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Blogtailors - o blogue da edição

Reportagem Blogtailors: Fyodor Books

21.05.14

Contra as expetativas formadas em tempos de crise, abriu na Baixa de Lisboa, em setembro de 2013, a Fyodor Books, uma livraria alfarrabista que pratica uma política de preços incomum: um livro, 3 euros; dois livros, 5 euros; e cinco livros, 10 euros. Os preços são fixos para todos os títulos expostos, salvo (muito) raras exceções que são marcadas pelo preço máximo de 5 euros, o que já faz, nas palavras de Paulo Rodrigues Ferreira, um dos proprietários, com que os próprios proprietários se sintam «mal»: «Gostamos da ideia de as pessoas levarem muitos livros [por um preço] barato.» A livraria deixou já a calçada Nova de São Francisco para inaugurar, no dia 15, a sua nova morada na avenida Óscar Monteiro Torres, n.º 13B, muito perto do Campo Pequeno.

 

 

Contextualizar o nascimento e a política de preços da livraria não é imprudente. Sara Ferreira e Paulo Rodrigues Ferreira, de 27 e 29 anos (que juntos criaram e gerem a Fyodor Books), não hesitam em afirmar que é esta política que os diferencia das restantes livrarias e alfarrabistas lisboetas. «Não fazemos especulação com o preço. Às vezes pode ser um tiro nos pés, vender livros que valem 100 euros a 5 euros», explica Paulo Rodrigues Ferreira. A primeira venda que Sara fez na loja foi, precisamente, uma afamada 1.ª edição de uma obra de Herberto Helder, pela módica quantia de 3 euros, que estaria avaliada pelo menos em 200.

 

Em plena crise económica, os dois criaram a sua livraria inspirada nos modelos das que conheceram nos Estados Unidos da América: desse país, admiram as referências culturais, as livrarias e os autores, bem como a relação menos descomplexada da população com os livros. Asseguram que não pretendem educar ninguém, mas gostariam de «tentar mudar mentalidades», porque os entristece a perceção de que «as pessoas não têm qualquer relação com os livros em Portugal». «Gostava que estas gerações não tivessem a sensação de que um livro custa 20 euros e que não [o] podem comprar», explica Sara Ferreira. Este é o motivo da existência da Fyodor Books.

 

 

O livro «pode ser comprado regularmente»

«O livro não tem de ser caro e pode ser comprado regularmente», assegura Paulo, explicando que os clientes chegam ao ponto de «estranhar o preço dos livros por ser tão baixo», e que apenas uns raros «10 % da população, a população rica» compra livros caros. Nota, por vezes, alguns preconceitos quanto ao livro usado, vindo especialmente de clientes mais velhos, mas também estes começam a aparecer na Fyodor.

 

A relação mais descomplexada dos jovens com o livro usado faz deles os grandes clientes da Fyodor. Sair do Chiado e partir para o Campo Pequeno foi também uma questão de estratégia: na nova morada, estão rodeados das maiores universidades de Lisboa e adquiriram maior visibilidade. Sara e Paulo orgulham-se de chamar «muito público novo» à sua livraria: alunos de Belas-Artes, Arquitetura, Engenharia, que «muitas vezes nem tinham relação com a leitura», salienta Sara. Ao tentarem fugir «ao estereótipo do que é uma livraria e das sugestões das revistas», os proprietários lançam uma diversidade que lhes agrada (também proporcionada pelo acaso dos livros que encontram) e cativam um público que está focado em ler os clássicos da literatura e que não adquire best-sellers. Chegaram a tentar vender um livro de Dan Brown por apenas 1 euro, mas sem sucesso. Os leitores gostam do que encontram na livraria, escrevem sobre o que leem e até trocam opiniões com os proprietários.

 

 

O que os clientes mais procuram na Fyodor pertence a áreas como a literatura estrangeira, a filosofia e a história. A literatura portuguesa não está contemplada nos livros mais procurados, exceto quando se fala de autores como José Saramago, António Lobo Antunes ou Fernando Pessoa (especialmente o Livro do Desassossego). Têm livros em inglês, francês, castelhano, e pretendem disponibilizar mais livros em língua inglesa. Dos títulos mais vendidos, existem aqueles que, segundo a experiência dos dois livreiros, não ficarão muito tempo nas estantes: A Metamorfose, de Franz Kafka; O Estrangeiro, de Albert Camus; 1984, de George Orwell; Siddartha, de Hermann Hesse; O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; e os livros de Dostoiévski, que dá nome à livraria. Dos autores portugueses, as obras de Luiz Pacheco desaparecem quase automaticamente das estantes.

 

«Trabalho de arqueólogo»

Parte das funções de Sara e Paulo são o que chamam «trabalho de arqueólogo», para que todas as semanas cheguem livros novos às prateleiras da Fyodor Books. A sua busca por novos livos é incessante, visto que não trabalham com catálogos, e é também o que mantém a livraria ativa. De anúncios em jornais a contactos que recebem de particulares e pesquisas na internet, a vida de alfarrabista nem sempre é facilitada, e a «persistência», dizem, é a chave. Falam com alguma «desilusão» das editoras, que não demonstraram interesse em vender fundos de catálogo a preço mais reduzido. Por outro lado, riem-se de situações caricatas com que já se depararam: propostas para a compra de uma Bíblia por 700 euros, ou contactos para venda de bibliotecas que, no fim de contas, se resumiam a uma pessoa «numa motinha com um livro». «Uma das coisas de ser livreiro é ficar com histórias para contar», congratula-se Paulo.

 

 

Por contraponto com o «trabalho de arqueólogo», é para o futuro da livraria que Sara e Paulo trabalham, de olhos postos em vários projetos. Querendo «fugir aos nichos das editoras independentes», preveem arrancar com edição própria, pela chancela Fyodor, no início do próximo mês, com a obra O Apocalipse Estável. Aforismos, de Karl Kraus, apoiada pela Embaixada da Áustria em Portugal. Depois, continuarão na edição de autores portugueses não consagrados.

 

 

Querem também promover, futuramente, alguns pequenos leilões, exposições e apresentações de livros, bem como iniciar a venda de merchandising da loja, com sacos, cadernos e canetas. O seu grande projeto está no franchising das lojas Fyodor Books, que gostariam de fazer chegar a algumas cidades portuguesas, embora trabalhem com o grande objetivo de alargar a sua loja à Europa e aos Estados Unidos. «Queremos estar sempre a existir de alguma forma», afirma Paulo Rodrigues Ferreira. Para já, pode visitar a Fyodor Books entre as 11.00 e as 20.00, de segunda-feira a sábado, e levar sacos cheios de livros para casa por pouco dinheiro: como lembra Paulo, «isto sai mais barato que maços de tabaco e cafés no Starbucks».

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Reportagem Blogtailors: Livraria Ler Devagar

16.04.14

Quando começou, José Pinho estava sozinho. «Tinha de ser naquele momento», relata. Assim, alugou 12 lugares de um parque de estacionamento no Bairro Alto e lá montou a sua livraria. Os amigos chegaram a seguir, amigos que passaram a 20 sócios. Perspetiva inicial: «não temos clientes, mas fazemos a livraria na mesma». Nasceu assim há 15 anos a Ler Devagar, na rua de São Boaventura no Bairro Alto, numa altura em que já lá não existiam livrarias, lembra o fundador.

 

Entretanto, o edifício onde se situava, propriedade da Litografia de Portugal, foi vendido a uma imobiliária. A livraria teve de sair do Bairro. Apareceu a hipótese de se mudar para a zona de Braço de Brata, onde se poderia montar uma livraria semelhante, mas numa área maior. Foi «um tiro no escuro», diz José Pinho. Em Braço de Prata, esperava o dia inteiro «que alguém aparecesse»: «ninguém se habituava a ir lá».

 

Parece que José Pinho tem tendência para ir contra a corrente, mas porquê? Hoje, explica que não procurou sítios onde não estivessem pessoas; mas a necessidade era mais forte, especialmente na vantagem em conseguir rendas baixas. Ao mesmo tempo, houve uma tentativa de recuperar espaços e zonas de Lisboa que estavam abandonadas. Não via a sua livraria a funcionar no Chiado, por exemplo, porque acha que «estar nas ruas movimentadas interessa mais para as novidades».

