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Qua, 28/Mai/14
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O entrevistado do Blogtailors no mês de maio é poeta, tradutor e professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde dirige o programa de doutoramento em Materialidades da Literatura. Manuel Portela é também o investigador que coordena o projeto do Arquivo Digital do Livro do Desassossego, adiantando que deverá estar concluído no verão de 2015.

 

Lidera, neste momento, a constituição do arquivo digital do Livro do Desassossego (LdoD). Originalmente, de onde partiu a ideia do projeto? E porquê o Livro do Desassossego?

A ideia tem origem na investigação que realizei desde o início da década de 2000 sobre edições e arquivos digitais de obras do património literário impresso. Pelo menos desde meados da década de 90 que um conjunto significativo de projetos de investigação desenvolveu modelos de edição digital a partir da consciência de que uma parte significativa do património cultural da humanidade iria ser progressivamente digitalizado à medida que a comunicação digital em rede instituía um novo espaço de publicação. No caso da literatura, muitos desses projetos pioneiros chegaram a um modelo de edição que passava pela reconstituição digital do arquivo das obras, isto é, do conjunto de documentos da sua história material.

 

Igualmente importante para a conceptualização deste projeto foi a ideia de que o meio digital poderia ser usado não só para efeitos de representação textual (dos autógrafos e das edições já existentes), mas também para efeitos de simulação dos próprios processos literários de ler, escrever e editar, tirando partido da processabilidade e da natureza dinâmica e colaborativa da Web 2.0. O Arquivo LdoD terá assim um conjunto de funcionalidades de virtualização do LdoD que permitirão aos leitores assumirem diferentes papéis no estudo, manipulação e apropriação da obra. Porquê o Livro do Desassossego? Pela sua natureza material de obra inacabada e fragmentária, e pelo seu grande apelo imaginativo para inúmeros leitores em todo o mundo, o LdoD surgiu como a obra ideal para levar a cabo esta experiência conceptual e técnica.

 

O projeto teve início em março de 2012 e tem a sua conclusão prevista para o fim de fevereiro de 2015. Quais as fases que atravessou? E qual a fase em que está no momento?

O projeto tem três componentes de investigação: uma de natureza textual, que implica a análise dos documentos autorais e análise das quatro edições principais da obra (Jacinto do Prado Coelho, 1982; Teresa Sobral Cunha [1990–91] 2013; Richard Zenith [1998] 2012; Jerónimo Pizarro [2010] 2013); outra de natureza computacional, que passa pela construção de um modelo de codificação eletrónica XML para todos os textos do LdoD e pelo desenvolvimento da programação adequada ao conjunto de funcionalidades do modelo de virtualização concebido; e uma terceira, de natureza teórica, que pretende investigar a relação entre escrita e livro nas práticas modernistas, incorporando nessa investigação os conhecimentos obtidos no processo de remediação digital da obra. Se tudo correr bem, o Arquivo LdoD será publicado no verão de 2015.

 

Como é que os suportes e as materialidades da literatura a influenciam? A máxima de Marshall MacLuhan «o meio é a mensagem» aplica-se de alguma forma à literatura?

Este projeto parte precisamente da análise material e textual dos documentos autógrafos, tal como aconteceu com as quatro edições principais ao fazerem as suas transcrições, seleções e organizações particulares dos elementos do livro. O projeto parte ainda da exploração da processabilidade simulatória do meio digital para criar um espaço de virtualização que permita compreender simultaneamente os processos de construção autoral e de construção editorial do LdoD. A relação particular entre meio e mensagem pode observar-se nos modos de construção material e social da obra enquanto livro impresso, por um lado, e enquanto arquivo digital, por outro. Um exemplo: a edição sob a forma impressa obriga a uma tomada de decisão sobre a ordenação relativa dos fragmentos; no entanto, esta ordenação pode tornar-se flexível e reconfigurável no espaço digital, dando origem a um conjunto diferente de princípios editoriais. Se usarmos a linguagem de MacLuhan, podemos dizer que a recriação do arquivo autoral e das edições do LdoD em meio digital altera a escala das nossas interações com os textos.

 

Está postulado como sendo um dos objetivos do arquivo digital «representar a dinâmica dos atos de escrita e de edição na produção do LdoD». Quanto a isso, qual é o balanço da dinâmica da edição da obra?

