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Blogtailors - o blogue da edição

Entrevista Booktailors: Jerónimo Pizarro

26.02.14

 

Jerónimo Pizarro é um dos mais jovens e promissores investigadores da obra de Fernando Pessoa. Foi, em 2013, comissário da presença portuguesa na Feira Internacional do Livro de Bogotá, tendo sido posteriormente condecorado pelo Presidente da República com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Também em 2013, o colombiano, que adquiriu nacionalidade portuguesa, recebeu o prémio Eduardo Lourenço. Acerca de Pizarro, o filósofo terá afirmado que este se tornou o «mais jovem dos heterónimos pessoanos». O investigador explica porquê.

 

Disse numa entrevista que o seu deslumbramento foi sempre a literatura portuguesa. O que tem de específico e especial a literatura portuguesa?

Não posso caracterizar a literatura portuguesa na sua totalidade sem ser injusto. É uma das perguntas a que tentei fugir durante a FILBo 2013, em que Portugal foi o país convidado de honra. Mas o esplendor verbal dessa literatura, que só se faz maior desde que há mais países lusófonos, e a capacidade de ser marcante desde a periferia (porque até José Saramago, em Lanzarote, e Jorge Amado, na Bahia, foram algo periféricos), é notável. Contudo, também poderíamos afirmar, fugindo às caracterizações, que nao há literaturas mas a literatura, como um todo; e, se for assim, devo dizer que muitos nomes portugueses conformam o que, para mim, leitor de autores de muitas tradições, é a literatura, ou melhor, os livros que mais me interessa reler, traduzir, discutir, revisitar, adaptar, etc.

 

Na Universidade dos Andes, onde ensina literatura portuguesa, ensina outros autores portugueses. Esqueçamos por instantes Fernando Pessoa: que outras referências da literatura portuguesa tem?

Novamente não quero ser injusto, e todos temos preferências. Mas tenho uma inclinação profissional pelo século XX e gostaria de ter o tempo para me perder por anos na vida e na obra de certos autores: Pessoa pode ser um labirinto, mas também o Almada ou o O’Neill. E para já espero homenagear, a partir da academia, muitos dos autores que admiro. As minhas traduções denunciar-me-ão... Já traduzi Ana Pessoa e José Eduardo Agualusa, por exemplo. Estou a traduzir Carla Maia de Almeida… E faltam-me planetas inteiros da Planeta Tangerina e de outras editoras que merecem todo o nosso reconhecimento.

 

Declarou um dia querer traduzir obras como O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, e O que diz Molero, de Dinis Machado. Porquê estas obras? E que outras gostaria de traduzir?

Eu gostaria de traduzir todas as obras que me transportaram para uma nova realidade que ainda não esqueço durante umas horas ou dias; e essas fizeram-no com uma força invulgar. Quero crer que antes de escritores somos leitores, e a minha bússola são as minhas leituras. Na lista de traduções futuras ainda estão muitos poetas, entre eles José Tolentino Mendonça. Há dias em que eu gostaria de ser uma editora e que a minha obra fosse o meu catálogo: esse é o sonho de todo o grande editor…

 

Além de José Saramago, o que ficaram mais a conhecer os colombianos da literatura portuguesa depois da Filbo — Feira Internacional do Livro de Bogotá 2013?

Essa é uma «pergunta capciosa». Responderia que todos os autores convidados e traduzidos: Júdice, Amaral, Peixoto, Almeida, Carvalho 1, Carvalho 2, Letria, Pina, Cruz, Moura, e assim sim nomes, com dois números e esquecendo muitos outros… Preocupa-me mais definir os que ainda não são conhecidos. Faltam muitos.

 

Numa conferência na Universidade de Coimbra, falou na «tentação do abismo» presente na obra pessoana. É aí que reside o fascínio universal pela obra do poeta?