 

 

A livraria Ler Devagar está, desde 23 de abril de 2009, no complexo da LX Factory, em Alcântara, depois de José Pinho ter sido convidado pelos proprietários dos edifícios a fazer algo semelhante ao que estava no Braço de Prata. «Demorámos quase meio ano a aceitar», lembra — e, durante os primeiros dois anos, «a livraria não tinha ninguém».

 

Como disse Príamo, «tudo o que é bom é feito devagar ou com vagar». Apesar das dificuldades iniciais, por onde a livraria tem passado é isto que tem acontecido: devagar, vai criando um público fiel. Hoje, a Ler Devagar recebe «incomparavelmente mais gente». «Independentemente dos sítios, se houver alguma coisa interessante as pessoas acabam por ir», é a convicção (já provada) de José Pinho. Agora, as possibilidades são outras, e assegura que cada vez mais lhe interessa criar um público. O nome da livraria vai precisamente beber àquela frase e à revista literária e de crítica social Devagar, que José Pinho editou nos anos 90, juntamente com um amigo, António Ferreira.

 

 

A Ler Devagar distancia-se das «livrarias de novidades» porque se baseia numa outra lógica: é uma livraria de fundos (sendo mesmo este o nome da empresa). Quando, há 17 anos, frequentou um curso de técnicos editoriais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, os colegas de José Pinho, na maioria editores, já se queixavam de que «os armazéns estavam cheios de livros». Apesar de se afirmar como livraria de fundos, a Ler Devagar flexibilizou-se neste aspeto e disponibiliza novidades editoriais portuguesas, sendo que esta fatia representa apenas 1 % dos livros. «No Bairro Alto não vendíamos [José] Saramago; agora temos tudo [do autor]». A livraria destaca-se também numa outra política: não pratica descontos sobre os livros.

 

Onde a livraria mais se destaca é… um pouco por todo o mundo. Nos últimos anos, figurou no guia da Taschen do New York Times (que escolhe 125 locais da Europa para visitar em 36 horas), na lista das 20 livrarias mais bonitas do mundo para a Flavorwire e é ainda destaque no Louis Vuitton European City Guides. Já em 2014, foi mencionada em três revistas orientais do Japão, Coreia e China. Desta forma, os turistas que vêm a Lisboa têm já a Ler Devagar assinalada nas suas rotas. Os brasileiros são alguns dos melhores clientes. José Pinho lembra alguns casos mais pontuais, como o de um cliente francês que adquiriu 1000 euros em livros, ou o de um cliente chinês que adquiriu 4500 euros em livros de arte e arquitetura, que iria vender na China — isto porque terá conhecido a livraria numa revista. Como afirma José Pinho, a livraria «presta este serviço à cidade: projeta Lisboa para outro patamar».

 

 

José Pinho viajou bastante, e «só para ver livrarias»: correu países como EUA, Holanda, França, Canadá, Itália, à procura de ideias para os seus projetos. «Em Montreal, as pessoas tiravam livros, enciclopédias, punham no chão e sentavam-se em cima, a conversar», mas José Pinho considera que ainda hoje seria estranho ver isso acontecer em Portugal. Pensa ter conseguido com a sua livraria aquilo que mais ninguém tem conseguido: para o fundador, a Ler Devagar presta um «serviço público: há muita coisa para aí [bibliotecas], mas nada como isto. Não há obrigação de consumir. Só o bar é pago».

 

No edifício da Ler Devagar em Alcântara esteve antes a Gráfica Mirandela, que imprimia jornais como o Público, o Expresso e A Bola. A enorme maquinaria de impressão foi deixada quase intacta, emprestando como que uma estética industrial à livraria. A maquinaria acabou também por permitir que a livraria tivesse um 2.º piso, sustentado por ela. Nesse piso está a discoteca Ouvir Devagar, onde existem oito postos para ouvir música (predominando a música lusófona), um restaurante, uma galeria e a exposição de objetos cinemáticos de Pietro Prosérpio, o construtor da emblemática bicicleta que hoje identifica a livraria. Tudo isto «sem consumir nem um café» e sem a obrigatoriedade de comprar um livro, sublinha José Pinho.

 

 

Todos os sócios da livraria — cerca de 140, neste momento — têm outra atividade profissional. José Pinho foi também, até 2005, diretor-geral de uma agência de gestão de dados e promoções, Internet e novas tecnologias, ano em que passou a dedicar-se à Ler Devagar. O único sócio em permanência na livraria explica um pouco das convicções que a gerem: «todos os accionistas da Ler Devagar têm a certeza de que nunca mais o vão ver [o dinheiro investido]»; e, no entanto, «vão ver para que serviu o dinheiro». «As pessoas vêm e sabem que o dinheiro está aqui. Se o quiserem levar de volta, podem vir buscar livros». Dessa forma, a livraria tem um stock «de valor semelhante ao capital social», explica, materializado nos cerca de 60 mil livros (42 mil títulos) que estão na Ler Devagar. «Quando ganhamos dinheiro  não damos aos sócios: compramos livros e apostamos», explica José Pinho. A Vila Literária de Óbidos tem sido uma dessas apostas.

 

 

Apesar de reconhecer na livraria, com algum humor, «um vício caro», assegura que esta tem mantido a sua viabilidade. Nos últimos três anos, as vendas globais aumentaram, em cada ano, mais de 20 %, e é a venda de livros que mais cresce. Os livros são «o indicador de saúde do negócio», representando entre 65 % e 70 % das vendas. Tal como noutras livrarias em Lisboa, O que o turista deve ver, de Fernando Pessoa (Livros Horizonte), e O Principezinho, de Antoine Saint-Éxupery (Editorial Presença), são alguns dos livros mais procurados. José Pinho destaca também O Animalário Universal do Professor Revillod (Orfeu Negro), bastante procurado pelos turistas. Durante o dia, a livraria tem inclusive mais clientes estrangeiros, de todas as idades e nacionalidades; os portugueses aparecem à noite. Durante a semana, José Pinho vê entrar na livraria cerca de 200 pessoas por dia, número que mais do que duplica ao fim de semana.

 

Futuramente, José Pinho pensa voltar a dinamizar a galeria da livraria, bem como retomar o seu espaço infantil. Tem dedicado mais tempo à Vila Literária de Óbidos, um projeto em curso nesta vila do Oeste e que vai abrir, até 2015, 11 livrarias em espaços como escolas, mercados biológicos e adegas; 7 delas já estão em funcionamento. Um investimento apenas permitido pela filosofia dos acionistas da livraria: «nenhum de nós pensa em enriquecer», assegura José Pinho, «isto é para nossa satisfação e prazer. Um egoísmo um pouco altruísta», carateriza.

Reportagem Blogtailors: Livraria do Simão

19.03.14

 

Estamos no início das escadas de São Cristóvão, um dos pontos de passagem a caminho do castelo de São Jorge, em Lisboa. Paulo Simão Carneiro, 42 anos, dá nome à Livraria do Simão. Dirige-se à prateleira dos livros e tira uma primeira edição das Poesias de Álvaro de Campos, de 1944. Sobre um fundo branco — amarelado, já —, a capa da edição da Ática exibe um pégaso perfeito, figura mitológica que simboliza a inspiração poética.

 

 

O livreiro serve-se deste exemplar para mostrar uma boa primeira edição de uma obra, que tem, regra geral, maior qualidade e valor que exemplares de outras edições — mas nem sempre é assim. «Esta é uma regra válida para a literatura. Fora disso, depende», explica o alfarrabista. Fatores como a qualidade gráfica da impressão determinam por vezes que uma segunda edição seja melhor. As edições atualizadas ou revistas também ganham mais valor, segundo variáveis que nem sempre são claras. Contudo, para Paulo Simão, esta é «uma análise objetiva: objetivamente, é melhor» a edição que retirou da prateleira do que a que segura na outra mão, ao lado dela, num papel menos mate e mais brilhante, que até poderá sobreviver melhor aos anos, mas torna o livro mais plastificado.

