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Blogtailors - o blogue da edição

Reportagem Blogtailors: Livraria do Simão

19.03.14

 

Estamos no início das escadas de São Cristóvão, um dos pontos de passagem a caminho do castelo de São Jorge, em Lisboa. Paulo Simão Carneiro, 42 anos, dá nome à Livraria do Simão. Dirige-se à prateleira dos livros e tira uma primeira edição das Poesias de Álvaro de Campos, de 1944. Sobre um fundo branco — amarelado, já —, a capa da edição da Ática exibe um pégaso perfeito, figura mitológica que simboliza a inspiração poética.

 

 

O livreiro serve-se deste exemplar para mostrar uma boa primeira edição de uma obra, que tem, regra geral, maior qualidade e valor que exemplares de outras edições — mas nem sempre é assim. «Esta é uma regra válida para a literatura. Fora disso, depende», explica o alfarrabista. Fatores como a qualidade gráfica da impressão determinam por vezes que uma segunda edição seja melhor. As edições atualizadas ou revistas também ganham mais valor, segundo variáveis que nem sempre são claras. Contudo, para Paulo Simão, esta é «uma análise objetiva: objetivamente, é melhor» a edição que retirou da prateleira do que a que segura na outra mão, ao lado dela, num papel menos mate e mais brilhante, que até poderá sobreviver melhor aos anos, mas torna o livro mais plastificado.

 

 

O tamanho pode ser, à primeira vista, o que mais desperta a curiosidade na Livraria do Simão. Enquanto puxa o livro, só o seu corpo está dentro da livraria; depois dele, já se está na soleira da porta, debaixo do arco de São Cristóvão, transversal à rua da Madalena. Os 3,8 metros quadrados do seu estabelecimento têm-lhe valido o epíteto de «a livraria mais pequena do mundo», mas este dado não é oficial. «Aconteceu naturalmente» ser chamada assim, diz Paulo Simão, que não pensa oficializar o título, vendo-o inclusive como resultado de um certo sensacionalismo. «Há um guia [turístico] que passa e diz que está no Guiness, o que é uma rotunda mentira», conta o proprietário. Além de tudo isto, a repercussão turística da distinção «não se traduz em vantagem económica», nem naquilo que para o livreiro seria importante falar: «da qualidade dos livros». «[A livraria] é pequena, de facto, mas pode-se dizer que é uma livraria. Tem um espetro alargado de livros, de géneros», considera o proprietário. Apesar dos sacos com livros à porta e do espaço cuidadosamente aproveitado dentro da livraria, onde ainda consegue sentar-se ao computador, Paulo Simão armazena livros também em casa, em quantidade dez vezes superior aos que estão ali estão expostos. A Livraria do Simão é de facto pequena para os seus 3 mil livros.

 

 

Serve esta introdução para explicar o que é que Paulo Simão entende como crucial para manter a sua livraria, porque, como vimos, não é o espaço — que afirma que se impôs, sendo «o espaço possível» na Lisboa de há oito anos, estabelecido neste lugar há sete. Também «não é pelo dinheiro», explica: «há negócios melhores. Não podes obrigar uma pessoa a comprar um livro, tendo em conta o contexto económico», que afeta a livraria, «claro». Paulo Simão, contudo, não tem «muita ambição material». Para estar no negócio, assegura, é preciso que funcione a lei da oferta e procura, essencial para um alfarrabista, e gostar-se muito de livros. Coroando estas vertentes, está a maior para um livreiro alfarrabista: o saber. Que faz toda a diferença na hora em que se pede ao livreiro: «Pode, por favor, aconselhar-me um livro?»

 

Como explica, um alfarrabista não trabalha com catálogos, como as restantes livrarias, e essa é a diferença basilar entre o seu trabalho e o de outros livreiros. «O negócio desencadeia-se a partir de um pedido», explica, ao qual procura dar resposta. «É preciso uma procura, e saber. Aqui, exige[-se] mais conhecimento a quem vende. Não se faz pelos catálogos ou pedidos a um distribuidor. Não é uma coisa tão imediata». Os amigos vendem-lhe livros. Outros colegas também e por vezes até editores. Também vende os próprios livros. Como alfarrabista, muitos dos livros que tem disponíveis versam sobre História, Literatura, Filosofia. Não se alonga muito sobre este ponto, mas os livros mais antigos de que dispõe são sobre este tema e datam do século XVII.

 

 

«O alfarrabista mais novo do Chiado», como é apelidado (embora desconheça a veracidade desse título), está estabelecido num ponto de passagem de turistas. Como tal, não hesita em afirmar que Fernando Pessoa é o autor mais procurado. Depois de Pessoa, um dos pedidos mais recorrentes dos estrangeiros é O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, obra objeto de predileção de muitos turistas, que a colecionam em várias línguas.

 

Antes de se dedicar à livraria, a experiência de Paulo Simão no mundo do livro passou sobretudo pelo relacionamento com editoras, que contactava para representar em feiras do livro. Paulo Simão foi também professor de Química e Física, mas estudou Enologia. Sublinha que não deixou o ensino para se dedicar à livraria, vendo esta mudança como uma opção, tomada sobretudo pela sua experiência como leitor. Gosta de Flaubert, Leopardi, Camilo (Castelo Branco), e, sobre todos, de Camões — mas estes são apenas exemplos e livros, porque, acredita, quanto mais lê mais as escolhas se afunilam. Lê em várias línguas. Além dos livros em português, vende livros em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e até em chinês. «É preciso gostar, porque se não se gostar é difícil», sublinha.

 

 

Para Paulo Simão, «os livros exigem dedicação. Quando alguém procura uma edição mais antiga, uma certa edição, um romance traduzido, [por exemplo,] graficamente pode ser mais interessante, pode ter mais caraterísticas interessantes que uma edição mais recente. Exige uma sensibilidade maior. O livro exige todo um conhecimento.» Afirma mesmo que nunca teve tantos livros e nunca leu tão pouco, porque o negócio «come tempo. Há mais urgência para sobreviver, no sentido de que ter um negócio por conta própria é desassossegante. Nunca tenho a solidão e o descanso para ler». Mas não se arrepende da opção tomada: «Faço o que gosto, do que resulta sentir-me livre.»

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