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Blogtailors - o blogue da edição

Reportagem Blogtailors: Livraria Ler Devagar

16.04.14

Quando começou, José Pinho estava sozinho. «Tinha de ser naquele momento», relata. Assim, alugou 12 lugares de um parque de estacionamento no Bairro Alto e lá montou a sua livraria. Os amigos chegaram a seguir, amigos que passaram a 20 sócios. Perspetiva inicial: «não temos clientes, mas fazemos a livraria na mesma». Nasceu assim há 15 anos a Ler Devagar, na rua de São Boaventura no Bairro Alto, numa altura em que já lá não existiam livrarias, lembra o fundador.

 

Entretanto, o edifício onde se situava, propriedade da Litografia de Portugal, foi vendido a uma imobiliária. A livraria teve de sair do Bairro. Apareceu a hipótese de se mudar para a zona de Braço de Brata, onde se poderia montar uma livraria semelhante, mas numa área maior. Foi «um tiro no escuro», diz José Pinho. Em Braço de Prata, esperava o dia inteiro «que alguém aparecesse»: «ninguém se habituava a ir lá».

 

Parece que José Pinho tem tendência para ir contra a corrente, mas porquê? Hoje, explica que não procurou sítios onde não estivessem pessoas; mas a necessidade era mais forte, especialmente na vantagem em conseguir rendas baixas. Ao mesmo tempo, houve uma tentativa de recuperar espaços e zonas de Lisboa que estavam abandonadas. Não via a sua livraria a funcionar no Chiado, por exemplo, porque acha que «estar nas ruas movimentadas interessa mais para as novidades».

 

 

A livraria Ler Devagar está, desde 23 de abril de 2009, no complexo da LX Factory, em Alcântara, depois de José Pinho ter sido convidado pelos proprietários dos edifícios a fazer algo semelhante ao que estava no Braço de Prata. «Demorámos quase meio ano a aceitar», lembra — e, durante os primeiros dois anos, «a livraria não tinha ninguém».

 

Como disse Príamo, «tudo o que é bom é feito devagar ou com vagar». Apesar das dificuldades iniciais, por onde a livraria tem passado é isto que tem acontecido: devagar, vai criando um público fiel. Hoje, a Ler Devagar recebe «incomparavelmente mais gente». «Independentemente dos sítios, se houver alguma coisa interessante as pessoas acabam por ir», é a convicção (já provada) de José Pinho. Agora, as possibilidades são outras, e assegura que cada vez mais lhe interessa criar um público. O nome da livraria vai precisamente beber àquela frase e à revista literária e de crítica social Devagar, que José Pinho editou nos anos 90, juntamente com um amigo, António Ferreira.

 

 

A Ler Devagar distancia-se das «livrarias de novidades» porque se baseia numa outra lógica: é uma livraria de fundos (sendo mesmo este o nome da empresa). Quando, há 17 anos, frequentou um curso de técnicos editoriais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, os colegas de José Pinho, na maioria editores, já se queixavam de que «os armazéns estavam cheios de livros». Apesar de se afirmar como livraria de fundos, a Ler Devagar flexibilizou-se neste aspeto e disponibiliza novidades editoriais portuguesas, sendo que esta fatia representa apenas 1 % dos livros. «No Bairro Alto não vendíamos [José] Saramago; agora temos tudo [do autor]». A livraria destaca-se também numa outra política: não pratica descontos sobre os livros.

 

Onde a livraria mais se destaca é… um pouco por todo o mundo. Nos últimos anos, figurou no guia da Taschen do New York Times (que escolhe 125 locais da Europa para visitar em 36 horas), na lista das 20 livrarias mais bonitas do mundo para a Flavorwire e é ainda destaque no Louis Vuitton European City Guides. Já em 2014, foi mencionada em três revistas orientais do Japão, Coreia e China. Desta forma, os turistas que vêm a Lisboa têm já a Ler Devagar assinalada nas suas rotas. Os brasileiros são alguns dos melhores clientes. José Pinho lembra alguns casos mais pontuais, como o de um cliente francês que adquiriu 1000 euros em livros, ou o de um cliente chinês que adquiriu 4500 euros em livros de arte e arquitetura, que iria vender na China — isto porque terá conhecido a livraria numa revista. Como afirma José Pinho, a livraria «presta este serviço à cidade: projeta Lisboa para outro patamar».