 

 

O tamanho pode ser, à primeira vista, o que mais desperta a curiosidade na Livraria do Simão. Enquanto puxa o livro, só o seu corpo está dentro da livraria; depois dele, já se está na soleira da porta, debaixo do arco de São Cristóvão, transversal à rua da Madalena. Os 3,8 metros quadrados do seu estabelecimento têm-lhe valido o epíteto de «a livraria mais pequena do mundo», mas este dado não é oficial. «Aconteceu naturalmente» ser chamada assim, diz Paulo Simão, que não pensa oficializar o título, vendo-o inclusive como resultado de um certo sensacionalismo. «Há um guia [turístico] que passa e diz que está no Guiness, o que é uma rotunda mentira», conta o proprietário. Além de tudo isto, a repercussão turística da distinção «não se traduz em vantagem económica», nem naquilo que para o livreiro seria importante falar: «da qualidade dos livros». «[A livraria] é pequena, de facto, mas pode-se dizer que é uma livraria. Tem um espetro alargado de livros, de géneros», considera o proprietário. Apesar dos sacos com livros à porta e do espaço cuidadosamente aproveitado dentro da livraria, onde ainda consegue sentar-se ao computador, Paulo Simão armazena livros também em casa, em quantidade dez vezes superior aos que estão ali estão expostos. A Livraria do Simão é de facto pequena para os seus 3 mil livros.

 

 

Serve esta introdução para explicar o que é que Paulo Simão entende como crucial para manter a sua livraria, porque, como vimos, não é o espaço — que afirma que se impôs, sendo «o espaço possível» na Lisboa de há oito anos, estabelecido neste lugar há sete. Também «não é pelo dinheiro», explica: «há negócios melhores. Não podes obrigar uma pessoa a comprar um livro, tendo em conta o contexto económico», que afeta a livraria, «claro». Paulo Simão, contudo, não tem «muita ambição material». Para estar no negócio, assegura, é preciso que funcione a lei da oferta e procura, essencial para um alfarrabista, e gostar-se muito de livros. Coroando estas vertentes, está a maior para um livreiro alfarrabista: o saber. Que faz toda a diferença na hora em que se pede ao livreiro: «Pode, por favor, aconselhar-me um livro?»

 

Como explica, um alfarrabista não trabalha com catálogos, como as restantes livrarias, e essa é a diferença basilar entre o seu trabalho e o de outros livreiros. «O negócio desencadeia-se a partir de um pedido», explica, ao qual procura dar resposta. «É preciso uma procura, e saber. Aqui, exige[-se] mais conhecimento a quem vende. Não se faz pelos catálogos ou pedidos a um distribuidor. Não é uma coisa tão imediata». Os amigos vendem-lhe livros. Outros colegas também e por vezes até editores. Também vende os próprios livros. Como alfarrabista, muitos dos livros que tem disponíveis versam sobre História, Literatura, Filosofia. Não se alonga muito sobre este ponto, mas os livros mais antigos de que dispõe são sobre este tema e datam do século XVII.

 

 

«O alfarrabista mais novo do Chiado», como é apelidado (embora desconheça a veracidade desse título), está estabelecido num ponto de passagem de turistas. Como tal, não hesita em afirmar que Fernando Pessoa é o autor mais procurado. Depois de Pessoa, um dos pedidos mais recorrentes dos estrangeiros é O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, obra objeto de predileção de muitos turistas, que a colecionam em várias línguas.

 

Antes de se dedicar à livraria, a experiência de Paulo Simão no mundo do livro passou sobretudo pelo relacionamento com editoras, que contactava para representar em feiras do livro. Paulo Simão foi também professor de Química e Física, mas estudou Enologia. Sublinha que não deixou o ensino para se dedicar à livraria, vendo esta mudança como uma opção, tomada sobretudo pela sua experiência como leitor. Gosta de Flaubert, Leopardi, Camilo (Castelo Branco), e, sobre todos, de Camões — mas estes são apenas exemplos e livros, porque, acredita, quanto mais lê mais as escolhas se afunilam. Lê em várias línguas. Além dos livros em português, vende livros em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e até em chinês. «É preciso gostar, porque se não se gostar é difícil», sublinha.

 

 

Para Paulo Simão, «os livros exigem dedicação. Quando alguém procura uma edição mais antiga, uma certa edição, um romance traduzido, [por exemplo,] graficamente pode ser mais interessante, pode ter mais caraterísticas interessantes que uma edição mais recente. Exige uma sensibilidade maior. O livro exige todo um conhecimento.» Afirma mesmo que nunca teve tantos livros e nunca leu tão pouco, porque o negócio «come tempo. Há mais urgência para sobreviver, no sentido de que ter um negócio por conta própria é desassossegante. Nunca tenho a solidão e o descanso para ler». Mas não se arrepende da opção tomada: «Faço o que gosto, do que resulta sentir-me livre.»

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Reportagem Blogtailors: Livraria Cabeçudos

19.02.14
(C) Livraria Cabeçudos 

 

Qualquer semelhança do nome da livraria Cabeçudos com um tipo de figura tradicional de Carnaval é pura coincidência. Segundo Rui Andrade, responsável pelo projeto, o nome surgiu de modo inusitado, quando um dia, em casa, juntamente com a esposa, ambos ouviram Abel Xavier na televisão pronunciar a palavra «cabeçudos». Tendo a palavra surgido na mesma altura em que procuravam um nome para a livraria, aproveitaram-na para a designação do espaço. «Os meus pais disseram que podia não resultar», acrescenta, sorridente. No entanto, até ao momento, tem feito sucesso.

 

Criada em novembro de 2010, situando-se na altura no Parque das Nações, há pouco mais de um ano que a Cabeçudos se mudou para a sua nova localização, no Lumiar, perto do parque Quinta das Conchas.

 

Não se limitando a ser uma livraria, este é, contudo, um projeto que nasce, acima de tudo, de uma vontade de promover a leitura, pois nenhum dos fundadores da Cabeçudos possuía uma ligação à literatura infantil ou a atividades ligadas a crianças. «Nem me considero um livreiro», declara Rui Andrade, declarando ser «apenas um promotor de leitura, das leituras.»

 

(C) Livraria Cabeçudos

 

Assim, na Cabeçudos há livros, mas não só. «Decidimos que iríamos ter livros e brinquedos na loja, e desde o primeiro dia que houve atividades», explica. Ainda assim, o maior atrativo da loja são os livros, que «estão a ultrapassar os brinquedos».

 

E os brinquedos, como são? «Trata-se de brinquedos bons de tocar e que abrem alternativas aos miúdos, que não têm um uso formatado. São casas de bonecas, famílias que não são barbies, puzzles e outros brinquedos feitos a partir de materiais recicláveis», explica Rui Andrade.

 

Em relação às atividades que, desde o primeiro dia, ocupam o espaço fora das estantes da Cabeçudos, estas incluem o «Conta-me Histórias…», oficinas diversas, como de storytelling ou de artes plásticas, de origami ou de Filosofia para Crianças; no âmbito desta última, determinados temas, como o tempo, são explicados aos mais pequenos de forma simples, mas levando-os a pensar mais.

 

Rui Andrade afirma que o objetivo é fazer com que a Cabeçudos «seja uma experiência para os miúdos, havendo ou não atividades». Mas as atividades desenvolvidas no espaço são tão atrativas que «há mesmo adultos que querem participar nelas sem crianças».

 

(C) Livraria Cabeçudos

 

Mas são, sem dúvida, as crianças, os principais «clientes» da Cabeçudos. E constituem, de facto, o público-alvo. «Adoram o espaço, sentem-se em casa», declara o responsável. Nas férias de verão, altura do ano em que as crianças têm mais tempo livre, organizaram residências literárias para os pequenos, em que estes trabalhavam diversos livros, criando a partir destes.

 

A livraria também disponibiliza livros e atividades direcionadas para adolescentes. «Tentamos trazê-los cá e já realizámos muitas atividades para esta faixa etária», explica. Além disso, uma vez por mês há ainda um momento para os mais crescidos, com uma sessão de «Conta-me Histórias…» para adultos.

 

O que distingue a Cabeçudos de todas as outras livrarias infantis que possam existir é a sua versão móvel, a livraria itinerante. E como surgiu? Rui Andrade explica que «deriva da necessidade de levar livros às pessoas» e também, precisamente, da importância da diferenciação. Além de que «é um meio giro de se chegar [a um lugar]», acrescenta.

 

Inaugurada em fevereiro de 2013, no Liceu Pedro Nunes («porque é difícil chegar aos maiores»), a Cabeçudos itinerante tem percorrido, desde então, muitos quilómetros, transportando no seu interior uma seleção do melhor da literatura infantojuvenil disponível em Portugal. Estiveram em Mora e em Avis, mas nos últimos meses têm visitado localidades mais próximas de Lisboa. Em Mora, visitaram todas as aldeias do concelho. «De dia, estávamos junto às escolas, e à noite, no largo da vila», onde as pessoas se juntavam. Contudo, para locais com menor população, ou com menor poder de compra, têm de se levar autores com a livraria; «tem de haver algo mais que ultrapasse a mera relação comercial», explica o responsável.

