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Blogtailors - o blogue da edição

Reportagem Blogtailors: Fyodor Books

21.05.14

Contra as expetativas formadas em tempos de crise, abriu na Baixa de Lisboa, em setembro de 2013, a Fyodor Books, uma livraria alfarrabista que pratica uma política de preços incomum: um livro, 3 euros; dois livros, 5 euros; e cinco livros, 10 euros. Os preços são fixos para todos os títulos expostos, salvo (muito) raras exceções que são marcadas pelo preço máximo de 5 euros, o que já faz, nas palavras de Paulo Rodrigues Ferreira, um dos proprietários, com que os próprios proprietários se sintam «mal»: «Gostamos da ideia de as pessoas levarem muitos livros [por um preço] barato.» A livraria deixou já a calçada Nova de São Francisco para inaugurar, no dia 15, a sua nova morada na avenida Óscar Monteiro Torres, n.º 13B, muito perto do Campo Pequeno.

 

 

Contextualizar o nascimento e a política de preços da livraria não é imprudente. Sara Ferreira e Paulo Rodrigues Ferreira, de 27 e 29 anos (que juntos criaram e gerem a Fyodor Books), não hesitam em afirmar que é esta política que os diferencia das restantes livrarias e alfarrabistas lisboetas. «Não fazemos especulação com o preço. Às vezes pode ser um tiro nos pés, vender livros que valem 100 euros a 5 euros», explica Paulo Rodrigues Ferreira. A primeira venda que Sara fez na loja foi, precisamente, uma afamada 1.ª edição de uma obra de Herberto Helder, pela módica quantia de 3 euros, que estaria avaliada pelo menos em 200.

 

Em plena crise económica, os dois criaram a sua livraria inspirada nos modelos das que conheceram nos Estados Unidos da América: desse país, admiram as referências culturais, as livrarias e os autores, bem como a relação menos descomplexada da população com os livros. Asseguram que não pretendem educar ninguém, mas gostariam de «tentar mudar mentalidades», porque os entristece a perceção de que «as pessoas não têm qualquer relação com os livros em Portugal». «Gostava que estas gerações não tivessem a sensação de que um livro custa 20 euros e que não [o] podem comprar», explica Sara Ferreira. Este é o motivo da existência da Fyodor Books.

 

 

O livro «pode ser comprado regularmente»

«O livro não tem de ser caro e pode ser comprado regularmente», assegura Paulo, explicando que os clientes chegam ao ponto de «estranhar o preço dos livros por ser tão baixo», e que apenas uns raros «10 % da população, a população rica» compra livros caros. Nota, por vezes, alguns preconceitos quanto ao livro usado, vindo especialmente de clientes mais velhos, mas também estes começam a aparecer na Fyodor.

 

A relação mais descomplexada dos jovens com o livro usado faz deles os grandes clientes da Fyodor. Sair do Chiado e partir para o Campo Pequeno foi também uma questão de estratégia: na nova morada, estão rodeados das maiores universidades de Lisboa e adquiriram maior visibilidade. Sara e Paulo orgulham-se de chamar «muito público novo» à sua livraria: alunos de Belas-Artes, Arquitetura, Engenharia, que «muitas vezes nem tinham relação com a leitura», salienta Sara. Ao tentarem fugir «ao estereótipo do que é uma livraria e das sugestões das revistas», os proprietários lançam uma diversidade que lhes agrada (também proporcionada pelo acaso dos livros que encontram) e cativam um público que está focado em ler os clássicos da literatura e que não adquire best-sellers. Chegaram a tentar vender um livro de Dan Brown por apenas 1 euro, mas sem sucesso. Os leitores gostam do que encontram na livraria, escrevem sobre o que leem e até trocam opiniões com os proprietários.

 

 

O que os clientes mais procuram na Fyodor pertence a áreas como a literatura estrangeira, a filosofia e a história. A literatura portuguesa não está contemplada nos livros mais procurados, exceto quando se fala de autores como José Saramago, António Lobo Antunes ou Fernando Pessoa (especialmente o Livro do Desassossego). Têm livros em inglês, francês, castelhano, e pretendem disponibilizar mais livros em língua inglesa. Dos títulos mais vendidos, existem aqueles que, segundo a experiência dos dois livreiros, não ficarão muito tempo nas estantes: A Metamorfose, de Franz Kafka; O Estrangeiro, de Albert Camus; 1984, de George Orwell; Siddartha, de Hermann Hesse; O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; e os livros de Dostoiévski, que dá nome à livraria. Dos autores portugueses, as obras de Luiz Pacheco desaparecem quase automaticamente das estantes.

 

«Trabalho de arqueólogo»

Parte das funções de Sara e Paulo são o que chamam «trabalho de arqueólogo», para que todas as semanas cheguem livros novos às prateleiras da Fyodor Books. A sua busca por novos livos é incessante, visto que não trabalham com catálogos, e é também o que mantém a livraria ativa. De anúncios em jornais a contactos que recebem de particulares e pesquisas na internet, a vida de alfarrabista nem sempre é facilitada, e a «persistência», dizem, é a chave. Falam com alguma «desilusão» das editoras, que não demonstraram interesse em vender fundos de catálogo a preço mais reduzido. Por outro lado, riem-se de situações caricatas com que já se depararam: propostas para a compra de uma Bíblia por 700 euros, ou contactos para venda de bibliotecas que, no fim de contas, se resumiam a uma pessoa «numa motinha com um livro». «Uma das coisas de ser livreiro é ficar com histórias para contar», congratula-se Paulo.

 

 

Por contraponto com o «trabalho de arqueólogo», é para o futuro da livraria que Sara e Paulo trabalham, de olhos postos em vários projetos. Querendo «fugir aos nichos das editoras independentes», preveem arrancar com edição própria, pela chancela Fyodor, no início do próximo mês, com a obra O Apocalipse Estável. Aforismos, de Karl Kraus, apoiada pela Embaixada da Áustria em Portugal. Depois, continuarão na edição de autores portugueses não consagrados.

 

 

Querem também promover, futuramente, alguns pequenos leilões, exposições e apresentações de livros, bem como iniciar a venda de merchandising da loja, com sacos, cadernos e canetas. O seu grande projeto está no franchising das lojas Fyodor Books, que gostariam de fazer chegar a algumas cidades portuguesas, embora trabalhem com o grande objetivo de alargar a sua loja à Europa e aos Estados Unidos. «Queremos estar sempre a existir de alguma forma», afirma Paulo Rodrigues Ferreira. Para já, pode visitar a Fyodor Books entre as 11.00 e as 20.00, de segunda-feira a sábado, e levar sacos cheios de livros para casa por pouco dinheiro: como lembra Paulo, «isto sai mais barato que maços de tabaco e cafés no Starbucks».

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