande alarido pela LeYa, mas não com menos eficácia por parte da Porto Editora (quantos deram pela aquisição da Sextante?).

Com o retalho livreiro num relativo impasse, cabe aos grupos editoriais tentar novamente desequilibrar este jogo de forças. Abriu-se uma nova fase de concentração, mas agora a nível vertical. Enquanto inicialmente o sentido do crescimento deu-se dentro de uma área do negócio (uma livraria que abre/compra mais livrarias, uma editora que cria ou adquire novas chancelas), os dois grandes grupos editoriais portugueses expandem-se agora ao longo de toda a cadeia de valor da indústria, da concepção dos livros à venda e comunicação.

Passo a exemplificar. Do lado da LeYa, assistimos a uma expansão para o retalho, via parceria com a rede de 17 livrarias da Coimbra Editora (e subsequente aquisição da Buchholz). Para além de adquirir espaço privilegiado nestas livrarias, a LeYa conta ainda ajudar a CE a abrir novas livrarias em pontos-chave, particularmente na área da Grande Lisboa. Por outro lado, assistimos ao regresso relâmpago da revista Os Meus Livros, nem mais nem menos adquirida pelas livrarias da CE (note-se, no entanto, que, segundo José da Ponte, director da rede livreira da CE, não existem «quaisquer ligações entre a revista e a parceria estabelecida entre a editora e o grupo LeYa»). O resultado? Uma importante revista de divulgação dos livros na posse de uma empresa editorial, como aliás é visível pelo simples folhear da revista. Não há aqui um problema de transparência: é o próprio director da revista que afirma em editorial «uma revista com estas características é um aliado importante para uma rede de livrarias», mas trata-se de um passo que poderá desequilibrar a relação de força das editoras no acesso à divulgação das suas obras. Note-se, por exemplo, que o departamento de publicidade passa a estar a cargo da CE, como se pode verificar na ficha técnica. Finalmente, a LeYa/CE estarão a desenvolver uma loja on-line, provavelmente relançando a Mediabooks (o sítio Web é gerido pela TexEdiPrint, uma empresa do grupo LeYa).

A Porto Editora, continuando a primar pela eficácia, cresceu ainda mais. A aquisição do DirectGroup Portugal é tão massiva que terá de ser aprovada pela Autoridade da Concorrência. Depois de se ter queixado do «estrangulamento» que as redes livreiras impunham às editoras, o Eng.º Vasco Teixeira vai ficar com a maior cadeia de livrarias e com duas marcas, Wook e Bertrand (questão: sobrevivem as duas?). Sabendo-se das dificuldades da Bertrand, é de admitir ajustamentos dolorosos para esta referência histórica do nosso mundo livreiro. Mas com a Bertrand vêm editoras e o Círculo de Leitores, o que reforçará ainda mais a presença da PE fora do mercado escolar. Prevê-se um processo mais suave que durante as aquisições da LeYa, mas quem ousará agora dizer que os grandes grupos não percebem nada de livros?

As declarações abaixo reproduzidas, feitas pelo responsável da PE, não poderiam ser mais claras:

«Somos o contraponto da LeYa, na medida em que somos o único grupo editorial de raiz portuguesa com origem no sector», afirma Vasco Teixeira. «A LeYa está transitoriamente na edição e, mais cedo ou mais tarde, vai ser vendida a alguém que, provavelmente, será estrangeiro» (JL, 06-05-2009).

Mas a LeYa não foi vendida e desafia a PE como maior grupo editorial nacional, como se pôde ver pela discussão recente sobre o volume de negócios de ambos os grupos. Não se prevê que a «guerra» acabe, pelo contrário. Via Bertrand, a PE entra também no ramo da divulgação, tornando-se à partida (caso o negócio seja aprovado) dona da revista LER. Se neste número da revista, que sempre teve uma presença forte do grupo Bertrand (o que é natural), ainda não há mudanças na ficha técnica (apenas alterações gráficas bem agradáveis), estamos em crer que a PE não vai deixar de aproveitar a oportunidade para dinamizar a comunicação dos seus livros. Quanto ao on-line, a PE continua a dar cartas neste domínio, estando muito avançada no mercado escolar, com o projecto Escola Virtual e os quadros interactivos. Tem ainda a maior livraria on-line nacional, a Wook, que conta com 12 milhões de visitas por ano (segundo números avançados no recente colóquio de Gestão Editorial em Coimbra). Sabemos que é da natureza dos grandes grupos procurar sinergias e reduzir ineficácias, para usar o jargão da gestão. Com mais ou menos sensibilidade, as mudanças serão inevitáveis.

