Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Blogtailors - o blogue da edição

Diário de Um Pinguim — Capítulo 2 E assim nasceu um pinguim…

16.09.14

Ele só queria um livro de jeito para ler no comboio.

 

Parece mentira, mas foi precisamente essa a razão que levou Allen Lane a fundar a Penguin em 1935. Lane era então o diretor da Bodley Head, uma editora inglesa que publicava principalmente livros académicos, ou de cariz mais intelectual, mas publicava também alguns autores mais populares, como Agatha Christie.

 

Ao regressar de uma visita a casa de Christie em Devon, enquanto esperava pelo comboio de regresso a Londres, Allen Lane quis comprar um livro para ler na viagem. No entanto, ao examinar a seleção oferecida na tabacaria da estação, ficou horrorizado com a falta de qualidade dos livros disponíveis e teve um momento de revelação: apercebeu-se de que não existia literatura de qualidade produzida a um preço acessível ao público comum.

 

Até então, havia uma linha bem demarcada praticada por todas as editoras. Por um lado, a literatura contemporânea de qualidade, que era exclusivamente dedicada às classes dominantes e abastadas – uma vez que, na opinião da elite literária da época, tal tipo de livros só poderia interessar e ser compreendido por um leitor com educação e bom berço. Estes livros só existiam em edições luxuosas, com capas forradas a cabedal, disponíveis a preços elevados em livrarias tradicionais ou então em bibliotecas, que eram exclusivamente frequentadas pela elite académica. No extremo oposto, existiam os romances de cordel ou de aventura, com um conteúdo tão barato como o papel em que eram impressos. Era esse tipo de livro que as editoras acreditavam interessar às «massas populares», e por isso não viam motivo para entrecruzar os dois mundos. Até àquela tarde na plataforma da estação de Exeter.

 

Allen Lane, pelo contrário, acreditou que a maioria das pessoas estaria interessada em literatura contemporânea de qualidade. E apostou tudo nessa convicção. Foi assim que surgiu a Penguin e os primeiros livros de bolso. Custavam o mesmo que um maço de tabaco (era até esse o slogan publicitário utilizado pela editora) e eram vendidos em todo o lado: tabacarias, estações de comboio e drogarias. Os primeiros livros de bolso da Penguin surgiram no verão desse ano, 1935, e incluíam autores como Ernest Hemingway, Agatha Christie e André Maurois. Tinham um design facilmente identificável (e que se tornou icónico) e apresentavam cores diferentes dependendo da categoria: cor de laranja para livros de ficção, azul para biografias, verde para policiais.

 

Imagem retirada daqui.

 

Esta decisão corajosa e visionária alterou irreversivelmente a forma como o público encarava os livros: deixaram de ser mais um dos muitos elementos que separavam as diferentes classes sociais, e passaram a ser um fator nivelador dessas mesmas classes e uma forma de o público aceder ao conhecimento e à educação independentemente das suas origens e poder económico. Revelou ser também uma decisão lucrativa: só no primeiro ano, a Penguin vendeu três milhões de livros de bolso. Durante a Segunda Guerra Mundial, os livros de bolso da Penguin eram muitíssimo cobiçados, uma vez que cabiam perfeitamente no bolso da frente das fardas dos soldados, e a editora viveu um período de crescimento fulgurante, apesar do racionamento de papel. Graças à aposta nos leitores, ao design icónico, simples e irreverente, e ao investimento na qualidade e talento dos autores, a Penguin é, até hoje, uma das editoras mais bem-sucedidas e mais adoradas no mundo inteiro.

 

Fazer parte de uma editora com este historial é profundamente gratificante, e traz também consigo uma responsabilidade acrescida: a de tentar fazer justiça a uma figura que alterou para sempre o mundo editorial e que deu início a uma revolução literária talvez só comparável à que está a acontecer agora com o advento dos e-books.

 

Atualmente, a Penguin procura perpetuar o mesmo espírito empreendedor de Allen Lane publicando a maior parte dos livros em todas as plataformas disponíveis (capa dura em formato grande, capa mole em formato pequeno, e-book, audiolivro, e até como app, nalguns casos). A tecnologia e as plataformas podem ter evoluído desde aquele dia na plataforma da estação de Exeter há 80 anos, mas o princípio de tornar todo o tipo de livros acessível ao maior número de pessoas continua o mesmo: o princípio de democratizar o acesso à literatura.

 

Fotografia de Allen Lane. Retirada daqui.

 

 

 

 

Rita Matos é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, vertente de Inglês e Francês, e concluiu o curso de especialização para Técnicos Editoriais, ambos na FLUL. Trabalhou em tradução para audiovisuais durante um ano antes de ir viver para Inglaterra, em 2004. Trabalhou três anos na Blackwell Publishing, em Oxford, e trabalha há seis anos na Penguin, em Londres, na área de Produção. Pretende regressar a Portugal e trabalhar numa editora portuguesa.

-

A Booktailors já está a divulgar a sua oferta formativa para o 2.º semestre de 2014: Escrevi uma história para crianças. Como posso melhorá-la? - nível inicial, Curso de Livro Infantil, Curso de Revisão de Texto - nível inicial.

1 comentário

Comentar post