No que se refere à dinâmica da edição da obra, observamos quatro modelos distintos de construção do LdoD. Poderíamos resumi-la deste modo: um modelo que procura associar os fragmentos combinando afinidade temática e proximidade cronológica; um modelo que considera dois períodos e heterónimos diferenciados (Vicente Guedes e Bernardo Soares) e que, dentro de cada um deles, tenta reforçar a unidade discursiva dos fragmentos, por exemplo através da eliminação da numeração ou da reordenação interna do texto de alguns manuscritos fragmentários; um terceiro modelo, que coloca a produção de Bernardo Soares como eixo da obra e intercala os restantes fragmentos de modo que haja preponderância da voz Soares, relegando para uma parte final os grandes trechos; finalmente, um modelo que reconstitui crítica e geneticamente a cronologia dos fragmentos, aproximando o livro do arquivo da obra. É claramente observável o modo como as edições lutam entre si para legitimarem os seus modos particulares de construção do LdoD a partir do arquivo de Pessoa. Uma luta que reflete também a dinâmica comercial de concorrência no mercado do livro. Ou seja, as variações na forma textual interna do LdoD não dependem só dos critérios explícitos invocados pelos organizadores de cada uma das edições, mas também de um conjunto de fatores socioliterários implícitos.

 

Como descreve a abrangência do doutoramento em Materialidades da Literatura, criado pela Universidade de Coimbra?

O doutoramento em Materialidades da Literatura surgiu a partir do trabalho de investigação  desenvolvido ao longo da última década, que, no meu caso, incidiu especialmente sobre as questões da história e da materialidade do livro, assim como sobre a criação literária e artística em meio digital. Enquanto área de investigação, este doutoramento resulta da interseção do trabalho de vários investigadores, a trabalhar sobre problemas como a voz, a escrita, o cinema e a imagem técnica em geral; a história e as tecnologias de virtualização; e as teorias materiais da cultura — problemas com uma forte incidência na teorização literária da última década. Por outro lado, este contexto de investigação local ocorre num contexto internacional de expansão dos estudos comparados dos média e de uma teorização das mudanças sistémicas em curso nas tecnologias de inscrição e de literacia em consequência da crescente digitalização das formas culturais e dos processos sociais.

 

Nos 17 projetos de doutoramento em curso, é possível observar a emergência de uma constelação de problemas de investigação centrados na questão da materialidade e das tecnologias mediais de inscrição e comunicação na sua relação com a significação literária. Este é provavelmente o aspeto principal da reorientação metodológica que nos permitiu construir objetos de investigação diferentes daqueles que têm tido como base apenas a articulação entre literatura e cultura. A perspetiva do programa tende a ser interdisciplinar e intermedial, procurando integrar múltiplos contextos culturais, sociais e linguísticos. 

 

Portugal é um país que ainda não privilegia a leitura de livros em formato digital, quando comparado com outros países. Em que é que isto nos pode tornar diferentes de outros países na compreensão da leitura?

Independentemente dos formatos vistos como «livro digital» num sentido restrito, o facto importante a assinalar é o de que a leitura é hoje predominantemente digital e que é feita em rede, ou seja, segundo uma lógica hipertextual, que salta de documento em documento e de género em género, sem respeitar as fronteiras discursivas impostas pelos limites materiais dos meios analógicos.

A pergunta parece referir-se essencialmente à transposição da experiência do códice impresso para os tabletes digitais, cuja portabilidade permitiu que assumissem nos últimos anos a condição de principais emuladores do livro, como se neste dispositivo se tivesse consolidado um vínculo entre hardware e software que o tornasse apto a ser percebido como a reencarnação digital do livro. De facto, a publicação e a distribuição simultânea de livros nos dois formatos, que já se generalizou em alguns mercados livreiros, está ainda pouco desenvolvida em Portugal. No entanto, não vejo que decorra daí qualquer diferença na compreensão da leitura, já que a diferença específica das literacias atuais é determinada pela leitura multimodal em rede e que essa experiência caracteriza as nossas interações com os dispositivos, interfaces gráficas e conteúdos digitais, nas suas diferentes configurações, independentemente de uma distribuição de ficheiros chamados «livros» para serem lidos em e-book readers. A identificação tradicional entre leitura e livro impede-nos de perceber um conjunto vasto de outras práticas de leitura que têm lugar quer no universo impresso quer no universo digital que não dependem do «livro» enquanto formato específico.

 

Quais os principais desafios das humanidades perante a era digital?

As tendências de investigação recentes neste campo epistemológico mostram dois conjuntos de respostas diferentes no processo de remediação digital dos objetos e dos métodos das humanidades. Um grupo de respostas incorpora as ferramentas digitais, muitas das quais concebidas em domínios científicos com uma natureza fortemente instrumental, procurando transformar os métodos da disciplina em causa de modo a conformar-se à lógica da ferramenta. Disso são exemplos projetos de prospeção e visualização de dados em grandes quantidades de texto ou de imagem ou de imagem em movimento. Trata-se de adotar metodologias quantitativas no domínio da análise da linguagem, da literatura, da história, da cultura e das artes, que suplementam ou desafiam as práticas de análise hermenêutica de objetos singulares ou de pequenos conjuntos de objetos. Um segundo grupo de respostas procura conceber as próprias ferramentas digitais de acordo com os protocolos de conhecimento das práticas das humanidades, isto é, com a consciência da dimensão interpretativa e intersubjetiva do conhecimento humanístico. Por outras palavras, trata-se de usar as capacidades da tecnologia digital de modo infletido que consiga incorporar categorias como a temporalidade, a historicidade e a subjetividade específica das representações e dos seus códigos próprios. A configuração futura das «Humanidades Digitais» resultará da dinâmica entre a componente humanística e a componente digital. Creio que o principal desafio consiste na apropriação dos instrumentos computacionais para modificar os métodos das disciplinas, mas também para desenvolver métodos computacionais reflexivos e conscientes da natureza interpretativa e construída dos seus objetos.