[Continua]

(*) Nuno Pinho é secretário editorial no grupo Almedina e leitor insaciável, estando a terminar um mestrado em Estudos Editoriais na Universidade de Aveiro, após uma curta passagem pela Fnac.
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Opinião: O futuro dos livros e das bibliotecas (Parte III), por Carlos Fiolhais

21.05.10
O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS (parte III),
por Carlos Fiolhais (*)

N. E.: texto publicado originalmente no blogue De rerum natura
, correspondente à intervenção de 15 de Abril no Colóquio sobre Gestão Editorial, organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra:


Claro que uma coisa é a existência digital na Internet e outra o respectivo acesso. Estar na Internet não significa que seja grátis, e estou convencido que terá de haver cada vez mais pagamento de custos de acesso ao digital que não seja simplesmente a favor da operadora telefónica: também pagamos a electricidade não só a quem a transporta mas também e principalmente a quem a produz. Sei bem que esta questão do copyright é polémica — é conhecida a oposição aos projectos da Google de alguns editores e autores, mas estou em crer que é necessário encontrar um novo equilíbrio entre o necessário reconhecimento da criatividade e o direito da comunidade ao acesso ao património. Um editorial recente da revista The Economist, por ocasião dos 300 anos da lei do copyright britânica, vai precisamente nesse sentido, lembrando que os prazos de reivindicação de direitos eram à época muito menores do que hoje. Mas não é fácil concretizar um esquema justo de pagamento, sem ao mesmo tempo permitir a liberalização da cópia, que a tecnologia tornou demasiado fácil.

Com o cut and paste indiscriminado feito a partir da Internet, ao qual dificilmente será posto cobro (a escola portuguesa não só não o enfrenta como até o incentiva!), o papel das bibliotecas terá de ser sempre o da salvaguarda das obras e dos autores originais, para além de ajudar na educação que cada vez se revela mais necessária para encontrar o ouro no meio de muita, mesmo muita ganga. Há ideias novas a pôr em prática. Uma delas é a instituição do depósito digital. O depósito legal é uma instituição em muitos países desde há muito tempo, que consiste em garantir a guarda para memória futura e acesso público de pelo menos uma cópia de uma publicação em papel (livros, revistas, jornais, etc.). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a mais antiga biblioteca pública portuguesa (em 2013 fará 500 anos), é beneficiária desde há quase um século do depósito legal. Ora, parece que ainda ninguém se lembrou que hoje todos os livros, revistas ou jornais que se imprimem começam por existir em forma digital, pelo que, se o que está em jogo é a preservação e o acesso aos conteúdos, faz todo o sentido iniciar um depósito electrónico generalizado, de forma a que não prejudique os direitos de autor. Não se trata apenas de fazer cópias digitais da Internet, ou de domínios dela (o que decerto é não só viável como útil), pois há muita informação, digital ou não, que não está na Internet. Mas sim de criar uma nova biblioteca, uma biblioteca mundial, de onde pudessem ser feitas consultas e transferências, de uma maneira que há obviamente que regular. Os direitos de autor deveriam continuar a ser reconhecidos e os autores devidamente recompensados. O que não faz muito sentido, na minha opinião, é criar um documento digital, materializá-lo em papel e, mais tarde, se se quer um documento em forma digital, ter de o digitalizar. O depósito legal foi uma criação dos estados, naturalmente ciosos das suas línguas e das suas culturas. É por isso que hoje há grandes bibliotecas nacionais, como a do Congresso dos Estados Unidos, a maior do mundo, e não há grandes bibliotecas internacionais. Mas poderia haver um depósito digital verdadeiramente internacional, uma biblioteca mundial, que poderia chamar-se «Biblioteca de Babel». No mundo global em que vivemos, um depósito digital não pode nem deve ser apenas nacional. O Projecto Gutenberg de disponibilização on-line de obras que não têm direitos de autor aponta nesse sentido. O open access, o movimento em curso no sentido de liberalizar o acesso a criações científicas (e que está na base do «Estudo Geral»), vai também nesse sentido, o de facultar a todos o máximo do saber humano, pois, como disse o astrofísico norte-americano Carl Sagan, o «destino do homem é o conhecimento». A «Biblioteca de Babel» inteiramente digital é uma utopia ao nosso alcance, pois é viável tecnologicamente, assim haja vontade política para isso. Será um projecto mais para uma organização internacional como as Nações Unidas do que para uma empresa multinacional, como a Google, mas poder-se-á pensar numa parceria entre público e privados. A ideia da «Biblioteca de Babel» não é original, pois já o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu um conto com esse mesmo título, com a diferença de que a biblioteca borgiana era excessivamente grande: tinha tudo o que já se escreveu e se pode algum dia vir a escrever, em qualquer língua do mundo, quando eu me contentaria com tudo o que já algum dia se escreveu, de forma organizada e para ser divulgado. É difícil conceber a mudança que poderia resultar, nas nossas vidas, do facto de termos acesso a esse repositório imenso de saber e de sonho, de conhecimento e de imaginação!