 

 

José Pinho viajou bastante, e «só para ver livrarias»: correu países como EUA, Holanda, França, Canadá, Itália, à procura de ideias para os seus projetos. «Em Montreal, as pessoas tiravam livros, enciclopédias, punham no chão e sentavam-se em cima, a conversar», mas José Pinho considera que ainda hoje seria estranho ver isso acontecer em Portugal. Pensa ter conseguido com a sua livraria aquilo que mais ninguém tem conseguido: para o fundador, a Ler Devagar presta um «serviço público: há muita coisa para aí [bibliotecas], mas nada como isto. Não há obrigação de consumir. Só o bar é pago».

 

No edifício da Ler Devagar em Alcântara esteve antes a Gráfica Mirandela, que imprimia jornais como o Público, o Expresso e A Bola. A enorme maquinaria de impressão foi deixada quase intacta, emprestando como que uma estética industrial à livraria. A maquinaria acabou também por permitir que a livraria tivesse um 2.º piso, sustentado por ela. Nesse piso está a discoteca Ouvir Devagar, onde existem oito postos para ouvir música (predominando a música lusófona), um restaurante, uma galeria e a exposição de objetos cinemáticos de Pietro Prosérpio, o construtor da emblemática bicicleta que hoje identifica a livraria. Tudo isto «sem consumir nem um café» e sem a obrigatoriedade de comprar um livro, sublinha José Pinho.

 

 

Todos os sócios da livraria — cerca de 140, neste momento — têm outra atividade profissional. José Pinho foi também, até 2005, diretor-geral de uma agência de gestão de dados e promoções, Internet e novas tecnologias, ano em que passou a dedicar-se à Ler Devagar. O único sócio em permanência na livraria explica um pouco das convicções que a gerem: «todos os accionistas da Ler Devagar têm a certeza de que nunca mais o vão ver [o dinheiro investido]»; e, no entanto, «vão ver para que serviu o dinheiro». «As pessoas vêm e sabem que o dinheiro está aqui. Se o quiserem levar de volta, podem vir buscar livros». Dessa forma, a livraria tem um stock «de valor semelhante ao capital social», explica, materializado nos cerca de 60 mil livros (42 mil títulos) que estão na Ler Devagar. «Quando ganhamos dinheiro  não damos aos sócios: compramos livros e apostamos», explica José Pinho. A Vila Literária de Óbidos tem sido uma dessas apostas.

 

 

Apesar de reconhecer na livraria, com algum humor, «um vício caro», assegura que esta tem mantido a sua viabilidade. Nos últimos três anos, as vendas globais aumentaram, em cada ano, mais de 20 %, e é a venda de livros que mais cresce. Os livros são «o indicador de saúde do negócio», representando entre 65 % e 70 % das vendas. Tal como noutras livrarias em Lisboa, O que o turista deve ver, de Fernando Pessoa (Livros Horizonte), e O Principezinho, de Antoine Saint-Éxupery (Editorial Presença), são alguns dos livros mais procurados. José Pinho destaca também O Animalário Universal do Professor Revillod (Orfeu Negro), bastante procurado pelos turistas. Durante o dia, a livraria tem inclusive mais clientes estrangeiros, de todas as idades e nacionalidades; os portugueses aparecem à noite. Durante a semana, José Pinho vê entrar na livraria cerca de 200 pessoas por dia, número que mais do que duplica ao fim de semana.

 

Futuramente, José Pinho pensa voltar a dinamizar a galeria da livraria, bem como retomar o seu espaço infantil. Tem dedicado mais tempo à Vila Literária de Óbidos, um projeto em curso nesta vila do Oeste e que vai abrir, até 2015, 11 livrarias em espaços como escolas, mercados biológicos e adegas; 7 delas já estão em funcionamento. Um investimento apenas permitido pela filosofia dos acionistas da livraria: «nenhum de nós pensa em enriquecer», assegura José Pinho, «isto é para nossa satisfação e prazer. Um egoísmo um pouco altruísta», carateriza.