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Blogtailors - o blogue da edição

Rita Matos inicia a rubrica Diário de Um Pinguim

03.07.14

Em julho, o Blogtailors dá início à rubrica Diário de Um Pinguim. Esta é a primeira de uma série de crónicas de Rita Matos, portuguesa que integra há seis anos a equipa de produção da Penguin. No Diário de Um Pinguim, Rita Matos abordará, entre outros assuntos, a sua experiência na editora, bem como temas do mercado editorial internacional.

 

A partir de setembro, acompanhe a crónica de Rita Matos no Blogtailors.

 

 

Diário de Um Pinguim — Capítulo 1

 

O que leva as pessoas a investirem em mais uma coleção de clássicos?

 

Trabalho em produção na Penguin há seis anos e o segredo, na minha opinião, assenta em dois princípios básicos: 1) design e produção originais e irresistíveis; 2) o desejo intrínseco que todos temos de colecionar coisas: sejam cromos da Panini, suplementos do Expresso… ou livros.

 

Tenho tido o privilégio de trabalhar em várias séries fantásticas de clássicos da Penguin, no âmbito da produção. A maioria das vezes, funciona mais ou menos assim:

 

1) os editores apercebem-se de que já há imenso tempo que não publicam uma edição nova do Dickens ou da Jane Austen, e pedem à equipa de designers umas ideias para dar uma nova roupagem aos clássicos;

 

2) os designers abordam o projeto como uma série coesa de um só autor, de uma coleção de autores ou como obras de arte individuais;

 

3) é aqui que entramos nós, a equipa de produção. O designer vem ter connosco e diz: «Ó Rita, estive a pensar e acho que era giro usar tecido com estampagem mate para a próxima série… Achas que é possível? E temos dinheiro para isso?»

 

É o tipo de projeto de que mais gosto: experimentar coisas novas. Por isso, dou sempre a mesma resposta: «Vamos lá tentar!» Nessa altura entro em conversas intensas com a gráfica, que normalmente diz-me que não, que acha que não é possível, que este processo é muito difícil do ponto de vista técnico, etc. Digo-lhes então que queremos experimentar na mesma. Peço para falar com o especialista técnico da gráfica, consulto os nossos peritos internos e, às vezes, vou mesmo à gráfica supervisionar o processo — e acabamos sempre por encontrar uma solução. Finalmente, negoceio um preço que legitime o uso dos novos materiais mantendo uma margem de lucro saudável para a editora.

 

Sim, porque é claro que podíamos publicar os livros outra vez em capa mole, com um acabamento simples, e o livro iria sair muito mais barato (tanto à Penguin como ao leitor), mas quem o compraria?

 

É aí que entra o fator «desejável». Se a série for bem conceptualizada e produzida, a editora consegue vender muito mais exemplares, aumentar a margem de lucro e, com sorte, criar um novo design de referência que entra para a história da edição.

 

Foi o que aconteceu com esta série de clássicos lindíssimos na qual tive o privilégio de trabalhar desde o primeiro lote, em 2008, e à qual continuamos a juntar cada vez mais obras:

 

 

 

São conhecidos em Inglaterra como os Clothbound Classics, são todos uma criação da designer Coralie Bickford-Smith e são livros em formato pequeno, de capa dura, forrada a tecido e com o padrão estampado. E têm vendido, e vendido, e vendido. Até à data, temos 30 obras na coleção, com mais três a sair este ano.

 

São caros de produzir? Sim, bastante. Mas valem a pena? Sem dúvida alguma. E a prova está no facto de os leitores acharem a coleção deliciosa e esperarem ansiosamente pelo próximo volume. Na Penguin orgulhamo-nos imenso de termos criado esta série e de termos contrariado a ideia falaciosa de Velho do Restelo de que o livro impresso está em vias de extinção.

 

Este dinossauro de papel está bem vivo, de boa saúde, e com fatiotas cada vez mais irresistíveis.

 

 

 

Rita Matos é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, vertente de Inglês e Francês, e concluiu o curso de especialização para Técnicos Editoriais, ambos na FLUL. Trabalhou em tradução para audiovisuais durante um ano antes de ir viver para Inglaterra, em 2004. Trabalhou três anos na Blackwell Publishing, em Oxford, e trabalha há seis anos na Penguin, em Londres, na área de Produção. Pretende regressar a Portugal e trabalhar numa editora portuguesa.

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