Lembro que a história de Babel vem na Bíblia, no Génesis: os homens, que formavam uma comunidade de uma só língua, tentaram fazer um edifício que chegasse a Deus, e este, furioso, destruiu-o dispersando a humanidade em comunidades de várias línguas. A «Biblioteca de Babel», na linha do que disse Keith Richards, é uma das formas, talvez a melhor forma, de o homem, tal como no mito bíblico, aspirar à omnisciência, isto é, aspirar a uma das qualidades de Deus.

(*) Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
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Opinião: O futuro dos livros e das bibliotecas (Parte II), por Carlos Fiolhais

19.05.10
O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS (parte II),
por Carlos Fiolhais (*)

N. E.: texto publicado originalmente no blogue De rerum natura
, correspondente à intervenção de 15 de Abril no Colóquio sobre Gestão Editorial, organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra:


E qual será o futuro das bibliotecas, que foram desde tempos imemoriais os sítios onde se depositaram os livros para ficarem à disposição de todos? Nunca é de mais elogiar o papel das bibliotecas. Saiu nas notícias recentemente que Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones, sempre quis ser bibliotecário. O segredo é revelado na sua autobiografia, Life, a sair em Outubro. Nela Richards revela que, como uma criança e jovem nos anos 1950 em Londres, encontrou refúgio nos livros e nas bibliotecas antes de descobrir a música. Declarou: «Quando somos jovens, há duas instituições que nos afectam fortemente: a igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca, que te pertence.»

As bibliotecas começaram por ter catálogos electrónicos, para passarem a ter livros electrónicos (digitalizando livros antigos ou modernos, como faz a Google, ou arquivando livros electrónicos de raiz, como acontece com os repositórios digitais de teses e de outros trabalhos científicos). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) e a Imprensa da Universidade de Coimbra têm acordos com a Google para digitalização das suas edições próprias, e a Universidade de Coimbra, através do seu Serviço Integrado de Bibliotecas (SIBUC), disponibiliza urbi et orbi o Estudo Geral, repositório de obras modernas, com cerca de 8000 itens, e a Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra, repositório de obras antigas, com cerca de 5000 itens. De certo modo, a rede mundial de computadores que temos hoje é já uma gigantesca biblioteca, que inclui numerosas bibliotecas virtuais e tudo o resto a que também, com alguma boa vontade, se poderá chamar biblioteca. As bibliotecas modernas são híbridas — espaços inspiradores guardando e mostrando livros tradicionais em papel que importa preservar e, ao mesmo tempo, sítios no ciberespaço, permanentemente acessíveis, com e sem fios (por exemplo, com smartphones). A Biblioteca Joanina não perde o seu poder encantatório por parte dos seus livros (infelizmente ainda pequena) estarem na Net. O movimento imparável é no sentido de digitalizar tudo o que não foi criado em forma digital. Existem os meios técnicos para isso, e Portugal está muito atrasado neste domínio (porque não está todo o Eça de Queiroz acessível digitalmente?), pelo que terá rapidamente de recuperar esse atraso, por meio de um grande esforço nacional e transnacional: por que não envidar esforços sérios com o Brasil e outros países de língua portuguesa para aumentar a presença da nossa língua na Net? Estou, neste domínio, optimista: aquilo que se pode fazer vai ser feito, até porque neste caso há muito para fazer e é bom que se faça…