 

(C) Livraria Cabeçudos

 

Ainda assim, independentemente da localidade que visitem, a receção é animada. «É muito giro. Os miúdos ficam todos entusiasmados», declara Rui Andrade, embora reconheça que depende também «da preparação [para a visita] dos professores e da escola». E é a Cabeçudos que apresenta propostas e decide aonde ir, ou são as escolas que contactam a livraria? «É um misto. As escolas contactam-nos, e o processo parte também deles. Em algumas há preparação, noutras não», explica. Depois, claro, «há picos de contactos», como a Semana da Leitura, que «é necessário gerir», mas os pedidos para que a Cabeçudos visite uma escola ou uma localidade são cada vez mais frequentes.

 

A Cabeçudos situa-se na rua António Lopes Ribeiro, 7-A, encontra-se aberta de segunda a domingo, das 10.00 às 19.00.

 

Para todos os formandos que se inscrevam num Curso de Formação Booktailors, a Cabeçudos dispõe ainda de uma parceria com a Booktailors – Consultores Editoriais, oferecendo um desconto de 10 por cento numa compra realizada na livraria.

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Reportagem Blogtailors: Livraria BD Mania

27.11.13

 

A BD Mania existe há cerca de 15 anos, mas nas suas quase duas décadas de existência, conheceu diferentes moradas. Depois de uma passagem de quase dois anos pela rua Gomes Freire, e de alguns anos em Cascais, na época com outra designação, acabou por se fixar permanentemente na rua das Flores, no número 71, em Lisboa, entre o largo Camões e o Cais do Sodré. No anterior edifício, o facto de se situar no 2.º piso era pouco prático, e daí nasceu a decisão de se mudar o espaço para a loja na Baixa de Lisboa.

 

Como o próprio nome indica, a BD Mania dedica-se a um género específico, a banda desenhada. Contudo, não se dirige apenas aos fãs do género, tendo as portas abertas a conhecedores ávidos e a leitores iniciantes. De facto, nem só de livros se faz a BD Mania. Além dos livros de banda desenhada, a livraria faz ainda a ponte com o merchandising e outros produtos associados ao género.

 

Mas falar de banda desenhada é falar de um género muito abrangente e é aqui que a BD Mania se destaca, vendendo essencialmente comics das principais editoras americanas, incluindo as duas maiores: Marvel Comics e DC Comics. Há espaço ainda para novelas gráficas e manga, mas a banda desenhada franco-belga, a título de exemplo, não entra nas escolhas de compras da livraria, até porque não se inclui no perfil da livraria e nos gostos dos seus associados.

 

 

Pedro Silva e Paulo Costa são os sócios da livraria, mas a acompanhar o projeto há alguns anos estão ainda Nuno Rodrigues e Vasco Lopes, que habitualmente assumem as funções de livreiros.

 

Vasco Lopes, com quem falámos, conta inclusivamente que acabou a trabalhar na BD Mania graças à sua paixão pelo género, tendo sido, durante algum tempo, cliente da livraria. Sobre o aconselhamento aos compradores, afirma que existe uma «política de honestidade». «Ninguém recomenda o que não gosta, ou que sabe ser de má qualidade», afirma. «É melhor não vender e ter um cliente fiel», justifica.

 

E é neste aspecto que a BD Mania se destaca particularmente: o conhecimento especializado e o cruzamento das preferências de quatro pessoas permitem-lhes fazer recomendações: todos os membros do projeto têm gostos diferentes, e essa é uma grande vantagem. Mas, naturalmente, quando a pessoa tem um género preferido, é fácil recomendar uma novidade. «Difícil é no Natal, quando as pessoas querem comprar um livro de banda desenhada para oferecer, mas não sabem qual o género de que a pessoa gosta», declara Vasco Lopes.

 

 

 

Tratando-se de uma livraria especializada, há um conjunto de clientes regulares, de diferentes faixas etárias, que a frequentam porque sabem que ali podem encontrar as últimas novidades editoriais do género. A livraria vende, com efeito, tudo o que as duas grandes editoras americanas — Marvel e DC — têm em catálogo, embora nas prateleiras da loja não se encontre tudo o que têm, porque se trata de encomendas mensais e seria impossível expor tudo nas paredes da livraria. A restante seleção de títulos, provenientes de outras editoras, é feita servindo-se do saber-fazer adquirido ao longo dos anos.

 

Apesar de se poder considerar um negócio de nicho, também a BD Mania tem sentido algumas diferenças com a crise. Os colecionadores, por exemplo, não compram tanto. Mas, para estes, o problema prende-se não só com a crise económica mas também com a falta de espaço para arrumar os livros em casa.

 

 

Questionado sobre o impacto que as adaptações cinematográficas recentes de algumas séries de banda desenhada americanas, como «Batman» ou «Os Vingadores», Vasco Lopes reconhece que alguns títulos tiveram mais saída. No entanto, os espectadores dos filmes não procuram muito os livros. As vendas de livros sobem apenas «em caso de desconhecimento», isto é, quando se trata de séries menos populares, como foram os casos de «Sin City» ou «Watchmen». Os livros do Batman são dos que mais vendem na livraria, mas, segundo Vasco Lopes, isso não se deverá tanto aos filmes, mas à qualidade dos autores/ilustradores dos livros. E dá outro exemplo: a novela gráfica Persepolis, de Marjane Satrapi, muito antes de chegar aos cinemas era já um sucesso de vendas. E esse facto deveu-se essencialmente ao passa-palavra.

 

Aproveitanto a passagem pela livraria, pedimos algumas recomendações, dicas para um leitor que desejasse iniciar-se na leitura de banda desenhada. Graças à sua elevada qualidade, foram-nos aconselhadas três séries: «Fatale», «All-New X-Men» e «Saga». Todas muito bem escritas. E bem desenhadas, claro.

 

A BD Mania situa-se na rua das Flores, 71, encontra-se aberta de segunda a sábado, das 10.30 às 19.30.

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Nova campanha de descontos. Novidades 2013: [Lisboa] Escrevi um livro. E agora?.

Reportagem Blogtailors: Festival IN

15.11.13
© GDA

Imagine-se um mundo em que a música é como a água, isto é, um cenário em que todos tenham acesso a este produto cultural como a um bem essencial. Uma sociedade em que todos contribuem com o pagamento de uma taxa, mas em que todos «abrem a torneira» e têm música disponível para consumir. A imagem, dada como um exemplo idílico de sustentabilidade dos músicos e profissionais da área, é de Paulo Junqueiro, diretor-geral da Sony Music Portugal, um dos convidados do debate «O rendimento dos Artistas em tempos de crise: que oportunidades?», promovido pela Gestão dos Direitos dos Artistas (GDA).

 

Este foi apenas um dos eventos que abriu ontem o Festival IN — Inovação & Criatividade, a decorrer na Feira Internacional de Lisboa (FIL) até ao próximo domingo, dia 17. Organizado pela Fundação AIP (Associação Industrial Portuguesa), o festival surge de uma necessidade «consciente» de a fundação cumprir o seu compromisso «para com as empresas e os empreendedores portugueses», criando este evento «para que pessoas de diversos quadrantes tenham um espaço de aprendizagem, interação, networking e partilha de experiências», declarou a diretora da Área de Feiras da FIL, Fátima Vila Maior, em entrevista ao Blogtailors (leia a entrevista completa aqui).

 

Vivem-se tempos «muito complexos», como lhes chamam os participantes no debate, e a transformação profunda das indústrias culturais é uma das grandes evidências dessa complexidade. O certo é que esta imagem de um produto cultural como algo essencial, ainda que aplicada à indústria da música, leva a um dos objetivos globais das discussões que decorrem um pouco por todo o lado no Festival IN: onde estará a sustentabilidade económica das indústrias culturais? Num mundo absolutamente transformado pela tecnologia, no qual grande parte dos produtos culturais é consumida gratuitamente, ou, por outro lado, todos os lucros convergem em grandes grupos económicos?

 

© World Press Cartoon

 

João Paulo Feliciano, músico, explica que a revolução tecnológica operou alterações profundas na natureza dos canais de comunicação entre quem produz (a indústria) e quem recebe (o mercado): o canal deixa de ser o meio e passa a ser o produto. O que procuram entidades tão diferentes como todas as start up, empresas já estabelecidas, museus locais e nacionais, o Grupo Lobo (em defesa do Lobo Ibérico) ou a candidatura do Cante Alentejano a Património da Humanidade ao estarem presentes no Festival IN? Um novo canal de comunicação com o público, possivelmente.