 

A literatura está dependente da era digital? Como encarar a atitude de alguns autores de permanecerem apenas do lado de uma criação física, em papel?

Esta pergunta tem várias respostas: num certo sentido, a literatura já está dependente da era digital desde que os processos de escrita, composição tipográfica, paginação e impressão incorporaram o computador. A maior parte das obras produzidas desde a década de 1980 são digitais, mesmo quando a sua distribuição final é feita sob a forma de códice impresso. A história do processador de texto e a história dos programas de paginação demonstram que a digitalização da literatura precede a sua distribuição eletrónica em rede, que tende a constituir para nós, hoje, a perceção tipificadora dessa transformação tecnológica. Outra resposta possível: à medida que a experiência de leitura se torna predominantemente hipertextual e se centra no ecrã, a experiência literária passará a ocorrer também (e, eventualmente, sobretudo) nesse meio. Esta experiência literária digital, por sua vez, pode ser pensada de dois modos: ou como transposição dos formatos impressos para formatos digitais que mantêm a modularidade do impresso e a maior parte das suas convenções; ou como a criação de formas programadas e com origem no próprio meio digital, como acontece com a chamada «literatura eletrónica» ou «literatura digital», que incorpora como elemento da sua retórica literária a programabilidade e outras propriedades materiais do meio digital.

 

Uma terceira resposta possível, uma das que poderia ser dada pelos autores que querem permanecer do lado do papel: a intensidade da atenção e do envolvimento que o livro de papel implica, na sua ergonomia de leitura, é um elemento essencial da leitura e da experiência literária. Para estes autores, a atenção interrompida, extrospetiva, multimedial e descontínua da hiperleitura não seria compatível com a leitura contínua, introspetiva e intensa que define a experiência literária. Quer dizer que a defesa da leitura em papel é, muitas vezes, a defesa desta prática de leitura e da perceção desta prática como essencial à produção do literário enquanto tal. A meu ver, mais do que pensar na concorrência e na oposição entre digital e papel, devemos pensar na interação criativa entre papel e digital, e entre digital e papel. É isso que alguns escritores têm feito, tentando inventar experiências literárias digitais ou experiências literárias no códice intensificadas pelo uso de meios digitais. Claro que persiste o problema de saber qual será a forma típica da experiência literária na nova ecologia medial, em que a interrupção da atenção e a multimodalidade se tornam modos de interação privilegiados.

Uma pergunta possível seria esta: quais as formas e práticas que reconheceremos como experiências literárias no meio digital? Aquelas em que reconhecemos um vínculo com experiências de leitura das operações de linguagem intensificadas pelo códice? Aquelas em que reconheceremos uma profunda consciência do novo meio e das suas modalidades próprias de inscrição? Outra pergunta ainda: qual o lugar relativo da escrita e dos processos de uso e transformação da linguagem verbal na produção da experiência literária em meio digital? Poderá a experiência literária sobreviver à desvinculação entre «letra» e «literatura», permitindo-nos reconhecer «literatura» também em formas sem mediação dos códigos da escrita (formas sonoras, visuais, audiovisuais, cinéticas)? Residirá a experiência literária na apropriação do espaço eletrónico como espaço de escrita e leitura através da construção explícita e socializada de ligações entre os objetos que entendemos ler como literários? A «literatura» como categoria tem de ser produzida: não decorre da simples vinculação a determinada forma ou formato material.

 

 

 

Manuel Portela é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Ingleses, pela Universidade de Coimbra, e é doutorado em Cultura Inglesa pela mesma universidade. É professor auxiliar com agregação no Departmento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra, onde dirige o programa doutoral em Estudos Avançados em Materialidades da Literatura. É investigador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. É o investigador responsável do projecto «Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego» (Universidade de Coimbra, 2012–15). Dos seus muitos ensaios, destaque para os livros Scripting Reading Motions: The Codex and the Computer as Self-Reflexive Machines (MIT Press, 2013), e O Comércio da Literatura: Mercado e Representação (Antígona, 2003).Traduziu para português Laurence Sterne, William Blake e Samuel Beckett. Em 1998 recebeu o Grande Prémio de Tradução pela tradução de The Life and Opinions of Tristram Shandy.

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