As vantagens das bibliotecas digitais são óbvias, desde logo a concentração no espaço e a rapidez de acesso. Os físicos e os engenheiros resolverão os problemas técnicos dos suportes magnéticos de longa duração, transferindo a informação em bits dos suportes que se vão tornando obsoletos e resolverão também os problemas da comunicação, que só não é instantânea porque há o limite da velocidade da luz. A nanotecnologia virá ajudar, com a criação de dispositivos minúsculos que armazenem informação gigantesca — talvez numa folha de papel possa caber toda a Biblioteca Joanina. Lembro que a ideia de nanotecnologia foi lançada em 1959 pelo físico norte-americano Richard Feynman («Há muito espaço lá em baixo») que pretendia nada mais nada menos do que colocar os 24 volumes da Enciclopédia Britânica na cabeça de um alfinete e verificou, fazendo as contas, que era possível colocar todos os livros do mundo num minúsculo grão de poeira. Parafraseando William Blake: «all the books in a grain of dust


(*) Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
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Opinião: O futuro dos livros e das bibliotecas (Parte I), por Carlos Fiolhais

17.05.10
O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS (parte I),
por Carlos Fiolhais (*)

N. E.: texto publicado originalmente no blogue De rerum natura
, correspondente à intervenção de 15 de Abril no Colóquio sobre Gestão Editorial, organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra:

A Internet mudou as nossas vidas. Mudou, por exemplo, os livros e as bibliotecas. Mas ainda não é muito claro, porém, o modo como vão evoluir o livro e as bibliotecas com a revolução digital em curso. Certo é que estão a evoluir e que irão evoluir mais.

Os livros mantiveram-se em papel (publicam-se aliás cada vez mais, em Portugal é um em cada meia hora!), mas apareceram também em versões digitais, e-books — de alguns livros há só mesmo em versões digitais —, que, em vários formatos, podem ser lidas por vários dispositivos dos quais ainda não existe um standard (há o Kindle, por exemplo, que já se vê muito nos Estados Unidos, e há recentemente o iPad, que elimina o teclado e rato, mas cujo futuro se desconhece). A vantagem dos livros digitais é óbvia: a de evitar o «insustentável peso» do papel (as árvores e o clima agradecem!), a possibilidade de encontrar rapidamente uma passagem que se quer, etc. Os meus alunos, por exemplo, já estudam por PDF que guardam nos seus portáteis ou netbooks, qualquer dia será nos seus telemóveis. Os inconvenientes do digital, para além da dificuldade, permitida pela cópia rápida e barata, de reconhecer e recompensar devidamente os autores e editores, são também óbvios: um livro é um objecto material com um design tão perfeito para cumprir a função que desempenha, que, na minha opinião, nunca será inteiramente substituído. Também a roda, uma vez inventada, nunca mais veio a ser substituída. O livro cabe na mão, acompanha-nos a qualquer lado, funciona de modo low-tech (nunca avaria!). É um bom presente para se dar a alguém, isto é, passa bem de uma mão a outra. Por alguma razão não houve ainda nos livros a revolução que houve na música, com o quase desaparecimento das lojas de discos em favor das transferências digitais. Estou convencido de que, no futuro, haverá a coexistência de livros em papel e livros digitais, com algum natural crescimento destes últimos nos próximos tempos. Soluções como a Classica Digitalia, publicada pelo Centro de Estudos Clássicos de Coimbra com o apoio da Imprensa da Universidade, em que os livros aparecem simultaneamente on-line em papel são augúrios do futuro. O print on-demand, permitido por máquinas como a Expresso Book Machine e outras, será uma realidade, pois não há tecnicamente nenhuma razão para não fornecer qualquer livro, mesmo esgotado ou mesmo nunca antes publicado em papel, a alguém que o queira e que esteja disposto a pagar os custos da respectiva materialização e outros. Passar do digital ao analógico em papel será conveniente, será mesmo necessário nalguns casos. Mas uma certa confusão entre suporte magnético e suporte em papel poderá vir a existir: cientistas como a portuguesa Elvira Fortunato querem — e conseguem — fazer transístores no papel. Se a ideia vingar, os ecrãs poderão ser tão flexíveis como o papel, apesar de terem uma imagem tão renovável como os ecrãs de cristais líquidos. «O futuro do livro é bom», como disse o escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, que acrescentou logo a seguir, «pois sempre vai existir o livro, ainda que noutra forma». O mais fantástico será se o livro existir de outra forma na mesma forma!


(*) Nasceu em Lisboa em 1956. Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra em 1978 e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt/Main, Alemanha, em 1982. É professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos.
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