 

Analisando o panorama global das entidades presentes no festival, a questão parece passar pela evocação do património, do passado, tentando sempre conjugá-lo com um futuro que passa pela tecnologia, pela reinvenção — através do design, por exemplo. Num mundo em que, na última década, a uniformização dos produtos culturais consumidos atingiu o seu auge, obter destaque no meio deste panorama é cada vez mais difícil. «Com a desmaterialização [dos produtos culturais], não conseguimos dar valor ao trabalho que está por detrás de cada música», assumiu Pedro Wallenstein, presidente da GDA, no debate — e, como na música, em todos os outros produtos.

 

Entre exposições de fotografia, pintura, design de mobiliário ou design gráfico, de manga ou do World Press Cartoon, entre plateux de discussão sobre as diversas artes, sobre criatividade, empreendedorismo cultural ou indústrias criativas, no Festival IN, «a maior mostra dinâmica das várias actividades criativas e os seus players realizada em Portugal», quem visitar a FIL até domingo pode encontrar-se com uma amostra dos setores da indústria portuguesa que têm na criatividade e inovação o «elemento diferenciador da sua atividade».

Reportagem Blogtailors: Conferência Os Livros e a Leitura: Desafios da Era Digital

05.11.13

 

Dia 28 de outubro, a Fundação Calouste Gulbenkian recebeu a conferência Os Livros e a Leitura: Desafios da Era Digital, na qual foram apresentados os principais resultados do estudo sobre o impacto futuro da leitura digital, financiado pela Fundação e coordenado pelo professor Gustavo Cardoso, investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL.

 

A abrir as sessões da tarde, foi apresentada a confência O Futuro do Livro, proferida pelo sociólogo John Thompson. Nesta, o professor da Universidade de Cambridge fez um ponto de situação da atual indústria do livro, partindo de uma análise dos mercados norte-americano e britânico.

 

Expondo o atual cenário e as principais forças dominadoras do mundo da edição, John Thompson apresentou um conjunto de mudanças que se poderão esperar, a curto prazo, nesta indústria. Sem grandes surpresas, num futuro próximo, deverão esperar-se transformações, como um crescimento ainda maior da Amazon e concomitantemente um desaparecimento das livrarias físicas. A concentração dos grandes grupos editoriais será ainda maior, e fusões como a Penguin Random House serão naturais. Consequentemente, será de esperar uma pressão crescente da parte dos acionistas dos grandes grupos, no sentido de potenciar os lucros, reduzindo custos.

 

A disputa por maior visibilidade junto dos leitores será cada vez mais acesa, e as editoras poderão ver-se pressionadas por plataformas distribuidoras de conteúdos, como a Amazon, a baixar ainda mais os preços. Surgirá, também, um maior número de pequenas editoras e start-ups, e aumentarão as ameaças de desintermediarização, privilegiando-se as relações diretas com o consumidor.

 

O segundo painel da tarde foi dedicado à apresentação dos resultados do estudo financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre a Leitura Digital e a Transformação do Incentivo à Leitura e das Instituições do Livro. Estiveram presentes na mesa Gustavo Cardoso (ISCTE-IUL) e Carla Ganito (Universidade Católica Portuguesa), responsáveis pelo estudo, a par de Luis Gonzalez Martin e José Afonso Furtado, consultores do projeto de investigação.

 

O estudo, que analisa a evolução da leitura digital, tanto de livros como de outros conteúdos, ainda que disponha de um enfoque especial na realidade portuguesa, reúne ainda dados de 16 países, entre os quais se encontram a China, a Austrália, a Espanha, a África do Sul e o Brasil.

 

De acordo com os resultados apresentados, há mais pessoas a ler e, de facto, lê-se mais. Contudo, no conjunto de países denominado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), embora se leiam livros digitais, lêem-se mais livros impressos do que nos Estados Unidos e nos países europeus.

 

Ainda assim, do total dos inquiridos, 58 por cento declara já ter lido um livro em formato digital. Saliente-se, no entanto, que a população do estudo consiste apenas de utilizadores da Internet, uma vez que a leitura digital surge diretamente associada a esta.

 

E, de facto, é através do descarregamento gratuito, de repositórios, que são oriundos a maioria dos livros digitais lidos pelos inquiridos, correspondendo a uma percentagem duplamente superior à compra. Em segundo lugar, surgem os livros em formato de imagem, como os do Google Books, seguindo-se a compra, em terceiro lugar, e o empréstimo, em último. Ainda assim, no grupo de países inquiridos há uma exceção: enquanto, de modo geral, as compras de livros digitais são residuais, no Reino Unido, o volume destas é significativa. E, no que respeita aos géneros mais lidos no suporte digital, a ficção domina.

 

Uma ideia que parece confirmada pelo estudo, ainda que não se trate de uma verdade absoluta, é que, quantos mais livros em papel o leitor lê, maior é a probabilidade de ler livros em formato digital.

 

Sobre o empréstimo digital em bibliotecas, este é ainda muito pouco expressivo em Portugal e nos países incluídos no estudo. Como razões apontadas para isto, os utilizadores referem o «inconveniente» e o desconhecimento de que tal pudesse ser feito.

 

Portugal segue o padrão global, mas é de referir que, no caso nacional, o desconhecimento das valências digitais e o domínio das práticas não digitais em contexto de biblioteca são mais prevalentes. Contudo, embora o papel seja ainda importante para as bibliotecas, é importante criar novas soluções, integrando os velhos serviços disponibilizados pelas bibliotecas.

 

Por sua vez, José Afonso Furtado, consultor do projeto, na sua intervenção alertou para o desaparecimento do objeto livro, cujas páginas se transferem para o écrã, alterando consequentemente a própria forma de leitura, que implica alterações no tempo de leitura e de concentração.

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Reportagem Blogtailors: Livraria Ferin

30.10.13

 

Na semana em que regressa o Ensaio Geral na Ferin, o Blogtailors visita a livraria que todas as primeiras sextas-feiras de cada mês recebe o programa da Rádio Renascença e os seus convidados, para uma conversa com o público presente.

 

Alguns turistas entram na Livraria Ferin. Passeiam os olhos não só pelos livros mas também pela livraria, como que se apercebendo de que o sítio testemunhou a passagem dos tempos e merece ser visitado, não como outra loja de comércio. A um canto, o livreiro João Paulo Dias Pinheiro conversa longamente com um vendedor, a quem pede livros específicos, discutindo cada pormenor.

 

A Livraria Ferin, que se situa na rua Nova do Almada, ao Chiado, é talvez uma das mais antigas lojas em funcionamento no coração da cidade de Lisboa. E é certamente a casa que há mais anos preserva o negócio livreiro na família. «Livraria Ferin: desde 1840» não é apenas um lema. É «um aspeto de solidez, confiança, de gente que há muitos anos está nisto», entende João Paulo Dias Pinheiro, porque «quando a livraria se mantém estes anos todos, é por amor aos livros, à profissão».

 

Na Ferin, os livros ainda são tratados como objeto de dimensão elevada e de paixão, recebendo por isso os melhores cuidados. Os livros em exposição estão envoltos por um elástico que os cuida e impede que a capa fique enrugada, cuidado que só poderia ser tido por um livreiro que ame os seus livros. A livraria cheira a madeira encerada, odor que emana das prateleiras de madeira escura e que instintivamente nos situa num sítio antigo e respeitável.

 

 

«A livraria tem este ar antigo e pesado, mas pode interessar a uma camada a partir dos 18-20 anos», crê João Paulo Dias Pinheiro, que receia um afastamento do público mais jovem do seu estabelecimento tão antigo, dada a proximidade da FNAC do Chiado. Os clientes fiéis, esses, tem-nos, sendo que muitos deles foram ou são figuras conhecidas da vida intelectual portuguesa (não utiliza o termo «ilustres»: «ilustres são todos os clientes»). E começamos uma viagem pela memória da livraria nos relatos de João Paulo Pinheiro.