Fernando Pessoa cada dia será mais ninguém, como todos nós depois de desaparecermos. Ontem reli um poema de Pessoa que um dos meus alunos adora e quer pendurar na porta do seu quarto («Se te queres matar, porque não te queres matar?»):

 

Só és lembrado em duas datas, anniversariamente:

Quando faz annos que nasceste, quando faz annos que morreste.

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no anno pensam em ti.

Duas vezes no anno suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se falla em ti.

 

Com a passagem do tempo, Fernando Pessoa será mais um símbolo e duas datas do que o homem que foi; e somos nós e as gerações futuras que ocuparemos esse «coração de ninguém».

 

Está a constituir-se, na Universidade de Coimbra, um arquivo digital sobre o Livro do Desassossego. Numa entrevista, afirmou que os arquivos físicos por explorar dos autores conferem mais «densidade» aos textos. Como é que o físico e o digital se articulam no seu trabalho de crítico textual?

Para mim a literatura está perante duas vidas: a das humanidades tradicionais e a das humanidades digitais. E todos os autores deviam ter uma vida dupla, em papel e em ecrã. Nas bibliotecas «reais» continuaremos na Idade da Pedra, mais tangível; nas bibliotecas «virtuais» na Idade da Nuvem, mais intangível. E temos de tender, mais e mais, a ter essas duas vidas e a fornecer essas duas vidas a certos autores, Nenhuma editora parece hoje capaz de publicar o espólio completo de Fernando Pessoa; cada uma quer partes, e o resto podia ficar na net. 

 

Venceu a 9.ª edição do prémio Eduardo Lourenço, e terá sido este filósofo a afirmar que se tornou o «mais jovem dos heterónimos pessoanos». Sente-se heterónimo?

Sinto-me um autor fictício de Pessoa, sim, como todos os seus leitores, editores, críticos e tradutores. Pessoa inventa-nos; nós inventamos Pessoa. O múltiplo multiplica-se… Lourenço foi um dos primeiros — e também mais jovens — heterónimos pessoanos há algumas décadas. E muitos mais hão de vir.

 

Disse não saber se teria «uma porta de saída» depois de ter entrado no espólio de Fernando Pessoa. Pensa se quer devotar toda a sua investigação ao autor?

Nao, isso está claro: não quero. A minha investigação académica nunca poderá ser pessoana apenas; e a humana também não. Simplesmente Pessoa deixou um espólio para milhares de anos e pessoas, e sei que esse espólio é muito mais vasto do que os anos que eu ainda possa viver. Darei um contributo, uma série de contributos, e pouco mais.

 

A imagem que temos hoje de Fernando Pessoa pode vir a mudar com aquilo que está por descobrir no espólio?

Com certeza, até porque, se não mudar, vamos aborrecer-nos muito. Já não consigo reler certos versos e certas linhas…

 

Se tivesse oportunidade, que pergunta faria a Fernando Pessoa?

Outra pergunta que costumo elidir; nem sei o que perguntaria à minha avó se a reencontrasse um dia… Mas talvez lhe perguntasse se já leu alguma da bibliografia publicada depois de 1935… Gostaria de ver o seu sorriso.

 

 

© Jerónimo Pizarro

 

Jerónimo Pizarro é professor da Universidade dos Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e doutor pelas Universidades de Harvard (2008) e de Lisboa (2006), em Literaturas Hispânicas e Linguística Portuguesa. No âmbito da Edição Crítica das Obras de Fernando Pessoa, publicadas pela INCM, já contribuiu com sete volumes, sendo o último a primeira edição crítica de Livro do DesasocegoPizarro coordenou ainda duas novas séries da Ática (1. Fernando Pessoa | Obras; 2. Fernando Pessoa | Ensaística). Em 2013, assumiu funções de comissário da presença portuguesa na FILBo – Feira do Livro de Bogotá (Colômbia) e foi distinguido com o Prémio Eduardo Lourenço. Em abril do mesmo ano, foi agraciado pelo presidente da República com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Já em 2013, editou Eu Sou Uma Antologiae uma nova edição do Livro do Desassossego (Tinta da China). Jerónimo Pizarro é um autor Bookoffice.

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