 

Mouzinho de Albuquerque, militar e governador colonial português, cuja ação foi determinante para a ocupação portuguesa de parte do território moçambicano, viria a suicidar-se a 8 de janeiro de 1902, em Lisboa. Mas antes disso terá passado pela Livraria Ferin para liquidar todas as suas contas e levantar algumas encadernações. Eça de Queirós citou a livraria várias vezes na obra A Capital. Já na atualidade, podem referir-se alguns nomes como Dom Duarte de Bragança, Maria Barroso, José Pacheco Pereira, António Pedro Vasconcelos, entre outros. O próprio José Saramago terá frequentado a livraria. João Paulo Dias Pinheiro fala com especial amizade das muitas vezes que terá atendido Sophia de Mello Breyner: «vinha sempre ao fim do dia, quando estava quase a fechar a porta. Ficávamos a conversar», lembra. Enquanto decorre a entrevista a João Paulo, o poeta Nuno Júdice também entra na livraria.

 

 

Entre vendas e leilões, João Paulo Dias Pinheiro vai tentando angariar algumas relíquias que contam o passado da Ferin. Entre estes livros-relíquia, que não estão disponíveis para venda, encontram-se entre outros uma edição da tradução portuguesa de Hamlet, de Shakespeare, da autoria do rei D. Luís e assinada pelo próprio, com encadernação dourada por folhas, feita na livraria. Possui ainda outro exemplar do mesmo livro, com uma encadernação diferente, também executada na Ferin. João Paulo Dias Pinheiro guarda ainda a Medalha de Ouro arrecadada pela livraria na Exposição Universal Internacional de Paris, em 1900, e uma outra, de prata e mais antiga, conseguida na Exposição Internacional do Porto, em 1865.

 

No coração da cidade e das transformações

Localizada a uns escassos metros da Câmara Municipal de Lisboa, no coração da capital, que é tantas vezes o palco de revoluções e mudanças políticas, a livraria chegou mesmo a ter proteções de ferro que a resguardaram das arruaças na Primeira República, por exemplo. Felizmente, esses utensílios não têm utilidade desde esses tempos, mas outras ameaças à livraria surgiram. O incêndio que deflagrou no Chiado em 1988 obrigou à construção de um guarda-vento na entrada da livraria. «Ao fim do dia, a cinza e a fuligem deixavam os balcões e os livros todos negros», lembra João Paulo Dias Pinheiro.

 

Nota-se, em João Paulo, um saudosismo de outros tempos, desses tempos que já só a livraria pode recordar: «saiu da rotina o vir folhear uns livros para a livraria», lamenta o livreiro. O passado da Ferin relembra uma vida intelectual ativa na cidade de Lisboa, que despontava na livraria, na qual acabavam por acontecer encontros e tertúlias com várias personalidades proeminentes da época. «A tertúlia, antigamente, era uma coisa espontânea, informal. Hoje, serve para travar a desertificação e trazer as pessoas às livrarias», explica. Tempos em que a avidez de conhecimento era satisfeita na livraria, não na Internet.

 

João Paulo Dias Pinheiro conta: «há uns anos já largos, quando cheguei a Frankfurt [à Feira do Livro], [os novos suportes de leitura do livro] já ocupavam um pavilhão». O livreiro tem o Natal de 2009 como o ponto de viragem do mercado, quando as vendas de livros digitais da Amazon superaram as vendas em papel. Mas é veemente quando afirma a sua convicção de que «o livro nunca acabará», garantindo que «neste momento ainda se vende muito livro em papel», e que o futuro terá que se resumir num balanço entre os dois meios. Quanto a João Paulo Dias Pinheiro, o livreiro de 55 anos, 39 dos quais ao serviço da livraria, em que lado se situa? Não hesita: «sou um livreiro do papel». Para ele, é isso que o livro é.

 

Uma livraria que é um membro da família

João Paulo Dias Pinheiro é um dos membros da sexta geração da família Ferin em Portugal. Tal dado pareceria despropositado, não fosse o facto de a Livraria Ferin ver na genealogia heráldica uma das suas especializações, além do evidente orgulho do livreiro na antiguidade e história da família. A livraria foi fundada pela sua quinta-avó, o que significa que o negócio foi passando, de geração em geração, até à sexta geração de Ferins. João Paulo vê a livraria «como parte integrante da família».

 

A primeira geração de Ferins livreiros inicia-se com duas irmãs de ascendência francesa. Maria Teresa casou-se, em 1837, com o belga Pedro Langlet, mercador de livros em Lisboa que possuía uma livraria no Cais do Sodré, tendo depois passado a sua livraria para a Ferin. Gertrudes Clara, que tinha um gabinete de leitura na Rua Nova do Carmo, casou-se, em 1840, com um encadernador, Manuel Robin, que era proprietário de uma oficina de encadernação na rua da Horta Seca. Manuel Robin também transferiu para a livraria a encadernação. Neste tempo, a livraria ganhou notoriedade como encadernadora e foi nomeada por D. Pedro V, em 1861, encadernadora das reais bibliotecas, o que lhe conferia o direito de usar as armas reais.

 

 

João Paulo Dias Pinheiro define a Ferin como uma «livraria internacional», no sentido em que a livraria não tem livros apenas em português. A origem francófona dos primeiros livreiros Ferin, assim como o facto de, no século XIX, grande parte das ideias da cultura europeia serem importadas de França, criou a tradição do livro francófono no estabelecimento, que ainda hoje é mantida. Livros de História e biografia política, em francês, são os que predominam nesta vertente, além dos livros sobre arte e dos que são importados não só de França mas também de Inglaterra, Itália e Espanha. No entanto, a facilidade com que atualmente se encomendam livros do estrangeiro veio tirar mercado à livraria. Mas João Paulo Dias Pinheiro ressalva que «há clientes que preferem vir aqui adquirir os seus livros».

 

Em português, os livros que podem encontrar-se na Ferin estão sobretudo relacionados com História e atualidade política, em simultâneo com livros sobre temas como as artes. «Temos clientela fidelizada e apanhamos nichos de mercado», explica João Paulo Pinheiro. «Procuramos ter livros que sejam menos comuns e que não se encontrem com facilidade noutras livrarias».

 

 

Aquilo que o livreiro mais lamenta é o tempo reduzido para apreciar e fazer a escolha dos livros e a consequente alteração na relação com os editores e fornecedores. «A livraria tem o reconhecimento dos editores porque está no mercado há estes anos todos. Os próprios vendedores reconhecem uma diferenciação, reconhecimento também da atenção que lhes dou. Esta relação é importante», admite. No entanto, «os editores recorrem muito mais aos e-mails e PDF», algo que leva João Paulo Dias Pinheiro a afirmar que já gostou mais de ser livreiro, noutros tempos. «Passamos a ter menos tempo para fazer aquilo de que gostamos: dar uma vista de olhos pelos livros, falar com os clientes». E observa ainda o «receio» que se sente na edição, «não só em Portugal mas também na Europa», fruto de uma crise geral.

 

No caso de Lisboa, que tem vindo a assistir ao encerramento de várias livrarias históricas como a Livraria Portugal, a Sá da Costa e a Citação, João Paulo crê que «não poderá ser má gestão» a causa dos encerramentos, pois o cenário não se limita a Lisboa, nem ao país, mas estende-se à Europa. Como forma de se afirmar no mercado, a Livraria Ferin associou-se ao grupo Princípia em 2011, garantindo João Paulo Pinheiro que a Ferin mantém a sua independência como livraria, vendo esta relação como uma convergência de esforços «para desenvolver as duas empresas».

 

Os eventos promovidos pela Livraria Ferin

Como forma de travar a desertificação da livraria, a Ferin promove vários eventos no piso inferior dos números 70 a 74 da rua Nova do Almada. Além do programa Ensaio Geral, que é realizado em parceria com a Booktailors e é emitido uma vez por mês na Rádio Renascença, criou três tertúlias quinzenais (uma diplomática, outra sobre pensamento e política e uma terceira sobre a reforma do Estado), organizadas pelo eurodeputado José Ribeiro e Castro, para as quais são convidadas personalidades da área — embaixadores estrangeiros em Portugal, por exemplo. A Ferin deseja ainda, para breve, inaugurar novas tertúlias sobre diversos temas — poesia, História, artes, entre outros. A sua vontade é «recuperar o espírito antigo e pôr a livraria na rota do quotidiano das pessoas». Um projeto antigo para a criação de um café, de apoio à presença dos clientes e que seja um ponto de encontro, também não está esquecido. João Paulo Dias Pinheiro lembra ainda que a sala da livraria está «à disposição das editoras e dos autores» para eventos.

 

Os tempos de crise que chegam às livrarias levam João Paulo Dias Pinheiro a ser assertivo: ser livreiro «é uma profissão apaixonante, mas em termos económicos não é o que as pessoas ambicionam». Apesar de tudo, tem transmitido às outras gerações da família o gosto pelos livros. «Procuro, sempre que há eventos, trazer os meus filhos para aqui», declara.

 

Como livreiro, um dos seus objetivos passa por «transmitir esta paixão pelos livros», e aponta a partilha com os clientes da Ferin como «a parte mais rica da profissão». Orgulha-se de pequenas recompensas que recebe pelo seu trabalho, como o facto de perceber que os turistas estrangeiros gostam de visitar a livraria. Pontualmente, faz até visitas guiadas. Já teve um pedido de um grupo de 20 franceses, por exemplo, e este é um ótimo sinal para o livreiro, que pretende manter a Livraria Ferin nas rotas de portugueses e estrangeiros. É como visitar um ponto histórico da cidade — mas não um museu, realça João Paulo Dias Pinheiro.

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Reportagem Blogtailors: Fabula Urbis

02.10.13

 

Quase no final da entrevista com Maria do Carmo Gregório, a proprietária da livraria, galeria e editora Fabula Urbis, chega a curiosidade em que se poderia basear a existência da livraria: «Lisboa é a única cidade que tem o nome associado a um ramo da história, a olisipografia, cuja melhor definição será “a descrição da cidade”.» A única cidade do mundo, garante Maria do Carmo Gregório, 53 anos, há seis e meio na única livraria especializada no tema «Lisboa».

 

Não obstante ser um critério poderoso, esta não é a única razão que está na base do nascimento da Fabula Urbis. «Desde o início, [a Fabula Urbis] pretendeu ser uma livraria com duas vertentes: livros em português e nas várias línguas que conseguíssemos encontrar [sobre Lisboa]; livros de autores portugueses que têm relação com a cidade ou autores estrangeiros que escreveram sobre a cidade.» E é Lisboa uma cidade mais literária do que outras pelo mundo? «É bastante literária», assegura Maria do Carmo. «Há muitos autores. Isso justifica de alguma forma o conceito da livraria», explica. «Tentamos ter tudo sobre Lisboa», lembra, e acrescenta: «não temos best-sellers. A nossa lógica de funcionamento é outra».

 

Não sendo só uma cidade com muitos autores mas também estudada no estrangeiro, Lisboa é rica em lendas e memórias, que acabam por ser baluartes de uma certa mística e da sua história. Situada na rua de Augusto Rosa, n.º 27 — melhor será dizer: atrás da Sé de Lisboa —, facilmente avistará a livraria se seguir a linha do elétrico para o Castelo de São Jorge (ou tram way, como explica Maria do Carmo aos turistas que passam, a pedir informações). Estas lendas de Lisboa emprestam também significado à livraria, que tem dois corvos como símbolo, o animal presente nas armas da cidade e que simboliza lealdade e proteção.

 

 

Sediados em pleno centro histórico de Lisboa, a proprietária afirma que, «para uma livraria com este caráter, o sítio era aqui». Ainda que reconhecendo que «no Chiado venderia mais», Maria do Carmo explica: «para nós, que temos uma relação com a história, aqui faria mais sentido. Foi o espaço», que foi antes uma marcenaria e que decidiram recuperar.

 

O nome em latim escapa-se a traduções. Inicialmente, teria sido Res Urbis, mas uma empresa já tinha adotado o nome. Optaram por fabula, «uma palavra polissémica: pode significar “história”, “histórias”, “histórias sobre a cidade”», explica a proprietária.

 

Lisboa que está no mundo, que está na Fabula

Amigos e vizinhos passam pela livraria ao longo do dia: alguns apenas para dizer boa tarde. Outros para conversar, perguntar se está tudo bem, ou mandar cumprimentos.

 

Maria do Carmo e o marido/sócio, João Pimentel, têm outras profissões. São funcionários públicos. Num olhar mais atento, podemos ver a tese de doutoramento de Maria do Carmo, em francês, numa das estantes. João Pimentel é professor de História e músico, o que justifica de alguma forma o crescimento da prateleira dos livros sobre música, além do fado. Referimos a sua formação porque esta não será alheia ao facto de terem criado uma livraria sobre história de Lisboa: ambos são conhecedores do tema. «Achámos que, criando a livraria, teríamos um sítio onde disponibilizar os nossos livros; afinal, agora é a nossa casa que serve de armazém», conta Maria do Carmo.

 


 

Algo que rapidamente apreendemos é que Maria do Carmo e o marido falam várias línguas, conhecem várias culturas, e que a sua livraria é uma forma de divulgar Portugal lá fora. O segredo: um atendimento personalizado e a disponibilidade para um pedido de ajuda de um cliente. Este atendimento granjeia à Fabula Urbis compradores e amigos de todo o mundo, sendo que a maioria são mesmo estrangeiros — um turista «culto, que faz um turismo cultural», caracteriza a proprietária, ou «clientes que são investigadores e trabalham temáticas portuguesas». Entre os temas mais procurados estão o período das Descobertas, livros sobre os escravos, sobre o colonialismo, a presença de judeus, ou outros menos frequentes, como a presença de irlandeses em Lisboa. Investigadores australianos, norte-americanos e franceses são apenas algumas das nacionalidades dos que mais recentemente recorreram aos serviços da loja, procurando livros que versam desde o estudo da língua à gastronomia. «Estabelece-se uma relação com os clientes», e por vezes há até «uma troca de e-mails a posteriori».

 

Neste âmbito, Maria do Carmo faz ainda referência ao sítio Bookstore Guide — An amateur guide to bookshoping throughout Europe, onde a Bertrand do Chiado e a Fabula Urbis são as únicas livrarias portuguesas referidas (ver aqui). No sítio, pode ler-se: «Fabula Urbis is not simply a bookshop, exquisite as it is. It is a meeting place of the arts and a place where stangers meet. Fabula Urbis is quite simply in a class of its own – sui generis!»

 

Os livros e as atividades

Quanto aos autores mais vendidos, não restam quaisquer dúvidas a Maria do Carmo: Fernando Pessoa lidera a lista, especialmente com o livro O Que o Turista Deve Ver. Pessoa é também o mais traduzido: castelhano, francês, inglês, holandês, alemão, italiano e catalão são as línguas disponíveis na livraria. Facto curioso é o de que quase todas as traduções existentes na loja são feitas no estrangeiro. Podem também ver-se nas prateleiras traduções de Eça de Queirós ou Mário de Sá-Carneiro para o francês, que é o idioma mais procurado e também o que oferece mais traduções, observa Maria do Carmo. Na hora de eleger a editora mais representada, a livreira também não tem dúvidas: a Livros Horizonte, porque tem muitos títulos sobre Lisboa. Existem alguns livros de que só têm um exemplar; outros que, ainda que em segunda mão, servem o seu propósito de livraria especializada. Acima de tudo, os proprietários tentam «ser exclusivos e ter coisas diferentes que as pessoas não encontram noutros sítios». Para os mais curiosos, o livro mais antigo disponível na livraria é A Ribeira de Lisboa, de Júlio de Castilho, e data de 1893; o livro mais caro pertence ao mesmo autor e custa 200 euros, Lisboa Antiga; o livro mais curioso é Lisboa em 1551. Sumário, de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, e é de 1987, publicado pela Livros Horizonte.

 

 

Além da sala térrea com livros, a Fabula Urbis tem ainda um 1.º andar, no qual os proprietários dinamizam atividades variadas: desde conferências com autores estrangeiros que escreveram sobre Lisboa, a apresentações de livros, recitais de música e reuniões frequentes da Comunidade de Leitores, que é aberta a potenciais interessados e se reúne mensalmente, sendo também «bastante variável: dependendo do livro, da presença ou não do autor [alguns já morreram], mas quase todos [os autores] vêm. Já cá estiveram Mário de Carvalho, Baptista-Bastos, Rui Cardoso Martins, por exemplo». Esta comunidade está inclusive intimamente ligada ao Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Faculdade de Ciências Socias e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nomeadamente ao projeto Atlas das Paisagens Literárias de Portugal.

Em 2011, a Fabula Urbis foi também responsável pela 1.ª Feira do Livro de Artista de Lisboa, um conceito criado pela livraria e que já foi replicado na Costa Rica, em 2012, e em São Francisco, já em 2013. O responsável desta última réplica foi Rolando Castellon, artista, antigo curador do Museu de Arte Moderna de São Francisco, na Califórnia, e amigo do casal de livreiros. A ideia de criar esta feira surgiu precisamente do facto de conhecerem muitos artistas plásticos. Maria do Carmo descreve o livro de artista como «um objeto que está entre a literatura e as artes plásticas», que «pode ser único ou não, mas é sempre uma edição artesanal ou de curta tiragem». «Dentro de um ou dois anos, contamos organizar a próxima feira», revela a livreira.

 

«Pode indicar-me uma livraria especializada em Lisboa?»

Foi a pergunta que Maria do Carmo, à experiência, resolveu perguntar num posto de turismo da cidade. «A Fnac» terá sido a resposta do outro lado. Maria do Carmo terá insistido: «Não, essa é uma livraria generalista.» No entanto, mesmo depois de se apresentar e pedir para que a sua livraria constasse das referências do Turismo de Lisboa, nada mudou. «Em França, o Estado apoia as livrarias independentes.» Além disso, a livreira diz prestar «um serviço à cidade. Serviço público. Todo o dia, turistas passam, e eu indico-lhes o caminho», exemplifica.

 

Questionada sobre o panorama que se apresenta às livrarias independentes, Maria do Carmo é assertiva. «As livrarias encerram por falta de clientes. Não adianta fazer manifestações à porta da livraria quando ela vai encerrar no dia seguinte. As pessoas que se preocupam com a cultura deviam ir às livrarias, especialmente as independentes. Os clientes devem privilegiar as livrarias em detrimento das grandes superfícies.» A proprietária confessa: se não tivesse outra profissão, provavelmente já teria fechado a livraria.

 

 

Entretanto, são os clientes estrangeiros que vão visitando e adorando o lugar. Mais uma história da Fabula Urbis, que está cheia delas: uma cliente francesa que passou pela livraria quis oferecer à sua irmã, que iria passar em Lisboa em lua de mel, um conjunto de livros. «Aceitámos a proposta e trocámos vários e-mails, até estabilizar a lista dos livros em função dos interesses dos noivos [...]. Fizemos então um embrulho de oferta com um mapa de Portugal com Lisboa em destaque e aguardámos até ao dia em que apareceu um casal que trazia a indicação para se dirigir à Fabula Urbis, a fim de levantar a sua prenda de casamento. Foi um momento muito emotivo, com registo fotográfico e tudo...»

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Reportagem Blogtailors: O que vamos transportar para o futuro da edição?

24.06.13

 

Quando se fala de edição em Portugal, qual é, de facto, a realidade que se discute? A conclusão é dos profissionais da área: evoca-se nostalgicamente uma realidade passada, tentando encontrar alento para o presente e para construir um futuro não tão negro quanto o que se augura. Para discutir o tema «Edição: passado, presente, que futuro?», oito editores estiveram à conversa na Fundação José Saramago, em Lisboa, no passado dia 20, numa mesa moderada pela jornalista Sara Figueiredo Costa.

Pertencentes a várias gerações de editores, os presentes representam o espectro do negócio,  não só em Portugal mas também em Itália e Espanha. Alguns, que contam à volta de três décadas no setor — Carlos da Veiga Ferreira (Teodolito), João Rodrigues (Sextante), Manuel Alberto Valente (Porto Editora) e Zeferino Coelho (Caminho) —, não conseguem deixar de lembrar o modelo familiar que vigorou até aos anos 80, que permitia um contacto bastante mais estreito com o público. Era também o tempo em que os catálogos eram reflexo das escolhas do seu editor. «Todo o tempo passado era mais interessante, porque a profissão também o era», lembra Carlos da Veiga Ferreira.

 

No entanto, naquele «tempo passado» publicavam-se 3 mil livros por ano; nos nossos dias, 20 mil. A realidade da indústria do livro mudou: tem hoje uma faturação mais elevada do que a indústria automóvel e representa a maior fatia das indústrias culturais (350 milhões de euros por ano). Fatura mesmo mais do que a rádio e a televisão portuguesas em conjunto, como lembrou um membro do público.

 

Os livros são hoje um «produto» cultural inserido na indústria do entretenimento, à semelhança de outros, como o CD. Manuel Alberto Valente trabalhava nas Edições Asa, que, nos anos 90, era ainda independente, quando «a preocupação com o tipo de livro que vende» surge: «Para-se com a [edição de] literatura e começa a aparecer um tipo de “livros-produto”.»

 

Zeferino Coelho é  editor da Caminho, que já faz parte do grande grupo LeYa. O antigo editor de José Saramago justifica as aquisições deste grupo com a expansão do capital financeiro a esta área da atividade económica, e a concentração do negócio da edição como um dos seus resultados. Zeferino Coelho assegura até que este processo se iniciou «tarde» no mercado português «porque é um mercado pequeno».

 

Apesar de não ser «nenhum mal que um livro seja um negócio», como afirma João Rodrigues, fundador da Sextante (adquirida pela Porto Editora), a batalha a travar agora, no mundo do livro, é «pela diversidade». Citando André Schiffrin, João Rodrigues lembra que o editor tem «uma função predominantemente artesanal e que durará sempre». Para o editor, «é muito perigoso que os leitores só possam ler certo tipo de coisas: [certos livros] impingem certo tipo de ambições, impingem respeito por coisas que não devem ser respeitadas», sendo que serão os editores a trabalhar no futuro que vão decidir o que dar a ler ao público.

 

«O que vamos transportar connosco para o outro lado desta fratura?» é a pergunta feita pelo editor da Sextante, que, por acreditar na existência de «bons editores», prevê um pós-crise feliz. Gianluca Foglia, editor da italiana Feltrinelli, concorda e sentencia que «nada voltará ao que era antes na edição. A crise separa um momento histórico de outro». Foglia explica que esta quebra «não é necessariamente má», dependendo do que se faça no setor da edição no presente e no futuro. Para o italiano, o desafio mais profundo é a alteração de todo o paradigma comunicacional, que traz um problema de «reconhecimento e continuidade» para a relação entre o leitor e o autor.

 

Outros mercados


Pilar Reyes, editora da Alfaguara em Espanha, fala de grandes escalas: das 400 milhões de pessoas do mercado de língua espanhola — estando apenas 10 por cento em Espanha. Fala também dos grandes fenómenos de vendas e de como as editoras tentam multiplicá-los, na esperança de conseguir criar uma máquina de grandes lucros. «Reproduzir grandes êxitos de vendas é uma mentira», afirma, pois é apenas «uma procura constante de repetição», porque «é mentira que alguém possa dizer o que quer ler».

 

«O que é que o leitor quer ler?» é a pergunta a que os editores tentam responder — sendo o «leitor» a grande massa —, mas sem êxito, pois a questão parece estar noutro ponto. Êxitos como As Cinquenta Sombras de Grey ou Harry Potter são, para Pilar Reyes, fenómenos que não podem ser repetidos. O revés dá-se neste ponto, para Carlos da Veiga Ferreira: «os grupos começam a perceber que é melhor ter uma zona de qualidade e outra de grandes públicos, que pode embater com a realidade e é incerta».

 

Pilar Reyes é  editora da Alfaguara, em Espanha, país que tem domínios muito maiores do que Portugal no mercado da edição. A história do setor é também peculiar em Espanha. Nos anos 70, ainda no franquismo, o centro da edição em castelhano esteve no México e na Argentina. Com o fim do regime, na década seguinte, Espanha cresceu. A indústria editorial também, iniciando um processo de compra das editoras latino-americanas. Durante muito tempo, leram-se, em Espanha, as traduções argentinas — cenário invertido entretanto com a soberania que Espanha conseguiu neste mercado.

 

«Nos últimos 8 anos, apareceram editoras [independentes] que estão a mover outro circuito  da indústria», diz Pilar Reyes. O cenário é semelhante em Portugal, onde as pequenas editoras começam a lançar os livros para os quais parece não haver espaço nas grandes editoras. Carla Oliveira, criadora da Orfeu Negro (que aposta no ensaio de arte e estética de arte), afirma que a sua editora «tem tido uma boa receção», sendo necessário por vezes «formar públicos». «Há livros em que arrisquei e não fiz um cêntimo. Uns livros sustentam outros», admite Carla Oliveira, para quem o requisito é «não sair da qualidade». A mesma editora afirma que o mercado de livro ilustrado cresceu muito, e é neste meio que se move também Adélia Carvalho, criadora da Tcharan. «Não somos levados pela pressão de mercado. Se calhar, os textos para adultos são», admite.